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<publisher-name><![CDATA[Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[ROCHA, Artur &#8211; A Muralha de D. Dinis e a Cidade de Lisboa. Fragmentos Arqueológicos e a Evolução Histórica: Lisboa: Museu do Dinheiro / Banco de Portugal, 2015 (60 pp.)]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Coimbra Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENS&#195;O</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Recens&#227;o: ROCHA, Artur 	&#8211; A Muralha de D. Dinis e a Cidade de Lisboa. Fragmentos Arqueol&#243;gicos e a Evolu&#231;&#227;o Hist&#243;rica. Lisboa: Museu do Dinheiro / Banco de Portugal, 2015 (60 pp.)</b></font></p>     <p><b>Paulo Almeida Fernandes<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup>Universidade de Coimbra, Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ci&ecirc;ncias do Patrim&oacute;nio, 3000-495 Coimbra, Portugal.<i> E-mail</i>: <a href="mailto:pauloalmeidafernandes@gmail.com">pauloalmeidafernandes@gmail.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Os livros n&atilde;o se medem pelos palmos da lombada ou da capa<a name="top1"></a><sup><a href="#1">1</a></sup>. Nem as escava&ccedil;&otilde;es arqueol&oacute;gicas se medem pelos palmos de metros c&uacute;bicos de terra movimentada. O desfecho da interven&ccedil;&atilde;o no subsolo da igreja de S&atilde;o Juli&atilde;o e da sede do Banco de Portugal, em Lisboa, com vista &agrave; adapta&ccedil;&atilde;o parcial do edif&iacute;cio a Museu do Dinheiro, prova isso mesmo. &Agrave; partida, tratava-se de mais uma interven&ccedil;&atilde;o arqueol&oacute;gica ditada por imperativos legais, a realizar num local situado na fronteira difusa da malha urbana medieval, zona perif&eacute;rica de urbaniza&ccedil;&atilde;o tardia e cujas sedimenta&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas estariam potencialmente mais ligadas &agrave;s remodela&ccedil;&otilde;es que a cidade conheceu ap&oacute;s o terramoto de 1755. Os resultados obtidos, todavia, vieram assegurar ao Museu do Dinheiro do Banco de Portugal um estatuto cimeiro, quer no panorama cient&iacute;fico dos estudos dedicados &agrave; Lisboa medieval, quer nos itiner&aacute;rios arqueol&oacute;gicos da cidade que s&atilde;o parte importante da diferencia&ccedil;&atilde;o tur&iacute;stica de &iacute;ndole cultural da capital.</p>     <p>No Museu do Dinheiro trabalhou-se em segredo. O principal resultado &ndash; a identifica&ccedil;&atilde;o de um tro&ccedil;o da muralha ribeirinha constru&iacute;da no reinado de D. Dinis &ndash; foi alcan&ccedil;ado na campanha de 2010, mas o livro que evidencia a import&acirc;ncia dessa descoberta e a integra nos mais vastos contextos topogr&aacute;ficos e cronol&oacute;gicos da cidade ocorreu apenas mais de quatro anos depois daquele momento revelador, e sensivelmente um ano ap&oacute;s a abertura ao p&uacute;blico do N&uacute;cleo de Interpreta&ccedil;&atilde;o da Muralha de D. Dinis (Abril de 2014). Hoje, o que visitante pode visitar &eacute; um lan&ccedil;o de muralha com mais de 30 metros de comprimento, ao qual se acede descendo pouco mais de um andar, at&eacute; uma cota que nos parece levar verdadeiramente ao cora&ccedil;&atilde;o subterr&acirc;neo da Baixa de Lisboa.</p>     <p>O livro n&atilde;o &eacute; apenas dedicado ao tro&ccedil;o preservado da muralha dionisina. Na verdade, o seu autor, o arque&oacute;logo Artur Rocha, conta v&aacute;rias hist&oacute;rias nesta publica&ccedil;&atilde;o, mas f&aacute;-lo tendo em considera&ccedil;&atilde;o o apertado espa&ccedil;o que escavou e os contextos hist&oacute;ricos da pr&oacute;pria cidade. Interessou-lhe, sobretudo, compreender os diferentes momentos da evolu&ccedil;&atilde;o de Lisboa e qual o contributo que os achados da escava&ccedil;&atilde;o podiam trazer para esse panorama mais amplo, preocupa&ccedil;&atilde;o bem ilustrada no subt&iacute;tulo do livro &ndash; <i>Fragmentos arqueol&oacute;gicos e evolu&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica</i>. Por essa raz&atilde;o, o texto n&atilde;o prescinde de contar a pr&oacute;pria hist&oacute;ria de Lisboa, desde os seus primeiros povoadores at&eacute; &agrave;s radicais altera&ccedil;&otilde;es do per&iacute;odo pombalino, constituindo-se um fluido e coerente discurso que se situa no &acirc;mbito da divulga&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m sem abandonar as caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias de uma edi&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, na qual a problematiza&ccedil;&atilde;o de dados &eacute; uma constante.</p>     <p>Mas s&atilde;o mais os m&eacute;ritos desta obra. A principal virtude, quanto a mim, &eacute; revelar finalmente um tro&ccedil;o da muralha do tempo de D. Dinis, obra militar h&aacute; muito conhecida atrav&eacute;s da documenta&ccedil;&atilde;o &ndash; sobretudo pelo contrato de 1294, assente entre o monarca e o concelho de Lisboa, que permitiu a sua edifica&ccedil;&atilde;o &ndash;, mas cujo tra&ccedil;ado e caracter&iacute;sticas construtivas permaneciam ocultos, n&atilde;o obstante os esfor&ccedil;os de Augusto Vieira da Silva em reconstituir alguns aspectos estruturantes.</p>     <p>Em rigor, a muralha dionisina era j&aacute; fisicamente conhecida, mas n&atilde;o em &quot;ambiente cient&iacute;fico controlado&quot;, como bem esclarece Artur Rocha<a name="top2"></a><sup><a href="#2">2</a></sup>. Augusto Vieira da Silva havia j&aacute; noticiado a descoberta de um tro&ccedil;o no subsolo de um edif&iacute;cio na Rua do Com&eacute;rcio, n.&ordm;s 112-114, paralelo &agrave; fachada do pr&eacute;dio<a name="top3"></a><sup><a href="#3">3</a></sup>, mas foi no Banco de Portugal que se registou a muralha atrav&eacute;s dos m&eacute;todos cient&iacute;ficos rigorosos ao servi&ccedil;o da moderna arqueologia. E foi tamb&eacute;m aqui que se optou por preservar o &quot;muro velho&quot;, ignorando-se o que ocorreu em rela&ccedil;&atilde;o ao lan&ccedil;o identificado em 1939.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O estudo da muralha agora descoberta possibilitou a chegada a outras conclus&otilde;es relevantes. Por um lado, permitiu caracterizar a t&eacute;cnica construtiva adoptada na edifica&ccedil;&atilde;o medieval, que recorreu ao uso sistem&aacute;tico de pedra mi&uacute;da unida por abundante argamassa, tendo-se conclu&iacute;do os muros exteriores e interiores com capas de revestimento em argamassa obtidas atrav&eacute;s de um sistema de cofragem que pareceu algo descuidado<a name="top4"></a><sup><a href="#4">4</a></sup>. Esta solu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deixa de surpreender, uma vez que s&atilde;o bem conhecidas as fortifica&ccedil;&otilde;es do tempo de D. Dinis que recorreram a aparelhos construtivos plenamente is&oacute;domos, realizados com silhares de apreci&aacute;veis dimens&otilde;es, exemplarmente talhados e dispostos em fiadas regulares. No entanto, a variedade tipol&oacute;gica das constru&ccedil;&otilde;es militares medievais de Lisboa j&aacute; tinha sido identificada por L&iacute;dia Fernandes, na interven&ccedil;&atilde;o que realizou na Escola Secund&aacute;ria Gil Vicente, tendo na altura identificado largos tro&ccedil;os de taipa, ainda com vest&iacute;gios de cofragem<a name="top5"></a><sup><a href="#5">5</a></sup>. Por outro lado, o trabalho de Artur Rocha permitiu tamb&eacute;m corrigir ligeiramente o tra&ccedil;ado da muralha proposto por Vieira da Silva, que idealizou uma progress&atilde;o da estrutura no sentido Nordeste-Sudoeste, tendo sido agora poss&iacute;vel perceber que ela se desenvolvia de Este para Oeste, quase em linha recta<a name="top6"></a><sup><a href="#6">6</a></sup>, pelo menos no sector agora intervencionado.</p>     <p>Apesar dos muitos progressos constantes deste livro, os dados revelados sobre a muralha colocam muitas perguntas &agrave; comunidade cient&iacute;fica que se dedica a estudar a Lisboa medieval. O tro&ccedil;o identificado localiza-se no limite ocidental da cidade, zona de grande expans&atilde;o entre os s&eacute;culos XIII e XIV, mas tamb&eacute;m uma &aacute;rea presumivelmente fortificada ou, pelo menos, dotada de refer&ecirc;ncias verticalizantes de car&aacute;cter defensivo. S&atilde;o conhecidas as propostas de Augusto Vieira da Silva acerca da exist&ecirc;ncia pr&eacute;via ao amuralhamento do tempo de D. Dinis de umas tercenas fortificadas com pelo menos duas torres, a das Tercenas e a das Pombas (uma terceira torre, chamada de Maracote, est&aacute; documentada apenas para o s&eacute;culo XVI, como notou Jos&eacute; de Vasconcellos e Menezes)<a name="top7"></a><sup><a href="#7">7</a></sup>. Este dado &eacute; relevante porque a pr&oacute;pria muralha devia articular-se com portas de acesso ao &quot;campo que cobre a mar&eacute;&quot; (assim chamada a praia entre o rio e o muro dionisino num documento de 1302), mas a escava&ccedil;&atilde;o n&atilde;o logrou identificar nenhum v&atilde;o de passagem, nem qualquer das torres propostas por Vieira da Silva, pressentindo-se, tamb&eacute;m por esta via, uma certa simplicidade da estrutura que parece ter correspond&ecirc;ncia com a pr&oacute;pria t&eacute;cnica construtiva.</p>     <p>Outras perguntas situam-se em &acirc;mbitos de maior exig&ecirc;ncia, que apenas a amplia&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea intervencionada arqueologicamente poder&aacute; vir a responder. Qual a rela&ccedil;&atilde;o da muralha dionisina com a Cerca Fernandina, constru&iacute;da escassos oitenta anos depois daquela? A crer no tra&ccedil;ado proposto por Vieira da Silva para esta &uacute;ltima, a op&ccedil;&atilde;o dos construtores do s&eacute;culo XIV foi a de inviabilizar a edifica&ccedil;&atilde;o do tempo de D. Dinis, que j&aacute; aparece mencionada como &quot;muro velho&quot; num documento da chancelaria r&eacute;gia, datado de 1424<a name="top8"></a><sup><a href="#8">8</a></sup>. Este dado leva-me a admitir que a empreitada fernandina ter&aacute; registado diferentes escolhas ainda por explicar cabalmente: na zona ocidental da cidade, ter&aacute; menosprezado a muralha dionisina mas, no extremo oposto, no lado oriental, aproveitou uma torre anterior ao tempo de D. Dinis para se ligar &agrave; Cerca Velha &ndash; em concreto a torre de S. Pedro, cuja primeira men&ccedil;&atilde;o data de 1263. Por outro lado, qual a rela&ccedil;&atilde;o que se poder&aacute; estabelecer com o tro&ccedil;o do muro dionisino identificado em 1939? Faria este ainda parte do sector de muralha promovido pelo rei, ou estaria j&aacute; na &aacute;rea que a C&acirc;mara de Lisboa se comprometeu a construir pelo contrato de 1294, mas cuja empreitada n&atilde;o est&aacute; provada? E teria o tro&ccedil;o constru&iacute;do pela autarquia as mesmas caracter&iacute;sticas construtivas que o patrocinado pelo monarca?</p>     <p>Estas e muitas outras perguntas n&atilde;o podem ser dirigidas apenas &agrave; equipa de arqueologia do Museu do Dinheiro do Banco de Portugal. &Eacute; necess&aacute;rio que outros agentes cient&iacute;ficos possam prestar o seu contributo para que as perspectivas agora inauguradas de interpreta&ccedil;&atilde;o da muralha do reinado de D. Dinis possam ter continuidade em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; totalidade do sistema defensivo medieval de Lisboa.</p>     <p>Na verdade, a ac&ccedil;&atilde;o desenvolvida pelo Museu do Dinheiro n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica iniciativa dedicada a desvendar e a preservar trechos do sistema muralhado medieval da cidade. Dois outros projectos em curso merecem ser aqui referenciados, pela grande import&acirc;ncia dos resultados at&eacute; agora alcan&ccedil;ados.</p>     <p>O primeiro diz respeito ao trabalho de Manuela Leit&atilde;o, cuja investiga&ccedil;&atilde;o desenvolvida ao longo de v&aacute;rios anos sobre a Cerca Velha culminou na constitui&ccedil;&atilde;o de um circuito pedonal de cerca de 1,5 Kms., sinalizado com 16 pontos de informa&ccedil;&atilde;o, e que permite a realiza&ccedil;&atilde;o de uma visita orientada e informada de aproximadamente uma hora em torno daquele per&iacute;metro muralhado. Seguindo os v&aacute;rios pain&eacute;is informativos, estrategicamente colocados em locais relevantes da muralha, que situam o visitante no circuito e fornecem-lhe informa&ccedil;&atilde;o contextual adicional, a visita pode ser complementada com um mapa que est&aacute; dispon&iacute;vel em alguns pontos tur&iacute;sticos, assim dispensando a orienta&ccedil;&atilde;o por parte de guias.</p>     <p>O itiner&aacute;rio da Cerca Velha foi inaugurado em Setembro de 2014 como produto tur&iacute;stico, mas ele representa a face mais vis&iacute;vel de um programa de trabalhos de maior ambi&ccedil;&atilde;o. O PIEVCVL - Projecto Integrado de Estudo e Valoriza&ccedil;&atilde;o da &quot;Cerca Velha&quot; de Lisboa<a name="top9"></a><sup><a href="#9">9</a></sup>, cujas origens recuam a 1998, promoveu a realiza&ccedil;&atilde;o de 11 escava&ccedil;&otilde;es, o levantamento criterioso de sete sectores de paramentos, duas ac&ccedil;&otilde;es de conserva&ccedil;&atilde;o e restauro e um plano coerente de qualifica&ccedil;&atilde;o urban&iacute;stica da envolvente &agrave; cerca. Realizou-se mesmo um estudo de arqueologia da arquitectura, num dos trechos mais bem preservados (Rua da Judiaria e Postigo de S&atilde;o Pedro)<a name="top10"></a><sup><a href="#10">10</a></sup>, e um projecto de investiga&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fico destinado a caracterizar as argamassas, passo interdisciplinar decisivo para compreender t&eacute;cnicas construtivas e a produ&ccedil;&atilde;o de ligantes e revestimentos a partir dos recursos naturais existentes em Lisboa<a name="top11"></a><sup><a href="#11">11</a></sup>.</p>     <p>Estes n&uacute;meros impressionam pela abrang&ecirc;ncia de ac&ccedil;&otilde;es e novos dados ser&atilde;o revelados em breve (uma vez que continuam as sondagens, como a que a Marina Carvalhinhos efectuou na Rua Norberto Ara&uacute;jo, em 2015), mas a Cerca Velha, como qualquer marca arquitect&oacute;nica de uma cidade em cont&iacute;nua transforma&ccedil;&atilde;o, &eacute; um organismo vivo que guarda partes da hist&oacute;ria de Lisboa por decifrar. A muralha n&atilde;o foi sempre uma fronteira; ela foi ponto de apoio e de partida para outras constru&ccedil;&otilde;es, foi rasgada e rompida para permitir acessos antes indesejados, foi alteada e suprimida ao sabor de vagas construtivas e gera&ccedil;&otilde;es de vontades. A densa hist&oacute;ria que o projecto de estudo e valoriza&ccedil;&atilde;o tem revelado, complementa-se com a documenta&ccedil;&atilde;o medieval, moderna e contempor&acirc;nea e um crescente esp&oacute;lio iconogr&aacute;fico e fotogr&aacute;fico, ingredientes que adivinham a relev&acirc;ncia e o sucesso de um centro interpretativo sobre este monumento (ambi&ccedil;&atilde;o antiga dos gestores do PIEVCVL), mas tamb&eacute;m de um livro sobre a Cerca Velha de Lisboa, n&atilde;o j&aacute; um roteiro ou um circuito tur&iacute;stico-cultural, mas sim um estudo monogr&aacute;fico que sedimente o conhecimento adquirido at&eacute; hoje.</p>     <p>O segundo projecto iniciou-se mais tarde, mas os primeiros resultados s&atilde;o bastante animadores. Na verdade, h&aacute; muito tempo que se vem investigando arqueologicamente o Castelo de S&atilde;o Jorge, sendo de elementar justi&ccedil;a destacar o trabalho continuado de Alexandra Gaspar e Ana Gomes na Pra&ccedil;a Nova<a name="top12"></a><sup><a href="#12">12</a></sup>, ao abrigo do Projecto Integrado do Castelo de S&atilde;o Jorge, cujos resultados levaram &agrave; defini&ccedil;&atilde;o de uma &aacute;rea arqueol&oacute;gica visit&aacute;vel e do N&uacute;cleo Museol&oacute;gico do Castelo de S&atilde;o Jorge<a name="top13"></a><sup><a href="#13">13</a></sup>. Neste momento, a investiga&ccedil;&atilde;o sobre a fortaleza prepara-se para entrar numa nova fase. Est&atilde;o em curso projectos acad&eacute;micos de investiga&ccedil;&atilde;o destinados a estudar a fortifica&ccedil;&atilde;o na fase mu&ccedil;ulmana &ndash; para a qual foi essencial a recente leitura de Carmen Barcel&oacute; de uma inscri&ccedil;&atilde;o isl&acirc;mica do Museu de Lisboa<a name="top14"></a><sup><a href="#14">14</a></sup> &ndash; e a resgatar abundante informa&ccedil;&atilde;o documental in&eacute;dita sobre a hist&oacute;ria e o restauro do monumento. Paralelamente, o estudo f&iacute;sico das muralhas e torres do castelo est&aacute; a revelar-se uma verdadeira surpresa, como se comprova pela leitura do esgrafito que alude ao terramoto de 1356, recentemente efectuada por Bernardo S&aacute; Nogueira<a name="top15"></a><sup><a href="#15">15</a></sup>, e pelos muitos materiais de v&aacute;rias &eacute;pocas que se encontram incorporados nos muros, formando parte dos seus enchimentos.</p>     <p>Sendo o Castelo de S&atilde;o Jorge um monumento cuja autenticidade tantas vezes se questiona, pela radicalidade da interven&ccedil;&atilde;o pretensamente restauradora realizada entre 1938 e 1942 &ndash; interven&ccedil;&atilde;o, de resto, que carece de um estudo monogr&aacute;fico rigoroso &ndash;, estas descobertas representam novos motivos para o desenvolvimento de um plano de investiga&ccedil;&atilde;o integral do conjunto monumental, ao mesmo tempo que transmitem a sensa&ccedil;&atilde;o de que se deve voltar ao ponto de partida e come&ccedil;ar a estudar o castelo do princ&iacute;pio, sem aceitar pr&eacute;-conceitos acerca da originalidade das suas parcelas, do car&aacute;cter inventivo do restauro ou da profundidade com que se afectou o subsolo e os seus estratos arqueol&oacute;gicos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por estes motivos, importa que, em paralelo com o estudo documental, fotogr&aacute;fico e iconogr&aacute;fico do restauro, se possam desenvolver projectos complementares de diagn&oacute;stico e de caracteriza&ccedil;&atilde;o. &Eacute; essencial que se promova um levantamento exaustivo dos paramentos das muralhas e das torres e que se complete esse trabalho com uma an&aacute;lise de arqueologia da arquitectura. E &eacute; tamb&eacute;m importante que a arqueologia convencional volte ao topo da colina, porque a &aacute;rea arqueol&oacute;gica da Pra&ccedil;a Nova &eacute; um dos motivos de atractividade do castelo, mas tamb&eacute;m porque h&aacute; um imperativo cient&iacute;fico no estudo de zonas potencialmente relevantes, em particular associadas aos alicerces de alguns sectores do sistema defensivo e de outras parcelas da alc&aacute;&ccedil;ova.</p>     <p>Neste cen&aacute;rio, o Instituto de Estudos Medievais desempenha j&aacute; papel importante, tendo sido firmados protocolos com a EGEAC (empresa gestora do Castelo de S&atilde;o Jorge) para permitir investiga&ccedil;&otilde;es de mestrado e de doutoramento sobre a alc&aacute;&ccedil;ova medieval de Lisboa (2014), tendo havido j&aacute; sess&otilde;es de debate e de transfer&ecirc;ncia de conhecimento, como o 1.&ordm; Workshop sobre a alc&aacute;&ccedil;ova e o castelo de Lisboa (Junho de 2015) e prevendo-se mais ac&ccedil;&otilde;es num futuro pr&oacute;ximo.</p>     <p>Habitu&aacute;mo-nos a caracterizar o sistema defensivo de Lisboa nos seus tr&ecirc;s monumentos-etapas fundamentais: Castelo de S&atilde;o Jorge; Cerca Velha e Cerca Fernandina. Mas nem essas estruturas funcionam de forma isolada, nem s&atilde;o o resultado de campanhas construtivas temporalmente unit&aacute;rias, nem, t&atilde;o pouco, s&atilde;o os &uacute;nicos elementos de um sistema militar que contou com outras realiza&ccedil;&otilde;es e outros momentos. A visibilidade arqueol&oacute;gica do <i>muro</i> do tempo de D. Dinis ou o lan&ccedil;o de muralha que avan&ccedil;a da Cerca Velha at&eacute; &agrave; Torre de S&atilde;o Pedro provam como a defesa da cidade foi um processo continuado, conjunturalmente avaliado em cada &eacute;poca, cujas etapas de constru&ccedil;&atilde;o s&atilde;o mais numerosas e carecem de um estudo tipol&oacute;gico concertado. &Eacute; nesse sentido que o trabalho de Artur Rocha no subsolo do Banco de Portugal deve ser articulado com as ac&ccedil;&otilde;es de Manuela Leit&atilde;o na Cerca Velha e com os de Ana Gomes no Castelo de S&atilde;o Jorge, a que se devem juntar muitos outros autores que t&ecirc;m vindo a investigar, de forma parcelar, aqueles monumentos. Mas &eacute; tamb&eacute;m importante que exista um plano integrado para todo este patrim&oacute;nio, no qual se inclua ainda a Cerca Fernandina e as sondagens mais ou menos isoladas que t&ecirc;m sido realizadas ao longo do seu percurso<a name="top16"></a><sup><a href="#16">16</a></sup>.</p>     <p>Finalizo com uma palavra sobre a excelente museografia do N&uacute;cleo de Interpreta&ccedil;&atilde;o da Muralha de D. Dinis. A visita &eacute; antecedida por uma anima&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica relativamente simples mas muito did&aacute;ctica, que passa em revista, em poucos segundos, a evolu&ccedil;&atilde;o da cidade desde a &eacute;poca medieval at&eacute; aos nossos dias e as diferentes op&ccedil;&otilde;es construtivas que foram tomadas para o local onde hoje se encontra o Banco de Portugal. A descida &agrave; muralha propriamente dita &eacute; acompanhada por um percurso descendente tamb&eacute;m em termos cronol&oacute;gicos, do mais recente para o mais antigo, que simula, em certa medida, a pr&oacute;pria evolu&ccedil;&atilde;o de uma escava&ccedil;&atilde;o arqueol&oacute;gica, ao longo do qual o visitante toma contacto com artefactos e outros objectos encontrados pelos arque&oacute;logos. O esp&oacute;lio &eacute; limitado e de import&acirc;ncia reduzida, mas as solu&ccedil;&otilde;es de exposi&ccedil;&atilde;o encontradas, a que n&atilde;o faltam anima&ccedil;&otilde;es tridimensionais das pe&ccedil;as, merecem ser elogiadas. Finalmente, o percurso pela muralha &eacute; acompanhado por discretas tabelas explicativas que contextualizam n&atilde;o s&oacute; a hist&oacute;ria da muralha, mas tamb&eacute;m as muitas cicatrizes que os tempos posteriores deixaram, assim indicando aos visitantes que est&atilde;o a observar um muro que, longe de alguma vez ter estado cristalizado no tempo, antes foi aproveitado para diversos fins ao longo da Hist&oacute;ria, sendo a sua musealiza&ccedil;&atilde;o apenas mais um momento. E isto &eacute; uma das coisas que se conseguem quando se junta dinheiro, compet&ecirc;ncia e bom gosto.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO</b></p>     <p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <p>FERNANDES, Paulo Almeida &ndash; &ldquo;Recens&atilde;o: BEIRANTE, Maria &Acirc;ngela &ndash; <i>Ao servi&ccedil;o da Rep&uacute;blica e do Bem Comum: os Vinte e Quatro dos Mesteres de &Eacute;vora, paradigma dos Vinte e Quatro da Covilh&atilde; (1535)</i>. Lisboa: Centro de Estudos Hist&oacute;ricos, 2014 (140 pp.)&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm; 20 (Julho &ndash; Dezembro 2016). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA20/costa2008.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA20/costa2008.html</a>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data do texto: 10 de Fevereiro de 2016</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><sup><a name="1"></a><a href="#top1">1</a></sup> Para a redac&ccedil;&atilde;o deste texto, quero manifestar o meu agradecimento a Catarina Tente (IEM/Univ. Nova de Lisboa), L&iacute;dia Fernandes (CML/Museu de Lisboa), Sara Barriga Brighenti e Artur Rocha (Museu do Dinheiro do Banco de Portugal) e Susana Serra (CML/EGEAC/Castelo de S&atilde;o Jorge).</p>     <p><sup><a name="2"></a><a href="#top2">2</a></sup> ROCHA, Artur &ndash; <i>A Muralha de D. Dinis...</i>, p. 28.</p>     <p><sup><a name="3"></a><a href="#top3">3</a></sup> SILVA, Augusto Vieira da &ndash; <i>As Muralhas da Ribeira de Lisboa</i>. 2.&ordf; ed. Lisboa: C&acirc;mara Municipal de Lisboa, 1940, p. 35.</p>     <p><sup><a name="4"></a><a href="#top4">4</a></sup> ROCHA, Artur &ndash; <i>A Muralha de D. Dinis...</i>, p. 29.</p>     <p><sup><a name="5"></a><a href="#top5">5</a></sup> FERNANDES, L&iacute;dia &ndash; &quot;A Muralha Fernandina de Lisboa: tro&ccedil;o existente na Escola Gil Vicente &ndash; Largo da Gra&ccedil;a&quot;. <i>Estudos Patrim&oacute;nio</i>, n. 5 (2003), p. 183.</p>     <p><sup><a name="6"></a><a href="#top6">6</a></sup> ROCHA, Artur &ndash; &quot;Uma muralha, v&aacute;rios percursos&quot;. <i>Revista Rossio</i>, n. 3 (2014), p. 85.</p>     <p><sup><a name="7"></a><a href="#top7">7</a></sup> MENEZES, Jos&eacute; de Vasconcellos e &ndash; &quot;Tercenas de Lisboa &ndash; II&quot;. <i>Lisboa. Revista Municipal</i>. 2.&ordf; S&eacute;rie, n. 17 (1986), p. 11.</p>     <p><sup><a name="8"></a><a href="#top8">8</a></sup> SILVA, Augusto Vieira da &ndash; <i>As Muralhas da Ribeira de Lisboa...</i>, p. 30.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><sup><a name="9"></a><a href="#top9">9</a></sup> LEIT&Atilde;O, Manuela &ndash; &quot;Muralhas de Lisboa&quot;. <i>Revista Rossio</i>, n. 3 (2014), pp. 66-67.</p>     <p><sup><a name="10"></a><a href="#top10">10</a></sup> FONTES, Lu&iacute;s; MACHADO, Andr&eacute;; CATAL&Atilde;O, Sofia &ndash; <i>Cerca Velha da rua da Judiaria e Torre de S. Pedro (Alfama)</i>. [Em linha]. Braga: Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, 2012. Dispon&iacute;vel em <a href="https://www.uaum.uminho.pt/edicoes/revistas" target="_blank">https://www.uaum.uminho.pt/edicoes/revistas</a></p>     <p><sup><a name="11"></a><a href="#top11">11</a></sup> ALMEIDA, Lu&iacute;s Filipe de &ndash; <i>Caracteriza&ccedil;&atilde;o das argamassas da muralha tardo-romana de Olisipo</i>. Lisboa: Faculdade de Ci&ecirc;ncias da Universidade de Lisboa, 2015. Projecto de Mestrado em Geologia Aplicada.</p>     <p><sup><a name="12"></a><a href="#top12">12</a></sup> GASPAR, Alexandra; GOMES, Ana &ndash; &quot;Castelo de S&atilde;o Jorge - balan&ccedil;o e perspectivas dos trabalhos arqueol&oacute;gicos&quot;. <i>Revista</i> <i>Estudos</i>, n. 4 (2003), pp. 214-223.</p>     <p><sup><a name="13"></a><a href="#top13">13</a></sup> SERRA, Susana &ndash; <i>Castelo de S&atilde;o Jorge. N&uacute;cleo Museol&oacute;gico</i>. Lisboa: EGEAC, 2008.</p>     <p><sup><a name="14"></a><a href="#top14">14</a></sup> BARCEL&Oacute;, Carmen &ndash; &quot;Lisboa y Almanzor (374H. / 985 d.C.)&quot;. <i>Conimbriga</i>, n. 57 (2013), pp. 165-194.</p>     <p><sup><a name="15"></a><a href="#top15">15</a></sup> PEREIRA, Gon&ccedil;alo &ndash; &quot;Cr&oacute;nicas do Castelo&quot;. <i>National Geographic Portugal</i> (Jan. 2016), pp. 20-31.</p>     <p><sup><a name="16"></a><a href="#top16">16</a></sup> &quot;Escava&ccedil;&otilde;es arqueol&oacute;gicas em curso junto ao miradouro da Gra&ccedil;a em Lisboa&quot;. <i>Di&aacute;rio de Not&iacute;cias</i> (14 Ago. 2015). Aguarda-se tamb&eacute;m com expectativa a publica&ccedil;&atilde;o de resultados da escava&ccedil;&atilde;o que Ant&oacute;nio Valongo coordenou na Rua do Arsenal, onde se identificou uma das mais importantes torres da muralha fernandina.</p> </p>     ]]></body>
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