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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[BEIRANTE, Maria Ângela - Ao serviço da República e do Bem Comum: os Vinte e Quatro dos Mesteres de Évora, paradigma dos Vinte e Quatro da Covilhã (1535): Lisboa: Centro de Estudos Históricos, 2014 (140 pp.)]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENS&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Recens&atilde;o: BEIRANTE, Maria &Acirc;ngela &ndash; <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum: os Vinte e Quatro dos Mesteres de &Eacute;vora, paradigma dos Vinte e Quatro da Covilh&atilde; (1535)</i>. Lisboa: Centro de Estudos Hist&oacute;ricos, 2014 (140 pp.)</b></font></p>     <p><b>Ant&oacute;nio Martins Costa<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup>Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Centro de Hist&oacute;ria, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Centro de Hist&oacute;ria da Sociedade e da Cultura, 1600-214 Lisboa, Portugal.<i> E-mail</i>: <a href="mailto:antonio_martinscosta@hotmail.com">antonio_martinscosta@hotmail.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>O presente trabalho corresponde a uma recens&atilde;o cr&iacute;tica da obra intitulada <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum: os Vinte e Quatro dos Mesteres de &Eacute;vora, paradigma dos Vinte e Quatro da Covilh&atilde; (1535)</i><a name="top1"></a><sup><a href="#1">1</a></sup>, dada &agrave; estampa em 2014, com a chancela editorial do Centro de Estudos Hist&oacute;ricos da Faculdade de Ci&ecirc;ncia Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A obra constitui um interessante estudo da medievalista Maria &Acirc;ngela Beirante acerca das corpora&ccedil;&otilde;es de mesteres em contexto urbano, dando sequ&ecirc;ncia a outros trabalhos da autora sobre a hist&oacute;ria das cidades, nos quais vem abordando a organiza&ccedil;&atilde;o socioecon&oacute;mica, religiosa e pol&iacute;tico-institucional<a name="top2"></a><sup><a href="#2">2</a></sup>.</p>     <p>Esbo&ccedil;ando um breve enquadramento historiogr&aacute;fico sobre o estudo das corpora&ccedil;&otilde;es de of&iacute;cios, constatamos facilmente como se trata de um tema que foi votado a um enorme desinteresse durante o s&eacute;culo XIX e boa parte do XX, em grande medida devido a preconceitos ideol&oacute;gicos e pol&iacute;ticos: numa primeira fase, para os seguidores do liberalismo econ&oacute;mico, que triunfou na Europa de Oitocentos, o modelo corporativo, associado ao Antigo Regime, era um alvo a abater; mais tarde, a partir da d&eacute;cada de 1930, com o advento de regimes totalit&aacute;rios que defendiam um certo corporativismo social, a mat&eacute;ria, pela sua conota&ccedil;&atilde;o, tornou-se igualmente indesejada. Por&eacute;m, a partir da d&eacute;cada de 1960, como sugeriu Maria Helena da Cruz Coelho<a name="top3"></a><sup><a href="#3">3</a></sup>, a historiografia assumiu uma nova postura com o impulso da<i> Nouvelle Histoire</i>, desde logo pela renova&ccedil;&atilde;o dos estudos de hist&oacute;ria econ&oacute;mica, que se debru&ccedil;aram sobre a produ&ccedil;&atilde;o de bens, assim como da hist&oacute;ria social, que deitaram um novo olhar sobre os seus produtores que, pelo menos desde o s&eacute;culo XIII, viviam nas cidades agrupados em associa&ccedil;&otilde;es profissionais. Nessa sequ&ecirc;ncia, o principal contributo foi-lhe prestado pelos estudos de hist&oacute;ria urbana, uma vez que foi com o desvendar deste mundo que se trouxe &agrave; luz do dia o valor da produ&ccedil;&atilde;o industrial e a import&acirc;ncia dos mesteres na vida das cidades medievais. O tema da organiza&ccedil;&atilde;o do trabalho e dos trabalhadores foi progressivamente adquirindo autonomia, tornando-se uma das mat&eacute;rias fracturantes da investiga&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica a partir da d&eacute;cada de 1980 e, sobretudo, de 1990<a name="top4"></a><sup><a href="#4">4</a></sup>.</p>     <p>A historiografia portuguesa acompanhou, <i>grosso modo</i>, estas tend&ecirc;ncias universais. Por meados do s&eacute;culo XX quase s&oacute; se contavam os estudos dos mesteres, de natureza institucional, de Lisboa, Porto e Coimbra, respectivamente da autoria de Marcelo Caetano<a name="top5"></a><sup><a href="#5">5</a></sup>, Torquato de Sousa Soares<a name="top6"></a><sup><a href="#6">6</a></sup> e J. M. Teixeira de Carvalho<a name="top7"></a><sup><a href="#7">7</a></sup>. Nos anos de 1960, a recupera&ccedil;&atilde;o do tema dos mesteirais pela hist&oacute;ria econ&oacute;mica e social deixou a sua marca atrav&eacute;s de Ant&oacute;nio Henrique de Oliveira Marques, na sua inovadora obra <i>A Sociedade Medieval Portuguesa: aspectos da vida quotidiana</i><a name="top8"></a><sup><a href="#8">8</a></sup>, assim como nos seus artigos &quot;Mesteirais&quot; e &quot;Ind&uacute;stria na Idade M&eacute;dia&quot;, no <i>Dicion&aacute;rio de Hist&oacute;ria de Portugal</i>, onde Jorge Borges de Macedo escreveu a entrada, de igual valor, &quot;Ind&uacute;stria na Idade Moderna&quot;<a name="top9"></a><sup><a href="#9">9</a></sup>. No final da d&eacute;cada seguinte, em 1978, destacou-se o trabalho de Maria Jos&eacute; Ferro Tavares que ousou perspectivar a import&acirc;ncia dos mesteirais no contexto da crise de 1383<a name="top10"></a><sup><a href="#10">10</a></sup>. Apesar da publica&ccedil;&atilde;o nos anos 80 de v&aacute;rias hist&oacute;rias gerais que consagraram algumas p&aacute;ginas aos homens dos mesteres, conforme se verificou tamb&eacute;m com o advento de estudos sobre algumas urbes<a name="top11"></a><sup><a href="#11">11</a></sup>, foi preciso esperar pela d&eacute;cada seguinte para lograr contributos significativos. De facto, nos anos de 1990 evidenciaram-se diferentes trabalhos que vieram fazer luz sobre os of&iacute;cios medievais, como os de Maria Helena da Cruz Coelho<a name="top12"></a><sup><a href="#12">12</a></sup>, em rela&ccedil;&atilde;o ao trabalho nas urbes, de Ana Maria Rodrigues<a name="top13"></a><sup><a href="#13">13</a></sup> e Saul Ant&oacute;nio Gomes<a name="top14"></a><sup><a href="#14">14</a></sup>, acerca do artesanato, e de Lu&iacute;s Miguel Duarte<a name="top15"></a><sup><a href="#15">15</a></sup>, em redor da actividade mineira. Parecem essas sementes ter frutificado no in&iacute;cio do novo mil&eacute;nio com o interesse pelo estudo da produ&ccedil;&atilde;o industrial e da organiza&ccedil;&atilde;o dos mesteres, conforme mostram os trabalhos de Lu&iacute;s Miguel Duarte, Maria da Concei&ccedil;&atilde;o Falc&atilde;o Ferreira<a name="top16"></a><sup><a href="#16">16</a></sup> e Am&eacute;lia Pol&oacute;nia<a name="top17"></a><sup><a href="#17">17</a></sup>. Nessa esteira, s&atilde;o sintom&aacute;ticos os reflexos ao n&iacute;vel das teses acad&eacute;micas, como mostram os recentes trabalhos de doutoramento de Arnaldo de Sousa, intitulado <i>Trabalho e Produ&ccedil;&atilde;o em Portugal na Idade M&eacute;dia: o Porto, c. 1320 &ndash; c. 1415</i><a name="top18"></a><sup><a href="#18">18</a></sup> (apresentado &agrave; Universidade do Minho em 2009), e o de Joana Sequeira, designado <i>Produ&ccedil;&atilde;o T&ecirc;xtil em Portugal nos finais da Idade M&eacute;dia</i><a name="top19"></a><sup><a href="#19">19</a></sup>(defendido na Universidade do Porto em 2012)<i>.</i> Os mesteirais parecem, definitivamente, ganhar espa&ccedil;o na investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica nacional.</p>     <p>&Eacute; perante este quadro historiogr&aacute;fico que Maria &Acirc;ngela Beirante se prop&otilde;e acrescentar conhecimento com a obra <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum: os Vinte e Quatro dos Mesteres de &Eacute;vora, paradigma dos Vinte e Quatro da Covilh&atilde; (1535)</i>. Como a autora refere na introdu&ccedil;&atilde;o, o livro surgiu na sequ&ecirc;ncia da descoberta (inesperada), na Torre do Tombo, de um conjunto documental apenso a um caderno de cap&iacute;tulos especiais da Covilh&atilde;, relativo &agrave;s Cortes de D. Jo&atilde;o IV de 1645-1646<a name="top20"></a><sup><a href="#20">20</a></sup>. Trata-se do regimento dos Vinte e Quatro dos Mesteres da vila da Covilh&atilde;, que data de 1535, correspondente a uma reprodu&ccedil;&atilde;o dos Vinte e Quatro dos Mesteres da cidade de &Eacute;vora, de meados da cent&uacute;ria anterior. &Eacute; em grande medida em torno desta documenta&ccedil;&atilde;o, que comporta um conjunto de diplomas atestando os privil&eacute;gios alcan&ccedil;ados pelos homens dos of&iacute;cios covilhanenses, acompanhados por v&aacute;rios autos de elei&ccedil;&atilde;o, que a autora assume como objectivo da obra uma dupla abordagem das associa&ccedil;&otilde;es profissionais de &Eacute;vora e da Covilh&atilde; nos s&eacute;culos XV e XVI: por um lado, uma observa&ccedil;&atilde;o de car&aacute;cter institucional, permitindo descortinar a import&acirc;ncia pol&iacute;tica alcan&ccedil;ada por aquelas organiza&ccedil;&otilde;es; por outro lado, tendo em conta as suas similitudes e diferen&ccedil;as, compreender o papel econ&oacute;mico-social que desempenharam nas respectivas urbes<a name="top21"></a><sup><a href="#21">21</a></sup>.</p>     <p>Para a persecu&ccedil;&atilde;o daqueles prop&oacute;sitos, Maria &Acirc;ngela Beirante estruturou o seu livro de 140 p&aacute;ginas, a par da introdu&ccedil;&atilde;o e da conclus&atilde;o, em tr&ecirc;s cap&iacute;tulos, seguidos de uma extensa bibliografia e de um valioso ap&ecirc;ndice documental, onde se encontra transcrito o vasto conjunto documental recentemente encontrado do regimento dos Vinte e Quatro. A organiza&ccedil;&atilde;o das partes do livro pressup&otilde;e, desde logo, uma sequ&ecirc;ncia l&oacute;gica, que nos apresenta antes a realidade das duas urbes para, depois, tratar o regimento: no primeiro cap&iacute;tulo, intitulado &quot;Os mesteres de &Eacute;vora na Idade M&eacute;dia&quot;<a name="top22"></a><sup><a href="#22">22</a></sup>, a autora sugere uma observa&ccedil;&atilde;o dos trabalhos dos mesteirais eborenses, cujo envolvimento na estrutura institucional do concelho nos finais da medievalidade serviria de modelo aos mesteres da Covilh&atilde;; no segundo cap&iacute;tulo, designado &quot;A Covilh&atilde; medieval, uma entidade urbana em ascens&atilde;o&quot;<a name="top23"></a><sup><a href="#23">23</a></sup>, prop&otilde;e-se o acompanhamento da evolu&ccedil;&atilde;o da vila beir&atilde; desde a <i>Reconquista</i> prestando especial aten&ccedil;&atilde;o aos mesteres que a caracterizavam para, ao tempo do infante D. Lu&iacute;s, se compreender a outorga do regimento dos Vinte e Quatro; no terceiro e &uacute;ltimo cap&iacute;tulo, &quot;O Regimento dos Vinte e Quatro dos mesteres de &Eacute;vora e a sua adop&ccedil;&atilde;o pelos mesteres da Covilh&atilde;&quot;<a name="top24"></a><sup><a href="#24">24</a></sup>, Maria &Acirc;ngela Beirante sugere um olhar sobre a fonte in&eacute;dita, acompanhando numa primeira fase a conquista precoce de direitos por parte dos mesteirais eborenses para, posteriormente, gizar um quadro socioecon&oacute;mico dos mesteirais da Covilh&atilde; que com o seu empenho e o patroc&iacute;nio do infante alcan&ccedil;aram em 1535, nas palavras da autora, um &quot;estatuto de maioridade&quot;<a name="top25"></a><sup><a href="#25">25</a></sup>. Fa&ccedil;amos uma an&aacute;lise, ainda que de forma breve, aos resultados do trabalho por cap&iacute;tulos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No primeiro cap&iacute;tulo, a autora convida-nos a recuar &agrave; cidade eborense dos finais da Idade M&eacute;dia tomando por fontes, com balizas entre os meados do s&eacute;culo XIII e os finais de Quatrocentos, milhares de documentos, essencialmente oriundos das chancelarias r&eacute;gias ou do arquivo municipal daquela urbe<a name="top26"></a><sup><a href="#26">26</a></sup>. Maria &Acirc;ngela Beirante come&ccedil;a por identificar aqueles que, &agrave; luz da mentalidade medieva, estavam destinados a executar o trabalho bra&ccedil;al, por oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; oligarquia urbana, conseguindo assim categorizar quase 3.000 homens por sectores de actividade, com os seus c&aacute;lculos a sugerirem desde logo um claro predom&iacute;nio do ramo secund&aacute;rio (70,4 %) sobre o prim&aacute;rio (14,8 %) e o terci&aacute;rio (14,8%). Procurando-se conhecer esta grande parcela de mesteirais, classificaram-se mais de 2.000 por profiss&otilde;es, permitindo desvendar com base nas refer&ecirc;ncias directas dos documentos e nas marcas da topon&iacute;mia a expressividade: por um lado, dos seus ramos de of&iacute;cios, destacando-se a &aacute;rea transformadora do couro<a name="top27"></a><sup><a href="#27">27</a></sup>; por outro lado, dos respectivos credos (crist&atilde;os, judeus e mouros), a partir dos quais, pese a supremacia dos seguidores de Cristo<a name="top28"></a><sup><a href="#28">28</a></sup>, se conseguem estabelecer culturalmente rela&ccedil;&otilde;es das minorias com determinados mesteres. A caracteriza&ccedil;&atilde;o dos homens dos of&iacute;cios de &Eacute;vora &eacute; ainda completada com o estudo do regimento tardo-medieval das prociss&otilde;es daquela urbe. Conforme nos &eacute; mostrado, aquele regimento espelha, pela ordem do cortejo, a forma como a sociedade se via a si mesma, com os mesteirais, abaixo da oligarquia citadina, a ocuparem hierarquicamente os lugares segundo crit&eacute;rios de especializa&ccedil;&atilde;o e compet&ecirc;ncia t&eacute;cnica, clientela mais ou menos restrita, valor da mat&eacute;ria-prima trabalhada ou oferta de m&atilde;o-de-obra<a name="top29"></a><sup><a href="#29">29</a></sup>.</p>     <p>Foi justamente perante uma elite urbana de oficiais, paladina da garantia do abastecimento da urbe, em prol de uma ideia de bem comum, que os mesteirais viram as suas actividades objecto de controlo e regula&ccedil;&atilde;o: primeiro, pelos almotac&eacute;s, j&aacute; datados do s&eacute;culo XIII; depois, pela magistratura dos vereadores, ali institu&iacute;da durante o governo de D. Pedro I; por fim, a partir do reinado seguinte, juntar-se-iam os vereadores, num claro processo de complexifica&ccedil;&atilde;o administrativa local<a name="top30"></a><sup><a href="#30">30</a></sup>. Maria &Acirc;ngela Beirante defende que esta tend&ecirc;ncia &quot;aristocratizante&quot; do governo da urbe, com cada vez mais olhos postos na vigil&acirc;ncia dos mesteirais, conduziu &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de completos regulamentos que enquadravam o funcionamento das suas actividades. Por&eacute;m, como demonstra a autora, os mesteres mais estruturados conseguiam, ainda que bastante condicionados pela oligarquia, ir tomando parte na elabora&ccedil;&atilde;o desses diplomas atrav&eacute;s dos seus vedores ou simples procuradores junto do poder municipal, sinal das suas aspira&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. S&atilde;o disso exemplo as chamadas Antigas Posturas, de finais do s&eacute;culo XIV, e o Regimento da Cidade, das primeiras d&eacute;cadas de Quatrocentos, cujos &iacute;ndices versam em boa medida sobre sobre o controlo de qualidade e o tabelamento de pre&ccedil;os e sal&aacute;rios dos mesteirais que, como nos &eacute; dado a conhecer, alcan&ccedil;am sectores t&atilde;o distintos como: couros, alimenta&ccedil;&atilde;o, metais, t&ecirc;xteis, vestu&aacute;rio, constru&ccedil;&atilde;o, barro, espartaria e cestaria, cera e sebo e &aacute;gua e combust&iacute;veis<a name="top31"></a><sup><a href="#31">31</a></sup>.</p>     <p>J&aacute; no segundo cap&iacute;tulo do livro somos transportados para a Covilh&atilde; medieval, acerca da qual Maria &Acirc;ngela Beirante come&ccedil;a por tra&ccedil;ar, com recurso a m&uacute;ltiplos documentos e estudos conhecidos, um interessante enquadramento hist&oacute;rico com in&iacute;cio no per&iacute;odo da <i>Reconquista</i>, no s&eacute;culo XII. A autora estabelece desde cedo um paralelismo com a cidade de &Eacute;vora, cujo foral servira de modelo ao primeiro da vila beir&atilde;, outorgado por D. Sancho I em 1186, tendo em conta uma id&ecirc;ntica realidade econ&oacute;mico-social, ent&atilde;o relacionada com a transum&acirc;ncia. Dotada de um vasto termo, e animada em boa parte pelo com&eacute;rcio fronteiri&ccedil;o praticado nas suas feiras, a Covilh&atilde; &eacute;-nos apresentada como uma comunidade em franca consolida&ccedil;&atilde;o at&eacute; aos finais da Idade M&eacute;dia, evolu&ccedil;&atilde;o essa corroborada pelos estudos acerca das suas estruturas defensivas e religiosas, al&eacute;m das investiga&ccedil;&otilde;es de natureza institucional. Mas, como explica Maria &Acirc;ngela Beirante, a notoriedade alcan&ccedil;ada no s&eacute;culo XV pela vila beir&atilde; &ndash; onde a coroa, a avaliar pelas inquiri&ccedil;&otilde;es de 1395, era grande propriet&aacute;ria &ndash; fez com que se tornasse objecto de sucessivas doa&ccedil;&otilde;es a grandes casas senhoriais, determinando o seu futuro: ap&oacute;s a conquista de Ceuta de 1415, a Covilh&atilde; passou a integrar o senhorio do infante D. Henrique, prosseguindo junto da casa de Viseu at&eacute; &agrave; decapita&ccedil;&atilde;o do duque D. Diogo, em 1483, transitando para o patrim&oacute;nio de D. Manuel, ainda duque de Beja<a name="top32"></a><sup><a href="#32">32</a></sup>.</p>     <p>Todo este processo de consolida&ccedil;&atilde;o da vila beir&atilde; baixo-medieval, nas palavras da autora, teve como &quot;motor&quot; os mesteirais<a name="top33"></a><sup><a href="#33">33</a></sup>. Apesar da escassez de fontes, foi poss&iacute;vel obter relativamente ao per&iacute;odo balizado entre os s&eacute;culos XIII e XV &ndash; uma vez mais, com base quer nas refer&ecirc;ncias directas da documenta&ccedil;&atilde;o, quer nos ind&iacute;cios dos top&oacute;nimos &ndash; uma pequena amostragem de quase tr&ecirc;s dezenas de homens dos mesteres, a qual nos sugere um predom&iacute;nio dos profissionais das peles e do couro (com oito mesteirais identificados, decerto relacionados com a economia ganadeira e pastoril da geografia serrana), seguidos pelos mercadores (seis), pelos mesteirais da alimenta&ccedil;&atilde;o (seis) e, por fim, pelos trabalhadores dos metais (tr&ecirc;s) e do barro (tr&ecirc;s)<a name="top34"></a><sup><a href="#34">34</a></sup>. Seria, por&eacute;m, entre os finais de Quatrocentos e as primeiras d&eacute;cadas da cent&uacute;ria seguinte que a Covilh&atilde; acusaria uma expans&atilde;o social e econ&oacute;mico vertiginosa, conforme atesta a autora ao estabelecer nexos entre a inquiri&ccedil;&atilde;o de D. Manuel I de 1496, o foral manuelino de 1510 e o numeramento de D. Jo&atilde;o III de 1527. Na mira dos indicadores fiscais e demogr&aacute;ficos daquelas fontes somos levados a constatar dados impressionantes como, por exemplo, os 223 256 reais recolhidos ao n&iacute;vel dos direitos r&eacute;gios naquela vila nos finais do s&eacute;culo XV, colocando-a no segundo lugar de toda a Beira, &agrave; frente da Guarda e de Castelo Branco; ou os 3.500 habitantes urbanos e os 12.964 moradores rurais que residiam no concelho no in&iacute;cio do segundo quartel de Quinhentos, fruto de um crescimento populacional de 71 % em trinta e um anos, que convertia a Covilh&atilde; no munic&iacute;pio no mais povoado de toda a comarca<a name="top35"></a><sup><a href="#35">35</a></sup>.</p>     <p>Esta extraordin&aacute;ria expans&atilde;o nos alvores da modernidade deveu-se em boa medida, segundo este estudo, ao crescimento da j&aacute; importante comunidade judaica local, num primeiro momento, ap&oacute;s a expuls&atilde;o castelhana de 1492, acabando os seus membros por se baptizarem e adoptarem nomes crist&atilde;os na Covilh&atilde;, na sequ&ecirc;ncia da convers&atilde;o for&ccedil;ada das minorias em Portugal em 1497. &Agrave; situa&ccedil;&atilde;o fronteiri&ccedil;a, a vila aliava condi&ccedil;&otilde;es comerciais atractivas como a organiza&ccedil;&atilde;o de conhecidas feiras e a isen&ccedil;&atilde;o de portagens para os seus moradores por todo o reino, o que, na interpreta&ccedil;&atilde;o da autora, decerto ter&aacute; convencido os judeus, entretanto crist&atilde;os-novos, que ali assumiriam um papel relevante no desenvolvimento dos mesteres da &aacute;rea do t&ecirc;xtil, em particular<a name="top36"></a><sup><a href="#36">36</a></sup>. S&oacute; tendo em conta esta realidade da vila, populosa e pujante, se percebe o alcance da sua doa&ccedil;&atilde;o ao infante D. Lu&iacute;s por seu irm&atilde;o D. Jo&atilde;o III, justamente em 1527, num claro reconhecimento pelo papel pol&iacute;tico e militar ao servi&ccedil;o do reino daquele que ficou conhecido, nas artes e nas ci&ecirc;ncias, como um verdadeiro pr&iacute;ncipe da Renascen&ccedil;a<a name="top37"></a><sup><a href="#37">37</a></sup>.</p>     <p>Por fim, o terceiro cap&iacute;tulo do livro conduz-nos &agrave; observa&ccedil;&atilde;o do regimento dos Vinte e Quatro de &Eacute;vora, que em Janeiro de 1535 os mesteirais covilhanenses solicitam a D. Lu&iacute;s por modelo a instituir na vila beir&atilde;, na esperan&ccedil;a de obterem um reconhecimento pol&iacute;tico condizente com o seu protagonismo econ&oacute;mico. Obtido o assentimento do infante, como atesta o alvar&aacute; de 30 do mesmo m&ecirc;s, aqueles estatutos vinham confirmar, no dizer de Maria &Acirc;ngela Beirante, a familiaridade de foros e costumes entre as duas localidades, a par da sensibilidade e o pragmatismo de D. Lu&iacute;s em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; &quot;coisa p&uacute;blica&quot;, por um lado, e da prefer&ecirc;ncia da forma de organiza&ccedil;&atilde;o dos mesteres de &Eacute;vora sobre outras vilas e cidades pelos profissionais covilhanenses, por outro lado<a name="top38"></a><sup><a href="#38">38</a></sup>. &Eacute; precisamente para melhor compreens&atilde;o do decalque do Regimento dos Vinte e Quatro dos Mesteres da cidade alentejana para a Covilh&atilde;, com todos as liberdades e garantias que significava, que a autora trata separadamente o regimento, no contexto de &Eacute;vora, para depois abordar a institui&ccedil;&atilde;o do mesmo na vila beir&atilde; e a elei&ccedil;&atilde;o dos primeiros Vinte e Quatro.</p>     <p>Segundo nos &eacute; dado a conhecer, o regimento eborense, transportado para a Covilh&atilde; pelo mercador Jorge Martins ap&oacute;s o assentimento de D. Lu&iacute;s, comp&otilde;e-se de uma vintena de documentos atestando os privil&eacute;gios alcan&ccedil;ados pelos mesteres de &Eacute;vora durante um per&iacute;odo situado entre os reinados de D. Duarte e de D. Jo&atilde;o III. A maior parte dos diplomas corresponde a benef&iacute;cios dispersos outorgados pela coroa das mais diversas naturezas, de que s&atilde;o exemplo os mais antigos, que datam das Cortes de Leiria-Santar&eacute;m de 1434, relativamente &agrave; generaliza&ccedil;&atilde;o a todos os mesteres do pronunciamento na c&acirc;mara sobre a justa valia dos produtos a almota&ccedil;ar e &agrave; reafirma&ccedil;&atilde;o a todos os oficiais da cidade para assegurarem carniceiros em n&uacute;mero suficiente para garantir carne em abastan&ccedil;a para o povo, assim como almotac&eacute;s para a distribuir equitativamente<a name="top39"></a><sup><a href="#39">39</a></sup>. Por&eacute;m, outros documentos h&aacute; mais estruturantes, segundo a autora, como &eacute; o caso daquele que data de 1 de Agosto de 1451, atestando uma reuni&atilde;o em que vinte e quatro mesteirais, em representa&ccedil;&atilde;o dos mesteres da cidade, constitu&iacute;ram um regimento para ordenar novos estatutos e eleger seis pelouros (por cada seis anos, em cada qual exerceriam um secret&aacute;rio e um tesoureiro) para administrar a bolsa que pagaria o servi&ccedil;o de escolta de prisioneiros e o de transporte de dinheiros r&eacute;gios. Mas, como encerram as disposi&ccedil;&otilde;es, aqueles procuradores n&atilde;o se limitavam a administrar a bolsa, estando igualmente investidos na fun&ccedil;&atilde;o, institucionalmente (bem) mais importante, de representa&ccedil;&atilde;o em Cortes, fazendo ouvir a voz do povo em paralelo aos antigos procuradores concelhios &ndash; a presen&ccedil;a dos procuradores do povo mi&uacute;do de &Eacute;vora nas Cortes de Lisboa de 1439 leva Maria &Acirc;ngela Beirante a sustentar que esta prerrogativa dos mesteirais eborenses remontaria, no m&iacute;nimo, ao governo de D. Duarte<a name="top40"></a><sup><a href="#40">40</a></sup>. Nesta esteira, outro diploma de suma import&acirc;ncia, que cabe aqui destacar, ser&aacute; aquele que foi apresentado nas Cortes de Lisboa de 1459 pelo povo mi&uacute;do, atrav&eacute;s do qual os mesteirais obt&ecirc;m de D. Afonso V o direito de estar na c&acirc;mara em verea&ccedil;&atilde;o com os oficiais do concelho, passando a intervir (permanentemente) no governo local<a name="top41"></a><sup><a href="#41">41</a></sup>. Contudo, como &eacute; dado a conhecer pelos demais diplomas, estas conquistas dos homens dos mesteres foram objecto de grande resist&ecirc;ncia por parte da oligarquia urbana, que nas Cortes de &Eacute;vora de 1490, quando D. Jo&atilde;o II precisou do apoio dos procuradores das vilas e cidades para o casamento do pr&iacute;ncipe herdeiro, conseguiu da coroa que os procuradores do povo deixassem de estar em verea&ccedil;&atilde;o, situa&ccedil;&atilde;o que s&oacute; ser&aacute; revertida completamente ap&oacute;s alvar&aacute; de D. Jo&atilde;o III, em 22 de Julho de 1529<a name="top42"></a><sup><a href="#42">42</a></sup>.</p>     <p>Ao abordar a implanta&ccedil;&atilde;o do regimento na Covilh&atilde;, em cuja c&acirc;mara o instrumento foi recebido a 14 de Fevereiro de 1535, Maria &Acirc;ngela Beirante detalha-nos o interessante acto formal da elei&ccedil;&atilde;o dos Vinte e Quatro dos Mesteres na vila beir&atilde;, na presen&ccedil;a do juiz de fora (em representa&ccedil;&atilde;o do infante) e ap&oacute;s chamada por preg&atilde;o<a name="top43"></a><sup><a href="#43">43</a></sup>. Para uma representa&ccedil;&atilde;o equitativa, a autora salientou como se disp&ocirc;s que os profissionais dos of&iacute;cios fossem escolhidos em propor&ccedil;&atilde;o aos mesteres da vila, resultando da elei&ccedil;&atilde;o: quatro mercadores, dois paneiros, dois tecel&otilde;es, dois tecel&otilde;es, dois tintureiros e tosadores, um surrador, dois ferreiros e ferradores, um ourives, tr&ecirc;s almocreves, um moleiro, um pedreiro e um oleiro<a name="top44"></a><sup><a href="#44">44</a></sup>. Ficamos ainda a saber como os vinte e quatro eleitos, que juraram sobres os Evangelhos &quot;em maneira que por sua mingoa e negligencia a dita Republica nem pouo desta uilla n&atilde;o Receba detrimento nem perda alguma&quot;<a name="top45"></a><sup><a href="#45">45</a></sup>, passaram a votar os dois procuradores que os representariam na verea&ccedil;&atilde;o naquele ano ano, bem como os pares que lhes sucederiam nos cinco anos seguintes &ndash; note-se que se previa, para evitar v&iacute;cios ou corrup&ccedil;&otilde;es, a tiragem &agrave; sorte do pelouro que ia ser atribu&iacute;do &agrave; dupla em exerc&iacute;cio no in&iacute;cio de cada ano. Embora s&oacute; conhe&ccedil;amos registos de elei&ccedil;&atilde;o at&eacute; 1552, a autora mostra-nos como n&atilde;o tardou em manifestar-se a estrutural oposi&ccedil;&atilde;o da oligarquia urbana, din&acirc;mica essa que, de resto, se perpetuaria durante muito tempo, o que Maria &Acirc;ngela Beirante chega a atestar com recurso a documenta&ccedil;&atilde;o das Cortes de 1641<a name="top46"></a><sup><a href="#46">46</a></sup>.</p>     <p>Por &uacute;ltimo, somos levados por uma caracteriza&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mico-social dos fundadores da institui&ccedil;&atilde;o dos Vinte e Quatro da Covilh&atilde;. Analisando a lista dos mesteirais presentes na elei&ccedil;&atilde;o inicial de 1535, bem como o n&uacute;mero de representantes eleitos por sectores profissionais, a autora sustenta detalhadamente a preponder&acirc;ncia do sector do t&ecirc;xtil, da produ&ccedil;&atilde;o &agrave; comercializa&ccedil;&atilde;o, salientando o importante papel que os crist&atilde;os-novos ter&atilde;o assumido nesta &aacute;rea &ndash; teria mesmo partido dos profissionais deste ramo, de acordo com a mesma interpreta&ccedil;&atilde;o, a solicita&ccedil;&atilde;o do regimento ao infante D. Lu&iacute;s. Por oposi&ccedil;&atilde;o, Maria &Acirc;ngela Beirante destaca pela fraca representatividade nos primeiros Vinte e Quatro a pouca express&atilde;o de alguns mesteres na vila, como sucedia ao n&iacute;vel dos couros e dos metais, assim como na alimenta&ccedil;&atilde;o, com estas necessidades a serem supridas pelos almocreves, cujo grupo apresentava at&eacute; alguma dimens&atilde;o. Na esteira da autora, certo &eacute; que a partir de 1535, e at&eacute; pelo menos o terceiro quartel do s&eacute;culo (aquando da grande persegui&ccedil;&atilde;o inquisitorial), a Covilh&atilde; alcan&ccedil;ou o seu auge na transforma&ccedil;&atilde;o e venda de produtos da &aacute;rea dos t&ecirc;xteis, tornando-se uma refer&ecirc;ncia no contexto de toda a comarca e do pr&oacute;prio reino<a name="top47"></a><sup><a href="#47">47</a></sup>.</p>     <p>Em jeito de conclus&atilde;o, podemos afirmar com seguran&ccedil;a que o livro <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum: os Vinte e Quatro dos Mesteres de &Eacute;vora, paradigma dos Vinte e Quatro da Covilh&atilde; (1535)</i>, de Maria &Acirc;ngela Beirante, veio fazer luz no quadro historiogr&aacute;fico nacional no que diz respeito &agrave; investiga&ccedil;&atilde;o sobre os mesteirais na Idade M&eacute;dia. Tomando por objecto as urbes de &Eacute;vora e da Covilh&atilde;, aqui relacionadas pelo regimento dos Vinte e Quatro dos Mesteres, a autora tra&ccedil;ou gizou um estudo bastante completo, com abordagens de natureza econ&oacute;mica, social e institucional em torno dos profissionais dos of&iacute;cios entre os finais da medievalidade e os alvores da Idade Moderna. Estruturado com clareza, o trabalho apresenta uma escrita simples ao n&iacute;vel do texto, tantas vezes acompanhado de quadros que sistematizam a informa&ccedil;&atilde;o tratada, facilitando assim assimila&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria pelo leitor. Para o p&uacute;blico acad&eacute;mico, em particular aquele que investiga nas &aacute;reas da hist&oacute;ria urbana, econ&oacute;mica ou social, ser&atilde;o certamente bons pontos de partida as imensas notas de rodap&eacute; que sustentam o texto e que remetem para uma pl&ecirc;iade de fontes, boa parte delas de arquivos nacionais e municipais, para al&eacute;m de um vasto conjunto de estudos, portugueses e estrangeiros<a name="top48"></a><sup><a href="#48">48</a></sup>.</p> Em suma, atrav&eacute;s desta met&oacute;dica investiga&ccedil;&atilde;o ficou claro como a afirma&ccedil;&atilde;o dos mesteirais eborenses conduziu, no s&eacute;culo XV, &agrave; obten&ccedil;&atilde;o de um amplo conjunto de privil&eacute;gios pol&iacute;ticos, garantidos juridicamente pela coroa, os quais seriam adoptados pelos homens dos of&iacute;cios da Covilh&atilde;, ap&oacute;s o assentimento do infante D. Lu&iacute;s, no in&iacute;cio do segundo quartel de Quinhentos, quando o protagonismo dos seus mesteres reclamava tamb&eacute;m uma maior interven&ccedil;&atilde;o institucional. Em boa medida pelo seu papel econ&oacute;mico, como se demonstrou com todo o rigor, os mesteirais lograram impor-se, numa din&acirc;mica que os opunha tendencialmente &agrave;s oligarquias urbanas, conseguindo assim numa e noutra comunidade o almejado assento nas verea&ccedil;&otilde;es municipais e, mais ainda, a representa&ccedil;&atilde;o do povo mi&uacute;do em Cortes. Por conhecer ficou, como concluiu a autora, por falta de fontes, a forma &ndash; decerto male&aacute;vel &ndash; como se ter&aacute; aplicado o regimento dos Vinte e Quatro eborense na vila beir&atilde;, tendo em conta as diferen&ccedil;as na organiza&ccedil;&atilde;o dos trabalhos: enquanto na cidade alentejana os mesteirais eram essencialmente fabricantes, como os profissionais do sector do couro, na Covilh&atilde; o grosso dos homens dos of&iacute;cios poderia ser ou n&atilde;o corresponder a fabricantes, como era o caso dos mercadores e dos paneiros, n&atilde;o devendo por isso estar sujeitos &agrave;s mesmas restri&ccedil;&otilde;es lucrativas<a name="top49"></a><sup><a href="#49">49</a></sup>. Por&eacute;m, com este estudo, para al&eacute;m dos contextos estudados, espera-se chamar &agrave; aten&ccedil;&atilde;o da historiografia nacional para a import&acirc;ncia dos homens das &quot;artes mec&acirc;nicas&quot;, que, de acordo com a filosofia medieval, eram considerados como parte integrante dos p&eacute;s que sustentavam a sociedade e que, como tal, carregavam uma miss&atilde;o importante na consecu&ccedil;&atilde;o do bem-comum<a name="top50"></a><sup><a href="#50">50</a></sup>.     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO</b></p>     <p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <p>COSTA, Ant&oacute;nio Martins &ndash; &ldquo;Recens&atilde;o: BEIRANTE, Maria &Acirc;ngela &ndash; <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum: os Vinte e Quatro dos Mesteres de &Eacute;vora, paradigma dos Vinte e Quatro da Covilh&atilde; (1535)</i>. Lisboa: Centro de Estudos Hist&oacute;ricos, 2014 (140 pp.)&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm; 20 (Julho &ndash; Dezembro 2016). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA20/costa2008.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA20/costa2008.html</a>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data do texto: 27 de Fevereiro de 2016</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> BEIRANTE, Maria &Acirc;ngela &ndash; <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum: os Vinte e Quatro dos Mesteres de &Eacute;vora, paradigma dos Vinte e Quatro da Covilh&atilde; (1535)</i>. Lisboa: Centro de Estudos Hist&oacute;ricos, 2014.</p>     <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> Destacamos aqui, da mesma autora, conhecidos trabalhos de hist&oacute;ria urbana, tais como: BEIRANTE, Maria &Acirc;ngela &ndash; &quot;Capelas de &Eacute;vora&quot;. <i>A Cidade de &Eacute;vora</i>, n. 65-66 (1982-1983), pp. 21-43; Idem &ndash; &quot;Confrarias e irmandades de Santar&eacute;m&quot;. in <i>Associativismo, Patrim&oacute;nio, Hist&oacute;ria, Arqueologia. Actas do Col&oacute;quio organizado pela Associa&ccedil;&atilde;o de Estudo e Defesa do Patrim&oacute;nio Hist&oacute;rico-cultural de Santar&eacute;m</i>. Santar&eacute;m: Funda&ccedil;&atilde;o Passos Canavarro, 2003, pp. 239-256; Idem &ndash; &quot;Espa&ccedil;os de sociabilidade nas cidades medievais portuguesas&quot;. in <i>Os Reinos Ib&eacute;ricos na Idade M&eacute;dia</i>. <i>Homenagem ao Prof. Doutor Humberto Baquero Moreno</i>. Vol. 2. Porto: Livraria Civiliza&ccedil;&atilde;o, 2003, pp. 939-945; Idem &ndash; &quot;&Eacute;vora Medieval&quot;. in <i>&Eacute;vora: Hist&oacute;ria e Imagin&aacute;rio</i>. &Eacute;vora: Ataegina, 1997, pp. 43-50; Idem &ndash; &quot;O v&iacute;nculo cidade-campo na &Eacute;vora quinhentista&quot;. <i>A Cidade de &Eacute;vora</i>, II s&eacute;rie, n. 6 (2002-2006), pp. 87-95; Idem &ndash;<i> Santar&eacute;m Medieval</i>. Lisboa, UNL, 1980. Idem &ndash; <i>Santar&eacute;m Quinhentista</i>. Lisboa: ed. Autora, 1981.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> COELHO, Maria Helena da Cruz &ndash; &quot;Municipal Power&quot;. in MATTOSO, Jos&eacute; (dir.) &ndash; <i>The historiography of medieval Portugal, c. 1950-2010. </i>Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, 2011, pp. 210-211.</p>     <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> BEIRANTE, Maria &Acirc;ngela &ndash; <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum</i>&hellip;, pp. 9-11.</p>     <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> CAETANO, Marcelo &ndash; &quot;A antiga organiza&ccedil;&atilde;o dos mesteres da cidade de Lisboa&quot;. in <i>As Corpora&ccedil;&otilde;es dos Of&iacute;cios Mec&acirc;nicos. Subs&iacute;dios para a sua Hist&oacute;ria.</i> Vol. 1. Lisboa: Imprensa Nacional, 1943, pp. XI-LXXV.</p>     <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> SOARES, Torquato de Sousa &ndash; &quot;A representa&ccedil;&atilde;o dos mesteres na C&acirc;mara do Porto durante o s&eacute;culo XV&quot;. <i>Revista de Cultura e Forma&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;lica</i>, n. 15 (1938), pp. 350-361.</p>     <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> CARVALHO, J. M. Teixeira de &ndash; <i>Casa dos Vinte e Quatro de Coimbra: elementos para a sua hist&oacute;ria</i>. Coimbra, Biblioteca Municipal, 1937.</p>     <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> MARQUES, A. H. de Oliveira &ndash; <i>Sociedade Medieval Portuguesa: aspectos da vida quotidiana. </i>Lisboa, S&aacute; da Costa, [1968].</p>     <p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> SERR&Atilde;O, Joel (dir.) &ndash; <i>Dicion&aacute;rio de Hist&oacute;ria de Portugal</i>. 4 vol. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1964-1968.</p>     <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> TAVARES, Maria Jos&eacute; Ferro &ndash; <i>A revolta dos mesteirais</i>. Sep.das <i>Actas das III Jornadas Arqueol&oacute;gicas. </i>Vol. 1. Lisboa: Associa&ccedil;&atilde;o dos Arque&oacute;logos Portugueses, 1978.</p>     <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> ANDRADE, Am&eacute;lia Aguiar; COSTA, Adelaide Mil&aacute;n da &ndash; &quot;Medieval Portuguese Towns: the difficult affirmation of a historiographical topic&quot;. in <i>The historiography of medieval Portugal, c. 1950-2010</i>...p. 291. Destaquem-se, a t&iacute;tulo de exemplo, algumas das investiga&ccedil;&otilde;es de hist&oacute;ria urbana medieval dos anos 80 do s&eacute;culo XX que, de algum modo, consideraram o peso da actividade dos mesteirais nos espa&ccedil;os que estudaram: BEIRANTE, Maria &Acirc;ngela &ndash; <i>&Eacute;vora na Idade M&eacute;dia. </i>Lisboa: Universidade de Lisboa, 1988. Tese de Doutoramento; SILVA, Manuela Santos &ndash; <i>&Oacute;bidos medieval: estruturas urbanas e administrativas concelhias.</i> Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 1986. Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado.</p>     <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> COELHO, Maria Helena da Cruz &ndash; &quot;A mulher e o trabalho nas cidades medievais portuguesas&quot;. in <i>Homens, espa&ccedil;os e poderes, s&eacute;culos IX-XVI. </i>Vol. 1. Lisboa: Livros Horizonte, 1990, pp. 37-59.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> RODRIGUES, Ana Maria &ndash; &quot;Les artisans au Portugal: &eacute;tat de la question&quot;. in <i>L&rsquo;Artisan dans la P&eacute;ninsule Ib&eacute;rique</i>. Nice: Razo, 1993, pp. 21-26.</p>     <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup> GOMES, Saul Ant&oacute;nio &ndash; &quot;Les ouvriers du b&acirc;timent &agrave; Batalha&quot;. in <i>Ibidem</i>, pp. 33-51.</p>     <p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup> DUARTE, Lu&iacute;s Miguel &ndash; &quot;A actividade mineira em Portugal durante a Idade M&eacute;dia&quot;. <i>Hist&oacute;ria, revista da FLUP</i>, 2&ordf; s&eacute;rie, vol. 12 (1995), pp. 75-111.</p>     <p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> DUARTE, Lu&iacute;s Miguel; FERREIRA, Maria da Concei&ccedil;&atilde;o Falc&atilde;o &ndash; &quot;La construction courante au Portugal &agrave; la fin du Moyen &Acirc;ge et au d&eacute;but de l&rsquo;&Eacute;poque Moderne&quot;. in <i>L&rsquo;edizilia prima della Rivoluzione industriale secc. XIII-XVIII. </i>Floren&ccedil;a: Le Monnier, 2005, pp. 587-624.</p>     <p><sup><a name="17"></a><a href="#top17">17</a></sup> De Am&eacute;lia Pol&oacute;nia podem ler-se v&aacute;rios artigos em: MADUREIRA, Nuno Lu&iacute;s (coord.) &ndash; <i>Hist&oacute;ria do Trabalho e das Ocupa&ccedil;&otilde;es</i>. Vol. 1. Oeiras: Celta, 2001.</p>     <p><sup><a name="18"></a><a href="#top18">18</a></sup> SOUSA, Arnaldo de &ndash; <i>Trabalho e Produ&ccedil;&atilde;o em Portugal na Idade M&eacute;dia: o Porto, c. 1320 &ndash; c. 1415. </i>Braga: Universidade do Minho, 2009. Tese de Doutoramento.</p>     <p><sup><a name="19"></a><a href="#top19">19</a></sup> SEQUEIRA, Joana &ndash; <i>Produ&ccedil;&atilde;o T&ecirc;xtil em Portugal nos finais da Idade M&eacute;dia.</i> Porto: Universidade do Porto, 2012. Tese de Doutoramento. Esta investigadora, na esteira da sua tese de doutoramento, vem publicando v&aacute;rios trabalhos, de diferentes perspectivas, dedicados &agrave;quela ind&uacute;stria no nosso pa&iacute;s, como &eacute; o caso do livro <i>O pano da terra: produ&ccedil;&atilde;o t&ecirc;xtil em Portugal nos finais da Idade M&eacute;dia</i> (Porto: Universidade do Porto Edi&ccedil;&otilde;es, 2014), ou ainda dos artigos &quot;A companhia Salviati-Da Colle e o com&eacute;rcio de panos de seda florentinos em Lisboa no s&eacute;culo XV&quot;. <i>De Medio Aevo</i>, vol. 4, n. 1 (2014), pp. 47-62 e &quot;A mulher na produ&ccedil;&atilde;o t&ecirc;xtil portuguesa tardo-medieval&quot;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N. 11 (Janeiro &ndash; Junho 2012).</p>     <p><sup><a name="20"></a><a href="#top20">20</a></sup> BEIRANTE, Maria &Acirc;ngela &ndash; <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum</i>&hellip;, p. 15.</p>     <p><sup><a name="21"></a><a href="#top21">21</a></sup> <i>Ibidem</i>, p. 15.</p>     <p><sup><a name="22"></a><a href="#top22">22</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 17-56.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="23"></a><a href="#top23">23</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 57-76.</p>     <p><sup><a name="24"></a><a href="#top24">24</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 77-104.</p>     <p><sup><a name="25"></a><a href="#top25">25</a></sup> <i>Ibidem</i>, p. 16.</p>     <p><sup><a name="26"></a><a href="#top26">26</a></sup> Note-se que este impressionante volume documental foi j&aacute; tratado por Maria &Acirc;ngela Beirante na sua tese de doutoramento, defendida em 1988 e dada &agrave; estampa em 1995: Idem &ndash; <i>&Eacute;vora na Idade M&eacute;dia</i>. Lisboa: Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian, 1995.</p>     <p><sup><a name="27"></a><a href="#top27">27</a></sup> Ao grupo profissional da &aacute;rea do couro (20,3 %) seguem-se, quanto ao n&uacute;mero de profissionais, por ordem decrescente&nbsp;: o da alimenta&ccedil;&atilde;o (18,5 %), o dos metais (18 %), o do vestu&aacute;rio (11,4 %), o dos t&ecirc;xteis (9,2 %), o da constru&ccedil;&atilde;o (6,6 %), o do barro (5,6 %), o da madeira (4,2 %), o da barbearia (2,9 %), o da cera e sebo (1,3 %), o das artes decorativas (1,1 %) e o da espartaria e cestaria (0,9 %). Veja-se: Idem &ndash; <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum</i>&hellip;, pp. 19-22.</p>     <p><sup><a name="28"></a><a href="#top28">28</a></sup> A autora, tendo em conta a referida amostra, descortinou 84% de crist&atilde;os, 13,1 % de judeus e 2,9 % de mouros. Veja-se: <i>Ibidem</i>, pp. 19-22.</p>     <p><sup><a name="29"></a><a href="#top29">29</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 26-29.</p>     <p><sup><a name="30"></a><a href="#top30">30</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 29-32.</p>     <p><sup><a name="31"></a><a href="#top31">31</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 32-56.</p>     <p><sup><a name="32"></a><a href="#top32">32</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 57-61.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="33"></a><a href="#top33">33</a></sup> <i>Ibidem</i>, p. 61.</p>     <p><sup><a name="34"></a><a href="#top34">34</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 61-66.</p>     <p><sup><a name="35"></a><a href="#top35">35</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 66-71.</p>     <p><sup><a name="36"></a><a href="#top36">36</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 66-71.</p>     <p><sup><a name="37"></a><a href="#top37">37</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 71-76.</p>     <p><sup><a name="38"></a><a href="#top38">38</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 77-79.</p>     <p><sup><a name="39"></a><a href="#top39">39</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 79-82.</p>     <p><sup><a name="40"></a><a href="#top40">40</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 82-84.</p>     <p><sup><a name="41"></a><a href="#top41">41</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 88-89.</p>     <p><sup><a name="42"></a><a href="#top42">42</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 91-92.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="43"></a><a href="#top43">43</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 92-93.</p>     <p><sup><a name="44"></a><a href="#top44">44</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 93-95.</p>     <p><sup><a name="45"></a><a href="#top45">45</a></sup> <i>Ibidem</i>, p. 94.</p>     <p><sup><a name="46"></a><a href="#top46">46</a></sup> <i>Ibidem</i>, p. 97.</p>     <p><sup><a name="47"></a><a href="#top47">47</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 99-104.</p>     <p><sup><a name="48"></a><a href="#top48">48</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 131-140.</p>     <p><sup><a name="49"></a><a href="#top49">49</a></sup> <i>Ibidem</i>, p. 106.</p>     <p><sup><a name="50"></a><a href="#top50">50</a></sup> <i>Ibidem</i>, pp. 107-108.</p> </p>     ]]></body>
</article>
