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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O DE TESE</b></p>     <p><b><i>Da &laquo;pobre vida&raquo; &agrave; Congrega&ccedil;&atilde;o da Serra de Ossa: g&eacute;nese e institucionaliza&ccedil;&atilde;o de uma experi&ecirc;ncia erem&iacute;tica (1366-1510).</i></b><b>  </b></p>     <p><b>Jo&atilde;o Lu&iacute;s Ingl&ecirc;s Fontes<sup>*</sup></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><sup>*</sup>Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Estudos Medievais - FCSH-UNL, 1069-061</p>     <p>Lisboa, Portugal. <i>E-mail</i>: <a href="mailto:joaolfontes@hotmail.com">joaolfontes@hotmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><i>O objecto de estudo</i></b></p>     <p>N&atilde;o &eacute; nova a aten&ccedil;&atilde;o votada ao fen&oacute;meno erem&iacute;tico por parte da historiografia portuguesa. Com efeito, j&aacute; em 1972, na sequ&ecirc;ncia do conhecido Congresso sobre o assunto ocorrido em La Mendola, em It&aacute;lia, uma d&eacute;cada antes, Jos&eacute; Mattoso publicava, nas p&aacute;ginas da <i>Lusitania Sacra</i>, o seu estudo sobre os &laquo;Eremitas Portugueses no s&eacute;culo XII&raquo;. Volvidos quatro anos, o mesmo autor viria a intentar uma primeira s&iacute;ntese sobre os Eremitas da Serra de Ossa, na entrada a eles consagrada no volume III do <i>Dizionario degli Istituti di Perfezione</i>, escrevendo ainda um primeiro esbo&ccedil;o, para a mesma obra, da biografia de Mendo Seabra, um dos membros mais eminentes &#8211; e melhor documentados &#8211; dos primeiro tempos deste movimento erem&iacute;tico que, em finais do s&eacute;culo XVI, viria a constituir-se numa Congrega&ccedil;&atilde;o religiosa, sob a Regra de Santo Agostinho e no quadro da j&aacute; antiga ordem h&uacute;ngara dos Eremitas de S. Paulo Primeiro Eremita. Jos&eacute; Mattoso pudera aproveitar apenas os dados facultados pelos cronistas setecentistas da Congrega&ccedil;&atilde;o, nomeadamente por Fr. Manuel de S. Caetano Dam&aacute;sio, nos dois tomos publicados da <i>Thebaida Portugueza</i>. Maria &Acirc;ngela Beirante voltaria ao tema em 1985, desta feita com o recurso aos diplomas r&eacute;gios relativos aos eremitas alentejanos conservados nos livros de chancelaria. O artigo, dedicado aos &laquo;Eremit&eacute;rios da pobre vida no Alentejo dos s&eacute;culos XIV-XV&raquo;, abria novas pistas para o estudo destes grupos que, instalados sobretudo no sul do pa&iacute;s, lograriam uma impressionante expans&atilde;o entre finais do s&eacute;culo XIV e o decurso da cent&uacute;ria seguinte. Muitas das abordagens posteriores feitas ao fen&oacute;meno basear-se-iam neste estudo para procurarem enquadrar o florescimento erem&iacute;tico dos s&eacute;culos finais da Idade M&eacute;dia no contexto mais lato dos novos movimentos de radicalismo e de reforma religiosa que emergem em territ&oacute;rio portugu&ecirc;s a partir de finais do s&eacute;culo XIV ou das estrat&eacute;gias protagonizadas neste &acirc;mbito pelos monarcas de Avis ou por outros dignat&aacute;rios, leigos e eclesi&aacute;sticos, apostados na renova&ccedil;&atilde;o e ordenamento da vida religiosa.</p>     <p>Um fen&oacute;meno conhecido, portanto, mas ainda insuficientemente estudado, com uma base documental muito fragment&aacute;ria e problem&aacute;ticas que urgia alargar, face ao aumento exponencial de estudos desenvolvidos sobre o eremitismo noutros quadrantes historiogr&aacute;ficos. Mesmo os dados facultados pela cron&iacute;stica da Ordem denunciavam uma clara mistifica&ccedil;&atilde;o das origens, com a projec&ccedil;&atilde;o nos tempos das primeiras comunidades erem&iacute;ticas de uma precoce estrutura institucional e de um recuo das mesmas aos s&eacute;culos iniciais do eremitismo oriental&#8230; Os dados j&aacute; dispon&iacute;veis deixavam vislumbrar uma outra realidade, marcada pelas tens&otilde;es t&iacute;picas da viv&ecirc;ncia erem&iacute;tica entre a <i>libertas </i>de quem demandava a solid&atilde;o do ermo, a pobreza e o abandono do mundo idealmente associados a esta forma de vida, e as exig&ecirc;ncias de sustento e de ordenamento colocadas pelo aumento e expans&atilde;o destes grupos e pelas tentativas de controlo sobre os mesmos por parte das autoridades, leigas ou eclesi&aacute;sticas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b><i>As fontes</i></b></p>     <p>O primeiro problema que se colocava era o da exist&ecirc;ncia de fontes suficientes para o estudo aut&oacute;nomo destas comunidades. Os trabalhos anteriores haviam j&aacute; denunciado a exist&ecirc;ncia de uma significativa produ&ccedil;&atilde;o documental, por parte dos monarcas portugueses, relativa a estes grupos erem&iacute;ticos, e as pr&oacute;prias cr&oacute;nicas da Ordem transcreviam ou citavam diversos outros diplomas, oriundos dos cart&oacute;rios de alguns dos mosteiros que, a partir de finais do s&eacute;culo XVI, se haviam tornado herdeiros destas primeiras comunidades, ap&oacute;s o seu longo processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o. A reconstitui&ccedil;&atilde;o do percurso institucional dos eremit&eacute;rios, a partir das casas mon&aacute;sticas da Congrega&ccedil;&atilde;o cujos cart&oacute;rios chegariam aos arquivos p&uacute;blicos ap&oacute;s a extin&ccedil;&atilde;o e desamortiza&ccedil;&atilde;o liberais, permitiu reencontrar uma parte ainda significativa da produ&ccedil;&atilde;o documental relativa aos primeiros tempos destes grupos, desde que se detecta a sua emerg&ecirc;ncia na documenta&ccedil;&atilde;o escrita at&eacute; ao assumir de formas mais institucionais e centralizadas de organiza&ccedil;&atilde;o e de regulamenta&ccedil;&atilde;o, reconhecidas e aceites por todas as casas.</p>     <p>Foi assim poss&iacute;vel recuperar cerca de 1130 documentos para o per&iacute;odo entre 1366, data da primeira refer&ecirc;ncia documental a estes eremitas, e 1510, ano que marca a estabiliza&ccedil;&atilde;o definitiva da geografia de implanta&ccedil;&atilde;o destes grupos, ap&oacute;s a recente elabora&ccedil;&atilde;o dos seus primeiros textos normativos e a sua estrutura&ccedil;&atilde;o institucional de acordo com o modelo congregacional. Um n&uacute;mero certamente surpreendente, face &agrave;s expectativas iniciais, mas ainda assim enganador.</p>     <p>Com efeito, e como seria expect&aacute;vel, a documenta&ccedil;&atilde;o recenseada mostrava-se desigual no tempo e no seu teor. Desde logo, escassa e lacunar quanto &agrave;s origens, impossibilitando uma clara percep&ccedil;&atilde;o da cronologia das primeiras implanta&ccedil;&otilde;es erem&iacute;ticas, dos seus protagonistas e das suas motiva&ccedil;&otilde;es. Em segundo lugar, s&oacute; parcialmente reveladora do universo humano destas comunidades: libertos, durante muito tempo, das formas de estrutura&ccedil;&atilde;o t&iacute;picas da vida mon&aacute;sticas e propositadamente afastados do s&eacute;culo para no ermo poderem dedicar-se &agrave; ora&ccedil;&atilde;o e aos exerc&iacute;cios asc&eacute;ticos ou ao trabalho que permitia o seu sustento, raramente toda a comunidade &eacute; referida na documenta&ccedil;&atilde;o; em muitos actos, esta faz-se representar por um ou dois dos seus membros e, mesmo estes, insistem em apresentar-se apenas com o seu nome pr&oacute;prio, acompanhado pelo ep&iacute;teto recorrente de &laquo;pobre&raquo; ou &laquo;da pobre vida&raquo;. E os eremitas falam pouco de si: adeptos de uma vida pobre, os documentos conservados ou por eles solicitados restringem-se, na sua maioria, aos diplomas que lhes permitiam provar direitos, privil&eacute;gios ou a posse de terras e bens, entre os que lhes eram doados por benfeitores ou adquiridos em vista a assegurar a sustenta&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica das comunidades.</p>     <p>Ainda assim, foi poss&iacute;vel reuniros dados biogr&aacute;ficos de 393 eremitas, apresentados na segunda parte da disserta&ccedil;&atilde;o, de acordo com uma ordena&ccedil;&atilde;o alfab&eacute;tica a partir do seu nome pr&oacute;prio e, entre os hom&oacute;nimos, de forma cronol&oacute;gica, de acordo com as refer&ecirc;ncias documentais dispon&iacute;veis. Embora muito desiguais, dada a disparidade de informa&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis para cada um, procurou-se recensear os elementos respeitantes &agrave; sua origem social e geogr&aacute;fica, redes de rela&ccedil;&otilde;es e percurso dentro da <i>pobre vida</i>. &Eacute; a dimens&atilde;o humana deste fen&oacute;meno que aqui se traduz, esclarecendo dados que suportam todos os cap&iacute;tulos da primeira parte e abrem caminho para a aferi&ccedil;&atilde;o de eventuais redes de rela&ccedil;&atilde;o, quer com o universo urbano do sul, ainda t&atilde;o mal conhecido, quer com os diversos c&iacute;rculos do poder (do r&eacute;gio ao nobili&aacute;rquico ou das elites locais), quer ainda com aqueles e aquelas que integraram outros movimentos e comunidades religiosas, cujas rela&ccedil;&otilde;es com este universo erem&iacute;tico aparece por vezes mais vis&iacute;vel mas que pode e deve ser ainda aprofundado.</p>     <p>Do mesmo modo, foi poss&iacute;vel reunir um conjunto significativo de informa&ccedil;&otilde;es, disponibilizado nos diversos anexos &agrave; tese, sobre os eremit&eacute;rios documentados, a popula&ccedil;&atilde;o neles recenseada durante o per&iacute;odo em estudo, os seus benfeitores e o universo humano que rodeava estas comunidades (procuradores, lavradores e foreiros, outros servidores).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><i>Uma perspectiva institucional: as problem&aacute;ticas</i></b></p>     <p>Estas condicionantes encaminharam a an&aacute;lise deste movimento erem&iacute;tico para uma perspectiva eminentemente institucional, atenta aos dinamismos que motivaram o seu aparecimento, expans&atilde;o e a adop&ccedil;&atilde;o gradual de formas de organiza&ccedil;&atilde;o interna que confluiriam na op&ccedil;&atilde;o, em finais do s&eacute;culo XV, por um governo centralizado dentro de um modelo congregacional, comum a outros movimentos similares como as observ&acirc;ncias franciscanas, os Jer&oacute;nimos ou mesmo os L&oacute;ios, de matriz mais clerical. As interroga&ccedil;&otilde;es eram m&uacute;ltiplas: tratava-se de um movimento &#8220;nacional&#8221;, espont&acirc;neo, ou enquadrado no contexto de outros movimentos ligados ou influenciados pelos ambientes marcados pela heran&ccedil;a dos espirituais franciscanos e pela op&ccedil;&atilde;o pauper&iacute;stica, que tantos tra&ccedil;os comuns apresentavam com estes homens da &laquo;pobre vida&raquo;? Quem protagoniza esta aventura erem&iacute;tica: seria poss&iacute;vel conhecer os seus percursos, o &acirc;mbito e evolu&ccedil;&atilde;o do recrutamento destes adeptos da vida erem&iacute;tica, quer em termos geogr&aacute;ficos quer sociais? As comunidades eram sobretudo de extrac&ccedil;&atilde;o laical? E qual o peso do elemento clerical na sua constitui&ccedil;&atilde;o e no seu governo? E, enfim, qual a sua rela&ccedil;&atilde;o com a hierarquia cat&oacute;lica, com o poder r&eacute;gio, os concelhos e as restantes ordens? Quem s&atilde;o os seus benfeitores e apoiantes? Como se jogam todos estes factores e rela&ccedil;&otilde;es no percurso que, desde finais do s&eacute;culo XIV, leva simultaneamente &agrave; expans&atilde;o destas comunidades e &agrave; sua gradual institucionaliza&ccedil;&atilde;o?</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A op&ccedil;&atilde;o por este inqu&eacute;rito levou ao desenvolvimento do nosso estudo em torno de tr&ecirc;s grandes per&iacute;odos de evolu&ccedil;&atilde;o destas comunidades: partindo dos primeiros ind&iacute;cios da sua emerg&ecirc;ncia documental e do que estes nos possibilitam dizer sobre as poss&iacute;veis influ&ecirc;ncias que se encontram na g&eacute;nese de tais grupos (1366-1385), estud&aacute;mos de seguida o per&iacute;odo que, em larga medida coincidente com os reinados de D. Jo&atilde;o I, D. Duarte e a reg&ecirc;ncia e D. Pedro, &eacute; sobretudo marcado por uma acentuada expans&atilde;o destas comunidades, quer em novos locais de implanta&ccedil;&atilde;o quer no n&uacute;mero de eremitas que neles residem (1385-1452) para concluirmos com o estudo do per&iacute;odo final, marcado por fortes tens&otilde;es, internas e externas, que, vindas de tr&aacute;s, se agudizam, precipitando a institucionaliza&ccedil;&atilde;o do movimento (1452-1510).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><i>A emerg&ecirc;ncia documental (1366-1385)</i></b></p>     <p>Os ind&iacute;cios documentais sobreviventes permitiram, desde logo, detectar a proximidade e influ&ecirc;ncia sobre os eremitas portugueses dos movimentos, marcados pelo pauperismo franciscano, que advogavam uma viv&ecirc;ncia radical da pobreza, associando a fuga para o ermo a uma vida austera e em pequenas comunidades, muitas vezes sob protec&ccedil;&atilde;o ou obedi&ecirc;ncia episcopal. Para esta hip&oacute;tese conflu&iacute;am a forma de vida e designa&ccedil;&atilde;o adoptada; a presen&ccedil;a de eremitas ditos como frades da Ordem Terceira ou da pobre vida; a presen&ccedil;a, entre estes primeiros eremitas, de gente oriunda de Castela, da Andaluzia e da Galiza; a mem&oacute;ria da circula&ccedil;&atilde;o precoce em territ&oacute;rio portugu&ecirc;s de eremitas oriundos dos c&iacute;rculos dos <i>fraticelli</i> italianos (mem&oacute;rias associadas &agrave; figura de Fr. Vasco e &agrave;s origens dos Jer&oacute;nimos) e, por &uacute;ltimo, a pr&oacute;pria concomit&acirc;ncia da aprova&ccedil;&atilde;o pontif&iacute;cia concedida aos eremitas portugueses (1377-1378) com a outorgada aos Jer&oacute;nimos castelhanos (1373) e primeiros grupos de observantes franciscanos (1374).</p>     <p>Uma senten&ccedil;a dada por Vasco Domingues, chantre de Braga, na sequ&ecirc;ncia de uma inquiri&ccedil;&atilde;o feita aos eremitas por determina&ccedil;&atilde;o pontif&iacute;cia, vinha atestar, quer a impressionantes expans&atilde;o j&aacute; ent&atilde;o alcan&ccedil;ada por estes grupos erem&iacute;ticos, em larga medida insuspeita face aos fragment&aacute;rios dados documentais at&eacute; ent&atilde;o dispon&iacute;veis, quer a definitiva san&ccedil;&atilde;o eclesi&aacute;stica dada &agrave; sua forma de vida, provada que era a ortodoxia dos seus adeptos. Contudo, a senten&ccedil;a afirmava ainda a associa&ccedil;&atilde;o, deveras surpreendente, destes eremitas a um presum&iacute;vel projecto pontif&iacute;cio de reforma eclesi&aacute;stica do Reino, ainda mal conhecido e que viria, em todo o caso, a ser interrompido pelo despoletar do Cisma e pelo agravamento dos conflitos entre os monarcas portugueses e os seus cong&eacute;neres castelhanos.</p>     <p>Por outro lado, parece clara a autonomiza&ccedil;&atilde;o crescente do eremitismo alentejano, que conserva a sua vertente espont&acirc;nea e popular, que se tornar&aacute; patente no evoluir do recutamento de novos adeptos e nas resist&ecirc;ncias que adiar&atilde;o, face aos movimentos acima citados, a definitiva institucionaliza&ccedil;&atilde;o destes grupos erem&iacute;ticos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><i>A expans&atilde;o (1385-1452)</i></b></p>     <p>O advento da nova dinastia de Avis, ultrapassadas as conturba&ccedil;&otilde;es do final da cent&uacute;ria anterior, marca uma nova fase na vida dos eremitas alentejanos, pautada por um intenso movimento de expans&atilde;o, entre funda&ccedil;&otilde;es ligadas &agrave; Serra de Ossa e outras implanta&ccedil;&otilde;es erem&iacute;ticas mais aut&oacute;nomas, ainda que partilhando a mesma forma de vida. No total, trinta e duas novas &#8220;funda&ccedil;&otilde;es&#8221; estendem, em apenas algumas d&eacute;cadas, a presen&ccedil;a destes eremitas a todo o sul de Portugal, atingindo inclusive o Algarve (uma funda&ccedil;&atilde;o em Tavira), a Pen&iacute;nsula de Set&uacute;bal (eremit&eacute;rios de Alferrara, Cela Nova ou Barriga e Mendoliva) e mesmo a regi&atilde;o a norte do Tejo (eremit&eacute;rios nos termos de Cascais, &Oacute;bidos, Alenquer, Santar&eacute;m e Figueir&oacute;).</p>     <p>Neste movimento, &eacute; clara, desde logo, a protec&ccedil;&atilde;o facultada aos eremitas por parte dos concelhos do sul e das suas popula&ccedil;&otilde;es, onde se recruta a maioria dos benfeitores das suas comunidades. Mais pr&oacute;ximos dos eremit&eacute;rios, s&atilde;o eles a principal fonte de muitas das terras que os seguidores da <i>pobre vida</i> recebem em doa&ccedil;&atilde;o, em troca da participa&ccedil;&atilde;o nas suas ora&ccedil;&otilde;es e dos benef&iacute;cios espirituais que da&iacute; advinham para si e para os seus familiares. Do mesmo modo, parece evidente o precoce apoio e protec&ccedil;&atilde;o que lhes s&atilde;o dispensados pelos monarcas, patentes na repetida e constante outorga de privil&eacute;gios, isen&ccedil;&otilde;es e cartas de protec&ccedil;&atilde;o ou mesmo na interven&ccedil;&atilde;o directa em ordem a viabilizar algumas das nov&eacute;is funda&ccedil;&otilde;es. A mesma pol&iacute;tica &eacute; assumida pelos Infantes, que acolhem e tomam sob a sua tutela alguns eremit&eacute;rios, nomeadamente os situados em terras da mesa mestral das ordens de Santiago e Avis.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A interven&ccedil;&atilde;o r&eacute;gia possibilita ainda a renova&ccedil;&atilde;o da protec&ccedil;&atilde;o pontif&iacute;cia concedida aos eremitas, traduzida, n&atilde;o apenas na outorga de diversos privil&eacute;gios e isen&ccedil;&otilde;es (incluindo a isen&ccedil;&atilde;o do pagamento da d&iacute;zima, obtida logo em 1397), como na sua submiss&atilde;o &agrave; protec&ccedil;&atilde;o episcopal sem com isso os sujeitar &agrave; jurisdi&ccedil;&atilde;o dos respectivos prelados (1407). Do mesmo modo, &eacute; gra&ccedil;as &agrave; generosidade apost&oacute;lica que os eremit&eacute;rios poder&atilde;o erigir no seu interior pequenos orat&oacute;rios, escolher confessores e cl&eacute;rigos para a&iacute; celebrarem os sacramentos e refor&ccedil;ar o n&uacute;mero dos seus habitantes, paulatinamente aumentado para 12 (1407) e mais tarde para 20 (1434).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><i>A institucionaliza&ccedil;&atilde;o (1452-1510)</i></b></p>     <p>A entrada na segunda metade de Quatrocentos, coincidente com o fim da reg&ecirc;ncia e o assumir definitivo do governo do reino por D. Afonso V, marca uma fase nova na vida destas comunidades, pautada por um crescente intervencionismo r&eacute;gio, por tens&otilde;es internas resultantes da pr&oacute;pria expans&atilde;o erem&iacute;tica e do crescimento das suas comunidades e por uma ofensiva crescente por parte de outras ordens, nomeadamente os L&oacute;ios e os Jer&oacute;nimos, com vista &agrave; anexa&ccedil;&atilde;o de diversas casas e do respectivo patrim&oacute;nio.</p>     <p>O precipitar de todas estas tens&otilde;es acontece logo em 1452, com o regimento r&eacute;gio imposto aos eremitas por D. Afonso V, renovado quase sem altera&ccedil;&otilde;es em 1475, que designava tr&ecirc;s ju&iacute;zes para os feitos dos pobres, impunha diversas directivas disciplinares &agrave;s suas comunidades e, mesmo afirmando o papel particular da Serra de Ossa sobre as restantes casas, vincava, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, a submiss&atilde;o de todos os eremitas, na sua qualidade de leigos, &agrave; jurisdi&ccedil;&atilde;o do monarca e sujeitava &agrave; sua aprova&ccedil;&atilde;o todas as futuras propostas de novas funda&ccedil;&otilde;es. Por outro lado, L&oacute;ios e Jer&oacute;nimos protagonizariam, com o apoio do monarca, diversas tentativas de anexa&ccedil;&atilde;o de alguns eremit&eacute;rios: Santa Margarida do Aivado e Rio Morinho, ambos no termo de &Eacute;vora, pelos L&oacute;ios em 1460; a pr&oacute;pria Serra de Ossa e Rio Mourinho (termo de Montemor-o-Novo) pelos Jer&oacute;nimos de Santa Maria do Espinheiro, em 1476 e 1478.</p>     <p>Os eremitas confrontavam-se, a par de todas estas investidas, com diversos problemas disciplinares internos, fruto do crescimento das suas comunidades e, em simult&acirc;neo, da aus&ecirc;ncia de uma normativa clara que regulasse as formas de vigil&acirc;ncia sobre as suas casas e o exerc&iacute;cio do respectivo governo. O percurso em ordem a uma crescente institucionaliza&ccedil;&atilde;o procuraria claramente criar os mecanismos essenciais para a sobreviv&ecirc;ncia das comunidades e do essencial do seu modo de vida, mesmo com claras ced&ecirc;ncias a formas mais centralizadas e estruturadas de governo e de regulamenta&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Logo em 1466, os eremitas constitu&iacute;am-se entre si como uma &#8220;Irmandade&#8221;, assumindo uma solidariedade entre as diversas casas em torno da Serra de Ossa. A algumas decis&otilde;es de cariz disciplinar ent&atilde;o tomadas juntavam-se diversas normas tendentes a impedir os abusos na transmiss&atilde;o do poder sobre os eremit&eacute;rios ou a aliena&ccedil;&atilde;o dos seus bens, ou a contrariar a imposi&ccedil;&atilde;o unilateral dos ju&iacute;zes impostos aos pobres pelo regimento r&eacute;gio de 1452, exigindo-se para a sua escolha o concurso dos regedores das diversas casas. Em 1478, os eremitas sujeitavam-se &agrave; profiss&atilde;o do voto de castidade, imposto por bula pontif&iacute;cia do ano anterior e, em 1482, j&aacute; no contexto da procura de uma solu&ccedil;&atilde;o definitiva face &agrave;s tentativas de anexa&ccedil;&atilde;o de algumas das suas casas pelos Jer&oacute;nimos e sob press&atilde;o do pr&oacute;prio monarca, aceitam constituir-se finalmente como Congrega&ccedil;&atilde;o, com uma estrutura de governo centralizado e uma normativa pr&oacute;pria. A um novo provincial, com poder de visitar as restantes casas e de controlar a administra&ccedil;&atilde;o dos respectivos bens, juntava-se agora a limita&ccedil;&atilde;o de mandatos dos restantes regedores, impeditivo de maiores abusos. Deste cap&iacute;tulo de 1482 deve ter resultado um primeiro texto normativo, hoje desconhecido, que seria completado por um conjunto de &laquo;apontamentos&raquo; decididos em novo cap&iacute;tulo celebrado em 1488.</p>     <p>Os escassos e dispersos dados sobre o modo de vida destas comunidades revelam, apesar de toda esta evolu&ccedil;&atilde;o, uma grande fidelidade aos elementos fundamentais que marcavam a op&ccedil;&atilde;o pela &laquo;pobre vida&raquo;: a procura do ermo e a salvaguarda da solid&atilde;o pela cuidada demarca&ccedil;&atilde;o e vigil&acirc;ncia sobre o espa&ccedil;o do eremit&eacute;rio; a alian&ccedil;a entre a ora&ccedil;&atilde;o e o trabalho manual; a manuten&ccedil;&atilde;o de comunidades pequenas, maioritariamente laicais e com gente humilde ou de posses pouco avultadas, permitindo manter um espa&ccedil;o bem circunscrito para a liturgia e a recusa da actividade pastoral ou da prega&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO </b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <!-- ref --><p>FONTES, Jo&atilde;o Lu&iacute;s Ingl&ecirc;s &#8211; &#8220;Apresenta&ccedil;&atilde;o de Tese/ Thesis Presentation. <i>Da &laquo;pobre vida&raquo; &agrave; Congrega&ccedil;&atilde;o da Serra de Ossa: g&eacute;nese e institucionaliza&ccedil;&atilde;o de uma experi&ecirc;ncia erem&iacute;tica (1366-1510).</i> Tese de Doutoramento em Hist&oacute;ria, especialidade em Hist&oacute;ria Medieval, apresentada &agrave; Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Novembro de 2012.  Orienta&ccedil;&atilde;o do Professor Doutor Jos&eacute; Mattoso&#8220;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm;15, (Janeiro - Junho 2014). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA15/fontes1509.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA15/fontes1509.html</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000044&pid=S1646-740X201400010000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>       ]]></body><back>
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