<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1647-6158</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista :Estúdio]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Estúdio]]></abbrev-journal-title>
<issn>1647-6158</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1647-61582012000100026</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Borracha, transparência e peso no espaço real: por um novo modo de habitar os desenhos de Lúcia Fonseca]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Rubber, transparency and weight in the real space: towards a new way of inhabiting Lúcia Fonseca's drawings]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Silva]]></surname>
<given-names><![CDATA[Cláudia Maria França da]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Uberlândia  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ Estado de Minas Gerais]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<volume>3</volume>
<numero>5</numero>
<fpage>148</fpage>
<lpage>154</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582012000100026&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582012000100026&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582012000100026&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Análise de desenhos de Lúcia Fonseca, artista brasileira. São borrachas vulcanizadas pretas que dialogam mais efetivamente com o espaço real. Meu raciocínio vai à busca de valores reveladores da potência escultórica de tais desenhos. Aproximo esses trabalhos com experimentações de Richard Serra e Robert Morris, realizadas com materiais flexíveis, em que havia uma preocupação com o tectonismo da matéria (Serra) e um interesse pela multiplicidade de situações formais (Morris).]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Text about Lucia Fonseca drawings, Brazilian artist. Black vulcanized rubbers establish effective dialogue with real space. My text explores sculptural potency of her drawings with this material. I also bring them near Richard Serra and Robert Morris experiments with flexible materials. These experiments reveal their concerns with tectonism of matter (Serra) and multiplicity of formal situations (Morris).]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[peso]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[presentidade]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[desenho contemporâneo]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[weight]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[presentness]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[contemporary drawing]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>HABITAR</b>    <br> </p>       <p><b>Borracha, transpar&ecirc;ncia e peso no espa&ccedil;o real:  por um novo modo de habitar os desenhos de L&uacute;cia Fonseca</b> </p>     <p> <b>Rubber, transparency and weight in the real space: towards a new way of inhabiting L&uacute;cia Fonseca&#39;s drawings</b>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Cl&aacute;udia Maria Fran&ccedil;a da Silva&#42;</b> </p>     <p> &#42;Brasil, artista visual e professora na Universidade Federal de Uberl&acirc;ndia (UFU), Estado de Minas Gerais). Doutorado: Artes / Po&eacute;ticas Visuais, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Mestrado: Artes Visuais / Po&eacute;ticas Visuais, Universidade Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS). Gradua&ccedil;&atilde;o: Artes Pl&aacute;sticas, Desenho e Escultura, Universidade Federal de minas Gerais (UFMG). </p>    <p><a name="topc0"></a><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>    <p>&nbsp;</p>    <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b>    <br>An&aacute;lise de desenhos de L&uacute;cia Fonseca, artista brasileira. S&atilde;o borrachas vulcanizadas pretas que dialogam mais efetivamente com o espa&ccedil;o real. Meu racioc&iacute;nio vai &agrave; busca de valores reveladores da pot&ecirc;ncia escult&oacute;rica de tais desenhos. Aproximo esses trabalhos com experimenta&ccedil;&otilde;es de Richard Serra e Robert Morris, realizadas com materiais flex&iacute;veis, em que havia uma preocupa&ccedil;&atilde;o com o tectonismo da mat&eacute;ria (Serra) e um interesse pela multiplicidade de situa&ccedil;&otilde;es formais (Morris). </p>     <p> <b>Palavras-chave: </b> peso, presentidade, desenho contempor&acirc;neo.     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>ABSTRACT</b>    <br>Text about Lucia Fonseca drawings, Brazilian artist. Black vulcanized rubbers establish effective dialogue with real space. My text explores sculptural potency of her drawings with this material. I also bring them near Richard Serra and Robert Morris experiments with flexible materials. These experiments reveal their concerns with tectonism of matter (Serra) and multiplicity of formal situations (Morris).    </p>     <p> <b>Keywords: </b> weight, presentness, contemporary drawing.     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>  </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>Considera&ccedil;&otilde;es Iniciais</b>            </p>          <p>      Apresento alguns dos trabalhos mais recentes da artista pl&aacute;stica brasileira L&uacute;cia Fonseca, recortes e composi&ccedil;&otilde;es com borrachas vulcanizadas pretas. L&uacute;cia &eacute; natural de Campinas (SP), doutora em Comunica&ccedil;&atilde;o e Semi&oacute;tica pela PUC/SP e professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Este texto decorre de minha experi&ecirc;ncia como curadora de sua exposi&ccedil;&atilde;o individual &#34;Habitar o espa&ccedil;o&#34;, realizada no Museu de Arte Contempor&acirc;nea de Campinas Jos&eacute; Pancetti &#8211; MACC &#8211; realizada entre 16 de novembro e 11 de dezembro de 2011.      Em seus trabalhos anteriores, desenhos sobre papel, havia em alguns deles quase que um procedimento similar &agrave;s gravuras em maneira negra, j&aacute; que o eixo operacional era o escurecimento do suporte para ent&atilde;o criar zonas de luz, gerando o &#34;branco&#34; como acontecimento. Ao escrever sobre os mesmos, eu apontava sobre a presen&ccedil;a de uma escurid&atilde;o, esp&eacute;cie de &#34;noite profunda&#34; que era a base mesma do suporte, sobre a qual a artista ia dilapidando, em camadas sucessivas, &#34;momentos de luz silente&#34;, os quais &#34;ilumina&#91;va&#93;m o suficiente para apenas vislumbrarmos formas reconhec&iacute;veis dentro daqueles blocos de noite&#34;.        </p>          <p>      Ainda tendo como mirada aqueles desenhos, conclu&iacute;a refletindo que a po&eacute;tica de L&uacute;cia Fonseca seria o enfrentamento do branco e do sil&ecirc;ncio inicial do suporte, ao mesmo tempo em que o desenho era tamb&eacute;m uma constru&ccedil;&atilde;o sucessiva de &#34;blocos de noite&#34; para que ela pudesse, nesse trabalho de escurecer seu mundo de papel, redescobrir o branco, para fazer da totalidade da noite espessa, outros blocos: nuvens de chumbo. Ora, nuvens de chumbo s&atilde;o imagens mentais que podem metaforizar a ang&uacute;stia, mas podem tamb&eacute;m se relacionar ao peso. Tens&atilde;o existente entre a for&ccedil;a gravitacional e a condi&ccedil;&atilde;o de suspens&atilde;o no ar, do ser nuvem. A s&eacute;rie que ora se apresenta &eacute; um enfrentamento do peso f&iacute;sico. Para tal, &eacute; importante pensarmos nas opera&ccedil;&otilde;es da artista sobre o suporte. Meu racioc&iacute;nio na constru&ccedil;&atilde;o desse texto passa pelo suporte como corpo e mat&eacute;ria e me faz pensar se essa nova s&eacute;rie de &#34;desenhos&#34; de L&uacute;cia Fonseca n&atilde;o nos revelaria a pot&ecirc;ncia escult&oacute;rica de suas preocupa&ccedil;&otilde;es po&eacute;ticas.     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>1. Suporte e Transpar&ecirc;ncia</b>      </p>          <p>      &Eacute; muito comum aos desenhistas pensarem que o desenho come&ccedil;a no momento em que os instrumentos gr&aacute;ficos tocam o espa&ccedil;o do papel. Parece haver nisso a ideia de que a a&ccedil;&atilde;o de tra&ccedil;ar &eacute; o elemento que funda uma visualidade, ou mesmo de que o corpo do artista se apresenta como figura ou por meio de sua gestualidade. H&aacute; um corpo anterior que recebe o tra&ccedil;o, o corpo do suporte. Corpo que em muitos momentos foi percebido em sua transpar&ecirc;ncia, como aquilo que permite a visualidade de outra coisa. Corpo anterior como vidro transparente pelo qual se olha, e n&atilde;o <i>para</i> o qual se olha.       </p>          <p>      &Eacute; necess&aacute;rio que ampliemos nosso conceito de &#34;transpar&ecirc;ncia&#34;. Para Colin Rowe (1985: 54-5), a transpar&ecirc;ncia &eacute; um termo abrangente, podendo assumir diversas significa&ccedil;&otilde;es. Assim, temos a transpar&ecirc;ncia como (1) &#34;busca constante &#91;do intelecto&#93; de tudo aquilo que deveria ser facilmente detectado&#34;, como (2) condi&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica de determinadas mat&eacute;rias que permitem passar a luz para outro meio. A transpar&ecirc;ncia tamb&eacute;m &eacute; entendida como (3) qualidade de car&aacute;ter, op&ccedil;&atilde;o pela sinceridade e aus&ecirc;ncia de dissimula&ccedil;&atilde;o. Para o entendimento desse texto, trabalhamos com o conceito nos sentidos de clareza de racioc&iacute;nio e postura &eacute;tica, dentro das postula&ccedil;&otilde;es de Rowe.      </p>          <p>      Munida de tais refer&ecirc;ncias para o conceito de transpar&ecirc;ncia, refiro-me ent&atilde;o &agrave; escolha e presen&ccedil;a do suporte no mundo, como corpo primeiro com o qual o corpo do artista trabalha. A corporeidade do suporte fica ainda mais clara quando a artista investiga placas pretas de borracha vulcanizada. Elas lhe fornecem extens&atilde;o, espessura, cor, maleabilidade, cheiro e peso (<a href="#f1">Figura 1</a> e <a href="#f2">Figura 2</a>).  </p>     <p> N&atilde;o h&aacute; como n&atilde;o se olhar para elas.        </p>           <p>&nbsp;</p>       <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v3n5/3n5a26f1.jpg"></a>           
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>       <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v3n5/3n5a26f2.jpg"></a>           
<p>&nbsp;</p>          <p>      A artista tem de lidar com v&aacute;rias caracter&iacute;sticas do material &#34;antes&#34; de come&ccedil;ar seus &#34;desenhos&#34;: carregar as placas &#8211; experimentar o peso f&iacute;sico do material, ao mesmo tempo do peso visual &#8211; prevenir-se das manchas de graxa, organizar espa&ccedil;os de guarda e de manipula&ccedil;&atilde;o das placas, conviver com o cheiro da borracha. Conviver n&atilde;o mais com &#34;blocos de noite&#34; <i>constru&iacute;dos</i> por seus gestos gr&aacute;ficos, mas com &#34;noites&#34; pr&eacute;-existentes, enroladas e envolvidas em seu mist&eacute;rio intr&iacute;nseco de ocultarem sua formatividade &#8211; pois nessa lat&ecirc;ncia s&atilde;o apenas manchas pretas e informes.      </p>          <p>      Ao lado da desenhista que se empenhava ao m&aacute;ximo em conservar a planura e alvura de seus suportes intocados &#8211; talvez L&uacute;cia se pegue pensando que agora cabe vez &agrave; desenhista que compreende que o ser do plano de borracha seja um ser recolhido, envolvido, acostumado a uma invisibilidade que agora grita com sua &#34;presen&ccedil;a&#34; no cotidiano da artista. Ou talvez perceba que a &#34;nova&#34; s&eacute;rie &eacute; uma delibera&ccedil;&atilde;o em se trabalhar com a F&iacute;sica no interior do Desenho.      </p>          <p>      Essa condi&ccedil;&atilde;o do suporte &#8211; placas enroladas &#8211; passa a ser percebida tamb&eacute;m como pot&ecirc;ncia para &#34;situa&ccedil;&otilde;es formais&#34;. Ou seja: a artista executa no plano da borracha v&aacute;rios cortes que produzem manchas e linhas negras, unidades que em conjunto produzem texturas e outras composi&ccedil;&otilde;es. Mas h&aacute; tamb&eacute;m fragmentos longos de placa enrolada em diversos tamanhos. Consubstanciam volumes de alturas diversas, mas sempre sujeitos ao peso do pr&oacute;prio material. A artista tamb&eacute;m constr&oacute;i estruturas r&iacute;gidas (<a href="#f3">Figura 3</a> e <a href="#f4">Figura 4</a>), suportes met&aacute;licos para suspender linhas e manchas, numa busca de tectonismo para o pr&oacute;prio desenho no espa&ccedil;o real.  </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v3n5/3n5a26f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v3n5/3n5a26f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>           <p>       Quando me refiro a &#34;situa&ccedil;&otilde;es formais&#34;, isso se d&aacute; pela submiss&atilde;o do material &agrave; for&ccedil;a gravitacional. Mesmo que L&uacute;cia fa&ccedil;a um percurso com uma linha de borracha no espa&ccedil;o real, levantando-a em alguns momentos, dependurando-a em algum suporte, ou mesmo construindo sobreposi&ccedil;&otilde;es de rolos, os resultados formais n&atilde;o s&atilde;o absolutamente est&aacute;veis, porque o peso das borrachas introduz graus de entropia nas composi&ccedil;&otilde;es, o que as torna vinculadas n&atilde;o mais a um conceito de forma como da ordem do est&aacute;vel e do constante.       </p>           <p>       Essas novas situa&ccedil;&otilde;es remetem a algumas experi&ecirc;ncias de Robert Morris e Richard Serra, a partir de 1967. Robert Morris formula o conceito de &#34;anti-forma&#34; durante experimenta&ccedil;&otilde;es com materiais moles como o feltro e com disposi&ccedil;&otilde;es espaciais aleat&oacute;rias e desordenadas. Morris est&aacute; atento &agrave;s oposi&ccedil;&otilde;es entre o car&aacute;ter bem-constru&iacute;do e o n&atilde;o-constru&iacute;do, em uma obra de arte. O conjunto do que o homem construiu para fazer oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; a&ccedil;&atilde;o gravitacional &#8211; o emprego do m&aacute;rmore e do bronze, por exemplo, pertence ao dom&iacute;nio do bem-constru&iacute;do, da &#34;forma&#34;. A &#34;anti-forma&#34; seria o p&oacute;lo oposto, em que o desejo de formar sucumbe &agrave; inexorabilidade da gravidade.        </p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p>       Richard Serra, por sua vez, insiste no tectonismo, mesmo com grossas borrachas galvanizadas, dependurando-as em paredes, ou i&ccedil;ando-as parcialmente. Nessas a&ccedil;&otilde;es, o artista percebe a for&ccedil;a gravitacional como elemento desestabilizador da no&ccedil;&atilde;o de uma forma est&aacute;vel. Serra refere-se a uma &#34;transpar&ecirc;ncia&#34; no trabalho, n&atilde;o mais somente como a apresenta&ccedil;&atilde;o das opera&ccedil;&otilde;es que o constituem, mas preocupando-se em tornar &#34;transparente&#34; a for&ccedil;a gravitacional como part&iacute;cipe daquela visualidade.        </p>     <blockquote><i>Tenho constantemente tentado tornar a tect&ocirc;nica transparente, n&atilde;o como um imperativo &eacute;tico ou l&oacute;gico, mas como um assunto no senso comum da constru&ccedil;&atilde;o. Princ&iacute;pios de constru&ccedil;&atilde;o que satisfazem sua fun&ccedil;&atilde;o sob dadas limita&ccedil;&otilde;es est&atilde;o abertos &agrave; inspe&ccedil;&atilde;o de qualquer um </i> (Serra, 2004: 50-1).       </blockquote>           <p>       Assim, na lida com o peso f&iacute;sico e outras caracter&iacute;sticas do material escolhido, na escolha entre deixar que a for&ccedil;a da gravidade estabele&ccedil;a a imobilidade final das coisas e experimentar momentos de resist&ecirc;ncia a essa for&ccedil;a, os trabalhos resultantes passam a estabelecer intensas conversas com o espa&ccedil;o real. Existe ent&atilde;o um alto valor para a experimenta&ccedil;&atilde;o, no sentido de resgate de uma &#34;presentidade&#34; da forma.        </p>           <p>       Robert Morris escreve sobre a presentidade no campo da experi&ecirc;ncia subjetiva, afirmando que o &#34;espa&ccedil;o real n&atilde;o &eacute; experimentado a n&atilde;o ser no tempo real.&#34; (Morris, 1978/2006: 404). Morris afirma isso no seio de uma discuss&atilde;o sobre as diferen&ccedil;as de subjetividade na experi&ecirc;ncia real (&#34;experi&ecirc;ncias do tipo eu&#34;, consideradas como o sujeito lidando com o espa&ccedil;o e o tempo reais) e na experi&ecirc;ncia memorialista, quando destacamos o objeto lembrado de seu contexto espacial, generalizando-o e estatizando-o (a &#34;modalidade mim&#34;, em que o sujeito lida com o dado retrospectivo e que &eacute; represent&aacute;vel). Um desenho projetivo &eacute; da ordem dessa experi&ecirc;ncia memorialista, por conta do valor mental dessa representa&ccedil;&atilde;o. Mas ao chamar a aten&ccedil;&atilde;o para experi&ecirc;ncias de presentidade, Morris quer co-estender o objeto ao espa&ccedil;o real e ao tempo imediato. Por meio desse pensamento, percebemos em que medida o desenho como projeto ou outra maneira de antecipa&ccedil;&atilde;o revelam sua impot&ecirc;ncia diante do &#34;peso&#34; da realidade palp&aacute;vel. Os projetos t&ecirc;m validade para orienta&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ricas. Mas a din&acirc;mica interna da forma, essa &eacute; um mist&eacute;rio que s&oacute; se revela na manipula&ccedil;&atilde;o e jogo das formas, no equil&iacute;brio prec&aacute;rio com o qual se imp&otilde;em.      </p>          <p>      Isso me ficou muito claro quando L&uacute;cia Fonseca abandonou estudos em papel e partiu para uma maquete do Museu (MACC). As borrachas pequenas, proporcionalmente reduzidas, permitiram configura&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o foram garantidas na escala real. A partir dessas constata&ccedil;&otilde;es, um acordo t&aacute;cito estabelecido entre as borrachas e a artista foi o de que o espa&ccedil;o do museu teria de se transformar em espa&ccedil;o de trabalho &#8211; em espa&ccedil;o de atelier &#8211; j&aacute; que convencionalmente, &eacute; no espa&ccedil;o do atelier que se experimentam possibilidades, que h&aacute; o espa&ccedil;o para o erro e para as tentativas. L&uacute;cia Fonseca &#34;habitou&#34; o museu/atelier durante o tempo de sua exposi&ccedil;&atilde;o, compondo novas situa&ccedil;&otilde;es formais com as borrachas. Isso garantiu um dinamismo ainda maior ao que j&aacute; se percebia no espa&ccedil;o real, pois as condi&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas ditavam o estabelecimento das diferen&ccedil;as.       </p>          <p>&nbsp;</p>          <p>     <b>Considera&ccedil;&otilde;es Finais</b>      </p>          <p>      Trabalhar com as borrachas abriu a prerrogativa para outra transpar&ecirc;ncia: o enfrentamento da mat&eacute;ria com a realidade do espa&ccedil;o e tempo reais. Uma transpar&ecirc;ncia do tipo &#34;espa&ccedil;o em obra&#34; (Tassinari, 2001), gerando di&aacute;logo da obra com o mundo, aliou-se &agrave; transpar&ecirc;ncia da gravidade para fornecerem o jogo da performatividade da mat&eacute;ria em <i>situa&ccedil;&otilde;es</i> composicionais.      </p>          <p>      Compreende-se que o ato de habitar trabalhos art&iacute;sticos no espa&ccedil;o expositivo, no caso de L&uacute;cia Fonseca, merece v&aacute;rios &#34;modos&#34;. O modo com que a borracha vulcanizada se comportou como corpo flex&iacute;vel determinou o modo de atua&ccedil;&atilde;o do corpo da artista, imprimindo ao espa&ccedil;o do museu um modo po&iuml;&eacute;tico, dado na constante reconfigura&ccedil;&atilde;o das placas. Todos esses modos, por sua vez, desembocaram no corpo do espectador, que percorreu e experimentou o di&aacute;logo das mat&eacute;rias, das situa&ccedil;&otilde;es formais, da transpar&ecirc;ncia das solu&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas, consubstanciando um modo de habitar que foi s&oacute; seu. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> <b>Refer&ecirc;ncias </b> </p>     <!-- ref --><p> Morris, Robert (2006)  &#34;O tempo presente do espa&ccedil;o&#34; In: Ferreira, G.; Cotrim, C. <i>Escritos de artistas: anos 60/70</i>. Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1442765&pid=S1647-6158201200010002600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Rowe, Colin (1985) &#34;Transpar&ecirc;ncia literal e fenomenal&#34;. <i>G&aacute;vea, </i> Rio de Janeiro, PUCRJ, n.&ordm;2, setembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1442767&pid=S1647-6158201200010002600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p> Serra, Richard (2005) &#34;Questions, contradictions, solutions: early work&#34;. In: SERRA et alli. <i>The matter of time</i>. Bilbao: Guggenheim Museum.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1442769&pid=S1647-6158201200010002600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->  </p>     <!-- ref --><p> Tassinari, Alberto (2001) <i>O espa&ccedil;o moderno</i>. S&atilde;o Paulo: Cosac & Naify.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1442771&pid=S1647-6158201200010002600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->   </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido em 20 de janeiro e aprovado em 8 de fevereiro de 2012.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p><a name = "c0">Correio</a> eletr&oacute;nico: <a href="mailto:claudiamfsg@yahoo.com.br"> claudiamfsg@yahoo.com.br</a> (Cl&aacute;udia Fran&ccedil;a).</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Morris]]></surname>
<given-names><![CDATA[Robert]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O tempo presente do espaço]]></article-title>
<source><![CDATA[]]></source>
<year>2006</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Rowe]]></surname>
<given-names><![CDATA[Colin]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Transparência literal e fenomenal: Gávea]]></source>
<year>1985</year>
<edition>2</edition>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[PUCRJ]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Serra]]></surname>
<given-names><![CDATA[Richard]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Questions, contradictions, solutions: early work]]></article-title>
<source><![CDATA[]]></source>
<year>2005</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Tassinari]]></surname>
<given-names><![CDATA[Alberto]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O espaço moderno]]></source>
<year>2001</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Cosac & Naify]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
