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<publisher-name><![CDATA[Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entrevista a José Mattoso]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DESTAQUE</b></p>     <p><b>Entrevista a Jos&eacute; Mattoso</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Director da <i>Medievalista OnLine</i> desde o n&uacute;mero 5 (2008) e at&eacute; ao &uacute;ltimo n&uacute;mero, o 18 (Julho-Dezembro de 2015), Jos&eacute; Mattoso deixou este cargo por sua vontade expressa, tal como explicou ent&atilde;o no Editorial da  revista. A t&iacute;tulo de balan&ccedil;o, mas tamb&eacute;m de abertura de perspectivas para o futuro, impunha-se ouvir aquele que foi o principal respons&aacute;vel pelo crescimento e consolida&ccedil;&atilde;o da <i>Medievalista</i> ao longo destes &uacute;ltimos sete anos. &Agrave;s perguntas preparadas pela Redac&ccedil;&atilde;o respondeu o nosso entrevistado em Novembro &uacute;ltimo. A sua reflex&atilde;o ultrapassa o &acirc;mbito da revista, para se alargar &agrave; situa&ccedil;&atilde;o actual dos estudos medievais, da &aacute;rea das ci&ecirc;ncias sociais e das humanidades em Portugal.</p>     <p><b>- Como viu o lan&ccedil;amento da <i>Medievalista </i>h&aacute; 10 anos e como avalia o percurso desde ent&atilde;o feito pela revista?</b></p>     <p>A <i>Medievalista</i> foi fundada quando eu ainda estava em Timor. N&atilde;o participei nas reuni&otilde;es preparat&oacute;rias promovidas pelo Lu&iacute;s Krus. Foi ele, portanto, o fundador. O meu papel foi o de apoio interessado, conselheiro, colega, amigo. J&aacute; estava reformado, mas participava, quando me era poss&iacute;vel, em reuni&otilde;es e provas acad&eacute;micas. Sendo, creio eu, o mais antigo dos membros do Departamento de Hist&oacute;ria da FCSH-UNL, preferi manter-me &agrave; margem de iniciativas deste g&eacute;nero, apoiar as que me parecessem v&aacute;lidas e merit&oacute;rias e, se fosse necess&aacute;rio, ajudar a resolver as dificuldades e contradi&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Nessa altura considerei-a uma ideia excelente, mas para a concretiza&ccedil;&atilde;o da qual me parecia n&atilde;o haver recursos suficientes. Sem nunca desencorajar o Lu&iacute;s, sentia-me um bocado c&eacute;ptico quanto ao seu &ecirc;xito. Lembrava-me das v&aacute;rias revistas de Hist&oacute;ria, impressas, fundadas em Portugal nos anos de 1930 a 1960, algumas delas por autores prestigiados, mas que raramente conseguiam sobreviver mais de dois ou tr&ecirc;s anos.</p>     <p>O certo &eacute; que o Lu&iacute;s com o seu <i>low profile, </i>modesto mas persistente, a sua paci&ecirc;ncia e a sua diplomacia, e sobretudo com a sua determina&ccedil;&atilde;o, l&aacute; conseguiu lan&ccedil;ar o primeiro n&uacute;mero, e n&atilde;o deixou nunca de p&ocirc;r todo o empenho na sua continua&ccedil;&atilde;o. A sua persist&ecirc;ncia venceu as minhas d&uacute;vidas. Foram precisos alguns anos para, j&aacute; depois da morte do Lu&iacute;s, a <i>Medievalista</i> se impor no &ldquo;mercado&rdquo; medieval&iacute;stico nacional e at&eacute; internacional. Creio que, no seu g&eacute;nero, conseguiu uma audi&ecirc;ncia crescente junto de muitos centros de investiga&ccedil;&atilde;o medieval&iacute;stica da Europa e da Am&eacute;rica.</p>     <p>A raz&atilde;o deste sucesso creio que est&aacute; na regularidade da sua publica&ccedil;&atilde;o, na qualidade dos artigos de investiga&ccedil;&atilde;o que tem publicado e que revelam documentos importantes ou perspectivas originais, na informa&ccedil;&atilde;o acerca de projectos inovadores, no recenseamento de obras rec&eacute;m-publicadas, num bem informado an&uacute;ncio de semin&aacute;rios, col&oacute;quios e congressos com alguma rela&ccedil;&atilde;o com a Idade M&eacute;dia, na prefer&ecirc;ncia por temas e projectos inovadores de inspira&ccedil;&atilde;o interdisciplinar (hist&oacute;ria das ci&ecirc;ncias, da mulher, dos marginais, das representa&ccedil;&otilde;es mentais, da guerra, de mat&eacute;rias hoje consideradas esot&eacute;ricas etc., etc.). Tudo isto sem pretens&otilde;es de cobrir sistematicamente as respectivas rubricas, nem de procurar s&iacute;nteses abrangentes, mas prematuras. Assim, o volume e o interesse das suas informa&ccedil;&otilde;es, e o valor cient&iacute;fico dos seus principais artigos t&ecirc;m vindo a aumentar. Tornou-se uma revista com razo&aacute;vel prest&iacute;gio nos meios acad&eacute;micos. Conseguiu associar a investiga&ccedil;&atilde;o profissional a uma certa divulga&ccedil;&atilde;o de conhecimentos, n&atilde;o propriamente para o grande p&uacute;blico, nem para os investigadores altamente especializados, mas para os &ldquo;amantes&rdquo; ou &ldquo;amadores&rdquo; da Idade M&eacute;dia. Com efeito, podia ter enveredado pelo formato de &ldquo;magazine&rdquo;, &agrave; semelhan&ccedil;a de outras revistas de hist&oacute;ria francesas, inglesas ou americanas bem conhecidas, mas que em Portugal nunca chegaram a ter grande sucesso. Prefiro o modelo que a <i>Medievalista</i> segue, do que qualquer outro modelo poss&iacute;vel, entre outras raz&otilde;es, por se adaptar muito bem &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias da inform&aacute;tica e da Internet.</p>     <p><b>- Qual &eacute; a sua vis&atilde;o sobre o estado actual dos estudos medievais em Portugal?</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Algumas das tend&ecirc;ncias actuais s&atilde;o muito n&iacute;tidas. A mais saliente, na minha opini&atilde;o, &eacute; a quantidade de publica&ccedil;&otilde;es da &aacute;rea da Hist&oacute;ria; a quantidade de centros, c&acirc;maras municipais, institutos, organismos e entidades de todo o g&eacute;nero que publicam obras impressas ou participam na sua publica&ccedil;&atilde;o; a quantidade de romances hist&oacute;ricos, biografias, monografias, cat&aacute;logos de exposi&ccedil;&otilde;es, folhetos informativos, confer&ecirc;ncias, col&oacute;quios, congressos, eu sei l&aacute;... O per&iacute;odo hist&oacute;rico predominante talvez n&atilde;o seja a Idade M&eacute;dia. Mas em rela&ccedil;&atilde;o com o que antes do fim do mil&eacute;nio se editava acerca desse per&iacute;odo, a produ&ccedil;&atilde;o deve ter duplicado ou triplicado. N&atilde;o h&aacute; C&acirc;mara Municipal que se preze que deixe de publicar pelo menos alguns folhetos acerca dos monumentos do seu territ&oacute;rio com fotografias e breves informa&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas.</p>     <p>Se a este conjunto se juntarem as teses de mestrado e doutoramento (e, mais recentemente, os resultados de projectos p&oacute;s-doc), o n&uacute;mero de publica&ccedil;&otilde;es de tem&aacute;tica medieval cresce ainda mais. Conv&eacute;m dizer, desde j&aacute;, que a selec&ccedil;&atilde;o dos trabalhos hist&oacute;ricos em fun&ccedil;&atilde;o da qualidade se tem tornado cada vez mais dif&iacute;cil. &Eacute; frequente a publica&ccedil;&atilde;o de textos e folhetos de m&aacute; qualidade por entidades locais ou regionais que cuidam mais do aspecto do que do conte&uacute;do, ou, at&eacute;, que publicam obras luxuosas, mas n&atilde;o se preocupam com a qualidade do texto. Para as distinguir umas das outras n&atilde;o h&aacute; nenhum filtro seguro. Pode at&eacute; suceder publicarem-se trabalhos cheios de banalidades, onde aparecem pequenas p&eacute;rolas no meio de muita palha; ou monografias aparentemente interessantes, mas puramente descritivas; ou obras que misturam dados importantes com dados secund&aacute;rios; ou listas de documentos bem ou mal seriados e referenciados, mas que o investigador n&atilde;o pode deixar de examinar; e assim sucessivamente.</p>     <p>A esta profus&atilde;o de dados cada vez mais dif&iacute;ceis de seleccionar e coordenar, juntem-se as comunica&ccedil;&otilde;es a col&oacute;quios e congressos de todas as dimens&otilde;es. O seu n&uacute;mero n&atilde;o p&aacute;ra de crescer, as suas tem&aacute;ticas e conte&uacute;dos tanto podem ser irrelevantes como reveladoras de inesperados tesouros. Tanto seguem modelos cl&aacute;ssicos como os da severa erudi&ccedil;&atilde;o germ&acirc;nica, como surpreendem pela sua inspira&ccedil;&atilde;o em modelos nunca experimentados. Podem nascer da descoberta de n&uacute;cleos documentais in&eacute;ditos, ou ent&atilde;o da explora&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica de s&eacute;ries documentais j&aacute; conhecidas, mas interpretadas de maneira diferente. Pelos caminhos da interdisciplinaridade aparecem novas formas de datar, compreender ou contextualizar os testemunhos do passado: n&atilde;o apenas dos escritos, mas de todos os vest&iacute;gios materiais do passado, quer os mais nobres, como as imagens, rel&iacute;quias e ins&iacute;gnias, quer os anteriormente desprezados, como os instrumentos do trabalho manual, o vestu&aacute;rio, a olaria, as armas e, at&eacute;, os restos de alimentos, as ossadas de animais, sem esquecer os p&oacute;lens e outros vest&iacute;gios da cobertura vegetal, etc., etc.</p>     <p>Estou a falar do vertiginoso aumento num&eacute;rico de estudos, grandes e pequenos, que o medievalista pode ou tem de utilizar para conhecer e/ou compreender o passado. A massa de dados que o investigador pode, ou deve, usar, &eacute; de tal ordem que se torna cada vez mais dif&iacute;cil estabelecer listas bibliogr&aacute;ficas completas para cada assunto (exig&ecirc;ncia outrora indispens&aacute;vel em provas acad&eacute;micas), quanto mais tra&ccedil;ar o &ldquo;estado da arte&rdquo; que d&ecirc; conta do progresso cient&iacute;fico que academicamente se alcan&ccedil;ou a respeito do ou dos problemas de que trata a disserta&ccedil;&atilde;o. O desenvolvimento das modernas tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o aperfei&ccedil;oou j&aacute; enormemente as possibilidades da an&aacute;lise dos textos, e da cria&ccedil;&atilde;o de repert&oacute;rios bibliogr&aacute;ficos exaustivos para cada &aacute;rea das ci&ecirc;ncias sociais, quer repert&oacute;rios completos at&eacute; uma determinada data, quer repert&oacute;rios peri&oacute;dicos da produ&ccedil;&atilde;o corrente. Espera-se que esses instrumentos de trabalho se tornem cada vez mais acess&iacute;veis.</p>     <p>N&atilde;o devemos esquecer, por&eacute;m, que o objectivo da investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica n&atilde;o &eacute; a quantidade, mas a qualidade. Ou seja, al&eacute;m de repertoriar tudo o que se produziu at&eacute; &agrave; data da disserta&ccedil;&atilde;o, &eacute; preciso assimilar o seu conte&uacute;do, e assinalar aquilo que pode servir de apoio para o aprofundamento da quest&atilde;o em causa. A selec&ccedil;&atilde;o da bibliografia depende de crit&eacute;rios irredut&iacute;veis (at&eacute; agora) a ind&iacute;cios elementares, embora os actuais motores de busca inform&aacute;ticos se possam desde j&aacute; usar em an&aacute;lises de dados lingu&iacute;sticos concretos, o que alarga enormemente a possibilidade de examinar conceitos e pr&aacute;ticas adoptados pelos autores do passado ou pelas sociedades em que viveram. De qualquer maneira, a problem&aacute;tica historiogr&aacute;fica actual p&otilde;e &agrave; prova a imagina&ccedil;&atilde;o e a perspic&aacute;cia do investigador, sem as quais a t&eacute;cnica fica reduzida a uma mec&acirc;nica. Em vez de vivificar e fecundar a mem&oacute;ria do passado, congelam-se os restos ou as marcas que ele deixou.</p>     <p>Agora reparo que as observa&ccedil;&otilde;es feitas at&eacute; aqui dizem respeito ao medievalismo internacional. Mas a pergunta era acerca do medievalismo portugu&ecirc;s. A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; <i>grosso modo </i>an&aacute;loga, isto &eacute;, a quantidade de publica&ccedil;&otilde;es cresceu exponencialmente, mas a selec&ccedil;&atilde;o qualitativa permite reduzir o que merece a pena ler. Por outro lado, a historiografia portuguesa vinha a perder qualidade desde a morte do seu patrono, Alexandre Herculano, quer porque o positivismo e o historicismo dominantes no pensamento europeu do fim do s&eacute;culo XIX e primeira metade do XX eram de facto redutores, quer porque reduzia o estudo do passado ao elenco dos reis e das suas vit&oacute;rias ou derrotas internas e externas, e &agrave; hist&oacute;ria das institui&ccedil;&otilde;es interpretada &agrave; base do pensamento jur&iacute;dico. O mito da decad&ecirc;ncia peninsular era compensado pela exalta&ccedil;&atilde;o da heroicidade nacional que tinha levado os portugueses a espalhar a F&eacute; e o Imp&eacute;rio at&eacute; aos confins do Oriente. O salazarismo manteve e cultivou os dois mitos e refor&ccedil;ou-os com outros de inspira&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico-institucional, como a n&atilde;o exist&ecirc;ncia do feudalismo em Portugal, a aus&ecirc;ncia da luta de classes, a s&oacute;lida e constante supremacia r&eacute;gia na sucess&atilde;o do trono, na capacidade legislativa e na administra&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio, etc., etc. A investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e o ensino universit&aacute;rio em Hist&oacute;ria transformaram-se em demonstra&ccedil;&otilde;es de &ldquo;teses&rdquo; como as que referi. Os comp&ecirc;ndios escolares e as obras de divulga&ccedil;&atilde;o mantinham e glosavam o mesmo sentimento. Obcecada pelo mito da decad&ecirc;ncia, procurava resgatar a mem&oacute;ria das derrotas sofridas proclamando o seu contr&aacute;rio. Ou seja, por meio de uma &ldquo;verdade&rdquo; que continha todas as outras e se traduzia graficamente sob o lema &ldquo;Portugal n&atilde;o &eacute; um pa&iacute;s pequeno&rdquo;.</p>     <p>No Portugal dos anos 60 a 80, o fosso, para n&atilde;o dizer o abismo, entre a historiografia cient&iacute;fica e a historiografia do ensino e de divulga&ccedil;&atilde;o era, pois, enorme. O conhecimento de outros m&eacute;todos e outros problemas atrav&eacute;s de obras estrangeiras, sobretudo francesas, que faziam da Hist&oacute;ria uma disciplina muito mais aliciante e convincente, veio, nos mesmos anos, a alimentar a cr&iacute;tica, mas n&atilde;o a inspirar a investiga&ccedil;&atilde;o. Exceptuam-se obras onde come&ccedil;ava a despontar uma concep&ccedil;&atilde;o moderna, como as de Magalh&atilde;es Godinho e Oliveira Marques, publicadas fora de Portugal, ou as de Virg&iacute;nia Rau, que se podem considerar sondagens dispersas n&atilde;o integradas num discurso interpretativo abrangente. As concep&ccedil;&otilde;es marxistas ou estruturalistas e os progressos das ci&ecirc;ncias sociais, sobretudo da Antropologia, que, nos anos 60 a 74, opunham alunos a mestres, eram ainda concep&ccedil;&otilde;es escolares, e continuaram a s&ecirc;-lo at&eacute; meados da d&eacute;cada de 80. S&oacute; nessa altura come&ccedil;aram a inspirar expressamente disserta&ccedil;&otilde;es de doutoramento e verdadeiras investiga&ccedil;&otilde;es originais suscept&iacute;veis de transformar a historiografia portuguesa e de a elevar at&eacute; ao n&iacute;vel das obras francesas que tanto sucesso alcan&ccedil;aram at&eacute; meados da d&eacute;cada de 90. Nos anos seguintes, o n&iacute;vel da investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica parece-me ter estacionado, ao mesmo tempo que a produ&ccedil;&atilde;o aumentava em quantidade.</p>     <p>Sem poder, j&aacute;, participar na renova&ccedil;&atilde;o global e em s&iacute;nteses interpretativas que d&ecirc;em coer&ecirc;ncia a tudo o que a investiga&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica recentemente averiguou e sugeriu, creio que agora se imp&otilde;e uma revis&atilde;o geral e um trabalho comparativo em que os dados parcelares tenham o seu lugar e o seu sentido. &Eacute; esse, creio eu, o desafio que as vossas perguntas me sugerem em nome da <i>Medievalista</i>. N&atilde;o sei se h&aacute; condi&ccedil;&otilde;es para fazer essa revis&atilde;o com a amplitude e a pertin&ecirc;ncia de conceitos te&oacute;ricos necess&aacute;rios, mas parece-me que, se n&atilde;o for feita, a imensa quantidade de dados que desde o princ&iacute;pio da d&eacute;cada de 2000 se foi acumulando ficar&aacute; est&eacute;ril. Neste momento, talvez a profus&atilde;o de estudos dos vest&iacute;gios materiais estimulados pela interdisciplinaridade continue a sustentar a originalidade de novas pesquisas. Todavia, neste sector, a s&iacute;ntese &eacute; ainda mais problem&aacute;tica. Entretanto, a cria&ccedil;&atilde;o de centros de investiga&ccedil;&atilde;o como o IEM constitui tamb&eacute;m um factor muito importante nesta fase do medievalismo internacional. S&atilde;o sinais positivos de uma din&acirc;mica poss&iacute;vel, se da coopera&ccedil;&atilde;o entre os investigadores nascerem as ac&ccedil;&otilde;es propostas por uma estrat&eacute;gia adequada.</p>     <p><b>- Qual foi, &eacute; e poder&aacute; ser no futuro o contributo da <i>Medievalista </i>para os estudos medievais (utilidade, impacto...)?</b></p>     <p>Parece-me que o editorial do &uacute;ltimo n&uacute;mero (18) j&aacute; d&aacute; uma impress&atilde;o suficiente. No fundo trata-se de comparar o que se projectava inicialmente e aquilo que a <i>Medievalista</i> acabou por ser. Creio que h&aacute; um alargamento dos temas, e um aprofundamento das an&aacute;lises. Ao mesmo tempo, cada vez maior variedade de abordagens. O n&uacute;mero 18 &eacute; exemplo significativo disso mesmo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As op&ccedil;&otilde;es editoriais, o formato intelectual, o n&iacute;vel cient&iacute;fico e o car&aacute;cter inovador alcan&ccedil;ados pela <i>Medievalista</i> podem-se, sem d&uacute;vida, encontrar separadamente noutras publica&ccedil;&otilde;es cong&eacute;neres. Mas, associados entre si, conferem-lhe caracter&iacute;sticas bastante pr&oacute;prias. O que certamente tem atra&iacute;do os colaboradores &eacute; a relev&acirc;ncia dos artigos pela novidade do seu conte&uacute;do ou a originalidade do seu tratamento.</p>     <p>Como escrevi no Editorial do n&uacute;mero 18, o lugar alcan&ccedil;ado s&oacute; se poder&aacute; manter se se sistematizarem os nossos programas, renovarem as nossas perspectivas, aprofundarem as nossas investiga&ccedil;&otilde;es e alargarem o c&iacute;rculo dos nossos contactos. Ao passar o testemunho a um novo Director, espero que ele e a equipa redactorial continuem a dar vida ao projecto que Lu&iacute;s Krus concebeu, mas do qual s&oacute; p&ocirc;de lan&ccedil;ar as primeiras sementes.</p>     <p><b>- Qual &eacute; a sua opini&atilde;o sobre as pol&iacute;ticas de investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica no campo das ci&ecirc;ncias sociais, no nosso pa&iacute;s?</b></p>     <p>Essa quest&atilde;o &eacute; importante. Infelizmente, pouco sei dizer acerca dela sem consultar informa&ccedil;&otilde;es produzidas pelos pr&oacute;prios intervenientes nessas pol&iacute;ticas.</p>     <p>Procurando na minha mem&oacute;ria reminisc&ecirc;ncias dos meus contactos com a investiga&ccedil;&atilde;o e o ensino em Ci&ecirc;ncias Sociais, recordo a rejei&ccedil;&atilde;o em bloco do seu pr&oacute;prio estatuto cient&iacute;fico durante os &uacute;ltimos tempos do Estado Novo. Aparentemente o Regime receava que elas trouxessem s&oacute; por si a divis&atilde;o social, a contesta&ccedil;&atilde;o da autoridade e da lei, a inevitabilidade da luta pol&iacute;tica. Foi preciso a convic&ccedil;&atilde;o e a persist&ecirc;ncia de Ad&eacute;rito Sedas Nunes para conseguir a aprova&ccedil;&atilde;o do Gabinete de Investiga&ccedil;&otilde;es Sociais, antecessor do Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais, e a publica&ccedil;&atilde;o dos primeiros resultados de inqu&eacute;ritos e de estudos da realidade social que em Portugal se realizaram. Entretanto o estudo oficial das realidades sociais praticava-se como subordinado aos estudos coloniais (Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, depois Instituto Superior de Ci&ecirc;ncias Sociais e Pol&iacute;tica Ultramarina).</p>     <p>O 25 de Abril trouxe a liberta&ccedil;&atilde;o de tais preconceitos e a r&aacute;pida multiplica&ccedil;&atilde;o de centros de estudos. As Ci&ecirc;ncias Sociais diversificaram-se e especializaram-se em disciplinas como a Sociologia, a Antropologia, a Economia, a Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica, a Psicologia Social, a Demografia, etc. Embora estas ci&ecirc;ncias procurassem definir princ&iacute;pios e conceitos intemporais, acabaram sempre por ter de considerar as coordenadas do espa&ccedil;o e do tempo. Inversamente, a Hist&oacute;ria teve de considerar os conceitos e teorias fornecidos pela Sociologia e as outras ci&ecirc;ncias sociais para compreender e interpretar os fen&oacute;menos propriamente hist&oacute;ricos. Por exemplo, as estruturas do parentesco para compreender os fen&oacute;menos da sucess&atilde;o r&eacute;gia ou da origem e evolu&ccedil;&atilde;o da nobreza. Estas quest&otilde;es foram debatidas noutros pa&iacute;ses e entre n&oacute;s &agrave; luz de obras de autores que tiveram ent&atilde;o o maior sucesso, como Durkheim, Max Weber, Marcel Mauss, Michel Foucault, Levy-Strauss, etc., e contribu&iacute;ram de facto para o aprofundamento historiogr&aacute;fico. Todavia a ideia de que a Sociologia pudesse contribuir de facto para a solu&ccedil;&atilde;o dos problemas reais da sociedade contempor&acirc;nea, tais como o atraso econ&oacute;mico portugu&ecirc;s, a mortalidade infantil ou a subalternidade da mulher, foi dando o lugar ao cepticismo e &agrave; discuss&atilde;o te&oacute;rica. Noutro registo, o dos m&eacute;todos adequados &agrave; compreens&atilde;o dos fen&oacute;menos sociais, p&ocirc;s-se em d&uacute;vida o fundamento das &ldquo;leis&rdquo; at&eacute; ent&atilde;o formuladas e deu-se a preval&ecirc;ncia aos &ldquo;estudos de caso&rdquo;, ou seja &agrave; observa&ccedil;&atilde;o e averigua&ccedil;&atilde;o dos comportamentos individuais e colectivos &ldquo;em contexto&rdquo; local e com dura&ccedil;&atilde;o reduzida, evitando as generaliza&ccedil;&otilde;es. No caso do Instituto de Ci&ecirc;ncias Sociais, que funcionou como uma esp&eacute;cie de epicentro de tais discuss&otilde;es, creio que tiveram bastante peso os membros que investigavam em Hist&oacute;ria Moderna e Contempor&acirc;nea, e n&atilde;o em Sociologia, que efectuaram investiga&ccedil;&otilde;es verdadeiramente inovadoras e obtiveram grande sucesso editorial (como Vasco Pulido Valente, Filomena M&oacute;nica, F&aacute;tima Bonif&aacute;cio, Nuno Monteiro, Ant&oacute;nio Hespanha, Rui Ramos...), em contraste com a reduzida notoriedade dos seus colegas soci&oacute;logos, salvo raras excep&ccedil;&otilde;es. F&aacute;tima Bonif&aacute;cio, por exemplo, n&atilde;o hesitava em considerar as ci&ecirc;ncias sociais praticadas em Fran&ccedil;a como um irremedi&aacute;vel fracasso. Ao mesmo tempo, &agrave; medida que os seus modelos iam perdendo credibilidade, ia-se consolidando a influ&ecirc;ncia anglo-sax&oacute;nica. De resto quase todos estes investigadores eram de forma&ccedil;&atilde;o inglesa.</p>     <p>Entretanto, o prest&iacute;gio cient&iacute;fico global das Humanidades e das Ci&ecirc;ncias Sociais ia decaindo, nos anos 80 e 90, em favor das Ci&ecirc;ncias Exactas e das Tecnologias. A maioria dos Ministros da Educa&ccedil;&atilde;o tinham uma forma&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias Exactas. As verbas estatais para o desenvolvimento cient&iacute;fico e tecnol&oacute;gico reservavam-se, na sua maior parte, para as Ci&ecirc;ncias, deixando os restos para as Humanidades. A inferioridade da&iacute; resultante agravou-se com a aplica&ccedil;&atilde;o dos mesmos crit&eacute;rios de avalia&ccedil;&atilde;o aos projectos de investiga&ccedil;&atilde;o apresentados a concurso, quer fossem cient&iacute;ficos, quer human&iacute;sticos. Concebidos para as Ci&ecirc;ncias Exactas, distorciam os resultados dos projectos human&iacute;sticos. Se, apesar de tudo, a Hist&oacute;ria foi, nessa mesma &eacute;poca, melhorando os seus resultados, n&atilde;o ficou a dev&ecirc;-lo aos est&iacute;mulos estatais, mas &agrave; sua pr&oacute;pria din&acirc;mica e ao interesse que, nos mesmos anos, suscitava na opini&atilde;o p&uacute;blica, como se verificou, por exemplo, com o &ecirc;xito editorial da <i>Hist&oacute;ria de Portugal</i> do C&iacute;rculo de Leitores. Com efeito, mesmo tendo em conta que a investiga&ccedil;&atilde;o nas ci&ecirc;ncias &ldquo;duras&rdquo; &eacute;, por sua pr&oacute;pria natureza, mais cara que nas Humanidades, pode-se considerar que as verbas atribu&iacute;das a estas as reduziam a um papel, por assim dizer, puramente ornamental. Os organismos governamentais que ditaram as pol&iacute;ticas da forma&ccedil;&atilde;o humana nunca souberam estimular a Ci&ecirc;ncia sem inferiorizar a Arte e o Pensamento. A &uacute;nica excep&ccedil;&atilde;o de relevo neste panorama foi Mariano Gago. A excep&ccedil;&atilde;o que confirma uma regra que se mant&eacute;m at&eacute; hoje.</p>     <p>6 de Novembro de 2015.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO </b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <p>&ldquo;Entrevista a Jos&eacute; Mattoso&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm; 19 (Janeiro &ndash; Junho 2016). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA19/entrevista1902.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA19/entrevista1902.html</a>.</p>      ]]></body>
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