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</front><body><![CDATA[  	    <p align="right"><b>EDITORIAL CONVIDADO</b></p>  	    <p><b>&nbsp;</b></p>  	    <p><b>Retrato da doen&ccedil;a mental na comunica&ccedil;&atilde;o social</b></p>  	    <p>&nbsp;</p>  	    <p><b>Cl&aacute;udia Azevedo*</b></p>  	    <p>*Mestre em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o; P&oacute;s&#45;Graduada em Literacia de Sa&uacute;de; <i>Communication Manager</i> no CINTESIS &#150; Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o em Tecnologias e Servi&ccedil;os de Sa&uacute;de, Rua Dr. Pl&aacute;cido da Costa, s/n, 4200&#45;450 Porto, Portugal. E&#45;mail: <a href="mailto:claudiaazevedo@med.up.pt">claudiaazevedo@med.up.pt</a></p>  	    <p>&nbsp;</p>  	    <p>Em democracia, os <i>media</i> t&ecirc;m um papel fundamental no exerc&iacute;cio da cidadania. Os &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o social s&atilde;o respons&aacute;veis por fazer chegar aos cidad&atilde;os informa&ccedil;&atilde;o sobre assuntos relevantes da sua vida, permitindo a reflex&atilde;o, a participa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e a tomada de decis&otilde;es.</p>  	    <p>Na &aacute;rea da sa&uacute;de, os jornalistas s&atilde;o chamados a desempenhar um papel crucial na constru&ccedil;&atilde;o e no aprofundamento de uma verdadeira literacia de sa&uacute;de, suscet&iacute;vel de gerar ganhos no sistema e de melhorar a vida das pessoas.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Sabe&#45;se que os <i>media</i> constituem mesmo a principal fonte de informa&ccedil;&atilde;o para a popula&ccedil;&atilde;o em geral e para os pr&oacute;prios doentes em mat&eacute;ria de sa&uacute;de mental, possuindo o poder e a capacidade de influenciar mentalidades, atitudes e comportamentos.</p>  	    <p>Mas ser&aacute; que o jornalismo est&aacute; a cumprir o seu papel? Se a sua vis&atilde;o fosse obtida exclusivamente atrav&eacute;s da lente dos <i>media</i>, qual seria a sua opini&atilde;o sobre os doentes mentais?</p>  	    <p>Uma s&eacute;rie de estudos realizados a n&iacute;vel internacional mostra que os &oacute;rg&atilde;os de comunica&ccedil;&atilde;o social t&ecirc;m tend&ecirc;ncia a apresentar a doen&ccedil;a mental de uma forma que promove o estigma e refor&ccedil;a os mitos, relacionando&#45;a frequentemente com atos de viol&ecirc;ncia, pr&aacute;tica de crimes, imprevisibilidade e perigosidade.</p>  	    <p>A literatura revela tamb&eacute;m que a doen&ccedil;a mental n&atilde;o est&aacute; identificada na maior parte das vezes, como se esta fosse por si s&oacute; um r&oacute;tulo maligno que dispensasse mais detalhes. Al&eacute;m disso, o jornalista raramente ouve o doente mental como fonte, o que traduz a ideia de que este n&atilde;o &eacute; capaz de se expressar convenientemente, ou, pior, de que n&atilde;o &eacute; cred&iacute;vel.</p>  	    <p>Ser&aacute; que acontece o mesmo em Portugal? Na tentativa de responder a esta quest&atilde;o, um estudo que realizei incluiu 436 not&iacute;cias com refer&ecirc;ncia a doen&ccedil;a mental publicadas, entre 2005 e 2014, em dois jornais di&aacute;rios portugueses, o Jornal de Not&iacute;cias (dito popular ou "de massas") e o P&uacute;blico (considerado de refer&ecirc;ncia ou "de elite").</p>  	    <p>A principal conclus&atilde;o, em linha com a literatura internacional, &eacute; que os textos jornal&iacute;sticos com refer&ecirc;ncia a doen&ccedil;a mental s&atilde;o predominantemente relacionados com atos de viol&ecirc;ncia, pr&aacute;tica de crimes e perigosidade, sobretudo os do JN. Em cerca de 35% dos casos, o doente mental surge como criminoso, infrator, indiv&iacute;duo violento ou agressor (na verdade, de acordo com dados da Mental Health Foundation, a probabilidade de o doente mental ser v&iacute;tima &eacute; 10 vezes maior do que a de perpetrar um crime violento).</p>  	    <p>Alguns dos estere&oacute;tipos encontrados nos jornais nacionais s&atilde;o comuns aos de outros pa&iacute;ses. Al&eacute;m de criminoso e de v&iacute;tima, o doente mental aparece muitas vezes retratado como o esp&iacute;rito rebelde, o narcisista, o manipulador, ou ent&atilde;o como a v&iacute;tima indefesa, o miser&aacute;vel, o "cromo" ou o parasita que absorve os dinheiros p&uacute;blicos.</p>  	    <p>Neste estudo, verifica&#45;se ainda que apenas 9,2% das not&iacute;cias cont&ecirc;m declara&ccedil;&otilde;es dos doentes e, na maior parte, citados por outrem ou no contexto de processos judiciais. Somente 23,2% das pe&ccedil;as jornal&iacute;sticas t&ecirc;m declara&ccedil;&otilde;es de profissionais de sa&uacute;de, nomeadamente enfermeiros. A doen&ccedil;a mental n&atilde;o &eacute; identificada em cerca de um ter&ccedil;o da amostra (30,7%), fazendo com que os comportamentos negativos associados a uma doen&ccedil;a mental espec&iacute;fica, se existente, sejam abusivamente generalizados.</p>  	    <p>V&aacute;rios estudos internacionais s&atilde;o un&acirc;nimes quanto &agrave;s consequ&ecirc;ncias: a representa&ccedil;&atilde;o negativa da doen&ccedil;a mental nas not&iacute;cias tem uma influ&ecirc;ncia perniciosa nas perce&ccedil;&otilde;es das pessoas e na forma como se relacionam ou tencionam relacionar&#45;se com doentes mentais, assim como tem efeitos nos pr&oacute;prios doentes. Ao difundir o estigma, os <i>media</i> certificam um r&oacute;tulo que &eacute; interiorizado e que leva &agrave; diminui&ccedil;&atilde;o da sua autoestima, a sentimentos de vergonha e de revolta, ao isolamento, &agrave; exclus&atilde;o e &agrave; perda de direitos.</p>  	    <p>Ao difundirem massivamente estes preconceitos, representa&ccedil;&otilde;es perversas e ideias falsas, os <i>media</i> est&atilde;o a refor&ccedil;ar, a promover e a perpetuar a estigmatiza&ccedil;&atilde;o e at&eacute; a prejudicar o investimento na &aacute;rea da Sa&uacute;de Mental. N&atilde;o por acaso, em Portugal, esta &aacute;rea tem sido um "parente pobre" da Pol&iacute;tica de Sa&uacute;de.</p>  	    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A generaliza&ccedil;&atilde;o e a banaliza&ccedil;&atilde;o da liga&ccedil;&atilde;o entre doen&ccedil;a mental e viol&ecirc;ncia t&ecirc;m tamb&eacute;m consequ&ecirc;ncias na legisla&ccedil;&atilde;o (mais coerciva), nas pol&iacute;ticas sociais e nas respostas governamentais aos problemas mentais.</p>  	    <p>Quais s&atilde;o, ent&atilde;o, as recomenda&ccedil;&otilde;es para o futuro? Desde logo, os jornalistas t&ecirc;m de ser sensibilizados para a necessidade de darem mais aten&ccedil;&atilde;o ao tema da sa&uacute;de mental, sobretudo no &acirc;mbito de experi&ecirc;ncias positivas cujo conhecimento p&uacute;blico possa contribuir para combater o estigma atualmente existente. &Eacute; absolutamente paradoxal que as doen&ccedil;as mentais, que atingem uma em cada quatro pessoas em algum momento das suas vidas, tenham uma aten&ccedil;&atilde;o t&atilde;o reduzida da comunica&ccedil;&atilde;o social.</p>  	    <p>No seu todo, este estudo aponta ainda para a necessidade de os jornalistas darem menos &ecirc;nfase &agrave;s men&ccedil;&otilde;es ou alega&ccedil;&otilde;es de doen&ccedil;a mental em contexto de crimes, infra&ccedil;&otilde;es e atos violentos, de confirmarem o diagn&oacute;stico, de indicarem a doen&ccedil;a mental em concreto e de ouvirem os doentes e associa&ccedil;&otilde;es de doentes sempre que poss&iacute;vel.</p>  	    <p>Seriam necess&aacute;rios e desej&aacute;veis mais estudos e an&aacute;lises de conte&uacute;do ainda mais vastas e aprofundadas para se perceber se as tend&ecirc;ncias atr&aacute;s assinaladas se estendem a outros <i>media</i>, designadamente &agrave; televis&atilde;o, nas suas vertentes informativas e de entretenimento (<i>talk shows</i>, filmes, novelas, etc.).</p>  	    <p>Seria igualmente interessante estudar em que medida as not&iacute;cias negativas de doen&ccedil;a mental em Portugal podem estar relacionadas com a baixa literacia e com o baixo investimento nesta &aacute;rea e saber se a melhoria da informa&ccedil;&atilde;o nos <i>media</i> poderia levar a um maior conhecimento e investimento, a uma maior preven&ccedil;&atilde;o e a melhores cuidados.</p>  	    <p>S&atilde;o, finalmente, aconselh&aacute;veis em Portugal iniciativas p&uacute;blicas ou privadas do g&eacute;nero da brit&acirc;nica "Time to Change", que lutem contra a estigmatiza&ccedil;&atilde;o e contra a discrimina&ccedil;&atilde;o dos doentes mentais, envolvendo os <i>media</i>, como parceiros ou, mais do que isso, como aliados neste des&iacute;gnio. Porque &eacute; verdadeiramente hora de mudar.</p>       ]]></body>
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