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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Paisagem e povoamento: da representação documental à materialidade do espaço no território da diocese de Braga (séculos IX a XI). Ensaio metodológico]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O DE TESE</b></p>     <p><b><i>Paisagem e povoamento: da representa&ccedil;&atilde;o documental &agrave; materialidade do espa&ccedil;o no territ&oacute;rio da diocese de Braga (s&eacute;culos IX a XI). Ensaio metodol&oacute;gico.</i></b></p>     <p><b>Andr&eacute; Evangelista Marques<sup>*</sup></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><sup>*</sup> Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Estudos Medievais - FCSH-UNL, 1069-061 Lisboa, Portugal. <i>E-mail</i>: <a href="mailto:andre.omarques@gmail.com">andre.omarques@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Tese de Doutoramento em Hist&oacute;ria Medieval apresentada &agrave; Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Dezembro 2013. Orienta&ccedil;&atilde;o do Professor Doutor Lu&iacute;s Carlos Amaral (U. Porto) e coorienta&ccedil;&atilde;o do Professor Doutor Jos&eacute; &Aacute;ngel Garc&iacute;a de Cort&aacute;zar (U. Cant&aacute;bria) <sup><a href="#1">1</a></sup><a name="top1"></a></p>     <p><b>1. Tema. </b>Esta tese foi concebida como a segunda pe&ccedil;a de um programa de investiga&ccedil;&atilde;o que vinha de tr&aacute;s e deveria prolongar-se para al&eacute;m dela. Sucede a um primeiro trabalho, restrito &agrave; an&aacute;lise de uma unidade espec&iacute;fica de organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o (o casal), que procurava a um mesmo tempo: (i) desenvolver nos planos sem&acirc;ntico e morfol&oacute;gico uma metodologia de an&aacute;lise desse tipo de unidades rurais e aplic&aacute;-la a um espa&ccedil;o-tempo concreto (o Entre-Douro-e-Lima, entre os s&eacute;culos X e XII); e (ii) estudar uma unidade de base familiar que assumiu, logo no s&eacute;culo XII, um papel central na ordena&ccedil;&atilde;o da paisagem e do povoamento rurais do Entre-Douro-e-Minho<sup><a href="#2">2</a></sup><a name="top2"></a>. Constitu&iacute;a-se assim este primeiro ensaio como uma <i>sondagem</i> &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o minhoto, cujo estudo global exigia nova e mais alargada investiga&ccedil;&atilde;o<sup><a href="#3">3</a></sup><a name="top3"></a>.</p>     <p>A presente disserta&ccedil;&atilde;o prop&ocirc;s-se, de acordo com o plano inicial, desenvolver esse estudo global. Mas rapidamente o curso da investiga&ccedil;&atilde;o se encarregou de demonstrar que havia um conjunto de problemas pr&eacute;vios que importava estudar de forma aprofundada, sob pena de a constru&ccedil;&atilde;o do edif&iacute;cio assentar em funda&ccedil;&otilde;es demasiado fr&aacute;geis. N&atilde;o pareceu poss&iacute;vel avan&ccedil;ar para a an&aacute;lise dos processos de apropria&ccedil;&atilde;o, organiza&ccedil;&atilde;o e articula&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio minhoto at&eacute; ao s&eacute;culo XII sem antes atentar em duas quest&otilde;es principais, que vieram a corporizar o objecto do trabalho: (i) os modelos discursivos de base e as circunst&acirc;ncias conjunturais de transmiss&atilde;o que moldaram a representa&ccedil;&atilde;o documental do espa&ccedil;o no conjunto das fontes escritas conservadas (um <i>corpus</i> que estava &#8211; e continua, em boa parte &#8211; por estudar<sup><a href="#4">4</a></sup><a name="top4"></a>; e (ii) a morfologia propriamente dita do espa&ccedil;o organizado (paisagem) e articulado (territ&oacute;rio), analisada dentro dos constrangimentos impostos pelo registo escrito ao estudo das diversas unidades espaciais cuja tipologia os redactores distinguiram nos seus textos.</p>     <p>Neste sentido, a necessidade de aprofundar o inqu&eacute;rito nos planos sem&acirc;ntico e morfol&oacute;gico, que ficara bem patente naquele primeiro trabalho sobre o casal, redimensionou-se neste segundo. E obrigou a recentrar a an&aacute;lise num conjunto de problemas relacionados com a representa&ccedil;&atilde;o documental e a concretiza&ccedil;&atilde;o material do espa&ccedil;o. Percebe-se assim que o objecto deste trabalho se construa num duplo plano, sintetizado no t&iacute;tulo. No horizonte esteve sempre um objecto<i> global</i>: a <i>paisagem </i>e o<i> povoamento</i>, que entendemos como bases materiais do processo de organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o na regi&atilde;o e cronologia escolhidas. Mas o essencial da investiga&ccedil;&atilde;o foi dominado por um objecto <i>imediato</i>: o arco que vai <i>da representa&ccedil;&atilde;o documental &agrave; materialidade do espa&ccedil;o</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Program</b><b>a.</b> H&aacute;, portanto, nesta tese uma fun&ccedil;&atilde;o explorat&oacute;ria e instrumental que a transforma num <i>ensaio metodol&oacute;gico</i>, cujo programa se distingue por um duplo objetivo: (i) apresentar uma metodologia para o estudo da morfologia das diversas unidades espaciais referidas na documenta&ccedil;&atilde;o altimedieval; e (ii), como primeiro passo dessa metodologia, desenvolver uma reflex&atilde;o sobre as potencialidades das fontes escritas para o conhecimento da materialidade do espa&ccedil;o. Estes dois objetivos est&atilde;o na origem das duas partes da disserta&ccedil;&atilde;o: a primeira dedicada &agrave; justifica&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica e apresenta&ccedil;&atilde;o da metodologia proposta e a segunda aos problemas que a representa&ccedil;&atilde;o documental levanta ao conhecimento da materialidade do espa&ccedil;o no corpus documental selecionado em fun&ccedil;&atilde;o de um caso concreto: o territ&oacute;rio da diocese de Braga, entre os s&eacute;culos IX e XI.</p>     <p>Note-se, contudo, que esta selec&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi um mero resultado dessas coordenadas esp&aacute;cio-temporais, mas est&aacute; de alguma forma na sua origem. Sucedendo imediatamente ao <i>regresso</i> das fontes diplom&aacute;ticas (na d&eacute;cada de 970), a cronologia escolhida acompanha um momento essencial na afirma&ccedil;&atilde;o da escrita e na forma&ccedil;&atilde;o das estruturas senhoriais neste territ&oacute;rio. Os s&eacute;culos IX a XI constituem um per&iacute;odo decisivo na hora de avaliar a interac&ccedil;&atilde;o entre uma nova estrutura social de poder e os modelos de organiza&ccedil;&atilde;o da paisagem e do povoamento rurais. J&aacute; a exacta delimita&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o em an&aacute;lise define-se sobretudo em fun&ccedil;&atilde;o de uma geografia documental e reduz-se, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, ao conjunto dos lugares e zonas mencionados na documenta&ccedil;&atilde;o produzida e conservada. Enquadrado no territ&oacute;rio da diocese de Braga, o espa&ccedil;o efectivamente em an&aacute;lise &eacute; determinado pela cobertura geogr&aacute;fica dos dois cartul&aacute;rios produzidos pelas duas principais institui&ccedil;&otilde;es da regi&atilde;o: a S&eacute; de Braga (<i>Liber Fidei</i>) e o mosteiro de Guimar&atilde;es (<i>Livro de Mumadona Dias</i>). Explica-se assim a concentra&ccedil;&atilde;o dos dados dispon&iacute;veis na zona central da diocese, melhor organizada e sobretudo documentada. O que implicou a convers&atilde;o de um quadro supra-regional de partida (o territ&oacute;rio diocesano) num quadro infra-regional, correspondente <i>grosso modo</i> ao Entre-Lima-e-Ave, e com extens&otilde;es pontuais aos territ&oacute;rios transmontanos de Chaves e Vila Real.</p>     <p>Porque concebida especificamente a partir de fontes diplom&aacute;ticas altimedievais, a metodologia apresentada acarreta uma reivindica&ccedil;&atilde;o heur&iacute;stica da relev&acirc;ncia, mas tamb&eacute;m das limita&ccedil;&otilde;es, deste tipo de fontes para o estudo do espa&ccedil;o. O que tem implica&ccedil;&otilde;es epistemol&oacute;gicas no debate sobre os espa&ccedil;os de cruzamento/ruptura entre a hist&oacute;ria e a arqueologia. Trata-se, portanto, de uma metodologia <i>historiogr&aacute;fica</i>, por oposi&ccedil;&atilde;o a metodologias outras, de base arqueol&oacute;gica (tanto ligadas &agrave; escava&ccedil;&atilde;o estratigr&aacute;fica como &agrave; prospec&ccedil;&atilde;o), geogr&aacute;fica, paleoambiental, etc. A generalidade destas abordagens, e desde logo as que se aproximam mais das ci&ecirc;ncias naturais, assenta num instrumental t&eacute;cnico complexo e bem definido. E nisto contrastam com o impressionismo e o sincretismo dos m&eacute;todos que tradicionalmente guiam os historiadores do espa&ccedil;o na leitura das fontes escritas altimedievais: uma <i>leitura</i> que n&atilde;o passa muitas vezes disso mesmo, sem sequer atingir grande complexidade no plano estritamente hermen&ecirc;utico. Percebe-se assim a necessidade de avan&ccedil;ar na concep&ccedil;&atilde;o de metodologias especificamente desenhadas para o estudo deste tema, cronologia e realidade documental espec&iacute;ficos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Estrutura. </b>A tal objectivo responde a <i>Parte I</i> do trabalho. Formular uma proposta de an&aacute;lise que se pretende capaz de abrir pistas de investiga&ccedil;&atilde;o implica mais do que a apresenta&ccedil;&atilde;o de uma metodologia em sentido estrito (um conjunto articulado de ferramentas anal&iacute;ticas). Obriga a um trabalho pr&eacute;vio de elabora&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica, definindo o <i>campo</i> a que uma tal metodologia pode ser aplicada e os limites dessa aplica&ccedil;&atilde;o. Esta primeira parte come&ccedil;a assim por explicitar um conjunto de <i>defini&ccedil;&otilde;es </i>inerentes &agrave; problem&aacute;tica historiogr&aacute;fica que enquadra a concep&ccedil;&atilde;o da metodologia proposta (Parte I, &sect;1) e &agrave; natureza do seu objecto, com vista a uma clara defini&ccedil;&atilde;o do seu exacto <i>campo</i> de aplica&ccedil;&atilde;o: a representa&ccedil;&atilde;o documental do espa&ccedil;o (&sect;2). Segue-se a apresenta&ccedil;&atilde;o da metodologia propriamente dita, cujas semelhan&ccedil;as operativas (mas n&atilde;o substantivas) com o m&eacute;todo prosopogr&aacute;fico nos levaram a adoptar a designa&ccedil;&atilde;o de &#8220;prosopografia do espa&ccedil;o&#8221;(&sect;3); e uma refer&ecirc;ncia ao quadro mais alargado de fontes que se imp&otilde;e a uma metodologia desenhada para a an&aacute;lise da documenta&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica mas inequivocamente preocupada em contribuir para o quadro interdisciplinar que o estudo do espa&ccedil;o exige (&sect;4). Percebe-se assim que a formula&ccedil;&atilde;o de uma tal proposta tivesse atingido dimens&atilde;o suficiente para ocupar uma parte aut&oacute;noma do trabalho.</p>     <p>Do mesmo modo, cremos que se justifica tamb&eacute;m dedicar toda a <i>Parte II</i> &agrave; cr&iacute;tica das fontes e ao estudo da terminologia espacial. Num trabalho que pretende avaliar as possibilidades (e limita&ccedil;&otilde;es) oferecidas pelos textos para o estudo da realidade material, &eacute; indispens&aacute;vel conhecer, e delimitar bem, a sua capacidade para representarem uma realidade que os transcende. &Eacute; esta a melhor forma de superar a encruzilhada a que conduziu o pensamento p&oacute;s-modernista mais radical, ao pretender que os textos s&oacute; poderiam falar de si mesmos. Percebe-se ent&atilde;o que, antes de passar &agrave; an&aacute;lise propriamente dita de um qualquer problema relacionado com a materialidade do espa&ccedil;o, seja necess&aacute;rio considerar tr&ecirc;s aspectos que funcionam como poderosos <i>filtros</i> da informa&ccedil;&atilde;o que este tipo de fontes pode fornecer (Parte II, &sect;1): (i) as circunst&acirc;ncias que ditaram a g&eacute;nese e transmiss&atilde;o do <i>corpus</i> documental dispon&iacute;vel (&sect;1.1.), (ii) as tipologias e o discurso diplom&aacute;ticos que marcam a <i>escritura&ccedil;&atilde;o</i> da realidade espacial (&sect;1.2.) e (iii) o l&eacute;xico que suporta a representa&ccedil;&atilde;o documental do espa&ccedil;o propriamente dita, mediante a utiliza&ccedil;&atilde;o, por parte dos redactores, de uma <i>terminologia</i> espec&iacute;fica para designarem as m&uacute;ltiplas unidades espaciais a que se referiam (&sect;1.3. e &sect;2).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4. Problem&aacute;tica</b>. A <i>defini&ccedil;&atilde;o</i> da problem&aacute;tica que subjaz &agrave; proposta metodol&oacute;gica apresentada na primeira parte do trabalho obrigou a uma revis&atilde;o da literatura em torno da paisagem, do povoamento e do espa&ccedil;o na Alta Idade M&eacute;dia. Depois de uma panor&acirc;mica sobre a constru&ccedil;&atilde;o do bin&oacute;mio espa&ccedil;o-sociedade no quadro da hist&oacute;ria rural europeia (Parte I, &sect;1.1.), procurou-se sintetizar as diversas linhas de investiga&ccedil;&atilde;o que promoveram (e questionaram) o estudo do povoamento enquanto &#8220;f&oacute;ssil-director&#8221; da evolu&ccedil;&atilde;o social (&sect;1.2.) e as v&aacute;rias correntes mais recentes que corporizam a (re)emerg&ecirc;ncia da paisagem, entre os estudos paleoambientais e os da sua representa&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica (&sect;1.3.). Esta revis&atilde;o, que deve ser entendida como <i>um</i> itiner&aacute;rio entre muitos poss&iacute;veis, n&atilde;o pretende ser um balan&ccedil;o exaustivo, mesmo no campo da hist&oacute;ria <i>tout court</i>, e muito menos nos dom&iacute;nios da arqueologia, da geografia, das ci&ecirc;ncias paleoambientais e de outras disciplinas que foram chamadas &agrave; cola&ccedil;&atilde;o. Procurou apenas sinalizar as linhas de reflex&atilde;o te&oacute;rica e de trabalho emp&iacute;rico que contribu&iacute;ram mais directamente para a g&eacute;nese da nossa proposta metodol&oacute;gica. S&oacute; ent&atilde;o foi poss&iacute;vel <i>definir</i> o objecto a que se aplica esta proposta, na complexidade da trilogia que o caracteriza, entre a base material, a organiza&ccedil;&atilde;o social e a representa&ccedil;&atilde;o documental do espa&ccedil;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>5. Objecto</b>. Nesta trilogia, assume particular import&acirc;ncia o jogo de interac&ccedil;&atilde;o entre os p&oacute;los essenciais que s&atilde;o a base material e a organiza&ccedil;&atilde;o social (Parte I, &sect;2.1.). No entanto, a representa&ccedil;&atilde;o discursiva do espa&ccedil;o n&atilde;o constitui apenas uma realidade mental (aut&oacute;noma) em que convergem a base material e a organiza&ccedil;&atilde;o social (atrav&eacute;s sobretudo da media&ccedil;&atilde;o do l&eacute;xico espacial, que investe realidades materiais de um significado social), mas assume tamb&eacute;m o papel de mediadora entre estes dois p&oacute;los da realidade hist&oacute;rica, por um lado, e o historiador que a eles acede atrav&eacute;s dos documentos, por outro. Devemos assim atentar no papel que a representa&ccedil;&atilde;o documental do espa&ccedil;o desempenha na cria&ccedil;&atilde;o de um objecto especificamente <i>historiogr&aacute;fico</i> como &eacute; o da metodologia aqui proposta (&sect;2.2.). Constru&iacute;do com base em fontes escritas, logo situado, de acordo com a dicotomia tradicional, do lado das apropria&ccedil;&otilde;es sociais e das representa&ccedil;&otilde;es mentais do espa&ccedil;o, este trabalho procura precisamente superar essa dicotomia, prestando uma aten&ccedil;&atilde;o particular &agrave; informa&ccedil;&atilde;o que &eacute; poss&iacute;vel retirar dos textos sobre a materialidade do espa&ccedil;o.</p>     <p>Assimilados que est&atilde;o hoje os contributos relevantes da reflex&atilde;o p&oacute;s-moderna nos planos epistemol&oacute;gico, heur&iacute;stico e hermen&ecirc;utico, e em face de uma crescente consolida&ccedil;&atilde;o disciplinar da arqueologia e das restantes <i>ci&ecirc;ncias hist&oacute;ricas das materialidades</i>, parece chegado o momento de reequacionar a import&acirc;ncia e o papel da hist&oacute;ria &#8211; aqui entendida em sentido restrito, como disciplina encarregada de produzir conhecimento sobre o passado a partir de fontes escritas &#8211; no estudo desta sec&ccedil;&atilde;o do real. Certamente n&atilde;o numa perspectiva unilateral, ignorando a relev&acirc;ncia (primazia, mesmo) do registo material e dos dados e interpreta&ccedil;&otilde;es produzidos pela arqueologia; mas consciente, ao mesmo tempo, da import&acirc;ncia do registo escrito e do contributo importante que a sua an&aacute;lise pode dar tanto no plano da produ&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o como no da interpreta&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A principal for&ccedil;a das fontes escritas reside no facto de permitirem investir a informa&ccedil;&atilde;o fornecida sobre a morfologia das unidades espaciais de: (i) uma localiza&ccedil;&atilde;o cronol&oacute;gica exacta, sustentando o desenho da sua evolu&ccedil;&atilde;o (pelo contr&aacute;rio, s&atilde;o as fontes arqueol&oacute;gicas que proporcionam localiza&ccedil;&otilde;es espaciais exactas); (ii) um contexto social, que define o lugar de cada unidade no quadro de um determinado modelo (ou conjunto de modelos) de organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o; (iii) um significado cultural, no quadro de esquemas articulados de percep&ccedil;&atilde;o e representa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o, que s&atilde;o ao mesmo tempo um produto das estruturas sociais que organizam o espa&ccedil;o e um factor do pr&oacute;prio processo de organiza&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que a ac&ccedil;&atilde;o sobre o espa&ccedil;o implica sempre uma representa&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via; isto para n&atilde;o insistir no papel central destes esquemas de percep&ccedil;&atilde;o e representa&ccedil;&atilde;o na g&eacute;nese da <i>imagem</i> que nos &eacute; dado construir, hoje, do espa&ccedil;o altimedieval. As fontes escritas levantam, assim, problemas que ultrapassam largamente o da simples <i>materialidade</i>, dadas as suas implica&ccedil;&otilde;es nos planos econ&oacute;mico (dos &#8220;modos de vida&#8221;), sociopol&iacute;tico (no quadro global de poderes exercidos sobre uma popula&ccedil;&atilde;o e um territ&oacute;rio) e cultural (no horizonte amplo das pr&aacute;ticas e das representa&ccedil;&atilde;o espaciais). No entanto, tamb&eacute;m &eacute; verdade que uma correcta apreens&atilde;o do significado que uma determinada unidade espacial assume em cada um destes planos implica necessariamente o seu fundamento &#8220;objectivo&#8221;, e portanto a caracteriza&ccedil;&atilde;o t&atilde;o rigorosa quanto poss&iacute;vel da sua morfologia f&iacute;sica.</p>     <p>&Eacute; indiscut&iacute;vel o impacto dos avan&ccedil;os recentes da arqueologia neste dom&iacute;nio, que veio confrontar a investiga&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica com um conjunto muito amplo (e novo) de dados emp&iacute;ricos e mesmo de propostas interpretativas que esta tarda efectivamente em acompanhar. No entanto, parece-nos igualmente importante reconhecer que as fontes escritas &#8211; e os historiadores &#8211; est&atilde;o em boa posi&ccedil;&atilde;o para avaliar a interac&ccedil;&atilde;o espa&ccedil;o-sociedade, e em particular o que design&aacute;mos por <i>bases materiais</i> da organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o. Isso implica, todavia, superar uma certa dificuldade em desenvolver metodologias espec&iacute;ficas que sejam tamb&eacute;m capazes de uma an&aacute;lise igualmente renovada e mais detalhada das fontes escritas para o estudo da paisagem e do povoamento.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>6. Metodologia</b>. Procurando responder a este conjunto de perspectivas de an&aacute;lise de um objecto que definimos como a representa&ccedil;&atilde;o documental de uma realidade material socialmente constru&iacute;da, a metodologia proposta (Parte I, &sect;3) orienta-se por dois objectivos principais: (i) o levantamento sistem&aacute;tico das distribui&ccedil;&otilde;es cronol&oacute;gica e espacial das men&ccedil;&otilde;es documentais &agrave;s diversas unidades de organiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o num dado territ&oacute;rio e (ii) o estudo morfol&oacute;gico destas unidades e da sua evolu&ccedil;&atilde;o. &Eacute; evidente o interesse de um inqu&eacute;rito constru&iacute;do em torno das unidades de organiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o definidas pelos pr&oacute;prios redactores dos documentos, com recurso a um l&eacute;xico classificat&oacute;rio que se constr&oacute;i na intersec&ccedil;&atilde;o entre os planos material e jur&iacute;dico e que responde a esquemas sociais de organiza&ccedil;&atilde;o e a esquemas mentais de representa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o. Combinando a base material com a dimens&atilde;o representacional, este l&eacute;xico n&atilde;o se limita a descrever meras unidades espaciais, com uma tradu&ccedil;&atilde;o material e geogr&aacute;fica exacta, mas permite concretizar o jogo de interac&ccedil;&atilde;o que se estabelece entre um determinado espa&ccedil;o e a sociedade que o organiza. Ficam assim abertas vias para o estudo relacional de ambas as realidades (materiais e sociais/mentais) e para conhecer as implica&ccedil;&otilde;es propriamente f&iacute;sicas daquela organiza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Como se percebe, a metodologia de an&aacute;lise espacial proposta &eacute;, no essencial, um <i>subproduto</i> da metodologia proposta por J. &Aacute;. Garc&iacute;a de Cort&aacute;zar para o estudo da <i>organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o</i>. Destaca-se apenas por dois movimentos de sentido contr&aacute;rio: (i) a tentativa de alargar o leque de unidades (e escalas) espaciais em an&aacute;lise, para l&aacute; das unidades centrais de &#8220;organiza&ccedil;&atilde;o&#8221; e &#8220;articula&ccedil;&atilde;o&#8221; do espa&ccedil;o privilegiadas pelo autor; e (ii) a restri&ccedil;&atilde;o do question&aacute;rio de an&aacute;lise &agrave; morfologia f&iacute;sica desse conjunto mais amplo e heterog&eacute;neo de unidades espaciais, associadas aos mais diversos sectores da paisagem rural (incluindo o habitat). Claramente inspirada no m&eacute;todo prosopogr&aacute;fico, esta metodologia toma como base da an&aacute;lise <i>todas </i>as unidades de organiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o que &eacute; poss&iacute;vel identificar (e localizar) na documenta&ccedil;&atilde;o, desde as mais pequenas parcelas de organiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o agr&aacute;rio at&eacute; &agrave;s grandes unidades de articula&ccedil;&atilde;o <i>pol&iacute;tica</i> do territ&oacute;rio. E procura congregar <i>toda</i> a informa&ccedil;&atilde;o sobre a morfologia de cada uma dessas unidades, dispersa pelos v&aacute;rios documentos (e datas) em que elas aparecem referidas. Criou-se para isso uma base de dados que permite organizar a informa&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de tr&ecirc;s procedimentos b&aacute;sicos:</p>     <p>A) numprimeiro m&oacute;dulo (<i>Documentos</i>), s&atilde;o seriadas todas as unidades mencionadas num mesmo documento, atrav&eacute;s de uma ficha de que consta a informa&ccedil;&atilde;o identificativa de cada escritura (cota arquiv&iacute;stica, data&ccedil;&atilde;o, classifica&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica, publica&ccedil;&otilde;es, cr&iacute;tica, sum&aacute;rio, etc.) e uma lista detalhada de todas essas unidades, com a indica&ccedil;&atilde;o do respectivo tipo morfol&oacute;gico e designa&ccedil;&atilde;o, recolhendo rigorosamente (e apenas) a informa&ccedil;&atilde;o veiculada pelo redactor do documento;</p>     <p>B) em seguida, num segundo m&oacute;dulo (<i>Elementos</i>), &eacute; recolhida numa ficha individual toda a informa&ccedil;&atilde;o que o documento fornece sobre a morfologia de cada uma das unidades nele referidas, cobrindo aspectos t&atilde;o variados como a identifica&ccedil;&atilde;o, a fragmenta&ccedil;&atilde;o e delimita&ccedil;&atilde;o da unidade, o sistema de localiza&ccedil;&atilde;o utilizado para a situar no territ&oacute;rio, as rela&ccedil;&otilde;es espaciais (efectivas ou formulares) com outras unidades que o documento lhe aponta, e os indicadores da sua atribui&ccedil;&atilde;o social (pela dupla via das transmiss&otilde;es de que foi objecto a sua propriedade e dos tributos que sobre ela impendem);</p>     <p>C) finalmente, num terceiro m&oacute;dulo (<i>Unidades</i>), s&atilde;o seriados todos os <i>elementos</i> relativos a cada unidade numa ficha de que constam n&atilde;o apenas a lista das men&ccedil;&otilde;es documentais &agrave; unidade (com a respectiva data), mas tamb&eacute;m a indica&ccedil;&atilde;o dos seus tipo morfol&oacute;gico e designa&ccedil;&atilde;o normativos, os quais resultam j&aacute; do cruzamento da informa&ccedil;&atilde;o (nem sempre coincidente) veiculada pelas diversas men&ccedil;&otilde;es documentais. Percebe-se assim que este processo de &#8220;consolida&ccedil;&atilde;o&#8221; de <i>elementos</i> n&atilde;o seja autom&aacute;tico, mas resulte de opera&ccedil;&otilde;es de identifica&ccedil;&atilde;o feitas caso a caso, recorrendo sobretudo &agrave;s informa&ccedil;&otilde;es sobre a designa&ccedil;&atilde;o, a titularidade e a localiza&ccedil;&atilde;o das v&aacute;rias unidades.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tais opera&ccedil;&otilde;es levantam, naturalmente, v&aacute;rios problemas interpretativos. Como, de resto, a identifica&ccedil;&atilde;o topon&iacute;mica de unidades que aparecem localizadas na documenta&ccedil;&atilde;o com recurso a uma malha espacial estruturalmente diversa daquela a que hoje recorremos para as localizar (e cartografar). No entanto, o problema maior que se levanta &eacute; o da classifica&ccedil;&atilde;o morfol&oacute;gica, uma vez que o question&aacute;rio subjacente &agrave; base de dados coloca no centro da an&aacute;lise os diversos tipos de unidades de organiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o definidos pelos redactores dos documentos. Opt&aacute;mos por agrupar estes diversos tipos de unidades em cinco categorias. As duas primeiras resultam directamente da distin&ccedil;&atilde;o (e defini&ccedil;&otilde;es) avan&ccedil;ada por J. &Aacute;. Garc&iacute;a de Cort&aacute;zar: (i) as &#8220;unidades de articula&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o&#8221;, com fun&ccedil;&otilde;es eminentemente administrativas, e (ii) as &#8220;unidades de organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o&#8221;, dominadas antes por fun&ccedil;&otilde;es de enquadramento sociopol&iacute;tico e econ&oacute;mico. As restantes categorias incluem unidades espaciais com uma relev&acirc;ncia (tanto territorial como social) tendencialmente menor, mas que interessam sobremaneira a um estudo preocupado com a materialidade do espa&ccedil;o: (iii) as &#8220;unidades eclesi&aacute;sticas&#8221;, categoria em que integr&aacute;mos <i>ecclesiae</i>, mosteiros, ermidas e outros templos, mas n&atilde;o as diversas circunscri&ccedil;&otilde;es territoriais que comp&otilde;em a malha eclesi&aacute;stica (da par&oacute;quia &agrave; prov&iacute;ncia metropolitana) &#8211; preferimos antes classific&aacute;-las como &#8220;unidades de articula&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o&#8221;, &agrave; semelhan&ccedil;a do que fez Garc&iacute;a de Cort&aacute;zar (com as par&oacute;quias e dioceses apenas); (iv) a imensa mole de unidades de paisagem referida na documenta&ccedil;&atilde;o, sem margem para d&uacute;vida a categoria em que a materialidade do espa&ccedil;o mais claramente se evidencia; e (v) as &#8220;formas de propriedade&#8221;, categoria que alberga um conjunto variado de unidades cuja designa&ccedil;&atilde;o decorre em primeiro lugar da respectiva titularidade (ou mesmo do tipo de transac&ccedil;&atilde;o a que foram sujeitas), e que oscilam entre a condi&ccedil;&atilde;o de unidades com uma tradu&ccedil;&atilde;o espacial concreta e conjuntos abstractos de bens que s&oacute; tomados isoladamente t&ecirc;m essa tangibilidade, ou mesmo de meros direitos formais sobre espa&ccedil;os todavia concretos.</p>     <p>Uma vez recolhida a informa&ccedil;&atilde;o nos tr&ecirc;s m&oacute;dulos referidos, a base de dados contempla um conjunto de mecanismos anal&iacute;ticos que procuram viabilizar quatro objectivos instrumentais: (i) an&aacute;lise quantitativa: para assegurar a exaustividade da an&aacute;lise, a base permite a recolha e tratamento sistem&aacute;ticos de <i>toda </i>a informa&ccedil;&atilde;o relevante, em moldes t&atilde;o quantitativos quanto poss&iacute;vel, e foi dotada de um sistema de indexa&ccedil;&atilde;o tem&aacute;tica dos documentos que facilita a an&aacute;lise qualitativa; (ii) integra&ccedil;&atilde;o dos dados num SIG:para assegurar a rigorosa georreferencia&ccedil;&atilde;o de toda a informa&ccedil;&atilde;o espacial, as listas de lugares e freguesias que servem de base &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o topon&iacute;mica das unidades foram dotadas das respectivas coordenadas geogr&aacute;ficas, possibilitando desde logo a produ&ccedil;&atilde;o de cartografia autom&aacute;tica e a an&aacute;lise espacial; (iii) cr&iacute;tica de fontes: para assegurar o estudo aprofundado das fontes analisadas e do l&eacute;xico espacial documentado, a base de dados foi dotada de um conjunto de campos que procuram sistematizar a informa&ccedil;&atilde;o relativa a estes problemas e estrutura-se em fun&ccedil;&atilde;o das categorias classificat&oacute;rias utilizadas pelos pr&oacute;prios redactores para designar as unidades espaciais, que est&atilde;o na base da tipologia de unidades utilizada; (iv) interdisciplinaridade: para assegurar a <i>possibilidade </i>de integra&ccedil;&atilde;o entre os dados (escritos) e os dados materiais (arqueol&oacute;gicos, sobretudo), foi atribu&iacute;da especial import&acirc;ncia &agrave; escala local em que estes &uacute;ltimos dados adquirem pleno sentido e aquela integra&ccedil;&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel (donde o consider&aacute;vel esfor&ccedil;o de identifica&ccedil;&atilde;o topon&iacute;mica t&atilde;o rigorosa quanto poss&iacute;vel das unidades mencionadas nos textos).</p>     <p>Ao centrar a an&aacute;lise n&atilde;o em unidades espaciais em sentido estrito, necessariamente identificadas em fun&ccedil;&atilde;o da realidade espacial actual (lugares), mas em unidades de organiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o, tal como os redactores as definem (que depois se procura <i>traduzir</i> na realidade espacial actual, nos casos em que essas unidades sejam efectivamente index&aacute;veis a um lugar), o nosso question&aacute;rio respeita a heterogeneidade da dimens&atilde;o espacial das unidades que compunham a realidade (f&iacute;sica como mental) coeva. Obedece assim ao jogo de escalas como recurso anal&iacute;tico imprescind&iacute;vel para captar diferentes sectores da realidade.</p>     <p>N&atilde;o por acaso designamos esta metodologia com recurso ao conceito de &#8216;prosopografia&#8217;. Com efeito, uma an&aacute;lise assim conduzida oferece-nos a possibilidade de indexar um conjunto alargado de informa&ccedil;&otilde;es de v&aacute;ria natureza e rigorosamente datadas (<i>elementos</i>) a uma realidade espacialmente circunscrita (a unidade espacial) e, acima de tudo, descrita morfologicamente por meio de um sistema de classifica&ccedil;&atilde;o que, com todas as suas ambiguidades e opacidades para o historiador, e apesar da oscila&ccedil;&atilde;o entre os planos material e jur&iacute;dico, tem a imensa vantagem de ser coevo da realidade espacial que procura representar (mais do que propriamente descrever). Ora, &eacute; precisamente na <i>especificidade</i> da informa&ccedil;&atilde;o assim produzida que reside o potencial heur&iacute;stico e interdisciplinar da metodologia aqui apresentada. Superando (sem as anular) dicotomias como as que op&otilde;em os planos da representa&ccedil;&atilde;o <i>vs.</i> materialidade do espa&ccedil;o, ou a an&aacute;lise qualitativa de realidades concretas <i>vs.</i> an&aacute;lise quantitativa de agregados abstractos, o car&aacute;cter individual (<i>prosopogr&aacute;fico</i>) das unidades espaciais erigidas em unidades de an&aacute;lise garante a possibilidade de ancorar a abstra&ccedil;&atilde;o das palavras no terreno e de contrastar as tend&ecirc;ncias e ordens de grandeza estat&iacute;sticas com o caso singular. Num movimento de permanente vai-e-v&eacute;m, estes v&aacute;rios tipos de an&aacute;lises contrafortam-se uns aos outros.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>7. Fontes</b>. Embora a base de dados apresentada tenha sido desenhada especificamente para a an&aacute;lise de fontes diplom&aacute;ticas, as perspectivas interdisciplinares abertas por esta metodologia obrigam a considerar um quadro bem mais amplo de fontes, cuja informa&ccedil;&atilde;o espacial a nossa base de dados dever&aacute; ser igualmente capaz de recolher e tratar (Parte I, &sect;4). A <i>paisagem</i> hist&oacute;rica (medieval como de qualquer outro per&iacute;odo) &eacute; um objecto mediatizado, ao qual poderemos chegar sobretudo atrav&eacute;s: (i) dos textos, que lhe fixaram determinadas representa&ccedil;&otilde;es mentais (sem esquecer formas outras de representa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-textual: cartogr&aacute;ficas, pict&oacute;ricas, etc.); (ii) da topon&iacute;mia, que constitui uma forma particularmente eficaz, porque directa e circunscrita, de <i>semantiza&ccedil;&atilde;o</i> do espa&ccedil;o; (iii) do registo arqueol&oacute;gico (incluindo os &#8220;ecofactos&#8221;), que <i>fossilizou </i>uma s&eacute;rie de fragmentos materiais,nos sucessivos est&aacute;dios evolutivos de uma determinada paisagem, sendo que o processo &eacute; aqui mais importante do que as diversas fases (dif&iacute;ceis de individualizar claramente muitas vezes); e (iv) atrav&eacute;s dos tra&ccedil;os que persistem na paisagem actual, captados pela cartografia moderna, pela fotografia a&eacute;rea e por diversos outros tipos de fontes geogr&aacute;ficas. Mesmo que nesta fase da investiga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tenhamos utilizado outras fontes para al&eacute;m das diplom&aacute;ticas (que n&atilde;o esgotam sequer o espectro das fontes textuais), n&atilde;o poder&iacute;amos deixar de nos referir brevemente aos diversos <i>corpora</i> que &eacute; poss&iacute;vel reunir para o territ&oacute;rio da diocese de Braga entre os s&eacute;culos IX e XI. A panor&acirc;mica oferecida, que marca a entrada no estudo de caso, serve como ilustra&ccedil;&atilde;o do amplo leque de fontes a que a <i>prosopografia</i> do espa&ccedil;o dever&aacute; aplicar-se no momento em que a metodologia for plenamente desenvolvida.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>8. Representa&ccedil;&atilde;o documental do espa&ccedil;o</b><b>. </b>A an&aacute;lise t&atilde;o detalhada quanto poss&iacute;vel das fontes escritas constitui a etapa primeira e uma condi&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via da metodologia de an&aacute;lise espacial proposta. A segunda parte do trabalho, dedicada a avaliar as possibilidades que o <i>corpus</i> documental analisado oferece para o conhecimento da materialidade do espa&ccedil;o, n&atilde;o podia deixar de atentar, logo a abrir, nos j&aacute; referidos tr&ecirc;s <i>filtros</i> da informa&ccedil;&atilde;o que este tipo de fontes pode fornecer sobre a morfologia das diversas unidades espaciais documentadas. Na impossibilidade de estudar esses filtros em detalhe, opt&aacute;mos por aludir brevemente a alguns dos problemas que cada um levanta ao estudo do espa&ccedil;o, para nos concentrarmos depois na an&aacute;lise exaustiva do l&eacute;xico espacial que foi poss&iacute;vel identificar na documenta&ccedil;&atilde;o analisada.</p>     <p>Num primeiro momento, referimo-nos aos problemas que enquadram a constru&ccedil;&atilde;o dos <i>corpora</i> documentais, por via do duplo processo de g&eacute;nese e transmiss&atilde;o das escrituras, para depois expormos os crit&eacute;rios que est&atilde;o na base do corpusutilizado, destacando o peso avassalador dos dois cartul&aacute;rios analisados na transmiss&atilde;o dos documentos de que hoje dispomos para o estudo do territ&oacute;rio bracarense antes do s&eacute;culo XII (Parte I, &sect;1.1). De seguida, aludimos brevemente &agrave; distin&ccedil;&atilde;o fundamental no discurso diplom&aacute;tico entre partes &#8220;livres&#8221; e &#8220;formulares&#8221;, a que s&atilde;o tradicionalmente associados n&iacute;veis muito diversos de objectiva&ccedil;&atilde;o (&sect;1.2.). Finalmente, tecemos algumas considera&ccedil;&otilde;es gerais sobre o condicionamento que a terminologia, mais do que qualquer outro <i>filtro</i>, imp&otilde;e &agrave; nossa apreens&atilde;o do espa&ccedil;o documentalmente representado (&sect;1.3.). Ao assumirem o papel de primeiro intermedi&aacute;rio entre a realidade material e a representa&ccedil;&atilde;o documental que os redactores dela constru&iacute;ram, as palavras desempenham um lugar verdadeiramente central no arco que definimos como o objecto <i>imediato</i> deste trabalho: da representa&ccedil;&atilde;o documental &agrave; materialidade do espa&ccedil;o.</p>     <p>N&atilde;o resta outro caminho ao historiador da paisagem e do povoamento altimedievais, sen&atilde;o o de um estudo atento da linguagem das fontes escritas. A pr&oacute;pria natureza destas fontes conduz o historiador ao dom&iacute;nio das representa&ccedil;&otilde;es verbais e obriga-o a precaver-se das muitas &#8220;armadilhas&#8221; que o vocabul&aacute;rio das fontes lhe monta. Aquele estudo deve, portanto, compulsar s&eacute;ries de dados o mais amplas poss&iacute;veis (tanto no tempo como no espa&ccedil;o) por forma a tentar verificar continuidades e descontinuidades de sentido que, dado o car&aacute;cter fragment&aacute;rio da documenta&ccedil;&atilde;o altimedieval, s&atilde;o sempre dif&iacute;ceis de estabelecer. E n&atilde;o deve esquecer nunca que a compreens&atilde;o isolada das palavras e conceitos utilizados pelo discurso documental estar&aacute; sempre condicionada ao estudo dos &#8220;sistemas de sentido&#8221;, que constituem afinal a maior garantia da possibilidade de compreens&atilde;o de discursos passados.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Numa segunda fase, esse inqu&eacute;rito dever&aacute; ser cotejado (em jeito de contra-prova) com an&aacute;lises circunstanciadas da realidade material em espa&ccedil;os necessariamente circunscritos (micro-regionais, locais), aos quais possa ser atribu&iacute;do um certo valor paradigm&aacute;tico, sem nunca cair em generaliza&ccedil;&otilde;es abusivas. Trata-se, no fundo, de tentar ultrapassar a an&aacute;lise sem&acirc;ntica e o dom&iacute;nio restrito da <i>representa&ccedil;&atilde;o</i> e dos signos, a que o pensamento p&oacute;s-moderno procurou confinar o conhecimento hist&oacute;rico, para o confrontar com os tra&ccedil;os (certamente fragment&aacute;rios tamb&eacute;m) do que consensualmente se chama a <i>realidade</i> material. Mas aqui j&aacute; n&atilde;o devem ser as fontes textuais as &uacute;nicas utilizadas: &eacute; chegada a vez de recorrer ao registo material, nas suas mais diversas manifesta&ccedil;&otilde;es: arqueol&oacute;gica, paleoambiental, paleobiol&oacute;gica, etc. O que ultrapassa manifestamente o &acirc;mbito do nosso trabalho, embora constitua um horizonte de interdisciplinaridade que ele n&atilde;o deixou nunca de ter em conta e para o qual procura contribuir.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>9. L&eacute;xico espacial</b><b>. </b>Dando sequ&ecirc;ncia ao s&iacute;mile da <i>prosopografia</i> do espa&ccedil;o, a fun&ccedil;&atilde;o identificadora que o nome e o estatuto social desempenham para o indiv&iacute;duo &eacute; assumida, no caso das unidades espaciais, pelo ampl&iacute;ssimo conjunto de nomes pr&oacute;prios (top&oacute;nimos propriamente ditos) que podem identificar cada unidade em particular, e pelo conjunto (bem mais restrito) de nomes comuns com que os redactores procuram classific&aacute;-las morfologicamente. Uns e outros comp&otilde;em aquilo a que cham&aacute;mos o l&eacute;xico <i>topon&iacute;mico</i> e <i>espacial</i>, respectivamente. A metodologia apresentada na primeira parte do trabalho preconiza uma an&aacute;lise dessas unidades conduzida de acordo com a taxonomia definida por este l&eacute;xico <i>espacial</i> utilizado no discurso diplom&aacute;tico. O essencial da segunda parte n&atilde;o podia deixar de aprofundar o inqu&eacute;rito nos planos sem&acirc;ntico e morfol&oacute;gico e de, simultaneamente, apresentar os primeiros resultados a que conduziu a an&aacute;lise <i>prosopogr&aacute;fica</i> das unidades espaciais identificadas. A melhor solu&ccedil;&atilde;o para concretizar este duplo objectivo pareceu-nos ser a elabora&ccedil;&atilde;o de um l&eacute;xico dos v&aacute;rios termos usados pelos redactores da nossa documenta&ccedil;&atilde;o para designar e classificar morfologicamente as unidades espaciais a que se referiam (Parte II, &sect;2).</p>     <p>Pretendeu-se assim constituir um dossier que recolhe a informa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica sobre os diversos tipos de unidades, com os riscos e artificialidade que implica a compartimenta&ccedil;&atilde;o de uma informa&ccedil;&atilde;o que os documentos constroem &#8211; e nos apresentam &#8211; de forma contextual e n&atilde;o isoladamente. Este l&eacute;xico funcionar&aacute; como uma esp&eacute;cie de vocabul&aacute;rio t&eacute;cnico que suporte <i>ab initio</i> as an&aacute;lises que poder&atilde;o vir a ser feitas a partir da informa&ccedil;&atilde;o recolhida na base de dados e aqui sumariada. Note-se, contudo, que n&atilde;o se encontrar&aacute; aqui uma lista completa do vocabul&aacute;rio a que os redactores recorreram para nomear o espa&ccedil;o, o que implicaria a an&aacute;lise do l&eacute;xico topon&iacute;mico. Sendo certamente importante, esta an&aacute;lise ultrapassa largamente o &acirc;mbito de um trabalho que n&atilde;o tem prop&oacute;sitos lexicogr&aacute;ficos nem se move no quadro disciplinar da lingu&iacute;stica hist&oacute;rica, em que os estudos toponon&iacute;micos devem ser integrados.</p>     <p>A op&ccedil;&atilde;o de incluir neste l&eacute;xico n&atilde;o apenas o quadro geral de significados atribu&iacute;veis a cada termo mas tamb&eacute;m a representa&ccedil;&atilde;o cartogr&aacute;fica das distribui&ccedil;&otilde;es espaciais dos diversos tipos de unidades identificados no corpus estudado, bem como alguma informa&ccedil;&atilde;o recolhida neste corpus sobre a morfologia de cada tipo, transformam-no em mais (e menos, ao mesmo tempo) do que um apartado de &iacute;ndole lexicogr&aacute;fica. O conjunto de <i>verbetes</i> relativos aos diversos termos que comp&otilde;em o universo lexical estudado corresponde, de facto, ao primeiro est&aacute;dio, ainda embrion&aacute;rio, de tratamento da informa&ccedil;&atilde;o reunida na nossa base de dados. Recordemos os n&uacute;meros: num total de 366 documentos analisados, foi poss&iacute;vel identificar 3073 unidades espaciais, a que correspondem 4937 men&ccedil;&otilde;es documentais, entre as quais foi poss&iacute;vel estabelecer um total de 11516 rela&ccedil;&otilde;es espaciais<sup><a href="#5">5</a></sup><a name="top5"></a>. Na impossibilidade de um tratamento sistem&aacute;tico do imenso corpo de dados reunido, que no limite conduziria a um conjunto de extensos trabalhos monogr&aacute;ficos, este apartado aparece assim como um mero esbo&ccedil;o das potencialidades da metodologia proposta.</p>     <p>No total, integram este l&eacute;xico 184 termos, agregados para efeitos anal&iacute;ticos em mais de 70 tipos diferentes, por sua vez reunidos em cinco grandes categorias tipol&oacute;gicas, j&aacute; referidas. Para cada termo redigiu-se um verbete de que consta um conjunto vari&aacute;vel de informa&ccedil;&atilde;o, mais ou menos desenvolvida, consoante a natureza do exacto tipo de unidades em causa, e que podemos agrupar em quatro items: (i) lema e respectivas variantes formais; (ii) n&uacute;mero e natureza das ocorr&ecirc;ncias de cada tipo e respectivos limites cronol&oacute;gicos no <i>corpus</i> analisado; (iii) defini&ccedil;&atilde;o: quadro geral de significados poss&iacute;veis de cada termo, capaz de se constituir como um espectro amplo de possibilidades, do qual dever&aacute; partir a an&aacute;lise morfol&oacute;gica das unidades assim designadas no corpus estudado; (iv) breve caracteriza&ccedil;&atilde;o morfol&oacute;gica de cada tipo de unidades, a partir dos dados recolhidos especificamente no <i>corpus</i> estudado, com o objectivo (exclusivo) de corroborar ou infirmar os sentidos gerais arrolados.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>10. Conclus&atilde;o</b><b>. </b>O longu&iacute;ssimo p&eacute;riplo feito nesta segunda parte pelas centenas de palavras utilizadas na documenta&ccedil;&atilde;o para classificar unidades espaciais demonstra a enorme complexidade do &#8220;espa&ccedil;o documentado&#8221; no territ&oacute;rio da diocese de Braga entre os s&eacute;culos IX e XI. Esse espa&ccedil;o constitui uma realidade particularmente intrincada, que definimos como uma abstrac&ccedil;&atilde;o entre a base material, a organiza&ccedil;&atilde;o social e a representa&ccedil;&atilde;o discursiva. Captar tal complexidade &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para qualquer tipo de an&aacute;lise sectorial, que procure estudar aprofundadamente uma destas tr&ecirc;s dimens&otilde;es, e ainda mais para um estudo global da organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o, obrigado a conjug&aacute;-las todas. Percebe-se ent&atilde;o que, antes de avan&ccedil;ar para esse estudo global, tenha sido necess&aacute;rio atentar detalhadamente num conjunto de problemas que definem o itiner&aacute;rio apontado como o objecto <i>imediato</i> da disserta&ccedil;&atilde;o: da representa&ccedil;&atilde;o documental &agrave; materialidade do espa&ccedil;o. A aplica&ccedil;&atilde;o do question&aacute;rio subjacente &agrave; metodologia proposta, que procurou sistematizar a informa&ccedil;&atilde;o veiculada pelos documentos sobre a morfologia de cada tipo de unidade, veio demonstrar as possibilidades de uma an&aacute;lise assim conduzida para uma futura investiga&ccedil;&atilde;o sobre a paisagem e o povoamento do territ&oacute;rio bracarense entre os s&eacute;culos IX e XI, entendida como etapa primeira (dedicada &agrave;s <i>bases materiais</i>)de um estudo sobre a organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o.</p>     <p>Sem preju&iacute;zo da natureza e escala muito vari&aacute;veis dos tipos de unidades definidos, esse question&aacute;rio prop&otilde;e uma grelha de an&aacute;lise que passa essencialmente por tr&ecirc;s apartados, em que agreg&aacute;mos um conjunto amplo de vari&aacute;veis. No primeiro, cabem as distribui&ccedil;&otilde;es cronol&oacute;gicas e espaciais do conjunto de unidades de cada tipo. E utilizamos o plural na medida em que a an&aacute;lise dessas distribui&ccedil;&otilde;es deve ter em conta diferentes cortes cronol&oacute;gicos e escalas espaciais. No essencial, a an&aacute;lise deve atentar: (i) na longa dura&ccedil;&atilde;o e na escala regional, que permitem relacionar a distribui&ccedil;&atilde;o <i>global</i> dessas unidades com factores propriamente geogr&aacute;ficos e com a configura&ccedil;&atilde;o estrutural do povoamento na regi&atilde;o, o que explica em larga medida as manchas de maior e menor concentra&ccedil;&atilde;o; e (ii) no tempo curto e na escala micro-regional (ou mesmo local, nos casos em que a informa&ccedil;&atilde;o for suficientemente abundante para isso), que permitem relacionar a distribui&ccedil;&atilde;o <i>conjuntural</i> dessas unidades com o duplo processo de organiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o e de constru&ccedil;&atilde;o da respectiva mem&oacute;ria documental, que poder&aacute; ter sido dominado mas n&atilde;o foi certamente monopolizado pela iniciativa senhorial.</p>     <p>No segundo apartado, cabe um amplo conjunto de vari&aacute;veis relacionadas com a morfologia das unidades. Partindo da an&aacute;lise sem&acirc;ntica levada a cabo na segunda parte do trabalho, que permitiu definir o quadro amplo de significados de cada termo e a respectiva pragm&aacute;tica (com destaque para a sua utiliza&ccedil;&atilde;o em contextos formulares ou n&atilde;o-formulares dos documentos), atentar-se-&aacute;: (i) nos elementos de designa&ccedil;&atilde;o das unidades de cada tipo (antropon&iacute;micos, topon&iacute;micos, hagiotopon&iacute;micos, topogr&aacute;ficos, refer&ecirc;ncias a propriet&aacute;rios/usufrutu&aacute;rios anteriores e/ou atuais, etc.), que dizem muito sobre a sua morfologia; (ii) na integra&ccedil;&atilde;o espacial dessas unidades, tanto do ponto de vista f&iacute;sico (em paisagens concretas) como social (no quadro de malhas territoriais, de cariz administrativo ou simplesmente de dom&iacute;nio); (iii) na estrutura interna das unidades, o que obriga a considerar o conjunto dos componentes que elas podem integrar (e n&atilde;o apenas do ponto de vista f&iacute;sico: por vezes a integra&ccedil;&atilde;o &eacute; estritamente funcional ou mesmo patrimonial), bem como as possibilidades de combina&ccedil;&atilde;o entre os diferentes tipos de componentes e respectivos mecanismos de articula&ccedil;&atilde;o (tamb&eacute;m espacial, funcional e patrimonial).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por fim, num terceiro apartado, para o qual n&atilde;o recolhemos ainda dados nesta fase, cabem duas vari&aacute;veis associadas &agrave; morfologia propriamente social das unidades e, em particular, &agrave; sua &#8220;atribui&ccedil;&atilde;o social&#8221; (no&ccedil;&atilde;o proposta por J. &Aacute;. Garc&iacute;a de Cort&aacute;zar e aperfei&ccedil;oada por E. Pe&ntilde;a Bocos<sup><a href="#6">6</a></sup><a name="top6"></a>, que d&aacute; bem conta da imensa variedade de formas de dom&iacute;nio sobre o espa&ccedil;o): (i) a cadeia de transmiss&atilde;o da titularidade sobre as unidades espaciais e (ii) o conjunto de imposi&ccedil;&otilde;es que sobre elas reca&iacute;am.</p>     <p>A &#8220;densidade&#8221; da informa&ccedil;&atilde;o espacial recolhida segundo a metodologia aqui proposta, que abrange a totalidade das unidades espaciais documentadas e percorre toda a tessitura da escala espacial e morfol&oacute;gica (desde um mero marco f&iacute;sico de delimita&ccedil;&atilde;o aos grandes territ&oacute;rios diocesanos), &eacute; suficiente para garantir a possibilidade de as referidas an&aacute;lises monogr&aacute;ficas se conjugarem numa vis&atilde;o global capaz de superar a fragmenta&ccedil;&atilde;o a que uma metodologia t&atilde;o exaustiva quanto poss&iacute;vel de recolha de dados obrigou. Mas que, como contrapartida, devolve um manancial de informa&ccedil;&atilde;o sobre cada unidade que n&atilde;o &eacute; s&oacute; abundante como tem a virtude de estar rigorosamente referenciado, tanto do ponto de vista cronol&oacute;gico (uma vez que todo e qualquer dado est&aacute; indexado ao exato documento que o menciona) como geogr&aacute;fico (dentro, obviamente, das possibilidades de referencia&ccedil;&atilde;o oferecidas pelos documentos). Ser&aacute; assim poss&iacute;vel, a partir do momento em que esse manancial de informa&ccedil;&atilde;o tenha sido minimamente tratado e analisado numa perspetiva monogr&aacute;fica, avan&ccedil;ar para o estudo <i>global </i>da organiza&ccedil;&atilde;o da paisagem e do povoamento no quadro regional definido.</p>     <p>No que respeita ao povoamento, esse estudo poder&aacute; conduzir-se em dois planos, a que correspondem tamb&eacute;m duas escalas espaciais diferenciadas: (i) enquanto <i>processo</i> de ocupa&ccedil;&atilde;o e organiza&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio, o povoamento remete para as escalas regional e micro-regional, em que a informa&ccedil;&atilde;o recolhida permitir&aacute; analisar vari&aacute;veis como: (a) a distribui&ccedil;&atilde;o espacial dos n&uacute;cleos de povoamento, os n&iacute;veis de densidade dessa distribui&ccedil;&atilde;o (definidos pelo r&aacute;cio entre a quantidade de n&uacute;cleos e a &aacute;rea pela qual se distribuem) e as &aacute;reas de maior e menor concentra&ccedil;&atilde;o (definidas pela combina&ccedil;&atilde;o entre a quantidade, a localiza&ccedil;&atilde;o e a densidade dos n&uacute;cleos); e (b) as redes de povoamento e de ocupa&ccedil;&atilde;o/articula&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o (definidas pela distribui&ccedil;&atilde;o/hierarquiza&ccedil;&atilde;o espacial dos n&uacute;cleos habitados em cada momento), o que inclui as malhas de enquadramento pol&iacute;tico-administrativo das popula&ccedil;&otilde;es; (ii) enquanto <i>configura&ccedil;&atilde;o</i> espacial e morfol&oacute;gica do habitat (que &eacute; j&aacute;, note-se, um sector da paisagem), o povoamento remete para duas escalas e duas vari&aacute;veis distintas, que a informa&ccedil;&atilde;o compulsada poder&aacute; tamb&eacute;m ajudar a analisar, embora entremos aqui num dom&iacute;nio eminentemente material em que os dados colhidos na documenta&ccedil;&atilde;o escrita s&oacute; adquirem pleno sentido quando reunidos com o registo arqueol&oacute;gico: (a) a primeira dessas vari&aacute;veis a estudar, numa escala supralocal, s&atilde;o os padr&otilde;es da distribui&ccedil;&atilde;o espacial do habitat (dispers&atilde;o, dispers&atilde;o intercalar, aglomera&ccedil;&atilde;o; modalidades de implanta&ccedil;&atilde;o topogr&aacute;fica dos n&uacute;cleos, etc.), aquilo a que os arque&oacute;logos chamam &#8220;padr&otilde;es de povoamento/assentamento&#8221;; (b) a segunda, que se concretiza &agrave; escala local, prende-se com a morfologia interna dos n&uacute;cleos de habitat e a respectiva inscri&ccedil;&atilde;o na paisagem envolvente (n&uacute;cleos aglomerados/alveolares/dispersos, abertos/fechados, de plano organizado/org&acirc;nico, etc.).</p>     <p>Por outro lado, a informa&ccedil;&atilde;o espacial recolhida segundo a metodologia proposta apresenta ainda consider&aacute;veis potencialidades para o estudo da paisagem, entendida como o produto material da interac&ccedil;&atilde;o entre o meio-ambiente e a a&ccedil;&atilde;o humana no tempo, um fen&oacute;meno que implica sobretudo uma an&aacute;lise &agrave; escala local (quando n&atilde;o mesmo micro-local), em que essa interac&ccedil;&atilde;o afinal se concretiza. Neste sentido, e embora a abundante informa&ccedil;&atilde;o reunida sobre unidades de paisagem permita tra&ccedil;ar algumas considera&ccedil;&otilde;es &#8211; fragment&aacute;rias, &eacute; certo &#8211; sobre a preval&ecirc;ncia deste ou daquele tipo de paisagem &agrave; escala regional ou micro-regional, o contributo essencial de uma informa&ccedil;&atilde;o &#8220;densa&#8221; como a que foi poss&iacute;vel compilar verifica-se ao n&iacute;vel da reconstitui&ccedil;&atilde;o local de paisagens concretas, no quadro de estudos de caso. Este &eacute;, por excel&ecirc;ncia, o dom&iacute;nio da an&aacute;lise contextual, que obriga a integrar e cruzar todos os dados dispon&iacute;veis sobre o conjunto das unidades (dos mais variados tipos) identificadas num determinado lugar. E implica, desde logo, a combina&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o proveniente do registo escrito com a que resulta do registo arqueol&oacute;gico e paleoambiental, mas tamb&eacute;m com as perspetivas abertas pela geografia hist&oacute;rica, a partir sobretudo da an&aacute;lise regressiva de fontes escritas e cartogr&aacute;ficas posteriores ao per&iacute;odo em causa. Tudo com vista ao melhor conhecimento de uma realidade que &eacute; eminentemente material, e que os textos s&oacute; parcialmente podem revelar.</p>     <p>Por &uacute;ltimo, e ultrapassando j&aacute; o dom&iacute;nio das <i>bases materiais</i> da organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o, a informa&ccedil;&atilde;o espacial que foi poss&iacute;vel recolher revela-se particularmente importante para o estudo da organiza&ccedil;&atilde;o territorial, entendida aqui como processo de articula&ccedil;&atilde;o sociopol&iacute;tica do espa&ccedil;o. A convers&atilde;o do espa&ccedil;o em <i>territ&oacute;rio</i> acontece precisamente por via da sua integra&ccedil;&atilde;o em malhas (e escalas) muito diversas de dom&iacute;nio, que se estendem entre a pequena unidade residencial e/ou de explora&ccedil;&atilde;o, articulando um conjunto de parcelas agr&aacute;rias e direitos de explora&ccedil;&atilde;o sobre espa&ccedil;os incultos e outros recursos, at&eacute; &agrave;s grandes circunscri&ccedil;&otilde;es integradas nas malhas eclesi&aacute;sticas ou <i>civis</i> de administra&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio. Passando obviamente pelas omnipresentes <i>villae</i> e outras unidades territoriais de &acirc;mbito local que enquadram a apropria&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o pelas comunidades de aldeia e constituem os marcos por excel&ecirc;ncia de articula&ccedil;&atilde;o entre os setores-chave da paisagem rural: o habitat e o espa&ccedil;o agr&aacute;rio.</p>     <p>A preocupa&ccedil;&atilde;o dominante neste trabalho com as <i>bases materiais</i> da organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o explica, finalmente, a possibilidade de essa investiga&ccedil;&atilde;o sobre a paisagem e o povoamento do territ&oacute;rio bracarense aqui iniciada vir a utilizar os dados recolhidos sobre a morfologia das diversas unidades espaciais com vista ao desenho da evolu&ccedil;&atilde;o daqueles dois setores-chave da paisagem minhota: o espa&ccedil;o agr&aacute;rio e o habitat. Adoptando uma l&oacute;gica mais selectiva de an&aacute;lise desses dados, que obriga a conjugar o tratamento quantitativo de algumas vari&aacute;veis com o exame de determinados indicadores de natureza qualitativa, a investiga&ccedil;&atilde;o ser&aacute; assim conduzida a dois problemas maiores identificados pela historiografia europeia no per&iacute;odo aqui em estudo: (i) o crescimento agr&aacute;rio e (ii) a <i>cristaliza&ccedil;&atilde;o</i> de uma rede de aldeias, tendencialmente polinucleares no caso da regi&atilde;o em an&aacute;lise. Para mais, estes problemas permitem superar um enfoque estritamente <i>materialista</i>, deslocado quando se toma como base exclusiva este tipo de fontes, para perspetivar as rela&ccedil;&otilde;es biun&iacute;vocas que se estabelecem entre o espa&ccedil;o f&iacute;sico e as estruturas sociais de poder que o organizam, claramente o dom&iacute;nio do real que a documenta&ccedil;&atilde;o escrita melhor capta. Chegada a este ponto, a investiga&ccedil;&atilde;o ter&aacute; atingido plenamente o patamar para o qual foi desenhada: o estudo das <i>bases materiais</i> da organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO </b></p>     <p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <!-- ref --><p>MARQUES, Andr&eacute; Evangelista &#8211; &#8220;Apresenta&ccedil;&atilde;o de Tese / Thesis Presentation. <i>Paisagem e povoamento: da representa&ccedil;&atilde;o documental &agrave; materialidade do espa&ccedil;o no territ&oacute;rio da diocese de Braga (s&eacute;culos IX a XI). Ensaio metodol&oacute;gico</i>. Tese de Doutoramento em Hist&oacute;ria Medieval apresentada &agrave; Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Dezembro 2013. Orienta&ccedil;&atilde;o do Professor Doutor Lu&iacute;s Carlos Amaral (U. Porto) e coorienta&ccedil;&atilde;o do Professor Doutor Jos&eacute; &Aacute;ngel Garc&iacute;a de Cort&aacute;zar (U. Cant&aacute;bria)&#8221;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm;15, (Janeiro - Junho 2014). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA15/marques1510.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA15/marques1510.html</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000062&pid=S1646-740X201400010001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     <p><Sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></Sup> Reproduz-se aqui, com alguns desenvolvimentos, o texto de apresenta&ccedil;&atilde;o da tese em provas p&uacute;blicas, realizadas no dia 11 de Dezembro de 2012. A tese est&aacute; dispon&iacute;vel no <i>Reposit&oacute;rio Aberto</i> da U. Porto: <a href="http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/67231"target="_blank">http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/67231</a>, ainda que sem os Ap&ecirc;ndices I e II, que constavam de um CD-ROM na vers&atilde;o original. Esta lacuna foi entretanto suprida pela publica&ccedil;&atilde;o aut&oacute;noma, no mesmo <i>Reposit&oacute;rio</i>, dos principais m&oacute;dulos da base de dados que resultou da investiga&ccedil;&atilde;o: MARQUES, Andr&eacute; Evangelista; DAVID, Gabriel &#8211; <i>Base de dados Paisagem e Povoamento (diocese de Braga, S&eacute;culos IX-XI)</i>. 2013 [dispon&iacute;vel em: <a href="http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/69259"target="_blank">http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/69259</a>. Uma vers&atilde;o revista da tese ser&aacute; publicada em 2014 na colec&ccedil;&atilde;o &laquo;Teses Universit&aacute;rias&raquo;, coeditada pelas Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento e pelo CITCEM.</p>     <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> MARQUES, Andr&eacute; Evangelista &#8211; <i>O </i>casal<i>: uma unidade de organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o no Entre-Douro-e-Lima (906-1200)</i>. Noia, Corunha: Editorial Toxosoutos, 2008, <i>maxime </i>p. 21-32, 257-64.</p>     <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> &Eacute; evidente a filia&ccedil;&atilde;o do nosso trabalho no quadro te&oacute;rico-metodol&oacute;gico desenvolvido por J. &Aacute;. Garc&iacute;a de Cort&aacute;zar para o estudo da <i>organiza&ccedil;&atilde;o social do espa&ccedil;o</i> no quadrante NO da Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica, entre os s&eacute;culos VIII e XIII. Sobre este quadro, v. o conjunto de artigos reunidos em GARC&Iacute;A DE CORT&Aacute;ZAR, Jos&eacute; &Aacute;ngel &#8211; <i>Sociedad y organizaci&oacute;n del espacio en la Espa&ntilde;a medieval</i>. Granada: Editorial Universidad de Granada, 2004.</p>     <p><Sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></Sup> Sobre as limita&ccedil;&otilde;es que ainda hoje se levantam ao mero invent&aacute;rio (e que dizer da an&aacute;lise diplom&aacute;tica propriamente dita?) do conjunto dos diplomas altimedievais conservados nos arquivos portugueses, v. MARQUES, Andr&eacute; Evangelista &#8211; &laquo;Para um invent&aacute;rio da documenta&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica anterior a 1101 conservada em arquivos portugueses&raquo;. In Beatriz Ar&iacute;zaga Bolumburu <i>et alii</i> (eds.) &#8211; <i>Mundos Medievales. Espacios, sociedades y poder. Homenaje al Profesor Jos&eacute; &Aacute;ngel Garc&iacute;a de Cort&aacute;zar y Ruiz de Aguirre</i>. Santander: Editorial de la Universidad de Cantabria, 2012, t. I, p. 705-718.</p>     <p><Sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></Sup> Toda a informa&ccedil;&atilde;o relativa aos documentos analisados e &agrave;s unidades identificadas (recolhida nos m&oacute;dulos <i>Documentos </i>e <i>Unidades</i> da base de dados) vai disponibilizada, respectivamente, nos Ap&ecirc;ndices I e II da disserta&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><Sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></Sup> PE&Ntilde;A BOCOS, Esther &#8211; <i>La atribuci&oacute;n Social del Espacio en la Castilla Altomedieval. Una Nueva Aproximaci&oacute;n al Feudalismo Peninsular</i>. Santander: Universidad de Cantabria, Asamblea Regional de Cantabria, 1995.</p>       ]]></body><back>
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<numero>15^sJaneiro - Junho 2014</numero>
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