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<publisher-name><![CDATA[Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os leitores do Espelho de Cristina: um recorte das cortes]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In 1405, Christine de Pisan wrote a book of instruction that reached great success at the time: the Livre des Trois Vertus. Later, between 1428-1455, the text was translated into Portuguese and, in 1518, queen D. Leonor ordered its printing in Lisbon with the title Espelho de Cristina. The present article briefly summarizes the particularities of the social, historical and political contexts of France from the beginning of the fifteenth century - where the work is born - and of Portugal at the time of its translation and subsequent printing, as well as the characteristics and the ties between the courts of both countries. It also aims to identify the target audience foreseen in each case, in order to find a link between these elements and the changes that the text suffered in the course of its transmission.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p><font size="4"><b>Os leitores do Espelho de Cristina: um recorte das cortes</b></font></p>     <p><font size="3"><b>The readers of Espelho de Cristina: a clip of the courts</b></font></p>     <p><b>Ana Luisa Sonsino<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup> Centro de Lingu&iacute;stica da Universidade de Lisboa, Faculdade    de Letras da Universidade de Lisboa, 1600-214, Lisboa, Portugal.<a href="mailto:asonsino@campus.ul.pt">asonsino@campus.ul.pt</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO</b></p>     <p>Em 1405, Christine de Pisan redigiu um tratado did&aacute;ctico de grande sucesso    na &eacute;poca: o <i>Livre des Trois Vertus</i>. Posteriormente, entre 1428    e 1455, o texto foi traduzido para portugu&ecirc;s e, em 1518, a obra foi impressa    em Lisboa por ordem de D. Leonor, com o t&iacute;tulo <i>Espelho de Cristina</i>.    O presente artigo recolhe, de forma sucinta, as particularidades dos contextos    social, hist&oacute;rico e pol&iacute;tico tanto da Fran&ccedil;a de in&iacute;cios    do s&eacute;culo XV &ndash; onde nasce a obra &ndash; como de Portugal na altura    da sua tradu&ccedil;&atilde;o e posterior impress&atilde;o, assim como as caracter&iacute;sticas    e o la&ccedil;o existente entre as cortes de ambos os pa&iacute;ses. Tentar-se-&aacute;    ainda identificar qual era o p&uacute;blico-alvo previsto em cada caso, com    o intuito de encontrar um elo de liga&ccedil;&atilde;o entre estes elementos    e as altera&ccedil;&otilde;es que o texto sofreu no decorrer da sua transmiss&atilde;o.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Christine de Pisan, <i>Livre des trois vertus</i>, <i>Espelho    de Cristina</i>, tradu&ccedil;&atilde;o medieval, transmiss&atilde;o textual</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>In 1405, Christine de Pisan wrote a book of instruction that reached great    success at the time: the<i> Livre des Trois Vertus</i>. Later, between 1428-1455,    the text was translated into Portuguese and, in 1518, queen D. Leonor ordered    its printing in Lisbon with the title <i>Espelho de Cristina</i>. The present    article briefly summarizes the particularities of the social, historical and    political contexts of France from the beginning of the fifteenth century &ndash;    where the work is born &ndash; and of Portugal at the time of its translation    and subsequent printing, as well as the characteristics and the ties between    the courts of both countries. It also aims to identify the target audience foreseen    in each case, in order to find a link between these elements and the changes    that the text suffered in the course of its transmission.</p>     <p><b>Keywords:</b> Christine de Pisan, <i>Livre des trois vertus</i>, <i>Espelho    de Cristina</i>, medieval translation, textual transmission.</p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b><a href="#_ftn0" name="_ftnref0" title="">&sect;</a></p>     <p>O que pode levar um fil&oacute;logo a aventurar-se no estudo da vida quotidiana    nas cortes medievais? &Eacute;lida Lois afirma que &ldquo;[l]a materialidad    y la operatoria de la escritura est&aacute;n atravesadas de historicidad y nunca    podr&aacute;n ser aut&eacute;nticamente interpretadas sin dar cuenta de esa    condici&oacute;n&rdquo;<a href="#_ftn1" name="_ftnref1" title="">[1]</a>. Segundo    esta autora, embora n&atilde;o se possa dizer que a g&eacute;nese de um texto    seja &ldquo;una funci&oacute;n mec&aacute;nica de procesos hist&oacute;ricos    o de condicionamientos ideol&oacute;gicos (...) tampoco puede dejar de se&ntilde;alarse    la existencia de campos de interacci&oacute;n entre lo literario y lo social    (&hellip;)&rdquo;<a href="#_ftn2" name="_ftnref2" title="">[2]</a>. Por outro    lado, &eacute; aceit&aacute;vel considerar que, da mesma maneira que a g&eacute;nese    de um texto est&aacute; intimamente relacionada com diversos factores s&oacute;cio-hist&oacute;ricos,    tamb&eacute;m o estar&atilde;o as tradu&ccedil;&otilde;es que dele se fa&ccedil;am.    Com efeito, Tobias Brandenberger assegura que, se nos foc&aacute;ssemos nos</p>     <blockquote>tiempos en los que la asequibilidad de libros fuera de las zonas de    su difusi&oacute;n original estaba a&uacute;n sumamente condicionada por el    simple hecho de que fueran traducidos y circularan de ese modo en territorios    al&oacute;fonos, se nos plantear&iacute;an diversas preguntas relacionadas,    a la vez, con los receptores (&hellip;) y con las condiciones (&hellip;) de    la traducci&oacute;n<a href="#_ftn3" name="_ftnref3" title="">[3]</a>.</blockquote>     <p>Isto &eacute;, a inevitabilidade de surgirem quest&otilde;es relacionadas com    a influ&ecirc;ncia que diversos factores hist&oacute;ricos e sociais tiveram    no aparecimento de uma determinada tradu&ccedil;&atilde;o de uma obra. Nos in&iacute;cios    do s&eacute;culo XV, mais precisamente em 1405, Christine de Pisan dedicou o    <i>Livre des Trois Vertus</i>, o primeiro livro escrito para mulheres por uma    mulher, &agrave; princesa Margarida de Borgonha. Algumas d&eacute;cadas depois,    entre 1428 e 1455, o texto foi traduzido para portugu&ecirc;s por ordem ou de    Isabel de Borgonha ou de Isabel de Avis<a href="#_ftn4" name="_ftnref4" title="">[4]</a>    e, passados sessenta e tr&ecirc;s anos, em 1518, esta obra de car&aacute;cter    did&aacute;ctico sairia dos prelos da oficina de Herm&atilde;o de Campos, tamb&eacute;m    em vers&atilde;o portuguesa, por ordem da ent&atilde;o j&aacute; <i>rainha velha</i>    D. Leonor.</p>     <p>O que &eacute; que teria Christine de Pisan a dizer &agrave;s mulheres portuguesas    que, atrav&eacute;s desta iniciativa da rainha, entrariam em contacto com o    texto do agora chamado <i>Espelho de Cristina</i>, passado pouco mais de um    s&eacute;culo de ele ter sido redigido? Talvez a resposta a esta pergunta se    possa alinhar ao estudarmos e compararmos alguns aspectos da Fran&ccedil;a que    viu nascer a obra, com o Portugal em que aparece a sua primeira edi&ccedil;&atilde;o    impressa em portugu&ecirc;s.</p>     <p>Ao longo da intensa pesquisa bibliogr&aacute;fica realizada tornou-se evidente,    sem grande surpresa, que v&aacute;rios autores tinham j&aacute; reflectido sobre    e interrogado a tradu&ccedil;&atilde;o (tradu&ccedil;&otilde;es?<a href="#_ftn5" name="_ftnref5" title="">[5]</a>)    desta obra de Christine de Pisan: Tobias Brandenberger, em 2001, questionou-a    acerca do p&uacute;blico a que estaria dirigida, e ainda sobre a possibilidade    de este mesmo p&uacute;blico ter estado na origem das altera&ccedil;&otilde;es    que o texto-base sofrera ao ser vertido para portugu&ecirc;s, na altura da sua    impress&atilde;o<a href="#_ftn6" name="_ftnref6" title="">[6]</a>. Anteriormente,    em 1999, Ivone Leal reflectiu acerca da import&acirc;ncia que a obra poderia    ter no in&iacute;cio do s&eacute;culo XXI, quando o original tinha sido escrito    em Fran&ccedil;a em in&iacute;cios do s&eacute;culo XV, para as mulheres de    ent&atilde;o<a href="#_ftn7" name="_ftnref7" title="">[7]</a>. Ambos os autores    encontraram respostas para as suas interroga&ccedil;&otilde;es quer no texto    de Christine, quer na an&aacute;lise s&oacute;cio-hist&oacute;rica do espa&ccedil;o    / tempo da produ&ccedil;&atilde;o do original e das vers&otilde;es portuguesas.    Tal permite supor que o caminho escolhido para encontrar a resposta &agrave;    pergunta antes formulada parece poder conduzir-nos a ela. Comecemos ent&atilde;o    a percorr&ecirc;-lo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&nbsp;</b></p>     <p><b>I. O texto (original) em contexto: </b></p>     <p><b>Christine, a Fran&ccedil;a da sua &eacute;poca e o seu p&uacute;blico leitor</b></p>     <p>Para poder dar um contexto acabado &agrave; produ&ccedil;&atilde;o escrita    de Christine de Pisan em geral, e ao <i>Livro das Tres Vertudes</i> (1405) em    particular, n&atilde;o se pode sen&atilde;o come&ccedil;ar com um relato biogr&aacute;fico,    ainda que sucinto. Isto porque se o percurso de vida de um autor influencia    sempre a sua obra, no caso da nossa autora tal n&atilde;o acontece de forma    inconsciente, nem tenta evitar-se. Muito comprometida com a sua &eacute;poca,    Christine n&atilde;o apenas impregnava a sua obra com as suas emo&ccedil;&otilde;es,    ideologias e ideais, mas, ainda, relatava nela experi&ecirc;ncias vividas na    primeira pessoa<a href="#_ftn8" name="_ftnref8" title="">[8]</a>. Contudo, o    surgimento de um texto e a sua transmiss&atilde;o n&atilde;o dependem apenas    das viv&ecirc;ncias do autor mas, ainda, do contexto hist&oacute;rico em que    nasce e do seu p&uacute;blico (tanto aquele a que estava destinado, como aquele    que efectivamente ir&aacute; l&ecirc;-lo). Assim sendo, apresentarei um resumo    que, n&atilde;o pretendendo ser exaustivo, permite assinalar alguns tra&ccedil;os    deste p&uacute;blico e das suas circunst&acirc;ncias.</p>     <p><b>Christine</b></p>     <p>Nascida em Veneza, em 1364, filha de Tommaso da Pizzano e da filha do anatomista    Tommaso de Mondino <a href="#_ftn9" name="_ftnref9" title="">[9]</a>, teria    entre tr&ecirc;s e quatro anos quando, com a fam&iacute;lia, se mudou para Paris,    onde o seu pai morava havia j&aacute; algum tempo <a href="#_ftn10" name="_ftnref10" title="">[10]</a>.    M&eacute;dico e astr&oacute;logo, Thomas de Pisan (como passou a ser conhecido)    fora f&iacute;sico e conselheiro cient&iacute;fico do rei Carlos V, que o tinha    em alta estima. Christine cresceu desde ent&atilde;o no ambiente da corte parisina,    pois &ldquo;el rey mand&oacute; que la hija de su f&iacute;sico participara    en todas las fiestas y divertimientos de la corte compatibles con su tierna    edad y fuera educada como una princesa&rdquo; <a href="#_ftn11" name="_ftnref11" title="">[11]</a>.    Assim, p&ocirc;de frequentar a magn&iacute;fica biblioteca r&eacute;gia que    acabara de ser instalada no pal&aacute;cio do Louvre, al&eacute;m de receber    do pr&oacute;prio pai &ndash; a figura de maior peso na vida de Christine nesta    &aacute;rea &ndash; uma educa&ccedil;&atilde;o invulgar para uma mulher da &eacute;poca.    De facto, foi o pai quem insistiu para que a filha fosse instru&iacute;da em    franc&ecirc;s, latim e italiano, enquanto a sua m&atilde;e se opunha a que recebesse    forma&ccedil;&atilde;o, preferindo que aprendesse a fiar, costurar e bordar    &ndash; entre outros afazeres pr&oacute;prios das mulheres da sua condi&ccedil;&atilde;o,    o que levou a que n&atilde;o aprofundasse os seus estudos tanto quanto teria    gostado.</p>     <p>Aos quinze anos casou com &Eacute;tienne du Castel, um nobre &ndash; not&aacute;rio    de profiss&atilde;o &ndash; nove anos mais velho, que acabara de ser nomeado    secret&aacute;rio do rei. &Eacute;tienne, sendo ele pr&oacute;prio um intelectual,    incentivou Christine a prosseguir a instru&ccedil;&atilde;o. Tiveram um casamento    feliz que se prolongou por dez anos, ao longo dos quais nasceram tr&ecirc;s    filhos, uma menina e dois meninos, tendo o mais novo morrido ainda pequeno.</p>     <p>A sorte de Christine come&ccedil;aria, contudo, a mudar, e n&atilde;o para    melhor, no pr&oacute;prio ano em que casou. Com efeito, nessa altura morreu    a rainha Joana de Bourbon, algum tempo depois o condest&aacute;vel Bertrand    du Guesclin e, por &uacute;ltimo, o pr&oacute;prio rei Carlos V, em Setembro    de 1380, evento que se converteu numa baliza temporal de grande import&acirc;ncia    na vida da fam&iacute;lia de Christine (e n&atilde;o s&oacute;). A partir da    morte do rei, a posi&ccedil;&atilde;o de Thomas de Pisan na corte mudou radicalmente:    tanto ele como a sua obra foram questionados, perdendo prest&iacute;gio, o ordenado    foi primeiro reduzido e depois pago irregularmente, o que fez com que, na altura    da sua morte (em finais de 1387), estivesse seriamente endividado. N&atilde;o    obstante, Christine e a sua fam&iacute;lia puderam continuar a manter um certo    n&iacute;vel de vida gra&ccedil;as ao cargo de secret&aacute;rio real do seu    marido. Por&eacute;m, a grande altera&ccedil;&atilde;o d&aacute;-se quando,    no outono de 1389, enquanto se encontrava a acompanhar o rei Carlos VI numa    miss&atilde;o oficial, &Eacute;tienne morre de peste em Beauvais.</p>     <p>M&atilde;e vi&uacute;va, sozinha com tr&ecirc;s filhos e uma sobrinha que lhe    deixara um dos seus dois irm&atilde;os para que a casasse (ambos voltaram para    It&aacute;lia, depois da desgra&ccedil;a se abater sobre a fam&iacute;lia, para    tratar de assuntos ligados &agrave; sucess&atilde;o, acabando por n&atilde;o    mais regressar a Fran&ccedil;a), Christine assume o encargo de toda a administra&ccedil;&atilde;o    familiar, tarefa que tinha sido sempre desempenhada pelos defuntos pai e marido.    Nessa condi&ccedil;&atilde;o, apercebeu-se de que o rei devia ao seu marido    n&atilde;o apenas os honor&aacute;rios habituais, mas tamb&eacute;m outros pagamentos    em atraso; que o departamento financeiro real n&atilde;o lhe reconhecia a propriedade    sobre um bem adquirido pelo marido pouco antes da sua morte; que fora enganada    por um comerciante que lhe roubou o dote dos filhos. Assim se inicia um per&iacute;odo    que se veio a verificar um verdadeiro &ldquo;calv&aacute;rio legal&rdquo;, marcado    pelo sacrif&iacute;cio, pela humilha&ccedil;&atilde;o e pelos pleitos, nos quais    nunca seria bem representada e em que acabaria por perder, em termos econ&oacute;micos,    mais do que, gra&ccedil;as a eles, recuperara. </p>     <p>&Eacute;, portanto, no meio da dor pela perda do pai e do marido e pela afli&ccedil;&atilde;o    econ&oacute;mica a que foi submetida em virtude das injusti&ccedil;as legais    que, com frequ&ecirc;ncia, acometiam as vi&uacute;vas naquela &eacute;poca,    que Christine come&ccedil;a o processo que ela pr&oacute;pria identificaria    como sendo de metamorfose. D&aacute;-se uma profunda mudan&ccedil;a interior    que viria a descrever como a sua transforma&ccedil;&atilde;o &ldquo;em homem&rdquo;,    pelas caracter&iacute;sticas de personalidade e comportamento que teve de adquirir,    ou seja, passou de uma posi&ccedil;&atilde;o de fragilidade extrema enquanto    vi&uacute;va muito nova, para a de solidez de uma mulher capaz de sustentar    a sua m&atilde;e, os dois filhos que sobreviveram e a sua sobrinha.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; ao longo desta d&eacute;cada conturbada, ap&oacute;s recuperar alguma    riqueza com a venda de uma das propriedades herdadas do pai e superar uma doen&ccedil;a    prolongada, que Christine come&ccedil;a a escrever. Primeiro, f&ecirc;-lo para    aplacar a perda do marido e, por volta de 1399 (ano em que ela pr&oacute;pria    situa o in&iacute;cio do seu percurso como escritora profissional), reconhecendo    na actividade outra dimens&atilde;o, come&ccedil;a a procurar mecenas para poder    fazer da escrita a sua profiss&atilde;o, abrangendo na sua obra um leque de    tem&aacute;ticas e g&eacute;neros muito mais vasto e complexo do que as baladas    de amor com que come&ccedil;ara anos atr&aacute;s. Trabalhou ainda como copista    de manuscritos (o que lhe teria permitido, al&eacute;m de ganhar dinheiro, aumentar    a pr&oacute;pria biblioteca) e, ao que parece, chegou a ter uma pequena oficina    para desenvolver esta actividade junto dos seus colaboradores. </p>     <p>Quanto &agrave;s crian&ccedil;as que ficaram sob sua cust&oacute;dia, Marie,    a sua filha, entrou na abadia de Poissy em 1397, enquanto Jean, o filho sup&eacute;rstite,    foi enviado para a Inglaterra, em 1399, para ser educado na corte de Ricardo    II, sob a tutela do conde de Salisbury e, mais tarde, ficou ao servi&ccedil;o    do duque de Borgonha, Filipe o Audaz. Em 1406, Christine conseguiu ainda que    o duque de Borgonha, Jo&atilde;o sem Medo, oferecesse o dote para que a sua    sobrinha pudesse casar.</p>     <p>A fortuna de Christine mudaria outra vez por volta de 1400, altura em que produziu    as primeiras obras que a tornariam famosa e conhecida para al&eacute;m das cortes    francesas. J&aacute; em 1399, com o seu poema &ldquo;Epitre au dieu d&rsquo;Amour&rdquo;,    come&ccedil;ou a mostrar a sua preocupa&ccedil;&atilde;o com a imagem da mulher    que estava a tornar-se aceite na sociedade francesa. A sua posi&ccedil;&atilde;o    ficar&aacute; completamente consolidada n&atilde;o muito depois, no seguimento    da sua interven&ccedil;&atilde;o na querela do<i> Romance da Rosa</i>, ao que    parece o primeiro debate liter&aacute;rio franc&ecirc;s de que h&aacute; not&iacute;cia<a href="#_ftn12" name="_ftnref12" title="">[12]</a>.    O <i>Romance</i>, escrito inicialmente por Guillaume de Lorris, c. 1236, consistia    num poema de amor cort&ecirc;s que grangeou enorme &ecirc;xito na Europa da    &eacute;poca, apesar de ter ficado inacabado. Meio s&eacute;culo mais tarde,    a escrita do poema &eacute; retomada por Jean de Meun, que, deitando m&atilde;o    a uma s&aacute;tira mis&oacute;gina, subverte o sentido original da obra, transformando-a    num arrazoado hostil ao amor, ao matrim&oacute;nio e a tudo o que estivesse    relacionado com &ldquo;a mulher&rdquo;. Em 1401, Jean de Montreuil, secret&aacute;rio    de estado e preboste de Lille, comp&ocirc;s um breve tratado elogiando o acrescento    de Jean de Meun, difundindo ambos pelos c&iacute;rculos liter&aacute;rios parisinos.    Foi em resposta a este tratado que Christine redigiu a primeira das v&aacute;rias    cartas que viria a escrever a prop&oacute;sito desta quest&atilde;o, que se    prolongar&aacute; at&eacute; Jean Gerson, chanceler da Universidade de Paris,    encerrar a disputa em 1402. Apesar das agress&otilde;es e da desqualifica&ccedil;&atilde;o    de que foi objecto durante esse per&iacute;odo, Christine teve nesta querela    liter&aacute;ria a possibilidade de ser conhecida por um p&uacute;blico mais    alargado e aumentar os seus contactos com outros intelectuais. Iniciou, assim,    a sua batalha liter&aacute;ria em defesa da mulher, em torno da qual centraria    uma parte importante da sua obra, que termina com <i>Le diti&eacute; a Jehanne    d&rsquo;Arc</i>, em 1429. Entre Dezembro de 1404 e Abril de 1405 escreveu o    <i>Livre de la cit&eacute; des dames</i>, uma ginecotopia que &eacute;, a um    tempo, uma genealogia das mulheres e um discurso em sua defesa. Logo a seguir,    entre a primavera e o m&ecirc;s de Novembro do mesmo ano<a href="#_ftn13" name="_ftnref13" title="">[13]</a>,    comp&ocirc;s a primeira obra did&aacute;ctica para o p&uacute;blico feminino    escrita por uma mulher, o <i>Livre des trois vertus</i>, que imaginou multiplicada    e difundida pelo mundo fora, alcan&ccedil;ando as mulheres de todas as condi&ccedil;&otilde;es    sociais<a href="#_ftn14" name="_ftnref14" title="">[14]</a>. Este segundo livro    era uma esp&eacute;cie de guia a seguir para que qualquer mulher pudesse aceder    &agrave; &ldquo;Cidade das Damas&rdquo;, a cidadela onde a misoginia imperante    na &eacute;poca n&atilde;o as poderia atingir, nem magoar.</p>     <p>Em 1416, a sorte mudaria novamente, mas desta vez n&atilde;o apenas para Christine:    toda a Fran&ccedil;a se viu envolvida numa crise pol&iacute;tica e social. Os    dist&uacute;rbios sangrentos e numerosos, dado o risco que representavam, levaram    a que a fam&iacute;lia de Christine sa&iacute;sse de Paris. Por volta de 1418,    Jean, seu filho, partiu para o ex&iacute;lio acompanhado da mulher e de tr&ecirc;s    filhos pequenos; Christine reuniu-se com a filha em Poissy, onde acabaria os    seus dias cerca de 1430<a href="#_ftn15" name="_ftnref15" title="">[15]</a>.</p>     <p><b>Fran&ccedil;a</b></p>     <p>Christine d&aacute; in&iacute;cio ao seu percurso como escritora numa das fases    mais turbulentas da hist&oacute;ria de Fran&ccedil;a, ou seja, tendo a Guerra    dos Cem Anos como pano de fundo. Depois da morte de Carlos V assiste-se a um    per&iacute;odo de grande instabilidade pol&iacute;tica, uma vez que se d&aacute;    in&iacute;cio a uma luta pelo poder entre os tios do &ldquo;Delfim&rdquo;, em    lugar de respeitar a sua vontade. Assim, enquanto o duque de Anjou se apropriava    do tesouro real, os restantes tios procuravam apoderar-se da maior quantidade    de territ&oacute;rio poss&iacute;vel. Apesar de Carlos VI ter sido coroado ainda    muito novo na tentativa de refrear o crescendo de conflitos internos, a situa&ccedil;&atilde;o    tenderia a agravar-se. As turbulentas rela&ccedil;&otilde;es de poder entre    Lu&iacute;s de Orle&atilde;ns, por um lado, e Isabel de Baviera e o seu filho,    por outro, n&atilde;o ajudavam a acalmar a situa&ccedil;&atilde;o, e a morte    de Filipe &ldquo;O Atrevido&rdquo; s&oacute; veio agudizar a luta entre os pr&iacute;ncipes.    Contudo, estas disputas entre casas reais n&atilde;o apenas n&atilde;o afectaram    a capacidade de Christine em encontrar mecenas em praticamente todas as suas    cortes &ndash; com uma habilidade pouco comum &ndash;, como ainda a motivaram    e inspiraram para escrever obras que tratam da reconstru&ccedil;&atilde;o moral    do pa&iacute;s atrav&eacute;s da difus&atilde;o do saber, chegando a debater    quem o devia reger<a href="#_ftn16" name="_ftnref16" title="">[16]</a>.</p>     <p>A querela do <i>Romance da Rosa</i> surge precisamente no momento &ldquo;en    que algunos se dedicaban a inventar la costumbre francesa y otros a falsificar    la ley s&aacute;lica con el objetivo de legitimar la exclusi&oacute;n de las    mujeres del trono real&rdquo;<a href="#_ftn17" name="_ftnref17" title="">[17]</a>.    Segundo Sarah Hanley, Christine de Pisan apercebeu-se das consequ&ecirc;ncias    a n&iacute;vel moral e pol&iacute;tico que a difama&ccedil;&atilde;o das mulheres    traria consigo e, por isso, teria iniciado o debate. Posteriormente, no <i>Livre    de la Cit&eacute; des Dames</i>, a autora arrolou uma esp&eacute;cie de &ldquo;censo    de todas las mujeres que hab&iacute;an reinado a lo largo del tiempo y a lo    ancho del mundo y demostraba, adem&aacute;s, la legitimidad de esos reinados&rdquo;<a href="#_ftn18" name="_ftnref18" title="">[18]</a>,    a fim de neutralizar ou, pelo menos, aplacar os resultados do p&eacute;rfido    trabalho de equipa levado a cabo por alguns &ldquo;guardi&atilde;es&rdquo; da    moral e da pol&iacute;tica. Com efeito, os primeiros encarregavam-se de difamar    as mulheres para que aos segundos lhes fosse mais f&aacute;cil conseguir a sua    exclus&atilde;o do governo; foi este o mecanismo que Christine ousou desafiar    publicamente.</p>     <p>As lutas pelo poder e os dist&uacute;rbios pol&iacute;ticos e sociais alcan&ccedil;ariam    o seu auge ap&oacute;s a queda de Agincourt e a morte de Lu&iacute;s de Guyenne.    As intrigas e trai&ccedil;&otilde;es aumentaram at&eacute; ao cruento ataque    dos Borguinh&otilde;es aos Armagnacs em 1518, dando clara vantagem aos ingleses.    Desde ent&atilde;o e at&eacute; 1429, houve fases de sucessos e de falhan&ccedil;os    em ambos os lados, tal como per&iacute;odos de triunfos ingleses, at&eacute;    ao cerco a Orle&atilde;es. A resist&ecirc;ncia e posterior liberta&ccedil;&atilde;o    desta cidade foi o princ&iacute;pio do fim da ocupa&ccedil;&atilde;o inglesa.    A 17 de julho de 1429, Carlos VII foi coroado em Reims<a href="#_ftn19" name="_ftnref19" title="">[19]</a>    e, no &uacute;ltimo dia do mesmo m&ecirc;s, Christine de Pisan terminou, aos    quase sessenta e cinco anos, a redac&ccedil;&atilde;o do poema em louvor de    Joana d&rsquo;Arc<a href="#_ftn20" name="_ftnref20" title="">[20]</a>, sua &uacute;ltima    obra.</p>     <p><b>O p&uacute;blico</b></p>     <p>Devido ao facto de as coroas da Inglaterra (desde 1377) e de Fran&ccedil;a    (desde 1380) assentarem, nas palavras de Jo&atilde;o Gouveia Monteiro, na cabe&ccedil;a    de dois reis adolescentes &ndash; e, portanto, muito influenci&aacute;veis &ndash;,    ambos os reinos viveriam durante anos numa constante instabilidade interna,    levando a um prolongado per&iacute;odo de tr&eacute;guas na Guerra dos Cem Anos<a href="#_ftn21" name="_ftnref21" title="">[21]</a>.    Desde ent&atilde;o e at&eacute; &agrave; derrota de Agincourt, contrariamente    ao que se poderia pensar, o patroc&iacute;nio das artes em Fran&ccedil;a aumentou    exponencialmente. Com efeito, por causa das rivalidades pol&iacute;ticas existentes,    &ldquo;[l]as cortes potenciaron el patronazgo de las artes ya que por un lado    serv&iacute;an de animaci&oacute;n en la vida de la corte y, por otro, la influencia    de la corte de cara al exterior se ve&iacute;a nutrida de prestigiosos personajes&rdquo;<a href="#_ftn22" name="_ftnref22" title="">[22]</a>.    Apesar de Christine ter aproveitado com grande habilidade esta conjuntura e    de as suas obras terem sido amplamente apreciadas neste &acirc;mbito, a verdade    &eacute; que a circula&ccedil;&atilde;o dos seus livros, em particular do <i>Livre    des trois vertus</i>, n&atilde;o se cingiu apenas &agrave;s cortes francesas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Vejamos, pois, pela m&atilde;o de C. C. Willard<a href="#_ftn23" name="_ftnref23" title="">[23]</a>,    como a tradi&ccedil;&atilde;o dos exemplares manuscritos da obra de Christine,    e em particular do <i>Livre des trois vertus</i>, ajuda a compreender quem seria    o seu p&uacute;blico leitor. Com base em dados obtidos por investigadores de    v&aacute;rias &aacute;reas ligadas ao estudo de manuscritos, a autora avan&ccedil;a    com algumas propostas sobre quem possu&iacute;a e, portanto, presumivelmente    lia os livros de Christine de Pisan. C. C. Willard distribui os manuscritos    em v&aacute;rios grupos em fun&ccedil;&atilde;o de diferentes momentos de popularidade.    O primeiro &eacute; o grupo dos manuscritos produzidos em Paris ainda em vida    da autora: s&atilde;o edi&ccedil;&otilde;es de luxo, em pergaminho e ricamente    decorados, cujos destinat&aacute;rios seriam os bibli&oacute;filos da corte.    O segundo compreende os manuscritos copiados na corte de Borgonha em meados    do s&eacute;culo XV. E o terceiro, os pertencentes &agrave; corte francesa do    &uacute;ltimo quartel do mesmo s&eacute;culo. Embora C. C. Willard n&atilde;o    o diga explicitamente, depreende-se da sua an&aacute;lise que estes teriam caracter&iacute;sticas    similares aos do primeiro grupo. O mesmo n&atilde;o aconteceria com um quarto    grupo para o qual a autora chama a nossa aten&ccedil;&atilde;o e que, embora    n&atilde;o sendo por ela datado, parece ser posterior aos mencionados anteriormente    (ou parcialmente coincidente com o &uacute;ltimo): o dos manuscritos em papel.    De pouco valor art&iacute;stico e de duvidosa, se n&atilde;o nula, utilidade    para estabelecer o texto-base de uma edi&ccedil;&atilde;o, este grupo caracteriza-se    pela numerosa quantidade conservada, facto que revela o interesse que a obra    de Christine, e em particular a sua prosa, suscitava na &ldquo;classe m&eacute;dia&rdquo;    da &eacute;poca.</p>     <p>Contudo, no que diz respeito ao <i>Livre des trois vertus</i>, Willard diz    que &ldquo;[i]t is surprising to discover (&hellip;) that the manuscript tradition    for this particular text does not quite conform to the general pattern&rdquo;<a href="#_ftn24" name="_ftnref24" title="">[24]</a>.    Segundo a autora, apesar de ser poss&iacute;vel identificar dezoito manuscritos    que cont&ecirc;m este texto, s&oacute; um deles pertence ao primeiro grupo acima    referido (datado de c. 1405). Existem ainda dois ou tr&ecirc;s que, pelas suas    iluminuras, podem ser considerados como inspirados nas primeiras c&oacute;pias,    mas de qualidade inferior (datados do segundo quartel do s&eacute;culo XV).    A configura&ccedil;&atilde;o destes manuscritos &ndash; que, curiosamente, parecem    ter sido produzidos em locais vinculados &agrave;s irm&atilde;s de Margarida    de Borgonha &ndash; sugere que pertenceram a leitores de uma &ldquo;classe m&eacute;dia    em ascens&atilde;o&rdquo;. Das v&aacute;rias c&oacute;pias realizadas no terceiro    quartel do s&eacute;culo XV (e, portanto, parte do terceiro grupo), interessa    aqui destacar a que parece ter pertencido ao <i>ma&icirc;tre d&rsquo;h&ocirc;tel</i>    de Isabel de Borgonha, e uma outra, um c&oacute;dice de Viena &ndash; cidade    onde D. Leonor, sobrinha da duquesa de Borgonha e mulher de Frederico III, morava    desde 1452. Tamb&eacute;m a este per&iacute;odo pertencem dois manuscritos vinculados    &agrave; corte francesa, uma vez que surgem listados num invent&aacute;rio de    cerca de 1500 da biblioteca dos Bourbons em Moulins. Existe ainda um manuscrito    de origem incerta, com armas bret&atilde;s no seu primeiro f&oacute;lio, e nove    manuscritos em papel<a href="#_ftn25" name="_ftnref25" title="">[25]</a>. Tanto    estes como as edi&ccedil;&otilde;es impressas da primeira metade do s&eacute;culo    XVI (tr&ecirc;s francesas e a portuguesa de 1518) d&atilde;o conta n&atilde;o    apenas da popularidade da obra, mas tamb&eacute;m da sua difus&atilde;o fora    dos c&iacute;rculos aristocr&aacute;ticos, indo ao encontro do proposto por    Cedric Pickford que, em 1963, falava num alargamento do p&uacute;blico leitor    (embora para o g&eacute;nero de fic&ccedil;&atilde;o) aos sectores burgueses    e a outros habitantes da cidade que tivessem recebido educa&ccedil;&atilde;o    &ndash; mulheres inclu&iacute;das &ndash; no decorrer do s&eacute;culo XV<a href="#_ftn26" name="_ftnref26" title="">[26]</a>.    Esta particular tradi&ccedil;&atilde;o textual do <i>Livre des trois vertus</i>,    que pode resultar an&oacute;mala se observada fora de contexto, &eacute;, no    entanto, absolutamente coerente quando observamos tanto o conte&uacute;do, como    a princesa para quem foi redigida a obra. Com efeito, tendo sido dedicada a    Margarida de Borgonha, &eacute; natural que tenha suscitado particular interesse    primeiro no seio da corte borguinhona e, mais tarde, na corte francesa. Para    mais, o tratar-se de um livro que visa educar princesas, mas cujos ensinamentos    ambicionam alcan&ccedil;ar todas as mulheres (ao longo das tr&ecirc;s partes    que a comp&otilde;em o leque de mulheres visadas &eacute; alargado, ainda que    com limita&ccedil;&otilde;es), compreende-se que tenha cativado leitores alheios    ao ambiente cortes&atilde;o. Igualmente previs&iacute;vel e coerente &eacute;    o facto de a tradi&ccedil;&atilde;o manuscrita da restante obra de Christine    n&atilde;o ter tido o mesmo percurso: os g&eacute;neros e as tem&aacute;ticas    abordadas n&atilde;o foram sempre as mesmas e o seu conte&uacute;do nunca esteve    destinado a um p&uacute;blico t&atilde;o alargado quanto o deste texto em particular.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>II. O texto (traduzido) em contexto</b></p>     <p><b>As mulheres de Avis, a tradu&ccedil;&atilde;o (tradu&ccedil;&otilde;es?)    do <i>Livre</i></b><i> <b>des trois vertus</b></i><b> e o seu p&uacute;blico</b></p>     <p>Como indicado supra, o <i>Livro das Tres Vertudes</i> vai al&eacute;m da educa&ccedil;&atilde;o    de princesas. Nele, Christine de Pisan, guiada pela &ldquo;Raz&atilde;o, Direitura    e Justi&ccedil;a&rdquo;, ir&aacute; &ldquo;explicar a las mujeres de todas las    condiciones el comportamiento que han de seguir en el diario vivir&rdquo;<a href="#_ftn27" name="_ftnref27" title="">[27]</a>,    de modo a poderem habitar mais tarde na Cidade das Damas. &Eacute;, nas palavras    de Ivone Leal, &ldquo;um livro pedag&oacute;gico sobre comportamentos sociais    em que se podem distinguir dois n&iacute;veis insepar&aacute;veis: os bons costumes    e as boas maneiras&rdquo;<a href="#_ftn28" name="_ftnref28" title="">[28]</a>,    destinado &agrave;s mulheres de todas as condi&ccedil;&otilde;es sociais e,    consequentemente, das mais diversas regi&otilde;es geogr&aacute;ficas. Segundo    a mesma autora, um dos motivos que confere particular import&acirc;ncia a esta    obra no seio da hist&oacute;ria da cultura portuguesa &eacute; o facto de se    desconhecerem (o que n&atilde;o quer dizer que n&atilde;o tenham existido) obras    did&aacute;cticas escritas por ou destinadas a mulheres anteriores ao <i>Livro    das Tres Vertudes</i>, tornando-o assim no primeiro livro de educa&ccedil;&atilde;o    deste tipo posto &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o do &lsquo;p&uacute;blico    feminino portugu&ecirc;s&rsquo;<a href="#_ftn29" name="_ftnref29" title="">[29]</a>.    O facto de ter sido sucessivamente traduzido e impresso por ordem real, bem    como a not&iacute;cia &ndash; que surge num invent&aacute;rio da casa de Saboia    feito em 1538<a href="#_ftn30" name="_ftnref30" title="">[30]</a> &ndash; da    exist&ecirc;ncia de uma vers&atilde;o em castelhano da propriedade de D. Beatriz    de Portugal, e os sinais que da sua leitura existem na obra de Luisa Sigeas<a href="#_ftn31" name="_ftnref31" title="">[31]</a>,    d&atilde;o conta n&atilde;o apenas da sua perman&ecirc;ncia na corte portuguesa    ao longo dos anos, mas tamb&eacute;m da sua efectiva utiliza&ccedil;&atilde;o.    Interessa agora tratar sumariamente a educa&ccedil;&atilde;o das &lsquo;meninas&rsquo;    portuguesas dos s&eacute;culos XV e XVI.</p>     <p><b>A educa&ccedil;&atilde;o das mulheres da dinastia de Avis</b></p>     <p>Segundo a historiadora Manuela Mendon&ccedil;a, &eacute; &ldquo;ao longo do    s&eacute;culo XV que descortinamos na corte portuguesa a preocupa&ccedil;&atilde;o    de criar e viver um ambiente cultural que vem j&aacute; carregado dos valores    das novas correntes humanistas&rdquo;<a href="#_ftn32" name="_ftnref32" title="">[32]</a>.    Da cultura dos pr&iacute;ncipes de Avis d&atilde;o prova obras como <i>O Leal    Conselheiro</i>, a <i>Virtuosa Bemfeitoria</i>, as obras redigidas pelo condest&aacute;vel    D. Pedro ou a importante biblioteca compilada por Afonso V. O seu interesse    em que os filhos fossem, tamb&eacute;m eles, cultos, &eacute; espelhado no cuidado    com que foram educados, convocando para o efeito mestres portugueses e estrangeiros.    Mas, provavelmente, a maior inova&ccedil;&atilde;o que a Casa de Avis concretizou    em mat&eacute;ria de educa&ccedil;&atilde;o foi o permitir que tanto homens    como mulheres (pr&iacute;ncipes e nobres) tivessem acesso a forma&ccedil;&atilde;o.    Tal conduziu a que todas as princesas da Casa de Avis deste s&eacute;culo fossem    t&atilde;o cultas e instru&iacute;das quanto os seus pares masculinos. Este    fen&oacute;meno, ou outros similares, verificaram-se em diversas cortes europeias,    designadamente as da vizinha Castela ou da Borgonha.</p>     <p>&Eacute; nesta altura que surge em Paris, dirigido a uma princesa borguinhona,    o <i>Livre des Trois Vertus</i>, sendo poss&iacute;vel que o mesmo tenha circulado    tamb&eacute;m por Portugal no mesmo per&iacute;odo, embora n&atilde;o haja dados    precisos. Contudo, quer tenha chegado na altura em que Christine de Pisa o escreveu,    quer mais tarde, em 1428, com D. Pedro ou, ainda depois, atrav&eacute;s de D.    Isabel aquando do seu casamento com o duque de Borgonha em 1430, &eacute; um    facto que o <i>Espelho de Cristina</i> foi lido pelas princesas da Casa de Avis.    Alem disso, os seus ensinamentos foram levados &agrave; pr&aacute;tica durante    gera&ccedil;&otilde;es, a come&ccedil;ar pela pr&oacute;pria duquesa Isabel.    Com efeito, e apesar de n&atilde;o se ter a certeza do uso da obra de Christine    como manual de forma&ccedil;&atilde;o, a duquesa Isabel actuou sempre segundo    os seus preceitos, quer ao exercer as suas fun&ccedil;&otilde;es no &acirc;mbito    do seu casamento e das rela&ccedil;&otilde;es com a fam&iacute;lia do seu marido,    quer ainda na gest&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o com a sua fam&iacute;lia    de origem<a href="#_ftn33" name="_ftnref33" title="">[33]</a>. Quanto &agrave;s    suas sobrinhas, parece ser poss&iacute;vel afirmar com mais seguran&ccedil;a    que foram efectivamente educadas sob a orienta&ccedil;&atilde;o do <i>Livre    des Trois Vertus</i>, uma vez que</p>     <blockquote>nas respectivas actua&ccedil;&otilde;es encontramos marcas destas    orienta&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o apenas na forma&ccedil;&atilde;o moral    e religiosa, mas tamb&eacute;m no pr&oacute;prio culto do saber, na organiza&ccedil;&atilde;o    das casas, enfim, nas actua&ccedil;&otilde;es protocolares e pol&iacute;ticas.    E, mais que tudo isso, no exerc&iacute;cio do modelo de Mulheres &iacute;ntegras,    mas de conduta pautada pelo assumir de uma dignidade pr&oacute;pria, forjada    numa correcta atitude moral e sedimentada num not&aacute;vel desenvolvimento    cultural e intelectual<a href="#_ftn34" name="_ftnref34" title="">[34]</a>.</blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Todavia, ter recebido a instru&ccedil;&atilde;o acima referida &ldquo;n&atilde;o    significa que da forma&ccedil;&atilde;o de infantas, princesas e &lsquo;nobles    due&ntilde;as&rsquo; estivessem ausentes aqueles que eram, por tradi&ccedil;&atilde;o    e &lsquo;natureza&rsquo;, os saberes pr&oacute;prios da mulher honesta e virtuosa,    ainda que fosse filha de reis e de rainhas<a href="#_ftn35" name="_ftnref35" title="">[35]</a>&rdquo;,    ou seja, elas deveriam ainda saber tecer, bordar, organizar a casa, cuidar dos    filhos e, obviamente, cultivar a sua devo&ccedil;&atilde;o crist&atilde; diariamente,    atrav&eacute;s da pr&aacute;tica e das leituras das obras a isso destinadas<a href="#_ftn36" name="_ftnref36" title="">[36]</a>.</p>     <p><b>A tradu&ccedil;&atilde;o (tradu&ccedil;&otilde;es?)</b></p>     <p>C. C. Willard identifica, segundo Rivera-Garretas, no livro <i>Christine de    Pizan. Her Life and Works</i>, quatro per&iacute;odos de popularidade da obra    de Christine: o primeiro ainda em vida da autora; o segundo em meados do s&eacute;culo    XV na corte dos duques de Borgonha; o terceiro em Paris entre a segunda metade    do s&eacute;culo XV e a primeira do s&eacute;culo XVI, e o quarto desde 1883,    quando foi novamente descoberta<a href="#_ftn37" name="_ftnref37" title="">[37]</a>.    Destes quatro per&iacute;odos, interessam-nos particularmente o segundo e o    terceiro. Porqu&ecirc;? Sabemos que <i>Le livre des Trois Vertus</i> foi mandado    traduzir para portugu&ecirc;s algures entre 1428 (ano do retorno a Portugal,    ap&oacute;s longa viagem, de D. Pedro, duque de Coimbra) e 1455 (ano do falecimento    da rainha D. Isabel de Coimbra, sua filha)<a href="#_ftn38" name="_ftnref38" title="">[38]</a>.    Isto &eacute;, justamente em meados do s&eacute;culo XV. A liga&ccedil;&atilde;o    entre Portugal e a corte dos duques de Borgonha era, na altura, muito estreita,    pois D. Isabel de Borgonha, casada com o duque Filipe &ldquo;O Bom&rdquo; em    1430, manteve sempre um v&iacute;nculo muito forte com a fam&iacute;lia que    deixara na Pen&iacute;nsula, sobretudo depois dos tr&aacute;gicos acontecimentos    que tiveram lugar em Alfarrobeira em 1449<a href="#_ftn39" name="_ftnref39" title="">[39]</a>.    Se a isto se juntar o que j&aacute; foi analisado acerca da hist&oacute;ria    dos manuscritos que ainda se conservam, torna-se plaus&iacute;vel que tenha    sido a duquesa Isabel de Borgonha a enviar nessa altura &agrave; sua sobrinha    o livro de Christine, cujos ensinamentos poderiam ser de boa ajuda no momento    dif&iacute;cil que a rainha D. Isabel estava a atravessar. Tal n&atilde;o resolve,    contudo, as seguintes quest&otilde;es: onde e por ordem de quem ter&aacute;    sido feita a tradu&ccedil;&atilde;o. Com efeito, existem v&aacute;rias respostas    poss&iacute;veis, sendo que se referir&atilde;o apenas as mais cred&iacute;veis.    Uma delas &eacute; que a de que tradu&ccedil;&atilde;o poderia ter sido encomendada    pela duquesa, ou para a oferecer &agrave; sobrinha, ou na altura da sua chegada    &agrave; corte de Borgonha para uso pessoal, ou ainda em Portugal e antes de    partir para a Borgonha, se se verificasse que uma c&oacute;pia em franc&ecirc;s    lhe tivesse sido oferecida pelo seu irm&atilde;o D. Pedro<a href="#_ftn40" name="_ftnref40" title="">[40]</a>.    Outra possibilidade &eacute; que a tradu&ccedil;&atilde;o tenha sido encomendada    pela rainha D. Isabel, tal como vem indicado no <i>incipit</i> do manuscrito<a href="#_ftn41" name="_ftnref41" title="">[41]</a>    conservado na Biblioteca Nacional de Espa&ntilde;a<a href="#_ftn42" name="_ftnref42" title="">[42]</a>.    Contudo, a exist&ecirc;ncia desta indica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ser    tomada como decisiva, pois o texto desse manuscrito pode ter tido como fonte    uma outra c&oacute;pia da tradu&ccedil;&atilde;o onde tal indica&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o constasse. Uma vez que a duquesa e a rainha partilhavam o nome, n&atilde;o    seria descabido supor que um copista, na altura de realizar a c&oacute;pia da    tradu&ccedil;&atilde;o, possa ter decidido alterar o <i>incipit</i> do texto<a href="#_ftn43" name="_ftnref43" title="">[43]</a>.    Tendo todas estas alternativas presentes, podemos propor como intervalo temporal    cred&iacute;vel para a realiza&ccedil;&atilde;o da primeira tradu&ccedil;&atilde;o    o per&iacute;odo entre 1428 (ano em que D. Pedro retorna a Portugal) e 1455    (ano da morte da rainha D. Isabel). </p>     <p>Sabemos ainda que em 1518 foi impresso <i>O Espelho de Cristina</i>, por ordem    da rainha D. Leonor (outro membro da Casa de Avis que viveu segundo o prescrito    no livro de Christine). Livro que, segundo alguns autores, &eacute; fiel &agrave;    mesma tradu&ccedil;&atilde;o portuguesa transmitida pelo manuscrito, salvo algumas    altera&ccedil;&otilde;es que teriam origem quer na moderniza&ccedil;&atilde;o    da l&iacute;ngua, quer na correc&ccedil;&atilde;o de um erro de localiza&ccedil;&atilde;o    textual (desloca&ccedil;&atilde;o, no manuscrito, de um trecho do cap&iacute;tulo    X da terceira parte para o cap&iacute;tulo XI da mesma parte<a href="#_ftn44" name="_ftnref44" title="">[44]</a>).    Todos estes autores referem, no entanto, que, a partir do cap&iacute;tulo X    da segunda parte, os textos diferem significativamente, tornando-se independentes.    Como explica&ccedil;&atilde;o para o afastamento textual, Maria de Lurdes Crispim    indica que, detectado o erro de desloca&ccedil;&atilde;o na terceira parte,    a pessoa a quem coube a correc&ccedil;&atilde;o da tradu&ccedil;&atilde;o tratou    de a rever at&eacute; que, a dada altura, por cansa&ccedil;o, por pressa ou    por outra raz&atilde;o que desconhecemos, decidiu realizar uma nova tradu&ccedil;&atilde;o    a partir do cap&iacute;tulo X da segunda parte<a href="#_ftn45" name="_ftnref45" title="">[45]</a>.    J&aacute; Ivone Leal faz eco do que afirma Dorothee Carstens-Grokenberger no    estudo com que inicia o seu livro <i>Christine de Pisan, Buch von den Drei Tugenden    in portugiesischer &Uuml;bersetzung</i> (1961) e prop&otilde;e que o encurtamento    desta parte final do impresso possa dever-se ao facto de o editor ter achado    o livro demasiado extenso<a href="#_ftn46" name="_ftnref46" title="">[46]</a>.    Apesar da evidente discrep&acirc;ncia que existe entre as vers&otilde;es portuguesas,    nenhum autor fala numa nova tradu&ccedil;&atilde;o como texto-base para a edi&ccedil;&atilde;o    impressa de 1518. Por&eacute;m, Sara Sousa, no artigo &ldquo;Christine de Pizan    em Portugu&ecirc;s&rdquo;, indica o seguinte:</p>     <blockquote>Conhecem-se, hoje, duas tradu&ccedil;&otilde;es portuguesas do <i>Livre    des Trois Vertus</i> (...). A primeira, intitulada <i>O Livro das Tres Vertudes</i>,    encontra-se no manuscrito 11 515 da Biblioteca Nacional de Madrid (...). Da    outra, impressa em 1518, e que d&aacute; pelo nome <i>O Espelho de Cristina</i>,    est&atilde;o recenseados tr&ecirc;s testemunhos<a href="#_ftn47" name="_ftnref47" title="">[47]</a>(...)<a href="#_ftn48" name="_ftnref48" title="">[48]</a>.</blockquote>     <p>Estaremos realmente perante duas tradu&ccedil;&otilde;es diferentes? Se sim,    o que &eacute; que teria motivado a realiza&ccedil;&atilde;o desta segunda tradu&ccedil;&atilde;o?    &Eacute; o que se discutir&aacute; de seguida.</p>     <p><b>O p&uacute;blico</b></p>     <p>Uma vez que esta investiga&ccedil;&atilde;o se desenvolveu a partir da quest&atilde;o    de como poderia o texto de Christine de Pisan interessar &agrave;s mulheres    portuguesas, importa atentar &agrave;s caracter&iacute;sticas deste p&uacute;blico.    Neste sentido, Ivone Leal destaca a boa recep&ccedil;&atilde;o que as princesas    portuguesas deram ao tratado, tomando-a como </p>     <blockquote>uma manifesta&ccedil;&atilde;o clara das afinidades de sentimento    e costumes da corte portuguesa com as cortes francesa e borgonhesa, entre outras.    E esta proximidade cultural, mais do que um palpite ou uma hip&oacute;tese,    &eacute; um facto relativamente f&aacute;cil de explicar e at&eacute; de comprovar<a href="#_ftn49" name="_ftnref49" title="">[49]</a>.</blockquote>     <p>A autora evoca as cartas que Lopo d&rsquo;Almeida enviou a D. Afonso V quando    chefiou a embaixada que acompanhou a princesa D. Leonor ao encontro do seu marido,    o imperador Frederico III. Nelas assinala o contraste entre os costumes requintados    da corte portuguesa, id&ecirc;nticos aos das cortes francesa e inglesa, e a    rudeza dos usos alem&atilde;es<a href="#_ftn50" name="_ftnref50" title="">[50]</a>.    N&atilde;o ignorando que passaram mais de cem anos desde a reda&ccedil;&atilde;o    do original franc&ecirc;s at&eacute; &agrave; publica&ccedil;&atilde;o do impresso    de 1518, a autora afirma que a vig&ecirc;ncia do texto deixa &ldquo;transparecer    um certo &lsquo;atraso&rsquo; que nos distancia do movimento cultural que ocorre    no centro da Europa, e uma certa &lsquo;demora&rsquo; arcaizante no que toca    tanto a modelos sociais e culturais, como a econ&oacute;micos&rdquo;<a href="#_ftn51" name="_ftnref51" title="">[51]</a>.    Parece-me oportuno relembrar aqui que Christine de Pisan dividiu a obra em tr&ecirc;s    partes: a primeira delas dirigia-se &agrave;s princesas e grandes senhoras;    a segunda, &agrave;s mulheres das distintas hierarquias nobili&aacute;rias (desde    as damas da corte at&eacute; &agrave;s senhoras de senhorios rurais mais pequenos);    a terceira, ocupava-se das diversas categorias de mulheres das cidades e aldeias,    as &lsquo;mulheres do povo&rsquo;. Deste modo, e tal como referido antes, Christine    pretendia levar os seus ensinamentos a todas as mulheres para que todas pudessem    entrar na Cidade das Damas. No entanto, quando Ivone Leal refere o p&uacute;blico    que a obra alcan&ccedil;ou em Portugal, est&atilde;o apenas em causa as destinat&aacute;rias    das duas primeiras partes.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No artigo &ldquo;Una traducci&oacute;n bajomedieval y su p&uacute;blico: notas    acerca del <i>Espelho de Cristina</i> (Lisboa, 1518)&rdquo;, Tobias Branderberger    afirma que houve uma primeira tradu&ccedil;&atilde;o para portugu&ecirc;s, intitulada    <i>Livro das tres vertudes</i>, fruto de um interc&acirc;mbio entre as cortes    de Borgonha e Portugal, cujo texto se cinge com bastante fidelidade ao que teria    sido o seu antecedente franc&ecirc;s<a href="#_ftn52" name="_ftnref52" title="">[52]</a>.    O texto desta primeira tradu&ccedil;&atilde;o teria servido de base para uma    segunda tradu&ccedil;&atilde;o, a do<i> Espelho de Cristina</i>, impressa em    Lisboa em 1518. J&aacute; o texto desta segunda tradu&ccedil;&atilde;o, ao contr&aacute;rio    do da primeira, afasta-se de forma clara do antecedente franc&ecirc;s da primeira    tradu&ccedil;&atilde;o<a href="#_ftn53" name="_ftnref53" title="">[53]</a>.    Por sua vez, no artigo &ldquo;Christine de Pizan em Portugal: as tradu&ccedil;&otilde;es    do <i>Livre des Trois Vertus</i>&rdquo;, o mesmo autor faz notar que, nesta    obra, </p>     <blockquote>nem todos os sectores do &lsquo;corpo social&rsquo; recebem a mesma    aten&ccedil;&atilde;o: a estrutura do tratado reflecte o peso das tr&ecirc;s    camadas sociais que correspondem &agrave;s tr&ecirc;s partes do livro. A primeira    parte &eacute; a mais detalhada, a segunda n&atilde;o chega nem &agrave; metade    da extens&atilde;o da primeira, enquanto a terceira &eacute; ainda mais breve<a href="#_ftn54" name="_ftnref54" title="">[54]</a>.</blockquote>     <p>N&atilde;o nos vamos deter no significado que este &uacute;ltimo apontamento    pode ter, mas no facto de se alterar (ou n&atilde;o) na realiza&ccedil;&atilde;o    da segunda tradu&ccedil;&atilde;o. Com efeito, embora a despropor&ccedil;&atilde;o    entre as tr&ecirc;s partes do livro sempre tenha existido<a href="#_ftn55" name="_ftnref55" title="">[55]</a>,    esta &eacute; acentuada no<i> Espelho de Cristina</i>. Para mais, as altera&ccedil;&otilde;es    que refor&ccedil;am esta discrep&acirc;ncia n&atilde;o se produzem de forma    aleat&oacute;ria: a tradu&ccedil;&atilde;o vai-se tornando como que num resumo    do texto antecedente a partir do cap&iacute;tulo X da segunda parte, ou seja,    a partir do momento em que o livro se dirige &agrave;s mulheres de &ldquo;classe    m&eacute;dia e baixa&rdquo;. O &uacute;ltimo cap&iacute;tulo traduzido sem omiss&otilde;es,    o IX da segunda parte, &eacute; o dirigido &agrave;s baronesas, correspondendo    ao primeiro que se ocupa das mulheres que vivem fora da corte<a href="#_ftn56" name="_ftnref56" title="">[56]</a>.    Esta altera&ccedil;&atilde;o nas propor&ccedil;&otilde;es n&atilde;o &eacute;,    de todo, inocente. Com ela, a obra <i>O Espelho de Cristina</i> aproxima-se    mais de um &lsquo;espelho de princesas&rsquo; do que do texto em que se baseia.  </p>     <p>Tobias Brandenberger afirma, em &ldquo;Una traducci&oacute;n&rdquo;, que existe    uma interdepend&ecirc;ncia entre a tradu&ccedil;&atilde;o que de um texto se    faz e o p&uacute;blico para ela desejado, isto &eacute;, o p&uacute;blico previsto    influi na tradu&ccedil;&atilde;o e na sua t&eacute;cnica<a href="#_ftn57" name="_ftnref57" title="">[57]</a>.    Com base nesta (muito l&oacute;gica) aprecia&ccedil;&atilde;o, podemos concluir    que o p&uacute;blico-alvo da segunda tradu&ccedil;&atilde;o se afastava do previsto    originariamente por Christine, cingindo-o &agrave;s mulheres da corte<a href="#_ftn58" name="_ftnref58" title="">[58]</a>.    Assim, ao inv&eacute;s do que faria supor a realiza&ccedil;&atilde;o de uma    edi&ccedil;&atilde;o impressa de um livro destas caracter&iacute;sticas, a inten&ccedil;&atilde;o    desta segunda tradu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o seria produzir uma &ldquo;edi&ccedil;&atilde;o    popular&rdquo;, mas sim uma vers&atilde;o do livro de Christine mais pr&oacute;xima    de outros livros did&aacute;cticos da &eacute;poca. Todavia, importa perguntar    porque faria sentido tal decis&atilde;o no contexto da corte da rainha D. Leonor,    uma figura interessada pelos mais desfavorecidos. Provavelmente, a resposta    a esta pergunta poder&aacute; ser formulada a partir de outro aspecto fulcral    tamb&eacute;m apontado por Tobias Brandenberger: o contexto em que se insere    um texto, designadamente a sua rela&ccedil;&atilde;o com os outros textos<a href="#_ftn59" name="_ftnref59" title="">[59]</a>.    Ao referirmos as circunst&acirc;ncias da redac&ccedil;&atilde;o do <i>Livre    des Trois Vertus</i> e a mensagem que a obra pretendia transmitir a todas as    mulheres, estamos necessariamente a referir o <i>Livre da Cit&eacute; des Dames</i>.    Com efeito, embora pudessem ser lidos em separado, ambos os livros estavam intimamente    relacionados, tendo subjacente a ideia de que um seria a &ldquo;teoria&rdquo;    e o outro a &ldquo;pr&aacute;tica&rdquo;. Neste particular, n&atilde;o nos &eacute;    poss&iacute;vel, no entanto, atentar &agrave; tradu&ccedil;&atilde;o portuguesa    do <i>Livre da Cit&eacute; des Dames</i> porque, se a houve na altura, hoje    &eacute;-nos desconhecida. Ao traduzir apenas o <i>Livre des Trois Vertus</i>,    o p&uacute;blico feminino portugu&ecirc;s tinha acesso a um livro que se poderia    configurar como &lsquo;a parte pr&aacute;tica&rsquo; de uma &lsquo;teoria&rsquo;    (no caso, uma constru&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica) que desconheciam. O que    transformaria o <i>Livro das tres vertudes</i> e <i>O Espelho de Cristina </i>em    obras puramente did&aacute;cticas, sem o pano de fundo te&oacute;rico-disputativo    que o <i>Livre da Cit&eacute; des Dames</i> e todo o contexto pr&eacute;vio    da querela do <i>Romance da Rosa</i> conferia ao <i>Livre des Trois Vertus.</i>    Com efeito, </p>     <blockquote>[o] facto de o <i>Livre des trois vertus</i> ter sido traduzido (e,    logo, recebido em Portugal), sem a obra que o precedeu e que serve, efectivamente,    como pr&eacute;-texto, tem consequ&ecirc;ncias relevantes. S&atilde;o v&aacute;rios    os aspectos particulares do <i>Livre des trois vertus</i> que t&ecirc;m a sua    explica&ccedil;&atilde;o na <i>Cit&eacute;</i>; [e que] pela transfer&ecirc;ncia    isolada ficam sem legitima&ccedil;&atilde;o<a href="#_ftn60" name="_ftnref60" title="">[60]</a>.</blockquote>     <p>Uma vez aceite que a descontextualiza&ccedil;&atilde;o da tradu&ccedil;&atilde;o    transforma <i>O Espelho de Cristina</i> numa obra puramente did&aacute;ctica,    n&atilde;o resulta dif&iacute;cil compreender, nem t&atilde;o pouco aceitar,    os recortes feitos pelo segundo tradutor. O objectivo da obra e o seu p&uacute;blico-alvo    mudam &minus; embora apenas parcialmente<a href="#_ftn61" name="_ftnref61" title="">[61]</a>    &minus;, porque o contexto, neste caso a aus&ecirc;ncia do pr&eacute;-texto    e do contexto do debate, tamb&eacute;m se altera.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&otilde;es</b></p>     <p>O caminho percorrido permitiu estabelecer uma liga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o    apenas entre o contexto social, hist&oacute;rico e pol&iacute;tico na g&eacute;nese    e transmiss&atilde;o de uma obra, mas tamb&eacute;m a rela&ccedil;&atilde;o    entre esses mesmos elementos e a elabora&ccedil;&atilde;o de uma tradu&ccedil;&atilde;o.    De facto, embora a viv&ecirc;ncia nas cortes francesa do s&eacute;culo XV e    portuguesa do s&eacute;culo XVI tenha v&aacute;rias proximidades (e o tipo de    intrigas e conflitos entre as fam&iacute;lias da alta nobreza tamb&eacute;m),    o texto traduzido oferecido ao p&uacute;blico portugu&ecirc;s em in&iacute;cios    do s&eacute;culo XVI difere, e muito, dos textos dos manuscritos franceses,    das primeiras edi&ccedil;&otilde;es francesas e, ainda, da primeira tradu&ccedil;&atilde;o    portuguesa. Um aspecto que, analisado isoladamente, parece n&atilde;o fazer    sentido dada a proximidade cortes&atilde;. Contudo, o facto de se tratar de    uma tradu&ccedil;&atilde;o e de ter decorrido um s&eacute;culo n&atilde;o &eacute;    irrelevante, pois ao perderem-se elementos que davam contexto ao <i>Livre des    Trois Vertus</i>, tais como o <i>Livre da Cit&eacute; des Dames</i> e toda a    produ&ccedil;&atilde;o relacionada com a querela do <i>Romance da Rosa,</i>    perderam-se referentes que tornariam claro que o <i>Livre</i> <i>des Trois Vertus    </i>n&atilde;o era, nem pretendia ser, um espelho de princesas, ou, pelo menos,    n&atilde;o s&oacute;. Neste sentido, &eacute; admiss&iacute;vel propor que o    afastamento temporal da realiza&ccedil;&atilde;o da obra, a par da descontextualiza&ccedil;&atilde;o    da tradu&ccedil;&atilde;o, pode conduzir ao erro de considerar ou mesmo de tentar    transformar o <i>Livre</i> <i>des Trois Vertus</i> num espelho de princesas,    assim perdendo dimens&otilde;es importantes quer do texto, quer do alcance que    pretendia obter.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></p>     <p><b>Fontes</b></p>     <p><b>Fontes manuscritas</b>    <br>   PISAN, Christine de &minus; <i>Livro das tres vertudes a inssinan&ccedil;a das    damas</i>. Madrid, Biblioteca Nacional de Espa&ntilde;a, Ms. mss/11515.</p>     <p><b>Fontes impressas</b>    <br>   PISAN, Christine &minus; <i>La Ciudad de las Damas</i>. Ed., Tradu&ccedil;&atilde;o    e Introdu&ccedil;&atilde;o de Marie-Jos&eacute; Lemarchand. 2&ordf; ed. Madrid:    Ediciones Siruela, 2001.</p>     <p>PIZAN, Christine de &minus; <i>O Livro das Tres Vertudes a Insinan&ccedil;a    das Damas</i>. Ed. e Introdu&ccedil;&atilde;o de Maria de Lourdes Crispim. Lisboa:    Editorial Caminho, 2002.</p>     <p><b>Estudos</b>    <br>   AGOSTINHO, Paulo Jorge; MARTINS, Miguel Gomes; MONTEIRO, Jo&atilde;o Gouveia    &minus;<i> Guerra e Poder na Europa Medieval. Das cruzadas &agrave; guerra dos    100 anos.</i> Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015. </p>     <p>BRANDENBERGER, Tobias &minus; &ldquo;Christine de Pizan em Portugal: as tradu&ccedil;&otilde;es    do <i>Livre des Trois Vertus</i>&rdquo;. in EARLE, Tom F. (Ed.) &minus; <i>Actas    do Quinto Congresso da Associa&ccedil;&agrave;o Internacional de Lusitanistas.    Universidade de Oxford: 1 a 8 de Setembro de 1996</i>. Vol. I. Oxford / Coimbra:    Associa&ccedil;&atilde;o Internacional de Lusitanistas, 1998, pp. 423-433.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&minus; &ldquo;Una traducci&oacute;n bajomedieval y su p&uacute;blico: notas    acerca del <i>Espelho de Cristina</i> (Lisboa, 1518)&rdquo;. in MART&Iacute;NEZ    ROMERO, Tom&agrave;s; RECIO, Roxana (Eds.) &minus; <i>Essays on Medieval Translation    in the Iberian Peninsula</i>. Castell&oacute; de la Plana: Publicacions de la    Universitat Jaume I, 2001, pp. 75-94.</p>     <p>BROWN-GRANT, Rosalind &minus; <i>Christine de Pizan and the moral defence of    women. </i><i>Reading beyond gender</i>. Cambridge: Cambridge University Press,    1999.</p>     <p>BUESCU, Ana Isabel &minus; &ldquo;Educar o Pr&iacute;ncipe no S&eacute;culo    XVI&rdquo;. in BUESCU, Ana Isabel &minus; <i>Na corte dos Reis de Portugal.    Saberes, ritos e mem&oacute;rias</i>. 2&ordf; Ed. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es    Colibri, 2011, pp. 11-51.</p>     <p>CARRARA, Eliana &minus; &ldquo;Christine de Pizan. Biografia di una donna di    lettere del XV secolo&rdquo;. <i>Quaderni medievali</i> 29 (1990), pp. 65-81.  </p>     <p>CORREIA, Lic&iacute;nia Maria da Trindade &minus; <i>A Insinan&ccedil;a das    Damas. Formas de Poder Feminino no s&eacute;culo XV (o caso de Isabel de Lencastre)</i>.    Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2013.Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado.</p>     <p>HANLEY, Sarah &minus; &ldquo;La ley s&aacute;lica&rdquo;. in FAUR&Eacute;,    Christine (Dir.) &ndash; <i>Enciclopedia hist&oacute;rica y pol&iacute;tica    de las mujeres. </i><i>Europa y Am&eacute;rica</i>. Trad. Marisa P&eacute;rez    Colina. Madrid: Akal, 2010, pp. 21-38. </p>     <p>HOMET, Raquel &minus; &quot;Espacios femeninos en la pluma de Christine de    Pizan. El Libro de las tres virtudes o Tesoro de la Ciudad de las Damas&quot;.    Comunica&ccedil;&atilde;o apresentada no IV Congreso Internacional de Estudios    Medievales - VI Encuentro de Estudios Medievales, San Juan, Argentina, 2015.    Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.academia.edu/28949169/ESPACIOS_FEMENINOS_EN_LA_PLUMA_DE_CHRISTINE_DE_PIZAN" target="_blank">www.academia.edu/28949169/ESPACIOS_FEMENINOS_EN_LA_PLUMA_DE_CHRISTINE_DE_PIZAN</a></p>     <p>LACARRA LANZ, Eukene &minus; &ldquo;Las ense&ntilde;anzas de <i>Le livre des    trois vertus &agrave; l&rsquo;enseignement des dames</i> de Christine de Pizan    y sus primeras lectoras&rdquo;. <i>Cultura Neolatina</i> LXI (2001), pp. 335-360.</p>     <p>LEAL, Ivone &minus; <i>Cristina de Pisano e todo o universo de mulheres</i>.    Colec&ccedil;&atilde;o <i>Cadernos da condi&ccedil;&atilde;o feminina</i> 52.    Lisboa: Comiss&atilde;o para a igualdade e para os direitos das mulheres, 1999.</p>     <p>LOIS, &Eacute;lida &minus; &ldquo;La cr&iacute;tica gen&eacute;tica: un marco    te&oacute;rico sobre la disciplina, objetivos y m&eacute;todo&rdquo;. <i>Creneida</i>    [Em linha] 2 (2014), pp. 57-78 [Consultado a 10 de Julho de 2017]. Dispon&iacute;vel    em <a href="http://www.creneida.com/revista/creneida-2-2014/la-cr%C3%ADtica-gen%C3%A9tica-un-marco-te%C3%B3rico-sobre-la-disciplina-objetivos-y-m%C3%A9todos-%C3%A9lida-lois/" target="_blank">www.creneida.com/revista/creneida-2-2014/la-cr%C3%ADtica-gen%C3%A9tica-un-marco-te%C3%B3rico-sobre-la-disciplina-objetivos-y-m%C3%A9todos-%C3%A9lida-lois/</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>MENDON&Ccedil;A, Manuela &minus; &ldquo;O <i>Espelho de Cristina</i> (s&eacute;c.    XV)&rdquo;. <i>Hist&oacute;ria Revista</i> 18, 1 (2013), pp. 53-68.</p>     <p>McCASH, June Hall &minus; &ldquo;The Cultural Patronage of Medieval Women:    An Overview&rdquo;. in McCASH, June (Ed.) &minus; <i>The Cultural Patronage    of Medieval Women</i>. Georgia: The University of Georgia Press, 1996, pp. 1-49.</p>     <p>PICKFORD, Cedric E. &ndash; &ldquo;Fiction and the reading public in the fifteenth    Century&rdquo;. <i>Bulletin of the John Rylands Library</i> XVL (1963), pp.    423-438.</p>     <p>RIVERA GARRETAS, Mar&iacute;a-Milagros &minus; &ldquo;Christine de Pizan: La    utop&iacute;a de un espacio separado&rdquo;. in RIVERA GARRETAS, Mar&iacute;a-Milagros    &minus; <i>Textos y espacios de mujeres (Europa, siglos IV-XV)</i>. Barcelona:    Karia, 1999, pp. 179-207.</p>     <p>SALA VILLAVERDE, Alicia, &minus; <i>Cristina de Pizan, una innovadora en el    mundo medieval</i>. Espa&ntilde;a: Universidad Nacional de Educaci&oacute;n    a Distancia, 2015. Tese de Doutoramento.</p>     <p>SOUSA, Sara Rodrigues de &minus; &ldquo;Christine de Pizan em portugu&ecirc;s&rdquo;.    in LOPEZ CASTRO, Armando; CUESTA TORRE, Mar&iacute;a Luzdivina (Eds.) &ndash;    <i>Actas del XI Congreso Internacional de la Asociaci&oacute;n Hisp&aacute;nica    de Literatura Medieval (Universidad de Le&oacute;n, 20al 24 de septiembre de    2005)</i>. Vol. II. Le&oacute;n: Servicio de Imprenta de la Universidad de Le&oacute;n,    2007, pp. 967-977.</p>     <p>WILLARD, Charity Cannon &minus; &ldquo;A Portuguese Translation of Christine    de Pisan's <i>Livre des Trois Vertus</i>&rdquo;. PMLA 78, 5 (1963), pp. 459-464.</p>     <p>&minus; &ldquo;The Manuscript Tradition of the <i>Livre Des Trois Vertus</i>    and Christine de Pizan's Audience&rdquo;. <i>Journal of the History of Ideas</i>    27, 3 (1966), pp. 433-444.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <p>SONSINO, Ana Lu&iacute;sa &ndash; &ldquo;Os leitores do <i>Espelho de Cristina</i>:    um recorte das cortes&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm; 25 (Janeiro    &ndash; Junho 2019). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA25/sonsino2504.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA25/sonsino2504.html</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data recep&ccedil;&atilde;o do artigo: 31 de maio de 2018</p>     <p>Data aceita&ccedil;&atilde;o do artigo: 7 de dezembro de 2018</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>NOTAS</b></p>     <p><a href="#_ftnref0" name="_ftn0" title="">&sect;</a> Bolseira FCT desde 2017    &ndash; SFRH/BD/131612/2017.</p>     <p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">[1]</a> LOIS, &Eacute;lida &minus;    &ldquo;La cr&iacute;tica gen&eacute;tica: un marco te&oacute;rico sobre la disciplina,    objetivos y m&eacute;todo&rdquo;. <i>Creneida</i> [Em linha] 2 (2014), pp. 57-78    [Consultado a 10 de Julho de 2017]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.creneida.com/revista/creneida-2-2014/la-cr%C3%ADtica-gen%C3%A9tica-un-marco-te%C3%B3rico-sobre-la-disciplina-objetivos-y-m%C3%A9todos-%C3%A9lida-lois/" target="_blank">www.creneida.com/revista/creneida-2-2014/la-cr%C3%ADtica-gen%C3%A9tica-un-marco-te%C3%B3rico-sobre-la-disciplina-objetivos-y-m%C3%A9todos-%C3%A9lida-lois/</a>,    p. 76.</p>     <p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2" title="">[2]</a> LOIS, &Eacute;lida &minus;    &ldquo;La cr&iacute;tica gen&eacute;tica&rdquo;, pp. 76-77.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3" title="">[3]</a> BRANDENBERGER, Tobias &minus;    &ldquo;Una traducci&oacute;n bajomedieval y su p&uacute;blico: notas acerca    del Espelho de Cristina (Lisboa, 1518)&rdquo;. in MART&Iacute;NEZ ROMERO, Tom&agrave;s;    RECIO, Roxana (Eds.) &minus; <i>Essays on Medieval Translation in the Iberian    Peninsula</i>. Castell&oacute; de la Plana: Publicacions de la Universitat Jaume    I, 2001, pp. 75-94, p. 75.</p>     <p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4" title="">[4]</a> PIZAN, Christine de &minus;    <i>O Livro das Tres Vertudes a Insinan&ccedil;a das Damas</i>. Ed. e Introdu&ccedil;&atilde;o    de Maria de Lourdes Crispim. Lisboa: Editorial Caminho, 2002, pp. 31-37. </p>     <p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5" title="">[5]</a> Abordarei esta quest&atilde;o    na p. 11 e seguintes.</p>     <p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6" title="">[6]</a> BRANDENBERGER, Tobias &ndash;    &ldquo;Una traducci&oacute;n&rdquo;, p. 75.</p>     <p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7" title="">[7]</a> LEAL, Ivone &minus; <i>Cristina    de Pisano e todo o universo de mulheres</i>. Colec&ccedil;&atilde;o <i>Cadernos    da condi&ccedil;&atilde;o feminina</i> 52. Lisboa: Comiss&atilde;o para a igualdade    e para os direitos das mulheres, 1999, p. 9.</p>     <p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8" title="">[8]</a> &ldquo;Cristina es una presencia    fuerte en todos sus escritos. Los autores pueden escribir en primera o en tercera    persona, en este &uacute;ltimo caso, tomando cierta distancia &ndash; aunque    sea s&oacute;lo convencionalmente &ndash; de la acci&oacute;n. Ella usa la primera    persona e interviene reiteradamente con el famoso moi, Christine para asegurarse    de que todos sepan &ndash; sepamos &ndash; que es su opini&oacute;n y su experiencia    la que anota, o bien indicando, a prop&oacute;sito de alg&uacute;n episodio    especialmente significativo, que lo vimos con nuestros propios ojos&rdquo;.    HOMET, Raquel &minus; &quot;Espacios femeninos en la pluma de Christine de Pizan.    El Libro de las tres virtudes o Tesoro de la Ciudad de las Damas&quot;. Comunica&ccedil;&atilde;o    apresentada no IV Congreso Internacional de Estudios Medievales - VI Encuentro    de Estudios Medievales, San Juan, Argentina, 2015, pp. 3-4. Dispon&iacute;vel    em: <a href="http://www.academia.edu/28949169/ESPACIOS_FEMENINOS_EN_LA_PLUMA_DE_CHRISTINE_DE_PIZAN" target="_blank">www.academia.edu/28949169/ESPACIOS_FEMENINOS_EN_LA_PLUMA_DE_CHRISTINE_DE_PIZAN</a></p>     <p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9" title="">[9]</a> &Eacute; de notar que o nome    da m&atilde;e de Christine n&atilde;o &eacute; conhecido.</p>     <p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10" title="">[10]</a> Mar&iacute;a-Milagros    Rivera Garretas refere que a autora tinha tr&ecirc;s anos na altura da mudan&ccedil;a,    enquanto Marie-Jos&eacute; Lemarchand indica que Christine &ldquo;[a]penas tendr&iacute;a    cuatro a&ntilde;os&rdquo; aquando da sua chegada a Fran&ccedil;a. Por sua vez,    Eliana Carrara, que vai reconstruindo o percurso de vida da escritora resgatando    as passagens autobiogr&aacute;ficas da sua obra, n&atilde;o estabelece a idade    com que emigrou, mas cita documentos que provam que Tommaso de Pizzano teria    estado em Veneza pelo menos at&eacute; Setembro de 1364 e, ainda, uma passagem    em que Christine afirma que, antes de ela e a sua fam&iacute;lia terem viajado    para se reunirem com o seu pai, este estaria a morar na corte francesa h&aacute;    cerca de tr&ecirc;s anos. Cf. RIVERA GARRETAS, Mar&iacute;a-Milagros &minus;    &ldquo;Christine de Pizan: La utop&iacute;a de un espacio separado&rdquo;. in    RIVERA GARRETAS, Mar&iacute;a-Milagros &minus; <i>Textos y espacios de mujeres    (Europa, siglos IV-XV)</i>. Barcelona: Karia, 1999, p. 182; PISAN, Christine    &minus; <i>La Ciudad de las Damas</i>. Ed., tradu&ccedil;&atilde;o e introdu&ccedil;&atilde;o    de Marie-Jos&eacute; Lemarchand. 2&ordf; ed. Madrid: Ediciones Siruela, 2001,    p. 11 e CARRARA, Eliana &minus; &ldquo;Christine de Pizan. Biografia di una    donna di lettere del XV secolo&rdquo;. <i>Quaderni medievali</i> 29 (1990),    p. 67. </p>     <p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11" title="">[11]</a> PISAN, Christine &minus;    <i>La Ciudad de las Damas</i>. Ed. Marie-Jos&eacute; Lemarchand, p.11.</p>     <p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12" title="">[12]</a> RIVERA GARRETAS, Mar&iacute;a-Milagros    &minus; &ldquo;Christine de Pizan&rdquo;, p. 184.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13" title="">[13]</a> CARRARA, Eliana &minus;    &ldquo;Christine de Pizan&rdquo;, p. 77.</p>     <p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14" title="">[14]</a> PISAN, Christine &minus;    <i>La Ciudad de las Damas</i>. Ed. Marie-Jos&eacute; Lemarchand, p. 56.</p>     <p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15" title="">[15]</a> Os dados para realizar    esta breve resenha biogr&aacute;fica foram colhidos nos textos supracitados    de Eliana Carrara, Marie-Jos&eacute; Lemarchand e Maria-Milagros Rivera Garretas    e, ainda, na Tese de Doutoramento de A. Sala Villaverde &ndash; <i>Cristine    de Pizan, una innovadora en el mundo medieval</i>. Espa&ntilde;a: Universidad    Nacional de Educaci&oacute;n a Distancia, 2015. Apenas refiro em nota as informa&ccedil;&otilde;es    que constam em apenas um daqueles textos ou que, dada a sua relev&acirc;ncia,    mereceram uma men&ccedil;&atilde;o individual. As restantes podem sem encontradas    nos autores indicados.</p>     <p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16" title="">[16]</a> SALA VILLAVERDE, Alicia    &minus; <i>Cristina de Pizan, una innovadora en el mundo medieval</i>. Espa&ntilde;a:    Universidad Nacional de Educaci&oacute;n a Distancia, 2015. Tese de Doutoramento.</p>     <p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17" title="">[17]</a> HANLEY, Sarah &minus;    &ldquo;La ley s&aacute;lica&rdquo;. in FAUR&Eacute;, Christine (Dir.) &ndash;    <i>Enciclopedia hist&oacute;rica y pol&iacute;tica de las mujeres. </i><i>Europa    y Am&eacute;rica</i>. Trad. Marisa P&eacute;rez Colina. Madrid: Akal, 2010,    p. 25.</p>     <p><a href="#_ftnref18" name="_ftn18" title="">[18]</a> HANLEY, Sarah &minus;    &ldquo;La ley s&aacute;lica&rdquo;, p. 26.</p>     <p><a href="#_ftnref19" name="_ftn19" title="">[19]</a> AGOSTINHO, Paulo Jorge;    MARTINS, Miguel Gomes; MONTEIRO, Jo&atilde;o Gouveia &minus;<i> Guerra e Poder    na Europa Medieval. Das cruzadas &agrave; guerra dos 100 anos.</i> Coimbra:    Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015, pp. 343-345. </p>     <p><a href="#_ftnref20" name="_ftn20" title="">[20]</a> SALA VILLAVERDE, Alicia    &minus; <i>Cristine de Pisan</i>.</p>     <p><a href="#_ftnref21" name="_ftn21" title="">[21]</a> AGOSTINHO, Paulo Jorge<i>    et al</i>. &ndash; <i>Guerra e Poder na Europa Medieval</i>, p. 276.</p>     <p><a href="#_ftnref22" name="_ftn22" title="">[22]</a> SALA VILLAVERDE, Alicia    &minus; <i>Cristine de Pisan</i>, p. 32.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref23" name="_ftn23" title="">[23]</a> WILLARD, Charity Cannon    &minus; &ldquo;The Manuscript Tradition of the <i>Livre Des Trois Vertus</i>    and Christine de Pizan's Audience&rdquo;. <i>Journal of the History of Ideas</i>    27, 3 (1966), pp. 433-444.</p>     <p><a href="#_ftnref24" name="_ftn24" title="">[24]</a> WILLARD, Charity Cannon    &minus; &ldquo;The Manuscript&rdquo;, p. 436.</p>     <p><a href="#_ftnref25" name="_ftn25" title="">[25]</a> Treze anos depois de ter    escrito este artigo, aquando da redac&ccedil;&atilde;o da introdu&ccedil;&atilde;o    e das notas da edi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica do <i>Livre des trois vertus</i>,    publicada em 1989 com Eric Hicks, C. C. Willard refere a exist&ecirc;ncia de    vinte e um manuscritos. Manteve, no entanto, o n&uacute;mero dos pertencentes    ao primeiro grupo (apenas um) e o dos que tiveram como suporte o papel (nove).    Cito de acordo com LACARRA LANZ, Eukene &minus; &ldquo;Las ense&ntilde;anzas    de <i>Le livre des trois vertus &agrave; l&rsquo;enseignement des dames</i>    de Christine de Pizan y sus primeras lectoras&rdquo;. <i>Cultura Neolatina</i>    LXI (2001), p. 27. Contudo, as conclus&otilde;es a que chega esta autora diferem    em grande medida das de C. C. Willard, na medida em que afirma que os manuscritos    acima referidos seriam &ldquo;manuscritos lujosos, la mayor parte de cuyos propietarios    o propietarias pertenec&iacute;an a la realeza y a la m&aacute;s alta nobleza&rdquo;.    A autora fundamenta esta afirma&ccedil;&atilde;o no trabalho de Sandra L. Hindman    (<i>Christine de Pizan&rsquo;s &ldquo;Epistre Oth&eacute;a&rdquo;. </i><i>Painting    and Politics at the Court of Charles VI</i>, de 1986) e, ainda, no de June MacCash    (&ldquo;The cultural patronage os medieval women&rdquo;, de 1996). Tendo sido    poss&iacute;vel verificar apenas o segundo, verifica-se que June MacCash cita    C. C. Willard e os dezoito manuscritos listados no seu artigo de 1966, sem todavia    chegar &agrave; conclus&atilde;o de Eukene Lacarra. Por sua vez, Tobias Brandenberger,    no artigo &ldquo;Una traducci&oacute;n&rdquo;, e com base nos mesmos trabalhos    de C. C. Willard (o de 1966 e e de 1989) citados por Eukene Lacarra, indica    uma vintena de manuscritos e afirma &ldquo;[f]altan copias de lujo (que s&iacute;    que existen en el caso de otras obras de Christine que gozaron de gran aprecio    en las familias de la alta aristocracia), pero existen varios manuscritos de    papel cuyas caracter&iacute;sticas obligan a pensar en lectores (o lectoras)    de clase media&rdquo; (pp. 83-84). A uma conclus&atilde;o similar chega Rosalind    Brown-Grant, que indica &ldquo;the <i>Trois Vertus</i> seems to have appealed    more to a middle-class audience at the end of the fifteenth century than to    Christine&rsquo;s immediate patrons, the royal families of Orl&eacute;ans, Burgundy    and Berry, since no luxurious presentation copy of the text survives, whereas    there is an unusually high number of paper manuscripts which were presumably    owned by a less wealthy readership&rdquo; (<i>Christine de Pizan and the moral    defence of women. </i><i>Reading beyond gender</i>. Cambridge: Cambridge University    Press, 1999, p. 176). Feitas as contas, se dos dezoito manuscritos referidos    em 1966 nove seriam em papel, um pertencia ao primeiro grupo, dois ou tr&ecirc;s    ao segundo, e cinco ou seis ao terceiro. O aparecimento de mais tr&ecirc;s manuscritos    que n&atilde;o se inserem nem no primeiro, nem no quarto grupo n&atilde;o consegue    instaurar um desiquil&iacute;brio suficientemente forte para revogar as primeiras    conclus&otilde;es de C. C. Willard, ou seja, o facto de 40% dos vinte e um manuscritos    que chegaram at&eacute; n&oacute;s serem em papel, apesar da fragilidade do    suporte quando comparado com o pergaminho, e da inc&uacute;ria das Bibliotecas    que os possu&iacute;am (que n&atilde;o as aristrocr&aacute;ticas). Posto isto,    continua a ser ineg&aacute;vel a circula&ccedil;&atilde;o deste texto em ambiente    n&atilde;o cortes&atilde;o. Assim sendo, ser&atilde;o referidos apenas os dezoito    manuscritos indicados no artigo de C. C. Willard de 1966, mantendo a distribui&ccedil;&atilde;o    dos manuscritos pelos diversos grupos e a leitura que faz do respectivo significado.</p>     <p><a href="#_ftnref26" name="_ftn26" title="">[26]</a> PICKFORD, Cedric E. &ndash;    &ldquo;Fiction and the reading public in the fifteenth Century&rdquo;. <i>Bulletin    of the John Rylands Library</i> XVL (1963), p. 435.</p>     <p><a href="#_ftnref27" name="_ftn27" title="">[27]</a> HOMET, Raquel &minus;    &ldquo;Espacios femeninos&rdquo;, p. 2.</p>     <p><a href="#_ftnref28" name="_ftn28" title="">[28]</a> LEAL, Ivone &minus; <i>Cristina    de Pisano</i>, p. 7.</p>     <p><a href="#_ftnref29" name="_ftn29" title="">[29]</a> LEAL, Ivone &minus; <i>Cristina    de Pisano</i>, p. 18.</p>     <p><a href="#_ftnref30" name="_ftn30" title="">[30]</a> LACARRA LANZ, Eukene &minus;    &ldquo;Las ense&ntilde;anzas&rdquo;, p. 28.</p>     <p><a href="#_ftnref31" name="_ftn31" title="">[31]</a> LEAL, Ivone &minus; <i>Cristina    de Pisano</i>, pp. 18-19.</p>     <p><a href="#_ftnref32" name="_ftn32" title="">[32]</a> MENDON&Ccedil;A, Manuela    &minus; &ldquo;O <i>Espelho de Cristina</i> (s&eacute;c. XV)&rdquo;. in <i>Hist&oacute;ria    Revista</i> 18, 1 (2013), p. 54.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref33" name="_ftn33" title="">[33]</a> MENDON&Ccedil;A, Manuela    &minus; &ldquo;O <i>Espelho de Cristina</i> (s&eacute;c. XV)&rdquo;, pp. 54-57;    LACARRA LANZ, Eukene &minus; &ldquo;Las ense&ntilde;anzas&rdquo;, pp. 33-34;    PIZAN, Christine de &minus; <i>O Livro das Tres Vertudes</i>. Ed. Maria de Lourdes    Crispim, p. 30, entre outros.</p>     <p><a href="#_ftnref34" name="_ftn34" title="">[34]</a> MENDON&Ccedil;A, Manuela    &minus; &ldquo;O <i>Espelho de Cristina</i> (s&eacute;c. XV)&rdquo;, p. 62.</p>     <p><a href="#_ftnref35" name="_ftn35" title="">[35]</a> BUESCU, Ana Isabel &minus;    &ldquo;Educar o Pr&iacute;ncipe no S&eacute;culo XVI&rdquo;. in BUESCU, Ana    Isabel &minus; <i>Na corte dos Reis de Portugal. Saberes, ritos e mem&oacute;rias</i>.    2&ordf; Ed. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es Colibri, 2011, p. 39.</p>     <p><a href="#_ftnref36" name="_ftn36" title="">[36]</a> BUESCU, Ana Isabel &minus;    &ldquo;Educar o Pr&iacute;ncipe&rdquo;, pp. 37-41.</p>     <p><a href="#_ftnref37" name="_ftn37" title="">[37]</a> RIVERA GARRETAS, Mar&iacute;a-Milagros    &minus; &ldquo;Christine de Pizan&rdquo;, p. 189.</p>     <p><a href="#_ftnref38" name="_ftn38" title="">[38]</a> PIZAN, Christine de &minus;    <i>O Livro das Tres Vertudes</i>. Ed. Maria de Lourdes Crispim, pp. 32-34.</p>     <p><a href="#_ftnref39" name="_ftn39" title="">[39]</a> S&atilde;o m&uacute;ltiplas    as fontes onde se pode verificar esta informa&ccedil;&atilde;o. Em particular,    e dado o teor do presente trabalho, fa&ccedil;o men&ccedil;&atilde;o aos artigos    de WILLARD, Charity Cannon &minus; &ldquo;A Portuguese Translation of Christine    de Pisan's <i>Livre des Trois Vertus</i>&rdquo;. PMLA 78, 5 (1963), pp. 459-464;    MENDON&Ccedil;A, Manuela &minus; &ldquo;O <i>Espelho de Cristina</i>&rdquo;;    e, ainda, CORREIA, Lic&iacute;nia Maria da Trindade &minus; <i>A Insinan&ccedil;a    das Damas. Formas de Poder Feminino no s&eacute;culo XV (o caso de Isabel de    Lencastre)</i>. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2013.Disserta&ccedil;&atilde;o    de Mestrado, entre outros.</p>     <p><a href="#_ftnref40" name="_ftn40" title="">[40]</a> Segundo alguns autores,    Isabel de Borgonha, na &eacute;poca em causa, ainda n&atilde;o dominava bem    o franc&ecirc;s, o que justificaria a necessidade de realizar a tradu&ccedil;&atilde;o    antes do seu casamento, ou nos seus primeiros tempos na corte borguinhona. Veja-se    PIZAN, Christine de &minus; <i>O Livro das Tres Vertudes</i>. Ed. Maria de Lourdes    Crispim, p. 33.</p>     <p><a href="#_ftnref41" name="_ftn41" title="">[41]</a> &ldquo;[...] o qual liu<i>r</i>o    foy tornado de ffran&ccedil;es em esta nossa linguaJem portugues p<i>er</i>    mandado da muyto ex&ccedil;illente <i>e</i> conprida de muytas vertudes S<i>e</i>n<i>h</i>ora    a R<i>ainh</i>a dona Jsabel molher do muyto alto <i>e</i> muyto ex&ccedil;ilente    p<i>ri</i>n&ccedil;ep<i>e</i> <i>e</i> S<i>enh</i>or El Rey dom a<i>fons</i>o    o quynto de portugal <i>e</i> do algarue <i>e</i> S<i>e</i>n<i>h</i>or de &ccedil;epta&rdquo;.    PISAN, Christine de &minus; <i>Livro das tres vertudes</i>, Ms. mss/11515, f.    1r..</p>     <p><a href="#_ftnref42" name="_ftn42" title="">[42]</a> Segundo os dados paleogr&aacute;ficos,    o manuscrito &eacute; posterior a 1440 e, muito provavelmente, posterior a 1450,    o que vai ao encontro do que se pode inferir do <i>incipit</i> do c&oacute;dice.    Com efeito, sabemos que Isabel de Coimbra foi rainha consorte de 1447 a 1455    e que a f&oacute;rmula da intitula&ccedil;&atilde;o de D. Afonso V entre 1446    e 1458 era &ldquo;Dom Afonso pela gra&ccedil;a de Deus Rei de Portugal e dos    Algarves e senhor de Ceuta&rdquo;, balizas temporais que coincidem com as obtidas    dos dados exclusivamente paleogr&aacute;ficos. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref43" name="_ftn43" title="">[43]</a> PIZAN, Christine de &minus;    <i>O Livro das Tres Vertudes</i>. Ed. Maria de Lourdes Crispim, p. 34.</p>     <p><a href="#_ftnref44" name="_ftn44" title="">[44]</a> PIZAN, Christine de &minus;    <i>O Livro das Tres Vertudes</i>. Ed. Maria de Lourdes Crispim, p. 30.</p>     <p><a href="#_ftnref45" name="_ftn45" title="">[45]</a> PIZAN, Christine de &minus;    <i>O Livro das Tres Vertudes</i>. Ed. Maria de Lourdes Crispim, p. 35.</p>     <p><a href="#_ftnref46" name="_ftn46" title="">[46]</a> Cf. LEAL, Ivone &minus;    <i>Cristina de Pisano</i>, pp. 16-17.</p>     <p><a href="#_ftnref47" name="_ftn47" title="">[47]</a> Neste contexto, o termo    a utilizar seria exemplar e n&atilde;o testemunho (n&atilde;o s&atilde;o termos    equivalentes). </p>     <p><a href="#_ftnref48" name="_ftn48" title="">[48]</a> SOUSA, Sara Rodrigues    de &minus; &ldquo;Christine de Pizan em portugu&ecirc;s&rdquo;. in LOPEZ CASTRO,    Armando; CUESTA TORRE, Mar&iacute;a Luzdivina (Eds.) &ndash; <i>Actas del XI    Congreso Internacional de la Asociaci&oacute;n Hisp&aacute;nica de Literatura    Medieval (Universidad de Le&oacute;n, 20al 24 de septiembre de 2005)</i>. Vol.    II. Le&oacute;n: Servicio de Imprenta de la Universidad de Le&oacute;n, 2007,    p. 967.</p>     <p><a href="#_ftnref49" name="_ftn49" title="">[49]</a> LEAL, Ivone &minus; <i>Cristina    de Pisano</i>, p. 19.</p>     <p><a href="#_ftnref50" name="_ftn50" title="">[50]</a> LEAL, Ivone &minus; <i>Cristina    de Pisano</i>, p. 26, nota 16.</p>     <p><a href="#_ftnref51" name="_ftn51" title="">[51]</a> LEAL, Ivone &minus; <i>Cristina    de Pisano</i>, p. 19.</p>     <p><a href="#_ftnref52" name="_ftn52" title="">[52]</a> Tobias Branderberger refere-se    (em ambos os artigos aqui citados) a este manuscrito, hoje perdido, como &ldquo;o    original franc&ecirc;s&rdquo;. Sendo o conceito de original complexo e discut&iacute;vel,    usarei o termo antecedente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#_ftnref53" name="_ftn53" title="">[53]</a> BRANDENBERGER, Tobias    &minus; &ldquo;Una traducci&oacute;n&rdquo;, pp. 77-78. </p>     <p><a href="#_ftnref54" name="_ftn54" title="">[54]</a> BRANDENBERGER, Tobias    &minus; &ldquo;Christine de Pizan em Portugal: as tradu&ccedil;&otilde;es do    <i>Livre des Trois Vertus</i>&rdquo;. in EARLE, Tom F. (Ed.) &minus; <i>Actas    do Quinto Congresso da Associa&ccedil;&agrave;o Internacional de Lusitanistas.    Universidade de Oxford: 1 a 8 de Setembro de 1996</i>. Vol. I. Oxford / Coimbra:    Associa&ccedil;&atilde;o Internacional de Lusitanistas, 1998, p. 426.</p>     <p><a href="#_ftnref55" name="_ftn55" title="">[55]</a> Este fen&oacute;meno n&atilde;o    obedece apenas &agrave; import&acirc;ncia dada &agrave;s diversas camadas sociais    ou ao conhecimento mais ou menos aprofundado que Christine teria de cada uma    de elas, mas, ainda, ao facto de a autora tratar logo na primeira parte de quest&otilde;es    que diziam respeito a todas as mulheres e &agrave;s quais, feita a aclara&ccedil;&atilde;o    pertinente, n&atilde;o voltar&aacute; nas seguintes sec&ccedil;&otilde;es do    livro.</p>     <p><a href="#_ftnref56" name="_ftn56" title="">[56]</a> BRANDENBERGER, Tobias    &minus; &ldquo;Christine de Pizan em Portugal&rdquo;, pp. 430-431.</p>     <p><a href="#_ftnref57" name="_ftn57" title="">[57]</a> BRANDENBERGER, Tobias    &minus; &ldquo;Una traducci&oacute;n&rdquo;, pp. 78-80.</p>     <p><a href="#_ftnref58" name="_ftn58" title="">[58]</a> Isto evidencia-se ainda    noutros pormenores da tradu&ccedil;&atilde;o que, pelas caracter&iacute;sticas    deste trabalho, n&atilde;o foram aqui abordados. Veja-se Brandenberger, Tobias    &ndash; &ldquo;Christine de Pizan em Portugal&rdquo;, pp. 431-432.</p>     <p><a href="#_ftnref59" name="_ftn59" title="">[59]</a> BRANDENBERGER, Tobias    &minus; &ldquo;Christine de Pizan em Portugal&rdquo;, p. 427.</p>     <p><a href="#_ftnref60" name="_ftn60" title="">[60]</a> BRANDENBERGER, Tobias    &minus; &ldquo;Christine de Pizan em Portugal&rdquo;, p. 428.</p>     <p><a href="#_ftnref61" name="_ftn61" title="">[61]</a> No seu artigo &ldquo;Una    traducci&oacute;n&rdquo;, Tobias Brandenberger aborda ainda a quest&atilde;o    do g&eacute;nero do receptor no momento tanto de redigir uma obra, como de realizar    a sua tradu&ccedil;&atilde;o. Dadas as caracter&iacute;sticas do presente trabalho,    apenas referirei que, no que diz respeito a esta quest&atilde;o, a tradu&ccedil;&atilde;o    respeita o que o autor denomina configura&ccedil;&atilde;o do <i>gender </i>da    obra, pois mant&eacute;m a escrita anti-mis&oacute;gina e amplia o enfoque did&aacute;ctico    aos homens na segunda e terceira parte, tal como Christine fez (veja-se pp.    84-91).</p>      ]]></body><back>
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