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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A voz ou a plenitude do texto: Performance oral, práticas de leitura e identidade literária no Ocidente medieval]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The voice or the text completeness: Oral performance, reading practices and literary identity in the medieval West]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In a famous episode described in his Confessions (Book VI, 3), St. Augustine expresses his confusion and perplexity to the attitude of his master and friend Ambrose whose eyes roam, in absolute silence, through the pages of a manuscript. How can we explain this astonishment that modern criticism has interpreted as a clear evidence that High Middle Ages, following the models of Classical Antiquity, mainly developed the reading aloud, rather than the Early Middle Ages that had invented silent reading? Through the privileged perspective of French Medieval Literature (but not only), these reflections aim to question the evolutionary and cognitive conception of the history of reading refocusing the problem in the irreducible tension - which has partly characterized Western culture - between the letter and the voice, between an idealization of the writing elevated into the magic sphere of the Sacred (or the Law) which places the oral performance under the sign of a corrupted fabula, and a long tradition that, from Plato to Hegel, assimilates logocentrism and phonocentrism. In this perspective, writing, a signifier of a signifier (Jacques Derrida), is nothing but a tarnished crystallization of the voice which emanates the entire Being and the unity of the word.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Literatura Francesa Medieval]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGO</b></p>     <p><b>A voz ou a plenitude do texto. Performance oral, pr&aacute;ticas de leitura e identidade liter&aacute;ria no Ocidente medieval</b> <a name="top1"></a><sup><a href="#1">1</a></sup><b>.</b></p>     <p><b>Carlos F. Clamote Carreto<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup> Universidade Aberta, Departamento de Humanidades / Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Instituto de Estudos de Literatura e Tradi&ccedil;&atilde;o, 1269-001 Lisboa, Portugal. <i>E-mail:</i> <a href="mailto:carlos.carreto@uab.pt">carlos.carreto@uab.pt</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Num c&eacute;lebre epis&oacute;dio relatado no livro VI, 3 das suas <i>Confiss&otilde;es, </i>Santo Agostinho manifesta a sua perturba&ccedil;&atilde;o e perplexidade perante a atitude do seu mestre e amigo Ambr&oacute;sio cujos olhos deambulam, em absoluto sil&ecirc;ncio, pelas p&aacute;ginas de um manuscrito. Porqu&ecirc; este espanto que a cr&iacute;tica se apressou a interpretar como uma inequ&iacute;voca prova de que a Alta Idade M&eacute;dia, herdeira dos modelos da Antiguidade Cl&aacute;ssica, cultivou essencialmente a leitura em voz alta, ao inv&eacute;s da Baixa Idade M&eacute;dia (essencialmente a partir dos s&eacute;culos XI-XIII) que teria inventado a leitura silenciosa, pr&aacute;tica que o progressivo alargamento das comunidades textuais (Brian Stock) viria acentuar de forma irrevers&iacute;vel? Partindo do testemunho privilegiado da literatura francesa medieval (mas n&atilde;o s&oacute;), estas reflex&otilde;es visam questionar a conce&ccedil;&atilde;o evolucionista e cognitiva da leitura recentrando a problem&aacute;tica na irredut&iacute;vel tens&atilde;o &ndash; que tem em parte caracterizado a cultura ocidental &ndash; entre a letra e a voz, entre uma idealiza&ccedil;&atilde;o da escrita erguida &agrave; esfera m&aacute;gica do Sagrado (ou da Lei) que coloca a performance oral sob o signo da efabula&ccedil;&atilde;o corruptora, e uma longa tradi&ccedil;&atilde;o que, de Plat&atilde;o a Hegel, assimila o logocentrismo a um fonocentristo em que a escrita, significante do significante (Jacques Derrida) n&atilde;o passa de uma cristaliza&ccedil;&atilde;o redutora da voz da qual emana a totalidade do ser e a plenitude da palavra.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Literatura Francesa Medieval; Tradi&ccedil;&atilde;o oral e cultura escrita; Hist&oacute;ria da leitura; Hist&oacute;ria do Livro</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>In a famous episode described in his <i>Confessions</i> (Book VI, 3), St. Augustine expresses his confusion and perplexity to the attitude of his master and friend Ambrose whose eyes roam, in absolute silence, through the pages of a manuscript. How can we explain this astonishment that modern criticism has interpreted as a clear evidence that High Middle Ages, following the models of Classical Antiquity, mainly developed the reading aloud, rather than the Early Middle Ages that had invented silent reading? Through the privileged perspective of French Medieval Literature (but not only), these reflections aim to question the evolutionary and cognitive conception of the history of reading refocusing the problem in the irreducible tension &ndash; which has partly characterized Western culture &ndash; between the letter and the voice, between an idealization of the writing elevated into the magic sphere of the Sacred (or the Law) which places the oral performance under the sign of a corrupted <i>fabula</i>, and a long tradition that, from Plato to Hegel, assimilates logocentrism and phonocentrism. In this perspective, writing, a signifier of a signifier (Jacques Derrida), is nothing but a tarnished crystallization of the voice which emanates the entire Being and the unity of the word.</p>     <p><b><i>Keywords</i>:</b> French Medieval Literature; Oral and written culture; History of reading; History of book</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>      <p><i>La voix g&icirc;te dans le silence du corps, comme fit le corps dans sa matrice (...). Parle-t-elle, que r&eacute;sonne en son creux l&rsquo;&eacute;cho de ce d&eacute;sert d&rsquo;avant la rupture, d&rsquo;o&ugrave; sourdent la vie et la paix, la mort et la folie. Le souffle de la voix est cr&eacute;ateur (...). Chaque syllabe est souffle, rythm&eacute;e par le battement du sang; et l&rsquo;&eacute;nergie de le ce souffle, avec l&rsquo;optimisme de la mati&egrave;re, convertit la question en annonce, la m&eacute;moire en proph&eacute;tie, dissimule les marques de ce qui s&rsquo;est perdu et affecte irr&eacute;m&eacute;diablement le langage et le temps. C&rsquo;est pourquoi la voix est parole sans paroles, &eacute;pur&eacute;e, filet vocale qui fragilement nous relie &agrave; l&rsquo;Unique</i>.</p>      <p>Paul ZUMTHOR, <i>Introduction &agrave; la po&eacute;sie orale</i>, p. 11 e 13<a name="top2"></a><sup><a href="#2">2</a></sup>.</p> </blockquote>     <blockquote>    <p><i>Mesire Yvains el vergier entre    <br>          Et apr&eacute;s lui toute sa route&nbsp;;    <br>          Apuy&eacute; voit deseur son coute    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>          Un preudomme qui se gesoit    <br>          Seur .i. drap de soie, et lisoit    <br>          Une puchele devant li    <br>          En un rommans, ne sai de cui.    <br>          Et pour le rommans escouter    <br>          S&rsquo;i estoit venue acouter    <br>          Une dame, et estoit sa mere.</i></p>            <p>Chr&eacute;tien de TROYES, <i>Yvain ou le Chevalier au Lion</i>, v. 5356-65<a name="top3"></a><sup><a href="#3">3</a></sup>.</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A letra e a voz</b><a name="top4"></a><sup><a href="#4">4</a></sup><b>: paradoxos, equ&iacute;vocos e tens&otilde;es</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No livro VI, 3 das suas <i>Confiss&otilde;es </i>(compostas entre 397 et 401), Santo Agostinho relata um estranho epis&oacute;dio<a name="top5"></a><sup><a href="#5">5</a></sup>. Sentindo a necessidade de se aconselhar com o seu mestre e amigo Ambr&oacute;sio, eis que entra um dia no seu quarto e surpreende-se com um h&aacute;bito que, para n&oacute;s, leitores do s&eacute;culo XXI, deixou de causar qualquer estranheza ou perplexidade. Os olhos de Ambr&oacute;sio deambulam, silenciosos, pelas p&aacute;ginas de um manuscrito ao mesmo tempo que o seu intelecto penetra as profundezas do sentido, totalmente alheio ao mundo que o rodeia. Porqu&ecirc; este espanto que a cr&iacute;tica se apressou a interpretar como uma inequ&iacute;voca prova de que a Alta Idade M&eacute;dia, herdeira dos modelos da Antiguidade Cl&aacute;ssica, cultivou essencialmente a leitura em voz alta, ao inv&eacute;s da Baixa Idade M&eacute;dia (essencialmente a partir dos s&eacute;culos XI-XIII) que teria inventado a leitura silenciosa, pr&aacute;tica que o progressivo alargamento das &ldquo;comunidades de leitores&rdquo;<a name="top6"></a><sup><a href="#6">6</a></sup>, cada vez mais heterog&eacute;neas com o crescimento das cidades, o desenvolvimento da cultura mercantil, a expans&atilde;o das escolas urbanas e a consecutiva multiplica&ccedil;&atilde;o dos letrados e, mais tarde, o advento da impressa e de uma cultura marcadamente visual, viria acentuar de forma irrevers&iacute;vel? Sobre esta interpreta&ccedil;&atilde;o se constru&iacute;ram pressupostos (ou estere&oacute;tipos) culturais &ndash; e mesmo pedag&oacute;gicos &ndash; que ainda hoje tenazmente resistem e aos quais teremos a oportunidade de regressar. Mas voltemos &agrave; pergunta inicial. O que &eacute; que, na atitude de Ambr&oacute;sio, deixou Santo Agostinho t&atilde;o perplexo ao ponto de se sentir impelido a justificar um h&aacute;bito que, seja qual for a sua inten&ccedil;&atilde;o, s&oacute; poderia ser virtuoso porque praticado, conclui ele, por um homem virtuoso (&ldquo;<i>Quolibet tamen animo id ageret, bono utique ille vir agebat</i>&rdquo;)? Uma leitura atenta do texto revela que o que est&aacute; aqui no centro do esc&acirc;ndalo &eacute; o sil&ecirc;ncio total (<i>tacite</i>) no qual se processa a leitura e n&atilde;o a expect&aacute;vel leitura em voz baixa (tamb&eacute;m designada de murm&uacute;rio ou <i>ruminatio</i>) como t&eacute;cnica (mon&aacute;stica e n&atilde;o s&oacute;) de suporte &agrave; medita&ccedil;&atilde;o, interioriza&ccedil;&atilde;o e memoriza&ccedil;&atilde;o da palavra divina ou consagrada. Na verdade, n&atilde;o ser&aacute; tamb&eacute;m esse modo de leitura que ainda hoje qualificamos de <i>silencioso </i>uma leitura predominantemente sussurrada, quase inaud&iacute;vel apesar de levemente vocalizada, situada nos limiares entre a articula&ccedil;&atilde;o das palavras e um sopro cont&iacute;nuo que confunde os sons e impede a sua segmenta&ccedil;&atilde;o/apreens&atilde;o pelo ouvido? Quantas vezes n&atilde;o fomos surpreendidos (em n&oacute;s ou nos outros) por esta pr&aacute;tica solit&aacute;ria, l&uacute;dica e cognitiva da leitura, cujo ritmo lancinante a assemelha a uma ladainha encantat&oacute;ria, a um mantra ou a uma ora&ccedil;&atilde;o? Mas em Ambr&oacute;sio, a voz e a l&iacute;ngua est&atilde;o em repouso absoluto (&ldquo;<i>vox autem et lingua quiescebant</i>&rdquo;). Agostinho explica: talvez o sil&ecirc;ncio fosse, para o mestre, uma forma de descansar, isolando-se, no prazer da leitura, dos tumultos de uma atividade particularmente exigente? Talvez fosse, por outro lado, uma maneira de evitar que o texto no qual est&aacute; a meditar viesse a ser escutado por um ouvido atento que nele logo descobriria alguma passagem obscura ou dif&iacute;cil, obrigando ent&atilde;o Ambr&oacute;sio a interromper o seu estudo individual e a substituir o sil&ecirc;ncio da media&ccedil;&atilde;o por um atividade hermen&ecirc;utica ruidosa, longa, penosa e, provavelmente, prematura? Ou, quem sabe, talvez Ambr&oacute;sio quisesse t&atilde;o-somente poupar a sua fr&aacute;gil e quebradi&ccedil;a voz <i>(&ldquo;causa servandae vocis, quae illi facillime obtundebatur poterat esse justior tacite legendi&rdquo;</i>)? Seja como for, esta confiss&atilde;o revela dois aspetos fulcrais no &acirc;mbito de uma antropologia da leitura. Por um lado, a natureza amea&ccedil;adora, quase il&iacute;cita ou transgressiva, da leitura silenciosa, como se na espessura opaca do sil&ecirc;ncio se inscrevesse uma inten&ccedil;&atilde;o &iacute;nvia, um n&atilde;o-dito incontrol&aacute;vel, uma ambiguidade inquietante. Na realidade, por mais que a tradi&ccedil;&atilde;o m&iacute;stica e mon&aacute;stica valorize o sil&ecirc;ncio contemplativo, a sua rela&ccedil;&atilde;o com o livro e a escrita parece contradizer um dos fundamentos antropol&oacute;gicos da civiliza&ccedil;&atilde;o medieval que assenta (e assentar&aacute; cada vez mais, nomeadamente com o advento das ordens mendicantes e pregadoras dos s&eacute;culos XII e XIII) numa teologia do Verbo Incarnado, ou seja, numa teologia da Revela&ccedil;&atilde;o que passa por tornar fecunda e luminosa a palavra que Deus semeou na letra das Escrituras, tanto atrav&eacute;s atividade exeg&eacute;tica ou da prega&ccedil;&atilde;o em ambiente urbano, como atrav&eacute;s da pr&aacute;tica da leitura em voz alta ou da atividade po&eacute;tica, e por uma un&acirc;nime rejei&ccedil;&atilde;o do sil&ecirc;ncio como forma de avareza espiritual que condena a palavra &agrave; esterilidade de uma letra morta<a name="top7"></a><sup><a href="#7">7</a></sup>. A leitura silenciosa, cortada do mundo, solit&aacute;ria, reenvia para as esferas da intimidade, da subjetividade, da interioridade secreta e da privacidade que a Alta Idade M&eacute;dia ainda tem alguma dificuldade em conceber<a name="top8"></a><sup><a href="#8">8</a></sup>, privilegiando a celebra&ccedil;&atilde;o coletiva e a apropria&ccedil;&atilde;o/consuma&ccedil;&atilde;o do texto (voltaremos a esta importante quest&atilde;o) como ato eminentemente comunicativo, seja em contexto lit&uacute;rgico, pastoral ou pedag&oacute;gico. Por outro lado, o epis&oacute;dio contado pelo Bispo de Hipona leva-nos a relativizar a oposi&ccedil;&atilde;o leitura em voz alta <i>vs </i>leitura silenciosa como se esta &uacute;ltima fosse a consequ&ecirc;ncia l&oacute;gica e o apan&aacute;gio da civiliza&ccedil;&atilde;o ocidental moderna na sequ&ecirc;ncia da revolu&ccedil;&atilde;o de Gutenberg que conduz &agrave; industrializa&ccedil;&atilde;o do livro e &agrave; substitui&ccedil;&atilde;o de uma cultura marcadamente oral e simb&oacute;lica por uma civiliza&ccedil;&atilde;o dominada pelo &ldquo;homem tipogr&aacute;fico&rdquo;, esquizofrenicamente cortado do mundo, de que falava McLuhan na sua c&eacute;lebre <i>Gal&aacute;xia de Gutenberg </i>(1962)<a name="top9"></a><sup><a href="#9">9</a></sup>. E esta relativiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;ric    a e cultural convida-nos igualmente a abandonar uma perspetiva cognitivista e evolucionista da leitura baseada em v&aacute;rios pressupostos (ou equ&iacute;vocos) te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos potencialmente falaciosos<a name="top10"></a><sup><a href="#10">10</a></sup> para adotarmos uma perspetiva mais pragm&aacute;tica baseada nas fun&ccedil;&otilde;es inerentes a cada modo de leitura.</p>     <p>Com efeito, a rela&ccedil;&atilde;o entre escrita e oralidade na civiliza&ccedil;&atilde;o ocidental deve ser abordada no prisma da plena coexist&ecirc;ncia de dois sistemas de representa&ccedil;&atilde;o que se complementam e n&atilde;o, como nas sociedades ditas &ldquo;tradicionais&rdquo; analisadas por Jack Goody, entre outros estudiosos<a name="top11"></a><sup><a href="#11">11</a></sup>, na perspetiva da passagem de uma cultura para a outra com &oacute;bvias implica&ccedil;&otilde;es na organiza&ccedil;&atilde;o da sociedade e do poder, na vis&atilde;o do mundo partilhada pelo homens e na pr&oacute;pria conce&ccedil;&atilde;o (tanto social como cognitiva), constru&ccedil;&atilde;o e transmiss&atilde;o do Conhecimento. Tanto quanto nos &eacute; poss&iacute;vel saber (ou supor), de acordo com as fontes dispon&iacute;veis e tendo em considera&ccedil;&atilde;o a intranspon&iacute;vel dist&acirc;ncia que nos separa do passado e a forma concreta como cada &eacute;poca e cada comunidade de leitores viveu, sentiu e praticou a leitura, o h&aacute;bito de ler em sil&ecirc;ncio (<i>tacite legere</i>) j&aacute; existia no mundo antigo (&eacute; referido, por exemplo, no <i>Sermonum liber secundus</i> ou <i>S&aacute;tira </i>II de Hor&aacute;cio - 30 a.C.) que o transmite &agrave; Alta Idade M&eacute;dia. No pref&aacute;cio &agrave;s suas <i>Institutiones divinarum et saecularium litterarum</i> (543-555), Cassiodoro<a name="top12"></a><sup><a href="#12">12</a></sup> distingue a &ldquo;<i>sedula lectio</i>&rdquo; - opera&ccedil;&atilde;o intelectual consistindo numa apropria&ccedil;&atilde;o silenciosa do texto com vista &agrave; cola&ccedil;&atilde;o, ao ensino ou ao coment&aacute;rio &ndash; da leitura segunda, articulada pela voz (<i>pronuntiata</i>) e tamb&eacute;m designada de &ldquo;<i>simplicissima lectio</i>&rdquo;, uma vez que era praticada por confrades menos cultos (ou menos importantes na hierarquia mon&aacute;stica) em contexto essencialmente lit&uacute;rgico, ou seja, comunit&aacute;rio. Tamb&eacute;m a literatura ficcional nos oferece ecos desta pr&aacute;tica. Numa can&ccedil;&atilde;o de gesta composta no s&eacute;culo XIV, <i>Tristan de Nanteuil</i> que recupera, na sua parte final, a tradi&ccedil;&atilde;o textual da <i>Vida de Santo Eg&iacute;dio</i>, vemos um anjo entregar, durante a celebra&ccedil;&atilde;o do of&iacute;cio a que assiste Carlos Magno e a sua corte, uma mensagem a Eg&iacute;dio na qual &eacute; revelado o pecado secreto do Imperador (a rela&ccedil;&atilde;o incestuosa com a sua irm&atilde; da qual nasceu o famoso her&oacute;i &eacute;pico Roland). Tendo em conta o contexto p&uacute;blico em que decorre a cena e a natureza inconfess&aacute;vel do crime<a name="top13"></a><sup><a href="#13">13</a></sup>, nenhuma s&iacute;laba, nenhum sussurro, nenhuma palavra comprometedora poderia naturalmente escapar dos l&aacute;bios de Eg&iacute;dio, que l&ecirc;, r&aacute;pida e em absoluto sil&ecirc;ncio, a missiva<a name="top14"></a><sup><a href="#14">14</a></sup>.</p>     <p>Sensivelmente na mesma altura em que Cassiodoro escrevia as suas <i>Institutiones</i>, surgia igualmente um outro texto de particular relev&acirc;ncia do ponto de vista cultural no qual a problem&aacute;tica da leitura ganhava singular destaque por se situar num contexto dominado pelo imperativo do sil&ecirc;ncio. Com efeito, na sua procura de refrear a palavra v&atilde;, ociosa ou nefasta atrav&eacute;s da pr&aacute;tica da taciturnidade (cap&iacute;tulo VI) e da leitura, <i>A Regra de S&atilde;o Bento</i><a name="top15"></a><sup><a href="#15">15</a></sup> vai procurar circunscrever os tempos e os lugares adequados a cada modalidade de leitura. A leitura em voz alta, presen&ccedil;a obrigat&oacute;ria durante as refei&ccedil;&otilde;es, contrastando com o sil&ecirc;ncio absoluto que os monges devem observar nessa altura (cap. XXXVIII), marca ainda o calend&aacute;rio lit&uacute;rico, ritmando todos os ciclos da vida quotidiana em altern&acirc;ncia com os restantes trabalhos manuais ou compromissos religiosos. Aos domingos e durante a Quaresma (tempo em qua cada monge recebe um livro da biblioteca que ter&aacute; de ler at&eacute; ao fim), esta atividade torna-se mais intensa (cap. XLVIII), a leitura adquirindo uma clara dimens&atilde;o simultaneamente edificante e purificadora (terap&ecirc;utica, dir-se-ia hoje). A <i>Regra</i> autoriza os monges a prolongarem a leitura comunit&aacute;ria na solid&atilde;o das suas celas durante a noite, desde que essa pr&aacute;tica, presumivelmente vocalizada, murmurante, n&atilde;o incomode os outros. Permito-me ainda destacar duas fun&ccedil;&otilde;es particularmente significativas assignadas &agrave; leitura em voz alta neste texto: o seu papel no acolhimento dos h&oacute;spedes, com um intuito moral e pedag&oacute;gico, j&aacute; que permite a interioriza&ccedil;&atilde;o da palavra ouvida durante a ora&ccedil;&atilde;o que precede este tempo de leitura da Lei, mas tamb&eacute;m com uma dimens&atilde;o quase ontol&oacute;gica, a leitura em voz alta conduzindo a uma transforma&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria: o estrangeiro torna-se num semelhante, o desconhecido num ser familiar, a dist&acirc;ncia em proximidade, a leitura em voz alta, necessariamente integradora do ouvinte, exorcizando assim a componente amea&ccedil;adora ligada &agrave; alteridade. O segundo aspeto relevante diz respeito &agrave;s compet&ecirc;ncias de leitura. A prop&oacute;sito da forma como deve ser escolhido o leitor semanal, a <i>Regra</i> refere claramente que nem todos os monges podem assumir esta fun&ccedil;&atilde;o, mas apenas aqueles &ldquo;cuja leitura &eacute; proveitosa aos que os ouvem&rdquo; (cap. XXXVIII). Donde se depreende que a t&eacute;cnica da leitura em voz alta &eacute; uma arte particularmente dif&iacute;cil de dominar que n&atilde;o implica apenas uma mera decifra&ccedil;&atilde;o e vocaliza&ccedil;&atilde;o dos significantes literais.</p>     <p>Este exemplo permite-nos abordar uma outra quest&atilde;o essencial tanto do ponto de vista te&oacute;rico como metodol&oacute;gico: da impossibilidade de falar do fen&oacute;meno da leitura sem ter em considera&ccedil;&atilde;o a hist&oacute;ria dos suportes materiais da escrita. Ora, durante toda a alta Idade M&eacute;dia (ou seja, at&eacute; ao s&eacute;culo XI sensivelmente), verifica-se que escrita e leitura funcionam como dois sistemas distintos que n&atilde;o est&atilde;o for&ccedil;osamente destinados a interagir um com o outro. Na altura em que S&atilde;o Bento escreve, est&aacute; em uso a escrita cont&iacute;nua em que as palavras se ligam umas &agrave;s outras, sem sinais de pontua&ccedil;&atilde;o (ou muito raramente e de forma, por vezes, aleat&oacute;ria), o tra&ccedil;o ininterrupto e compacto da tinta negra alternando, na p&aacute;gina do manuscrito, com as linhas deixadas em branco. Esta p&aacute;gina escrita do c&oacute;dex &eacute;, por conseguinte, uma p&aacute;gina silenciosa que o leitor, sob orienta&ccedil;&atilde;o do mestre, deve ler pausada e inteligentemente, ou seja, na ace&ccedil;&atilde;o etimol&oacute;gica desta &uacute;ltima palavra, aprendendo a separar os segmentos morfol&oacute;gicos, lexicais e sint&aacute;ticos uns dos outros, e interpretar o sentido, a entoa&ccedil;&atilde;o (afirmativa, exclamativa, interrogativa) e o ritmo dos enunciados gramaticais. Ontem como hoje, &eacute; impens&aacute;vel existir leitura em voz alta sem esta etapa pr&eacute;via. A leitura situa-se assim numa dimens&atilde;o exterior ao texto enquanto que no livro atual, seja ele manuscrito, digital, datilografado ou impresso, j&aacute; se encontra (&agrave; exce&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncias po&eacute;ticas que, de Apollinaire a Jos&eacute; Saramago ou Ant&oacute;nio Lobo Antunes, voltam a colocar o leitor perante o desafio de reconstruir um sentido para o texto) de certo modo balizada e orientada por uma disposi&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica da escrita no espa&ccedil;o da p&aacute;gina e por uma multiplicidade de sinais gr&aacute;ficos que ritmam os enunciados e norteiam o sentido. A uma popula&ccedil;&atilde;o maioritariamente analfabeta durante mais de mil anos<a name="top16"></a><sup><a href="#16">16</a></sup>, correspondem naturalmente &iacute;ndices de leitura extremamente baixos. O livro destina-se a conservar e a perpetuar a mem&oacute;ria de uma palavra sagrada ou autoral, n&atilde;o para ser lido, existindo inclusive (mesmo em centros mon&aacute;stico particularmente ativos na produ&ccedil;&atilde;o de manuscritos como S&atilde;o Galo, por exemplo) muitos escribas (ou copistas) iletrados ou semianalfabetos<a name="top17"></a><sup><a href="#17">17</a></sup>. As condi&ccedil;&otilde;es materiais que envolviam o ato de leitura tamb&eacute;m n&atilde;o eram as mais prop&iacute;cias ao desenvolvimento desta atividade: os livros eram guardados em lugares de dif&iacute;cil acesso (as primeiras bibliotecas como espa&ccedil;o amplos e iluminados destinados especificamente &agrave; leitura &ndash; seja ela pessoal ou coletiva &ndash; apenas surgem no s&eacute;culo XIII com as Ordens Mendicantes e a Escol&aacute;stica) e lidos em condi&ccedil;&otilde;es de luminosidade deficiente (celas, refeit&oacute;rio, claustros) tornando-a provavelmente numa pr&aacute;tica que, para al&eacute;m de tecnicamente dif&iacute;cil j&aacute; que implicava balbuciar lentamente quase s&iacute;laba e segmento do texto para tatear e reconstruir passo a passo o seu sentido, era extremamente penosa, &aacute;rdua e, por conseguinte, rara. Poder-se-&aacute; considerar assim que, at&eacute; ao s&eacute;culo XI, &eacute;poca em que surgem as primeiras altera&ccedil;&otilde;es gr&aacute;ficas destinadas a facilitar esta opera&ccedil;&atilde;o (utiliza&ccedil;&atilde;o do tra&ccedil;o para sinalizar uma palavra cortada que continua na linha seguinte; utiliza&ccedil;&atilde;o do <i>S</i> mai&uacute;sculo em final de palavra, etc.), a leitura n&atilde;o passa de um epifen&oacute;meno.</p>     <p>Os s&eacute;culos XII e XIII inauguram o tempo de uma nova alian&ccedil;a entre escrita e leitura: l&ecirc;-se para escrever (glosas, coment&aacute;rios exeg&eacute;ticos) &agrave; margem dos textos, a escrita reorganizando-se progressivamente no espa&ccedil;o da p&aacute;gina para facilitar uma mais r&aacute;pida apropria&ccedil;&atilde;o do texto. Por motivos sobejamente conhecidos que come&ccedil;am a desenhar-se desde a &eacute;poca das reformas carol&iacute;ngias (desenvolvimento de uma burocracia assente no poder da escrita; cria&ccedil;&atilde;o das universidades e das escolas laicas; crescimento das cidades e de uma cultura urbana que v&ecirc; multiplicarem-se os profissionais da escrita e da leitura &ndash; professores, juristas, not&aacute;rios, te&oacute;logos, mercadores, etc. &ndash; e que exige, por conseguinte novas estrat&eacute;gias de dissemina&ccedil;&atilde;o da palavra divina no cora&ccedil;&atilde;o das cidades), a produ&ccedil;&atilde;o e a circula&ccedil;&atilde;o dos livros aumenta consideravelmente durante esse per&iacute;odo, acompanhando-se de diversas inova&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas que alteram, em profundidade, a rela&ccedil;&atilde;o com o livro. No per&iacute;odo escol&aacute;stico-universit&aacute;rio, este adquire uma dimens&atilde;o maior (por oposi&ccedil;&atilde;o ao livro de pequeno formato dos s&eacute;culos anteriores), tornando-se mais pesado e dif&iacute;cil de manejar, o que incentiva a uma leitura em posi&ccedil;&atilde;o est&aacute;tica (e hier&aacute;tica) na qual o livro ocupa uma posi&ccedil;&atilde;o central e tendencialmente fixa. Esta transforma&ccedil;&atilde;o favorecia, por conseguinte, todo um sistema de ensino &ndash; cujos reflexos ainda se faziam sentir at&eacute; h&aacute; bem pouco tempo nas universidades europeias &ndash; assente na leitura magistral. Por oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; <i>ruminatio</i> meditativa e contemplativa da cultura mon&aacute;stica, a leitura magistral une o mestre aos disc&iacute;pulos numa comunidade coesa unida atrav&eacute;s da voz que vai dividindo (esta &eacute; uma opera&ccedil;&atilde;o crucial &agrave; qual todos os tratados medievais que se debru&ccedil;am sobre a leitura d&atilde;o particular &ecirc;nfase<a name="top18"></a><sup><a href="#18">18</a></sup>, uma vez que traduz a passagem da adequada articula&ccedil;&atilde;o entre a materialidade inerte e confusa da letra para a dimens&atilde;o espiritual e fecundante da interpreta&ccedil;&atilde;o que conduz &agrave; emerg&ecirc;ncia do sentido) e comentando os textos, ajudando assim a fixar simultaneamente um c&acirc;none textual, pr&aacute;ticas de leitura e modelos exeg&eacute;ticos. Durante este per&iacute;odo, a escrita passa a organizar-se em duas colunas por p&aacute;gina, o que permite uma melhor e mais eficiente apreens&atilde;o visual do texto (ou de partes inteiras do texto); texto cujas articula&ccedil;&otilde;es s&atilde;o, por sua vez, postas em destaque atrav&eacute;s da sua divis&atilde;o por cap&iacute;tulos e subcap&iacute;tulos devidamente rubricados e identificados por letras capitais de tamanho diferente e por vezes subtilmente ornamentadas. Gra&ccedil;as &agrave; introdu&ccedil;&atilde;o de um complexo sistema de abreviaturas, a leitura torna-se muito mais &aacute;gil e veloz e o livro mais facilmente consultado. Os sinais de pontua&ccedil;&atilde;o, quando emergem, t&ecirc;m uma fun&ccedil;&atilde;o r&iacute;tmica e musical (inicialmente, s&atilde;o, de resto, os mesmos sinais que s&atilde;o utilizados em ambos os sistemas de nota&ccedil;&atilde;o), indicando ao leitor os lugares e tempos em que deve elevar ou baixar a voz, fazer pausas. A todas estas inova&ccedil;&otilde;es, que permitem dominar o tempo da leitura atrav&eacute;s de uma profunda reorganiza&ccedil;&atilde;o espacial da escrita, acrescente-se a progressiva substitui&ccedil;&atilde;o do papiro pelo papel, menos dispendioso, a partir dos s&eacute;culos XIII e XIV, e a introdu&ccedil;&atilde;o de elementos que favorecem a leitura seletiva: &iacute;ndices remissivos, t&aacute;buas alfab&eacute;ticas, marcadores e tabula&ccedil;&otilde;es, entre outros aspetos, que rompem progressivamente com uma certa linearidade textual, fazendo do texto um verdadeiro hipertexto que se pode percorrer em v&aacute;rias dire&ccedil;&otilde;es em fun&ccedil;&atilde;o de necessidades espec&iacute;ficas. Mais ordenado, hierarquizado e balizado, o livro torna-se tamb&eacute;m num objeto, est&eacute;tica e semioticamente, mais complexo<a name="top19"></a><sup><a href="#19">19</a></sup>, &agrave; palavra escrita juntando-se um rico e diversificado programa iconogr&aacute;fico (tanto mais rico e diversificado, claro est&aacute;, quanto mais luxuoso for o manuscrito) que engendra intrincadas e h&iacute;bridas rela&ccedil;&otilde;es entre escrita e imagem que ajudam a ritmar a leitura ao mesmo tempo que complexificam os n&iacute;veis de interpreta&ccedil;&atilde;o. Como vemos, a nossa conce&ccedil;&atilde;o e o nosso imagin&aacute;rio de livro nascem definitivamente no s&eacute;culo XII, per&iacute;odo durante o qual se consuma o radical afastamento entre o c&oacute;dex (emblema do saber e da <i>auctoritas </i>relacionados com a tradi&ccedil;&atilde;o escrita) e o <i>volumen </i>(o rolo de papiro) cuja imagem, cada vez mais devoluta e fr&aacute;gil, reenvia para o registo pragm&aacute;tico (contabilidade, auxiliares de mem&oacute;ria), a performance oral (poesia l&iacute;rica ou teatro) e uma conce&ccedil;&atilde;o irrevers&iacute;vel e linear do tempo (genealogia, cr&oacute;nicas, etc.)<a name="top20"></a><sup><a href="#20">20</a></sup>.</p>     <p>Nos s&eacute;culos XIII e XIV, com o crescimento de uma &ldquo;comunidade textual&rdquo;<a name="top21"></a><sup><a href="#21">21</a></sup> cada vez mais vasta e heterog&eacute;nea (p&uacute;blico laico-burgu&ecirc;s de mercadores, artes&atilde;os, artistas, not&aacute;rios, etc.) associado ao desenvolvimento de uma importante produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria em l&iacute;ngua vern&aacute;cula (nomeadamente em Fran&ccedil;a, Inglaterra, Alemanha, It&aacute;lia e pa&iacute;ses escandinavos), multiplicam-se os livros de m&eacute;dio formato com escrita cursiva n&atilde;o tipificada e adotam-se h&aacute;bitos de leitura familiar em c&iacute;rculos mais restritos (casa, com&eacute;rcio, etc.) que contrastam com os espa&ccedil;os abertos e luxuosos (jardins, sal&otilde;es, parques, etc.) da leitura aristocr&aacute;tica que se insere numa &ldquo;<i>paideia</i> mais complexa e org&acirc;nica que integra as artes da conversa&ccedil;&atilde;o, da m&uacute;sica e do corpo&rdquo;<a name="top22"></a><sup><a href="#22">22</a></sup> e na qual as mulheres (por oposi&ccedil;&atilde;o aos meios mercantis e essencialmente escol&aacute;stico-universit&aacute;rios) desempenham um papel importante<a name="top23"></a><sup><a href="#23">23</a></sup>. Com o Renascimento italiano dos s&eacute;culos XIV-XV marcado por um profundo desejo de regresso ao estudo dos textos cl&aacute;ssicos e ao pr&oacute;prio formato do livro da &eacute;poca romana<a name="top24"></a><sup><a href="#24">24</a></sup>, a mancha textual volta a ficar mais densa e compacta, convidando a uma leitura mais lenta, pausada e solit&aacute;ria; mais intimista e privada dir&atilde;o alguns<a name="top25"></a><sup><a href="#25">25</a></sup>. O s&eacute;culo XV e o advento da imprensa s&atilde;o naturalmente decisivos na consolida&ccedil;&atilde;o destes novos modos e pr&aacute;ticas de leitura na Europa ocidental, nomeadamente atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o das &ldquo;bibliotecas de Estado&rdquo; e do aparecimento do livro de leitura laico de pequeno formato que dar&aacute; origem ao livro de bolso. O primado da apreens&atilde;o visual do texto n&atilde;o implica contudo o silenciar da literatura<a name="top26"></a><sup><a href="#26">26</a></sup>. Sabemos qu&atilde;o o g&eacute;nero novel&iacute;stico inaugurado pela <i>Dec&acirc;meron </i>de Boc&aacute;cio e, na sua filia&ccedil;&atilde;o direta, o <i>Heptam&eacute;ron </i>de Margarite de Navarre, &eacute; tribut&aacute;rio da transmiss&atilde;o oral (mesmo que inteiramente simulada ou fict&iacute;cia) e do prazer de contar que ajuda um grupo de personagens d&iacute;spares a sobreviver a um universo em decomposi&ccedil;&atilde;o (peste, desola&ccedil;&atilde;o), reconfigurando assim, atrav&eacute;s da fic&ccedil;&atilde;o vocalizada, a sua pr&oacute;pria identidade e vis&atilde;o do mundo. No pr&oacute;logo do seu primeiro romance <i>Pantagruel</i> e apesar de se mostrar sarcasticamente convicto do sucesso editorial desta publica&ccedil;&atilde;o, Rabelais inscreve claramente a sua narrativa numa tradi&ccedil;&atilde;o oral (a das lendas em torno dos gigantes fundadores, nomeadamente), recomendando aos leitores que a memorizem porque, &ldquo;caso a aventura da imprensa venha a acabar&rdquo; e os livros a perecerem, poder&aacute; assim continuar a circular de boca em boca para proveito de todos<a name="top27"></a><sup><a href="#27">27</a></sup>. Nos s&eacute;culos XVII e XVIII (e bem mais tarde ainda<a name="top28"></a><sup><a href="#28">28</a></sup>), a leitura em voz alta n&atilde;o &eacute; apenas o apan&aacute;gio dos meios mais populares. Leem-se e experimentam-se novas formas po&eacute;ticas nos Sal&otilde;es aristocr&aacute;ticos e nas sociedades liter&aacute;rias; leem-se romances dialogados e textos clandestinos nas cidades e nas cortes. Se d&uacute;vidas houvesse sobre esta constante permeabilidade e complementaridade entre escrita e leitura, recorde-se que Fureti&egrave;re, no artigo &ldquo;Ler&rdquo; do seu <i>Dictionnaire universel</i> publicado em 1690, n&atilde;o consagra nenhuma entrada &agrave; escrita, definindo claramente, em contrapartida, a leitura como o ato de &ldquo;pronunciar em voz alta o conte&uacute;do de um qualquer livro ou escrito que tenhamos diante dos olhos&rdquo; e acabando por louvar a pr&aacute;tica mon&aacute;stica que consiste em ler durante as refei&ccedil;&otilde;es<a name="top29"></a><sup><a href="#29">29</a></sup>! Assim, da mesma forma que ser&aacute; hist&oacute;rica e metodologicamente incorreto afirmar que a Idade M&eacute;dia foi apenas a &eacute;poca da leitura em voz alta, igualmente redutor ser&aacute; considerar que o mundo moderno e contempor&acirc;neo se caracteriza por um &ldquo;imperialismo da escrita&rdquo; em detrimento de uma &ldquo;autonomie de la pratique lisante&rdquo; (Michel de Certeau)<a name="top30"></a><sup><a href="#30">30</a></sup> ao assimilar tendencialmente o significante com a letra e a letra com a literatura. Na verdade, leitura silenciosa, leitura murmurada e leitura em voz alta sempre coexistiram, a crescente multiplica&ccedil;&atilde;o de comunidades de leitores a que assistimos revelando claramente que a frui&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica, l&uacute;dica e cognitiva de um texto n&atilde;o dispensa nenhuma delas.</p>     <p>Esta consci&ecirc;ncia da intera&ccedil;&atilde;o simbi&oacute;tica entre pr&aacute;ticas da escrita e modos de leitura &eacute; essencial no &acirc;mbito de qualquer reflex&atilde;o, metodologicamente rigorosa, sobre o estatuto, a fun&ccedil;&atilde;o e o devir da leitura (seja ela silenciosa ou em voz alta) tanto do ponto de vista cognitivo e comunicacional como pedag&oacute;gico. Neste sentido, dela n&atilde;o poder&aacute; ficar alheia a transfer&ecirc;ncia da escrita para o espa&ccedil;o virtual e a multiplica&ccedil;&atilde;o dos suportes tecnol&oacute;gicos nos quais se expande (<i>smartphones</i>, <i>tablets</i>, computadores port&aacute;teis e outros tantos dispositivos) que alteram profundamente as condi&ccedil;&otilde;es de leitura ao permitir, por exemplo, ampliar ou reduzir a mancha gr&aacute;fica, possibilitando tanto uma apreens&atilde;o global do texto/do sentido ou uma experi&ecirc;ncia mais anal&iacute;tica e meditativa em torno de qualquer pormenor. Que alteram igualmente as formas de oralidade (da oralidade simulada dos <i>chats</i> ou nas redes sociais &agrave; oralidade s&iacute;ncrona que vence a dist&acirc;ncia, passando pelas pr&aacute;ticas de oralidade diferidas ou ass&iacute;ncronas). Que transformam finalmente a pr&oacute;pria inscri&ccedil;&atilde;o esp&aacute;cio-temporal do texto e a pr&oacute;pria natureza e estatuto da escrita que agora se desdobra em espa&ccedil;os m&uacute;ltiplos (sucessivos ou simult&acirc;neos) que fazem do texto um aut&ecirc;ntico e infinito palimpsesto<a name="top31"></a><sup><a href="#31">31</a></sup>. A era digital vem decisivamente trazer novos desafios &agrave; leitura, alterando profundamente as suas condi&ccedil;&otilde;es materiais e sensoriais de produ&ccedil;&atilde;o e de rece&ccedil;&atilde;o, nomeadamente pelo modo como reconfigura as rela&ccedil;&otilde;es entre a letra e a voz numa cada vez mais complexa e intensa rela&ccedil;&atilde;o intersemi&oacute;tica envolvendo uma diversidade crescente de discursos e de linguagens (imagem, v&iacute;deo, m&uacute;sica, etc.) que tanto podem enriquecer e orientar a interpreta&ccedil;&atilde;o (no sentido hermen&ecirc;utico como no de uma reapropria&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da voz) de um texto, como o podem transformar num aut&ecirc;ntico labirinto donde ningu&eacute;m regressa. Desafio tamb&eacute;m entre a fixa&ccedil;&atilde;o de um texto e a sua constante transforma&ccedil;&atilde;o pelo leitor virtual, entre a experi&ecirc;ncia privada e a partilha coletiva potenciada pela enorme facilidade como se alteram e enriquecem (com anota&ccedil;&otilde;es &agrave; margem, por exemplo, &agrave; semelhan&ccedil;a do c&oacute;dex da era escol&aacute;stica) os ambientes nos quais o texto se inscreve, entre um aparente dom&iacute;nio do espa&ccedil;o/tempo pr&oacute;prio do imagin&aacute;rio livresco (indexa&ccedil;&atilde;o, marcadores hipertextuais) e uma subordina&ccedil;&atilde;o ao imp&eacute;rio do tempo caracter&iacute;stica da transmiss&atilde;o oral, a p&aacute;gina desenrolando-se no ecr&atilde; como outrora o <i>volumem</i> &agrave; volta seu eixo (rolo) central. A era digital cria assim uma nova alian&ccedil;a (n&atilde;o isenta de tens&otilde;es), entre a voz e a escrita, entre a frui&ccedil;&atilde;o solit&aacute;ria da literatura e a sua dimens&atilde;o comunicativa e colaborativa, cujas implica&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas e pr&aacute;ticas ainda est&atilde;o longe de ter sido devidamente questionadas e exploradas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Leitura em voz alta e gram&aacute;tica da voz</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta tens&atilde;o n&atilde;o &eacute; contudo nova, como sabemos, a hist&oacute;ria da civiliza&ccedil;&atilde;o ocidental assentando, em grande parte, num irredut&iacute;vel e irresol&uacute;vel antagonismo, mais ou menos marcado ou violento consoante as &eacute;pocas, entre uma idealiza&ccedil;&atilde;o da escrita erguida &agrave; esfera m&aacute;gica do sagrado (ou da Lei) que coloca a oralidade sob o signo da afabula&ccedil;&atilde;o corruptora, e uma longa tradi&ccedil;&atilde;o que, de Plat&atilde;o a Saussure, passando por Arist&oacute;teles, Santo Agostinho e Hegel, assimila o logocentrismo a um fonocentristo em que escrita, significante do significante, n&atilde;o passa de uma cristaliza&ccedil;&atilde;o redutora da voz da qual emana a totalidade do ser e a plenitude da palavra. Se a escrita implica sempre a Diferen&ccedil;a (ou a <i>Diferi&ccedil;&atilde;o</i>, segundo Jacques Derrida), veiculando uma intranspon&iacute;vel falha entre os signos e o mundo que sonha nomear/habitar; se, por outras palavras, a escrita &eacute;, por excel&ecirc;ncia, o lugar da eterna aus&ecirc;ncia ou do ex&iacute;lio<a name="top32"></a><sup><a href="#32">32</a></sup>, a voz (<i>phon&egrave;</i>) mant&eacute;m viva e pregnante a rela&ccedil;&atilde;o <i>simb&oacute;lica</i> entre a linguagem e o <i>logos </i>primordial, os signos e a significa&ccedil;&atilde;o, entre o ser e a alma (Arist&oacute;teles dizia que &ldquo;os sons emitidos pela voz s&atilde;o os s&iacute;mbolos dos estados de alma&rdquo;<a name="top33"></a><sup><a href="#33">33</a></sup>), numa copresen&ccedil;a e imediatez absolutas que rebaixam a escrita ao estatuto de uma &ldquo;media&ccedil;&atilde;o de media&ccedil;&atilde;o e queda na exterioridade do sentido&rdquo;<a name="top34"></a><sup><a href="#34">34</a></sup>. &Eacute; provavelmente esta dimens&atilde;o testemunhal e vertical da voz<a name="top35"></a><sup><a href="#35">35</a></sup>, na sua capacidade de transcender as conting&ecirc;ncias do tempo e da linguagem, substituindo-se ao pr&oacute;prio mundo que reanima incessantemente, que explica o seu estatuto singular n&atilde;o apenas em rituais de natureza sagrada mas tamb&eacute;m em certos contexto seculares (nos tribunais, por exemplo) onde s&oacute; excecionalmente o testemunho escrito pode substituir a voz. Independentemente da sua intensidade ou eleva&ccedil;&atilde;o, a voz assume assim, na tradi&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica ocidental, uma dimens&atilde;o arquet&iacute;pica (ou de acesso privilegiado ao mundo dos arqu&eacute;tipos, tanto na ace&ccedil;&atilde;o plat&oacute;nica de imagem primordial como durandiana do termo enquanto matriz afetivo-representacional na origem dos s&iacute;mbolos e das imagens<a name="top36"></a><sup><a href="#36">36</a></sup>), donde a sua associa&ccedil;&atilde;o a uma verdade imanente e a sua &iacute;ntima rela&ccedil;&atilde;o com o desejo e o Conhecimento, com o Conhecimento enquanto desejo. Aceder, pela leitura ruminativa ou magistral, aos v&aacute;rios n&iacute;veis de significa&ccedil;&atilde;o do Texto b&iacute;blico, do sentido literal ao sentido m&iacute;stico, constitu&iacute;a, para religiosos e escol&aacute;sticos da Idade M&eacute;dia, um verdadeiro &ldquo;itiner&aacute;rio da mente para Deus&rdquo;, para retomar o t&iacute;tulo de um c&eacute;lebre tratado de S&atilde;o Boaventura. Atrav&eacute;s da leitura em voz baixa, meditativa e solit&aacute;ria, o monge opera uma aut&ecirc;ntica opera&ccedil;&atilde;o gustativa e digestiva da palavra. A manduca&ccedil;&atilde;o torna-se an&aacute;loga ao rito eucar&iacute;stico de incorpora&ccedil;&atilde;o do Verbo feito carne. A &ldquo;<i>clara lectio</i>&rdquo;, sublinha Orlando de Rudder<a name="top37"></a><sup><a href="#37">37</a></sup>, &ldquo;sensual, gustativa, <i>cum palatum cordis</i> (Jean de F&eacute;camp), &eacute; a verdadeira leitura, a que ressoa a partir de um texto mil vezes lido, decorado, novamente revisitado pela mem&oacute;ria, salmodiado, meditado, as palavras repetindo-se &agrave; exaust&atilde;o at&eacute; perderem o seu sentido manifesto... e verem ent&atilde;o brotar, atrav&eacute;s da medita&ccedil;&atilde;o, da rumina&ccedil;&atilde;o, novos sentidos, aleg&oacute;ricos, metaf&oacute;ricos, anag&oacute;gicos, que emergem da livre associa&ccedil;&atilde;o das palavras e das ideias... Existe uma m&uacute;sica que est&aacute; na letra mas que n&atilde;o pertence &agrave; letra, como existe, para l&aacute; da carne, o inef&aacute;vel...&rdquo;. Da&iacute; tamb&eacute;m a import&acirc;ncia estruturante, numa altura em que n&atilde;o existe ainda uma ortografia estabilizada e normativa, dos jogos sonoros a partir dos significantes literais (ret&oacute;rica da <i>annominatio</i>, paronom&aacute;sias, homofonias, etc.) numa constante e subliminar (des)constru&ccedil;&atilde;o do sentido que acompanha a fic&ccedil;&atilde;o medieval.    <br>     <p>Mas &eacute; tamb&eacute;m porque nos religa constantemente a uma mem&oacute;ria ancestral do mundo e da Cria&ccedil;&atilde;o que a voz &eacute; revela&ccedil;&atilde;o, or&aacute;culo, inspira&ccedil;&atilde;o, profecia. Quando, na sua <i>Summa Theologicae</i> (IIIa, <i>quaestio </i>42, art. 4)<a name="top38"></a><sup><a href="#38">38</a></sup> S&atilde;o Tom&aacute;s de Aquino se questionava por que raz&atilde;o Cristo nunca escrevera quando a escrita tem precisamente por voca&ccedil;&atilde;o &ldquo;confiar uma doutrina &agrave; mem&oacute;ria&rdquo;, responde que, devido &agrave; sua dignidade e superioridade, os ensinamentos de Cristo (como o de Pit&aacute;goras ou de S&oacute;crates, ali&aacute;s) nunca poderiam caber nos limites aprisionadores e semanticamente redutores da palavra escrita<a name="top39"></a><sup><a href="#39">39</a></sup>. Na literatura profana, os exemplos s&atilde;o igualmente abundantes e eloquentes. O romance an&oacute;nimo em prosa de <i>Perlesvaus</i> (ou <i>Le Haut Livre du Graal</i> &ndash; in&iacute;cio do s&eacute;culo XIII), confere assim a Jos&eacute; de Arimateia o estatuto de um <i>auctor</i> privilegiado (testemunho da Revela&ccedil;&atilde;o) que recebe e transcreve as palavras ditadas pela voz do Anjo<a name="top40"></a><sup><a href="#40">40</a></sup>. No final do <i>Roman de Merlin </i>de Robert de Boron (s&eacute;culo XIII), Merlim, o famoso mago ao servi&ccedil;o do rei Artur, substitui-se &agrave; voz do Anjo-mediador em <i>Perlesvaus</i> e usurpa o lugar do Criador no seu papel de <i>auctor</i> demi&uacute;rgico ao ditar os seus conhecimentos e revela&ccedil;&otilde;es a Blaise. Este &uacute;ltimo assume ent&atilde;o claramente a fun&ccedil;&atilde;o do poeta medieval enquanto copista (ou escriba) de uma palavra anterior destinada a ser guardada/consagrada no espa&ccedil;o material e inviol&aacute;vel do Livro (&ldquo;ainsis sera tes livres celez&rdquo;, 16, 102-103<a name="top41"></a><sup><a href="#41">41</a></sup>) cuja superioridade moral, autenticidade e autoridade n&atilde;o deixa contudo de ter origem na transcend&ecirc;ncia exemplar da voz:     <br>     <blockquote>&ldquo;(...) et je te dirai tel chose que nus hom, fors Dieu et moi, ne te porroit dire. Si en fai un livre et maintes genz qui se livre orront en serront meillor et se garderont plusx de pechier, si feras aumones et metras t&rsquo;ovre en bien [...]. Or quier encre et parchemin ad&eacute;s, car je te dirai maintes choses que tu ne cuideroies que nus hom po&iuml;st dire&rdquo; (16, 37-41; 59-61).</blockquote>     <p>Pneum&aacute;tica e seminal, a voz surge simultaneamente como princ&iacute;pio diferenciador, ordenador (a voz divina que cria o mundo, nomeando os elementos, come&ccedil;a sempre por introduzir uma separa&ccedil;&atilde;o ordenadora a partir do caos &ndash; ou plasma primordial &ndash; indiferenciado) e reunificador, totalizante. N&atilde;o deixa de ser interessante Isidoro de Sevilha (s&eacute;c. VII) fazer da <i>vox articulata</i> o impulso fundador da gram&aacute;tica enquanto <i>scientia recte loquendi </i>(<i>Etimologias</i>, I, 5)<a name="top42"></a><sup><a href="#42">42</a></sup>, que antecede inclusive, na sua descri&ccedil;&atilde;o, os aspetos morfol&oacute;gicos, pros&oacute;dicos, sint&aacute;ticos e ret&oacute;ricos que participam na constru&ccedil;&atilde;o dos enunciados gramaticais. A articula&ccedil;&atilde;o desempenha, de resto, um papel fulcral, tanto do ponto de vista de uma pedagogia da leitura como no &acirc;mbito de uma epistemologia centrada na <i>phon&egrave;</i>: a articula&ccedil;&atilde;o, nomeadamente no contexto de uma leitura em voz alta, &eacute; aquilo que distingue o indiferenciado sonoro (ru&iacute;dos, choros, risos ou gritos, sejam eles humanos ou animais) da palavra fecunda e fecundante. Num contexto de prega&ccedil;&atilde;o, onde a dissemina&ccedil;&atilde;o vocal da palavra divina ganha particular import&acirc;ncia, v&aacute;rios <i>exempla</i> medievais condenam os religiosos que mastigam e devoram as s&iacute;labas quando recitam o of&iacute;cio divino; s&iacute;labas de que o diabo se apropria guardando-as num saco at&eacute; ao Ju&iacute;zo Final<a name="top43"></a><sup><a href="#43">43</a></sup>. Na sua <i>Historia occidentalis </i>(primeira metade do s&eacute;culo XIII), o pregador Jacques de Vitry (cap&iacute;tulo XXXIV, pp. 206-212) critica violentamente, no &acirc;mbito das suas considera&ccedil;&otilde;es sobre a ora&ccedil;&atilde;o, este mau h&aacute;bito de muitos eclesi&aacute;sticos, retomando a imagem do diabo que recolhe num saco as s&iacute;labas engolidas e roubadas a Deus<a name="top44"></a><sup><a href="#44">44</a></sup>. Da atmosfera religiosa do s&eacute;culo XIII para o contexto laico e pedag&oacute;gico do Renascimento ou do Iluminismo, o primado da articula&ccedil;&atilde;o desloca-se, mantendo-se contudo inalterado na sua ess&ecirc;ncia. No seu tratado <i>D&eacute;fense et illustration de la langue fran&ccedil;aise</i> (II, X) de 1549<a name="top45"></a><sup><a href="#45">45</a></sup>, Joaquim Du Bellay sublinha, tamb&eacute;m ele, a import&acirc;ncia de pronunciar os sons de forma perfeitamente articulada, n&atilde;o-confusa, viril e n&atilde;o efeminada, adequando a pronuncia&ccedil;&atilde;o aos gestos e sentimentos expressos nos versos, os ouvidos repudiando, por natureza, as coisas rudes e &aacute;speras. Mesma insist&ecirc;ncia no romance educativo de Jean-Jacques Roussseau, <i>L&rsquo;&Eacute;mile ou de l&rsquo;&Eacute;ducation </i>(1762), ao insistir numa pedagogia da leitura assente na dic&ccedil;&atilde;o clara e bem articulada, &uacute;nica capaz de transmitir tanto o sentido gramatical como a pros&oacute;dia de um texto e permitir assim o acesso ao sentido (Livro II, p. 109<a name="top46"></a><sup><a href="#46">46</a></sup>). Note-se que n&atilde;o &eacute; certamente por acaso que muitas patologias f&iacute;sicas registadas na literatura m&eacute;dica e ficcional da Idade M&eacute;dia (e muito para l&aacute; dessa &eacute;poca), do andar assim&eacute;trico &agrave; surdez, est&atilde;o intimamente ligadas a uma disfun&ccedil;&atilde;o verbal. Como tamb&eacute;m n&atilde;o ser&aacute; por acaso que um dos tra&ccedil;os m&iacute;ticos de muitos profetas e eleitos de Deus reside paradoxalmente na gaguez<a name="top47"></a><sup><a href="#47">47</a></sup>, signo da imensid&atilde;o da palavra divina que n&atilde;o cabe nos limites articulat&oacute;rios da palavra humana levando-a a desarticular-se.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Voltar a olhar para o c&eacute;u: a voz ou a sedu&ccedil;&atilde;o da literatura</b></p>     <p>Se a voz, manifesta&ccedil;&atilde;o de uma plenitude simb&oacute;lica e ontol&oacute;gica que a leitura em voz alta faz naturalmente ressoar de forma privilegiada, re&uacute;ne os fios do tempo religando a mem&oacute;ria das origens &agrave; intui&ccedil;&atilde;o do devir, &eacute; tamb&eacute;m ela que garante a coes&atilde;o do presente. A sua efic&aacute;cia pressup&otilde;e, no entanto, a participa&ccedil;&atilde;o plena de um sujeito dual, a palavra lida ou recitada tornando-se f&eacute;rtil apenas se tiver um ouvinte que a acolhe, interioriza e fecunda. &Eacute; a esta met&aacute;fora vegetal, inspirada na Par&aacute;bola do Semeador, que Chr&eacute;tien de Troyes recorre no pr&oacute;logo do seu &uacute;ltimo romance, <i>Perceval </i>(<i>Le Conte du Graal</i>), para enaltecer as virtudes do mecenas, comendat&aacute;rio e destinat&aacute;rio privilegiado da obra (Filipe de Flandres). Mas &eacute; tamb&eacute;m sobre esta dimens&atilde;o inici&aacute;tica do ato de ouvir que insiste Calogrenant, her&oacute;i falhado do terceiro romance do mesmo autor (<i>Yvain ou Le Chevalier au Lion</i>), quando decide, depois de sete longos anos de um sil&ecirc;ncio matricial, contar perante a corte, a sua desventura: </p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&ldquo;(...) or entend&eacute;s!    <br>          Cuer et oroeilles me rend&eacute;s,    <br>          car parole o&iuml;e est perdue    <br>          s'ele n'est de cuer entendue.    <br>          Or y a tix que che qu&rsquo;il oent    <br>          n'entendent pas, et si le loent;    <br>          et chil n'en ont fors que l'o&iuml;e,    <br>          puis que li cuers n'i entent mie;    <br>          as oreilles vient le parole,    <br>          aussi comme li vens qui vole,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>          mais n'i arreste ne demore,    <br>          ains s'en part en mout petit d'ore,    <br>          se li cuers n'est si estilli&eacute;s    <br>          c&rsquo;a prendre soit appareilli&eacute;s;    <br>          que chil le puet en son venir    <br>          prendre et enclorre et retenir.    <br>          Les oreilles sont voie et dois    <br>          ou par ent y entre la vois;    <br>          et li cuers prent dedens le ventre    <br>          le vois qui par l'oreille y entre.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>          Et qui or me vaurra entendre,    <br>          cuer et oreilles me doit rendre,    <br>          car ne veul pas servir de songe,     <br>          ne de fable, ne de menchonge&rdquo; (v. 149-172).</p></blockquote>     <p>Nesta admir&aacute;vel po&eacute;tica da rece&ccedil;&atilde;o, constru&iacute;da em torno das reiteradas oposi&ccedil;&otilde;es entre o ouvir e o escutar, o ouvido e o cora&ccedil;&atilde;o, a potencial dispers&atilde;o da palavra atrav&eacute;s da voz e a sua reunifica&ccedil;&atilde;o interior, vemos desenhar-se uma verdadeira inicia&ccedil;&atilde;o &agrave; leitura (ou, mais precisamente, &agrave; leitura como inicia&ccedil;&atilde;o) em que o ouvido &eacute; &ldquo;via e caminho&rdquo; para o Centro atrav&eacute;s dos quais a voz se transforma em Conhecimento. A trajet&oacute;ria interior que conduz a &ldquo;anclorre et retenir&rdquo; (v. 164) no cora&ccedil;&atilde;o as palavras veiculadas pela voz (ou seja, literalmente, aprender de cor) traduz poeticamente toda esta epistemologia fonoc&ecirc;ntrica que temos vindo a esbo&ccedil;ar e na qual assenta a pr&oacute;pria integridade da narrativa que se distancia assim da impostura da f&aacute;bula em que os meandros ruidosos da transmiss&atilde;o oral se tornam cada vez mais sin&oacute;nimo de corrup&ccedil;&atilde;o ou de fragmenta&ccedil;&atilde;o da palavra po&eacute;tica<a name="top48"></a><sup><a href="#48">48</a></sup>. Ser&aacute; por mero acaso se, numa das cenas que encerra este poema, numa posi&ccedil;&atilde;o estrutural diametralmente oposta ao conto de Calogrenant que o inaugura, assistimos &agrave; discreta e breve descri&ccedil;&atilde;o de uma cena intimista em que uma donzela l&ecirc;, em voz alta, para seus pais, um romance no ambiente id&iacute;lico de um vergel?<a name="top49"></a><sup><a href="#49">49</a></sup> </p>     <p>Estas encena&ccedil;&otilde;es ficcionais da oralidade, como se a narrativa espelhasse as suas pr&oacute;prias condi&ccedil;&otilde;es de transmiss&atilde;o, n&atilde;o &eacute; naturalmente de estranhar numa obra medieval. Com efeito, nunca ser&aacute; de mais relembrar que, quando as literaturas modernas (ou seja, as literaturas em l&iacute;ngua vern&aacute;cula, a l&iacute;ngua ficcional do desejo por excel&ecirc;ncia em contraste com o latim) emergem na Europa ocidental nos s&eacute;culos XI-XII a partir dos epicentros occitano e anglo-normando, a sua exist&ecirc;ncia &eacute; consubstancial &agrave; performance oral (as c&oacute;pias manuscritas s&atilde;o todas mais tardias). Esta performance depende intimamente das condi&ccedil;&otilde;es (espaciais, temporais, materiais) em que se realiza, condicionando, por sua vez, n&atilde;o apenas o modo de rece&ccedil;&atilde;o da obra como a sua pr&oacute;pria estrutura formal e sem&acirc;ntica. &Eacute; a voz, com toda a espessura da tradi&ccedil;&atilde;o e do mito que por ela perpassa e que com ela renasce, mas tamb&eacute;m com toda a sua fragilidade e volatilidade, como relembrava Calogrenant, que molda e atualiza incessantemente a narrativa, ecoando ainda na instabilidade intr&iacute;nseca da obra medieval, vari&aacute;vel por natureza e voca&ccedil;&atilde;o<a name="top50"></a><sup><a href="#50">50</a></sup>, que pouco se coaduna com a nossa ideia de <i>texto</i> enquanto forma perfeitamente circunscrita, tecida e acabada<a name="top51"></a><sup><a href="#51">51</a></sup>. Se do registo romanesco, mais centrado na problem&aacute;tica de uma individualidade emergente, passarmos para a can&ccedil;&atilde;o de gesta, este primado da voz torna-se ainda mais eloquente. Raros s&atilde;o os poemas &eacute;picos dos s&eacute;culos XII e XIII que n&atilde;o se definem explicitamente, desde os versos inaugurais, como uma comunica&ccedil;&atilde;o oral subordinada &agrave; autoridade da voz que, gra&ccedil;as &agrave; sua capacidade &uacute;nica de mobilizar/atualizar o passado garante a autenticidade da narrativa. Associada a uma est&eacute;tica da repeti&ccedil;&atilde;o e a uma po&eacute;tica da mem&oacute;ria (organiza&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria por estrofes [<i>laisses</i>] tem&aacute;ticas ou dieg&eacute;ticas unidas por rimas sonantes; sintaxe e estilo iterativo e formul&iacute;stico, etc.)<a name="top52"></a><sup><a href="#52">52</a></sup>, a centralidade da voz na can&ccedil;&atilde;o de gesta transforma este g&eacute;nero narrativo em verdadeira celebra&ccedil;&atilde;o lit&uacute;rgica dos feitos heroicos que visa fortalecer e exaltar a coes&atilde;o e a estabilidade da comunidade textual na qual ressoa<a name="top53"></a><sup><a href="#53">53</a></sup>, nela assumindo um estatuto ontol&oacute;gico id&ecirc;ntico ao do pr&oacute;prio testemunho visual:</p>     <blockquote>    <p>Segnor, soi&eacute;s en pais, laisi&eacute;s la noise ester,    <br>      Se vos vol&eacute;s can&ccedil;on glorieuse escouter.    <br>      Ja de nule mellor ne vos dira jougler&nbsp;(<i>La Chanson d&rsquo;Antioche </i>[s&eacute;c. XII], v. 1-3<a name="top54"></a><sup><a href="#54">54</a></sup>).</p>            ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Oi&eacute;s, signor &ndash; que Dex vos soit garans,    <br>          Li glor&iuml;ous qui sour tous est poisans&nbsp;! &ndash;    <br>          Boine can&ccedil;on oi&eacute;s que je vous cant    <br>          De voire estore, li vier en sont plaisant (<i>La Chevalerie Vivien</i>,II, v. 27-30)<a name="top55"></a><sup><a href="#55">55</a></sup>.</p>            <p>Ceste can&ccedil;ons si est de verit&eacute;,    <br>          N&rsquo;est de men&ccedil;ogne ne n&rsquo;est de fauset&eacute;,    <br>          Ains est d&rsquo;estore de grant antiquit&eacute;,    <br>          De saint Guillaume [...] (<i>Idem, </i>III, v. 53-56).</p>            <p>O&euml;z, seignor, que Dex vos bene&iuml;e,    <br>          Li glor&iuml;eus, li filz sainte Marie,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>          Bone chan&ccedil;on que ge vos vorrai dire!    <br>          Ceste n&rsquo;est mie d&rsquo;orgueill ne de folie,    <br>          Ne de men&ccedil;onge estrete ne emprise,    <br>          Mes de preudomes qui Espaigne conquistrent.    <br>          Icil le sevent qui en vont a Saint Gile,    <br>          Qui les ensaignes en ont ve&uuml; a Bride:    <br>          L&rsquo;escu Guillelme et la targe florie,    <br>          Et le Bertran, son neveu, le nobile.    <br>          Ge ne cuit mie que ja clers m&rsquo;en desdie    <br>          Ne escripture qu&rsquo;en ait trov&eacute; en livre (<i>La Prise d&rsquo;Orange</i>, v. 1-12).<a name="top56"></a><sup><a href="#56">56</a></sup></p></blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O prest&iacute;gio vibrante da voz po&eacute;tica &ndash; que silencia os ru&iacute;dos tumultuosos, difusos e vazios das palavras comuns &ndash;, a sua natureza unificadora e totalizadora (n&atilde;o esque&ccedil;amos que os jograis s&atilde;o int&eacute;rpretes itinerantes por excel&ecirc;ncia), consubstancial &agrave; realidade que enuncia, logo, indesment&iacute;vel, sofre contudo, entre o in&iacute;cio do s&eacute;culo XII e meados do s&eacute;culo XV, um certo desgaste devido &agrave; generaliza&ccedil;&atilde;o da escrita (e n&atilde;o da leitura) no seio da cultura &ldquo;mista&rdquo;<a name="top57"></a><sup><a href="#57">57</a></sup> que define o Ocidente medieval. Contudo, ao olharmos com mais aten&ccedil;&atilde;o para os textos, verificamos que, no seio desta tens&atilde;o dial&eacute;tica, n&atilde;o &eacute; tanto a voz que est&aacute; posta em xeque, mas sim a legitimidade e a autoridade de uma transmiss&atilde;o puramente oral da narrativa. &Agrave; &uacute;nica refer&ecirc;ncia auto-legitimante da voz, come&ccedil;a ent&atilde;o a emergir dos pr&oacute;logos a reiterada men&ccedil;&atilde;o &agrave; presen&ccedil;a (mais fict&iacute;cia do que real) de um livro do qual emana a narrativa descoberta (ret&oacute;rica da <i>inventio</i>)e transmitida (po&eacute;tica da <i>translatio</i>) pelo poeta ou o jogral. Trata-se de uma inflex&atilde;o duplamente reveladora. Por um lado, porque desloca claramente a performance oral (misto de recita&ccedil;&atilde;o e improviso) para a esfera da leitura em voz alta a partir de um suporte idealmente fixo e est&aacute;vel. Por outro lado, porque transfere a fonte da autoridade da voz para a escrita<a name="top58"></a><sup><a href="#58">58</a></sup>. Com efeito, subordinado &agrave;s no&ccedil;&otilde;es de Hist&oacute;ria (por oposi&ccedil;&atilde;o ao espectro da f&aacute;bula v&atilde;)<a name="top59"></a><sup><a href="#59">59</a></sup>, de completude, de sacralidade de um espa&ccedil;o (o mosteiro) e de uma l&iacute;ngua (o latim do qual a obra ser&aacute; trasladada para <i>romance</i>), de corporeidade significante de uma palavra tang&iacute;vel com a qual a voz e a verdade da fic&ccedil;&atilde;o podem agora ser constantemente confrontadas ou cotejadas, o imagin&aacute;rio do livro &ndash; que vir&aacute;, de resto, a ser consubstancial &agrave; emerg&ecirc;ncia da pr&oacute;pria escrita ficcional em prosa no s&eacute;culo XIII<a name="top60"></a><sup><a href="#60">60</a></sup> &ndash;, acaba por exorcizar ou secundarizar a voz. Os exemplos s&atilde;o abundantes. Veja-se o exemplo do <i>Moniage Guillaume </i>(s&eacute;c. XII):</p>     <blockquote>    <p>Bone chan&ccedil;on pleroit vous a o&iuml;r&nbsp;? [...]    <br>          De fiere geste bien sont les vers assis;    <br>          N'est pas juglerres qui ne set de cestui;    <br>          L'estoire en est au mostier Saint Denis,    <br>          Molt a lonc tens qu'ele est mise en oubli;    <br>          Molt fu preudom cil qui rimer la fist (v. 3-7)<a name="top61"></a><sup><a href="#61">61</a></sup>.</p></blockquote>     <p>A hist&oacute;ria de <i>Berte aus grans pi&eacute;s</i> de Adenet le Roi (s&eacute;c. XIII), que se prop&otilde;e revelar as origens geneal&oacute;gicas do pr&oacute;prio imperador Carlos Magno, &eacute; particularmente interessante, n&atilde;o somente pela minuciosa encena&ccedil;&atilde;o narrativa e simb&oacute;lica que preside &agrave; providencial descoberta o livro-fonte e &agrave; sua <i>translatio</i> para <i>romance</i> cuja exemplaridade assume uma dimens&atilde;o quase inici&aacute;tica, mas tamb&eacute;m pelo facto de estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o t&atilde;o intr&iacute;nseca entre escrita e performance oral que sugere claramente uma apropria&ccedil;&atilde;o/atualiza&ccedil;&atilde;o do texto atrav&eacute;s de uma situa&ccedil;&atilde;o de leitura em voz alta:</p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A l'issue d'Avrill, un tans dou&ccedil; et joli,    <br>          Que herbeletes pongent et pre sont raverdi    <br>          Et arbrissel desirent qu'il fussent parflori,    <br>          Tout droit en cel termine que je ici vous di,    <br>          A Paris la cit&eacute; estoie un venredi;    <br>          Pour ce qu'il ert devenres, en mon cuer m'assenti    <br>          K'a Saint Denis iroie por priier Dieu merci.    <br>          A un moine courtois, c'on nonmoit Savari,    <br>          M'acointai telement, Damedieu en graci,    <br>          Que le livre as estoire me moustra et g'i vi    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>          L'estoire de Bertain et de Pepin aussi    <br>          Conment n'en quel maniere le lion assailli;    <br>          Aprenti&ccedil; jougleour et escrivain mari,    <br>          Qui l'on de lieus en lieus &ccedil;a et la conqueilli,    <br>          Ont l'estoire fausse, onques mais ne vi si.    <br>          Illueques demorai de lors jusqu'au mardi    <br>          Tant que la vraie estoire enportai avoec mi,    <br>          Si conme Berte fu en la forest par li,    <br>          Ou mainte grosse paine endura et soufri,    <br>          L'estoire iert si rimee, par foi le vous plevi,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>          Que li mesentendant en seront abaudi    <br>          Et li bien entendant en seront esjoy.</p>            <p>[...]    <br>          Seignor, or escoutez, pour Dieu ne vous anuit,    <br>          Si orrez vraie estoire dont li ver sont bien duit.    <br>          Molt volentiers la doivent o&iuml;r toute et tuit,    <br>          Car il en est molt poi, si com je crois et cuit,    <br>          Qui de vraie matere a cesti ci s&rsquo;apuit&nbsp;;    <br>          A Saint Denis en France, la ens ai mon acuit,    <br>          Ou je trouvai l&rsquo;estoire dedenz un&nbsp; livre estuit (v. 1-22&nbsp;; 898-904)<a name="top62"></a><sup><a href="#62">62</a></sup>.</p></blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;A fic&ccedil;&atilde;o do livro n&atilde;o pretende apagar a voz nem erradic&aacute;-la, longe disso, da vida e da trajet&oacute;ria da narrativa. Inaugura, no entanto, uma viragem cultural cujas consequ&ecirc;ncias ainda hoje influenciam a nossa forma de pensar, de sentir e de nos relacionarmos com os livros e com a leitura. Com efeito, secundarizar a voz sujeitando-a &agrave; autoridade da escrita, sugere claramente que a voz &eacute; (como sempre ser&aacute;) o &ldquo;Outro da escrita&rdquo;<a name="top63"></a><sup><a href="#63">63</a></sup>. Um Outro inc&oacute;modo e perturbador porque radicalmente livre, difuso, incontrol&aacute;vel e sedutor como o canto das sereias. N&atilde;o admira, neste sentido, que numa &eacute;poca em que a escrita procura afirmar a sua hegemonia, a sua estrat&eacute;gia de legitima&ccedil;&atilde;o passe por exorcizar ou neutralizar o poder desestruturante, encantat&oacute;rio e disseminador da voz, subordinando-a, no ato de leitura, &agrave; inst&acirc;ncia da escrita que, atrav&eacute;s da figura do livro, sonha cada vez mais em confundir a <i>literatura </i>com a finitude, estabilidade e completude ideais de um <i>texto</i><a name="top64"></a><sup><a href="#64">64</a></sup><i>.</i></p>      &Eacute; evidente que a natureza da voz e o estatuto e manifesta&ccedil;&otilde;es da leitura na civiliza&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea, marcadamente visual e semiol&oacute;gica, difere profundamente da voz (hoje totalmente inaud&iacute;vel e inalcan&ccedil;&aacute;vel na sua corporeidade hist&oacute;rica) que ecoa nos e dos textos de uma Idade M&eacute;dia eminentemente simb&oacute;lica. Contudo, ontem como hoje, a aten&ccedil;&atilde;o &agrave; voz continua a ser uma forma privilegiada de pensarmos a rela&ccedil;&atilde;o dial&eacute;tica entre compet&ecirc;ncias ligadas &agrave; escrita e compet&ecirc;ncias relacionadas com a oralidade, entre apreens&atilde;o silenciosa do texto e a sua transmiss&atilde;o vocal, na condi&ccedil;&atilde;o de deslocarmos definitivamente o foco metodol&oacute;gico de uma falaciosa perspetiva cognitivista ou evolucionista para uma perspetiva pragm&aacute;tica em que ler em voz alta consiste em assumir plenamente que um texto po&eacute;tico &eacute;, antes de mais, um ato intencional de comunica&ccedil;&atilde;o (independentemente da inten&ccedil;&atilde;o do seu autor)<a name="top65"></a><sup><a href="#65">65</a></sup> implicando uma vis&atilde;o partilhada do mundo. Se a leitura solit&aacute;ria favorece a explora&ccedil;&atilde;o simultaneamente anal&iacute;tica e global do texto, a sua interioriza&ccedil;&atilde;o, seja para que fim for, s&oacute; a leitura articulada em voz alta pode transformar plenamente o texto em puls&atilde;o emotiva que faz vibrar tanto o corpo que sustenta a voz como o que a recebe<a name="top66"></a><sup><a href="#66">66</a></sup>. &Eacute; por esta raz&atilde;o que h&aacute; pouco afirm&aacute;vamos que a voz &eacute; sedu&ccedil;&atilde;o. Ora, como o segredo (o &eacute;timo &eacute;, de resto, o mesmo), a sedu&ccedil;&atilde;o &eacute; aquilo que separa. Que separa de qu&ecirc;? Que provavelmente nos separa de n&oacute;s pr&oacute;prios, a voz sendo esse fluido que, mais do que a palavra escrita, nos impele a abandonar o nosso confort&aacute;vel lugar de leitor/espetador para imergirmos totalmente, atrav&eacute;s na mimese ficcional, no texto atrav&eacute;s do qual reconfiguramos incessantemente a nossa vis&atilde;o do mundo bem como a nossa pr&oacute;pria identidade narrativa<a name="top67"></a><sup><a href="#67">67</a></sup>. N&atilde;o &eacute; por acaso que os autores cl&aacute;ssicos consideravam o <i>movere </i>como um dos princ&iacute;pios essenciais da ret&oacute;rica a par das suas fun&ccedil;&otilde;es cognitiva (<i>docere</i>) e l&uacute;dica (<i>delectare</i>). E tamb&eacute;m n&atilde;o ser&aacute; por mero acaso se, ao, longo dos s&eacute;culos, a prosopopeia surge como uma das figuras por ventura mais produtivas no processo de cria&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica enquanto vest&iacute;gio de um pensamento m&iacute;tico onde o mundo (animal, mineral ou vegetal) s&oacute; se pode pensar e dar a conhecer atrav&eacute;s da voz<a name="top68"></a><sup><a href="#68">68</a></sup>. Sempre que lemos em voz alta, &eacute; um pouco deste universo ancestral que desenterramos. O que nos conduz a um novo paradoxo: a voz nunca &eacute; uma apropria&ccedil;&atilde;o redutora do sentido, uma simples interpreta&ccedil;&atilde;o que esvazia parcialmente a dimens&atilde;o metaf&oacute;rica do texto po&eacute;tico. Pelo contr&aacute;rio, atrav&eacute;s das modula&ccedil;&otilde;es da voz, das suas hesita&ccedil;&otilde;es, contra-dic&ccedil;&otilde;es, quebras, sil&ecirc;ncios e hiatos, a voz introduz-nos no universo do inter-dito, dos interst&iacute;cios do pensamento e da linguagem, ou seja, da equivocidade polif&oacute;nica e dial&oacute;gica em constante resist&ecirc;ncia &agrave;s tentativas hegem&oacute;nica de uniformiza&ccedil;&atilde;o do sentido. Era o que talvez intu&iacute;a Fran&ccedil;ois Rabelais na enigm&aacute;tica f&aacute;bula das palavras geladas (<i>Quart Livre</i>, LV-LVI) quando nos relata o assombro desses navegantes ao chegarem a uma terra long&iacute;nqua onde os rigores do inverno congelaram as palavras pronunciadas durante uma terr&iacute;vel batalha. Com a primavera, as palavras derretam progressivamente e os sons, ganhando vida uns a seguir aos outros, come&ccedil;am a articular-se<a name="top69"></a><sup><a href="#69">69</a></sup>, dando-se a conhecer naquilo que t&ecirc;m de melodioso, mas tamb&eacute;m na sua aspereza e dimens&atilde;o inc&oacute;moda e desestruturante. A passagem da fixidez material da palavra (emblema da escrita na era da tipografia?) &agrave; fluidez sonora (emblema da experi&ecirc;ncia oral) nunca est&aacute; isenta de riscos, implicando sempre &ndash; pelo menos para o ouvinte &ndash; um salto para o desconhecido, o espanto do(s) sentido(s). Era o que tamb&eacute;m j&aacute; intu&iacute;ra Paul Zumthor ao afirmar<a name="top70"></a><sup><a href="#70">70</a></sup> que a performance oral altera profundamente o estatuto dos signos que comp&otilde;em a obra medieval tendendo a &ldquo;despoj&aacute;-lo, esse signo, do arbitr&aacute;rio que comporta; a motiv&aacute;-lo pela presen&ccedil;a desse corpo de que emana&rdquo;. Nesta perspetiva, ser&aacute; que, ontem como hoje, a significa&ccedil;&atilde;o de um texto apenas se consuma plenamente quando incarna num corpo e numa voz que o anima e o faz estremecer? Seja como for, apenas a leitura em voz alta permite ao texto atualizar-se numa temporalidade irrevers&iacute;vel que o inscreve numa hist&oacute;ria de vida, tamb&eacute;m ela, irrepet&iacute;vel, bem como num espa&ccedil;o concreto e tang&iacute;vel gra&ccedil;as ao qual a experi&ecirc;ncia po&eacute;tica se transforma em verdadeiro <i>lugar comum</i> da mem&oacute;ria e do (re)conhecimento<a name="top71"></a><sup><a href="#71">71</a></sup>.</p>     <p>Na Idade M&eacute;dia como hoje, a leitura em voz alta convida-nos assim a desconstruir uma imagem estereotipada, e algo rom&acirc;ntica ou et&eacute;rea, da narrativa liter&aacute;ria enquanto forma ontologicamente cristalizada e pura, perfeitamente acabada e fechada sobre si pr&oacute;pria, para nela vermos, antes de mais, uma <i>obra aberta </i>ou uma <i>estrutura ausente </i>(de acordo com a terminologia de Umberto Eco), em perp&eacute;tuo devir, incessantemente reconfigurada pela voz singular que dela se apropria e que, com ela, se transforma numa din&acirc;mica centr&iacute;peta que implica e afeta os pr&oacute;prios ouvintes. Implicando, como vimos, uma copresen&ccedil;a e uma experi&ecirc;ncia partilhada que criam ou refor&ccedil;am, no seio de uma dada comunidade textual, os la&ccedil;os identit&aacute;rios, a voz envolve finalmente o olhar e o rosto. Ora, atrav&eacute;s do olhar e do rosto, na sua nudez, fragilidade e exposi&ccedil;&atilde;o radicais, bem como nas emo&ccedil;&otilde;es que deixa transparecer, ser&aacute; que a leitura em voz alta n&atilde;o nos vem colocar perante a imensa, e cada vez mais urgente, problem&aacute;tica da responsabilidade por outrem<a name="top72"></a><sup><a href="#72">72</a></sup>, e, por conseguinte, perante a pr&oacute;pria dimens&atilde;o &eacute;tica da literatura?</p>     <p>Verticalidade do rosto, verticalidade da voz, verticalidade da leitura: numa das suas &uacute;ltimas cr&oacute;nicas publicadas na revista <i>Vis&atilde;o</i><a name="top73"></a><sup><a href="#73">73</a></sup>,Gon&ccedil;alo M. Tavares afirmava que &ldquo;ler uma mensagem ou uma frase que n&atilde;o desaparece &eacute; para leitores pregui&ccedil;osos&rdquo;, deplorando que, por oposi&ccedil;&atilde;o aos primeiros leitores dos ef&eacute;meros sinais inscritos no c&eacute;u, as pessoas agora leiam de cima para baixo e, estando &ldquo;o texto [...] abaixo do pesco&ccedil;o [...], isso transforma-o logo num texto inofensivo&rdquo;. Neste sentido, incentivar a leitura em voz alta no &acirc;mbito de uma ampla tradi&ccedil;&atilde;o centrada na transcend&ecirc;ncia da voz, torna-se simultaneamente uma forma de devolver ao texto a sua natureza numinosa, inquietante e desestabilizadora, e de &ldquo;recuperar o tamanho certo do humano: voltar a ler de baixo para cima&rdquo;; voltar, em suma, a olhar para o c&eacute;u.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b>     <p><b>Fontes</b></p>     <p>ADENET LE ROI &ndash; Ed. A. Henry. Genebra: Droz, 1982.</p> AGOSTINHO DE HIPONA &ndash; <i>Confessiones</i>. Ed. bilingue (Latim/Franc&ecirc;s) de P. de Labriolle. Vol. 1. Paris: Les Belles Lettres, 1977.</p>     <!-- ref --><p><i>AIOL. </i>Ed. J. Normand e G. Raynaud. Paris: Didot, Soci&eacute;t&eacute; des Anciens Textes Fran&ccedil;ais, 7, 1877.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1483779&pid=S1646-740X201600010000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BENOIT (SAINT) &ndash; <i>R&egrave;gle de saint Beno&icirc;t</i>. Ed. bilingue (Latim/Franc&ecirc;s) de H. Rochais. Paris: Descl&eacute;e de Brouwer, 1997.</p>     <p>BRUNETTO LATINI &ndash; <i>Li livres dou tresor</i>. Ed. cr&iacute;tica F. J. Carmody. Genebra: Slatkine, 1998.</p>     <p>CHRETIEN DE TROYES &ndash;<i> Romans</i>. Paris: Librairie G&eacute;n&eacute;rale Fran&ccedil;aise, 1994.</p>     <p>DANTE ALIGHIERI &ndash; <i>Divina Com&eacute;dia</i>. Ed. bilingue de V. Gra&ccedil;a Moura. Lisboa: Bertrand, 1995.</p>     <p>DU BELLAY. J. &ndash;<i> D&eacute;fense et illustration de la langue fran&ccedil;aise</i>. Ed. S. de Sacy. Paris: NRF-Gallimard, 1975.</p>     <p>FROISSARD, J. &ndash; <i>Espinette amoureuse</i>. Ed. A. Fourrier. Paris: Klincksieck, 1972.</p>     <p>GUILLAUME DE MACHAUT &ndash; <i>Le Livre du voir-dit</i>. Ed. P. Imbs. Paris: Librairie G&eacute;n&eacute;rale Fran&ccedil;aise, col. &ldquo;Lettres Gothiques&rdquo;, 1999.</p>     <p>HUGO DE S&Atilde;O V&Iacute;TOR &ndash; <i>Hugonis de Sancto Victore Didascalicon de Studio Legendi</i>. Ed. cr&iacute;tica de Ch. H. Buttimer. Washington: The Catholic University Press, 1939.</p>     <p>HUGO DE S&Atilde;O V&Iacute;TOR &ndash; <i>L&rsquo;Art de lire. Didascalicon</i>. Trad.&nbsp; Francesa de M. Lemoine. Paris: Cerf, 1991.</p>     <p>ISIDORO DE SEVILHA &ndash; <i>Etimologias</i>. 2 vols. Ed. Bilingue (Latim/Espanhol) de J. Oroz Reta e M. A. Marcos Casquero. Madrid: BAC, 1982.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>JACQUES DE VITRY &ndash; <i>Histoire de l&rsquo;Occident </i>&nbsp;(<i>Historia occidentalis)</i>. Trad. Francesa de&nbsp; G. Duchet-Suchaux, com introdu&ccedil;&atilde;o e notas de J. Long&egrave;re. Paris: les &Eacute;ditions du Cerf, 1997.</p>     <p>JEHAN BODEL &ndash; <i>Chanson des Saisnes</i>. Ed. A. Brasseur. Genebra: Droz, 1989.</p>     <!-- ref --><p><i>TRISTAN DE NANTEUIL. </i>Ed. K. V. Sinclair. Assen: Van Gorcum &amp; Comp., 1971.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1483793&pid=S1646-740X201600010000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><i>LA CHANSON D&rsquo;ANTIOCHE</i>. Ed. S. Duparc-Quioc. Paris: Librairie Orientaliste Paul Geuthner, 1977.</p>     <!-- ref --><p><i>LA CHEVALERIE VIVIEN. </i>Ed. D. McMillan. 2 vols. Aix-en-Provence: Universit&eacute; de Provence [<i>s&eacute;n&eacute;fiance, </i>39-40], 1997.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1483796&pid=S1646-740X201600010000300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p><i>LA PRISE D&rsquo;ORANGE. </i>Ed. Cl. R&eacute;gnier. Paris: Klincksieck, 1986.</p>     <!-- ref --><p><i>LE MONIAGE GUILLAUME. </i>Ed. N. Andrieux-Reix. Paris: Champion, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1483799&pid=S1646-740X201600010000300020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>PHILIPPE DE BEAUMANOIR &ndash; <i>&OElig;uvres compl&egrave;tes de Philippe de Beaumanoir.</i> Ed. H. Suchier. Paris: Soci&eacute;t&eacute; des Anciens Textes Fran&ccedil;ais, 1984-85.</p>     <p>RABELAIS, F. &ndash; <i>Le Quart Livre des Faicts et Dicts Hero&iuml;ques du Bon Pantagruel</i>. in <i>&nbsp;&OElig;uvres Compl&egrave;tes.</i> Ed. P. Jourda. Paris: Garnier Fr&egrave;res, 1962.</p>     <p>RABELAIS, F. &ndash; <i>Pantagruel. </i>Ed. Guy Dermeson. Paris: Seuil, 1997.</p>     <p><i>RENAUT DE MONTAUBAN</i> &ndash; Ed. J. Thomas. Genebra: Droz, 1989</p>     <p>ROBERT DE BORON &ndash;<i> Merlin. </i>Ed. A. Micha. Genebra: Droz, 1979.</p>     <p>REGNIER-BOHLER, D. (dir.) &ndash;<i> La</i> <i>L&eacute;gende arthurienne. Le Graal et la Table Ronde</i>. Paris: Robert Laffont, 1989.</p>     <p>ROUSSSEAU, J.-J. &ndash; <i>L&rsquo;&Eacute;mile ou de l&rsquo;&Eacute;ducation</i>. Paris: Garnier-Flammarion, 1961.</p> TOMAS DE AQUINO &ndash; <i>Summa Theologicae</i>. Ed. Bilingue (Latim/Espanhol) de S. Ramirez, t. II. Madrid: La Editorial Cat&oacute;lica, BAC, 1959.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Estudos</b></p>     <p>BEDOS-REZAK, B. M.; IOGNA-PRAT, D. &ndash; <i>L&rsquo;Individu au Moyen Age</i>. Paris: Aubier, 2005.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BIET, C. &ndash; &ldquo;L&rsquo;oral et l&rsquo;&eacute;crit&rdquo;. in DARMON, J.-Ch.; DELON, M. &ndash; <i>Histoire de la France litt&eacute;raire. Classicismes&nbsp;: XVIIe-XVIIIe si&egrave;cle</i>. Paris: PUF, 2006, pp. 409-434.</p>     <p>BOUTET, D. &ndash; <i>La Chanson de geste: forme et signification d'une &eacute;criture &eacute;pique du Moyen &Acirc;g</i>e. Paris: PUF, 1993.</p>     <p>BOUTET, D. &ndash; &ldquo;L&rsquo;oral et l&rsquo;ecrit dans la France m&eacute;di&eacute;vale&rdquo;. in F. LESTRINGANT; M. ZINK (dir.) &ndash; <i>Histoire de la France litt&eacute;raire. Naissances, Renaissances: Moyen &Acirc;ge-XVIe si&egrave;cle.</i> Paris: PUF, 2006, pp. 193-212.</p>     <p>CARRUTHERS, M. &ndash; <i>The Book of Memory: A Study of Memory in Medieval Culture. </i>Nova York: Cambridge University Press, 1990.</p>     <p>CERQUIGLINI, B. &ndash; <i>&Eacute;loge de la variante. Histoire critique de la philologie</i>. Paris: Seuil, 1989.</p>     <p>CERQUIGLINI-TOULET, J. &ndash;&ldquo;La sc&egrave;ne de la lecture dans l&rsquo;&oelig;uvre litt&eacute;raire au Moyen &Acirc;ge&rdquo;. in BOHLER, D. (dir.) &ndash; <i>Le Go&ucirc;t du lecteur &agrave; la fin du Moyen &Acirc;ge</i>. Paris: L&eacute;opard d&rsquo;Or, 11, 2006, pp. 13-26.</p>     <p>CERTEAU, M. de &ndash; <i>L&rsquo;Invention du quotidien</i>, 1. Paris: Gallimard, 1990.</p>     <p>CHARTIER, R &ndash; <i>Culture &eacute;crite et soci&eacute;t&eacute;. L&rsquo;ordre des livres (XIVe-XVIIIe si&egrave;cle)</i>. Paris: Albin Michel, 1996.</p>     <p>CLAMOTE CARRETO, C. &ndash; &lsquo;<i>Contez vous qui savez de nombre&rsquo;. Imaginaire marchand et &eacute;conomie du r&eacute;cit au Moyen &Acirc;ge</i>. Paris: Champion, 2014.</p>     <p>CLAMOTE CARRETO, C. &ndash; &ldquo;Topique et utopie du livre au Moyen &Acirc;ge: le texte (im)possible&rdquo;. in MILON, A.; PERELMAN, M. (dir.) &ndash; <i>Le Livre et ses espaces</i>. Paris: Presses Universitaires de Paris 10, 2007, pp. 35-61.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>CLEMENT. C. &ndash; <i>La Voix verticale</i>. Paris: Belin, 2012.</p>     <p>DERRIDA, J. &ndash; <i>De la Grammatologie.</i> Paris: Les &Eacute;ditions de Minuit, 1967.</p>     <p>DERRIDA, J. &ndash; <i>L&rsquo;&Eacute;criture et la Diff&eacute;rence</i>. Paris&nbsp;: Seuil, 1967.</p>     <p>EISENSTEIN, E. &ndash; <i>The Printing Press as Agent of Change</i>. 2 vols. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.</p>     <p>GALDERISI, Cl. &ndash; &ldquo;Vers et prose au Moyen &Acirc;ge&rdquo;. in LESTRINGANT, F.; ZINK, M.(dir.) &ndash; <i>Histoire de la France litt&eacute;raire. </i><i>Naissances, Renaissances</i>. Paris: PUF, 2006, pp. 745-766.</p>     <p>GOODY, J. &ndash; <i>The Power of the Written Tradition</i>. Washington/ Londres: Smithsonian Institution Press, 2000.</p>     <p>GREEN, D. H. &ndash; <i>Women Readers in the Middle Ages.</i> Cambridge: Cambridge University Press, 2007.</p>     <p>HASENOHR, G. &ndash; &ldquo;Le livre manuscrit&rdquo;. in LESTRINGANT, M.; ZINK, M. (dir.) &ndash; <i>Histoire de la France Litt&eacute;raire</i>. <i>Naissances, Renaissances: Moyen &Acirc;ge-XVIe si&egrave;cle.</i> Paris: PUF<i>,</i> 2006, pp. 151-173.</p>     <p>HAUG, H. &ndash; <i>Fonctions et pratiques de la lecture &agrave; la fin du Moyen &Acirc;ge. Approche socio-litt&eacute;raire du discours sur la lecture en milieu curial d'apr&egrave;s les sources narratives fran&ccedil;aises et bourguignonnes [1360-1480]</i>). Lovaina, 2013. Tese de Doutoramento apresentada &agrave; Universidade Cat&oacute;lica de Lovaina.</p>     <p>JANNERET, M. &ndash; &ldquo;La litt&eacute;rature et la voix: attraits et mirages de l&rsquo;oral au XVIe si&egrave;cle&rdquo;. in KRAUS, D. &ndash; &ldquo;Appropriation et pratiques de la lecture&rdquo;, <i>Labyrinthe</i> [Em linha]. 3&nbsp;(1999) [Consultado a 24 de mar&ccedil;o de 2015]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://labyrinthe.revues.org/56" target="_blank">http://labyrinthe.revues.org/56</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>LE GOFF, J. &ndash; <i>Faut-il vraiment d&eacute;couper l&rsquo;histoire en tranches</i>. Paris: Seuil, 2014.</p>     <p>LEMOS, A. &ndash; &ldquo;O <i>Livro de Horas</i> de D. Duarte. Estado da arte, percurso e caracteriza&ccedil;&atilde;o de um manuscrito&rdquo;. in BARREIRA, C. e METELO DE SEIXAS, M. (dir.) &ndash; <i>D. Duarte e a sua &eacute;poca: arte, cultura, poder e espiritualidade</i>. Lisboa: FCSH/IEM, 2014, pp. 211-239.</p>     <p>LESTRINGANT, F.; ZINK, M. (dir.) &ndash; <i>Histoire de la France Litt&eacute;raire. Naissances, Renaissances: Moyen &Acirc;ge-XVIe si&egrave;cle</i>. Paris: PUF, 2006, pp. 212-233.</p>     <p>LEVINAS, E. &ndash; <i>&Eacute;tica e Infinito</i>. Trad. portuguesa de J. Gama. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70, 1988.</p>     <p>MANGUEL, A. &ndash; <i>Une histoire de la lecture</i>. Paris: Actes du Sud, 1998.</p>     <p>MATTOSO, J. &ndash; <i>Poderes invis&iacute;vel. O imagin&aacute;rio medieval</i>. Lisboa: C&iacute;rculo de Leitores, 2013.</p>     <p>METELO DE SEIXAS, M.; GALV&Atilde;O-TELLES, J. B. &ndash; &ldquo;Elementos de uma cultura din&aacute;stica e visual: os sinais her&aacute;ldicos e emblem&aacute;ticos do rei D. Duarte&rdquo;. in BARREIRA, C. e METELO DE SEIXAS, M. (dir.) &ndash; <i>D. Duarte e a sua &eacute;poca: arte, cultura, poder e espiritualidade</i>. Lisboa: FCSH/IEM, 2014, pp. 257-283.</p>     <p>ONG, W. &ndash; <i>Orality and Literacy: The Technologizing of the World</i>. Londres/Nova York: Methuen, 1982.</p>     <p>PETRUCCI, A. &ndash; &ldquo;Lire au Moyen &Acirc;ge&rdquo;. in <i>M&eacute;lange de l&rsquo;&Eacute;cole fran&ccedil;aise de Rome</i>. T. 96. 2 (1984) pp. 603-616.</p>     <p>RIC&OElig;UR, P. &ndash; <i>Soi-m&ecirc;me comme un Autre</i>. Paris: Seuil, 1990.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>RUDDER, O. de &ndash; &ldquo;Pour une histoire de la lecture&rdquo;. <i>M&eacute;di&eacute;vales. </i>3 (1983) pp. 97-110.</p>     <p>SAENGER, P. &ndash; &ldquo;Silent Reading: Its Impact one Late Medieval Script and Society&rdquo;. <i>Viator.</i> 13 (1982) pp. 367-414.</p>     <p>SCHAEFFER, J.-M. &ndash; <i>Petite &eacute;cologie des &eacute;tudes litt&eacute;raires. Pourquoi et comment &eacute;tudier la litt&eacute;rature&nbsp;?</i> Vincennes: &Eacute;ditions Thierry Marchaisse, 2011.</p>     <p>SEGUY, M. &ndash; <i>Les Romans du Graal ou le signe imagin&eacute;. </i>Paris: Champion, 2001.</p>     <p>STOCK, B. &ndash; <i>The Implications of Literacy. Written Language and Models of Interpretation in the Eleventh and Twelfth Centuries</i>. Princeton: Princeton University, 1983.</p>     <p>VANDENDORPE, C. &ndash; <i>Du papyrus &agrave; l'hypertexte. Essai sur les mutations du texte et de la lecture</i>. Paris: La D&eacute;couverte, 1999.</p>     <p>VAN HEMELRYCK, T. &ndash; &ldquo;Du <i>livre lu</i> au <i>livre &eacute;crit</i>. La lecture et la construction de l&rsquo;identit&eacute; auctoriale &agrave; la fin du Moyen &Acirc;ge&rdquo;, in HERMAND, X., RENARD, E.&nbsp;e VAN HOOREBEECK, C. (dir.) &ndash; <i>Lecteurs, lectures et groupes sociaux au Moyen</i> <i>&Acirc;ge</i>. Turnhout: Brepols, 2010, pp. 185-194.</p>     <p>YATES, F. &ndash; <i>The Art of Memory. </i>Chicago: University of Chicago Press, 1966.</p>     <p>ZUMTHOR, P. &ndash; <i>Introduction &agrave; la po&eacute;sie orale. </i>Paris: Seuil, 1983.</p>     <p>ZUMTHOR, P. &ndash; <i>La Lettre et la voix. De la &laquo;litt&eacute;rature&raquo; m&eacute;di&eacute;vale</i>. Paris: Seuil, 1987.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO</b></p>     <p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <p>CARRETO, Carlos F. Clamote &ndash; &ldquo;A voz ou a plenitude do texto. Performance oral, pr&aacute;ticas de leitura e identidade liter&aacute;ria no Ocidente medieval&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm; 19 (Janeiro &ndash; Junho 2016). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA19/carreto1903.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA19/carreto1903.html</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data recep&ccedil;&atilde;o do artigo: 9 de Outubro de 2015</p>     <p>Data aceita&ccedil;&atilde;o do artigo: 6 de Novembro de 2015</p>     <p>&nbsp;</p> <b>NOTAS</b>     <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Este artigo retoma as reflex&otilde;es da confer&ecirc;ncia inaugural apresentada a 17 de abril de 2015 na Biblioteca Regional do Funchal no &acirc;mbito do <i>III&ordm; Encontro Liter&aacute;rio de Leitura em Voz Alta</i> organizado pela associa&ccedil;&atilde;o Contigo Teatro com o apoio da Dire&ccedil;&atilde;o Regional de Educa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Paris: Seuil, 1983. Sobre a dimens&atilde;o m&aacute;gica e oracular da voz na poesia oral da Idade M&eacute;dia, ver tamb&eacute;m BOUTET, D. &ndash; &ldquo;L&rsquo;oral et l&rsquo;ecrit dans la France m&eacute;di&eacute;vale&rdquo;. in F. LESTRINGANT; M. ZINK (dir.) &ndash; <i>Histoire de la France litt&eacute;raire. </i><i>Naissances, Renaissances: Moyen &Acirc;ge-XVIe si&egrave;cle.</i> Paris: PUF, 2006, pp. 193-212.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> Ed. e trad. de D. HUE. in <i>Chr&eacute;tien de Troyes. Romans</i>. Paris: Librairie G&eacute;n&eacute;rale Fran&ccedil;aise, 1994, p. 887.</p>     <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> Retomamos o t&iacute;tulo da j&aacute; cl&aacute;ssica, embora sempre pertinente, obra de ZUMTHOR, P. &ndash; <i>La Lettre et la voix. De la &laquo;litt&eacute;rature&raquo; m&eacute;di&eacute;vale</i>. Paris: Seuil, 1987.</p>     <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> Ed. bilingue (Latim/Franc&ecirc;s) de P. de Labriolle. Vol. 1. Paris: Les Belles Lettres, 1977.</p>     <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> CHARTIER, R &ndash; &ldquo;Communaut&eacute;s de lecteurs&rdquo;. in <i>Culture &eacute;crite et soci&eacute;t&eacute;. L&rsquo;ordre des livres (XIVe-XVIIIe si&egrave;cle)</i><i>. </i>Paris: Albin Michel, 1996, pp. 133-154. Para os aspetos metodol&oacute;gicos importante a ter em considera&ccedil;&atilde;o numa reflex&atilde;o sobre o fen&oacute;menos hist&oacute;rico e cultural da leitura, ver KRAUS, D. &ndash; &ldquo;Appropriation et pratiques de la lecture&rdquo;, <i>Labyrinthe</i> [Em linha]. 3&nbsp;(1999) [Consultado a 24 de mar&ccedil;o de 2015]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://labyrinthe.revues.org/56" target="_blank">http://labyrinthe.revues.org/56</a>.</p>     <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> &ldquo;<i>Littera occidit, spiritus autem vivificat</i>&rdquo;. Esta c&eacute;lebre advert&ecirc;ncia de S&atilde;o Paulo na sua Ep&iacute;stola aos Cor&iacute;ntios (2 Cor&iacute;ntios 3:5-6) foi amplamente glosada por Santo Agostinho (<i>De Doctrina Christiana</i>, III, VI-X) no intuito de legitimar a pr&aacute;tica exeg&eacute;tica como atividade (con)sagrada, uma vez que liberta o sentido aprisionado na letra e se afasta assim de uma postura considerada idolatra perante o significante textual. Muitos pr&oacute;logos de narrativas ficcionais dos s&eacute;culos XII-XIII exploram esta imagem da palavra como semente ou dom que o poeta tem por dever &eacute;tico e moral fazer frutificar. Veja-se, por exemplo, o pr&oacute;logo dos <i>Lais</i> de Marie de France ou o que inaugura o &uacute;ltimo romance de Chr&eacute;tien de Troyes &ndash; <i>Le Conte du Graal</i> &ndash; nos quais se vislumbra uma <i>translatio</i> da Par&aacute;bola dos Talentos (Mateus 25:14-30 e Lucas 19:17-27) em que o verbo po&eacute;tico se equipara sub-repticiamente ao Verbo divino. Sobre esta quest&atilde;o, vejam-se as nossas reflex&otilde;es em &lsquo;<i>Contez vous qui savez de nombre&rsquo;. </i><i>Imaginaire marchand et &eacute;conomie du r&eacute;cit au Moyen &Acirc;ge</i>. Paris: Champion, 2014, pp. 99-128.</p>     <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> RUDDER, O. de &ndash; &ldquo;Pour une histoire de la lecture&rdquo;. <i>M&eacute;di&eacute;vales. </i>3 (1983) p. 97-110; BEDOS-REZAK, B. M. e IOGNA-PRAT, D. &ndash; <i>L&rsquo;Individu au Moyen Age</i>. Paris: Aubier, 2005.</p>     <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> Sobre esta quest&atilde;o, ver tamb&eacute;m a obra cl&aacute;ssica de EISENSTEIN, E. &ndash; <i>The Printing Press as Agent of Change</i>. 2 vols. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.</p>     <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> Ver, neste sentido, os importantes trabalhos de reformula&ccedil;&atilde;o metodol&oacute;gica que H&eacute;l&egrave;ne HAUG tem vindo a desenvolver. Na sua tese de Doutoramento apresentada em 2013 &agrave; Universidade de Lovaina (<i>Fonctions et pratiques de la lecture &agrave; la fin du Moyen &Acirc;ge. </i><i>Approche sociolitt&eacute;raire du discours sur la lecture en milieu curial d'apr&egrave;s les sources narratives fran&ccedil;aises et bourguignonnes [1360-1480]</i>), considera a passagem da leitura oralizada &agrave; leitura silenciosa um aut&ecirc;ntico mito constru&iacute;do pela cr&iacute;tica com base em pressupostos ideol&oacute;gicos e metodol&oacute;gicos question&aacute;veis, propondo assim a sua substitui&ccedil;&atilde;o, numa perspetiva pragm&aacute;tica e funcional mais flex&iacute;vel e adequada para traduzir a complexidade inerente a cada contexto hist&oacute;rico e liter&aacute;rio, pelo bin&oacute;mio &ldquo;leitura para si&rdquo; <i>vs</i> &ldquo;leitura para o outro&rdquo;.</p>     <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> GOODY, J. &ndash; <i>The Power of the Written Tradition</i>. Washington/ Londres: Smithsonian Institution Press, 2000; MANGUEL, A. &ndash; <i>Une histoire de la lecture</i>. Paris: Actes du Sud, 1998. Para uma aplica&ccedil;&atilde;o &agrave; Idade M&eacute;dia, ver ONG, W. &ndash; <i>Orality and Literacy: The Technologizing of the World</i>. Londres/Nova York: Methuen, 1982; SAENGER, P. &ndash; &ldquo;Silent Reading: Its Impact one Late Medieval Script and Society&rdquo;. <i>Viator.</i> 13 (1982) pp. 367-414.</p>     <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> <i>Apud</i> A. PETRUCCI, A. &ndash; &ldquo;Lire au Moyen &Acirc;ge&rdquo;. in <i>M&eacute;lange de l&rsquo;&Eacute;cole fran&ccedil;aise de Rome</i>. T. 96. 2 (1984) p. 604.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> Num interessante artigo intitulado &ldquo;Pecados secretos&rdquo;, inicialmente publicado em 2000 no n&ordm; 5 da revista <i>Sigila. Revue transdisciplinaire franco-portugaise sur le secret</i> e recentemente reeditado na obra <i>Poderes invis&iacute;veis. O imagin&aacute;rio medieval</i> com o t&iacute;tulo &ldquo;Satan&aacute;s, o Acusador&rdquo; (pp. 241-265), Jos&eacute; Mattoso analisa longamente o que considera ser uma atitude mental bastante difundida face aos crimes <i>nefanda</i> e aos pecados ocultos em geral que consiste em dissimular ou manter na esfera estritamente privada delitos graves (como o incesto ou o infantic&iacute;dio) cuja divulga&ccedil;&atilde;o seria vista como particularmente amea&ccedil;adora para a ordem social. As fontes heterog&eacute;neas, tanto do ponto de vista genol&oacute;gico como pragm&aacute;tico (narrativas de cavalaria, <i>Cantigas de Santa Maria</i> de Afonso X, Milagres, Vidas de Santos, Livros de Confiss&atilde;o e Penitenciais, Serm&otilde;es e <i>exempla</i>), que Jos&eacute; Mattoso percorre d&atilde;o ainda conta da progressiva transforma&ccedil;&atilde;o cultural e ideol&oacute;gica que se opera a partir de meados do s&eacute;culo XII com a propaganda em torno da obrigatoriedade da confiss&atilde;o auricular. Come&ccedil;ando por se instituir como mediadora incontorn&aacute;vel entre o homem e Deus, o sil&ecirc;ncio e a palavra &ndash; cuja utiliza&ccedil;&atilde;o est&aacute;, de resto, sujeita a uma disciplina cada vez mais complexa e exigente), a institui&ccedil;&atilde;o eclesi&aacute;stica apropria-se da personagem amb&iacute;gua, embora extremamente eficaz, do diabo &ndash; esse grande delator de segredos que se projeta exemplarmente na paradoxal figura de Merlim na literatura arturiana &ndash; e adquire progressivamente o monop&oacute;lio sobre os pecados ocultos que transforma no &ldquo;mais poderoso instrumento de domina&ccedil;&atilde;o que jamais houve sobre a Terra&rdquo; (J. MATTOSO &ndash; &ldquo;Satan&aacute;s, o Acusador&rdquo;. in <i>Poderes invis&iacute;vel. O imagin&aacute;rio medieval</i>. Lisboa: C&iacute;rculo de Leitores, 2013, p. 261).</p>     <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup> &ldquo;Ung ange especial qui molt iert seignoris/ Qui par-dessus l&rsquo;aitel c&rsquo;est devant Gilles mis,/ Et lui tendi ung bref, et saint Gilles l&rsquo;a prins (...)./ Saint Gilles leut le bref et vit par les escrips/ Que Charles est pecherres et a Deu ennemis (...)./ Le preudons lest le bref, a Dieu servir c&rsquo;est mis&rdquo; (Ed. K. V. SINCLAIR. Assen: Van Gorcum &amp; Comp., 1971, v. 21661-21672). Poder-se-iam multiplicar os exemplos: na <i>Espinette amoureuse</i> (v. 694-701 da ed. A. FOURRIER. Paris: Klincksieck, 1972), o poeta e cronista Jean Froissard (s&eacute;culo XIV) descreve a emo&ccedil;&atilde;o que sentiu perante a vis&atilde;o de uma jovem que lia para si em voz baixa. Na <i>Chanson des Saisnes</i> de Jehan Bodel (s&eacute;culo XIII), vemos um capel&atilde;o ler silenciosamente para si uma missiva antes de partilhar o seu conte&uacute;do com o pr&iacute;ncipe Salom&atilde;o (v. 593-597 da ed. A. BRASSEUR. Genebra: Droz, 1989, t. 1). Numa outra can&ccedil;&atilde;o de gesta an&oacute;nima, <i>Renaut de Montauban </i>(finais do s&eacute;c. XIII), um emiss&aacute;rio entrega a Carlos Magno uma carta esperando que este lha devolva para a ler em voz alta. Mas eis que o imperador se apodera da missa e percorre o seu conte&uacute;do em sil&ecirc;ncio, o narrador descrevendo as express&otilde;es que aparecendo no seu rosto (v. 6227-6241 da ed. J. THOMAS. Genebra: Droz, 1989).</p>     <p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup> Ed. bilingue (Latim/Franc&ecirc;s) de H. ROCHAIS. Paris: Descl&eacute;e de Brouwer, 1997.</p>     <p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> Recordemos que ainda no s&eacute;culo XVII se estima que apenas um homem em tr&ecirc;s e uma mulher em cinco conseguem escrever o seu nome. Ver a excelente s&iacute;ntese de C. BIET sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre oralidade e escrita no per&iacute;odo cl&aacute;ssico (s&eacute;culos XVII-XVIII) &ndash; &ldquo;L&rsquo;oral et l&rsquo;&eacute;crit&rdquo;. in DARMON, J.-Ch.; DELON, M. &ndash; <i>Histoire de la France litt&eacute;raire. Classicismes&nbsp;: XVIIe-XVIIIe si&egrave;cle</i>. Paris: PUF, 2006, pp. 409-434.</p>     <p><sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></sup> Ver PETRUCCI, A. &ndash; &ldquo;Lire...&rdquo;, art. cit., p. 607.</p>     <p><sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></sup> Veja-se o pen&uacute;ltimo cap&iacute;tulo do famoso tratado de Hugo de S&atilde;o V&iacute;tor, o <i>Didascalicon </i>ou &ldquo;arte de ler&rdquo; (VI, 12), que apresenta as formas de ler do seguinte modo: &ldquo;Modus legendi in dividendo constat. Divisio fit et partitione et investigatione. Partiendo dividimus quando ea quae confusa sunt distinguimus. [809B] Investigando dividimus quando ea quae occulta sunt reseramus&rdquo; (<i>Hugonis de Sancto Victore Didascalicon de Studio Legendi</i>, ed. cr&iacute;tica de Ch. Henry BUTTIMER. Washington: The Catholic University Press, 1939). Trad. francesa com introdu&ccedil;&atilde;o e notas de M. LEMOINE. <i>L&rsquo;Art de lire. Didascalicon</i>. Paris: Cerf, 1991.</p>     <p><sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></sup> Ver as nossa reflex&otilde;es em &ldquo;Topique et utopie du livre au Moyen &Acirc;ge: le texte (im)possible&rdquo;. in MILON, A. e PERELMAN, M. (dir.) &ndash; <i>Le Livre et ses espaces</i>. Paris: Presses Universitaires de Paris 10, 2007, pp. 35-61.</p>     <p><sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></sup> Sobre estas quest&otilde;es, ver VANDENDORPE, C. &ndash; <i>Du papyrus &agrave; l'hypertexte. </i><i>Essai sur les mutations du texte et de la lecture</i><b>. </b>Paris: La D&eacute;couverte, 1999;&nbsp; HASENOHR, G. &ndash; &ldquo;Le livre manuscrit&rdquo;. in LESTRINGANT, M.; ZINK, M. (dir.) &ndash; <i>Histoire...</i><i>,</i> pp. 151-173.</p>     <p><sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></sup> Conceito retirado de B. STOCK - <i>The Implications of Literacy. Written Language and Models of Interpretation in the Eleventh and Twelfth Centuries</i>. Princeton: Princeton University, 1983, pp. 88-240.</p>     <p><sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></sup> PETRUCCI, A. &ndash; &ldquo;Lire...&rdquo;, art. cit., p. 613.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></sup> GREEN, D. H. &ndash; <i>Women Readers in the Middle Ages.</i> Cambridge: Cambridge University Press, 2007. Recorde-se a c&eacute;lebre passagem do <i>Inferno </i>de Dante (v. 127-138) em que Paolo e Francesca leem em conjunto um livro que conta o desafortunado amor de Lancelot e da rainha Gueni&egrave;vre.</p>     <p><sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></sup> Regressa-se assim, com frequ&ecirc;ncia, ao livro de morfologia mais reduzida, n&atilde;o raras vezes retangular, do qual desaparecem totalmente as abreviaturas bem como o aparato constitu&iacute;das pelas glosas e coment&aacute;rios da escol&aacute;stica, e no qual a min&uacute;scula carolina e a mai&uacute;scula de rom&acirc;nico v&ecirc;m substituir a letra g&oacute;tica (PETRUCCI, A. &ndash; &ldquo;Lire...&rdquo;, art. cit., pp. 613-615).</p>     <p><sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></sup> N&atilde;o podemos deixar de referir, neste contexto, um g&eacute;nero singular em plena expans&atilde;o em todo o Ocidente crist&atilde;o nos XIV e XV: os Livros de Horas. Adotando novas solu&ccedil;&otilde;es iconogr&aacute;ficas e ornamentais mais adequadas &agrave; express&atilde;o da devo&ccedil;&atilde;o privada dos leigos, os Livros de Horas espelham certamente novos h&aacute;bitos e novas sensibilidades face &agrave; leitura cuja an&aacute;lise sistem&aacute;tica e aprofundada, com as suas implica&ccedil;&otilde;es tanto do ponto vista da hist&oacute;ria do livro como das mentalidades, ainda est&aacute;, em grande parte, por fazer. Sejam eles lidos em sil&ecirc;ncio ou em voz baixa, em total solid&atilde;o ou na presen&ccedil;a de grupos restritos, emergem atrav&eacute;s dos Livros de Horas zonas claro-escuras de privacidade e de individualidade (muitas destas obras eram personalizadas em fun&ccedil;&atilde;o dos comendat&aacute;rios) onde ganha particular relevo a alian&ccedil;a entre a imagem e o texto e a forma&ccedil;&atilde;o de um imagin&aacute;rio feminino da leitura e do livro desenvolvido em torno do culto mariano. Esta fascinante quest&atilde;o deu ali&aacute;s lugar, em 2014, ao projeto conjunto (IEM, BNP, CEH e Departamento de Conserva&ccedil;&atilde;o e Restauro da Universidade Nova de Lisboa) <i>Livros de Horas. O imagin&aacute;rio da devo&ccedil;&atilde;o privada</i> que se materializou numa exposi&ccedil;&atilde;o na BNP de 14 de novembro a 15 de e num col&oacute;quio internacional (13 e 14 de fevereiro) onde a problem&aacute;tica do livro, da leitura e das suas representa&ccedil;&otilde;es foi amplamente discutida. Como afirma Ana LEMOS (&ldquo;O <i>Livro de Horas</i> de D. Duarte. Estado da arte, percurso e caracteriza&ccedil;&atilde;o de um manuscrito&rdquo;. in BARREIRA, C. e METELO DE SEIXAS, M. (dir.) &ndash; <i>D. Duarte e a sua &eacute;poca: arte, cultura, poder e espiritualidade</i>. Lisboa: FCSH/IEM, 2014, p. 211), o <i>Livro de Horas</i> de D. Duarte reflete exemplarmente, al&eacute;m de um &ldquo;fasc&iacute;nio pessoal&rdquo; da dinastia de Avis, uma &ldquo;consci&ecirc;ncia do livro como imagem da cultura e do poder no seio da corte portuguesa&rdquo;. Neste sentido, o Livro de Horas representa igualmente um espa&ccedil;o extremamente perme&aacute;vel de incessante comunica&ccedil;&atilde;o entre a esfera privada e a esfera pol&iacute;tica, participando ainda de um movimento mais amplo &ndash; no qual D. Duarte teve um papel preponderante &ndash; de valoriza&ccedil;&atilde;o do &ldquo;discurso visual associado a um modelo social e comportamental de transi&ccedil;&atilde;o entre a Idade M&eacute;dia e a Moderna&rdquo; (M. METELO DE SEIXAS e J. B. GALV&Atilde;O-TELLES &ndash; &ldquo;Elementos de uma cultura din&aacute;stica e visual: os sinais her&aacute;ldicos e emblem&aacute;ticos do rei D. Duarte&rdquo;. in BARREIRA, C. e METELO DE SEIXAS, M. (dir.) - <i>D. Duarte e a sua &eacute;poca, op. cit.</i>, p. 279).</p>     <p><sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></sup> Sobre esta quest&atilde;o, ver JANNERET, M. &ndash; &ldquo;La litt&eacute;rature et la voix: attraits et mirages de l&rsquo;oral au XVIe si&egrave;cle&rdquo;. in LESTRINGANT, F.; ZINK, M. (dir.) &ndash; <i>Histoire...</i>, pp. 212-233.</p>     <p><sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></sup> Texto com tradu&ccedil;&atilde;o em franc&ecirc;s moderno, pref&aacute;cio e notas de Guy DERMESON. Paris: Seuil, 1997.</p>     <p><sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></sup> Depreende-se destas considera&ccedil;&otilde;es que partilhamos inteiramente da conce&ccedil;&atilde;o periodol&oacute;gica do historiador Jacques Le Goff para quem a Idade M&eacute;dia est&aacute; longe de se esgotar com a viragem (ou pseudo-viragem) para o Renascimento (sobre esta quest&atilde;o, veja-se ao seu &uacute;ltimo ensaio: <i>Faut-il vraiment d&eacute;couper l&rsquo;histoire en tranches</i>. Paris: Seuil, 2014, pp. 137-186). As pr&aacute;ticas, reais e simb&oacute;licas, e os discursos sobre a leitura surgem assim como um indicador privilegiado de uma &ldquo;longa&rdquo; Idade M&eacute;dia que se prolonga at&eacute; ao s&eacute;culo XVIII ou mesmo, pelo menos em certos aspectos, at&eacute; aos dias de hoje.</p>     <p><sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></sup> <i>Apud</i> BIET, C. &ndash; &ldquo;L&rsquo;oral et l&rsquo;&eacute;crit&rdquo;, art. cit., p. 434.</p>     <p><sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></sup> <i>L&rsquo;Invention du quotidien</i>, 1. Paris: Gallimard, 1990, p. 24.</p>     <p><sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></sup> Esta complexa e fascinante quest&atilde;o do estatuto de literatura digital (ou projetada para ambientes virtuais) tem sido objeto de muitas investiga&ccedil;&otilde;es e publica&ccedil;&otilde;es. Para uma introdu&ccedil;&atilde;o, vejam-se as reflex&otilde;es de C. Vanderdorpe, nomeadamente sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre c&oacute;dex e hipertexto: <i>Du Papyrus &agrave; l&rsquo;hypertexte,</i> <i>op. cit.</i>, pp. 235-252.</p>     <p><sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></sup> Ver DERRIDA: &ldquo;L&rsquo;&eacute;criture est le moment du d&eacute;sert comme moment de la S&eacute;paration&rdquo; (<i>L&rsquo;&Eacute;criture et la Diff&eacute;rence</i>. Paris: Seuil, 1967, p. 104); &ldquo;&Eacute;crire, c&rsquo;est se retirer. Non pas dans sa tente pour &eacute;crire, mais dans son &eacute;criture m&ecirc;me. S&rsquo;&eacute;chouer loin de son langage, l&rsquo;&eacute;manciper ou le d&eacute;semparer, le laisser cheminer seul et d&eacute;muni&rdquo;, <i>Idem</i>, p. 106).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="33"></a><a href="#top33">33</a></sup> <i>Da interpreta&ccedil;&atilde;o</i>, 1, 16a 3, <i>apud</i> DERRIDA &ndash; <i>De la Grammatologie.</i> Paris: Les &Eacute;ditions de Minuit, 1967, p. 21. Nas suas reflex&otilde;es sobre a <i>Est&eacute;tica </i>(III, 1), Hegel inscreve-se assumidamente nesta tradi&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica na qual ecoa igualmente tanto Plat&atilde;o (nomeadamente no <i>Teeteto </i>e no <i>Fedro</i>) como Kant que considerava o di&aacute;logo vocal consigo mesmo como forma primeira do pensamento atrav&eacute;s da imagina&ccedil;&atilde;o criadora (<i>Antropologia de um ponto de vista pragm&aacute;tico</i> de 1798): &ldquo;[...] l&rsquo;oreille, au contraire, sans se tourner pratiquement vers les objets, per&ccedil;oit le resultat de ce tremblement int&eacute;reir du corps par lequel se manifeste et se r&eacute;v&egrave;le, non la figure mat&eacute;rielle, mais une premi&egrave;re id&eacute;alit&eacute; venant de l&rsquo;&acirc;me&rdquo;.</p>     <p><sup><a name="34"></a><a href="#top34">34</a></sup> DERRIDA, J. &ndash; <i>De la grammatologie, op. cit</i>., p. 24.</p>     <p><sup><a name="35"></a><a href="#top35">35</a></sup> Ver o recente ensaio de B. CL&Eacute;MENT &ndash; <i>La Voix verticale</i>. Paris: Belin, 2012.</p>     <p><sup><a name="36"></a><a href="#top36">36</a></sup> DURAND, G. &ndash; <i>Les Structures anthropologiques de l'Imaginaire: introduction &agrave; l'arch&eacute;typologie g&eacute;n&eacute;rale. </i>Paris: Dunod, 1992, pp. 62-63.</p>     <p><sup><a name="37"></a><a href="#top37">37</a></sup> Art. cit., p. 102 (sou eu quem traduzo).</p>     <p><sup><a name="38"></a><a href="#top38">38</a></sup> Ed. Bilingue (Latim/Espanhol) de S. RAMIREZ, t. II. Madrid: La Editorial Cat&oacute;lica, col. BAC, 1959.</p>     <p><sup><a name="39"></a><a href="#top39">39</a></sup> S&atilde;o Tom&aacute;s conclui ent&atilde;o o seu racioc&iacute;nio opondo, no seguimento das palavras de S&atilde;o Paulo aos Cor&iacute;ntios, a escrita a tinta &ndash; enquanto manifesta&ccedil;&atilde;o vis&iacute;vel e sens&iacute;vel da Lei divina &ndash; &agrave; voz de Cristo, enquanto manifesta&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito vivo: &ldquo;Porque j&aacute; &eacute; sabido que v&oacute;s s&oacute;is uma carta de Cristo escrita por n&oacute;s, e escrita, n&atilde;o com tinta, mas com o Esp&iacute;rito de Deus vivo, n&atilde;o em t&aacute;buas de pedra, mas em t&aacute;buas de carne, nos vossos cora&ccedil;&otilde;es&rdquo; (Cor&iacute;ntios, II, 3, 3).</p>     <p><sup><a name="40"></a><a href="#top40">40</a></sup> &ldquo;Voici l'histoire de la tr&egrave;s sainte coupe (<i>vessel</i>) qu'on nomme le Graal, dans laquelle fut recueilli le pr&eacute;cieux sang du Sauveur le jour o&ugrave; Il fut crucifi&eacute; pour racheter les hommes. C'est Jos&eacute;ph&eacute; qui en a &eacute;crit le r&eacute;cit, sous la dict&eacute; d'un ange, afin que par son t&eacute;moignage soit connue la v&eacute;rit&eacute; sur les chevaliers et les saints hommes qui accept&egrave;rent de souffrir peines et tourments pour glorifier la religion que J&eacute;sus-Christ a voulu instituer par Sa mort sur la Croix (<i>Branche</i> I, Pr&oacute;logo, 123: texto traduzido e apresentado por C. MARCHELLO-NIZIA. in R&Eacute;GNIER-BOHLER, D. &ndash;<i> La</i> <i>L&eacute;gende arthurienne. Le Graal et la Table Ronde</i>. Paris: Robert Laffont, 1989).</p>     <!-- ref --><p><sup><a name="41"></a><a href="#top41">41</a></sup> ROBERT DE BORON<i>, Merlin</i>, ed. A. Micha. Genebra: Droz, 1979.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1483899&pid=S1646-740X201600010000300025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></sup> Ed. Bilingue (Latim/Espanhol) de J. OROZ RETA e M. A. MARCOS CASQUERO. T. 1. Madrid: BAC, 1982.</p>     <p><sup><a name="43"></a><a href="#top43">43</a></sup> &Eacute; o que explica, num dos seus serm&otilde;es, Ces&aacute;rio de Heisterbach (citado por J. Th. Walter nas notas &agrave; sua edi&ccedil;&atilde;o da <i>Tabula exemplorum</i>, p. 134): &ldquo;Modo in ecclesia quidam raro orant, immo nec horas debito modo dicunt vel eas dimittentes vel quid dicunt non attendes vel dictones vel versus furantes vel sillabas syncopantes vel nugas facientes et Deo illudentes.&rdquo;</p>     <p><sup><a name="44"></a><a href="#top44">44</a></sup> &ldquo;Qu&rsquo;il &eacute;vite [o sacerdote] de prier avec une telle n&eacute;gligence qu&rsquo;il en vienne &agrave; se r&eacute;p&eacute;ter dans sa pri&egrave;re. Il n&rsquo;aura pas besoin de r&eacute;p&eacute;ter s&rsquo;il a pris soin de prof&eacute;rer les mots sans estropier la diction. Qu&rsquo;on ne s&rsquo;avise pas de d&eacute;rober au seigneur des syllabes, des expressions, voire des pri&egrave;res enti&egrave;res par une h&acirc;te excessive, &agrave; la mani&egrave;re de certains pr&ecirc;tres d&eacute;raisonnables qui, honorant le seigneur par leur l&egrave;vres, tournent sans respect leur c&oelig;urs vers des choses vaines et inutiles [...]. Voici ce que nous avons entendu rapporter par certains. Un jour notre ennemi, l&rsquo;accusateur des fr&egrave;res et le calomniateur du genre humain, apparut, comme quelqu&rsquo;un de lourdement charg&eacute;, &agrave; un pieux religieux dans les ch&oelig;urs des moines qui chantaient. Au fr&egrave;re qui l&rsquo;interrogeait sur ce qu&rsquo;il portait, qui semblait un sac plein pos&eacute; sur ses &eacute;paules, Satan r&eacute;pondit: &lsquo;Ce sont les syllabes escamot&eacute;es dans la psalmodie par ces moines, ainsi que les mots et les vers des psaumes qu&rsquo;ils ont, tels des voleurs, soustraits cette nuit au service de Dieu et dont ils rendront compte&rsquo;&rdquo; (Tradu&ccedil;&atilde;o de G. DUCHET-SUCHAUX, com introdu&ccedil;&atilde;o e notas de J. Long&egrave;re. Paris: les &Eacute;ditions du Cerf, 1997, p. 208).</p>     <p><sup><a name="45"></a><a href="#top45">45</a></sup> Ed. S. DE SACY. Paris: NRF-Gallimard, 1975.</p>     <p><sup><a name="46"></a><a href="#top46">46</a></sup> Paris: Garnier-Flammarion, 1961.</p>     <p><sup><a name="47"></a><a href="#top47">47</a></sup> Limitando-nos &agrave; esfera b&iacute;blica, vejam-se os exemplos de Mois&eacute;s (&Ecirc;xodo, 3), Jeremias (Jr. 20, 9) ou Am&oacute;s (Am. 3, 8).</p>     <p><sup><a name="48"></a><a href="#top48">48</a></sup> Vemos assim desenhar-se uma subtil nuan&ccedil;a entre transmiss&atilde;o oral e transmiss&atilde;o vocal da obra a partir de uma fonte &iacute;ntegra, Chr&eacute;tien de Troyes sendo um dos primeiros poetas a procurar exorcizar claramente, desde o seu primeiro romance, o espectro da tradi&ccedil;&atilde;o oral representada pelos jograis profissionais que deformam o conto: &ldquo;D'Erec, le fil Lac, est li contes,/ Que devant rois et devant contes/ Depecier et corrompre suelent/ Cil qui de conter vivre vuelent&rdquo; (v. 19-22 da ed. J.-M. FRITZ. in <i>Chr&eacute;tien de Troyes. Romans</i>, <i>op. cit.</i>, p. 61. Neste sentido, muitos ser&atilde;o os poetas que, na esteira de Calogrenant, ir&atilde;o insistir sobre a dimens&atilde;o inici&aacute;tica nas narrativas reveladas pela voz ou a escrita. Veja-se o exemplo do pr&oacute;logo de <i>La Manekine</i> de Philippe de Beaumanoir: &ldquo;Car biaus contes si est perdus,/ Quant il n&rsquo;est de cuer entendus,/ Me&iuml;smement a chiaus qui l&rsquo;o&euml;nt (v. 25-27 da ed. H. SUCHIER. in <i>&OElig;uvres compl&egrave;tes de Philippe de Beaumanoir.</i> Vol. I. Paris: Soci&eacute;t&eacute; des Anciens Textes Fran&ccedil;ais, 1984-85).</p>     <p><sup><a name="49"></a><a href="#top49">49</a></sup> Ver passagem citada em ep&iacute;grafe. Sobre este motivo, ver CERQUIGLINI-TOULET, J. &ndash; &ldquo;La sc&egrave;ne de la lecture dans l&rsquo;&oelig;uvre litt&eacute;raire au Moyen &Acirc;ge&rdquo;. in BOHLER, D. (dir.) &ndash; <i>Le Go&ucirc;t du lecteur &agrave; la fin du Moyen &Acirc;ge</i>. Paris: L&eacute;opard d&rsquo;Or, 11, 2006, p. 13-26. No final da Idade M&eacute;dia, continuam a multiplicar-se, nas obras liter&aacute;rias, as refer&ecirc;ncias expl&iacute;citas a uma leitura (p&uacute;blica ou mais intimista) para outrem: Guillaume de Machaut (<i>Le Livre du voir-dit</i> [1364], v. 721-726 da ed. P. IMBS. Paris: Librairie G&eacute;n&eacute;rale Fran&ccedil;aise, col. &ldquo;Lettres Gothiques&rdquo;, 1999); Christine de Pisan (<i>Livre de la mutacion de Fortune</i> [1400-1403], <i>Le Dit de la Rose </i>[1401], <i>Le D&eacute;bat des deux amants</i>, <i>Livre de l&rsquo;Advision de Christine</i>, <i>Livre des trois vertus</i>), etc.</p>     <p><sup><a name="50"></a><a href="#top50">50</a></sup> Sobre esta quest&atilde;o, ver os trabalhos pioneiros de Paul Zumthor.</p>     <p><sup><a name="51"></a><a href="#top51">51</a></sup> Ver CERQUIGLINI, B. &ndash; <i>&Eacute;loge de la variante. Histoire critique de la philologie</i>. Paris: Seuil, 1989.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="52"></a><a href="#top52">52</a></sup> Ver, por exemplo, os trabalhos de BOUTET<i>,</i> D<i>. </i>&ndash;<i> La Chanson de geste: forme et signification d'une &eacute;criture &eacute;pique du Moyen &Acirc;g</i>e. Paris: PUF, 1993; &ldquo;L&rsquo;oral et l&rsquo;&eacute;crit dans la France m&eacute;di&eacute;vale&rdquo;. in&nbsp;LESTRINGANT, F.; ZINK, M. &ndash; <i>Histoire de la France Litt&eacute;raire</i>, <i>op. cit.</i>, pp. 193-212.</p>     <p><sup><a name="53"></a><a href="#top53">53</a></sup> &ldquo;La voix, en effet, unit&nbsp;; seule l&rsquo;&eacute;criture distingue efficacement entre les termes de ce dont elle permet l&rsquo;analyse. Dans la chaleur des pr&eacute;sences simultan&eacute;es, en performance, la voix po&eacute;tique n&rsquo;a d&rsquo;autre fonction ni d&rsquo;autre pouvoir que d&rsquo;exalter cette communaut&eacute;, dans le consentement ou dans la r&eacute;sistance [...]. [&ldquo;Fiction&rdquo; et &ldquo;r&eacute;alit&eacute; historique&rdquo; proc&egrave;dent, tous ensemble, d&rsquo;une m&ecirc;me instance&nbsp;: la tradition m&eacute;morielle transmise, enrichie et incarn&eacute;e par la voix. D&rsquo;o&ugrave; le prestige du d&eacute;j&agrave;-dit, de l&rsquo;ancien. Tout temps est &eacute;pique&nbsp;: mesur&eacute; aux seuls mouvements collectifs des sensibilit&eacute;s et des corps, dans l&rsquo;harmonie de la performance. Tel fut, des si&egrave;cles durant, le trait fondamental d&rsquo;une culture [...]&rdquo; (ZUMTHOR, P. &ndash; <i>La Lettre et la voix</i>, <i>op. cit</i>., p. 159).</p>     <p><sup><a name="54"></a><a href="#top54">54</a></sup> Ed. S. DUPARC-QUIOC. Paris: Librairie Orientaliste Paul Geuthner, 1977.</p>     <p><sup><a name="55"></a><a href="#top55">55</a></sup> Vers&atilde;o do <i>ms</i> E I. Ed. D. McMillan. Aix-en-Provence: Universit&eacute; de Provence [<i>S&eacute;n&eacute;fiance, </i>39-40], 1997, pp. 470-482.</p>     <p><sup><a name="56"></a><a href="#top56">56</a></sup> Ed. Cl. R&Eacute;GNIER. Paris: Klincksieck, 1986.O caso de <i>Aiol</i> (s&eacute;culos XII-XIII) &eacute; igualmente interessante, na medida em que enra&iacute;za a narrativa atualizada pela voz num tempo m&iacute;tico que remonta, de forma ininterrupta, aos prim&oacute;rdios da Cria&ccedil;&atilde;o (Ad&atilde;o e Eva) e cuja integridade e mem&oacute;ria s&atilde;o amea&ccedil;ados pelos jograis, emblema da f&aacute;bula corruptora que se op&otilde;e &agrave; verdade da <i>hist&oacute;ria </i>&eacute;pica: &ldquo;Signor, or escout&eacute;s, que Dieus vos soit amis/ Li rois de sainte gloire qui en la crois fu mis,/ Qui le ciel et le tere et le mont establi/ Et Adan et Evain forma et benei!/ Canchon de fiere estoire plairoit vos a oir?/ Laissi&eacute;s le noise ester, si vos trai&eacute;s vers mi./ Cil novel jougleor en sont mal escarni:/ Por les fables qu'il dient ont tout mis en obli;/ La plus veraie estoire ont laisiet et guerpi:/ Je vos en dirai une qui bien fait a cierir./ A tesmoig en trairoie maint franc home gentil/ Et maint duc et maint conte et maint riche marchis./ N'est pas a droit joglere qui ne set ices dis,/ Ne doit devant haut home ne aler ne venir;/ Teus en quide savoir qui en set molt petit,/ Mais je vos en dirai qui de lonc l'ai apris&rdquo; (v. 1-16 da ed. J. NORMAND e G. RAYNAUD. Paris: Didot, Soci&eacute;t&eacute; des Anciens Textes Fran&ccedil;ais, 7, 1877).</p>     <p><sup><a name="57"></a><a href="#top57">57</a></sup> ZUMTHOR, P. &ndash; <i>La Lettre et la voix</i>, <i>op. cit</i>., pp. 18-19.</p>     <p><sup><a name="58"></a><a href="#top58">58</a></sup> Sobre o papel da leitura na composi&ccedil;&atilde;o da obra medieval e as suas implica&ccedil;&otilde;es na transforma&ccedil;&atilde;o da identidade autoral, vejam-se as considera&ccedil;&otilde;es de VAN HEMELRYCK, T. &ndash; &ldquo;Du <i>livre lu</i> au <i>livre &eacute;crit</i>. La lecture et la construction de l&rsquo;identit&eacute; auctoriale &agrave; la fin du Moyen &Acirc;ge&rdquo;. in HERMAND, X., RENARD, E.&nbsp;e VAN HOOREBEECK, C. (dir.) &ndash; <i>Lecteurs, lectures et groupes sociaux au Moyen</i> <i>&Acirc;ge</i>. Turnhout: Brepols, 2010, pp. 185-194.</p>     <p><sup><a name="59"></a><a href="#top59">59</a></sup> Sobre as no&ccedil;&otilde;es centrais de <i>F&aacute;bula</i>, <i>Historia </i>e <i>Argumento</i>, herdadas da ret&oacute;rica cl&aacute;ssica, vejam-se as defini&ccedil;&otilde;es de Isidoro de Sevilha (<i>Etimologias</i>, I 40-44).</p>     <p><sup><a name="60"></a><a href="#top60">60</a></sup> Com efeito, sob a m&aacute;scara paradoxal de uma sintaxe que sonha colmatar os hiatos e n&atilde;o-ditos da fic&ccedil;&atilde;o em verso, a narrativa em prosa do s&eacute;culo XIII vir&aacute; consumar definitivamente esta <i>translatio</i> do Livro para um espa&ccedil;o puramente autorreferencial da fic&ccedil;&atilde;o. Embora a escrita em prosa n&atilde;o substitua totalmente a est&eacute;tica do verso nem pretenda ter o monop&oacute;lio da verdade, &eacute; ineg&aacute;vel que nesta nova forma de representa&ccedil;&atilde;o (narrativiza&ccedil;&atilde;o) do mundo, a rima se associa cada vez mais &agrave; no&ccedil;&atilde;o de falsidade ou mentira, como se a ideologia vigente tendesse a ficar progressivamente surda &agrave; m&uacute;sica do universo que emana do verso. Esta n&atilde;o &eacute;, contudo, uma ideia nova. J&aacute; nas <i>Etimologias</i> Isidoro de Sevilha faz derivar <i>prosa </i>da express&atilde;o <i>pro(r)sum</i> que significa &ldquo;em linha reta&rdquo;, a prosa encarnando assim o ideal de retid&atilde;o gramatical (I, 38, &ldquo;De prosa&rdquo;). S&eacute;culos mais tarde, Brunetto Latini (<i>Li Livres dou tresor</i>, III, 10, 1-5) definir&aacute; a prosa como um discurso mais natural, mais fluente, e, por conseguinte, mais pr&oacute;ximo da linguagem comum e da oralidade (da&iacute; talvez o sucesso da prosa se dever tamb&eacute;m, possivelmente, &agrave; progressiva laiciza&ccedil;&atilde;o do saber e &agrave; emerg&ecirc;ncia de um p&uacute;blico mais heterog&eacute;neo e vasto &ndash; a pequena nobreza, a burguesia urbana e mercantil, por exemplo &ndash; com uma sensibilidade est&eacute;tica diferente). Nesta perspetiva, o verso s&oacute; podia, de facto, estar associado ao registo artificial, v&atilde;o, subversivo ou inst&aacute;vel da f&aacute;bula ou da transmiss&atilde;o puramente oral. Sobre esta problem&aacute;tica, ver GALDERISI, Cl. &ndash; &ldquo;Vers et prose au Moyen &Acirc;ge&rdquo;. in LESTRINGANT, F.; ZINK, M.(dir.) &ndash; <i>Histoire...</i>, pp. 745-766; S&eacute;guy, M. &ndash; <i>Les Romans du Graal ou le signe imagin&eacute;. </i>Paris: Champion, 2001.</p>     <p><sup><a name="61"></a><a href="#top61">61</a></sup> Ed. N. ANDRIEUX-REIX. Paris: Champion, 2003. Encontramos id&ecirc;ntica ret&oacute;rica da legitima&ccedil;&atilde;o da narrativa do dom&iacute;nio romanesco. Veja-se o famoso pr&oacute;logo de Chr&eacute;tien de Troyes ao seu segundo romance, <i>Clig&egrave;s</i>: &ldquo;Ici comence li romanz de Clig&eacute;s (...)./ Ceste estoire trovons escrite,/ Que conter vos vuel et retraire,/ En .I. des livres de l'aumaire/ Mon seignor saint Pere a Beauvez;/ De la fu cist contes estrez/ Dont cest romanz fist Crestiens./ Li livres est molt anciens/ Qui tesmoigne l'estoire a voire:/ Por ce fet ele meulz a croirre./ Par les livres que nos avons/ Les faiz des anciens savons/ Et dou siecle qui fu jadis./ Ce nos ont nostre livre apris/ Que Grece ot de chevalerie/ Le premier los et de clergie./ Puis vint chevalerie a Rome/ Et de la clergie la somme,/ Qui or est en France venue./ Dex doint qu'ele i soit retenue (...)&rdquo; (v. 1 e 18-36&nbsp;: Ed. &nbsp;Ch. M&Eacute;LA e O. COLLET. in <i>Chr&eacute;tien de Troyes. Romans</i>,<i> op. cit.</i>, p. 291).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="62"></a><a href="#top62">62</a></sup> Ed. A. Henry. Genebra: Droz, 1982.</p>     <p><sup><a name="63"></a><a href="#top63">63</a></sup> ZUMTHOR, P. &ndash; <i>La Lettre et la voix</i>, <i>op. cit., </i>p. 135.</p>     <p><sup><a name="64"></a><a href="#top64">64</a></sup> Como inicialmente relembr&aacute;vamos, recorde-se que &ldquo;Il n&rsquo;est qu&rsquo;un texte au Moyen &Acirc;ge. &Agrave; partir du XIe si&egrave;cle (...), <i>textus</i> d&eacute;signe de plus en plus exclusivement le <i>codex Evangiliorum</i>: <i>tiste</i>, en fran&ccedil;ais, attest&eacute; vers 1120, puis refait en <i>texte</i> (c&rsquo;est un mot savant), signifie &ldquo;livre d&rsquo;&eacute;vangile&rdquo;. Ce texte, c&rsquo;est la Bible, parole de Dieu, immuable, que l&rsquo;on peut certes gloser mais non pas r&eacute;crire. &Eacute;nonc&eacute; stable et fini, structure close: <i>textus </i>(participe pass&eacute; de <i>textere</i>) est ce qui a &eacute;t&eacute; tiss&eacute;, tress&eacute;, entrelac&eacute;, construit; c&rsquo;est une trame. Forme accomplie du verbe tisser, <i>textus</i> poss&egrave;de une connotation de fixit&eacute;, de compl&eacute;tude structurelle &agrave; laquelle la pens&eacute;e textuaire donnera une pleine vigueur s&eacute;mantique, c&rsquo;est &agrave; dire d&eacute;notative. L&rsquo;&eacute;criture m&eacute;di&eacute;vale en revanche est une reprise; elle raboute, tisse &agrave; nouveau et perp&eacute;tuellement des &oelig;uvres, <i>&oelig;uvre</i> sans cesse (...)&rdquo; (CERQUIGLINI, B. &ndash; <i>&Eacute;loge de la variante</i>,<i> op. cit.</i>, p. 59). No final da <i>Divina Com&eacute;dia</i>, tamb&eacute;m Dante op&otilde;e as imagens de um mundo terreno fragmentado e de uma palavra po&eacute;tica igualmente imperfeita e balbuciante &agrave; figura transcendental do Livro do Universo encadernado pelo Amor divino e abrigando a totalidade do Sentido: &ldquo;Nel suo profondo vidi che s&rsquo;interna,/ legato con amore in un volume,/ ci&ograve; che per l&rsquo;universo si/ quaderna:/ sustanze e accidenti e lor costume/ quasi conflati insieme, per tal modo/ che ci&ograve; ch&rsquo;i dico &egrave; un semplice lume&rdquo; (<i>Paradiso</i>, XXXIII, v. 85-90 da ed. bilingue de V. GRA&Ccedil;A MOURA. Lisboa: Bertrand, 1995).</p>     <p><sup><a name="65"></a><a href="#top65">65</a></sup> Sobre esta quest&atilde;o, ver os acutilantes argumentos de SCHAEFFER, J.- M. &ndash; <i>Petite &eacute;cologie des &eacute;tudes litt&eacute;raires. Pourquoi et comment &eacute;tudier la litt&eacute;rature?</i> Vincennes: &Eacute;ditions Thierry Marchaisse, 2011, pp. 83-103.</p>     <p><sup><a name="66"></a><a href="#top66">66</a></sup> Esta distin&ccedil;&atilde;o funcional &ndash; ou pragm&aacute;tica &ndash; entre a leitura para si como forma de apreender o sentido e a leitura comunicativa para outrem, j&aacute; se encontrava, de resto, claramente formulada por Hugo se S&atilde;o V&iacute;tor no seu <i>Didascalicon</i> (III, 7): &ldquo;Lectio est, cum ex his quae scripta sunt, regulis et praeceptis informamur. Trimodum est lectionis genus: docentis, discentis, vel per se inspicientis. Dicimus enim &lsquo;lego librum illi,&rsquo; et &lsquo;lego librum ab illo,&rsquo; et &lsquo;lego librum.&rsquo; in lectione maxime consideranda sunt ordo et modus.&rdquo;.</p>     <p><sup><a name="67"></a><a href="#top67">67</a></sup> RIC&OElig;UR, P. &ndash; <i>Soi-m&ecirc;me comme un Autre</i>. Paris: Seuil, 1990.</p>     <p><sup><a name="68"></a><a href="#top68">68</a></sup> Ideia longamente explorada por B. Cl&eacute;ment em <i>La Voix vertical</i>.</p>     <p><sup><a name="69"></a><a href="#top69">69</a></sup> &ldquo;Le Pillot feist responce: &lsquo;Seigneur, de rien ne vous effrayer. Icy est le confin de la mer glaciale, sus laquelle feut, au commencement de l'hyver dernier pass&eacute;, grosse et felonne bataille, entre les Arispamiens et les Nephelibates. Lors gelerent en l'air les parolles et crys des homes et femmes, les chaplis des masses, les hurtys des harnois, des bardes, les hannissements des chevaulx et tout aultre effroy de combat. A ceste heure la rigueur de l'hyver pass&eacute;e, advenente le serenit&eacute; et temperie du bon temps, elles fondent et sont ouyes&rsquo;&rdquo; (<i>Le Quart Livre des Faicts et Dicts Hero&iuml;ques du Bon Pantagruel</i>, LVI, p. 206.<i> in </i>JOURDA, P. (ed.) &ndash; <i>&OElig;uvres Compl&egrave;tes. </i>T.II. Paris: Garnier Fr&egrave;res, 1962, p. 206).</p>     <p><sup><a name="70"></a><a href="#top70">70</a></sup> <i>La Lettre et la voix</i>,<i> op. cit</i>., p. 21.</p>     <p><sup><a name="71"></a><a href="#top71">71</a></sup> Sobre a indissoci&aacute;vel rela&ccedil;&atilde;o entre espa&ccedil;o e constru&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria, ver YATES, F. &ndash; <i>The Art of Memory. </i>Chicago: University of Chicago Press, 1966, bem como os conhecidos trabalhos de CARRUTHERS, M. &ndash; <i>The Book of Memory: A Study of Memory in Medieval Culture. </i>Nova Iorque: Cambridge University Press, 1990.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="72"></a><a href="#top72">72</a></sup> Penso aqui naturalmente nas reflex&otilde;es do fil&oacute;sofo E. L&eacute;vinas no di&aacute;logo <i>&Eacute;tica e Infinito</i> publicado em 1982 (Trad. portuguesa de J. Gama. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70, 1988, pp. 75-93).</p>     <p><sup><a name="73"></a><a href="#top73">73</a></sup> N&ordm; 1149 de 12 de mar&ccedil;o de 2015, p. 11.</p>      ]]></body><back>
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