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<publisher-name><![CDATA[Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Roger Machado, um português ao serviço dos primeiros soberanos Tudor]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The article analyses the life and diplomatic activity of Roger Machado, the Portuguese diplomat who served the English kings between the late XVth and the early XVIth centuries. The main focus is placed upon the diaries written by himself as testimony of the embassy of 1490 to the Catholic Kings of Spain and João II of Portugal. The documents are framed within the diplomatic relations of these countries and can be of use to shed light over the daily life of late medieval diplomacy.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>     <p><b>Roger Machado, um portugu&ecirc;s ao servi&ccedil;o dos primeiros soberanos Tudor.</b></p>     <p><b>Francisco Leit&atilde;o<sup>*</sup></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><sup>*</sup>University of Cambridge, Faculty of History, CB3 9EF, Cambridge, United Kingdom.<i> E-mail</i>: <a href="mailto:francisco.leitao@gmail.com">francisco.leitao@gmail.com</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>O artigo analisa a vida e actividade diplom&aacute;tica de Roger Machado, diplomata portugu&ecirc;s que serviu os reis ingleses entre o final do s&eacute;culo XV e o in&iacute;cio do seguinte. O maior destaque &eacute; dado aos di&aacute;rios escritos pelo pr&oacute;prio como testemunho das embaixadas levadas junto aos Reis Cat&oacute;licos e a Jo&atilde;o II de Portugal. Os documentos s&atilde;o contextualizados no quadro das rela&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas existentes entre os tr&ecirc;s pa&iacute;ses.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Roger Machado; diplomacia medieval; rela&ccedil;&otilde;es anglo-portuguesas; rela&ccedil;&otilde;es anglo-espanholas</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>The article analyses the life and diplomatic activity of Roger Machado, the Portuguese diplomat who served the English kings between the late XVth and the early XVIth centuries. The main focus is placed upon the diaries written by himself as testimony of the embassy of 1490 to the Catholic Kings of Spain and Jo&atilde;o II of Portugal. The documents are framed within the diplomatic relations of these countries and can be of use to shed light over the daily life of late medieval diplomacy.</p>     <p><b>Keywords:</b> Roger Machado; medieval diplomacy; Anglo-Portuguese relations; Anglo-Spanish relations</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Pre&acirc;mbulo</b></p>     <p>&quot;The past is a foreign country: they do things differently there.&quot; Assim come&ccedil;a o romance <i>The Go-Between </i>(1953), de L. P. Hartley (1895-1972). Mesmo destitu&iacute;da do sentido liter&aacute;rio, a frase &eacute; suscept&iacute;vel de promover profundo debate historiogr&aacute;fico sobre a nossa percep&ccedil;&atilde;o de <i>estrangeiro</i> e <i>passado</i>. A segunda parte da frase &eacute;, contudo, mais consensual no sentido em que os h&aacute;bitos de qualquer sociedade t&ecirc;m algo de &uacute;nico e original, tanto quando comparados com o passado que est&aacute; para tr&aacute;s como com o estrangeiro que est&aacute; ao lado. Nesse sentido, estrangeiros e historiadores partilham a condi&ccedil;&atilde;o de serem alheios a qualquer determinada sociedade e de fazerem as coisas de modo diferente, com, pelo menos, uma diferen&ccedil;a fundamental: o estrangeiro pode contactar directamente com tal sociedade. O presente artigo reflecte sobre uma fonte cujo autor partilhou uma amb&iacute;gua condi&ccedil;&atilde;o de estrangeiro, mas nativo, face ao Portugal medieval. Os seus di&aacute;rios podem oferecer interessantes contributos por testemunharem o encontro directo de algu&eacute;m que, tal como o historiador moderno, esteve na posi&ccedil;&atilde;o de observador externo.</p>     <p>T&ecirc;m passado despercebidas &agrave; historiografia portuguesa a vida e carreira de Roger Machado, diplomata que, ao servi&ccedil;o dos reis ingleses entre o final do s&eacute;culo XV e o in&iacute;cio do s&eacute;culo XVI, participou em diversas embaixadas a v&aacute;rias cortes europeias. O assunto tamb&eacute;m n&atilde;o tem sido tratado em nenhum outro pa&iacute;s tocado pela vida deste diplomata. S&atilde;o particularmente relevantes os di&aacute;rios por ele escritos sobre a embaixada inglesa a Castela e Portugal em 1489, na qual Machado participou e que n&atilde;o t&ecirc;m merecido aten&ccedil;&atilde;o<a name="top1"></a><sup><a href="#1">1</a></sup>.</p>     <p>Tendo o autor destas linhas constatado tal lacuna no contexto de uma investiga&ccedil;&atilde;o mais ampla, o presente artigo contribui para suprir tal vazio. O texto &eacute; assumidamente descritivo mas pretende, por um lado, dar a conhecer uma fonte negligenciada e, por outro, fornecer algum contexto que facilite a sua utiliza&ccedil;&atilde;o e compreens&atilde;o.</p>     <p>O artigo come&ccedil;a por contextualizar o per&iacute;odo no que toca &agrave; diplomacia inglesa, ao servi&ccedil;o da qual Roger Machado trabalhou. Num segundo momento, s&atilde;o dedicadas algumas ideias &agrave; vida de Machado e, finalmente, num terceiro s&atilde;o abordados os di&aacute;rios de viagens escritos pelo pr&oacute;prio. Neste &uacute;ltimo t&oacute;pico, ser&aacute; dada particular aten&ccedil;&atilde;o &agrave; embaixada que visitou as cortes dos Reis Cat&oacute;licos e de D. Jo&atilde;o, descrevendo o percurso seguido, de acordo com o relato do pr&oacute;prio Machado.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>A diplomacia inglesa nos primeiros anos de Henrique VII</b></p>     <p>&Eacute; prov&aacute;vel que a viagem que levou Henrique VII a Londres para ser coroado rei de Inglaterra, em 1485, tenha sido apenas a sua segunda visita &agrave; capital do reino. O novo monarca tinha nascido no castelo de Pembroke, uma zona isolada de Gales, e vivido grande parte da sua vida num ex&iacute;lio prec&aacute;rio, permanecendo um distante pretendente ao trono at&eacute; &agrave; improv&aacute;vel vit&oacute;ria militar de Bosworth Field, que lhe valeu o reino<a name="top2"></a><sup><a href="#2">2</a></sup>.</p>     <p>Sem qualquer relevante experi&ecirc;ncia de lideran&ccedil;a ou gest&atilde;o e desconhecedor do reino que tinha nas m&atilde;os, Henrique era n&atilde;o s&oacute; um dos mais improv&aacute;veis reis da hist&oacute;ria medieval inglesa, mas, muito possivelmente, o pior preparado<a name="top3"></a><sup><a href="#3">3</a></sup>. Ao contr&aacute;rio dos seus antecessores, que tinham mantido grandes ambi&ccedil;&otilde;es no continente, para Henrique VII o desafio primordial era &oacute;bvio e modesto: sobreviver no trono e criar uma dinastia<a name="top4"></a><sup><a href="#4">4</a></sup>.</p>     <p>A favor do novo monarca estiveram os mesmos factores que tinham tornado poss&iacute;vel a sua ascens&atilde;o: a Inglaterra era um reino exausto por dezenas de anos de guerras internas, culminadas com um impopular e violento reinado de Ricardo III e cuja popula&ccedil;&atilde;o ansiava por tranquilidade; a viol&ecirc;ncia dos anos anteriores tinha dizimado as mais importantes fam&iacute;lias e a aristocracia tinha um poder fortemente debilitado, incapaz de rivalizar com o monarca; <i>last but not least</i>, de todas as fam&iacute;lias, a real tinha sido a mais atingida e Henrique VII era, finalmente, um rei ingl&ecirc;s sem rivais cred&iacute;veis.</p>     <p>Bafejado pela sorte, o novo monarca poderia ter feito de <i>what we have, we hold </i>o mote do seu governo, particularmente nos anos a que este estudo se refere. Marcado pelos dif&iacute;ceis anos do ex&iacute;lio e rei de uma terra desconhecida, Henrique foi tido como sendo um governante desconfiado e avaro, mas esses tra&ccedil;os permitiram dominar a nobreza e estabelecer, de forma sustentada, a paz e uma nova dinastia.</p>     <p>A pol&iacute;tica externa de Henrique submeteu-se a tais objectivos<a name="top5"></a><sup><a href="#5">5</a></sup>. Henrique VII sabia bem, por experi&ecirc;ncia pr&oacute;pria, quantas vezes tinham as dinastias inglesas sucumbido perante pretendentes vindos do e apoiados no continente. O monarca inverteu completamente a pol&iacute;tica externa plantageneta e encaminhou o reino para que este se transformasse de pot&ecirc;ncia continental em mar&iacute;tima. Uma pol&iacute;tica defensiva que cumpriu a necessidade de evitar apoio externo a qualquer revolta e possibilitou a estabilidade ambicionada.</p>     <p>A embaixada relatada neste artigo data de 1489, poucos anos volvidos desde a tomada do poder e segue a l&oacute;gica acima mencionada. Este momento da diplomacia inglesa &eacute; marcado pela necessidade de Henrique VII ser reconhecido como rei pelos seus pares europeus e pelo apoio &agrave; Bretanha na sua falhada luta contra a anexa&ccedil;&atilde;o francesa. Apesar de ter sido apoiado pelos franceses em 1485 e de n&atilde;o desejar qualquer conflito externo, Henrique estava tamb&eacute;m em d&iacute;vida para com a Bretanha, onde tinha estado exilado, e receava as consequ&ecirc;ncias econ&oacute;micas e pol&iacute;ticas da anexa&ccedil;&atilde;o<a name="top6"></a><sup><a href="#6">6</a></sup>.</p>     <p>Os Reis Cat&oacute;licos surgiram como natural aliado para tal pol&iacute;tica e a viagem diplom&aacute;tica &agrave;s cortes ib&eacute;ricas pretendia consolidar alian&ccedil;as com o intuito de conter o tal expansionismo franc&ecirc;s<a name="top7"></a><sup><a href="#7">7</a></sup>. O desfecho da <i>Guerra das Rosas</i> tinha feito gorar a hip&oacute;tese de um casamento entre Ricardo III e a princesa Joana, irm&atilde; de Jo&atilde;o II, que teria reafirmado as boas rela&ccedil;&otilde;es entre os pa&iacute;ses, mas Henrique VII iria recorrer a outro matrim&oacute;nio para refor&ccedil;ar a rela&ccedil;&atilde;o anglo-espanhola. <i>Grosso modo</i>, o tratado assinado em Medina del Campo previa a alian&ccedil;a contra a Fran&ccedil;a, vantagens econ&oacute;micas entre as duas partes e o casamento entre Catarina de Arag&atilde;o e Artur, filho do rei ingl&ecirc;s<a name="top8"></a><sup><a href="#8">8</a></sup>. Contudo, as complicadas vicissitudes da pol&iacute;tica europeia da &uacute;ltima d&eacute;cada do s&eacute;culo viriam a inibir a consubstancia&ccedil;&atilde;o de grande parte do tratado.</p>     <p>Portugal tinha para Henrique VII uma import&acirc;ncia bem mais residual. O pa&iacute;s tinha sido um &uacute;til aliado para a pol&iacute;tica expansionista inglesa do s&eacute;culo anterior e um contraponto &agrave; alian&ccedil;a entre Castela e Fran&ccedil;a, mas a nova pol&iacute;tica defensiva tornava Portugal num elemento menor para a diplomacia inglesa<a name="top9"></a><sup><a href="#9">9</a></sup>. N&atilde;o obstante, Henrique VII precisava do reconhecimento dos seus pares e n&atilde;o tinha raz&atilde;o para n&atilde;o procurar cimentar a paz entre os dois pa&iacute;ses. Com o avan&ccedil;ar do reinado, crescer&aacute; no monarca ingl&ecirc;s a curiosidade pelo Atl&acirc;ntico e o interesse pela actividade portuguesa, mas, diplomaticamente, os Tudor raramente prestaram grande aten&ccedil;&atilde;o a Portugal. A embaixada de 1489 completou tamb&eacute;m um tratado cuja simplicidade atesta as reduzidas ambi&ccedil;&otilde;es que a alian&ccedil;a tinha &agrave; data<a name="top10"></a><sup><a href="#10">10</a></sup>.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Um portugu&ecirc;s ao servi&ccedil;o de Henrique VII</b></p>     <p>Como tantas vezes acontece com personagens cujo nome cresceu ao longo da vida, os primeiros anos de Roger Machado s&atilde;o, e provavelmente para sempre ser&atilde;o, para n&oacute;s desconhecidos. Grande parte dos documentos citados ao longo dos pr&oacute;ximos par&aacute;grafos s&atilde;o h&aacute; muito conhecidos e t&ecirc;m servido para caracterizar a vida de Machado mas o recente trabalho de Gemma Watson traz um par de novas ideias das quais se destaca a possibilidade de participa&ccedil;&atilde;o na revolta de Buckingham e a confirma&ccedil;&atilde;o da sua origem portuguesa<a name="top11"></a><sup><a href="#11">11</a></sup>.</p>     <p>&Eacute; imposs&iacute;vel determinar o pa&iacute;s ou a data do seu nascimento. A identidade portuguesa pode ser atribu&iacute;da a partir do nome <i>Machado</i>, que indica uma origem ib&eacute;rica, mais confirmada pelo uso do bras&atilde;o de fam&iacute;lia com os cinco machados dispostos em 2-1-2, que pode ser consultado nos registos ingleses<a name="top12"></a><sup><a href="#12">12</a></sup>. Os di&aacute;rios de viagem e a maior parte das fontes escritas pelo pr&oacute;prio que nos chegaram encontram-se em franc&ecirc;s e t&ecirc;m origem em Inglaterra ou na Flandres, mas sobrevive um rascunho pessoal relativo ao com&eacute;rcio de vinho escrito em portugu&ecirc;s<a name="top13"></a><sup><a href="#13">13</a></sup>. Desses elementos se pode inferir uma vida com origem portuguesa, mas passada longe da p&aacute;tria. Fado, afinal, t&atilde;o portugu&ecirc;s.</p>     <p>A primeira pista que podemos encontrar relativamente ao nosso homem foi identificada por Oliveira Marques, que localiza um <i>Rui</i> <i>Machado</i> na col&oacute;nia portuguesa de Bruges, quando corria o ano de 1455<a name="top14"></a><sup><a href="#14">14</a></sup>. A tradu&ccedil;&atilde;o de Rui para Roger &eacute; directa e, sabendo que o ano da morte do diplomata foi 1510, &eacute; prov&aacute;vel que se trate do pr&oacute;prio ou de um familiar, possivelmente o pai. Conv&eacute;m ter em conta que Machado seria repetidamente localizado na Flandres ao longo da vida e, mesmo na eventualidade de se tratar do progenitor, podemos assumir que um seguramente jovem Roger Machado n&atilde;o estaria muito longe. &Eacute; imposs&iacute;vel determinar o local de nascimento, mas parece razo&aacute;vel aceitar que, com ou sem fam&iacute;lia, um jovem Roger Machado estaria em Bruges em 1455, inserido na rede de com&eacute;rcio internacional.</p>     <p>At&eacute; aos finais da d&eacute;cada de 70 desse s&eacute;culo, temos apenas uma nota, referindo um pagamento recebido no ver&atilde;o de 1471 e que localiza j&aacute; Machado em Inglaterra<a name="top15"></a><sup><a href="#15">15</a></sup>. Gemma Watson discute a possibilidade de o portugu&ecirc;s ter sido atra&iacute;do para Inglaterra pela comitiva que rodeou o exilado Eduardo IV na Flandres e voltou ao pa&iacute;s de origem no in&iacute;cio de 1471<a name="top16"></a><sup><a href="#16">16</a></sup>. Machado estaria j&aacute; bem colocado no reino, pois a tal nota refere-o como <i>arauto</i><a name="top17"></a><sup><a href="#17">17</a></sup> e documenta&ccedil;&atilde;o ligeiramente mais tardia reitera m&uacute;ltiplas vezes que teve a dignidade de <i>Leicester Herald</i> at&eacute; 1483<a name="top18"></a><sup><a href="#18">18</a></sup>. A posi&ccedil;&atilde;o de relativo prest&iacute;gio sugere que Machado tenha chegado a Inglaterra antes de 1471, mas tal suposi&ccedil;&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel de comprovar.</p>     <p>Entre 1483 e 1485, Roger Machado parece desaparecer das fontes inglesas, o que pode ser explicado por uma d&iacute;vida contra&iacute;da e pela qual falhou em comparecer em tribunal ou por uma poss&iacute;vel participa&ccedil;&atilde;o na rebeli&atilde;o de Buckingham que teve lugar em Inglaterra e cujo fracasso o teria obrigado a um breve ex&iacute;lio<a name="top19"></a><sup><a href="#19">19</a></sup>. Os documentos deste per&iacute;odo (entre os quais o escrito em portugu&ecirc;s) n&atilde;o permitem determinar a sua localiza&ccedil;&atilde;o, mas no in&iacute;cio de 1485 estava na Flandres e poucos meses depois voltava a Inglaterra para ser promovido a <i>Norroy King of Arms</i><a name="top20"></a><sup><a href="#20">20</a></sup>.</p>     <p>A partir deste momento, a vida de Roger Machado estabiliza e servir&aacute; sucessivos reis ingleses at&eacute; &agrave; sua morte, em 1510. Neste intervalo ser&aacute; elevado a <i>Clarenceux King of Arms</i> (1494)<a name="top21"></a><sup><a href="#21">21</a></sup> e recusar&aacute; subir ao topo da carreira quando &eacute; proposto para <i>Garter Principal King of Arms </i>(1505)<a name="top22"></a><sup><a href="#22">22</a></sup>. O <i>College of Arms,</i> cujos cargos mais elevados Roger Machado ocupou, tinha sido fundado apenas em 1484 e estava ainda numa fase de instala&ccedil;&atilde;o e evolu&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria, o que talvez ajude a explicar como algu&eacute;m vindo de fora tenha subido t&atilde;o rapidamente a cargos de tal responsabilidade.</p>     <p>Henrique VII &eacute; descrito por Polidoro Virg&iacute;lio como sendo hospitaleiro e generoso com os estrangeiros, n&atilde;o se inibindo de lhes conceder privil&eacute;gios<a name="top23"></a><sup><a href="#23">23</a></sup>. O regresso do ex&iacute;lio e a sua ascens&atilde;o ao trono abriram portas a v&aacute;rios estrangeiros que se foram instalando e progredindo na corte inglesa. John Guy aponta tr&ecirc;s grupos de onde o monarca escolheu os seus principais servidores: os seus companheiros do ex&iacute;lio na Bretanha; aqueles que o tinham apoiado na batalha de Bosworth Field; os participantes da revolta de Buckingham em 1483<a name="top24"></a><sup><a href="#24">24</a></sup>. &Eacute; poss&iacute;vel que Machado pertencesse tanto ao primeiro como ao segundo grupo e &eacute; certo teve contactos com pessoas que seriam facilmente abrangidas por estes crit&eacute;rios<a name="top25"></a><sup><a href="#25">25</a></sup>. O contexto propiciou a Machado um meio favor&aacute;vel para a sua impressionante ascens&atilde;o no estrangeiro<a name="top26"></a><sup><a href="#26">26</a></sup>.</p>     <p>Os membros mais elevados do <i>College of Arms</i> eram usados em m&uacute;ltiplas fun&ccedil;&otilde;es. No caso de Roger Machado, a mais relevante foi a de diplomata, actividade que o levou a receber v&aacute;rias embaixadas e, mais relevante ainda, a participar em v&aacute;rias outras que cruzaram a Mancha em dire&ccedil;&atilde;o a muitas das cortes europeias. It&aacute;lia, Fran&ccedil;a, Portugal, Espanha, Dinamarca ou o Imp&eacute;rio Germ&acirc;nico, a todas elas se dirigiu Roger Machado durante aquele quarto de s&eacute;culo. Foi nessa dignidade que mais se notabilizou, deixando importantes registos para o historiador. Sobrevivem instru&ccedil;&otilde;es recebidas do rei para embaixadas em It&aacute;lia, bem como registos pessoais relativos a viagens efectuadas a Espanha, Portugal e Bretanha<a name="top27"></a><sup><a href="#27">27</a></sup>.</p>     <p>Os di&aacute;rios escritos por Machado relatando o progresso da tal embaixada a Espanha e Portugal, bem como de outras duas &agrave; Bretanha, s&atilde;o documentos de grande valor, mas que raramente t&ecirc;m sido utilizados, pese embora a sua publica&ccedil;&atilde;o no j&aacute; long&iacute;nquo ano de 1858<a name="top28"></a><sup><a href="#28">28</a></sup>. Roger Machado foi merecendo espor&aacute;dicas refer&ecirc;ncias na bibliografia inglesa, devido aos cargos desempenhados al&eacute;m-Mancha, mas os trabalhos devotados aos seus di&aacute;rios n&atilde;o esgotam os dedos de uma m&atilde;o, apesar de tocarem as hist&oacute;rias portuguesa, espanhola, francesa e inglesa<a name="top29"></a><sup><a href="#29">29</a></sup>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os di&aacute;rios sobrevivem num manuscrito da colec&ccedil;&atilde;o Arundel pertencente ao <i>College of Arms</i>. S&atilde;o originais de Machado escritos em letra bastante leg&iacute;vel e sem qualquer decora&ccedil;&atilde;o ou imagem<a name="top30"></a><sup><a href="#30">30</a></sup>. N&atilde;o &eacute; clara a finalidade dos textos, pois o rei foi informado dos passos seguidos pela embaixada, mas, atendendo ao seu conte&uacute;do, &eacute; razo&aacute;vel pensar que se tratasse de um rascunho utilizado por Machado com vista a uma posterior impress&atilde;o ou divulga&ccedil;&atilde;o. O relato salta propositadamente todas as quest&otilde;es mais sens&iacute;veis da negocia&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, tornando-se assim inofensiva a sua difus&atilde;o. O manuscrito cont&eacute;m tamb&eacute;m alguns espa&ccedil;os em branco, sugerindo que o autor pretendia melhorar o texto, bem como pequenas incorrec&ccedil;&otilde;es<a name="top31"></a><sup><a href="#31">31</a></sup> que indicam uma escrita posterior &agrave; viagem.</p>     <p>Os di&aacute;rios est&atilde;o escritos num franc&ecirc;s claro, mas n&atilde;o particularmente agrad&aacute;vel, raz&atilde;o pela qual se evitar&aacute; neste texto fazer qualquer cita&ccedil;&atilde;o directa<a name="top32"></a><sup><a href="#32">32</a></sup>. A edi&ccedil;&atilde;o inicial publicou o texto franc&ecirc;s, bem como uma tradu&ccedil;&atilde;o inglesa &agrave; qual se juntou, bem mais recentemente, uma espanhola<a name="top33"></a><sup><a href="#33">33</a></sup>. Neste contexto, uma vers&atilde;o portuguesa n&atilde;o ser&aacute; de imperiosa necessidade, sobretudo considerando que, apesar de n&atilde;o ser f&aacute;cil encontrar as publica&ccedil;&otilde;es nas bibliotecas nacionais, aquelas est&atilde;o dispon&iacute;veis <i>online</i>.</p>     <p>Pelos cuidados tidos por Machado em evitar refer&ecirc;ncias &agrave;s negocia&ccedil;&otilde;es tidas em ambas as cortes, os di&aacute;rios s&atilde;o sobretudo &uacute;teis como testemunho de um viajante medieval, do lado mais pr&aacute;tico da actividade diplom&aacute;tica e da vida nas cortes ib&eacute;ricas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A embaixada de 1489 a Espanha</b></p>     <p>A viagem de 1489 foi precedida de outros contactos diplom&aacute;ticos, nomeadamente de uma embaixada em sentido inverso no ano anterior. Esses espanh&oacute;is acompanhariam o grupo ingl&ecirc;s de Machado na viagem entre Inglaterra e a Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica. Tratava-se de uma miss&atilde;o diplom&aacute;tica espanhola constitu&iacute;da por Rodrigo Gonz&aacute;lez de Puebla<a name="top34"></a><sup><a href="#34">34</a></sup>, Juan de Sep&uacute;lveda<a name="top35"></a><sup><a href="#35">35</a></sup> e Don Martin de Torres<a name="top36"></a><sup><a href="#36">36</a></sup>. Todos eles acompanharam o portugu&ecirc;s na viagem que os descreve como sendo, respectivamente, doutor, cavaleiro e capel&atilde;o<a name="top37"></a><sup><a href="#37">37</a></sup>.</p>     <p>A embaixada inglesa tinha uma composi&ccedil;&atilde;o algo semelhante<a name="top38"></a><sup><a href="#38">38</a></sup>: Thomas Savage<a name="top39"></a><sup><a href="#39">39</a></sup>, formado em Direito, Richard Nanfan, armado cavaleiro para o efeito, e Roger Machado. Nanfan seguiu acompanhado do seu filho bastardo, referido mais adiante pelo portugu&ecirc;s. J&aacute; tinha feito parte de outras embaixadas e seria, assim, um diplomata experimentado e com conhecimento das rela&ccedil;&otilde;es anglo-espanholas. &nbsp;Fica claro pelo di&aacute;rio que, dos tr&ecirc;s, os dois primeiros tinham um papel principal, cabendo ao &uacute;ltimo as quest&otilde;es log&iacute;sticas, a descri&ccedil;&atilde;o da viagem e, presume-se, a tradu&ccedil;&atilde;o entre as diversas l&iacute;nguas<a name="top40"></a><sup><a href="#40">40</a></sup>. &Eacute; f&aacute;cil perceber as raz&otilde;es que levaram &agrave; escolha do portugu&ecirc;s, que estava bem acostumado &agrave;s viagens de mar para o continente e cujo conhecimento de l&iacute;nguas lhe permitia mediar os contactos. Machado, de resto, teria j&aacute; feito parte de uma anterior embaixada, pois na Primavera de 1489 recebe 20 marcos para uma viagem a Portugal<a name="top41"></a><sup><a href="#41">41</a></sup>. No di&aacute;rio, o portugu&ecirc;s omite-se quando lista os embaixadores. Acresce a estes nomes um conjunto de 8 criados que seguiram a comitiva, mas que Roger Machado apenas refere de passagem e sem nenhum tipo de pormenor<a name="top42"></a><sup><a href="#42">42</a></sup>.</p>     <p>Conforme referido, o conjunto dos embaixadores ingleses e espanh&oacute;is deixou a corte rumo a Southampton, de onde partiriam. Zarparam a 19 de Janeiro de 1489, mas rapidamente o mau tempo os for&ccedil;ou a regressar, primeiro a Plymouth e depois a Falmouth, perdendo-se quase um m&ecirc;s com as sucessivas esperas. A atmosfera n&atilde;o deu tr&eacute;guas durante a travessia, que se provou tormentosa e quase fatal. Finalmente, a 16 de Janeiro de 1489, desembarcaram em Laredo, na costa espanhola<a name="top43"></a><sup><a href="#43">43</a></sup>.</p>     <p>Dois aspectos sobressaem da travessia. Em primeiro lugar, &eacute; estranho que tenha sido tentada numa fase do ano claramente impr&oacute;pria, sobretudo se tivermos em conta que os embaixadores espanh&oacute;is j&aacute; estavam em Inglaterra h&aacute; v&aacute;rios meses. &Eacute; prov&aacute;vel que as partes quisessem apressar as negocia&ccedil;&otilde;es do casamento e tenham for&ccedil;ado a viagem. Em segundo lugar, o relato da travessia sublinha como at&eacute; uma viagem relativamente quotidiana pressupunha elevados riscos. Os relatos de viagens est&atilde;o repletos de descri&ccedil;&otilde;es de tempestades, ao ponto de ser question&aacute;vel a real for&ccedil;a das mesmas, mas, tendo Roger Machado consider&aacute;vel experi&ecirc;ncia no mar, &eacute; de crer que a tripula&ccedil;&atilde;o tenha mesmo corrido risco de vida<a name="top44"></a><sup><a href="#44">44</a></sup>. Comparando-se esta primeira travessia com a de retorno, mais longa por ter sido feita a partir de Lisboa, mas em condi&ccedil;&otilde;es meteorol&oacute;gicas muito mais favor&aacute;veis, devido &agrave; &eacute;poca do ano, fica evidente que Machado n&atilde;o tinha por h&aacute;bito reclamar gratuitamente dos desafios postos pelo mar.</p>     <p>Regressados a terra, mais ficam sublinhadas as dificuldades sentidas por qualquer viajante medieval, mesmo aqueles privilegiados e directamente protegidos pelo poder r&eacute;gio. A casa onde deveriam pernoitar estava lotada e Machado viu-se obrigado a deambular em busca de abrigo, o que eventualmente consegue, junto de um velho conhecido de Southampton<a name="top45"></a><sup><a href="#45">45</a></sup>. &Eacute; bem evidente a marca e utilidade de Roger Machado, pois a embaixada prossegue para Burgos, onde &eacute; recebida e hospedada por um grupo de mercadores, assumidamente contactos do portugu&ecirc;s que tinha feito com&eacute;rcio entre Inglaterra e Espanha, e mostra a frequente mistura de rela&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas e diplom&aacute;ticas entre pa&iacute;ses<a name="top46"></a><sup><a href="#46">46</a></sup>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A embaixada ficou em Burgos cerca de uma semana, &agrave; espera de not&iacute;cias dos reis que viriam a garantir as despesas das desloca&ccedil;&otilde;es<a name="top47"></a><sup><a href="#47">47</a></sup>. &Eacute; bem vis&iacute;vel como o tratamento prestado a embaixadores em Castela se tornou substancialmente melhor com a ascens&atilde;o dos Reis Cat&oacute;licos e a estabiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do pa&iacute;s, se compararmos este relato de 1489 com o legado por embaixadas de meados do s&eacute;culo XV<a name="top48"></a><sup><a href="#48">48</a></sup>. O viajante medieval continua exposto a diversos perigos e abundam as descri&ccedil;&otilde;es do desconforto sentido, mas o maior controlo e respeito da autoridade r&eacute;gia dava garantias inexistentes algumas dezenas de anos antes<a name="top49"></a><sup><a href="#49">49</a></sup>.</p>     <p>A viagem prosseguiu depois em direc&ccedil;&atilde;o a Valladolid sem incidentes de maior, exceptuando um curioso epis&oacute;dio de uma hospedeira pouco acolhedora. Chegados &agrave; dita localidade, come&ccedil;aram por ser alojados por um mercador conhecido de Machado. O dito n&atilde;o seria capaz de oferecer muito, pois tinha tido a sua propriedade confiscada e os embaixadores acabaram por procurar nova casa<a name="top50"></a><sup><a href="#50">50</a></sup>. O epis&oacute;dio relativamente insignificante poderia ter grande relev&acirc;ncia se se conseguisse ligar o dito comerciante Ruy Gon&ccedil;alvez de Portilho &agrave;s fam&iacute;lias de conversos, conforme sugerido por Bello Le&oacute;n, mas recente investiga&ccedil;&atilde;o sugere que a quest&atilde;o tenha sido puramente comercial<a name="top51"></a><sup><a href="#51">51</a></sup>. N&atilde;o obstante, &eacute; estranho que Machado tenha viajado por Espanha num tempo de grande tens&atilde;o religiosa sem lhe fazer qualquer refer&ecirc;ncia. Sobre os motivos de tal omiss&atilde;o, podemos somente especular, mas se Gonzalez se tratasse de um converso, esta seria certamente propositada<a name="top52"></a><sup><a href="#52">52</a></sup>.</p>     <p>De Valladolid seguiram para Medina del Campo, onde encontrariam finalmente os reis, mas, pelo caminho, tomaram ainda contacto com uma embaixada de Maximiliano, rei dos Romanos<a name="top53"></a><sup><a href="#53">53</a></sup>. Percebe-se a crescente liga&ccedil;&atilde;o da coroa espanhola &agrave; pol&iacute;tica europeia, que leva a uma prolifera&ccedil;&atilde;o de embaixadas na Pen&iacute;nsula, ao ponto de se cruzarem pelas estradas. Nas imedia&ccedil;&otilde;es da corte, estas embaixadas eram sempre recebidas por representantes do rei, que depois acompanhavam e &ldquo;entretinham&rdquo; os embaixadores. Tamb&eacute;m aqui se denota preocupa&ccedil;&atilde;o dos Reis Cat&oacute;licos em bem receber as visitas, pois a comitiva &eacute; recebida com pompa por diversos bispos, nobres e outros representantes que denotam a import&acirc;ncia dada aos visitantes. Estes s&atilde;o conduzidos aos seus aposentos, exemplarmente preparados<a name="top54"></a><sup><a href="#54">54</a></sup>.</p>     <p>Tr&ecirc;s dias depois, a 14 de Mar&ccedil;o, d&aacute;-se finalmente o encontro com os reis<a name="top55"></a><sup><a href="#55">55</a></sup>. J&aacute; ao anoitecer, as numerosas tochas usadas para iluminar caminho e pal&aacute;cio ter&atilde;o produzido um imponente espect&aacute;culo, coroado pelos pr&oacute;prios monarcas, cujo vestu&aacute;rio causa grande impress&atilde;o em Machado. Predomina o dourado, cor do grande pano que decora a sala e ostenta as armas de Castela e Arag&atilde;o<a name="top56"></a><sup><a href="#56">56</a></sup>. A mesma cor adorna os monarcas: Fernando, vestido num pano de ouro; Isabel, usando uma muito mais complexa combina&ccedil;&atilde;o onde predomina o mesmo tom, mas na qual se destacam tamb&eacute;m pedras preciosas do tamanho de feij&otilde;es e um grande rubi.</p>     <p>A fus&atilde;o de diferentes entidades pol&iacute;ticas cria sempre promessa de um super poder (n&atilde;o necessariamente consubstanciado) e tem um impacte importante nas mentes da &eacute;poca. Os Reis Cat&oacute;licos souberam potenciar essa imagem atrav&eacute;s de um impressionante espect&aacute;culo de poder<a name="top57"></a><sup><a href="#57">57</a></sup>.</p>     <p>&Eacute; particularmente revelador o grande pano dourado que, atrav&eacute;s das armas de Castela-Arag&atilde;o, simboliza a uni&atilde;o dos dois poderes, funcionando como uma visual declara&ccedil;&atilde;o de inten&ccedil;&otilde;es. Roger Machado n&atilde;o era um campon&ecirc;s facilmente impression&aacute;vel, mas, mesmo habituado &agrave; sumptuosa corte inglesa de Henrique VII, n&atilde;o ficou indiferente a esta demonstra&ccedil;&atilde;o de poder. O espect&aacute;culo criado na corte n&atilde;o era inocente e surtia o efeito desejado.</p>     <p>Os embaixadores apresentaram as cartas, beijando as m&atilde;os dos reis como era costume, e sentaram-se &agrave; mesa, ficando Machado atr&aacute;s. A cerim&oacute;nia prosseguiu com um discurso de Savage em latim, ao qual respondeu o bispo de Ciudad Rodrigo<a name="top58"></a><sup><a href="#58">58</a></sup>. O portugu&ecirc;s promete dar o primeiro discurso por escrito, mas acabar&aacute; por n&atilde;o cumprir a promessa; sobre o segundo, diz, humoradamente, que o velho bispo tinha t&atilde;o poucos dentes que n&atilde;o se percebia o que dizia<a name="top59"></a><sup><a href="#59">59</a></sup>. &Eacute; sabida a dificuldade que Catarina de Arag&atilde;o viria a ter para falar com o marido, por terem aprendido pron&uacute;ncias diferentes de latim e &eacute;, portanto, prov&aacute;vel que este tipo de discursos feitos em latim entre embaixadores fosse largamente impercept&iacute;vel para os ouvintes e fizesse somente parte do ritual, sendo o seu conte&uacute;do puramente ret&oacute;rico e algo inconsequente. N&atilde;o seria de admirar que o problema do velho bispo fosse, al&eacute;m da tal falta de dentes, uma pron&uacute;ncia desconhecida para os ingleses.</p>     <p>S&oacute; no dia seguinte foram os embaixadores chamados de novo &agrave; corte para ent&atilde;o se tratarem as quest&otilde;es que motivaram a embaixada<a name="top60"></a><sup><a href="#60">60</a></sup>. Durante uma hora, estiveram reunidos com os reis e embaixadores espanh&oacute;is que tinham regressado. Machado omite por completo dos seus di&aacute;rios o conte&uacute;do das conversas, seguramente o mais relevante do ponto de vista pol&iacute;tico. N&atilde;o &eacute; particularmente surpreendente que o fa&ccedil;a; antes como hoje, a discri&ccedil;&atilde;o &eacute; parte importante do trabalho diplom&aacute;tico<a name="top61"></a><sup><a href="#61">61</a></sup>. A pol&iacute;tica, no caso concreto o casamento em causa, ter&aacute; sido acordado entre os dias 26 e 27, visto que Machado refere uma indecis&atilde;o nesse primeiro dia e acordo total no seguinte. Seria nesse dia assinado o Tratado de Medina del Campo.</p>     <p>A embaixada prossegue com procedimentos comuns a tais situa&ccedil;&otilde;es. Ainda no mesmo dia, os embaixadores encontram-se com o pr&iacute;ncipe e a infanta Isabel, ricamente vestidos tamb&eacute;m eles e acompanhados por um grande n&uacute;mero de membros da corte. No dia seguinte, como era tamb&eacute;m frequente, assistiram &agrave; missa a convite dos reis. O dia encerra com um baile, n&atilde;o menos habitual, e onde, curiosamente, se destaca uma portuguesa, aparentemente favorita da rainha. No dia 22, os embaixadores assistiram a jogos em nova demonstra&ccedil;&atilde;o de ostenta&ccedil;&atilde;o e poder feita pelo casal real que permitiu que os embaixadores assistissem ao espect&aacute;culo na proximidade da fam&iacute;lia real. Machado d&aacute; pormenores dos vestidos dos reis em cada ocasi&atilde;o e da presen&ccedil;a de v&aacute;rias individualidades, apontando, ele mesmo, como os cortes&atilde;os espanh&oacute;is procuravam imitar as modas francesas o mais rigorosamente poss&iacute;vel<a name="top62"></a><sup><a href="#62">62</a></sup>. Apesar de toda a sumptuosidade da corte ib&eacute;rica, este n&atilde;o deixa de ser um elemento que descortina falta de originalidade e um certo complexo de inferioridade face a outras sociedades europeias<a name="top63"></a><sup><a href="#63">63</a></sup>.</p>     <p>Se as viagens eram cansativas e desconfort&aacute;veis, a vida de embaixador na corte n&atilde;o podia ser mais suave. O dia acabou com novo ser&atilde;o de dan&ccedil;a e, depois de os cortes&atilde;os se recolherem, bem passadas as dez horas, reis e embaixadores ficaram sentados para uma abundante ceia que n&atilde;o acabou antes da uma hora da noite<a name="top64"></a><sup><a href="#64">64</a></sup>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As descri&ccedil;&otilde;es dos dias passados na corte s&atilde;o pormenorizadas, mas algo repetitivas. Jogos e dan&ccedil;as preenchiam os dias e, se &eacute; poss&iacute;vel terem sido intercalados por negocia&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, Machado nada diz sobre isso. O historiador moderno, ao ler tais p&aacute;ginas, tem direito a invejar t&atilde;o tranquila ociosidade, mas pouco mais tira destas linhas dos di&aacute;rios. Machado, por&eacute;m, mostra-se reconhecido e desfaz-se em elogios &agrave; hospitalidade dos reis, comparando-os, largamente por excesso, aos ingleses. Se a vida de embaixador era doce, tamb&eacute;m podia acabar por ser substancialmente lucrativa e os representantes de Henrique VII n&atilde;o deixaram a corte espanhola sem um significativo conjunto de presentes em forma de montadas, seda e moedas de prata para os dois embaixadores &ldquo;s&eacute;niores&rdquo; e uma mula e seda tanto para o jovem Nanfran como para Machado<a name="top65"></a><sup><a href="#65">65</a></sup>. A embaixada ficou em Medina del Campo at&eacute; ao final de Mar&ccedil;o de 1489 e da&iacute; partiu para Portugal, enquanto outra comitiva espanhola seguia rumo a Inglaterra, indicando que as negocia&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas tinham sido bem mais prof&iacute;cuas do que Machado nos deixa saber. Fica claro, contudo, que os Reis Cat&oacute;licos causaram boa impress&atilde;o e poderiam esperar que as suas inten&ccedil;&otilde;es fossem vistas com bons olhos em Inglaterra.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A embaixada a Portugal</b></p>     <p>A viagem at&eacute; Portugal durou menos de uma semana, visto que os contactos com a nobreza espanhola permitiram que a viagem continuasse num agrad&aacute;vel ritmo de veraneio e a chegada a Portugal se fizesse a 6 de Abril desse ano. V&aacute;rios viajantes tiveram experi&ecirc;ncias desagrad&aacute;veis pela Ib&eacute;ria, mas a de Roger Machado, passados os percal&ccedil;os iniciais, foi bem amena<a name="top66"></a><sup><a href="#66">66</a></sup>.</p>     <p>Machado entrou em Portugal precedendo os seus companheiros, como era h&aacute;bito, para fazer os necess&aacute;rios preparativos. Cruzou a fronteira na zona de Elvas, passando por Vila Vi&ccedil;osa. Machado continua sem raz&atilde;o de queixa da sua viagem, que prossegue tranquilamente e qualquer percal&ccedil;o era rapidamente esquecido pelos presentes que os embaixadores iam coleccionando pelo caminho<a name="top67"></a><sup><a href="#67">67</a></sup>. No dia 9 de Abril, por exemplo, receberam de Rui D'Abreu (descrito como capit&atilde;o do castelo de Elvas) vinho, cevada para os cavalos e dois grandes pratos, um de carnes e outro de peixes fritos. Este tipo de presentes em g&eacute;neros era recebido com grande frequ&ecirc;ncia<a name="top68"></a><sup><a href="#68">68</a></sup>. O Alentejo n&atilde;o se fez famoso pelo estilo de vida apressado e citadino nem pela cozinha leve e j&aacute; nesta altura Machado usufru&iacute;a do que viriam a ser os estere&oacute;tipos associados &agrave; regi&atilde;o. A embaixada fez um agrad&aacute;vel percurso pelo Alentejo que a levou pelo Redondo, Vidigueira e Portel, onde passaram a P&aacute;scoa.</p>     <p>O rei, conforme o costume, enviou uma ampla delega&ccedil;&atilde;o a Portel para receber os embaixadores, reafirmando os la&ccedil;os existentes entre ele e o seu hom&oacute;logo ingl&ecirc;s. Os embaixadores voltaram a ser presenteados com jogos antes de finalmente prosseguirem, rumo a Beja, ao encontro de Jo&atilde;o II<a name="top69"></a><sup><a href="#69">69</a></sup>. Pelo caminho, a comitiva foi sendo recebida e acompanhada por v&aacute;rios nobres e bispos, tal como tinha sucedido no reino vizinho<a name="top70"></a><sup><a href="#70">70</a></sup>.</p>     <p>A chegada a Beja &eacute; celebrada com salvas de canh&atilde;o e Machado descreve a torre do castelo de Beja, devidamente decorada e onde estaria colocada a artilharia e m&uacute;sicos tocando em homenagem aos visitantes. Estes, acompanhados por 700 ou 800 pessoas (n&uacute;meros de Machado), foram levados aos seus aposentos, onde encontraram a ceia pronta e em abund&acirc;ncia<a name="top71"></a><sup><a href="#71">71</a></sup>. A travessia mar&iacute;tima teria tido os seus perigos, mas os embaixadores ter&atilde;o dado o risco por compensado.</p>     <p>A descri&ccedil;&atilde;o indica que a corte portuguesa, e o monarca em particular, n&atilde;o promovia demonstra&ccedil;&atilde;o de luxo compar&aacute;vel &agrave; do reino vizinho. &Agrave; parte esse elemento, a embaixada decorreu de forma semelhante nas duas cortes, como seria de esperar. Os embaixadores beijaram as m&atilde;os dos reis, fizeram-se os habituais discursos, os visitantes foram convidados a assistir &agrave;s v&eacute;speras de S. Jorge com o monarca e, poucos dias depois, decorreram os habituais jogos<a name="top72"></a><sup><a href="#72">72</a></sup>.</p>     <p>Pelo meio, referido por Machado apenas <i>en passant</i>, Jo&atilde;o II chamou-os de parte e conversou com os embaixadores. N&atilde;o temos pormenores da conversa, mas ter&aacute; sido o momento mais relevante, ainda que seja improv&aacute;vel que assuntos de excessiva import&acirc;ncia tenham sido discutidos, visto que a alian&ccedil;a luso-inglesa estava estabelecida e seria apenas uma quest&atilde;o de a ratificar por cortesia. Rui de Pina, ele pr&oacute;prio com experi&ecirc;ncia diplom&aacute;tica, n&atilde;o faz refer&ecirc;ncia &agrave; embaixada, o que denota que esta n&atilde;o ter&aacute; tido particular impacte em Portugal, visto que o cronista refere a visita de outras personagens ao pa&iacute;s<a name="top73"></a><sup><a href="#73">73</a></sup>.</p>     <p>Acidentalmente, os embaixadores tomaram ainda contacto com o futuro D. Manuel, ent&atilde;o duque de Viseu e Beja. &Eacute; curiosa a omiss&atilde;o no texto original do nome do bispo de &Eacute;vora, &agrave; data D. Afonso, que, erradamente, Machado diz ser irm&atilde;o do rei<a name="top74"></a><sup><a href="#74">74</a></sup>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Durante a semana seguinte, os embaixadores foram &ldquo;entretidos&rdquo; por diversos membros da corte. Jantares, ca&ccedil;a e jogos foram novamente os dif&iacute;ceis tormentos sofridos pelos viajantes. Poucos dias depois, os embaixadores voltaram &agrave; companhia do rei para finalmente lhe ser conferida a ordem da Jarreteira<a name="top75"></a><sup><a href="#75">75</a></sup>. Percebe-se pela descri&ccedil;&atilde;o que Jo&atilde;o II usava roupas bem mais humildes do que Fernando, tendo, aparentemente, oferecido o seu manto vermelho ao pr&oacute;prio Machado como presente de despedida. Uma vez mais, os embaixadores seriam dispensados apenas depois de recebidos substanciais presentes da parte do rei. Deixariam Beja apenas no final de Maio, mais de um m&ecirc;s depois da chegada &agrave; cidade onde Jo&atilde;o II se encontrava<a name="top76"></a><sup><a href="#76">76</a></sup>.</p>     <p>O regresso faz-se rumo a Lisboa, por terra at&eacute; Alc&aacute;cer do Sal e depois por mar. Na capital, tiveram a companhia dos v&aacute;rios ingleses que a&iacute; viviam e comerciavam e de quem alugaram navios para o regresso a Inglaterra<a name="top77"></a><sup><a href="#77">77</a></sup>. Os pr&oacute;prios embaixadores aproveitaram a ocasi&atilde;o para fazerem um pouco de neg&oacute;cio, carregando os navios de sal e a&ccedil;&uacute;car. Os la&ccedil;os cruzados entre diplomacia e com&eacute;rcio s&atilde;o evidentes nos relatos das v&aacute;rias viagens.</p>     <p>&Eacute; pouco claro o epis&oacute;dio que adia a partida de Lisboa, mas Machado alega que o Senhor de Saint-Germain teria capturado navios ingleses, apesar da paz entre os dois pa&iacute;ses, e os brit&acirc;nicos apenas regressaram quando o franc&ecirc;s rumou a sul, em direc&ccedil;&atilde;o a Tavira, onde estaria Jo&atilde;o II. A partida de Lisboa fez-se a 3 de Julho, tendo a calma viagem durado pouco mais de duas semanas at&eacute; &agrave; chegada a Inglaterra<a name="top78"></a><sup><a href="#78">78</a></sup>.</p>     <p>&nbsp;</p> <b>Conclus&otilde;es</b>     <p>As embaixadas &agrave;s cortes ib&eacute;ricas surtiram o efeito desejado e rapidamente se materializaram em avan&ccedil;os nas rela&ccedil;&otilde;es entre a Inglaterra e os pa&iacute;ses Ib&eacute;ricos. O Tratado assinado em Medina del Campo seria ratificado pelo soberano ingl&ecirc;s em 1490, unindo as duas pot&ecirc;ncias e acordando o casamento de Artur e Catarina, ainda que as condi&ccedil;&otilde;es tenham sido posteriormente revistas em 1492 e 1497. Com Portugal seria renovado o acordo de Windsor, nesse mesmo 10 de Agosto, pelas m&atilde;os de Jo&atilde;o Foga&ccedil;a e D. Fernando, mestre de Santiago. O pr&oacute;prio Machado ter&aacute; regressado imediatamente a Portugal, pois recebe dinheiro para cobrir os custos de tal viagem logo a 20 de Agosto, em Windsor, mas nenhum testemunho parece restar dessa viagem<a name="top79"></a><sup><a href="#79">79</a></sup>.</p>     <p>A vida de Machado n&atilde;o pode ser tida como representativa de um grupo social, no sentido em que esteve envolta em peculiaridades. Certamente poucos portugueses foram t&atilde;o bem sucedidos e subiram tanto junto de uma corte europeia, mas os dados evidenciados mostram ter havido espa&ccedil;o para mobilidade social para este tipo de homens dispostos a arriscar a sorte e com talento e versatilidade para desempenhar diversas fun&ccedil;&otilde;es, saltando frequentemente de ocupa&ccedil;&atilde;o<a name="top80"></a><sup><a href="#80">80</a></sup>.</p>     <p>Os seus di&aacute;rios transmitem nas entrelinhas qu&atilde;o distanciado se sentia j&aacute; de Portugal. Mesmo que tivesse nascido j&aacute; fora do pa&iacute;s, certamente que Machado teria estado em Portugal v&aacute;rias vezes durante a sua actividade comercial, mas os di&aacute;rios t&ecirc;m o tom de quem visita uma terra que n&atilde;o &eacute; sua. Ainda assim, sobressaem pormenores, como a n&atilde;o descri&ccedil;&atilde;o de Lisboa, presen&ccedil;a obrigat&oacute;ria em qualquer outro di&aacute;rio de viajantes estrangeiros que por l&aacute; passaram, que sugerem uma natural liga&ccedil;&atilde;o e compreens&atilde;o do pa&iacute;s que outros visitantes estrangeiros n&atilde;o podiam ter.</p> O texto fornece dados &uacute;teis sobre o dia-a-dia nas cortes ib&eacute;ricas e acerca da vida diplom&aacute;tica medieval. Deve ser lido com algum cuidado no que toca a dados factuais, visto ter sido escrito depois dos acontecimentos, mas merece que se tenha mais em conta entre a historiografia portuguesa quando s&atilde;o tratadas quest&otilde;es relativas &agrave; corte e diplomacia.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO</b></p>     <p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>LEIT&Atilde;O, Francisco &ndash; &ldquo;Roger Machado, um portugu&ecirc;s ao servi&ccedil;o dos primeiros soberanos Tudor&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm;17 (Janeiro - Junho 2015). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA17/leitao1706.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA17/leitao1706.html</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data recep&ccedil;&atilde;o do artigo: 27 de Janeiro de 2014</p>     <p>Data aceita&ccedil;&atilde;o do artigo: 8 de Julho de 2014</p>     <p>&nbsp;</p> <b>Notas</b>     <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh</i>. Londres: Rolls Series, 1858, pp. 157-199.</p>     <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Sobre o reinado de Henrique VII: CHRIMES, S. B. &ndash; <i>Henry VII</i>. London: Eyre Methuen, 1972.</p>     <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> GUY, John &ndash; <i>Tudor England</i>. Oxford: Oxford University Press, 1988, p. 53.</p>     <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> Para uma an&aacute;lise da rela&ccedil;&atilde;o entre Henrique VII e o seu reino: BRIDGEN, Susan &ndash; <i>New Worlds, Lost Worlds. The rule of the Tudors (1485-1603)</i>. London, Penguin, 2000, pp. 7-38.</p>     <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> Uma aprecia&ccedil;&atilde;o global da pol&iacute;tica externa de Henrique VII (n&atilde;o s&oacute; do per&iacute;odo do artigo mas de todo o reinado) pode ser encontrada em: CHRIMES, S. B. &ndash; <i>Henry VII</i>. London: Eyre Methuen, 1972, pp. 272-297.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> GUY, John &ndash; <i>Tudor England</i>. Oxford: Oxford University Press, 1988, pp. 54-55.</p>     <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> A bibliografia sobre as rela&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas das duas pot&ecirc;ncias &eacute; ampla, mas veja-se, a t&iacute;tulo de exemplo da pol&iacute;tica externa de Henrique VII: CURRIN, John &ndash; &ldquo;Henry VII and the treaty of Redon (1489): Plantagenet ambitions and early Tudor foreign policy&rdquo;. in <i>History. </i><i>The Journal of the Historical Association</i>. Vol. 81 (1996), pp. 343-358; GIRY-DELOISON, Charles &ndash; &ldquo;Money and early Tudor diplomacy. The English pensioner of the French kings (1475-1547)&rdquo;. in <i>Medieval History</i>. Vol. 3 (1993), pp. 128-146. Em rela&ccedil;&atilde;o aos Reis Cat&oacute;licos veja-se, por exemplo: DUOSSINAGUE, Jos&eacute; Maria &ndash; <i>La pol&iacute;tica internacional de Fernando el Cat&oacute;lico</i>. Madrid: Espasa-Calpe, 1994; SUAR&Eacute;Z, Lu&iacute;s &ndash; <i>Pol&iacute;tica Internacional de Isabel la Cat&oacute;lica</i>. 6 vols.&nbsp; Valladolid: Instituto &ldquo;Isabel la Cat&oacute;lica&rdquo; de Historia Eclesi&aacute;stica, 1965-1972. Sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre os dois pa&iacute;ses: VARELA, Consuelo &ndash; <i>Ingleses en Espa&ntilde;a y Portugal (1480-1515): aristocratas, mercaderes e impostores</i>. Lisboa: Colibri, 1998<i>.</i></p>     <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> URIA MAQUA, Juan; &ldquo;Los matrimonios de Catalina de Arag&oacute;n base de la alianza entre Inglaterra y Castilla&rdquo;, in <i>Estudios en Homenaje a Don Claudio S&aacute;nchez Albornoz en sus 90&nbsp; a&ntilde;os</i>. Vol. V. &Aacute;vila: Anexos Cuadernos de Historia de Espa&ntilde;a, 1990, pp. 403-429.</p>     <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> Uma aprecia&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre os dois pa&iacute;ses, com refer&ecirc;ncia &agrave; pol&iacute;tica matrimonial ib&eacute;rica e aos di&aacute;rios de Roger Machado pode ser encontrada em: AUBIN, Jean &ndash; &ldquo;D. Jo&atilde;o II et Henry VII&rdquo;. in <i>Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a sua &Eacute;poca: Actas</i>. Vol. I. Porto: Comiss&atilde;o Nacional para a Comemora&ccedil;&atilde;o dos Descobrimentos Portugueses, 1989, pp. 171-180.</p>     <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup><i> Foedera, conventiones, litterae, etc.</i> ed. T. Rymer. Londres: per A. &amp; J. Churchill, 1704-35. Vol. XII, p. 378.</p>     <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> WATSON, Gemma &ndash;<i> Roger Machado, a life in objects. </i>Southampton: s.n., 2013, 249 p. A tese de doutoramento n&atilde;o se encontra publicada e agrade&ccedil;o aqui &agrave; autora o envio da mesma.</p>     <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> GODFREY, Walter &ndash; <i>The College of Arms, Queen Victoria Street, being the Sixteenth and Final Monograph of the London Survey Committee</i>. Londres, London Survey Committee, 1963, pp. 79-80.</p>     <p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> College of Arms, Londres, MS Arundel 51, fol. 21. O manuscrito cont&eacute;m um memorando escrito pelo pr&oacute;prio Machado relatando v&aacute;rias das suas actividades. O tal registo em portugu&ecirc;s data de Julho de 1484 e refere-se &agrave; compra de vinhos. Est&aacute; o documento transcrito na tese de Gemma Watson, que tamb&eacute;m tra&ccedil;a o percurso feito pelo manuscrito at&eacute; aos nossos dias. WATSON, Gemma &ndash; <i>Roger Machado, a life in objects</i>. Southampton: (s.n.), 2013, p. 171.</p>     <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup> Oliveira Marques participou no col&oacute;quio onde Michael Jones apresentou o seu trabalho (conferir nota 29) sobre Roger Machado e ter&aacute; ali chamado a aten&ccedil;&atilde;o para tal. Cf. MARQUES, A. H. de Oliveira &ndash; &ldquo; Notas para a Hist&oacute;ria da Feitoria Portuguesa na Flandres no S&eacute;culo XV&rdquo;. in MARQUES, A. H. de Oliveira &ndash; <i>Ensaios de Hist&oacute;ria Medieval</i>. Lisboa: S&aacute; da Costa, 1962, p. 462.</p> Watson abre depois a possibilidade de se identificar Machado com um &ldquo;Rodrij Mersado&rdquo;, membro da Guilda de S. Jorge, em Bruges, durante o ano de 1445. Dada a significativa disparidade de nomes e as datas envolvidas, tal parece muito improv&aacute;vel. Machado teria de ser j&aacute; adulto em 1445, o que &eacute; incompat&iacute;vel com a vida activa que manteve e pode ser documentada durante a primeira d&eacute;cada do s&eacute;culo seguinte.</p>     <p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup> The National Archives, Londres, E 403/844.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> WATSON, Gemma &ndash;<i> Roger Machado, a life in objects. </i>Southampton: s.n., 2013, pp. 34-35.</p>     <p><sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></sup> Trata-se de uma &eacute;poca de crescente valoriza&ccedil;&atilde;o destas posi&ccedil;&otilde;es que culminar&aacute; na carta real de 1484, que instituiu o <i>College of Arms</i>, institui&ccedil;&atilde;o que se mant&eacute;m em fun&ccedil;&otilde;es at&eacute; hoje.</p>     <p><sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></sup> British Library, Londres, MS Harley 69, fols 1-2r; National Archives, Londres, C1/66 n&ordm; 297.</p>     <p><sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></sup> Gemma Watson discute estas possibilidades na sua disserta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; aqui que &eacute; avan&ccedil;ada e defendida a tese de que Roger Machado ter&aacute; tido algum tipo de participa&ccedil;&atilde;o na rebeli&atilde;o. <i>Roger Machado, a life in objects</i>, pp. 21-27.</p>     <p><sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></sup> GODFREY, Walter &ndash; <i>The College of Arms</i>, p. 140.</p>     <p><sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></sup> GODFREY, Walter &ndash; <i>The College of Arms</i>, p. 140.</p>     <p><sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></sup> WAGNER, Anthony &ndash; <i>Heralds and Heraldry in the Middle Ages: An Inquiry into the Growth of the Armorial Function of Heralds.</i> Londres: Milford &ndash; Oxford University Press, 1939, p. 84.</p>     <p><sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></sup> VERGIL, Polydore &ndash; <i>The </i>Anglica historia<i> of Polydore Vergil</i>. Ed. Denys Hay. London: Royal Historical Society, 1950, pp. 145-147. O pr&oacute;prio Virg&iacute;lio era de origem italiana e foi recebido na corte de Henrique VII com grande hospitalidade, tendo depois feito carreira naquele reino.</p>     <p><sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></sup> GUY, John &ndash; <i>Tudor England</i>. Oxford: Oxford University Press, 1988, p. 56. Que estrangeiros tenham sido beneficiados no processo de organiza&ccedil;&atilde;o levado a cabo por Henrique VII &eacute; tamb&eacute;m corroborado por Gunn e Chrimes: GUNN, Steven &ndash; &ldquo;The Courtiers of Henry VII&rdquo;. in <i>English Historical Review</i>.108 (1993), pp. 23-49; CHRIMES, S. B. &ndash; <i>Henry VII</i>. London: Eyre Methuen, 1972, pp. 97-101.</p>     <p><sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></sup> WATSON, Gemma &ndash;<i> Roger Machado, a life in objects</i>. Southampton: (s.n.), 2013, p.21-25.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></sup> GUNN, Steven &ndash; &ldquo;The Courtiers of Henry VII&rdquo;. in <i>English Historical Review</i>- 108 (1993), pp. 23-49.</p>     <p><sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh</i>. Londres: Rolls Series, 1858.</p>     <p><sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh</i>. Londres: Rolls Series, 1858., pp. 157-222 (vers&atilde;o original) e pp. 328-389 (tradu&ccedil;&atilde;o inglesa).</p>     <p><sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></sup> No que toca &agrave; embaixada &agrave; Bretanha, o artigo de Michael Jones caracteriza a embaixada e o contexto pol&iacute;tico de modo a tornar desnecess&aacute;rio abordar o tema neste artigo: JONES, Michael &ndash; &ldquo;Les Ambassades de Roger Machado, le h&eacute;raut Richmond en Bretagne (1490)&rdquo;. in <i>1491, La Bretagne</i>. Brest: Centre de Recherche Bretonne et Celtique; Soci&eacute;t&eacute; Arch&eacute;ologique du Finist&egrave;re, 1992, pp. 147-160. Bello Leon aborda a embaixada &agrave; Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica e fornece uma tradu&ccedil;&atilde;o para Castelhano do di&aacute;rio, mas a an&aacute;lise tem v&aacute;rias incorrec&ccedil;&otilde;es e a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &eacute; descrita de um ponto de vista espanhol e n&atilde;o do ingl&ecirc;s, que &eacute; o dos di&aacute;rios, pelo que apenas pontualmente se lhe far&aacute; refer&ecirc;ncia: BELLO L&Eacute;ON, Juan Manuel &ndash; &ldquo;Una embajada inglesa a la corte de los Reyes Cat&oacute;licos y su descripc&iacute;&oacute;n en el &ldquo;Di&aacute;rio&rdquo; de Roger Machado&rdquo;. in <i>En la Espa&ntilde;a Medieval</i>.vol. 26 (2003), pp. 167-202.</p>     <p><sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. xxxvii e seguintes para a descri&ccedil;&atilde;o do manuscrito feita por Gairdner.</p>     <p><sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></sup> Mais &agrave; frente se dar&aacute; conta de como Machado erradamente nos diz que o bispo de &Eacute;vora era irm&atilde;o do rei.</p>     <p><sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></sup> Machado tinha sido referido como falando um franc&ecirc;s algo &ldquo;estranho&rdquo;. JONES, Michael &ndash; &ldquo;Les Ambassades de Roger Machado, le h&eacute;raut Richmond en Bretagne (1490)&rdquo;. in <i>1491, La Bretagne</i>. Brest: Centre de Recherche Bretonne et Celtique; Soci&eacute;t&eacute; Arch&eacute;ologique du Finist&egrave;re, 1992, pp. 147-160.</p>     <p><sup><a name="33"></a><a href="#top33">33</a></sup> Nas notas anteriores j&aacute; se referiu a tradu&ccedil;&atilde;o inglesa. A vers&atilde;o espanhola aparece no artigo tamb&eacute;m j&aacute; mencionado.</p>     <p><sup><a name="34"></a><a href="#top34">34</a></sup> Os nomes dos embaixadores s&atilde;o dados pelo pr&oacute;prio Roger Machado. De Puebla foi um personagem fundamental nas rela&ccedil;&otilde;es anglo-espanholas do tempo, tendo sido embaixador em Londres durante um largo per&iacute;odo. De origem judaica, sempre suscitou grande pol&eacute;mica.</p>     <p><sup><a name="35"></a><a href="#top35">35</a></sup> Sep&uacute;lveda foi tamb&eacute;m ele usado frequentemente nas rela&ccedil;&otilde;es entre os dois pa&iacute;ses e participou em v&aacute;rias embaixadas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="36"></a><a href="#top36">36</a></sup> Martin de Torres parece menos conhecido mas ser&aacute; talvez descendente do seu hom&oacute;nimo, que foi tamb&eacute;m diplomata ao servi&ccedil;o de Arag&atilde;o durante o reinado de Fernando de Antequera.</p>     <p><sup><a name="37"></a><a href="#top37">37</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 158.</p>     <p><sup><a name="38"></a><a href="#top38">38</a></sup> A diplomacia inglesa do per&iacute;odo &eacute; consistentemente caracterizada como sendo pouco inovadora e as embaixadas seguem as conven&ccedil;&otilde;es medievais sem diferen&ccedil;as de maior. A grande transforma&ccedil;&atilde;o operada pela afirma&ccedil;&atilde;o do Estado moderno ser&aacute; provavelmente o estabelecimento de embaixadas permanentes em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s viagens diplom&aacute;ticas mas isso aparecer&aacute; muito depois do per&iacute;odo em causa e nada h&aacute; na fonte que sugira esta ou outra importante transforma&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><sup><a name="39"></a><a href="#top39">39</a></sup> Savage seria o elemento mais importante da comitiva e viria a ser arcebispo de Iorque.</p>     <p><sup><a name="40"></a><a href="#top40">40</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 157.</p>     <p><sup><a name="41"></a><a href="#top41">41</a></sup> Cf. CAMPBELL, W. (ed) &ndash; <i>Materials for a history of the reign of Henry VII from original documents preserved in the Public Record Office.</i> Londres, Longman &amp; Co, 1877, p. 438.</p>     <p><sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></sup> Bello Leon abre a possibilidade de um pintor, referido como &ldquo;maestro Antonio, ingles&rdquo;, ter participado na embaixada. Cf. TORRE, Antonio de la &ndash; &ldquo;Maestro Antonio, yngl&eacute;s, pintor&rdquo;. in <i>Fernando el Cat&oacute;lico y la cultura de su tiempo. </i><i>V Congreso de Historia de la Corona de Arag&oacute;n</i>. Vol. V. Sarago&ccedil;a: Instituto Fernando el Cat&oacute;lico, 1961, pp. 165-172. Parece, contudo, improv&aacute;vel que, nesse caso, Roger Machado n&atilde;o lhe fizesse qualquer refer&ecirc;ncia. O relato da embaixada flamenga de 1428, por exemplo, refere a presen&ccedil;a de Van Eyck, apesar de este, &agrave; data, ainda n&atilde;o ter a reputa&ccedil;&atilde;o posterior. Cf. VASCONCELLOS, J. (ed.) &ndash; <i>Rela&ccedil;&atilde;o da embaixada flamenga (1428-1430) e viagem de Jehan Van-Eyck a Portugal</i>. Porto: s.n.,1897.</p>     <p><sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 159-162.</p>     <p><sup><a name="44"></a><a href="#top44">44</a></sup> Para uma aprecia&ccedil;&atilde;o dos perigos que a travessia representava &agrave; &eacute;poca veja-se CHILDS, Wendy &ndash; &ldquo;The perils, or otherwise, of maritime pilgrimage to Santiago de Compostela in the fifteenth century&rdquo;. in STOPFORD, Jennie (ed.) &ndash;<i> Pilgrimage Explored</i>. Woodbridge. D. S. Brewer, 1999,pp. 123-144. &Eacute; particularmente expressivo o texto habitualmente referido como &ldquo;Pilgrim's sea voyage and sea sickness&rdquo; in <i>Early English Text Society</i>. Londres: Oxford University Press, 1867.</p>     <p><sup><a name="45"></a><a href="#top45">45</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 162.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="46"></a><a href="#top46">46</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 163-164.</p>     <p><sup><a name="47"></a><a href="#top47">47</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 166.</p>     <p><sup><a name="48"></a><a href="#top48">48</a></sup> Compare-se, por exemplo, este relato com o de Nicol&aacute;s Lanckman, datado de 1451 e editado em NASCIMENTO, Aires (ed.) &ndash; <i>Leonor de Portugal, Imperatriz da Alemanha. Di&aacute;rio de viagem do Embaixador Nicolau Lanckman de Valckenstein</i>. Lisboa: Cosmos, 1992.</p>     <p><sup><a name="49"></a><a href="#top49">49</a></sup> Os caminhos castelhanos continuavam a ser, contudo, deveras perigosos para o viajante desprotegido e sem os contactos comerciais e diplom&aacute;ticos de Roger Machado. Cf. FERNANDEZ LOPEZ, Olga &ndash; &ldquo;Caminos y viol&ecirc;ncia en el Madrid medieval&rdquo;. in SEGURA GRA&Iacute;&Ntilde;O, Cristina (ed.) &ndash; <i>Caminos y caminantes por las tierras del Madrid medieval</i>. Madrid: Asiciaci&oacute;n Cultural Al-Mudayna, 1994, pp. 244-250. A bibliografia relativa &agrave; crise econ&oacute;mica, social e pol&iacute;tica em Castela durante o s&eacute;culo XV &eacute;, obviamente, vast&iacute;ssima, mas para uma aprecia&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia existente veja-se: RUIZ, Te&oacute;filo &ndash; &ldquo;Violence in late medieval Castille: the case of Rioja&rdquo;. in <i>Revista de Hist&oacute;ria.</i> 133(1995), pp. 15-36.</p>     <p><sup><a name="50"></a><a href="#top50">50</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 167-168.</p>     <p><sup><a name="51"></a><a href="#top51">51</a></sup> Bello Le&oacute;n consultou os arquivos de Valladolid em busca de estabelecer tal rela&ccedil;&atilde;o, sem sucesso. Na sua tese de doutoramento, Joana Sequeira tratou da hist&oacute;ria do castelhano, n&atilde;o tendo indicado qualquer quest&atilde;o religiosa: SEQUEIRA, Joana; <i>Production</i> <i>Textile au Portugal &agrave; la fin de la Moyen &Acirc;ge.</i> Porto-Paris: Faculdade de Letras da Universidade do Porto &ndash; &Eacute;cole des Hautes &Eacute;tudes en Sciences Sociales<i>,</i> 2012, p. 44.</p>     <p><sup><a name="52"></a><a href="#top52">52</a></sup> A situa&ccedil;&atilde;o dos judeus na pen&iacute;nsula mereceu coment&aacute;rios muito frequentes dos viajantes estrangeiros. Durante grande parte do s&eacute;culo, os coment&aacute;rios surpreendem, por tra&ccedil;arem a Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica como um local de imensa toler&acirc;ncia, apesar da tens&atilde;o h&aacute; muito existente. Uma vez decretada a expuls&atilde;o dos judeus em 1492, os viajantes mudam de tom, tend&ecirc;ncia naturalmente acentuada com o massacre de Lisboa de 1506. Al&eacute;m dos relatos anteriormente referidos, vejam-se os contidos em: GARCIA MERCADAL, Jos&eacute; (ed.) &ndash; <i>Viajes de extranjeros por Espa&ntilde;a y Portugal: Desde los tempos m&aacute;s remotos hasta fines del siglo XVIII</i>. Vol. I. Madrid: Aguilar, 1952. Sobre a fonte relativa ao massacre de Lisboa: YERUSHALMI, Y. H. &ndash; <i>The Lisbon massacre of 1506 and the Royal Image in the Shebet Yehudah. </i>Cincinnati: Hebrew Union College &ndash; Jewish Institute of Religion, 1976, Appendix A, pp. 69-80.</p>     <p><sup><a name="53"></a><a href="#top53">53</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 169-170.</p>     <p><sup><a name="54"></a><a href="#top54">54</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 170.</p>     <p><sup><a name="55"></a><a href="#top55">55</a></sup> Outras fontes confirmam a estadia e partida dos Reis Cat&oacute;licos de Medina del Campo nas datas de Roger Machado. Cf. RUMEU DE ARMAS, Antonio &ndash; <i>Itinerario de los Reyes Cat&oacute;licos, 1474-1516</i>. Madrid: Instituto Jer&oacute;nimo Zurita, 1974.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="56"></a><a href="#top56">56</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 179.</p>     <p><sup><a name="57"></a><a href="#top57">57</a></sup> Sobre a moda, vestu&aacute;rio e poder no tempo dos Reis Cat&oacute;licos veja-se: MARTINEZ MARTINEZ, Maria &ndash; &ldquo;La creaci&oacute;n de una moda propia en la Espa&ntilde;a de los Reyes Cat&oacute;licos&rdquo;. in <i>Arag&oacute;n en la Edad Media</i>. Vol. 19 (2006), p. 343-380.</p>     <p><sup><a name="58"></a><a href="#top58">58</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 172.</p>     <p><sup><a name="59"></a><a href="#top59">59</a></sup> N&atilde;o &eacute; inteiramente claro o n&iacute;vel de compreens&atilde;o que Machado tinha da l&iacute;ngua latina, mas &eacute; a &uacute;nica vez que este faz semelhante lamento. Ailes sugere ser prov&aacute;vel que Roger Machado soubesse latim: AILES, Adrian &ndash; &ldquo;Machado, Roger (d. 1510)&rdquo;. in <i>Oxford Dictionary of National Biography.</i> Oxford: Oxford University Press, 2004. <a href="http://www.oxforddnb.com/view/article/17527" target="_blank">http://www.oxforddnb.com/view/article/17527</a>, accessed 3 April 2014].</p>     <p><sup><a name="60"></a><a href="#top60">60</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 173.</p>     <p><sup><a name="61"></a><a href="#top61">61</a></sup> S&atilde;o interessantes as instru&ccedil;&otilde;es dadas pelo pr&oacute;prio Henrique VII a uma outra embaixada que se dirigiu a Fernando de Arag&atilde;o, poucos anos mais tarde e onde sublinha a import&acirc;ncia dessa virtude. A transcri&ccedil;&atilde;o pode ser lida em GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 240-281.</p>     <p><sup><a name="62"></a><a href="#top62">62</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 176-177.</p>     <p><sup><a name="63"></a><a href="#top63">63</a></sup> Ainda que, sem surpresa, no artigo anteriormente citado, Maria Martinez Martinez trace um quadro bem mais complexo das influ&ecirc;ncias estrangeiras no modo de vestir das elites espanholas. N&atilde;o obstante, n&atilde;o deixa de ser precioso o testemunho de como um estrangeiro desse tempo teria uma percep&ccedil;&atilde;o algo diferente da complexa reconstru&ccedil;&atilde;o operada por um historiador contempor&acirc;neo. MARTINEZ MARTINEZ, Maria &ndash; &ldquo;La creaci&oacute;n de una moda propia en la Espa&ntilde;a de los Reyes Cat&oacute;licos&rdquo;. in <i>Arag&oacute;n en la Edad Media</i>. Vol. 19 (2006), pp. 343-380.</p>     <p><sup><a name="64"></a><a href="#top64">64</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 179-180.</p>     <p><sup><a name="65"></a><a href="#top65">65</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 184.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="66"></a><a href="#top66">66</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 184-185.</p>     <p><sup><a name="67"></a><a href="#top67">67</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 186-187.</p>     <p><sup><a name="68"></a><a href="#top68">68</a></sup> Gunn refere que Nanfan voltou a Inglaterra com o seguinte acumulado de presentes: um cavalo de guerra, duas mulas, 10 jardas de pano de seda, 40 marcos de prata, uma ta&ccedil;a avaliada noutros 40 marcos e contendo moedas estimadas em 200 marcos. Estes elementos coincidem com o relato de Machado e, adicionados a estes g&eacute;neros recebidos pelo caminho, apontam para uma actividade diplom&aacute;tica deveras rent&aacute;vel. GUNN, Steven &ndash; &ldquo;The Courtiers of Henry VII&rdquo;. in <i>English Historical Review</i>. 108 (1993), pp. 23-49.</p>     <p><sup><a name="69"></a><a href="#top69">69</a></sup> O trabalho de Ver&iacute;ssimo Serr&atilde;o confirma que Jo&atilde;o II passou toda a primeira metade de 1489 em Beja: SERR&Atilde;O, Joaquim Ver&iacute;ssimo &ndash; <i>Itiner&aacute;rios de el-Rei D. Jo&atilde;o II (1481-1495)</i>. Lisboa: Academia Portuguesa da Hist&oacute;ria, 1993.</p>     <p><sup><a name="70"></a><a href="#top70">70</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 190-192.</p>     <p><sup><a name="71"></a><a href="#top71">71</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 191-192.</p>     <p><sup><a name="72"></a><a href="#top72">72</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 192-194. Passar as v&eacute;speras de S. Jorge com o rei pode dar a impress&atilde;o de um favorecimento incomum, mas Jo&atilde;o II v&aacute;rias vezes convidou visitantes estrangeiros para ocasi&otilde;es semelhantes. Veja-se, a t&iacute;tulo de exemplo, o caso de Nicolau Popplau, que n&atilde;o era sequer um diplomata. Tal di&aacute;rio encontra-se publicado na sua vers&atilde;o espanhola por GARCIA MERCADAL, Jos&eacute; (ed.) &ndash; <i>Viajes de extranjeros por Espa&ntilde;a y Portugal: Desde los tempos m&aacute;s remotos hasta fines del siglo XVIII</i>. Vol. I. Madrid: Aguilar, 1952, pp. 309-326.</p>     <p><sup><a name="73"></a><a href="#top73">73</a></sup> Veja-se a men&ccedil;&atilde;o feita por Rui de Pina &agrave; j&aacute; referida embaixada de Nicol&aacute;s Lanckman, por exemplo. PINA, Rui de &ndash; <i>Cr&oacute;nicas de Rui de Pina.</i> Introdu&ccedil;&atilde;o e revis&atilde;o por M. Lopes de Almeida. Porto: Lello &amp; Irm&atilde;o, 1977. As refer&ecirc;ncias ao alem&atilde;o constam na <i>Cr&oacute;nica de D. Afonso V</i>, entre os cap&iacute;tulos CXXXI e CXXXII.</p>     <p><sup><a name="74"></a><a href="#top74">74</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 192.</p>     <p><sup><a name="75"></a><a href="#top75">75</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, p. 193.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="76"></a><a href="#top76">76</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 194-195.</p>     <p><sup><a name="77"></a><a href="#top77">77</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 195-196.</p>     <p><sup><a name="78"></a><a href="#top78">78</a></sup> GAIRDNER, James (ed) &ndash; <i>Memorials of King Henry the Seventh.</i> Londres: Rolls Series, 1858, pp. 196-197.</p>     <p><sup><a name="79"></a><a href="#top79">79</a></sup> A ratifica&ccedil;&atilde;o dos Tratados de Medina del Campo e Windsor, bem como o tal pagamento, ficaram registados nas fontes inglesas. Cf. CAMPBELL, W. (ed.) &ndash; <i>Materials for a history of the reign of Henry VII from original documents preserved in the Public Record Office</i>. Londres: Longman &amp; Co,1877, pp. 140.</p>     <p><sup><a name="80"></a><a href="#top80">80</a></sup> O caso de Machado, sendo naturalmente especial, n&atilde;o foi completamente &uacute;nico e pode ser comparado ao de Duarte Brand&atilde;o (Edward Brampton nas fontes inglesas). Cf. ROTH, Cecil &ndash; &ldquo;Sir Edward Brampton: na anglo-jewish aventurer during the wars of the roses&rdquo;. In <i>Transactions (Jewish Historical Society of England)</i>. Vol. 16 (1945-1951), pp. 121-127. Jean Aubin, no artigo j&aacute; citado, recorre frequentemente &agrave; actividade de Brand&atilde;o para narrar as rela&ccedil;&otilde;es entre os dois pa&iacute;ses. Machado n&atilde;o ter&aacute; tido uma vida t&atilde;o itinerante e variada, mas mudou pelo menos um par de vezes de ocupa&ccedil;&atilde;o e pa&iacute;s. S&atilde;o vidas peculiares e qualquer compara&ccedil;&atilde;o deve ser considerada com cautela.</p>      ]]></body><back>
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<surname><![CDATA[LEITÃO]]></surname>
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