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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This study aims at describing the elements that constitute challenges to psychosocial rehabilitation in the health care system. It is a non-systematic literature review in which articles on the challenges to psychosocial rehabilitation where analysed. This reflective article starts at the Brazilian Psychiatric Reform that brought about substantial changes in mental health care and allowed the reversal of the hospital-centric model and the creation of new modes of care. In this scenario, psychosocial rehabilitation of patients in psychological distress in the context of the health care system comprises a set of challenges, including the articulation between alternative services and primary care, and between caregiving performance and sheltering. The complexity of mental health care requires knowledge and competencies that hitherto were not among primary health care teams repertoire. The concept of sheltering as a device, a strategy, an act, and a right is central to the work process of primary care teams and it is fundamental when considering psychosocial care. Although the goal is the reversal of mental health care models if we are not careful a re-enactment of old practices in a new environment is bound to happen: a new kind of institution without walls is going to be created, but retaining segregation and exclusion as its main values. Psychosocial Care in the health care system is still incipient and it wants individual, social and institutional changes. It is a political challenge that requires constant commitment for the construction of new ways to deal with psychic suffering.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ 
	    <p><b>Desafios da Aten&ccedil;&atilde;o Psicossocial na Rede de Cuidados do Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de do Brasil</b></p>

	    <p>&nbsp;</p>

	    <p><b>Annette Costa*; Mar&iacute;lia Silveira**; Paula Vianna***; Teresa Silva&#45;Kurimoto****</b></p>

	    <p>*Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professora Adjunta da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), <a href="mailto:annette@enf.ufmg.br">annette@enf.ufmg.br</a></p>

	    <p>**Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professora Adjunta da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), <a href="mailto:mrezende@enf.ufmg.br">mrezende@enf.ufmg.br</a></p>

	    <p>***Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professora Associada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), <a href="mailto:paulacmv@gmail.com">paulacmv@gmail.com</a></p>

	    <p>****Enfermeira, Psic&oacute;loga, Doutoranda em Ci&ecirc;ncias da Sa&uacute;de, Professora Assistente da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), <a href="mailto:teresac@ufmg.br">teresac@ufmg.br</a></p>

	    <p>&nbsp;</p>

	    <p><b>Resumo</b></p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este estudo tem o objetivo de descrever os elementos que comp&otilde;em os desafios acerca da reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial na rede de cuidados em sa&uacute;de. Trata&#45;se de uma revis&atilde;o bibliogr&aacute;fica n&atilde;o sistem&aacute;tica na qual foram analisados artigos que tratavam dos desafios da reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial na rede de cuidados em sa&uacute;de. O artigo reflexivo toma como ponto de partida a Reforma Psiqui&aacute;trica Brasileira, cen&aacute;rio em que se encontram abrigadas mudan&ccedil;as substanciais na assist&ecirc;ncia em sa&uacute;de mental, com a revers&atilde;o do modelo hospitaloc&ecirc;ntrico de aten&ccedil;&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o de novos dispositivos de atendimento. Nesse cen&aacute;rio, a reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial do portador de sofrimento ps&iacute;quico no contexto da rede de cuidados em sa&uacute;de constitui um conjunto de desafios, entre os quais a articula&ccedil;&atilde;o entre os servi&ccedil;os substitutivos e a aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria, o ato cuidador e o acolhimento. Identifica&#45;se que o exerc&iacute;cio de enxergar a complexidade do atendimento em sa&uacute;de mental exige saberes e fazeres que n&atilde;o faziam parte, at&eacute; ent&atilde;o, do repert&oacute;rio das equipes de sa&uacute;de na aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria. O acolhimento, dispositivo, estrat&eacute;gia, ato, um direito, figura central no processo de trabalho das equipes que atuam na aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria, tamb&eacute;m fundamental quando se pensa a aten&ccedil;&atilde;o psicossocial e todos os desafios que envolvem a articula&ccedil;&atilde;o entre sa&uacute;de mental e sa&uacute;de coletiva. Embora busquemos a revers&atilde;o do modelo de assist&ecirc;ncia &agrave; sa&uacute;de mental, se n&atilde;o prestarmos aten&ccedil;&atilde;o, poderemos repetir em novos ambientes antigas pr&aacute;ticas, criando outro tipo de manic&ocirc;mio, sem muros, mas que continua a ter a segrega&ccedil;&atilde;o e a exclus&atilde;o como normas m&aacute;ximas. A Aten&ccedil;&atilde;o Psicossocial na rede de cuidados em sa&uacute;de &eacute; uma realidade ainda incipiente que convoca e exige mudan&ccedil;as individuais, sociais e institucionais. O desafio &eacute; pol&iacute;tico e exige um compromisso cont&iacute;nuo na constru&ccedil;&atilde;o de novas formas de lidar com o sofrimento ps&iacute;quico.</p>

	

	    <p><b>Descritores:</b> Centros de Aten&ccedil;&atilde;o Psicossocial (Servi&ccedil;os de Sa&uacute;de Mental); Aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria &agrave; sa&uacute;de; Acolhimento; Servi&ccedil;os comunit&aacute;rios de sa&uacute;de mental; Servi&ccedil;os de Sa&uacute;de Mental.</p>

	    <p>&nbsp;</p>

	    <p><b>Abstract</b></p>

	    <p>This study aims at describing the elements that constitute challenges to psychosocial rehabilitation in the health care system. It is a non&#45;systematic literature review in which articles on the challenges to psychosocial rehabilitation where analysed. This reflective article starts at the Brazilian Psychiatric Reform that brought about substantial changes in mental health care and allowed the reversal of the hospital&#45;centric model and the creation of new modes of care. In this scenario, psychosocial rehabilitation of patients in psychological distress in the context of the health care system comprises a set of challenges, including the articulation between alternative services and primary care, and between caregiving performance and sheltering. The complexity of mental health care requires knowledge and competencies that hitherto were not among primary health care teams repertoire. The concept of sheltering as a device, a strategy, an act, and a right is central to the work process of primary care teams and it is fundamental when considering psychosocial care. Although the goal is the reversal of mental health care models if we are not careful a re&#45;enactment of old practices in a new environment is bound to happen: a new kind of institution without walls is going to be created, but retaining segregation and exclusion as its main values. Psychosocial Care in the health care system is still incipient and it wants individual, social and institutional changes. It is a political challenge that requires constant commitment for the construction of new ways to deal with psychic suffering.</p>

	

	    <p><b>Keywords:</b> Mental Health Services; Primary health care; mental health assistance; user embracement; Community mental health services.</p>

	    <p>&nbsp;</p>

	    <p><b>A Reforma Psiqui&aacute;trica Brasileira</b></p>

	    <p>No Brasil, em contraposi&ccedil;&atilde;o ao modelo manicomial que vigorou exclusivamente at&eacute; o final da d&eacute;cada de 70, ocorreram mudan&ccedil;as substanciais na assist&ecirc;ncia psiqui&aacute;trica com a revers&atilde;o do modelo hospitaloc&ecirc;ntrico de aten&ccedil;&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o de novos dispositivos de atendimento. Essas mudan&ccedil;as foram fundamentais para selar um compromisso com uma assist&ecirc;ncia mais humanizada e cidad&atilde; para os usu&aacute;rios com sofrimento ps&iacute;quico.</p>

	    <p>&Eacute; nesse contexto que situamos a atual Reforma Psiqui&aacute;trica Brasileira com direcionalidade para a constru&ccedil;&atilde;o de uma rede &uacute;nica de atendimento &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, regionalizada e hierarquizada, segundo o n&iacute;vel de complexidade. De forma concreta, a Reforma Psiqui&aacute;trica possibilitou uma oferta de cuidados diferenciados aos portadores de sofrimento ps&iacute;quico, com mudan&ccedil;as significativas nos saberes e pr&aacute;ticas assistenciais (Ten&oacute;rio, 2002; Amarante, 1995).</p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se, em seu in&iacute;cio, buscava&#45;se apenas a humaniza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o institucional desumano, a consolida&ccedil;&atilde;o da Reforma Psiqui&aacute;trica se d&aacute; a partir de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas amparadas por legisla&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas, estabelecendo uma rede assistencial substitutiva &agrave; interna&ccedil;&atilde;o em hospitais psiqui&aacute;tricos. H&aacute; que se reconhecer a reforma psiqui&aacute;trica brasileira como um processo que, nos &uacute;ltimos trinta anos, vem se desenvolvendo de acordo com as caracter&iacute;sticas de cada regi&atilde;o. Nesse sentido, diante da dimens&atilde;o e diversidade do territ&oacute;rio brasileiro, a reforma vem ganhando caracter&iacute;sticas regionais sem, no entanto, deixar de guiar&#45;se pela legisla&ccedil;&atilde;o vigente e pelos princ&iacute;pios fundamentais que a regem. A rede de aten&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de mental &eacute; formada por diferentes dispositivos de aten&ccedil;&atilde;o, tendo os Centros de Aten&ccedil;&atilde;o Psicossocial (CAPS) como articuladores estrat&eacute;gicos dessa l&oacute;gica. Os CAPS (com espa&ccedil;os espec&iacute;ficos para adultos, crian&ccedil;as ou adolescentes e dependentes de &aacute;lcool e outras drogas), os servi&ccedil;os residenciais terap&ecirc;uticos, hospitais gerais, servi&ccedil;os de urg&ecirc;ncia e emerg&ecirc;ncia, dentre outros comp&otilde;em a rede de servi&ccedil;os de sa&uacute;de. S&atilde;o tamb&eacute;m elos da rede os recursos das comunidades por meio de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o&#45;governamentais, associa&ccedil;&otilde;es de moradores, cooperativas de trabalho, escolas, fam&iacute;lias (Brasil, 2004a) e suas associa&ccedil;&otilde;es e todos os demais dispositivos que se articulem ao modo de vida dos cidad&atilde;os de um determinado territ&oacute;rio.</p>

	    <p>Entretanto a complexidade e amplitude das quest&otilde;es ligadas &agrave; sa&uacute;de mental apontaram para a necessidade de integrar essa rede aos servi&ccedil;os de Aten&ccedil;&atilde;o Prim&aacute;ria (Brasil, 2004a). Com isso, o modelo de aten&ccedil;&atilde;o &agrave; Sa&uacute;de Mental proposto torna&#45;se descentralizado, com oferta de servi&ccedil;os mais pr&oacute;ximos das resid&ecirc;ncias das pessoas.</p>

	    <p>A integra&ccedil;&atilde;o desses servi&ccedil;os de sa&uacute;de em rede permite definir a Aten&ccedil;&atilde;o Prim&aacute;ria, como a porta de entrada do usu&aacute;rio no sistema de sa&uacute;de, o que j&aacute; acontece para outros agravos. Esse modelo vai ao encontro das recomenda&ccedil;&otilde;es da OPAS/OMS (2001), que no relat&oacute;rio "Sa&uacute;de no mundo", estabelece como metas para a assist&ecirc;ncia psiqui&aacute;trica: atendimento na Aten&ccedil;&atilde;o Prim&aacute;ria como a porta de entrada do sistema, acesso aos psicotr&oacute;picos e aten&ccedil;&atilde;o voltada para o ambiente residencial com envolvimento da comunidade de origem.</p>

	    <p>O novo modelo refor&ccedil;a as potencialidades dos territ&oacute;rios admitindo que a responsabilidade pelo cuidado &eacute; uma pr&aacute;tica de diferentes atores. Substitui&#45;se a l&oacute;gica do encaminhamento pela responsabiliza&ccedil;&atilde;o compartilhada, isto &eacute;, o percurso do usu&aacute;rio na rede passa a ser acompanhado pelos profissionais que o atendem, seja na aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria, seja nos CAPS ou em outros servi&ccedil;os na rede de cuidados. Esse modelo se orientou inicialmente por uma estrat&eacute;gia de reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial que, com o passar do tempo, acabou por se constituir numa verdadeira &eacute;tica norteadora das a&ccedil;&otilde;es que se voltam aos portadores de sofrimento ps&iacute;quico. A reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial objetiva a restitui&ccedil;&atilde;o do exerc&iacute;cio pleno da cidadania que deve se dar por meio de a&ccedil;&otilde;es que possibilitam a contratualidade social em seus tr&ecirc;s cen&aacute;rios: casa, trabalho e rede social (Sarraceno, 1996). Ressalta&#45;se que nas modalidades substitutivas em sa&uacute;de mental todas as esta&ccedil;&otilde;es de cuidado t&ecirc;m que funcionar, pois isso interfere nos resultados esperados. Mesmo com a co&#45;responsabiliza&ccedil;&atilde;o entre os CAPS e a Aten&ccedil;&atilde;o Prim&aacute;ria, este n&iacute;vel de aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem respondido com efetividade, qualidade e resolutividade, o que se constitui em desafio a ser superado (Silveira, 2009). Constata&#45;se, assim, que o desenvolvimento e a implanta&ccedil;&atilde;o desse modelo assistencial s&atilde;o marcados por tens&otilde;es cotidianas entre a Aten&ccedil;&atilde;o Prim&aacute;ria e os Centros de Aten&ccedil;&atilde;o Psicossocial (CAPS). Vivenciam&#45;se no cotidiano das pr&aacute;ticas alguns desafios para vincular a Sa&uacute;de Mental &agrave; Aten&ccedil;&atilde;o Prim&aacute;ria, com vistas a construir uma rede de aten&ccedil;&atilde;o integral. Muitas vezes, o percurso do usu&aacute;rio na sa&uacute;de mental se limita exclusivamente &agrave; procura dos servi&ccedil;os de sa&uacute;de mental desconsiderando a porta de entrada oficialmente definida (Silveira, 2009).Nesse sentido, surgem quest&otilde;es acerca da natureza dos desafios da articula&ccedil;&atilde;o entre a sa&uacute;de mental e a aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria. Como essa quest&atilde;o vem sendo abordada na literatura cient&iacute;fica brasileira?</p>

	    <p>Nessa perspectiva, este estudo tem por objetivos descrever e analisar os elementos, identificados na literatura cient&iacute;fica brasileira, que comp&otilde;em os desafios da constitui&ccedil;&atilde;o de uma rede de cuidados em sa&uacute;de mental voltada para a reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial dos portadores de sofrimento ps&iacute;quico.</p>

	    <p>&nbsp;</p>

	    <p><b>Metodologia</b></p>

	    <p>Para alcan&ccedil;ar os objetivos deste estudo optou&#45;se por realizar uma revis&atilde;o bibliogr&aacute;fica n&atilde;o sistem&aacute;tica sendo consultadas as bases MEDLINE, LILACS e o portal SCIELO. Foram localizados 164 artigos a partir das pesquisas com os descritores: Reforma Psiqui&aacute;trica Brasileira, Sa&uacute;de Mental e Sa&uacute;de Coletiva. Dos artigos localizados 38 tratavam da tem&aacute;tica da constru&ccedil;&atilde;o da rede de aten&ccedil;&atilde;o em sa&uacute;de mental e desses 18 artigos mencionam os desafios dessa articula&ccedil;&atilde;o.</p>

	    <p>Dentre os elementos citados como desafios ou obst&aacute;culos &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da uma rede de aten&ccedil;&atilde;o psicossocial pelos autores dos diferentes artigos, destacam&#45;se as quest&otilde;es relacionadas ao acolhimento dos portadores de sofrimento mental nos servi&ccedil;os constituintes da rede de cuidados bem como as dificuldades enfrentadas para a constru&ccedil;&atilde;o de la&ccedil;os terap&ecirc;uticos, a que muitos denominam v&iacute;nculo profissional&#45;paciente.</p>

	    <p>Para tanto, buscou&#45;se situar a aten&ccedil;&atilde;o psicossocial em suas concep&ccedil;&otilde;es e a&ccedil;&otilde;es, para que, a partir dessa an&aacute;lise, fosse poss&iacute;vel traduzir esses elementos fundamentais do cotidiano de trabalho na Aten&ccedil;&atilde;o Prim&aacute;ria, a saber, acolhimento e v&iacute;nculo, quando estes se referem ao portador de sofrimento ps&iacute;quico.</p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

	    <p><b>Os Desafios da Aten&ccedil;&atilde;o Psicossocial</b></p>

	    <p>A complexidade do atendimento em sa&uacute;de mental exige saberes e fazeres que n&atilde;o faziam parte, at&eacute; ent&atilde;o, do repert&oacute;rio das equipes de sa&uacute;de na aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria. As pr&aacute;ticas de aten&ccedil;&atilde;o psicossocial prop&otilde;em um modelo de aten&ccedil;&atilde;o interativo e complexo, que contemple as abordagens biol&oacute;gica, psicol&oacute;gica e social. Nesse contexto, valoriza&#45;se o trabalho interdisciplinar centrado nas potencialidades de cada profissional em benef&iacute;cio de uma assist&ecirc;ncia mais din&acirc;mica e eficiente no tratamento do doente mental (Lima e Silva, 2004; Campos et al., 2009; Onocko&#45;Campos e Furtado, 2006). Infere&#45;se que a troca de informa&ccedil;&otilde;es e experi&ecirc;ncias, as diferentes formas de estar e escutar o paciente possibilita uma maior intera&ccedil;&atilde;o entre a equipe e o usu&aacute;rio.</p>

	    <p>Entretanto "o modelo assistencial que opera hoje nos nossos servi&ccedil;os &eacute; centralmente organizado a partir dos problemas espec&iacute;ficos, dentro da &oacute;tica hegem&ocirc;nica do modelo m&eacute;dico liberal, e que subordina claramente a dimens&atilde;o cuidadora a um papel irrelevante e complementar" (Mehry, 1998: p.13) com pouca ou nenhuma preocupa&ccedil;&atilde;o com o antes, com os modos de vida do paciente e sua fam&iacute;lia. Existem, sim, interven&ccedil;&otilde;es pontuais e descontextualizadas para atender situa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas de crise (Silva et al., 2005).</p>

	    <p>Corroborando com essa id&eacute;ia, Saraceno (1999) afirma que no campo da sa&uacute;de mental predomina a abordagem biom&eacute;dica sendo necess&aacute;rio o deslocamento para uma abordagem biopsicossocial, o que requer mudan&ccedil;as importantes na formula&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas de sa&uacute;de mental; na formula&ccedil;&atilde;o e no financiamento de programas de sa&uacute;de mental; na pr&aacute;tica cotidiana dos servi&ccedil;os; no status social dos m&eacute;dicos. Essa passagem, segundo o autor, &eacute; norteada por uma forte resist&ecirc;ncia, cultural, social e econ&ocirc;mica dos psiquiatras em transformar a assist&ecirc;ncia em sa&uacute;de mental, colocando em crise o paradigma m&eacute;dico. Para o referido autor, o modelo hegem&ocirc;nico de atendimento, centrado no paradigma m&eacute;dico, apesar de acolher algumas proposi&ccedil;&otilde;es das abordagens psicossociais, se caracteriza por ser:</p>

	    <p>&#45; linear &#150; um dano definido do sistema nervoso central provoca uma condi&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;a e os tratamentos s&atilde;o repara&ccedil;&otilde;es desse dano;</p>

	    <p>&#45; individualista &#150; sa&uacute;de e doen&ccedil;a s&atilde;o determinadas pelos recursos/car&ecirc;ncias do indiv&iacute;duo e os tratamentos s&atilde;o interven&ccedil;&otilde;es exclusivamente dirigidas a ele;</p>

	    <p>&#45; hist&oacute;rico &#150; ignora as intera&ccedil;&otilde;es indiv&iacute;duo&#45;ambiente. A despeito de terem decorrido mais de dez anos dessas afirma&ccedil;&otilde;es, constata&#45;se que elas ainda encontram eco em diversas realidades de nosso pa&iacute;s.</p>

	    <p>Saraceno (1999) acrescenta que a abordagem biopsicossocial aponta para o reconhecimento do papel dos usu&aacute;rios, da fam&iacute;lia, da comunidade e de outros profissionais de sa&uacute;de como fontes geradoras de recursos para o tratamento da doen&ccedil;a mental e promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de mental. Intervir, portanto, em sa&uacute;de mental, n&atilde;o significa apenas prestar assist&ecirc;ncia. Intervir significa, sobretudo, estar atento &agrave; realidade social, econ&ocirc;mica e cultural em que vivem as pessoas que atendemos. Sabe&#45;se que um dos maiores desafios reside em alcan&ccedil;ar as a&ccedil;&otilde;es que est&atilde;o para al&eacute;m da sa&uacute;de (Lobosque, 2011). Saraceno (1999: p. 98) comenta que "o muro do manic&ocirc;mio a ser demolido &eacute; qualquer muro que impe&ccedil;a de ver (e usar) outros saberes e outros recursos".</p>

	    <p>Sendo assim, operar na perspectiva de formula&ccedil;&atilde;o de uma "Cl&iacute;nica Ampliada" traz possibilidades de fazer emergir para os profissionais de sa&uacute;de outros aspectos do sujeito, que n&atilde;o apenas o biol&oacute;gico, considerando os usu&aacute;rios em seu contexto socio&#45;hist&oacute;rico, em seus modos de viver, enfim, em seu territ&oacute;rio. A cl&iacute;nica ampliada &eacute; denominada por "Cl&iacute;nica do Sujeito", que exige um deslocamento da &ecirc;nfase na doen&ccedil;a para centr&aacute;&#45;la na pessoa que apresenta algum problema de sa&uacute;de. Trata&#45;se aqui de saber o que o sujeito apresenta de regularidade na cl&iacute;nica e mais al&eacute;m, o que ele manifesta de diferente, de singular, que n&atilde;o se repete e que &eacute; s&oacute; dele. Isto pressup&otilde;e a constru&ccedil;&atilde;o de um v&iacute;nculo com o usu&aacute;rio (Campos, 2003).</p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Outro pressuposto da cl&iacute;nica ampliada &eacute; de que as expectativas dos usu&aacute;rios e o tempo das rela&ccedil;&otilde;es terap&ecirc;uticas s&atilde;o diferentes na aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria e, em particular, na aten&ccedil;&atilde;o em sa&uacute;de mental. Trata&#45;se tamb&eacute;m de uma pr&aacute;tica capaz de reconhecer as potencialidades dos sujeitos em cada situa&ccedil;&atilde;o e que os profissionais, familiares e usu&aacute;rios est&atilde;o imersos em uma teia de for&ccedil;as que os constitui (Campos, 2003; Ten&oacute;rio, 2007).</p>

	    <p>A maneira como agem os diversos atores sociais (usu&aacute;rios, familiares, t&eacute;cnicos, Estado) faz com que seja produzido um determinado modo de cuidar, sustentado pela cultura e instigado pelas novas maneiras de assistir. Nesse sentido, "somos em certas situa&ccedil;&otilde;es, a partir de certos recortes, sujeitos de saberes e das a&ccedil;&otilde;es que nos permitem agir protagonizando processos novos como for&ccedil;a de mudan&ccedil;a. Mas, ao mesmo tempo, sob outros recortes e sentidos, somos reprodutores de situa&ccedil;&otilde;es dadas" (Mehry, 2002: p. 14&#45;5).</p>

	    <p>Nesse sentido, n&atilde;o podemos reduzir a amplitude de um servi&ccedil;o a um local f&iacute;sico e aos seus profissionais, mas a toda gama de oportunidades e lugares que favore&ccedil;am a reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial do paciente A aus&ecirc;ncia de inventividade, somada &agrave; a&ccedil;&otilde;es fragmentadas podem contribuir para o surgimento do que se denomina nova cronicidade (Rotelli, De Leonardis e Mauri, 2001; Pande e Amarante, 2011).</p>

	    <p>Nesse contexto est&atilde;o inclu&iacute;das a valoriza&ccedil;&atilde;o das habilidades de cada indiv&iacute;duo, pr&aacute;ticas terap&ecirc;uticas que visam ao exerc&iacute;cio da cidadania, as pol&iacute;ticas de sa&uacute;de mental transformadoras do modelo hegem&ocirc;nico de assist&ecirc;ncia. A reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial, portanto, trata&#45;se de "uma atitude estrat&eacute;gica, uma vontade pol&iacute;tica, uma modalidade compreensiva, complexa e delicada de cuidados para pessoas vulner&aacute;veis aos modos de sociabilidade habituais" (Pitta, 1996: p. 210).</p>

	    <p>&Eacute; neste percurso que precisamos caminhar, ganhando a rua, a cidade. Gramsci (1987: p.13) afirma que "criar uma nova cultura n&atilde;o significa apenas fazer individualmente descobertas &lsquo;originais&rsquo;; significa tamb&eacute;m, e, sobretudo, difundir criticamente verdades j&aacute; descobertas, &lsquo;socializ&aacute;&#45;las&rsquo; por assim dizer; transform&aacute;&#45;las, portanto, em base de a&ccedil;&otilde;es vitais, em elemento de coordena&ccedil;&atilde;o e de ordem intelectual e moral".</p>

	    <p>Nesse sentido, um dos primeiros desafios se imp&otilde;e. A sociedade e at&eacute; mesmo os profissionais de sa&uacute;de questionam: Por que criar novas maneiras de assistir que trazem o doente mental de volta ao espa&ccedil;o p&uacute;blico? Por que nos haver com a loucura em toda a sua plenitude, longe dos muros dos hosp&iacute;cios? Por que &eacute; necess&aacute;rio buscarmos uma interlocu&ccedil;&atilde;o efetiva com os profissionais que trabalham com sa&uacute;de mental e a aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria?</p>

	    <p>A psiquiatria permitiu a inclus&atilde;o do doente mental no universo dos humanos, mas criou um paradoxos: a identidade de doente mental &eacute; uma identidade sem valor de troca, que exclui e afasta as pessoas. Isto nos faz correr o risco de reproduzir em nosso novo modelo assistencial a mesma pr&aacute;tica excludente e segregadora, que norteou a assist&ecirc;ncia ao doente mental durante d&eacute;cadas (Cavalcanti, 2000).</p>

	    <p>A Reforma Psiqui&aacute;trica atual prop&otilde;e um trabalho interdisciplinar que valorize as potencialidades de cada profissional, em benef&iacute;cio de uma assist&ecirc;ncia mais din&acirc;mica e eficiente no tratamento do doente mental, tal como aponta Dobies e Fioroni (2010). A troca de informa&ccedil;&otilde;es e experi&ecirc;ncias (Schneider, 2008), as diferentes formas de estar e escutar o paciente e o di&aacute;logo permanente com a rede de cuidados &agrave; sa&uacute;de possibilita uma maior intera&ccedil;&atilde;o entre a equipe e o usu&aacute;rio. Entretanto, o pr&oacute;prio trabalho em equipe tamb&eacute;m representa desafios. A necessidade uma comunica&ccedil;&atilde;o clara e aberta. &Eacute; a partir de uma interlocu&ccedil;&atilde;o cotidiana, na qual os diferentes saberes e arcabou&ccedil;os te&oacute;ricos, as diferentes experi&ecirc;ncias e leituras devem encontrar lugar privilegiado na constru&ccedil;&atilde;o de um trabalho em rede. O suporte ou matriciamento realizado pelos profissionais especialistas &eacute; um dispositivo de apoio institucional que requer uma comunica&ccedil;&atilde;o constante mas principalmente nos espa&ccedil;os institu&iacute;dos das reuni&otilde;es de equipe. Como apontam diversos autores isso nem sempre acontece (Lima e Silva, 2004; Vasconcelos e Morschel, 2009).</p>

	    <p>Saraceno (1999: p. 156&#45;7) afirma que "um programa de reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial dirigido a um determinado paciente psic&oacute;tico pode ser ao mesmo tempo realizado atrav&eacute;s de interven&ccedil;&otilde;es individuais (administra&ccedil;&atilde;o de psicof&aacute;rmacos, sustenta&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica individual, adestramento de atividade laborativa, educa&ccedil;&atilde;o &agrave; aptid&atilde;o na vida cotidiana) e interven&ccedil;&otilde;es coletivas (suporte &agrave; fam&iacute;lia, sensibiliza&ccedil;&atilde;o da comunidade onde o paciente reside, envolvimento dos indiv&iacute;duos com o local de trabalho)". De forma mais sistem&aacute;tica Guerra (2004), diante da diversidade de acep&ccedil;&otilde;es do termo reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial, re&uacute;ne as diferentes perspectivas em tr&ecirc;s modelos epist&ecirc;micos: psicoeducativos, s&oacute;cio&#45;pol&iacute;ticos ou cr&iacute;ticos e de orienta&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica. Embora partam de recortes epistemol&oacute;gicos distintos, os tr&ecirc;s modelos trazem a marca de um trabalho em constru&ccedil;&atilde;o. H&aacute; que se considerar que a perspectiva de um trabalho inacabado, em constru&ccedil;&atilde;o, bem como a amplitude conceitual aqui mencionada, funcionam, simultaneamente, simultaneamente como desafio e propulsor dessa proposta de aten&ccedil;&atilde;o ao portador de sofrimento mental. A instabilidade do inacabado, as d&uacute;vidas diante da diversidade te&oacute;rica e conceitual contribuem sobremaneira para a constru&ccedil;&atilde;o de uma proposta que pretende lidar &#45; e n&atilde;o extinguir &#45; com o sofrimento ps&iacute;quico.</p>

	    <p>Portanto, as interven&ccedil;&otilde;es em sa&uacute;de mental podem contemplar o indiv&iacute;duo em sua totalidade, utilizando t&eacute;cnicas tanto individuais como coletivas, considerando as realidades locais como determinantes dessas interven&ccedil;&otilde;es ou, ainda, partir da singularidade do sujeito para propor interven&ccedil;&otilde;es convocando a responsabiliza&ccedil;&atilde;o do sujeito pelas respostas que apresenta (Vigan&oacute;, 1999; Guerra, 2004; Kantorki e Pinho, 2011).</p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

	    <p><b>O Ato Cuidador e o Acolhimento</b></p>

	    <p>Existem maneiras diferentes de entender o ato cuidador. Para muitos, cuidar pressup&otilde;e somente a presen&ccedil;a de um servi&ccedil;o de sa&uacute;de. N&atilde;o que, no manejo da crise, possamos prescindir de ajuda especializada e acesso aos servi&ccedil;os de sa&uacute;de. O ato cuidador, em nosso entender, vai mais al&eacute;m. Ele faz emergir a capacidade criadora existente em cada um, aponta para a disponibilidade em se lan&ccedil;ar, em criar novas maneiras de conviver com o outro em suas diferen&ccedil;as.</p>

	    <p>Experi&ecirc;ncias como a de Educa&ccedil;&atilde;o Popular em Sa&uacute;de Mental, mostram a potencialidade das a&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de que visam dar voz a comunidade, valorizando os diferentes saberes na constru&ccedil;&atilde;o coletiva das novas pr&aacute;ticas em sa&uacute;de mental (Carneiro et al., 2010).</p>

	    <p>O levantamento bibliogr&aacute;fico realizado aponta o acolhimento como um primeiro e fundamental ato de cuidado (Dobies e Fioroni, 2010; Schneider, 2008; Lobosque, 2011; Mucci et al., 2008) , mas que, tamb&eacute;m ultrapassa a quest&atilde;o do cuidado em si, situando&#45;se como um direito de todo cidad&atilde;o (Lobosque, 2011).</p>

	    <p>Ao discutir o lugar do apoio da equipe de sa&uacute;de mental aos profissionais que se encontram na sa&uacute;de coletiva (Apoio Matricial) novamente o acolhimento &eacute; compreendido na qualidade de uma pr&aacute;tica que se volta &agrave; subjetividade, seja do usu&aacute;rio ou do trabalhador (Figueiredo e Onocko Campos, 2009). &Eacute; certo que o acolhimento, dispositivo, estrat&eacute;gia, ato, um direito, figura central no processo de trabalho das equipes que atuam na aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria, tamb&eacute;m &eacute; fundamental quando se pensa a aten&ccedil;&atilde;o psicossocial e todos os desafios que envolvem a articula&ccedil;&atilde;o entre sa&uacute;de mental e sa&uacute;de coletiva. No contexto apresentado, outros princ&iacute;pios e dispositivos devem ser inclu&iacute;dos para nortear a a&ccedil;&atilde;o da equipe que atua na aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria, dentre eles o acolhimento, reconhecido como uma ferramenta estrat&eacute;gica ou tecnologia de cuidado que imprime qualidade aos servi&ccedil;os de sa&uacute;de. E mais, no acolhimento o trabalhador deve mobilizar seu saber no sentido de produzir respostas &agrave;s demandas a ele trazidas (Malta, 2001). Por fim, o acolhimento se volta &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de um v&iacute;nculo com a comunidade, aproximando o usu&aacute;rio com o servi&ccedil;o de sa&uacute;de (Malta, 2001; Gomes e Pinheiro, 2005).</p>

	    <p>Se partirmos do princ&iacute;pio de que o lugar de todo portador de sofrimento ps&iacute;quico &eacute; na comunidade &#45; em contraponto &agrave; id&eacute;ia de que esse lugar &eacute; em uma institui&ccedil;&atilde;o &#45; o reconhecimento de sua condi&ccedil;&atilde;o de ser &uacute;nico, particular, bem como de sua cidadania &eacute; fundamental para sua circula&ccedil;&atilde;o no espa&ccedil;o p&uacute;blico. Com isso, responsabiliza&ccedil;&atilde;o e v&iacute;nculo ganham espa&ccedil;o privilegiado quando compreendidos na acep&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es que tem como objetivo a autonomia e n&atilde;o a aliena&ccedil;&atilde;o do portador de sofrimento ps&iacute;quico ao servi&ccedil;o ou ao profissional de sa&uacute;de e seu saber.</p>

	    <p>A condi&ccedil;&atilde;o de ser &uacute;nico requer acolher aquele que sofre, sempre e a cada vez que ele procura ajuda profissional. Queixas org&acirc;nicas n&atilde;o podem ser tomadas como algo do tipo &lsquo;o mesmo de novo&rsquo;. Cada queixa, cada momento exige uma investiga&ccedil;&atilde;o de seu teor.</p>

	    <p>A responsabiliza&ccedil;&atilde;o do profissional com cada usu&aacute;rio &eacute; algo j&aacute; proposto (Lobosque, 2011). Entretanto, acolher o usu&aacute;rio portador de sofrimento ps&iacute;quico implica responsabiliz&aacute;&#45;lo, implic&aacute;&#45;lo em sua queixa (Silva, 2005). Quando o v&iacute;nculo e a responsabiliza&ccedil;&atilde;o deixam de existir o risco &eacute; a institucionaliza&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a e todo o retrocesso que isso significa (Lima e Silva, 2004). Entretanto &eacute; necess&aacute;rio compreender, do ponto de vista pr&aacute;tico, o sentido de acolher. Acolher n&atilde;o significa atender de pronto a demanda do usu&aacute;rio. Em especial, quando esta demanda situa&#45;se na realiza&ccedil;&atilde;o de atos rotineiros da unidade de sa&uacute;de (marcar consulta, fazer exames, procedimentos, dentre outros) ou ainda quando se trata de uma demanda insistente e infind&aacute;vel de um mesmo usu&aacute;rio. &lsquo;Livrar&#45;se&rsquo; dele, atendendo&#45;o logo, por vezes significa sustentar indefinidamente sua situa&ccedil;&atilde;o de queixas ajudando&#45;o a ampli&aacute;&#45;las e diversific&aacute;&#45;las. Em um atendimento individual, buscar com o usu&aacute;rio os reais sentidos de suas queixas e demandas infinitas pode funcionar como acolhimento ao sujeito e n&atilde;o &agrave;s suas demandas, responsabiliza&ccedil;&atilde;o de ambos: profissional e usu&aacute;rio e fortalecimento de um v&iacute;nculo.</p>

	    <p>Um v&iacute;nculo profissional que se pretende terap&ecirc;utico n&atilde;o comporta que o profissional de sa&uacute;de fa&ccedil;a tudo pelo usu&aacute;rio e, tampouco, busque solu&ccedil;&otilde;es para todos os problemas trazidos por ele. As limita&ccedil;&otilde;es do conhecimento, da capacidade de atendimento e resolutividade s&atilde;o elementos reais e bastantes presentes no cotidiano dos servi&ccedil;os. Atribuir novos significados para as queixas persistentes, novas possibilidades de reabilita&ccedil;&atilde;o, de reinser&ccedil;&atilde;o desse usu&aacute;rio num exerc&iacute;cio de reconhecimento de sua cidadania e de seus direitos constitui um desafio e desenha possibilidades de abordagem.</p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A ressignifica&ccedil;&atilde;o dos sintomas n&atilde;o pode anular o sujeito, mas necessita que convoc&aacute;&#45;lo a dizer sobre si, sobre o que deseja, o que consegue fazer, convida&#45;lo a ressignificar algo de seu sofrimento, a exercer sua cidadania.</p>

	    <p>E mais, esse processo requer a participa&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia, na qualidade de pessoas que podem oferecer suporte e apoio ao usu&aacute;rio. Transformar, recriar as rela&ccedil;&otilde;es existentes entre a fam&iacute;lia, a sociedade e o usu&aacute;rio com sofrimento ps&iacute;quico n&atilde;o &eacute; tarefa das mais f&aacute;ceis. Existe o pronto, o universalmente aceito, a delega&ccedil;&atilde;o do cuidado a outrem, evidenciando a incapacidade de lidar com a loucura, de aceitar novos desafios e de se aventurar em caminhos n&atilde;o trilhados. Pode&#45;se pensar que o desconhecimento de como cuidar do portador de sofrimento ps&iacute;quico, apontado por diversos autores (Dobies e Fioroni, 2010; Silva et al, 2005; Lobosque, 2011; Ambr&oacute;sio et al., 2009; Figueiredo e Onocko Campos, 2009) como um obst&aacute;culo, pode se fundamentar tamb&eacute;m na id&eacute;ia de que ser terap&ecirc;utico na &aacute;rea da sa&uacute;de mental implica o cl&aacute;ssico atendimento individual utilizando&#45;se ferramentas de psicoterapia. Entretanto, o trabalho de acolher e responsabilizar, reconhecendo a cidadania e o direito desse usu&aacute;rio de se inserir na sociedade, passa n&atilde;o s&oacute; pelos atendimentos individuais psicoterap&ecirc;uticos mas tamb&eacute;m por a&ccedil;&otilde;es voltadas ao cotidiano, as quais os profissionais da aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria est&atilde;o preparados e amparados por uma larga experi&ecirc;ncia advinda do lidar cotidiano com os problemas de sa&uacute;de do territ&oacute;rio. As quest&otilde;es compreendidas pelos profissionais como mais complexas podem ser discutidas com os especialistas em sa&uacute;de mental nos espa&ccedil;os de constru&ccedil;&atilde;o coletiva, tais como as reuni&otilde;es cl&iacute;nicas.</p>

	    <p>Enfim, o cuidado ao portador de sofrimento ps&iacute;quico necessita ser inclu&iacute;do na agenda de prioridades da equipe de sa&uacute;de da fam&iacute;lia que desenvolvem as a&ccedil;&otilde;es da aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria em sa&uacute;de no Brasil. No lidar com o sofrimento ps&iacute;quico, o profissional, qualquer que seja, se ver&aacute; o tempo todo confrontado com suas pr&oacute;prias quest&otilde;es, e, tamb&eacute;m ele precisar&aacute; criar formas de re&#45;significa&ccedil;&atilde;o, seja buscando o acompanhamento de profissionais mais experientes ou reconhecendo os limites de atua&ccedil;&atilde;o e apostando no desejo de saber mais.</p>

	    <p>&nbsp;</p>

	    <p><b>Considera&ccedil;&otilde;es Finais</b></p>

	    <p>A Aten&ccedil;&atilde;o Psicossocial na rede de cuidados em sa&uacute;de &eacute; uma realidade ainda incipiente no Brasil que convoca e exige mudan&ccedil;as individuais, sociais e institucionais. O desafio &eacute; pol&iacute;tico e exige um compromisso cont&iacute;nuo na constru&ccedil;&atilde;o de novas formas de lidar com o sofrimento ps&iacute;quico. A realidade brasileira, por sua extens&atilde;o geogr&aacute;fica e marcantes diferen&ccedil;as, revela que nem todos os munic&iacute;pios disp&otilde;em de uma rede de aten&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de mental pr&oacute;pria ou pactuada. Al&eacute;m disso, o simples fato de possuir um servi&ccedil;o substitutivo, um CAPS, n&atilde;o implica o funcionamento de uma rede que se pretende tamb&eacute;m substitutiva.</p>

	    <p>A incipiente articula&ccedil;&atilde;o da Sa&uacute;de Mental na Aten&ccedil;&atilde;o Prim&aacute;ria, nomeada para acolher e responsabilizar&#45;se por essa clientela, requer conhecimento e preparo por parte das equipes de sa&uacute;de da fam&iacute;lia quanto &agrave;s formas de abordagem, de tratamento e encaminhamentos poss&iacute;veis. A n&atilde;o responsabiliza&ccedil;&atilde;o acaba por afastar o usu&aacute;rio, direcionando&#45;o para os servi&ccedil;os substitutivos ou para os hospitais psiqui&aacute;tricos, que continuam a representar, em muitos casos, o lugar social da doen&ccedil;a mental, o lugar da loucura.</p>

	    <p>Sendo assim, embora busquemos a revers&atilde;o do modelo de assist&ecirc;ncia &agrave; sa&uacute;de mental, se n&atilde;o prestarmos aten&ccedil;&atilde;o, corremos o risco de repetir em novos ambientes antigas pr&aacute;ticas, criando outro tipo de manic&ocirc;mio, sem muros, mas que continua a ter a segrega&ccedil;&atilde;o e a exclus&atilde;o como normas m&aacute;ximas.</p>

	    <p>Neste artigo, buscamos expor a realidade da Reforma Psiqui&aacute;trica Brasileira, a sutileza e delicadeza do ato cuidador na perspectiva da reabilita&ccedil;&atilde;o psicossocial e a sua necess&aacute;ria interlocu&ccedil;&atilde;o com a aten&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria. Ousamos fazer algumas recomenda&ccedil;&otilde;es aos profissionais de sa&uacute;de em seu contato com o portador de sofrimento ps&iacute;quico e seus familiares. Falamos um pouco de um grande e complexo mundo daquele que apresenta aos profissionais seus sofrimentos.</p>

	    <p>Sendo assim, procuramos dizer de nossa aposta na possibilidade de um cuidado ao portador de sofrimento ps&iacute;quico que parta do pressuposto de que seu lugar &eacute; na cidade. Um cuidado que simplesmente lide com ele naquilo que ele &eacute;.</p>

	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>

	    <p><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></p>

	    <!-- ref --><p>Ambr&oacute;sio, B.T.; Beninc&aacute;, F.B.; Fejoli, M.M.; Siqueira, M.M. &amp; Buaiz, V. (2009). Rede de aten&ccedil;&atilde;o aos usu&aacute;rios de subst&acirc;ncias psicoativas: mapeamento de servi&ccedil;os e equipes de enfermagem. Revista Eletr&ocirc;nica de Enfermagem,11(2), 318&#45;326. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.fen.ufg.br/revista/v11/n2/v11n2a12.htm" target="_blank">http://www.fen.ufg.br/revista/v11/n2/v11n2a12.htm</a>.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000075&pid=S1647-2160201200010000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

	    <!-- ref --><p>Amarante, P. (1995). Loucos pela vida: a trajet&oacute;ria da reforma psiqui&aacute;trica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ/Escola Nacional de Sa&uacute;de P&uacute;blica.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000077&pid=S1647-2160201200010000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

	    <!-- ref --><p>Brasil. Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de. Secretaria de Aten&ccedil;&atilde;o &agrave; Sa&uacute;de. Departamento de A&ccedil;&otilde;es Program&aacute;ticas Estrat&eacute;gicas. (2004a). Sa&uacute;de mental no SUS: os centros de aten&ccedil;&atilde;o psicossocial. Bras&iacute;lia: Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de. 86p. Brasil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000079&pid=S1647-2160201200010000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --> Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de. (2004b). HumanizaSUS: acolhimento com avalia&ccedil;&atilde;o e classifica&ccedil;&atilde;o de risco: um paradigma &eacute;tico&#45;est&eacute;tico no fazer em sa&uacute;de. Bras&iacute;lia (DF).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000080&pid=S1647-2160201200010000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

	    <!-- ref --><p>Campos, G.W.S. (2003). A cl&iacute;nica do Sujeito: por uma cl&iacute;nica reformulada e ampliada. In: Campos GWS. Sa&uacute;de Paid&eacute;ia. S&atilde;o Paulo: Ed. Hucitec, pp.51&#45;67.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000082&pid=S1647-2160201200010000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

	    <!-- ref --><p>Campos, R.T.O; Furtado, J.P.; Passos, E; Ferrer, A.L.; Miranda, L. &amp; Gama, C.A.P. (2009). Avalia&ccedil;&atilde;o da rede de centros de aten&ccedil;&atilde;o psicossocial: entre a sa&uacute;de coletiva e a sa&uacute;de mental. Rev Sa&uacute;de P&uacute;blica,43(Supl. 1),16&#45;22.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000084&pid=S1647-2160201200010000800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

	    <!-- ref --><p>Carneiro, A.C.; Oliveira, A.C.M.; Santos, M.M.S.; Alves, M.S.; Casais, N.A. &amp; Santos, A.S. (2010). Educa&ccedil;&atilde;o popular em sa&uacute;de mental: relato de uma experi&ecirc;ncia. Sa&uacute;de Soc. S&atilde;o Paulo, 19(2), 462&#45;474.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000086&pid=S1647-2160201200010000800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

	    <!-- ref --><p>Cavalcanti, M.T.(2000). Sobre o tratar em psiquiatria. Arq Bras Psiq Neurol Med Legal, (74), 23&#45;29.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=000088&pid=S1647-2160201200010000800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>

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	    <p>Recebido para publica&ccedil;&atilde;o em: 20.03.2012</p>

	    <p>Aceite para publica&ccedil;&atilde;o em: 30.05.2012</p>
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