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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A monstrificação dos irlandeses na imaginação geográfica de Giraldus Cambrensis]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Turning the Irish into monsters. The geographical imagination of Giraldus Cambrensis]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[By analyzing Topographia Hibernica, first topographical description of Ireland, written by the medieval chronicler Giraldus Cambrensis, this paper investigates how the British colonial discourse sought to legitimize the colonization of the territory turning the native inhabitants into monsters. By assigning the Irish, under the sign of abjection, all sorts of gender anomalies based on the representation of repertoires offered by medieval Teratology, Cambrensis characterized Ireland as a hotbed of monstrous sexualities and thus tries to naturalize colonization as a necessary civilizing process]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>A monstrifica&ccedil;&atilde;o dos irlandeses na imagina&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica de Giraldus Cambrensis</b></font></p>     <p><font size="3"><b>Turning the Irish into monsters. The geographical imagination of Giraldus Cambrensis</b></font></p>     <p><b>Raimundo Sousa<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup> Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras, Departamento de Letras, 31270-901 Belo Horizonte, Brasil. <i>E-mail:</i> <a href="mailto:raimundo_sousa@terra.com.br">raimundo_sousa@terra.com.br</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Mediante an&aacute;lise de <i>Topographia Hibernica</i>, primeira descri&ccedil;&atilde;o topogr&aacute;fica da Irlanda, empreendida pelo cronista medieval Giraldus Cambrensis, este ensaio investiga como o discurso colonial ingl&ecirc;s procurou legitimar a coloniza&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio por meio da monstrifica&ccedil;&atilde;o dos habitantes nativos. Ao atribuir aos irlandeses, sob o signo da abje&ccedil;&atilde;o, toda sorte de anomalias de g&ecirc;nero com base nos repert&oacute;rios de representa&ccedil;&atilde;o disponibilizados pela teratologia medieval, Cambrensis caracteriza a Irlanda como um celeiro de sexualidades monstruosas e, desse modo, procura naturalizar a coloniza&ccedil;&atilde;o como um necess&aacute;rio processo civilizador.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Discurso colonial, Giraldus Cambrensis, Imagina&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica, Irlanda, Monstrifica&ccedil;&atilde;o.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>By analyzing <i>Topographia Hibernica</i>, first topographical description of Ireland, written by the medieval chronicler Giraldus Cambrensis, this paper investigates how the British colonial discourse sought to legitimize the colonization of the territory turning the native inhabitants into monsters. By assigning the Irish, under the sign of abjection, all sorts of gender anomalies based on the representation of repertoires offered by medieval Teratology, Cambrensis characterized Ireland as a hotbed of monstrous sexualities and thus tries to naturalize colonization as a necessary civilizing process.</p>     <p><b>Keywords:</b> Colonial discourse, Giraldus Cambrensis, Geographical imagination, Ireland, Monstrification.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Monstra sane dicta perhibent a monstrando, quod aliquid significando, demonstrent; et ostenta ab obstendendo; et portenta a portendendo, id est praeostendendo; et prodigia, quod porro dicent, id est, futura praedicant.</i></p>     <p align="right">Augustinus Hipponensis,<i> De Civitate Dei</i></p>     <p>O atrelamento entre saber e poder, propalado por Francis Bacon e recodificado por Michel Foucault, exprime-se com propriedade em processos lingu&iacute;stico-discursivos como a representa&ccedil;&atilde;o &ndash; aqui compreendida, sob um prisma construcionista<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title="">[1]</a>, n&atilde;o como codifica&ccedil;&atilde;o especular de referentes aprior&iacute;sticos, mas, isto sim, como um sistema lingu&iacute;stico e cultural arbitr&aacute;rio e intrincado em rela&ccedil;&otilde;es de poder nas quais os significados s&atilde;o constitu&iacute;dos na e pela linguagem, os objetos a que estes remetem s&atilde;o forjados no ato mesmo de sua enuncia&ccedil;&atilde;o e as representa&ccedil;&otilde;es legitimadas estabelecem, embora nunca definitivamente, no&ccedil;&otilde;es de identidade e diferen&ccedil;a.</p>     <p>A operacionalidade das pr&aacute;ticas representacionais na constru&ccedil;&atilde;o da realidade se evidencia na no&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;o, que, <i>conforme Lefebvre, constitui-se na rela&ccedil;&atilde;o tensional </i>entre a materialidade e a imagina&ccedil;&atilde;o, de modo que n&atilde;o se pode conceb&ecirc;-lo como dado aprior&iacute;stico, mas, antes, como uma produ&ccedil;&atilde;o<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title="">[2]</a>. Em exemplo inequ&iacute;voco de como o espa&ccedil;o constitui um construto cultural, o cr&iacute;tico liter&aacute;rio ingl&ecirc;s William Hazlitt, em ensaio de 1821 intitulado &ldquo;Why distant objects please&rdquo; (&ldquo;Por que objetos distantes atraem&rdquo;), assumia um construcionismo <i>avant la lettre</i> ao explicar a atratividade dos espa&ccedil;os remotos para o exerc&iacute;cio da imagina&ccedil;&atilde;o: </p>     <p>&ldquo;Objetos distantes agradam porque, em primeiro lugar, implicam uma ideia de espa&ccedil;o e magnitude e porque, n&atilde;o estando muito pr&oacute;ximos de nossos olhos, n&oacute;s os vestimos com as cores indistintas e arejadas de fantasia. [...] Quando a paisagem desaparece da vista ma&ccedil;ante, n&oacute;s preenchemos o espa&ccedil;o estreito, sem visibilidade, com tons de desconhecido feitio, e tingimos a perspectiva nebulosa com esperan&ccedil;as, desejos e temores mais atraentes. [...] [T]udo quanto &eacute; colocado fora do alcance do sentido e do conhecimento, tudo o que &eacute; percebido de forma imperfeita, a fantasia acrescenta ao seu lazer&rdquo; <a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title="">[3]</a>.</p>     <p>Nessa pr&aacute;tica de significa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o raro inscrita em um sistema valorativo etnoc&ecirc;ntrico &ndash; e, portanto, calcada no enquadramento de alteridades etnogeogr&aacute;ficas em determinados <i>regimes de verdade</i> que lhes atribuem significados frequentemente caros &agrave; instaura&ccedil;&atilde;o e / ou manuten&ccedil;&atilde;o de assimetrias de poder &ndash;, o contato com uma cultura outra enseja um rito quase instant&acirc;neo, pautado na classifica&ccedil;&atilde;o desta, numa universaliza&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica de padr&otilde;es evolutivos e c&oacute;digos culturais, como sincr&ocirc;nica se an&aacute;loga &agrave; nossa ou anacr&ocirc;nica se estranha a nossos paradigmas. Assim, a inscri&ccedil;&atilde;o do Outro como par&acirc;metro para a defini&ccedil;&atilde;o, sim&eacute;trica ou contrastiva, de nossa pr&oacute;pria identidade, sinaliza que, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, os predicados que lhe atribu&iacute;mos informam menos acerca dessa nossa <i>exterioridade constitutiva</i><a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title="">[4]</a> do que de n&oacute;s mesmos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em macroesfera, essa rela&ccedil;&atilde;o projetiva atingiu express&atilde;o m&aacute;xima no imperialismo que, ao se valer de um exerc&iacute;cio textual pautado na produ&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica de g&ecirc;neros os mais diversos, conferiu respectivos estatutos de identidade e alteridade aos imp&eacute;rios e aos seus Outros, na medida em que a universaliza&ccedil;&atilde;o de paradigmas culturais etnoc&ecirc;ntricos chancelava polariza&ccedil;&otilde;es supostamente ontol&oacute;gicas que, por sua vez, legitimavam a instaura&ccedil;&atilde;o e / ou manuten&ccedil;&atilde;o de assimetrias de poder. Como, em um regime de representa&ccedil;&atilde;o etnologoc&ecirc;ntrico, a possibilidade de (auto-)legitima&ccedil;&atilde;o depende da prerrogativa de (d)(escre)ver, grupos despossu&iacute;dos de autoridade discursiva para legitimar sua autoetnografia s&atilde;o inscritos / escritos por aqueles que, situados em posi&ccedil;&atilde;o favor&aacute;vel nas rela&ccedil;&otilde;es de poder, fazem-no em conformidade com acep&ccedil;&otilde;es de cultura monocentrais cuja an&aacute;lise tem ocupado um veio dos estudos p&oacute;s-coloniais atento aos modos como o Ocidente metropolitano tem forjado discursivamente sua alteridade desde a descoberta do &ldquo;Novo Mundo&rdquo; aos neocolonialismos contempor&acirc;neos<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title="">[5]</a>.</p>     <p>Todavia, em disson&acirc;ncia com a profus&atilde;o de estudos acerca de processos de alteriza&ccedil;&atilde;o transcontinentais, pouco se tem atentado para a inven&ccedil;&atilde;o da alteridade no interior do territ&oacute;rio europeu, como se a Europa constitu&iacute;sse uma entidade homog&ecirc;nea, isenta de tens&otilde;es internas. No contrafluxo dessa tend&ecirc;ncia, que contradiz a agenda dos estudos p&oacute;s-coloniais pelo mesmo essencialismo ao qual esta se contrap&otilde;e, a aten&ccedil;&atilde;o para rela&ccedil;&otilde;es de saber / poder em representa&ccedil;&otilde;es intracontinentais pode, ao explorar os limites conceituais desse campo intelectual, expandir suas fronteiras para al&eacute;m da centralidade na dicotomia Europa / &ldquo;resto do mundo&rdquo; . Nessa perspectiva, o exame de como o discurso colonial ingl&ecirc;s significou a Irlanda pode evidenciar como a produ&ccedil;&atilde;o de categorias raciais anterior ao s&eacute;culo XX era mais complexa do que pressup&otilde;em alguns estudiosos do racismo, pois dependia menos da diferen&ccedil;a crom&aacute;tica, anatomicamente inscrita, do que de rela&ccedil;&otilde;es de poder que a forjavam discursivamente; afinal, j&aacute; que essa col&ocirc;nia situada na Europa mal possu&iacute;a tra&ccedil;os fenot&iacute;picos e particularidades geogr&aacute;ficas (i.e. clima, fauna e flora &ldquo;ex&oacute;ticos&rdquo;) que a distinguissem das na&ccedil;&otilde;es &ldquo;civilizadas&rdquo;, sua alteriza&ccedil;&atilde;o dependia de estrat&eacute;gias discursivas ainda mais contundentes do que aquelas de que o imp&eacute;rio se valia para justificar, por exemplo, a coloniza&ccedil;&atilde;o de regi&otilde;es africanas, americanas e asi&aacute;ticas.</p>     <p>Ao identificarem o racismo cultural como uma &ldquo;nova&rdquo; modalidade emergente na segunda metade do s&eacute;culo XX, pautada no deslocamento do foco em distin&ccedil;&otilde;es biol&oacute;gicas que fundamentavam o racismo cient&iacute;fico para a &ecirc;nfase em marcadores de diferen&ccedil;as culturais, estudiosos como Barker<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title="">[6]</a> e Gilroy<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title="">[7]</a> desconsideram que esse <i>modus operandi</i> supostamente mais sofisticado tem precedentes hist&oacute;ricos muito anteriores. Haja vista a alteriza&ccedil;&atilde;o da Irlanda pelo discurso colonial, processo que examinarei neste trabalho, ter-se assentado em disjun&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero pautadas na antinomia masculino / feminino &ndash; matriz estrutural para quaisquer outras distin&ccedil;&otilde;es bin&aacute;rias em um sistema de significa&ccedil;&atilde;o falologoc&ecirc;ntrico &ndash; a fim de estabelecer e naturalizar assimetrias de poder entre imp&eacute;rio e col&ocirc;nia.</p>     <p>De fato, longe de mera conven&ccedil;&atilde;o terminol&oacute;gica, o emprego ontologizante e homogeneizante da categoria &ldquo;Europa&rdquo; por acad&ecirc;micos vinculados aos estudos p&oacute;s-coloniais contradiz sua agenda pelo elogio do mesmo essencialismo a que o campo intelectual se contrap&otilde;e e, portanto, pela n&atilde;o percep&ccedil;&atilde;o de que o dualismo civiliza&ccedil;&atilde;o / barb&aacute;rie que sustentou a clivagem entre a &ldquo;Europa&rdquo; e sua exterioridade igualmente estabeleceu fronteiras intracontinentais. Na esteira de Said, que se refere ao Oriente como &ldquo;um lugar onde se podia buscar experi&ecirc;ncia sexual inalcan&ccedil;&aacute;vel na Europa&rdquo;<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title="">[8]</a>, gera&ccedil;&otilde;es de estudiosos desconsideram que a racializa&ccedil;&atilde;o pela generiza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m se deu no interior do continente e que a Irlanda tanto figurava como uma paragem mais pr&oacute;xima na busca por gratifica&ccedil;&atilde;o er&oacute;tica no circuito do desejo colonial quanto servia como &ldquo;laborat&oacute;rio&rdquo;, enquanto primeira col&ocirc;nia inglesa, para testagem de estrat&eacute;gias que orientariam coloniza&ccedil;&otilde;es ulteriores.</p>     <p>Contudo, a especificidade geof&iacute;sica da ilha, localizada adjuntamente &agrave; Inglaterra, impunha obst&aacute;culos &agrave; sua inven&ccedil;&atilde;o como ant&iacute;tese desta &uacute;ltima, obrigando o imp&eacute;rio a lan&ccedil;ar m&atilde;o de diferentes estrat&eacute;gias discursivas em conson&acirc;ncia com repert&oacute;rios de significa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;veis em diferentes contextos hist&oacute;ricos. Neste ensaio, parto do conceito de abje&ccedil;&atilde;o (do latim <i>ab-jicere</i>, expelir), tal como formulado por Kristeva<a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title="">[9]</a> e redimensionado por McClintock<a href="#_ftn10" name="_ftnref10" title="">[10]</a>, para argumentar, a partir da leitura de <i>Topographia Hibernica</i>, tratado etnotopogr&aacute;fico da Irlanda empreendido pelo cronista medieval Giraldus Cambrensis, que o imp&eacute;rio, a fim de constituir uma identidade est&aacute;vel, precisava lan&ccedil;ar fora tudo quanto amea&ccedil;asse sua unidade identit&aacute;ria. Assim, numa rela&ccedil;&atilde;o agon&iacute;stica em que se autolegitimava para definir a col&ocirc;nia em seus pr&oacute;prios termos, mas dependendo desta para sua pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o, o imp&eacute;rio a inscrevia como um objeto de saber e, primordialmente, como um objeto abjeto que servia, enquanto o Outro, como reposit&oacute;rio de tudo que o Eu (o imp&eacute;rio) negava em si mesmo. Gra&ccedil;as a esse investimento projetivo, a Irlanda definiria o imp&eacute;rio via negativa enquanto sua n&atilde;o-identidade estruturante, de forma que o discurso colonial se fixaria, em sua inven&ccedil;&atilde;o da col&ocirc;nia, na cataloga&ccedil;&atilde;o de tipos sociais abjetos que supostamente habitariam a Irlanda.</p>     <p align="center">*</p>     <p>Repartida em diversos reinos, a Irlanda pr&eacute;-colonial possu&iacute;a um ordenamento administrativo descentralizado que a vulnerabilizava em face de recorrentes investiduras estrangeiras, tal como quando, no s&eacute;culo XII, foi invadida pelos anglo-normandos em epis&oacute;dio hist&oacute;rico que abriria senda para a coloniza&ccedil;&atilde;o inglesa. Em meados do s&eacute;culo XII, a rivalidade entre Dermot MacMurrough, rei de Leinster, e Tiernan O&rsquo;Rourke, rei de Breifne, em disputas territoriais intestinas se acentuou quando o primeiro raptou a esposa do segundo. Deposto em 1167, Dermot se exilou na Inglaterra e, ao oferecer lealdade a Henry II, obteve suporte de cavaleiros normandos para recuperar seu territ&oacute;rio, mediante invas&atilde;o ocorrida em 1169. Tal incurs&atilde;o abriu margem para que, pouco depois, o pr&oacute;prio Henry II invadisse a Irlanda e a anexasse ao reino anglo-normando, mais tarde convertido no imp&eacute;rio ingl&ecirc;s <a href="#_ftn11" name="_ftnref11" title="">[11]</a>.</p>     <p>Nos prim&oacute;rdios da coloniza&ccedil;&atilde;o, o empecilho da proximidade entre metr&oacute;pole e col&ocirc;nia era contornado por uma imagina&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica que instalava esta &uacute;ltima numa espacialidade lim&iacute;trofe entre o habit&aacute;vel e o in&oacute;spito, entre o dom&iacute;nio humano e o reino dos prod&iacute;gios. Para tal, foi preponderante o exerc&iacute;cio e alteriza&ccedil;&atilde;o empreendido por Giraldus Cambrensis (1146-1223). Quando, em 1185, Pr&iacute;ncipe John foi &agrave; Irlanda consolidar o jugo anglo-normando sobre o territ&oacute;rio, o cronista gal&ecirc;s o acompanhou e, referendado pela experi&ecirc;ncia <i>in loco</i>, escreveu <i>Topographia Hibernica</i> (1187), texto fundador do discurso colonial na medida em que forneceu justifi&ccedil;&otilde;es imperialistas que seriam continuamente retomadas durante a era elisabetana <a href="#_ftn12" name="_ftnref12" title="">[12]</a>. Enviado como emiss&aacute;rio real, Cambrensis prestou-se a uma minuciosa descri&ccedil;&atilde;o da ilha numa obra que, informada pela organiza&ccedil;&atilde;o cosmol&oacute;gica e representa&ccedil;&atilde;o conc&ecirc;ntrica da <i>imago mundi</i> comum aos medievais, a localizava nas bordas mais extremas do ocidente e mesmo &agrave; parte do restante da terra, como se fosse &ldquo;um outro mundo&rdquo; <a href="#_ftn13" name="_ftnref13" title="">[13]</a>, inscrito no registro do maravilhoso. Afinal, para a cultura medieva, o maravilhoso &ndash; ou, nos termos da &eacute;poca, os <i>mirabilia</i> &ndash; tinha acep&ccedil;&atilde;o distinta da que lhe atribu&iacute;mos hodiernamente, pois n&atilde;o era um adjetivo sin&ocirc;nimo de admir&aacute;vel, mas uma ideia substantivada para designar um universo heter&oacute;clito &agrave; no&ccedil;&atilde;o de normalidade. Ao &ldquo;empurrar&rdquo; a ilha para os confins do globo, sugerindo seu alheamento em rela&ccedil;&atilde;o ao mundo civilizado, o autor a tomava menos como um &ldquo;texto&rdquo; a ser decodificado do que como uma folha em branco, &agrave; merc&ecirc; da imagina&ccedil;&atilde;o pr&eacute;-imperial, e assim a caracterizava como um viveiro de subhumanidades monstruosas cujas anomalias se manifestariam, sobretudo, sexualmente.</p>     <p>Cambrensis n&atilde;o foi, a bem dizer, o primeiro a escrever sobre a Irlanda. Ainda no s&eacute;culo primeiro d.C, o ge&oacute;grafo grego Estrab&atilde;o [Strabo] comentava em sua c&eacute;lebre <i>Geographia</i> [<i>&Gamma;&epsilon;&omega;&gamma;&rho;&alpha;&phi;&iota;&kappa;&#940;</i>] que a Irlanda seria habitada por uma gente &ldquo;mais selvagem do que os bret&otilde;es, alimentando-se de carne humana, (...) e considerando louv&aacute;vel devorar seus pais falecidos, bem como ter com&eacute;rcio abertamente (...) com suas pr&oacute;prias m&atilde;es e irm&atilde;s&rdquo; <a href="#_ftn14" name="_ftnref14" title="">[14]</a>. Todavia, a escolha de<i> Topographia Hibernica </i>como objeto de estudo se deve ao fato de que seu autor foi o primeiro estrangeiro a esbo&ccedil;ar um perfil etnotopogr&aacute;fico da Irlanda ap&oacute;s a conquista e, tendo em mira agradar ao rei, a quem dedicou o livro, representou a ilha com tamanha xenofobia que se tornaria refer&ecirc;ncia para diversos agentes imperiais subsequentes <a href="#_ftn15" name="_ftnref15" title="">[15]</a>. Donde a relev&acirc;ncia de examinar a obra de um agente pr&eacute;-imperial, j&aacute; que, embora a consolida&ccedil;&atilde;o do imp&eacute;rio brit&acirc;nico &ndash; i.e., com consistente centraliza&ccedil;&atilde;o estatal, disponibilidade de capital comercial, subs&iacute;dio ideol&oacute;gico do protestantismo, povoamento sistem&aacute;tico do territ&oacute;rio expropriado e investimento expansionista &ndash; s&oacute; ocorresse a partir do final do s&eacute;culo XVI <a href="#_ftn16" name="_ftnref16" title="">[16]</a>, Cambrensis forneceu bases para a forma&ccedil;&atilde;o de estere&oacute;tipos que sustentariam o imperialismo.</p>     <p>Os nativos, assim como descritos em <i>Topographia Hibernica</i>, mantinham tal iman&ecirc;ncia com a natureza que interagiam com a fauna local como se a ela pertencessem. Numa conjuntura em que a Igreja catalogava o bestialismo entre os pecados <i>contra naturam</i>, Cambrensis, que tamb&eacute;m era monge, identificava oportunamente sua voga entre os aut&oacute;ctones por meio de exemplos chocantes, tais como o &ldquo;indigno e nefando ato&rdquo; em que um bode copulava com uma mulher que o seduzira a fim de torn&aacute;-lo &ldquo;instrumento de gratifica&ccedil;&atilde;o para sua vol&uacute;pia bestial&rdquo; <a href="#_ftn17" name="_ftnref17" title="">[17]</a>. Tanto na an&aacute;lise jur&iacute;dica, em que penalizava a mulher como culpada por abdicar de sua prerrogativa como ser racional e se submeter a &ldquo;t&atilde;o torpe com&eacute;rcio com um animal bruto&rdquo; <a href="#_ftn18" name="_ftnref18" title="">[18]</a>, quanto na exegese b&iacute;blica, em que se fundamentava nas prescri&ccedil;&otilde;es do Lev&iacute;tico para sugerir que ambos deveriam ser igualmente exterminados, Cambrensis se empenhava em ressaltar n&atilde;o s&oacute; a animalidade da mulher irlandesa, mas tamb&eacute;m sua condi&ccedil;&atilde;o de mais &iacute;nfima do que as pr&oacute;prias bestas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Decerto com vistas a agradar ao Rei, que lhe confiara a escritura (em sentido textual) da terra devassada como escritura (em sentido legal) simb&oacute;lica de sua propriedade, o cronista procurava deslegitimar a autoridade dos reis locais e sua ascens&atilde;o ao poder pela monstrifica&ccedil;&atilde;o da cerim&ocirc;nia de posse como um rito bestial que, como sugere o relato seguinte, inclu&iacute;a fornica&ccedil;&atilde;o entre o ascendente ao trono e uma mula: </p>     <p>&ldquo;Estando todas as pessoas daquela terra [Ulster] reunidas em um lugar, uma mula branca &eacute; levada para o meio delas, e aquele que est&aacute; para ser empossado n&atilde;o como um pr&iacute;ncipe, mas como um bruto, n&atilde;o como um rei, mas como um criminoso, vem para diante das pessoas de quatro, mostrando-se uma besta com n&atilde;o menos impud&ecirc;ncia do que imprud&ecirc;ncia. Ap&oacute;s a mula ser imediatamente sacrificada, picada em peda&ccedil;os e cozida, um banho &eacute; preparado para ele daquele caldo. Sentado ali, ele come a carne que lhe &eacute; trazida, e as pessoas se postam em volta e partilham dela tamb&eacute;m. Ele ent&atilde;o deve beber do caldo no qual &eacute; banhado, n&atilde;o o tirando com nenhum recipiente, nem mesmo com a m&atilde;o, mas o lambendo com a boca. Tendo esses rituais sido cumpridos ilicitamente, sua autoridade real e seu poderio s&atilde;o ratificados&rdquo; <a href="#_ftn19" name="_ftnref19" title="">[19]</a>.</p>     <p>Cambrensis n&atilde;o apenas se dedicava &agrave; descri&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas de bestialismo como fazia quest&atilde;o de relacion&aacute;-las, em efeito de causalidade, com a profus&atilde;o de seres monstruosos que habitariam a ilha. A afei&ccedil;&atilde;o dos hib&eacute;rnicos pelo coito antinatural explicaria a exist&ecirc;ncia de criaturas como um &ldquo;homem-bezerro&rdquo;, nascido nas montanhas de Glendalough &ldquo;em virtude do com&eacute;rcio entre um homem e uma vaca&rdquo; <a href="#_ftn20" name="_ftnref20" title="">[20]</a>. Havia ainda um &ldquo;homem-boi&rdquo;, assim descrito:</p>     <p>&ldquo;Ele tinha um corpo inteiramente humano, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o das extremidades, que eram de um boi. Das juntas a partir das quais as m&atilde;os normalmente se estenderiam dos bra&ccedil;os e os p&eacute;s das canelas, ele exibia os cascos de um boi. Sua cabe&ccedil;a era totalmente careca, desfigurada pela calv&iacute;cie tanto atr&aacute;s quanto na frente, com apenas manchas pintadas aqui e acol&aacute; em vez de fios de cabelos. Seus olhos eram enormes e bovinos, muito em raz&atilde;o tanto de sua rotundidade quanto de sua colora&ccedil;&atilde;o. Ele tinha um rosto plano, sem protuber&acirc;ncia nenhuma sen&atilde;o duas narinas abertas no lugar de um nariz; ele n&atilde;o falava; em vez disso, apenas emitia um som alto e berrante&rdquo; <a href="#_ftn21" name="_ftnref21" title="">[21]</a>.</p>     <p>Paradoxalmente, o homem-animal estava, a um s&oacute; tempo, aqu&eacute;m e al&eacute;m do humano, pois, de um lado, padecia de car&ecirc;ncias que o rebaixavam da humanidade e, de outro, transcendia os limites da corporeidade humana. Conforme Agamben, a m&aacute;quina antropol&oacute;gica moderna emergiu quando se definia o homem pela ruptura entre o humano e o animal, tornando imperioso erradicar daquele tudo quanto remetesse &agrave; animalidade <a href="#_ftn22" name="_ftnref22" title="">[22]</a>. Todavia, para o imagin&aacute;rio medieval o alheio ao homem n&atilde;o derivava propriamente de seu componente animal, de sorte que os monstros n&atilde;o eram definidos pelo binarismo humanidade / animalidade. Donde a recorr&ecirc;ncia, em <i>Topographia Hibernica</i>, de monstros h&iacute;bridos que amalgamam o homem e o animal com implica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o de contraste, mas de complementaridade entre as duas partes. De fato, em sua liminaridade ontol&oacute;gica, monstros desconjuntados como esse &ldquo;homem-boi&rdquo; sugeriam um desmantelamento da polaridade natureza / cultura, cara aos medievais, e, alocados num espa&ccedil;o intersticial entre categorias antit&eacute;ticas, figuravam como tropologias para a especificidade dos irlandeses, cuja hibrida&ccedil;&atilde;o entre o animal e o humano exprimia a incompletude de sua transi&ccedil;&atilde;o do estado de natureza para o de cultura.</p>     <p>Tamb&eacute;m habitariam a ilha criaturas sexualmente h&iacute;bridas, cujo hermafroditismo refor&ccedil;ava o suposto desalinho de uma terra ca&oacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; harmonia c&oacute;smica. Enquanto os homens-bestas transcendiam a distin&ccedil;&atilde;o entre humanidade e animalidade, os(as) hermafroditas, em sua bipolaridade sexual estruturante, extrapolavam a estratifica&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nero, deslocando o binarismo homem / mulher. Haja vista uma criatura que &ldquo;comungava da natureza de ambos os sexos e era hermafrodita&rdquo;, pois &ldquo;[d]o lado direito do rosto tinha uma barba longa e densa [...], como um homem; e do lado esquerdo os l&aacute;bios e o queixo eram lisos e sem p&ecirc;los, como uma mulher&rdquo; <a href="#_ftn23" name="_ftnref23" title="">[23]</a>. Seres h&iacute;bridos, inscritos na liminaridade entre o humano e o animal, entre o masculino e o feminino, os monstros irlandeses n&atilde;o passavam de figuras tropol&oacute;gicas para metonimizar o desalinho da Irlanda com a civiliza&ccedil;&atilde;o e, assim, justificar a cristianiza&ccedil;&atilde;o mais ortodoxa e a pol&iacute;tica expropriat&oacute;ria inglesa. A ambiguidade de g&ecirc;nero, decorrente da inapreensividade em categorias estanques, inscrevia o(a) hermafrodita nos interst&iacute;cios do regime classificat&oacute;rio e assim exemplificava, pela meton&iacute;mia da desordem de g&ecirc;nero, o caos social em que a ilha supostamente se encontrava.</p>     <p>Contudo, essa inven&ccedil;&atilde;o da alteridade pela monstrifica&ccedil;&atilde;o deixa entrever a fragilidade dos pr&oacute;prios aparatos de representa&ccedil;&atilde;o protoimperialistas. Com efeito, o monstro, categorialmente inapreens&iacute;vel, ratifica a inconsist&ecirc;ncia de nossos regimes classificat&oacute;rios e, por conseguinte, imp&otilde;e desafio aos sistemas hier&aacute;rquicos bin&aacute;rios <a href="#_ftn24" name="_ftnref24" title="">[24]</a>. Esses entes inclassific&aacute;veis s&atilde;o sintom&aacute;ticos da incapacidade dos sistemas de classifica&ccedil;&atilde;o existentes acomodarem a complexa heterogeneidade dos seres. Afinal, tais sistemas se pautam no princ&iacute;pio da similitude, j&aacute; que, segundo Foucault, &ldquo;a hist&oacute;ria da ordem das coisas seria a hist&oacute;ria do Mesmo &ndash; daquilo que, para uma cultura, &eacute;, simultaneamente, disperso e aparentado, a ser distinguido por marcas e recolhido em identidades&rdquo; <a href="#_ftn25" name="_ftnref25" title="">[25]</a>. Se a sustentabilidade da taxonomia n&atilde;o prescinde do princ&iacute;pio da menor diferen&ccedil;a poss&iacute;vel entre as coisas, &eacute; precisamente gra&ccedil;as ao que extrapola as leis taxon&ocirc;micas que os sistemas de classifica&ccedil;&atilde;o passam por cont&iacute;nuos processos de reformula&ccedil;&atilde;o reveladores de sua precariedade. N&atilde;o &eacute; por outra raz&atilde;o que, segundo Kappler, </p>     <p>&ldquo;Procurar o monstro &eacute; uma ca&ccedil;a f&eacute;rtil e imprevis&iacute;vel: o monstro tende a escapar constantemente, o que &eacute; uma das atra&ccedil;&otilde;es dessa busca sem fim; &eacute; melhor dedicar-se a ele com flexibilidade, prazer e at&eacute; mesmo imagina&ccedil;&atilde;o do que persistir cegamente em uma &ldquo;l&oacute;gica&rdquo; inadequada; &eacute; melhor fazer uma arte do que um duelo, que seria conquistado por antecipa&ccedil;&atilde;o por esse advers&aacute;rio prot&eacute;ico&rdquo; <a href="#_ftn26" name="_ftnref26" title="">[26]</a>.</p>     <p>Como toda sociedade estabelece c&acirc;nones (est)&eacute;ticos informados por sua cosmovis&atilde;o, no Medievo tais c&acirc;nones eram balizados pelo cristianismo, assentado na concep&ccedil;&atilde;o do homem como cria&ccedil;&atilde;o da arquitetura divina. Assim, &ldquo;[o] crist&atilde;o, para quem o homem &eacute; feito &agrave; imagem de Deus, tem por monstro todo indiv&iacute;duo que se desvia muito representa&ccedil;&atilde;o que geralmente se faz da divindade&rdquo; <a href="#_ftn27" name="_ftnref27" title="">[27]</a>. Cambrensis, ao relatar nunca ter visto noutra na&ccedil;&atilde;o tantos indiv&iacute;duos &ldquo;com algum defeito natural&rdquo; e creditar tais malforma&ccedil;&otilde;es ao castigo divino frente &agrave; sordidez dos modos e costumes locais <a href="#_ftn28" name="_ftnref28" title="">[28]</a>, certamente se pautava em Agostinho de Hipona [<i>Augustinus </i><i>Hipponensis</i>], cuja influente reflex&atilde;o acerca do estatuto dos monstros partia da premissa de que Deus n&atilde;o seria capaz de criar seres imperfeitos sen&atilde;o como advert&ecirc;ncia aos homens &ndash; donde seu atrelamento, na ep&iacute;grafe deste ensaio, do termo <i>monstro </i>aos verbos <i>mostrar</i> e<i> demonstrar</i> <a href="#_ftn29" name="_ftnref29" title="">[29]</a>. Numa conjuntura em que a incapacidade do discurso m&eacute;dico explicar devidamente a incid&ecirc;ncia de portadores de anomalias provocadas por falhas ou altera&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas os relegava &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de monstros, aquele que hoje se enquadraria no tipo sociol&oacute;gico do <i>outsider </i>ou marginal figurava, no imagin&aacute;rio medieval, como ser monstruoso que poderia ser inventariado, dentro do besti&aacute;rio, ao lado de lobisomens, ciclopes e gigantes <a href="#_ftn30" name="_ftnref30" title="">[30]</a>. Assim, a concep&ccedil;&atilde;o agostiniana sobre a monstruosidade foi predominante na hermen&ecirc;utica do monstruoso at&eacute; o s&eacute;culo XIII <a href="#_ftn31" name="_ftnref31" title="">[31]</a>. Se, para essa teratologia medieval, os monstros deveriam ser interpretados pela &ldquo;mensagem&rdquo; que corporificavam, Cambrensis encontrou nessas figuras um dispositivo ret&oacute;rico crucial para a alteriza&ccedil;&atilde;o dos irlandeses ao investi-las didaticamente como sinais enviados por Deus para lhes &ldquo;mostrar&rdquo; sua reprova&ccedil;&atilde;o em face de seus maus costumes. Portanto, essa horda de homens-bestas e hermafroditas, resultantes de pr&aacute;ticas sexuais antip&aacute;ticas &agrave;s leis naturais e aos des&iacute;gnios divinos, n&atilde;o apenas inscrevia a Irlanda como o avesso dos c&oacute;digos de perfei&ccedil;&atilde;o f&iacute;sico-moral como, consequentemente, assinalava o imperativo da intercess&atilde;o civilizadora.</p>     <p>A &ecirc;nfase na disson&acirc;ncia entre a natureza opulenta da ilha, descrita como um &ldquo;reposit&oacute;rio especial&rdquo; da natureza, que ali estocava &ldquo;seus mais not&aacute;veis e preciosos tesouros&rdquo; <a href="#_ftn32" name="_ftnref32" title="">[32]</a>, e os aut&oacute;ctones desqualificados para merec&ecirc;-la, j&aacute; que, entregues aos mais torpes v&iacute;cios, n&atilde;o usufru&iacute;am devidamente das riquezas de que dispunham, constitui o nevr&aacute;lgico da monstrifica&ccedil;&atilde;o da sexualidade irlandesa em <i>Topographia Hibernica</i>: a justifica&ccedil;&atilde;o da prem&ecirc;ncia de uma interven&ccedil;&atilde;o empreendedora para atender ao clamor da natureza pela sua devida explora&ccedil;&atilde;o. Ao interpretar como barb&aacute;rie a disjun&ccedil;&atilde;o hib&eacute;rnica em face do paradigma extrativista e mercantil que se desenhava na metr&oacute;pole e ao denunciar a indol&ecirc;ncia dos irlandeses como insuflada pela deprava&ccedil;&atilde;o sexual, o cronista assumia o processo civilizador ingl&ecirc;s como lei universal para condenar o <i>modus vivendi</i> nativo como signo de sua estagna&ccedil;&atilde;o desenvolvimental. Assim, prenunciando a clivagem entre erotismo e trabalho em que o capitalismo se fundaria <a href="#_ftn33" name="_ftnref33" title="">[33]</a>, denunciava que enquanto a civiliza&ccedil;&atilde;o rumava para um progresso material que demandava explora&ccedil;&atilde;o otimizada de mat&eacute;rias-primas, a Irlanda seguia uma ordem inversa, na qual a prodigalidade de monstros ali engendrados seria a express&atilde;o mais inequ&iacute;voca de seu abandono &agrave; impudic&iacute;cia.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Informados pelo clericalismo, os estere&oacute;tipos imputados aos irlandeses eram balizados, n&atilde;o raro, por um sistema de representa&ccedil;&atilde;o bipolar que cindia Carne e Esp&iacute;rito, Bem e Mal, Deus e Sat&atilde;. Assim como Deus e Diabo, entidades interdependentes, adquirem significado t&atilde;o-somente pela rela&ccedil;&atilde;o oposicional entre si, tamb&eacute;m a Inglaterra precisava ter como contrapartida uma Irlanda demon&iacute;aca para se legitimar crist&atilde; e, desse modo, justificar o imperativo da interven&ccedil;&atilde;o cristianizadora. Contudo, uma vez que, diferentemente dos amer&iacute;ndios e africanos, os irlandeses se haviam cristianizado <i>a priori</i> da conquista, a miss&atilde;o evangelizadora como justificativa do intervencionismo seria invi&aacute;vel se n&atilde;o chancelada pela comprova&ccedil;&atilde;o de que o Diabo n&atilde;o fora eficazmente expulso da ilha. E tal comprova&ccedil;&atilde;o se daria, sobretudo, pela demoniza&ccedil;&atilde;o da sexualidade nativa.</p>     <p>Quando do encontro colonial, o catolicismo irland&ecirc;s, longe de apartado das pr&aacute;ticas sociais mundanas, encontrava-se embebido em um caldo cultural balizado pela interpenetra&ccedil;&atilde;o de legados os mais diversos. Entretanto, os agentes imperiais, inscritos numa ordem do discurso intolerante ao sincretismo, exconjuravam suas liturgias como rituais t&atilde;o macabros quanto libertinos. Em um dos exemplos mais pungentes de demoniza&ccedil;&atilde;o do cristianismo heterodoxo dos irlandeses pelo discurso colonial, Cambrensis assim descreve um rito inici&aacute;tico que seria praticado em igrejas locais:</p>     <p>&ldquo;Quando desejam filiar algu&eacute;m, eles se arregimentam, em sua companhia, em algum lugar sagrado, sob o pretexto de congrega&ccedil;&atilde;o religiosa e pac&iacute;fica. Primeiramente, eles seguem em prociss&atilde;o ao redor da igreja; depois, adentrando-a, re&uacute;nem-se numa alian&ccedil;a indissol&uacute;vel defronte ao altar, com juramentos prodigamente multiplicados sobre as rel&iacute;quias dos santos e confirmados pela celebra&ccedil;&atilde;o da missa e pelas ora&ccedil;&otilde;es dos santos sacerdotes, tal como se fosse uma alian&ccedil;a solene. Finalmente, como ratifica&ccedil;&atilde;o ainda mais forte de sua liga [...], eles bebem o sangue uns dos outros, que &eacute; derramado com esse prop&oacute;sito. [&hellip;] Quantas vezes, no pr&oacute;prio ato de tal alian&ccedil;a sendo feita por homens sangrentos e enganosos, tanto sangue tenha sido derramado fraudulenta e iniquamente, que um ou outro tenha desmaiado no local! Quantas vezes o mesmo instante que testemunhou o contrato, ou que se lhe seguiu, viu-o ser quebrado de maneira in&eacute;dita por um div&oacute;rcio sangrento!&rdquo; <a href="#_ftn34" name="_ftnref34" title="">[34]</a>.</p>     <p>Como sugere a passagem, a fei&ccedil;&atilde;o diab&oacute;lica da firma&ccedil;&atilde;o da &ldquo;alian&ccedil;a&rdquo; defronte ao altar residia em sua carnavaliza&ccedil;&atilde;o da missa tradicional numa apropria&ccedil;&atilde;o disruptiva que dessacralizava o rito solene, investindo-o de significa&ccedil;&atilde;o profana e, mais ainda, trazia &agrave; tona a natureza canibal&iacute;stica da pr&oacute;pria missa na qual o sangue de Cristo &eacute; consumido simbolicamente. O relato insinua, ainda, a presen&ccedil;a do homoerotismo como catalizador da cerim&ocirc;nia ao acentuar a conota&ccedil;&atilde;o marital da uni&atilde;o sacramentada pela degusta&ccedil;&atilde;o coletiva do sangue de outrem numa carnavaliza&ccedil;&atilde;o da Sagrada Eucaristia mediante o rito homoer&oacute;tico balizado pela troca de fluidos corporais.</p>     <p align="center">*</p>     <p>A fabrica&ccedil;&atilde;o do monstro se assenta, basilarmente, na deforma&ccedil;&atilde;o por implicar conjun&ccedil;&atilde;o disjuntiva mediante amalgama&ccedil;&atilde;o de partes incongruentes. Williams observa que, para Isidoro de Sevilha, um dos primeiros a versar sobre o tema, o ser monstruoso se constitui por meio dos seguintes processos:</p>     <p>&ldquo;(1) hipertrofia do corpo, (2) atrofia do corpo, (3) excresc&ecirc;ncia de partes corporais, (4) superfluidade de partes corporais, (5) priva&ccedil;&atilde;o de pe&ccedil;as, (6) mistura de partes do corpo humano e de animais, (7) nascimentos de animais por mulheres humanas, (8) m&aacute; localiza&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os ou partes do corpo (9), crescimento disparatado (nascer velho), (10) seres compostos, (11) hermafroditas, (12) ra&ccedil;as monstruosas&rdquo; <a href="#_ftn35" name="_ftnref35" title="">[35]</a>.</p>     <p>Conforme exposto neste ensaio, a Irlanda, tal como monstrificada por Cambrensis, constitu&iacute;a um viveiro de seres monstruosos cuja deforma&ccedil;&atilde;o obedecia a v&aacute;rios dos crit&eacute;rios supracitados. Como dispositivo representacional vinculado ao discurso protoimperialista, a monstrifica&ccedil;&atilde;o figurou como forma de inscrever a Irlanda como alteridade absoluta do que s&eacute;culos mais tarde se constituiria como imp&eacute;rio ingl&ecirc;s. Assim como no imagin&aacute;rio ocidental o homem <a href="#_ftn36" name="_ftnref36" title="">[36]</a> foi designado apol&iacute;neo e racional, em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; mulher, supostamente dionis&iacute;aca e instintiva, o imp&eacute;rio ingl&ecirc;s se definiu pela mesma dicotomia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; col&ocirc;nia irlandesa, na medida em que, assentado numa equa&ccedil;&atilde;o dualista que codificava a (cons)ci&ecirc;ncia como masculina e do objeto de saber como feminino, dependeu largamente de estratifica&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero para referendar medidas intervencionistas e explorat&oacute;rias.</p>     <p>Uma vez que o corpo monstruoso incita, em seu caos formal, n&atilde;o apenas o olhar como, sobretudo, o olhar a partir de uma mirada ordenadora, a inven&ccedil;&atilde;o da Irlanda como um reduto de sexualidades monstruosas dava cau&ccedil;&atilde;o ao projeto protoimperialista na medida em que a interven&ccedil;&atilde;o inglesa teria como justificativa a &ldquo;humaniza&ccedil;&atilde;o&rdquo; dos h&aacute;bitos locais. Por isso os monstros irlandeses, na qualidade de abjetos, isto &eacute;, <i>expelidos</i>, n&atilde;o s&atilde;o mais do que p&oacute;los invertidos do ordenamento social idealizado pelo imp&eacute;rio, que, &aacute;vido por ratificar sua identidade cultural civilizada, procurava contrastivamente na col&ocirc;nia e em seus habitantes uma imagem est&aacute;vel de si mesmo. Se considerarmos que o monstro, enquanto proje&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria de temores e ansiedades, corporifica tudo quanto &eacute; recalcado pela cultura dominante ou relegado ao dom&iacute;nio da abje&ccedil;&atilde;o e por isso emerge em conjunturas de crise como um terceiro termo que problematiza polaridades<a href="#_ftn37" name="_ftnref37" title="">[37]</a>, os corpos monstruosos dos irlandeses tamb&eacute;m constituem vest&iacute;gios das estruturas imagin&aacute;rias com que se atribu&iacute;a sentido ao desconhecido e ao amedrontador.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></p>     <p><b>Fontes</b></p>     <p>AUGUSTINUS &ndash; <i>De Civitate Dei</i>. Venetiis: N. Jensen, 1475.</p>     <p>CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica, et Expurgatio Hibernica</i>. Ed. James F. Dimock. London: Longmans, Green, Reader, and Dyer, 1867.</p>     <p>HAZLITT, William &ndash; &ldquo;Why distant objects please&rdquo;. in <i>Table Talk</i>. Vol. II. London: Henry Colburn and Co., 1822, pp. 219-238.</p>     <p>STRABO &ndash; <i>The Geography of Strabo</i>. Trad. H.C. Hamilton (vol. I a VI) e W. Falconer. Vol. I. London: Henry G. Bohn, 1854.</p>     <p><b>Estudos</b></p>     <p>AGAMBEN, Giorgio &ndash;<i> L&rsquo;aperto. L&rsquo;uomo e l&rsquo;animale.</i> Torino: Bollati Boringhieri, 2002.</p>     <p>BARKER, Martin &ndash; <i>The New Racism: Conservatives and the ideology of the tribe</i>. London: Junction Books, 1981.</p>     <p>BENSHOFF, Harry &ndash; <i>Monsters in the Closet: Homosexuality and the Horror Film</i>. New York: Manchester University Press, 1997.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>BERNHEIMER, Richard &ndash; <i>Wild Men in the Middle Ages</i>. Cambridge: Harvard University Press,&nbsp;<i>1952.</i></p>     <p>BRADSHAW, Brendan; HADFIELD, Andrew; MALLEY, Willy (ed.) &ndash; <i>Representing Ireland: Literature and the Origins of Conflict 1534-1660</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.</p>     <p>CIXOUS, Helene &ndash; &ldquo;Sorties: Out and Out: Attacks/Ways Out/Forays&rdquo;. in CIXOUS, Helene; CLEMENT, Catherine &ndash; <i>The Newly Born Woman</i>. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1986, pp. 63-132.</p>     <p>COHEN, Jeffrey &ndash; <i>Monster Theory: Reading Culture</i>. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.</p>     <p>COSGROVE, Art. (ed.) &ndash; <i>A New History of Ireland</i>:<i> Volume II Medieval Ireland 1169-1534</i>. Oxford: Clarendon Press, 1987.</p>     <p>FOUCAULT, Michel &ndash; <i>Les mots et les choses: une archeologie des sciences humaines</i>. Paris: Gallimard, 1966.</p>     <p>GILROY, Paul &ndash; <i>There Ain&rsquo;t No Black in the Union Jack: The Cultural Politics of Race and Nation</i>. Chicago: University of Chicago Press, 1987.</p>     <p>HARPER-BILL, Christopher; VAN HOUTS, Elisabeth (ed.) &ndash; <i>A Companion to the Anglo-Norman World.</i> Woodbridge: Boydell, 2003.</p>     <p>HULME, Peter &ndash; <i>Colonial Encounters: Europe and the Native Caribbean</i>. London: Methuen, 1986.</p>     <p>KAPPLER, Claude &ndash; <i>Monstres, d&eacute;mons et merveilles &agrave; la fin du Moyen Age</i>. Paris: Payot, 1980.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>KENNY, Kevin &ndash; &ldquo;The Irish in the Empire&rdquo;. in KENNY, Kevin (ed.) &ndash; <i>Ireland and the British Empire</i>. Oxford: Oxford University Press, 2004, pp. 90-122.</p>     <p>KRISTEVA, Julia &ndash; <i>Powers of Horror: An Essay on Abjection</i>. New York: Columbia University Press, 1982.</p>     <p>LECOUTEUX, Claude &ndash; <i>Les monstres dans la pens&eacute;e m&eacute;di&eacute;vale europ&eacute;enne.</i> Paris: Presses de l&rsquo;Universit&eacute; de Paris-Sorbonne, 1993.</p>     <p><i>LEFEBVRE</i>, Henri &ndash; <i>La production de l&rsquo;espace.</i> Paris: &Eacute;ditions Anthropos, 1974.</p>     <p>MARCUSE, Herbert &ndash;&nbsp;<i>Eros und Kultur: Ein philosophischer Beitrag zu Sigmund Freud.</i> Stuttgart: Klett,&nbsp;1957.&nbsp;</p>     <p>MCCLINTOCK, Anne &ndash; <i>Imperial Leather: race, gender and sexuality in the colonial contest</i>.London: Routledge, 1995.</p>     <p>MCVEIGH, Robbie; ROLSTON, Bill &ndash; &ldquo;Civilising the Irish&rdquo;. in <i>Race &amp; Class</i> v. 51, 1 (2009), pp. 2-28.</p>     <p>PRATT, Mary Louise &ndash; <i>Imperial Eyes: Travel Writing and Transculturation.</i> London, New York: Routledge, 1992.</p>     <p>WILLIAMS, David &ndash; <i>Deformed Discourse: The Function of the Monster in Medieval Thought and Literature</i>. Exeter: University Exeter Press, 1996.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO</b></p>     <p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <p>SOUSA, Raimundo &ndash; &ldquo;A monstrifica&ccedil;&atilde;o dos irlandeses na imagina&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica de Giraldus Cambrensis&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm; 21 (Janeiro &ndash; Junho 2017). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA21/sousa2104.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA21/sousa2104.html</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data recep&ccedil;&atilde;o do artigo: 21 de Janeiro de 2016</p>     <p>Data aceita&ccedil;&atilde;o do artigo: 5 de Setembro de 2016</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a> H&aacute;,<i> grosso modo</i>, tr&ecirc;s abordagens concernentes &agrave; significa&ccedil;&atilde;o pela linguagem: a <i>reflexiva</i>, a <i>intencional</i> e a <i>construcionista</i>. A primeira pressup&otilde;e transpar&ecirc;ncia entre signos e coisas, cabendo &agrave; linguagem atuar meramente como um &ldquo;espelho&rdquo; refletor do real. A segunda, por sua vez, reduz a representa&ccedil;&atilde;o &agrave;s inten&ccedil;&otilde;es do autor, tomando-o como detentor &uacute;nico de um significado restrito &agrave;s suas pretens&otilde;es de significa&ccedil;&atilde;o, e ignora a natureza interativa da linguagem, desconsiderando que a constru&ccedil;&atilde;o de sentidos depende de conven&ccedil;&otilde;es lingu&iacute;sticas e c&oacute;digos partilhados. J&aacute; a terceira, debit&aacute;ria do redimensionamento do conceito de linguagem pela <i>virada lingu&iacute;stica</i>, reconhece o car&aacute;ter coletivo dos processos lingu&iacute;sticos, assumindo que os significados s&atilde;o constitu&iacute;dos na e pela linguagem, e n&atilde;o confunde o mundo material com as pr&aacute;ticas e os processos simb&oacute;licos por que esta opera nem nega a exist&ecirc;ncia deste, pois os significados n&atilde;o s&atilde;o forjados pelo mundo material, mas, antes, pelos sistemas lingu&iacute;sticos atuantes como <i>medium</i> de interpreta&ccedil;&atilde;o, codifica&ccedil;&atilde;o e atribui&ccedil;&atilde;o de sentidos a ele. Portanto, essa perspectiva considera que o sentido, em vez de intr&iacute;nseco &agrave; materialidade do signo, &eacute; constru&iacute;do conforme a fun&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica que lhe &eacute; imputada; considera, ainda, que n&atilde;o se reflete o mundo ao represent&aacute;-lo, mas de fato se o cria, uma vez que &eacute; precisamente a media&ccedil;&atilde;o dos sistemas de significa&ccedil;&atilde;o que o torna intelig&iacute;vel. HALL, Stuart &ndash; &ldquo;The Work of Representation&rdquo;. in HALL, Stuart (ed.) &ndash; <i>Representation</i>: <i>Cultural Representations and Signifying Practices</i>. London: Sage, 2003, pp. 13-64.</p>     <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a> LEFEBVRE, Henri &ndash; <i>La production de l&rsquo;espace.</i>&nbsp; Paris: &Eacute;ditions Anthropos, 1974.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a> HAZLITT, William &ndash; &ldquo;Why distant objects please&rdquo;. in <i>Table Talk</i>. Vol. II. London: Henry Colburn and Co., 1822, pp. 219-238. No original: &ldquo;Distant objects please, because, in the first place, they imply an idea of space and magnitude, and because, not being obtruded too close upon the eye, we clothe them with the indistinct and airy colours of fancy. [&hellip;] Where the landscape fades from the dull sight, we fill the thin, viewless space with shapes of unknown good, and tinge the hazy prospect with hopes and wishes and more charming fears. [&hellip;] [w]hatever is placed beyond the reach of sense and knowledge, whatever is imperfectly discerned, the fancy pieces out at its leisure&rdquo;. Tradu&ccedil;&atilde;o do autor.</p>     <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a> Express&atilde;o tomada de empr&eacute;stimo a Hall, para quem &ldquo;&eacute; apenas mediante a rela&ccedil;&atilde;o com o Outro, a rela&ccedil;&atilde;o com o que n&atilde;o &eacute;, com precisamente o que falta, com o que se tem chamado de sua <i>exterioridade constitutiva</i>, que o sentido &lsquo;positivo&rsquo; de qualquer termo &ndash; e, portanto, a sua &lsquo;identidade&rsquo; &ndash; pode ser constru&iacute;do&rdquo;. HALL, Stuart &ndash; &ldquo;Introduction: Who Needs Identity?&rdquo;. in HALL, Stuart; DU GAY, Paul (ed.) &ndash; <i>Questions of Cultural Identity</i>. London: Sage, 1996, pp. 1-17.</p>     <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a> Veja-se SAID, Edward &ndash; <i>Orientalism: Western Conceptions of the Orient</i>. New York: Pantheon Books, 1978; HULME, Peter &ndash; <i>Colonial Encounters</i>: <i>Europe and the Native Caribbean</i>. London: Methuen, 1986; PRATT, Mary Louise &ndash; <i>Imperial Eyes</i>: <i>Travel Writing and Transculturation.</i> London, New York: Routledge, 1992; MCCLINTOCK, Anne &ndash; <i>Imperial Leather</i>:<i> race, gender and sexuality in the colonial contest</i>. London: Routledge, 1995.</p>     <p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a> BARKER, Martin &ndash; <i>The New Racism</i>: <i>Conservatives and the ideology of the tribe</i>. London: Junction Books, 1981.</p>     <p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title="">[7]</a> GILROY, Paul &ndash; <i>There Ain&rsquo;t No Black in the Union Jack</i>: <i>The Cultural Politics of Race and Nation</i>. Chicago: University of Chicago Press, 1987.</p>     <p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title="">[8]</a> SAID, Edward &#8211; Orientalism..., p. 190.</p>     <p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title="">[9]</a> KRISTEVA, Julia &ndash; <i>Powers of Horror: An Essay on Abjection</i>. New York: Columbia University Press, 1982.</p>     <p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10" title="">[10]</a> MCCLINTOCK, Anne &ndash; <i>Imperial Leather</i>...</p>     <p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11" title="">[11]</a> Veja-se COSGROVE, Art. (ed.) &ndash; <i>A New History of Ireland</i>: <i>Volume II Medieval Ireland 1169-1534</i>. Oxford: Clarendon Press, 1987; HARPER-BILL, Christopher; VAN HOUTS, Elisabeth (ed.) &ndash; <i>A Companion to the Anglo-Norman World.</i> Woodbridge: Boydell, 2003.</p>     <p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12" title="">[12]</a> Confira-se BRADSHAW, Brendan; HADFIELD, Andrew; MALLEY, Willy (ed.) &ndash; <i>Representing Ireland: Literature and the Origins of Conflict 1534-1660</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13" title="">[13]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica, et Expurgatio Hibernica</i>. Ed. James F. Dimock. London: Longmans, Green, Reader, and Dyer, 1867, p. 23.</p>     <p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14" title="">[14]</a> STRABO &ndash; <i>The Geography of Strabo</i>. Trad. H.C. Hamilton (vol. I a VI) e W. Falconer. Vol. I. London: Henry G. Bohn, 1854, pp. 298-299.</p>     <p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15" title="">[15]</a> MCVEIGH, Robbie; ROLSTON, Bill &ndash; &ldquo;Civilising the Irish&rdquo;. <i>Race &amp; Class</i> v. 51, 1 (2009), pp. 2-28.</p>     <p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16" title="">[16]</a> Veja-se KENNY, Kevin &ndash; &ldquo;The Irish in the Empire&rdquo;. in KENNY, Kevin (ed.) &ndash; <i>Ireland and the British Empire</i>. Oxford: Oxford University Press, 2004, pp. 90-122.</p>     <p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17" title="">[17]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica&hellip;</i>, p. 110.</p>     <p><a href="#_ftnref18" name="_ftn18" title="">[18]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica&hellip;</i>, p. 169.</p>     <p><a href="#_ftnref19" name="_ftn19" title="">[19]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica&hellip;</i>, p. 169. No original: &ldquo;<i>Collecto in unum universo terrae [Ulster] illius populo, in medium producitur jumentum candidum. Ad quod sublimandus ille non in principem sed in beluam, non in regem sed exlegem, coram omnibus bestialiter accedens, non minus impudenter quam imprudenter se quoque bestiam profitetur. Et statim jumento interfecto, et frustatim in aqua decocto, in eadem aqua balneum ei paratur. Cui insidens, de carnibus illis sibi allatis, circumstante populo suo et convescente, comedit ipse. De jure quoque quo lavatur, non vase aliquo, non manu, sed ore tantum circumquaque liaurit et bibit. Quibus ita rite, non recte completis, regnum illius et dominium est confirmatum</i>&rdquo;. Tradu&ccedil;&atilde;o do autor.</p>     <p><a href="#_ftnref20" name="_ftn20" title="">[20]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica&hellip;</i>, p. 108.</p>     <p><a href="#_ftnref21" name="_ftn21" title="">[21]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica&hellip;</i>, p. 108. No original: &ldquo;<i>Habebat enim totum corpus humanum praeter extremitates, quae bovinae fuerant. A juncturis namque quibus et manus a brachiis, et pedes a tibiis porriguntur, ungulas bovis expressas praeferebat. Caput ei sine crine totum; tam in occipite, quam anteriori parte, calvitio deforme; raras tantum lanugines per loca pro capillis habens. Oculi grossi; tam rotunditate quam colore bovini. Facies oretenus subinde plana; pro naso, praeter duo narium foramina, nullam eminentiam habens. Verba ei nulla. Mugitum enim tantum pro sermone reddebat</i>&rdquo;. Tradu&ccedil;&atilde;o do autor.</p>     <p><a href="#_ftnref22" name="_ftn22" title="">[22]</a> AGAMBEN,&nbsp;Giorgio &ndash;<i> L&rsquo;aperto.</i>&nbsp;<i>L&rsquo;uomo e l&rsquo;animale.</i> Torino: Bollati Boringhieri, 2002.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref23" name="_ftn23" title="">[23]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica&hellip;</i>, p. 107.</p>     <p><a href="#_ftnref24" name="_ftn24" title="">[24]</a> Confira-se COHEN, Jeffrey &ndash; <i>Monster Theory:</i> <i>Reading Culture</i>. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996; WILLIAMS, David &ndash; <i>Deformed Discourse: The Function of the Monster in Medieval Thought and Literature</i>. Exeter: University Exeter Press, 1996.</p>     <p><a href="#_ftnref25" name="_ftn25" title="">[25]</a> FOUCAULT, Michel &ndash; <i>Les mots et les choses: une archeologie des sciences humaines</i>. Paris: Gallimard, 1966, p. 15. No original: &ldquo;<i>l&rsquo;histoire</i>&nbsp;de l&rsquo;<i>ordre</i>&nbsp;des&nbsp;<i>choses serait</i>&nbsp;l&rsquo;<i>histoire</i>&nbsp;du&nbsp;<i>M&ecirc;me</i>, &ndash; de ce&nbsp;<i>qui pour</i>&nbsp;une&nbsp;<i>culture est</i>&nbsp;&agrave; la&nbsp;<i>fois dispers&eacute;</i>&nbsp;et&nbsp;<i>apparent&eacute;</i>,&nbsp;<i>donc</i>&nbsp;&agrave;&nbsp;<i>distinguer</i>&nbsp;par des&nbsp;<i>marques</i>&nbsp;et &agrave; recueillir dans des identit&eacute;s&rdquo;. Tradu&ccedil;&atilde;o do autor.</p>     <p><a href="#_ftnref26" name="_ftn26" title="">[26]</a> KAPPLER, Claude &ndash; <i>Monstres, d&eacute;mons et merveilles &agrave; la fin du Moyen Age</i>. Paris: Payot, 1980, p. 14. No original: &ldquo;Chercher le monstre est une chasse fertile et impr&eacute;vus: le monstre, constamment, tend &agrave; s&rsquo;&eacute;chapper et c&rsquo;est l&agrave; l&rsquo;un des charmes de cette poursuite sans fin; mieux vaut s&rsquo;y adonner avec souplesse, avec plaisir et m&ecirc;me avec fantasie, que s&rsquo;obstiner aveugl&eacute;ment dans une &lsquo;logique&rsquo; inad&eacute;quate; mieux vaut en faire un art qu&rsquo;un duel, lequel serait gagn&eacute; d&rsquo;avance par cet adversaire prot&eacute;iforme&rdquo;. Tradu&ccedil;&atilde;o do autor.</p>     <p><a href="#_ftnref27" name="_ftn27" title="">[27]</a> LECOUTEUX, Claude &ndash; <i>Les monstres dans la pens&eacute;e m&eacute;di&eacute;vale europ&eacute;enne.</i><i>&nbsp;</i>Paris: Presses de l&rsquo;Universit&eacute; de Paris-Sorbonne, 1993, p. 11. No original: &ldquo;Le chr&eacute;tien pour qui l&rsquo;homme est fait &agrave; l&rsquo;image de Dieu, tient pour un monstre tout individu qui s&rsquo;&eacute;carte par trop de la repr&eacute;sentation qu&rsquo;on se fait habituellement de la divinit&eacute;&rdquo;. Tradu&ccedil;&atilde;o do autor.</p>     <p><a href="#_ftnref28" name="_ftn28" title="">[28]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica&hellip;</i>, p. 181.</p>     <p><a href="#_ftnref29" name="_ftn29" title="">[29]</a> AUGUSTINUS &ndash; <i>De Civitate Dei</i>. Venetiis: N. Jensen, 1475.</p>     <p><a href="#_ftnref30" name="_ftn30" title="">[30]</a> LECOUTEUX, Claude &ndash; <i>Les monstres..</i>.</p>     <p><a href="#_ftnref31" name="_ftn31" title="">[31]</a> WILLIAMS, David &ndash; <i>Deformed Discourse..</i>.</p>     <p><a href="#_ftnref32" name="_ftn32" title="">[32]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica&hellip;</i>, p. 23.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref33" name="_ftn33" title="">[33]</a> Veja-se MARCUSE, Herbert &ndash;&nbsp;<i>Eros und Kultur: Ein philosophischer Beitrag zu Sigmund Freud.</i> Stuttgart: Klett,&nbsp;1957.&nbsp;</p>     <p><a href="#_ftnref34" name="_ftn34" title="">[34]</a> CAMBRENSIS, Giraldus &ndash; <i>Topographia Hibernica&hellip;</i>, p. 167. No original: &ldquo;<i>Sub religionis et pacis obtentu ad sacrum aliquem locum conveniunt, cum eo quem oppetere cupiunt. Primo compaternitatis foedera jungunt: deinde ter circa ecclesiam se invicem portant: postmodum ecclesiam intrantes, coram altari reliquiis sanctorum appositis, sacramentis multifarie praestitis, demum missae celebratione, et orationibus sacerdotum, tanquam desponsatione quadam indissolubiliter foederantur. Ad ultimum vero, ad majorem amicitiae confirmationem, [...] sanguinem sponte ad hoc fusum uterque alterius bibit </i><i>[...]. O quoties in ipso desponsationis hujus articulo, a viris sanguinum et dolosis tam dolose et inique funditur sanguis, ut alteruter penitus maneat exsanguis! O quoties eadem hora et incontinenti vel sequitur vel praevenit, vel etiam inaudito more sanguinolentum divortium ipsam interrumpit desponsationem!</i>&rdquo;. Tradu&ccedil;&atilde;o do autor.</p>     <p><a href="#_ftnref35" name="_ftn35" title="">[35]</a> WILLIAMS, David &ndash; <i>Deformed Discourse..</i>., p. 107. No original: &ldquo;(1) hypertrophy of the body, (2) atrophy of the body, (3) excrescence of bodily parts, (4) superfluity of bodily parts, (5) deprivation of parts, (6) mixture of human and animal parts, (7) animal births by human women, (8) mislocation of organs or parts in the body, (9) disturbed growth (being born old), (10) composite beings, (11) hermaphrodites, (12) monstrous races&rdquo;. Tradu&ccedil;&atilde;o do autor.</p>     <p><a href="#_ftnref36" name="_ftn36" title="">[36]</a> Por &ldquo;homem&rdquo; me refiro a um paradigma ocidental de masculinidade hegem&ocirc;nica, alicer&ccedil;ado na filosofia grega e no projeto iluminista, que n&atilde;o necessariamente engloba todos os sujeitos sociais do g&ecirc;nero masculino.</p>     <p><a href="#_ftnref37" name="_ftn37" title="">[37]</a> Veja-se <i>BERNHEIMER</i>, Richard &ndash; <i>Wild Men in the Middle Ages</i>. Cambridge: Harvard University Press,&nbsp;<i>1952; </i>COHEN, Jeffrey &ndash; <i>Monster Theory..</i>.; BENSHOFF, Harry &ndash; <i>Monsters in the Closet</i>: <i>Homosexuality and the Horror Film</i>. New York: Manchester University Press, 1997.</p>      ]]></body><back>
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