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<article-title xml:lang="fr"><![CDATA[FRANCO JÚNIOR, Hilário - Cocagne: Histoire d'un pays imaginaire. Préface de Jacques Le Goff. Paris: Les éditions Arkhê, 2013, 380 pp. [ISBN: 978-2-918682-2-19]]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>RECENS&Atilde;O</b></p>     <p><b>FRANCO J&Uacute;NIOR, Hil&aacute;rio - Cocagne: Histoire d'un pays imaginaire. Pr&eacute;face de Jacques Le Goff. Paris: Les &eacute;ditions Arkh&ecirc;, 2013, 380 pp. [ISBN: 978-2-918682-2-19]</b></p>     <p><b>Isabel  Barros Dias<sup>*</sup></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><sup>*</sup>Universidade Aberta &ndash; Departamento de Humanidades - IELT-EISI  / IEM (FCSH-UNL), 1269-001 LISBOA, Lisboa, Portugal.<i> E-mail</i>: <a href="mailto:isabel.dias@uab.pt">isabel.dias@uab.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Cocagne:  Histoire d'un pays imaginaire</i> consiste na reedi&ccedil;&atilde;o do livro de Hil&aacute;rio  Franco J&uacute;nior <i>Cocanha. A hist&oacute;ria de um pa&iacute;s imagin&aacute;rio</i>, inicialmente  publicado em S&atilde;o Paulo, em 1998, e que agora reaparece em vers&atilde;o traduzida para  o franc&ecirc;s e revista pelo autor.</p>     <p>O autor inscreve  o seu trabalho na &ldquo;hist&oacute;ria social do imagin&aacute;rio&rdquo; (p. 14), convocando para o  seu desenvolvimento tr&ecirc;s grandes &aacute;reas disciplinares: o imagin&aacute;rio, a  literatura e a hist&oacute;ria, socorrendo-se ainda, pontualmente, da an&aacute;lise lexical  e da etimologia, bem como de conceitos da sociologia e da psicologia. O estudo  parte de um texto liter&aacute;rio produzido no Norte da Fran&ccedil;a, em meados do s&eacute;culo  XIII, o <i>Fabliau de Cocagne</i>, para identificar ideias e sentimentos que  s&atilde;o seguidamente articulados com o contexto social e hist&oacute;rico coevo. O imagin&aacute;rio  n&atilde;o &eacute; aqui entendido ao n&iacute;vel da imagina&ccedil;&atilde;o individual, nem como a soma destas  imagina&ccedil;&otilde;es, mas sim como uma estrutura complexa onde se integram mitos,  ideologias e utopias (p. 16). Assume-se igualmente que o imagin&aacute;rio integra os  tra&ccedil;os distintivos de cada sociedade, sendo por isso uma via privilegiada para  o entendimento dessa mesma realidade.</p>     <p>Apesar de  refletir os anseios e as necessidades profundas de um dado grupo num  determinado momento hist&oacute;rico, o <i>Fabliau de Cocagne</i> constituiu  igualmente um fen&oacute;meno de longa dura&ccedil;&atilde;o. Por um lado, considera-se que ter&aacute;  reunido tra&ccedil;os essenciais report&aacute;veis a meados do s&eacute;culo anterior e, pelo outro  lado, verifica-se que o tema perdurou, por vezes com outras designa&ccedil;&otilde;es, mas  mantendo o mesmo sentido, at&eacute; aos s&eacute;culos XVIII-XIX, tendo ainda sido  identificado um folheto de cordel de meados do s&eacute;culo XX que tamb&eacute;m aborda o  tema da Cocanha. A estrutura do livro espelha esta realidade: a sua maior parte  &eacute; dedicada a uma profunda an&aacute;lise tem&aacute;tica do <i>fabliau</i> franc&ecirc;s que  despoletou o assunto (cap. I a V) sem, no entanto, descurar a exist&ecirc;ncia de  ecos e de sequelas, apresentados e comentados nos dois &uacute;ltimos cap&iacute;tulos (VI e  VII).</p>     <p>O estudo do <i>Fabliau  de Cocagne </i>come&ccedil;a pela identifica&ccedil;&atilde;o de m&uacute;ltiplas semelhan&ccedil;as com textos e  tradi&ccedil;&otilde;es anteriores (orientais, cl&aacute;ssicas, b&iacute;blicas, celtas, escandinavas,  mu&ccedil;ulmanas e crist&atilde;s medievais) e pela diversidade da sua considera&ccedil;&atilde;o pela  cr&iacute;tica precedente (par&oacute;dia, utopia, mito, representa&ccedil;&atilde;o do <i>topos</i> do  mundo &agrave;s avessas, express&atilde;o folcl&oacute;rica...), passando o autor seguidamente &agrave;  considera&ccedil;&atilde;o de quatro grandes temas, apresentados como estruturantes desta  &ldquo;utopia de evas&atilde;o&rdquo; (p. 21) que concretiza e d&aacute; resposta a fantasmas  alimentares, sexuais e sociais: a abund&acirc;ncia, a ociosidade, a juventude e a  liberdade.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A ideia da  Cocanha como terra da abund&acirc;ncia ser&aacute; uma resposta &agrave; amea&ccedil;a real e permanente  da fome, bem como &agrave; imposi&ccedil;&atilde;o de dias de jejum e de abstin&ecirc;ncia, &agrave; condena&ccedil;&atilde;o  do pecado da gula por oposi&ccedil;&atilde;o ao louvor do ascetismo, e ainda &agrave; pen&uacute;ria de  bens como roupa e cal&ccedil;ado. Estas necessidades ter&atilde;o estimulado sonhos de  abund&acirc;ncia onde o instinto primordial da vontade de comer &eacute; satisfeito em  abund&acirc;ncia, gratuitamente, para todos e de modo luxuoso.</p>     <p>Contrariando o  prest&iacute;gio crescente do trabalho, assente em valores burgueses e eclesi&aacute;sticos,  a Cocanha apresenta-se como o local onde a ociosidade &eacute; recompensada,  assumindo-se aqui a perspetiva aristocr&aacute;tica do desprezo pelo trabalho e ideias  de algumas correntes de pensamento da &eacute;poca. O autor salienta ainda o  ultrapassar das condicionantes espacio-temporais: a Cocanha surge como um n&atilde;o  espa&ccedil;o ao qual n&atilde;o se sabe como chegar (na linha da tradi&ccedil;&atilde;o das viagens  inici&aacute;ticas, para o Al&eacute;m ou para Outros Mundos) e, al&eacute;m disso, o facto dos  excessos e das festas serem cont&iacute;nuas, rompe a no&ccedil;&atilde;o de tempo marcada pela  sucess&atilde;o de dias de trabalho e festivos. O dinheiro torna-se in&uacute;til porque tudo  &eacute; gr&aacute;tis e a usura perde sentido, tamb&eacute;m porque o tempo deixa de existir nos  moldes tradicionais.</p>     <p>Cocanha  &eacute; ainda o local onde se realiza o sonho da juventude eterna e onde se vive em  liberdade. O autor sublinha aqui o valor do riso como elemento rejuvenescedor,  al&eacute;m de libertador enquanto forma de lidar com ang&uacute;stias, medos, tabus e  sentimentos mais constrangedores ou perturbadores e, nesta linha, estabelece  algumas compara&ccedil;&otilde;es com festas carnavalescas, dando especial aten&ccedil;&atilde;o aos  charivaris. Enquanto terra de liberdade, Cocanha apresenta-se como uma resposta  &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade medieval. Os poderes institu&iacute;dos s&atilde;o desafiados pela  proposta de uma sociedade na qual tra&ccedil;os anarquistas podem ser vislumbrados:  n&atilde;o existe estado, nem dinheiro, nem repress&otilde;es e vive-se em total liberdade,  prazer, conc&oacute;rdia e felicidade. No que se refere &agrave; liberdade sexual, entre os  modelos crist&atilde;o (moral) e o cort&ecirc;s (ad&uacute;ltero, anti-crist&atilde;o), Cocanha prop&otilde;e uma  terceira via, a da liberdade sexual e da escolha livre de parceiros. A orgia  que se concretiza numa vida dedicada a comer, beber e fazer amor configura-se  assim como alternativa &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o social e &agrave; moral crist&atilde;s. A import&acirc;ncia  dada &agrave; liberdade permite ainda a aproxima&ccedil;&atilde;o do <i>fabliau</i> &agrave; poesia dos  goliardos, sendo aqui sublinhado o papel sociopsicol&oacute;gico e de divertimento de  alguma poesia que permite ultrapassar os problemas da realidade objetiva. </p>     <p>A articula&ccedil;&atilde;o entre a realidade hist&oacute;rico-social e a  sua proje&ccedil;&atilde;o on&iacute;rica de nega&ccedil;&atilde;o e substitui&ccedil;&atilde;o motiva v&aacute;rios excursos mais  pontuais e com bastante interesse como as considera&ccedil;&otilde;es sobre os gostos  medievais quando o autor compara o que se come na Cocanha com o que se produzia  e comia na &eacute;poca (sublinhando-se aqui que na Cocanha se verifica a aus&ecirc;ncia dos  alimentos de base na &eacute;poca, como p&atilde;o, sopa, queijo e vegetais, sendo estes  alimentos pobres substitu&iacute;dos por comida de luxo, sobretudo ao alcance dos  nobres: carne, peixe, vinhos e sobremesas). O tema da juventude eterna serve de  pretexto para observa&ccedil;&otilde;es sobre os conceitos de jovem e de juventude (e sua  independ&ecirc;ncia relativamente &agrave; idade f&iacute;sica) de acordo com o sistema de valores  aristocr&aacute;tico, bem como sobre o significado da barba. A leitura do <i>fabliau</i> como poss&iacute;vel descri&ccedil;&atilde;o par&oacute;dica dos banquetes das confrarias permite ao autor  falar sobre estas estruturas de solidariedade no quadro de uma eventual cr&iacute;tica  ao individualismo. A proposta de liberdade sexual veiculada pelo <i>Fabliau de  Cocagne</i> remete para considera&ccedil;&otilde;es sobre a sexualidade medieval e o seu  controlo pela Igreja, aludindo-se, nomeadamente, &agrave; institui&ccedil;&atilde;o do casamento nos  s&eacute;culos XI-XII e &agrave; sua inser&ccedil;&atilde;o nos sacramentos, bem como a pr&aacute;ticas, tabus,  restri&ccedil;&otilde;es e interditos impostos ao relacionamento sexual. Finalmente, a  possibilidade de ler o texto como descri&ccedil;&atilde;o idealizada e hiperb&oacute;lica de uma  taberna permite a aproxima&ccedil;&atilde;o com outros textos po&eacute;ticos sobre tabernas e quem  as frequenta e algumas considera&ccedil;&otilde;es sobre esta realidade social, a sua  popularidade enquanto pequenos locais festivos da predile&ccedil;&atilde;o dos goliardos; o  seu papel cultural no que se refere &agrave; difus&atilde;o da cultura popular oral; e  enquanto objetos de desejo onde se bebe e se come guloseimas, frequentemente  tamb&eacute;m associados a bord&eacute;is.</p>     <p>Outras leituras ser&atilde;o por ventura um pouco mais  ousadas ou mesmo discut&iacute;veis, apesar de sugestivas, como a que entende o <i>fabliau</i> como a descri&ccedil;&atilde;o aleg&oacute;rica de uma trajet&oacute;ria pr&eacute;-natal ou um sonho uterino; a  articula&ccedil;&atilde;o com o pensamento de Amaury de B&egrave;ne (pante&iacute;smo); a interpreta&ccedil;&atilde;o do <i>fabliau</i> como met&aacute;fora de uma peregrina&ccedil;&atilde;o a Jerusal&eacute;m, identificando-se o narrador com  Cristo, Cocanha com Jerusal&eacute;m enquanto terra de abund&acirc;ncia e a Fonte da Juventude  com o Santo Sepulcro; ou ainda, por analogia com algumas can&ccedil;&otilde;es de goliardos,  a possibilidade de ler o texto como par&oacute;dia &agrave; corte papal enquanto local de  vida f&aacute;cil, de festa cont&iacute;nua e onde os interditos impostos aos cl&eacute;rigos  (sexuais, alimentares, econ&oacute;micos) s&atilde;o quebrados. O autor salvaguarda, no  entanto, o facto das v&aacute;rias sugest&otilde;es apresentadas constitu&iacute;rem hip&oacute;teses de  leitura, deduzindo-se, por conseguinte, que a apresenta&ccedil;&atilde;o de m&uacute;ltiplas  possibilidades interpretativas decorre de uma vontade de exaustividade.          </p>     <p>Um assunto  transversal que percorre o livro &eacute; a quest&atilde;o do autor do <i>Fabliau de Cocagne</i>.  Por um lado, &eacute; dado adquirido a impossibilidade de indicar um texto original ou  um autor concreto, ao que acresce o facto do texto se apresentar como um  mosaico de ecos e de influ&ecirc;ncias diversas, eruditas e populares, o que pode  apontar para a exist&ecirc;ncia de v&aacute;rias camadas redacionais e para a possibilidade  de um percurso na mem&oacute;ria coletiva de transmiss&atilde;o oral pr&eacute;vio &agrave; sua coloca&ccedil;&atilde;o  por escrito. Pelo outro lado, Hil&aacute;rio Franco J&uacute;nior procura, em v&aacute;rios momentos  do seu texto, identificar ind&iacute;cios que possam apontar para um ambiente de  produ&ccedil;&atilde;o e um perfil de autor. Considera que o <i>fabliau</i> expressa as  inquieta&ccedil;&otilde;es de diversos grupos sociais dos s&eacute;culos XII e XIII, nomeadamente,  dos camponeses (sonho insatisfeito de saciedade), da burguesia (concretiza&ccedil;&atilde;o  das suas aspira&ccedil;&otilde;es materiais e sociais), da pequena e m&eacute;dia aristocracia (fuga  relativamente &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o da sociedade e &agrave; sua decad&ecirc;ncia face &agrave; burguesia) e  dos estudantes e intelectuais errantes (fuga ao dogmatismo e &agrave; hierarquiza&ccedil;&atilde;o  sociais e eclesi&aacute;sticas). Deste leque, &eacute; valorizada a possibilidade de o autor  ter sido algu&eacute;m da pequena aristocracia laica, reconhecendo-se no entanto  tamb&eacute;m o peso dos ind&iacute;cios que apontam para um elemento de uma confraria  urbana. Este poeta an&oacute;nimo poder&aacute; tamb&eacute;m ter sido um <i>trouv&egrave;re</i>, um estudante ou, sobretudo, um goliardo.</p>     <p>Estabelecidos os  tra&ccedil;os fundamentais que caracterizam Cocanha, o autor dedica os dois &uacute;ltimos  cap&iacute;tulos do seu livro &agrave; fortuna medieval e p&oacute;s-medieval do tema. O primeiro  texto a retomar o assunto de que h&aacute; conhecimento &eacute; o poema anglo-irland&ecirc;s <i>The  Land of Cokaygne</i>, de finais do s&eacute;culo XIII ou in&iacute;cios do XIV. Esta obra,  claramente par&oacute;dica, cujo autor ter&aacute; sido um goliardo, adapta o tema a uma  cr&iacute;tica feroz aos pecados de alguns monges (gula, lux&uacute;ria, riqueza) enquadr&aacute;vel  no contexto da rivalidade entre franciscanos e cistercienses, mais  concretamente nas cr&iacute;ticas que a ordem mais jovem e urbana dirigia contra o  monaquismo tradicional. V&aacute;rias diferen&ccedil;as entre os poemas franc&ecirc;s e ingl&ecirc;s s&atilde;o  apontadas e esclarecidas com base em altera&ccedil;&otilde;es do contexto hist&oacute;rico e social  que viu nascer cada obra. O desenvolvimento da polifonia serve para justificar  a presen&ccedil;a de sons no poema ingl&ecirc;s; a est&eacute;tica g&oacute;tica explica a recorr&ecirc;ncia de  refer&ecirc;ncias &agrave; luminosidade e a valoriza&ccedil;&atilde;o da luz, e o interesse por pedras  preciosas e plantas remete para a sua rela&ccedil;&atilde;o com a farmacopeia e o interesse  pelos elementos. Podemos, no entanto, perguntar-nos, at&eacute; que ponto algumas das  v&aacute;rias diferen&ccedil;as apontadas n&atilde;o ser&atilde;o poss&iacute;veis nas duas &eacute;pocas e nos dois  locais, ou mesmo em qualquer &eacute;poca ou local, nomeadamente as que se referem ao  modo de encarar a natureza ou a tend&ecirc;ncia mais par&oacute;dica ou mais ideol&oacute;gica,  tra&ccedil;os estes que poder&atilde;o radicar a sua origem em eventuais inten&ccedil;&otilde;es, no modo  de ser e de pensar, na maior ou menor capacidade de abstra&ccedil;&atilde;o ou ainda em  simples idiossincrasias de cada autor independentemente de estes serem  atualmente, para n&oacute;s, an&oacute;nimos.</p>     <p>Na sequ&ecirc;ncia das  muta&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, econ&oacute;micas, sociais, eclesi&aacute;sticas e teol&oacute;gicas que se  verificaram a partir do s&eacute;culo XVI, o perfil sociol&oacute;gico do ideal da Cocanha  altera-se. No entanto, a sua fun&ccedil;&atilde;o de utopia de evas&atilde;o permanece. Verifica-se  o seu acantonar nas camadas mais pobres, enquanto representante do sonho de  camponeses e do proletariado urbano, sendo olhada com desconfian&ccedil;a pela  burguesia que a despreza como o ideal de pregui&ccedil;osos e de vagabundos. Esta  rejei&ccedil;&atilde;o &eacute; refor&ccedil;ada pela sua associa&ccedil;&atilde;o &agrave;s revoltas dos camponeses dos s&eacute;culos  XVI e XVII. Acresce ainda o facto da Cocanha divergir da corrente das utopias  da &eacute;poca moderna, mais intelectuais e conservadoras, tanto nos temas, como nos  valores.</p>     <p>A apresenta&ccedil;&atilde;o  do trajeto do tema da Cocanha a partir do per&iacute;odo moderno passa pela  considera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; de vers&otilde;es liter&aacute;rias e iconogr&aacute;ficas, mas tamb&eacute;m pela  associa&ccedil;&atilde;o do nome a jogos e divertimentos que, de algum modo, remetem para a  ideia geral ou para algum dos <i>topoi</i> que a comp&otilde;em. S&atilde;o assim assinalados  v&aacute;rios testemunhos que, em diversos locais, se inspiraram ou retomaram o tema  da Cocanha, independentemente de o criticarem ou n&atilde;o. De entre as relativamente  poucas vers&otilde;es francesas, &eacute; destacada a obra de Rabelais, tal como a obra de  Milton &eacute; sublinhada para a Inglaterra. Na Alemanha, as cr&iacute;ticas contra a  Cocanha, enquanto terra de tontos e de pregui&ccedil;osos, foram acerbas, o que tamb&eacute;m  fornece indicadores sobre a extens&atilde;o e import&acirc;ncia do conhecimento do tema.  Para a Holanda s&atilde;o destacadas as representa&ccedil;&otilde;es iconogr&aacute;ficas na tradi&ccedil;&atilde;o do <i>topos</i> do mundo &agrave;s avessas, especialmente por Bruegel, que tamb&eacute;m assume uma postura  cr&iacute;tica. No que &agrave;s vers&otilde;es italianas se refere, al&eacute;m de um conto de Boccaccio,  &eacute; salientada a proje&ccedil;&atilde;o da no&ccedil;&atilde;o de Cocanha no Novo Mundo, associa&ccedil;&atilde;o esta que  tamb&eacute;m se verifica na literatura espanhola.</p>     <p>Depois do  desaparecimento progressivo de testemunhos sobre a Cocanha na Europa, o tema  ressurge em meados do s&eacute;culo XX num folheto de cordel do Nordeste brasileiro,  uma zona muito pobre com condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias e onde a estrutura social guardou  tra&ccedil;os arcaicos. O texto &ldquo;Viagem a S&atilde;o Saru&ecirc;&rdquo;, de Manuel Camilo dos Santos,  apresenta evidentes diferen&ccedil;as culturais, mas, de acordo com o autor, a sua  estrutura de base &eacute; id&ecirc;ntica. Sugere-se que o tema poder&aacute; ter sido transmitido  pela tradi&ccedil;&atilde;o folcl&oacute;rica vinda da Europa que poder&aacute; ter convergido com a  mem&oacute;ria de tradi&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas preexistentes (tribos primitivas sem hierarquias  sociais, pol&iacute;gamas, ociosas e onde se verificavam fomes end&eacute;micas).  Independentemente da sua fonte, n&atilde;o deixa de ser de grande interesse a  exist&ecirc;ncia deste eco tropical de um tema medieval europeu, mais um entre os  v&aacute;rios que a zona nordestina nos preservou.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O livro &eacute;  antecedido por uma interessante apresenta&ccedil;&atilde;o da autoria de Jacques Le Goff, que  destaca os elementos fundamentais da obra: a fertilidade dos estudos sobre a  intera&ccedil;&atilde;o entre pa&iacute;ses imagin&aacute;rios e sociedades hist&oacute;ricas uma vez que o  imagin&aacute;rio &eacute; uma representa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o real como as outras, se bem que de acordo  com outra l&oacute;gica; a import&acirc;ncia do mundo ut&oacute;pico, fora do tempo hist&oacute;rico, para  a compreens&atilde;o da sociedade medieval, suas contradi&ccedil;&otilde;es, puls&otilde;es, aspira&ccedil;&otilde;es,  revoltas e aud&aacute;cias; e os quatro temas de fundo subjacentes a Cocanha, pa&iacute;s sem  lei, limites ou repress&atilde;o. A bibliografia final &eacute; bastante completa apesar de  se apresentar muito segmentada. As imagens que o livro integra s&atilde;o bastante  eloquentes e ilustrativas do tema em an&aacute;lise e o &iacute;ndice remissivo &eacute; de grande  utilidade.</p>     <p><i>Cocagne:  Histoire d'un pays imaginaire</i>, de Hil&aacute;rio Franco  J&uacute;nior, &eacute; ainda um livro de leitura agrad&aacute;vel, acess&iacute;vel a um p&uacute;blico alargado  e uma obra a reter pelo estudo global que desenvolve sobre um tema que  ultrapassou o tempo e o local da sua origem e que, independentemente de ser  produto de uma sociedade pr&eacute;-industrial, n&atilde;o deixa de manter alguma atualidade  enquanto reflexo de preocupa&ccedil;&otilde;es humanas e resposta a medos e anseios de  car&aacute;ter geral.     <p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO </b></p>     <p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <p>DIAS,  Isabel de Barros &ndash; &ldquo;Recens&atilde;o: FRANCO J&Uacute;NIOR, Hil&aacute;rio &ndash; <i>Cocagne:  Histoire d'un pays imaginaire</i>. Pr&eacute;face  de Jacques Le Goff. Paris: Les &eacute;ditions Arkh&ecirc;, 2013, 380 pp. [ISBN: 978-2-918682-2-19]&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm;17 (Janeiro - Junho 2015). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA17/dias1710.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA17/dias1710.html</a></p>      ]]></body><back>
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