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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Recensão: BENÍTEZ GUERRERO, Carmen - Crónica de Fernando IV. Estudio y edición de un texto postalfonsí. Sevilha: Editorial Universidad de Sevilla y Cátedra Alfonso X El Sabio, 2017 (217 pp.)]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2"><b>RECENSÃO</b></font></p>     <p><font size="2"><b></b></font><font size="4"><b>Recensão: BEN&Iacute;TEZ GUERRERO,    Carmen &ndash; Cr&oacute;nica de Fernando IV. Estudio y edici&oacute;n de un    texto postalfons&iacute;. Sevilha: Editorial Universidad de Sevilla y C&aacute;tedra    Alfonso X El Sabio, 2017 (217 pp.)</b></font></p>     <p><b>Filipe Alves Moreira<sup>*</sup></b></p>     <p><sup>*</sup> Centro de Literaturas e Culturas Lus&oacute;fonas e Europeias,    Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa / Instituto de Filosofia, Universidade    do Porto, 1600-214, Lisboa, Portugal. <a href="mailto:gomeseanes@gmail.com">gomeseanes@gmail.com</a></p> <hr/>     <p>&nbsp;</p>     <p>Contrariamente ao que sucede com as cr&oacute;nicas medievais portuguesas,    as cr&oacute;nicas castelhanas t&ecirc;m sido alvo de uma aten&ccedil;&atilde;o    constante e dedicada por parte de uma comunidade de investigadores relativamente    alargada, para al&eacute;m de coesa e atenta. Em resultado de tudo isto, t&ecirc;m    surgido, nos &uacute;ltimos anos, diversos e importantes estudos, col&oacute;quios    e teses. Tamb&eacute;m v&aacute;rias edi&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m sido produzidas,    disponibilizando-se desta forma um conjunto de textos que permaneciam in&eacute;ditos    ou muito insuficientemente editados. Disto mesmo &eacute; exemplo esta edi&ccedil;&atilde;o    da <i>Cr&oacute;nica de Fernando IV</i> (rei entre 1295 e 1312; a cr&oacute;nica    datar&aacute; de ca. 1340), da responsabilidade de uma das melhores e mais promissoras    estudiosas destes assuntos, Carmen Ben&iacute;tez Guerrero, da Universidade    de Sevilha.</p>     <p>A edi&ccedil;&atilde;o aqui em apre&ccedil;o resulta da adapta&ccedil;&atilde;o    da Tese de Doutoramento da autora, apresentada &agrave; Universidade de Sevilha    em 2015, e defendida em fevereiro de 2016. Por raz&otilde;es t&eacute;cnicas    (e eventualmente or&ccedil;amentais), optou-se por apresentar um volume impresso,    com a edi&ccedil;&atilde;o da cr&oacute;nica e um longo e denso estudo introdut&oacute;rio    (162 p&aacute;ginas), juntamente com um <i>Cd-rom</i> que inclui uma vers&atilde;o    mais extensa (porque com um aparato de variantes mais detalhado) desta mesma    edi&ccedil;&atilde;o, e um conjunto de quadros e informa&ccedil;&otilde;es v&aacute;rias    sobre os manuscritos utilizados. &Eacute; uma op&ccedil;&atilde;o perfeitamente    l&oacute;gica, vi&aacute;vel e compreens&iacute;vel, muito embora nos possamos    interrogar sobre o eventual aumento do custo do volume que ela implica, assim    como ser&atilde;o leg&iacute;timas algumas d&uacute;vidas sobre a plausivelmente    r&aacute;pida caducidade do suporte <i>Cd-rom</i>, em &eacute;poca de acelerad&iacute;ssima    evolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica. O ideal seria, talvez, a disponibiliza&ccedil;&atilde;o    <i>online</i> de todos estes materiais.</p>     <p>Estamos perante uma edi&ccedil;&atilde;o not&aacute;vel. O aspeto gr&aacute;fico    e f&iacute;sico do volume &eacute; c&oacute;modo e atraente, e o trabalho editorial    &eacute; rigoros&iacute;ssimo e revela uma aguda consci&ecirc;ncia de teorias    e metodologias de cr&iacute;tica textual, facto tanto mais de salientar quanto    a autora tem uma forma&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica de base como historiadora,    o que poderia afast&aacute;-la de certos aspetos mais t&eacute;cnicos destas    quest&otilde;es. Al&eacute;m disso, a bibliografia utilizada &eacute; vasta    e inclui quer estudos cl&aacute;ssicos, quer estudos muito recentes (&eacute;    referida, por exemplo, uma Tese de Doutoramento defendida em 2016). A &uacute;nica    exce&ccedil;&atilde;o a esta acribia bibliogr&aacute;fica parecem-me ser os    momentos, ali&aacute;s compreensivelmente breves, em que a autora se refere    &agrave;s cr&oacute;nicas afonsinas e p&oacute;s-afonsinas (finais do s&eacute;c.    XIII e in&iacute;cios do XIV): de forma algo incompreens&iacute;vel, a bibliografia    citada a este prop&oacute;sito raramente ultrapassa o ano 2000 (veja-se, p.    ex., as pp. XXVII e XXVIII da Introdu&ccedil;&atilde;o) e a vis&atilde;o global    que da&iacute; resulta afigura-se-me o seu tanto simplista. Outra raz&atilde;o    para que estejamos, globalmente, perante uma edi&ccedil;&atilde;o not&aacute;vel    &eacute; o estilo argumentativo e de escrita da autora: claro e preciso, sem    deixar de ser denso, mas tamb&eacute;m en&eacute;rgico e corajoso. Carmen Ben&iacute;tez    tem ideias pr&oacute;prias, e n&atilde;o receia dizer, com frontalidade, que    n&atilde;o adere a esta ou &agrave;quela tese, muito embora o fa&ccedil;a de    modo bastante elegante. Sobre tudo isto, s&atilde;o rar&iacute;ssimas as (sempre    inevit&aacute;veis) gralhas de monta: um dos escassos casos que verifiquei ocorre    na nota de rodap&eacute; n&uacute;mero 254, que remete, erroneamente, para a    nota 215, deixando o leitor um pouco confuso. Vejamos resumidamente, e com alguns    ligeiros coment&aacute;rios, a estrutura e os conte&uacute;dos desta edi&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Antes da Introdu&ccedil;&atilde;o propriamente dita, surge uma &ldquo;Nota    preliminar&rdquo; (pp. XVII-XX), porventura excessivamente longa, mas em que    se d&atilde;o conta dos objetivos globais pretendidos: dado o elevado n&uacute;mero    de manuscritos existentes da <i>Cr&oacute;nica de Fernando IV</i> (mais de 40),    a autora n&atilde;o apresenta uma edi&ccedil;&atilde;o que tenha em conta todas    as variantes de todos os manuscritos, mas tamb&eacute;m n&atilde;o se limita    a apresentar o texto de um deles; a meio caminho entre ambas estas posi&ccedil;&otilde;es,    do que aqui se cuida &eacute; de &ldquo;seleccionar un primer grupo de testimonios    con los que trabajar para avanzar en el an&aacute;lisis de la historia textual,    y ofrecer una nueva edici&oacute;n, aunque s&oacute;lo fuera provisional desde    un punto de vista cr&iacute;tico, al menos desde una perspectiva neolachmaniana&rdquo;    (p. XVIII). Em conson&acirc;ncia com este programa tipicamente &lsquo;ao centro&rsquo;    (permita-se-me a met&aacute;fora pol&iacute;tica), a autora declara ainda fazer-se    eco do elogio da variante (alus&atilde;o a uma obra pol&eacute;mica e discut&iacute;vel    de finais dos anos 1980) e da <i>mouvance</i> (conceito zumthoriano), sem renunciar    &agrave; no&ccedil;&atilde;o de autor e de texto original. Por tudo isto, prefere    a autora &ldquo;no emplear el apelativo de <i>cr&iacute;tica</i> en el t&iacute;tulo    del trabajo&rdquo; (p. XIX). Se, por&eacute;m, considerarmos como &lsquo;edi&ccedil;&atilde;o    cr&iacute;tica&rsquo; uma que resulte de um processo te&oacute;rica e metodologicamente    conduzido de distanciamento em rela&ccedil;&atilde;o ao objeto / texto, o que    aqui temos &eacute; uma edi&ccedil;&atilde;o deveras cr&iacute;tica.</p>     <p>O estudo introdut&oacute;rio divide-se em quatro grandes sec&ccedil;&otilde;es:    &ldquo;Presupuestos pr&eacute;vios&rdquo; [e haver&aacute; pressupostos n&atilde;o    pr&eacute;vios?], &ldquo;La <i>Cr&oacute;nica de Fernando IV</i>: textualidad    y contextualidad&rdquo;, &ldquo;La transmisi&oacute;n manuscrita de la <i>Cr&oacute;nica    de Fernando IV</i>&rdquo; e &ldquo;Conclusiones&rdquo;. Ou seja: uma vez explicitados    os crit&eacute;rios e metodologias de base, a exposi&ccedil;&atilde;o vai seguindo    uma ordena&ccedil;&atilde;o basicamente cronol&oacute;gica, desde o momento    de feitura da vers&atilde;o original da cr&oacute;nica, at&eacute; &agrave;s    c&oacute;pias sucessivamente feitas e ao trabalho editorial que com base nelas    se prop&otilde;e. A elucida&ccedil;&atilde;o dos pressupostos b&aacute;sicos    desenvolve o programa &lsquo;ao centro&rsquo; resumido na nota pr&eacute;via,    e f&aacute;-lo, como &eacute; costume na autora, de forma clara e precisa. &Eacute;    especialmente en&eacute;rgica e interessante a defesa, a&iacute; feita, da edi&ccedil;&atilde;o    do texto medieval como terra de fronteira entre a Filologia e a Hist&oacute;ria    (p. XXVI).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O estudo da autoria, contexto e condi&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o    da <i>Cr&oacute;nica de Fernando IV</i> &eacute; uma das mais interessantes    partes do estudo introdut&oacute;rio. Carmen Ben&iacute;tez exp&otilde;e com    firme convic&ccedil;&atilde;o a debilidade de alguns argumentos que t&ecirc;m    sido avan&ccedil;ados para sustentar que o autor desta cr&oacute;nica (e das    de Afonso X e Sancho IV, que com ela formar&atilde;o o conjunto conhecido por    <i>Cr&oacute;nica de tres reyes</i>) foi Fern&aacute;n S&aacute;nchez de Valladolid    (ca. 1290 &ndash; ca. 1364), chanceler do rei Afonso XI (r. 1312 &ndash; 1350),    considerando que a &uacute;nica possibilidade criticamente sustent&aacute;vel    &eacute; desenhar:</p>     <blockquote>un perfil para el autor de la <i>Cr&oacute;nica de tres reyes</i>    o al menos para la persona que da forma final al texto, selecciona las fuentes    y vela &ndash; con m&aacute;s o menos &eacute;xito &ndash;&nbsp; porque todo    &eacute;l responda a un mensaje unit&aacute;rio (p. XXXII).</blockquote>     <p>Nesse perfil (que seria o de algu&eacute;m do entorno do rei Afonso XI, com    f&aacute;cil acesso a materiais da c&acirc;mara real e conhecimentos jur&iacute;dicos)    cabe, no entanto, perfeitissimamente bem a figura de S&aacute;nchez de Valladolid&hellip;    Carmen Ben&iacute;tez retoma e aprofunda, ainda, uma velha ideia, segundo a    qual a <i>Cr&oacute;nica de Fernando IV</i> seria especialmente devedora de    materiais pr&eacute;vios redigidos por Nu&ntilde;o P&eacute;rez de Monroy, abade    de Santander, morto em 1326. A este prop&oacute;sito, parece-me, por&eacute;m,    haver certa indefini&ccedil;&atilde;o de conceitos, pois a autora menciona por    diversas vezes o que chama de &ldquo;processo de composici&oacute;n que conoce    distintas fases&rdquo; (p. XXXVII), confundindo, por vezes, a meu ver, isso    com o aproveitamento de materiais de distintas carater&iacute;sticas e origens;    tamb&eacute;m o conceito de autor aqui considerado dar&aacute; p&eacute; a algumas    confus&otilde;es, como se v&ecirc; da cita&ccedil;&atilde;o atr&aacute;s deixada:    neste contexto, que &eacute;, afinal, um autor, sen&atilde;o algu&eacute;m que    &ldquo;da forma final al texto, seleciona las fuentes y vela [&hellip;] porque    todo &eacute;l responda a un mensaje unit&aacute;rio&rdquo;?</p>     <p>&Eacute; em seguida abordado o problema da considera&ccedil;&atilde;o da <i>Cr&oacute;nica    de Fernando IV</i> como uma obra aut&oacute;noma, ou como parte de um conjunto,    a <i>Cr&oacute;nica de tres reyes</i>. Carmen Ben&iacute;tez defende perspicazmente    a segunda op&ccedil;&atilde;o, o que a leva a minimizar (bem, segundo creio)    a import&acirc;ncia das, reais ou supostas, diverg&ecirc;ncias de m&eacute;todo    e conce&ccedil;&otilde;es notadas entre esta Cr&oacute;nica e as de Afonso X    e Sancho IV. Ser&aacute; especialmente pertinente, neste ponto, a ideia de Diego    Catal&aacute;n (que Ben&iacute;tez cita, na p. LXIII, a outro prop&oacute;sito),    segundo a qual &ldquo;en la Historiografia medieval, los textos formal, estructural    e ideologicamente mixtos son m&aacute;s comunes que los que responden a unos    princ&iacute;pios unit&aacute;rios&rdquo;. Em todo o caso, e como frequentemente    sucede, Carmen Ben&iacute;tez termina este apartado alertando para a provisoriedade    das suas conclus&otilde;es e a necessidade de as aprofundar. </p>     <p>A discuss&atilde;o do contexto ideol&oacute;gico de produ&ccedil;&atilde;o    da Cr&oacute;nica conduz Carmen Ben&iacute;tez a entrar na pol&eacute;mica quest&atilde;o    do molinismo, isto &eacute;, a exist&ecirc;ncia, ou n&atilde;o, de um modelo    pol&iacute;tico e cultural, com carater&iacute;sticas pr&oacute;prias (descritas    nas pp. LX e LXI), impulsionado pela corte r&eacute;gia (e especialmente pelo    entorno pr&oacute;ximo da rainha Mar&iacute;a de Molina, mulher de Sancho IV,    m&atilde;e de Fernando IV e av&oacute; de Afonso XI) e com o qual estaria ainda    relacionada, de algum modo, a feitura da <i>Cr&oacute;nica de tres reyes</i>.    Com isto se relaciona a problem&aacute;tica da exist&ecirc;ncia, ou n&atilde;o,    de focos de produ&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica alheios &agrave; corte    r&eacute;gia castelhana por estas &eacute;pocas, bem como a das rela&ccedil;&otilde;es    entre monarquia e aristocracia. Come&ccedil;ando por expor as vis&otilde;es,    antag&oacute;nicas entre si, de estudiosos como Fernando G&oacute;mez Redondo    e Leonardo Funes, Carmen Ben&iacute;tez acaba por adotar uma posi&ccedil;&atilde;o    pr&oacute;xima das de outros estudiosos, como Manuel Hijano Villegas: posta    em causa a pertin&ecirc;ncia e a extens&atilde;o do conceito de molinismo, n&atilde;o    se segue daqui a necessidade de excluir da &oacute;rbita da corte r&eacute;gia    a produ&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica da &eacute;poca hoje distinguida;    produ&ccedil;&atilde;o historiogr&aacute;fica de origem nobili&aacute;rquica    ter&aacute; existido, sim, mas o que hoje conhecemos resultar&aacute;, basicamente,    de reformula&ccedil;&otilde;es e aproveitamentos feitos no &acirc;mbito da corte    r&eacute;gia. O mais importante de tudo isto ser&aacute;, por&eacute;m, a forma    como Carmen Ben&iacute;tez chama a aten&ccedil;&atilde;o para a necessidade    de se reverem postulados te&oacute;ricos que exacerbam, de forma excessiva e    algo pr&eacute;-concebida, a oposi&ccedil;&atilde;o monarquia/aristocracia,    erigindo-a, mesmo, a crit&eacute;rio &uacute;ltimo de legibilidade hist&oacute;rica,    esquecendo ou minimizando o papel de outros agentes hist&oacute;rico-culturais.    Perfeitamente de acordo com esta vis&atilde;o da autora, diria apenas que me    parece excessiva a ideia, exposta na p. LVI, de que a ado&ccedil;&atilde;o deste    modelo interpretativo resulta de &ldquo;contagio de la estructura hace a&ntilde;os    propuesta por Luis Su&aacute;rez Fern&aacute;ndez para el siglo XV&rdquo;, pois    outras influ&ecirc;ncias, designadamente a historiografia francesa dos anos    60-70 (ou certas leituras dela), me parecem igualmente respons&aacute;veis pelo    quadro anal&iacute;tico tra&ccedil;ado.</p>     <p>Sobre a tradi&ccedil;&atilde;o manuscrita da <i>Cr&oacute;nica de Fernando    IV</i>, Carmen Ben&iacute;tez come&ccedil;a por tra&ccedil;ar uma r&aacute;pida,    porque reduzida ao essencial, revis&atilde;o das edi&ccedil;&otilde;es existentes    (bastante m&aacute;s pelos crit&eacute;rios atuais) e dos (escassos) trabalhos    que se t&ecirc;m ocupado dos manuscritos desta Cr&oacute;nica, com destaque    para os de Marcelo Rosende, e tamb&eacute;m de estudiosos que t&ecirc;m trabalhado    com a tradi&ccedil;&atilde;o manuscrita das Cr&oacute;nicas de Afonso X (Paula    K. Rodgers), Sancho IV (Pablo Saracino) e Afonso XI (Diego Catal&aacute;n),    os quais importa ter em conta pelo facto de v&aacute;rios manuscritos conterem    uma, ou mais, destas cr&oacute;nicas. Segue-se um elenco dos manuscritos conhecidos,    alguns deles identificados, pela primeira vez, pela autora, e an&aacute;lises    dens&iacute;ssimas do seu conte&uacute;do, das rela&ccedil;&otilde;es entre    eles estabelecidas (incluindo uma proposta de <i>stemma</i> que abrange alguns    deles, os que se t&ecirc;m em conta nesta edi&ccedil;&atilde;o) e de alguns    <i>loci</i> <i>critici</i>, por exemplo o controvertido problema da configura&ccedil;&atilde;o    original dos &uacute;ltimos cap&iacute;tulos da <i>Cr&oacute;nica de Fernando    IV</i> (e dos iniciais da de Afonso XI). </p>     <p>Ben&iacute;tez &eacute; geralmente bastante convincente com os seus argumentos,    mesmo reconhecendo a imensa complexidade destas quest&otilde;es, e poucas observa&ccedil;&otilde;es    lhe poderei fazer. Parece-me, apenas, que seria desej&aacute;vel prestar um    pouco mais de aten&ccedil;&atilde;o &agrave; edi&ccedil;&atilde;o de 1554 (&uacute;nica    existente anteriormente ao s&eacute;culo XIX), e explicitar um pouco mais os    crit&eacute;rios que levaram a autora a excluir da sua an&aacute;lise determinados    manuscritos. Assim, por exemplo, justifica-se a omiss&atilde;o de certos manuscritos    pelo grau de reelabora&ccedil;&atilde;o que eles apresentam (p. LXXVI), mas    um outro manuscrito &eacute; tido mais em conta, n&atilde;o obstante a autora    reconhecer que ele patenteia, igualmente, um elevado grau de reformula&ccedil;&atilde;o    do texto (p. CVII). Sendo compreens&iacute;vel que, por raz&otilde;es v&aacute;rias,    a autora adote o seu pr&oacute;prio sistema de siglas para designar a tradi&ccedil;&atilde;o    manuscrita da <i>Cr&oacute;nica de Fernando IV</i>, seria, no entanto, extremamente    c&oacute;modo que tivesse podido adotar o sistema de Saracino e de Rosende,    j&aacute; que isso ajudaria, certamente, os estudiosos do futuro a evitar certas    confus&otilde;es (o exemplo da <i>Estoria de Espa&ntilde;a</i> e cr&oacute;nicas    com ela relacionadas, cujos estudiosos foram mantendo o sistema de siglas previamente    estabelecido &eacute;, a este respeito, modelar). Nos pontos em que Carmen Ben&iacute;tez    discrepa de Rosende, os seus argumentos s&atilde;o geralmente convincentes,    mas nem sempre. Parece-me, por exemplo, que Rosende tem raz&atilde;o em salientar    o facto de que nada obrigava os cronistas a seguirem, na ordem de feitura das    cr&oacute;nicas, a ordem cronol&oacute;gica dos sucessivos reinados &ndash;    e Ben&iacute;tez, ao socorrer-se, neste ponto (p. CII), de exemplos como os    da chamada <i>Cr&oacute;nica de Fernando III</i> como continua&ccedil;&atilde;o    da <i>Estoria de Espa&ntilde;a</i>, ou da obra de Loaysa como continua&ccedil;&atilde;o    da obra de Rodrigo Jim&eacute;nez de Rada est&aacute;, em meu entender, a comparar    o incompar&aacute;vel.</p>     <p>A forma como a autora analisa as rela&ccedil;&otilde;es existentes entre os    manuscritos tidos em conta &eacute; minuciosa e revela um dom&iacute;nio perfeito    de t&eacute;cnicas editoriais, ainda as mais exigentes. Como seria expect&aacute;vel    tendo em vista o programa previamente exposto, Carmen Ben&iacute;tez dedica    especial aten&ccedil;&atilde;o a interpola&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas    de determinados manuscritos. Para os portugueses, e para os interessados nas    cr&oacute;nicas e na Hist&oacute;ria de Portugal, tem um interesse muito especial    a inclus&atilde;o, num desses manuscritos, de um epis&oacute;dio protagonizado    pelo rei D. Dinis, cuja fun&ccedil;&atilde;o parece ser, entre outras, a de    explicar o surgimento do ep&iacute;teto &ldquo;D. Dinis, que fez [ou &ldquo;fiz&rdquo;]    quanto quis&rdquo;. O epis&oacute;dio em quest&atilde;o n&atilde;o aparece em    nenhum texto portugu&ecirc;s conhecido, mas o ep&iacute;teto comparece em Sum&aacute;rios    de Cr&oacute;nicas portugueses do s&eacute;culo XVI, como a autora refere (pp.    CXXXIX-CXLI). Segue-se a edi&ccedil;&atilde;o propriamente dita, de acordo com    os crit&eacute;rios previamente expostos, os quais s&atilde;o criteriosamente    seguidos.</p>     <p>Em suma, o leitor interessado, ou simplesmente curioso, tem aqui uma excelente    edi&ccedil;&atilde;o, sem d&uacute;vida a melhor existente da <i>Cr&oacute;nica    de Fernando IV</i>. Mais do que isso, estamos perante um magn&iacute;fico exemplo    de verdadeira interdisciplinaridade aplicada, e ainda de uma boa porta de entrada    para o complex&iacute;ssimo universo das cr&oacute;nicas castelhanas do s&eacute;culo    XIV.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>COMO CITAR ESTE ARTIGO</b></p>     <p><b>Refer&ecirc;ncia electr&oacute;nica:</b></p>     <p>MOREIRA, Filipe Alves &ndash; &ldquo;BEN&Iacute;TEZ GUERRERO, Carmen &ndash;    <i>Cr&oacute;nica de Fernando IV. Estudio y edici&oacute;n de un texto postalfons&iacute;</i>.    Sevilha: Editorial Universidad de Sevilla y C&aacute;tedra Alfonso X El Sabio,    2017 (217 pp.)&rdquo;. <i>Medievalista</i> [Em linha]. N&ordm; 25 (Janeiro &ndash;    Junho 2019). [Consultado dd.mm.aaaa]. Dispon&iacute;vel em <a href="http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA25/moreira2507.html" target="_blank">http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA25/moreira2507.html</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Data recep&ccedil;&atilde;o do artigo: 1 de setembro de 2018</p>      ]]></body>
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