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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Recensão: PEREIRA, Maria Teresa Lopes - Os Cavaleiros de Santiago em Alcácer do Sal. Século XII a fins do século XV. Lisboa: Edições Colibri, 2015 (386 pp.)]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENS&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Recens&atilde;o: PEREIRA, Maria Teresa Lopes &ndash; Os Cavaleiros de Santiago em Alc&aacute;cer do Sal. S&eacute;culo XII a fins do s&eacute;culo XV. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es Colibri, 2015 (386 pp.)</b></font></p>     <p><b>Isabel Cristina Fernandes<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup> Universidade de &Eacute;vora, Centro Interdisciplinar de Hist&oacute;ria, Culturas e Sociedades / Gabinete de Estudos sobre a Ordem de Santiago, 2954-001 &Eacute;vora, Portugal. <i>E-mail</i>: <a href="mailto:isacrisff@gmail.com">isacrisff@gmail.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Quando o professor Jos&eacute; Mattoso, no pref&aacute;cio deste livro, nos fala da &ldquo;busca do tesouro&rdquo; como uma inquieta&ccedil;&atilde;o do homem que n&atilde;o se resigna &agrave; sua finitude e o impele a seguir em frente, a criar, a contemplar, a descobrir, est&aacute;-nos a aproximar da autora deste livro e dos seus prop&oacute;sitos. S&atilde;o prop&oacute;sitos de um &ldquo;peregrinar&rdquo; de voca&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica mas tamb&eacute;m envolto em antigas e profundas emo&ccedil;&otilde;es que ligam Maria Teresa Lopes Pereira a esta vila de Alc&aacute;cer do Sal e &agrave; Ordem de Santiago. Jos&eacute; Mattoso revela-nos essa duplicidade de objectivos na investiga&ccedil;&atilde;o e na produ&ccedil;&atilde;o escrita da autora, sublinhando que esses aspetos em nada afectam o valor cient&iacute;fico da obra (que reputa de rigorosa e metodologicamente intoc&aacute;vel), antes pelo contr&aacute;rio, dotam-na de uma tonalidade quente e apaixonada que favorece o leitor, seja ele o historiador ou o cidad&atilde;o comum interessado no conhecimento do passado da sua terra ou do seu pa&iacute;s.</p>     <p>Esta obra segue um percurso cronol&oacute;gico que se inicia em 1158, data da primeira conquista portuguesa de Alc&aacute;cer, e termina sensivelmente em finais do s&eacute;culo XV. Para o primeiro per&iacute;odo da hist&oacute;ria medieval crist&atilde; do castelo e da vila, entre 1158 e 1217, a autora fornece-nos uma s&iacute;ntese bastante completa e recheada de pequenos novos contributos respigados das fontes, permitindo-nos a percep&ccedil;&atilde;o de uma Alc&aacute;cer historicamente pouco trabalhada. A partir do poema &quot;Carmen&quot;, escrito pelo cruzado Gosu&iacute;no, a autora elabora uma excelente descri&ccedil;&atilde;o do cerco e da batalha campal de 1217, entre as hostes alm&oacute;adas e crist&atilde;s, e marcante n&atilde;o s&oacute; para Alc&aacute;cer, como para os destinos do jovem reino portugu&ecirc;s. Recupera, na sua abordagem, a anterior an&aacute;lise do <i>Gosuini de expugnatione Salaciae carmen</i>, publicada em 1996, completando-a com elementos entretanto coligidos.</p>     <p>Este epis&oacute;dio b&eacute;lico &eacute; o mote para se lan&ccedil;ar na an&aacute;lise dos principais per&iacute;odos de instala&ccedil;&atilde;o da sede da Ordem de Santiago na povoa&ccedil;&atilde;o, entre 1218 e 1245 e, depois da passagem por M&eacute;rtola, entre 1303 e 1482. Atrav&eacute;s dessa an&aacute;lise, cheia de novidade, podemos entrever o panorama pol&iacute;tico em que orbitava o ramo portugu&ecirc;s da Ordem de Santiago e as dilig&ecirc;ncias desenvolvidas com o intuito de conseguir a independ&ecirc;ncia de Ucl&eacute;s.</p>     <p>Particularmente interessante &eacute; a abordagem da autora ao castelo medieval crist&atilde;o de Alc&aacute;cer, entre os s&eacute;culos XIII e XIV. Para al&eacute;m de compilar os dados de outros estudiosos, sem esquecer a componente arqueol&oacute;gica, avan&ccedil;a com detalhes colhidos em fontes diversas, sobretudo do s&eacute;culo XIV, e que lhe permitem desenhar um novo olhar sobre a cerca muralhada e as torres da fortaleza, desde a sua fun&ccedil;&atilde;o como quartel militar e sede religiosa &agrave; rela&ccedil;&atilde;o com a vila e o porto e ao seu papel na estrutura&ccedil;&atilde;o do povoamento. Aos edif&iacute;cios intra-muros &eacute; dedicada especial aten&ccedil;&atilde;o: os pa&ccedil;os do mestre, o convento medievo, a capela de Santiago. Para al&eacute;m dos aspectos materiais, construtivos e de organiza&ccedil;&atilde;o espacial, s&atilde;o-nos fornecidos elementos para a compreens&atilde;o da vida da comunidade dos freires, nas suas dimens&otilde;es militar, espiritual e administrativa, desde a tomada do h&aacute;bito &agrave; profiss&atilde;o, incluindo as v&aacute;rias vertentes da aplica&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica da normativa da Ordem.</p>     <p>No cap&iacute;tulo da religiosidade aborda tamb&eacute;m a quest&atilde;o da devo&ccedil;&atilde;o da Ordem ao ap&oacute;stolo Santiago e elenca os dados que identificam Alc&aacute;cer do Sal como um dos pontos importantes do Caminho peregrinacional a Santiago de Compostela.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Segue-se a an&aacute;lise da emblem&aacute;tica igreja duodecentista de Santa Maria do M&aacute;rtires, localizada fora de portas e que foi pante&atilde;o de mestres da Ordem de Santiago. Monumento ic&oacute;nico para os santiaguistas, &eacute;-o tamb&eacute;m pela singularidade arquitect&oacute;nica da capela-pante&atilde;o, de planta centrada octogonal, dita a Capela dos Mestres (1333). O conjunto &eacute; revisitado por Maria Teresa Lopes Pereira, que retoma e enobrece anteriores textos seus, proporcionando-nos uma vis&atilde;o global do edificado, dos sepultamentos dos l&iacute;deres santiaguistas e a sua leitura hist&oacute;rico-art&iacute;stica de algumas pe&ccedil;as escult&oacute;ricas, com destaque para a c&eacute;lebre imagem de Nossa Senhora da Cinta, em cuja an&aacute;lise se demora com evidente deleite.</p>     <p>O quarto grande apartado desta obra centra-se no governo da Ordem de Santiago:      <p>     <p>- os Cap&iacute;tulos Gerais, ou seja, as reuni&otilde;es restritas do mestre com as dignidades de maior vulto na Ordem, onde se tomavam as decis&otilde;es fundamentais para a vida da mil&iacute;cia, s&atilde;o tratados com algum detalhe, apresentando-se um quadro que sistematiza os cap&iacute;tulos realizados entre 1291 e 1492;</p>     <p>- a listagem dos mestres e administradores da Ordem de Santiago entre 1290 e 1492, ou seja, de D. Jo&atilde;o Fernandes ao pr&iacute;ncipe D. Jo&atilde;o (futuro D. Jo&atilde;o II). Para cada um deles &eacute; sistematizada informa&ccedil;&atilde;o biogr&aacute;fica, de actos administativos sob a sua al&ccedil;ada e de acontecimentos que contextualizam os seus governos. Apesar de outros historiadores se terem debru&ccedil;ado antes sobre estes mestres, n&atilde;o existia de facto uma compila&ccedil;&atilde;o para este espectro cronol&oacute;gico, com informa&ccedil;&atilde;o actualizada de v&aacute;rias fontes e bibliografia, enriquecida com observa&ccedil;&otilde;es e interpreta&ccedil;&otilde;es da autora e aproxima&ccedil;&otilde;es &agrave; realidade de Alc&aacute;cer.</p>     <p></p>     <p>Ao &uacute;ltimo personagem, o pr&iacute;ncipe D. Jo&atilde;o e, depois, ao monarca, Maria Teresa Lopes Pereira dedica especial aten&ccedil;&atilde;o, confessando o seu denodado interesse por esta figura, ao estudo da qual consagra, desde h&aacute; muito, parte das suas pesquisas. Com recurso a fontes cron&iacute;sticas, &agrave; chancelaria de D. Afonso V e &agrave; consulta de estudos de outros autores, tra&ccedil;a-nos o percurso biogr&aacute;fico de D. Jo&atilde;o at&eacute; assumir o trono, para depois se concentrar nos aspetos da sua governa&ccedil;&atilde;o da Ordem de Santiago. &Eacute; sobretudo nesta abordagem que a autora nos concede nova e ampla informa&ccedil;&atilde;o, a partir de documenta&ccedil;&atilde;o da Ordem de Santiago conservada na Torre do Tombo, em boa parte in&eacute;dita. Estamos perante a mobiliza&ccedil;&atilde;o de um manancial de dados que representa um &oacute;ptimo contributo para o estudo desta Ordem no s&eacute;culo XV, com novidades para o per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o da sede de Alc&aacute;cer para Palmela, para a ac&ccedil;&atilde;o reformista do monarca enquanto administrador de Santiago e Avis, at&eacute; &agrave; entrega do mestrado a D. Jorge.</p>     <p>No cap&iacute;tulo quinto e &uacute;ltimo, Maria Teresa Lopes Pereira remata este seu estudo com um breve olhar sobre o decl&iacute;nio dos pa&ccedil;os do mestre e do convento de Alc&aacute;cer, em in&iacute;cios de quinhentos, para depois nos introduzir na nova era do amuralhado alca&ccedil;arino: a da constru&ccedil;&atilde;o do Convento de Clarissas, inaugurado em 1573. Adianta ainda alguma informa&ccedil;&atilde;o sobre a gest&atilde;o e a ocupa&ccedil;&atilde;o da fortaleza desde o s&eacute;c. XVIII &agrave; actualidade.</p>     <p>A riqueza informativa e o valor cient&iacute;fico da obra fortalecem-se pelas pertinentes notas de rodap&eacute;, pela completa bibliografia e pela refer&ecirc;ncia das fontes consultadas, pela inclus&atilde;o de um &iacute;ndice remissivo, mas tamb&eacute;m e sobretudo pelos anexos documentais. Trata-se de um conjunto de transcri&ccedil;&otilde;es e um &iacute;ndice documental que nobilitam a obra e a consagram como um importante recurso de investiga&ccedil;&atilde;o. Estes anexos incluem: a transcri&ccedil;&atilde;o e tradu&ccedil;&atilde;o para portugu&ecirc;s da <i>Mem&oacute;ria Cruzad&iacute;stica sobre a Tomada da Vila de Alc&aacute;cer</i> (1217); a transcri&ccedil;&atilde;o de uma contenda entre a Ordem de Santiago e o concelho de Alc&aacute;cer (1349); a transcri&ccedil;&atilde;o de um conjunto de documentos relativos a propriedades da Ordem de Santiago na vila e no termo de Alc&aacute;cer, do terceiro quartel do s&eacute;culo XV: oito cartas de emprazamento; tr&ecirc;s contratos de renova&ccedil;&atilde;o de emprazamentos; cinco cartas de aforamento; um tombo de aforamentos e emprazamentos; uma senten&ccedil;a da Ordem de Santiago sobre delimita&ccedil;&atilde;o de termos; a transcri&ccedil;&atilde;o do Regimento dos Visitadores do Mestrado de Santiago, de 1478; a transcri&ccedil;&atilde;o de um relat&oacute;rio e determina&ccedil;&otilde;es de visita&ccedil;&atilde;o a Alc&aacute;cer, de 1480. E, por fim, uma listagem, sistematizada num extenso quadro, onde se descreve o conte&uacute;do de um conjunto de diplomas do pr&iacute;ncipe D. Jo&atilde;o, balizados entre 1476-1479, desde cartas de merc&ecirc;, de ten&ccedil;a, ementas de cartas a confirma&ccedil;&otilde;es e nomea&ccedil;&otilde;es. A import&acirc;ncia desta listagem de diplomas n&atilde;o se circunscreve a Alc&aacute;cer do Sal, alarga-se a outras cidades e regi&otilde;es, como Santar&eacute;m, Lisboa, Palmela, Set&uacute;bal, Estremoz, Avis, &Eacute;vora, Beja, entre outras, tornando-se mat&eacute;ria de interesse para outras pesquisas.</p>     <p>De facto, Maria Teresa Lopes Pereira coloca &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o dos investigadores de hist&oacute;ria medieval e das Ordens Militares mais um valioso livro que, como ela pr&oacute;pria afirma na introdu&ccedil;&atilde;o, &eacute; fruto de muito labor, de muita persist&ecirc;ncia e de reflex&otilde;es que foram sendo maturadas ao longo dos anos. Quando lemos o que escreveu, reconstituimos mentalmente, com facilidade, o quotidiano da Alc&aacute;cer medieval, do seu convento espat&aacute;rio, do seu castelo, imagens proporcionadas pela clareza e pelo pormenor do discurso mas que s&atilde;o tamb&eacute;m resultado de muitas horas de consultas bibliogr&aacute;ficas, de trabalho de arquivo, de questionamento das fontes, de produ&ccedil;&atilde;o de escrita.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO</b></p>     <p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <p>FERNANDES, Isabel Cristina &ndash; &ldquo;Recens&atilde;o: PEREIRA, Maria Teresa Lopes &ndash; <i>Os Cavaleiros de Santiago em Alc&aacute;cer do Sal. S&eacute;culo XII a fins do s&eacute;culo XV</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es Colibri, 2015 (386 pp.)&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm; 21 (Janeiro &ndash; Junho 2017). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA21/fernandes2109.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA21/fernandes2109.html</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data do texto: 26 de Julho de 2016</p>      ]]></body>
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