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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[De Película: As narrativas fotográficas de Vera Chaves Barcellos]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>OBSERVAR</b>    <br> </p>       <p><b>De Pel&iacute;cula: As narrativas fotogr&aacute;ficas de Vera Chaves Barcellos</b> </p>     <p> <b>De Pel&iacute;cula: the photo narratives of Vera Chaves Barcellos </b>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>Alfredo Nicolaiewsky&#42; </b> </p>     <p> &#42;Brasil, Artista Visual e Professor. Doutor em Artes Visuais &#8211; Po&eacute;ticas Visuais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Artes Visuais &#8211; Po&eacute;ticas Visuais (UFRGS, 1995). Bacharel em Arquitetura e Urbanismo (UFRGS, 1976). </p>    <p><a name="topc0"></a><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>    <p>&nbsp;</p>    <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>RESUMO</b>    <br> Este artigo apresenta os trabalhos A Mulher Pantera e Pequeno Discurso Amoroso da s&eacute;rie De Pel&iacute;cula, produzida entre 2000 e 2002 pela artista Vera Chaves Barcellos (Porto Alegre, Brasil, 1938). Esta s&eacute;rie apresenta alguns aspectos caracter&iacute;sticos e recorrentes em sua produ&ccedil;&atilde;o: o uso da fotografia, a apropria&ccedil;&atilde;o e o aspecto seq&uuml;encial das imagens, sugerindo narrativas.  </p>     <p> <b>Palavras-chave: </b> Vera Chaves Barcellos, narrativa fotogr&aacute;fica, apropria&ccedil;&atilde;o.      </p>      <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <b>ABSTRACT</b>    <br>  This paper presents the works A Mulher Pantera and Pequeno Discurso Amoroso from the series De Pel&iacute;cula, made between 2000 and 2002 by the artist Vera Chaves Barcellos (Porto Alegre, Brazil, 1938). This series presents some characteristic and recurrent features in her work:  the use of photography, the appropriation and the sequential features of the images, suggesting narratives.  </p>     <p> <b>Keywords: </b> Vera Chaves Barcellos,  photographic narratives, appropriation.     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>   	</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Vera Chaves Barcellos (Porto Alegre, Brasil, 1938) vive atualmente entre Barcelona (Espanha) e Porto Alegre (Brasil), onde mant&ecirc;m ateli&ecirc;s. Iniciou seus estudos em 1959, no atual Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ap&oacute;s um per&iacute;odo de estudos na Europa, dedicou-se a gravura, principalmente a xilogravura e serigrafia. A partir de meados dos anos 1970 passou a trabalhar com suportes e t&eacute;cnicas diversas, com &ecirc;nfase na fotografia, nas instala&ccedil;&otilde;es e no v&iacute;deo. 	</p>     <p> A s&eacute;rie fotogr&aacute;fica intitulada <i>De Pel&iacute;cula</i>, produzida entre os anos de 2000 e 2002, esta formada por um pequeno n&uacute;mero de obras, conjuntos de fotografias obtidas a partir de filmes exibidos na TV. Nesta s&eacute;rie destacam-se alguns aspectos caracter&iacute;sticos e recorrentes na produ&ccedil;&atilde;o de Vera: o uso da fotografia, a apropria&ccedil;&atilde;o e o aspecto seq&uuml;encial das imagens, sugerindo narrativas. S&atilde;o tr&ecirc;s aspectos bastante diferentes entre si, pois o primeiro refere-se &agrave; t&eacute;cnica utilizada, o segundo a um procedimento e o terceiro a maneira de organizar e apresentar as imagens.  	</p>     <p> Trabalhar com imagens fotogr&aacute;ficas, capturadas a partir de filmes, v&iacute;deos ou da televis&atilde;o &eacute; um procedimento bastante disseminado no campo das artes visuais, um recurso para produzir a mat&eacute;ria-prima e as obras de diversos artistas, dos quais podemos citar Eric Rondepierre (Fran&ccedil;a, 1950), Victor Burgin (Gr&atilde;-Bretanha, 1941), John Waters (EUA, 1945) e Rosangela Renn&oacute; (Brasil, 1962). Cada um deles procede de diferentes maneiras e tamb&eacute;m com diferentes inten&ccedil;&otilde;es. 	</p>     <p> As imagens fotogr&aacute;ficas, obtidas a partir de filmes na televis&atilde;o, tem caracter&iacute;sticas &uacute;nicas, pois s&atilde;o imagens h&iacute;bridas. Sendo in&uacute;meros os procedimentos utilizados pelos artistas, para se apropriarem de imagens cinematogr&aacute;ficas, para melhor compreend&ecirc;-los &eacute; necess&aacute;rio refazer aqui o processo de como as imagens foram produzidas: 1. Houve a concep&ccedil;&atilde;o do filme por um roteirista ou autor; 2. Houve a escolha dos atores, cen&oacute;grafos, figurinistas; 3. Houve a dire&ccedil;&atilde;o dos atores, a escolha da ilumina&ccedil;&atilde;o, o &acirc;ngulo em que seriam filmados; 4. Houve a montagem da pel&iacute;cula; 5. Houve a passagem da pel&iacute;cula para outro suporte, v&iacute;deo ou digital, acarretando altera&ccedil;&otilde;es na imagem, n&atilde;o apenas na qualidade t&eacute;cnica, mas eventualmente no formato das mesmas; 6. Ap&oacute;s todo esse processo o artista tem, finalmente, acesso a imagem que ele pode captar pela fotografia, seja na televis&atilde;o, v&iacute;deo ou DVD, imagens que, naturalmente, vem com todas as altera&ccedil;&otilde;es e perdas decorrentes dos m&uacute;ltiplos processos pelas quais elas passaram.   	</p>     <p> Da s&eacute;rie intitulada <i>De Pel&iacute;cula</i> destacamos as obras <i>A Mulher Pantera</i> e <i>Pequeno Discurso Amoroso</i>. Comecemos explicando de que maneira Vera obt&eacute;m estas imagens (comunica&ccedil;&atilde;o pessoal, 2002-19-02): quando est&aacute; assistindo a um filme na televis&atilde;o, a artista, &agrave;s vezes, percebe que ele pode ter imagens &#34;boas&#34;, imagens adequadas para um poss&iacute;vel trabalho. Ela prepara a m&aacute;quina fotogr&aacute;fica e fica &agrave; espera. Em determinados momentos come&ccedil;a a fotografar as imagens, em movimento, pois elas n&atilde;o &#34;param&#34; para serem fotografadas. Normalmente faz v&aacute;rias fotos em seq&uuml;&ecirc;ncia, n&atilde;o se preocupando em enquadrar somente as imagens na tela, mas captando tamb&eacute;m &aacute;reas em negro ao redor do aparelho de televis&atilde;o, deixando este com sua imagem luminosa em destaque. Ap&oacute;s serem analisadas, se aprovadas, essas imagens s&atilde;o organizadas em conjuntos exatamente como foram captadas, sem qualquer recorte ou &#34;limpeza&#34; posterior. Este procedimento de capta&ccedil;&atilde;o, sem edi&ccedil;&atilde;o, promove nas imagens algumas caracter&iacute;sticas espec&iacute;ficas: elas apresentam o granulado das imagens de TV; por vezes s&atilde;o levemente desfocadas; tamb&eacute;m ocorrem distor&ccedil;&otilde;es, por terem sido obtidas lateralmente ao tentar escapar dos reflexos.       </p>           <p>       O que para mim d&aacute; um car&aacute;ter &uacute;nico a estes trabalhos &eacute; exatamente a postura da artista ao trabalhar com o momento, sem a possibilidade de retornar &agrave; imagem original para obter uma foto melhor e tamb&eacute;m sem poder parar a imagem em algum momento espec&iacute;fico. Essas fotos n&atilde;o s&atilde;o obtidas quando a artista esta assistindo a um filme em v&iacute;deo ou DVD, pois nestes casos ela poderia recome&ccedil;ar o filme, ou retroceder alguns quadros para obter a imagem mais interessante. Nesta maneira de trabalhar, os filmes, assim como a vida, n&atilde;o param para permitir ao artista escolher os momentos mais significativos.       </p>           <p>       A estrutura&ccedil;&atilde;o do trabalho, em conjuntos de imagens, nestas obras merece uma aten&ccedil;&atilde;o especial, pois as seq&uuml;&ecirc;ncias fotogr&aacute;ficas t&ecirc;m narrativas mais ou menos evidentes, apontando para pequenos fragmentos de hist&oacute;rias. Isso se d&aacute; devido a dois procedimentos diferentes na escolha e organiza&ccedil;&atilde;o das fotos: &agrave;s vezes s&atilde;o imagens obtidas a partir de uma &uacute;nica cena como, por exemplo, <i>A Mulher Pantera</i> (<a href="#f1">Figura 1</a>) ou ent&atilde;o s&atilde;o imagens captadas em momentos diferentes do filme, gerando grandes vazios narrativos, que ficam para serem completados pelo espectador como, por exemplo, <i>Pequeno Discurso Amoroso</i> (<a href="#f2">Figura 2</a>). &Eacute; importante salientar que as imagens que formam as obras, al&eacute;m de oriundas de um &uacute;nico filme, t&ecirc;m como tema personagens femininas em situa&ccedil;&otilde;es de tens&atilde;o.  </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v3n5/3n5a53f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v3n5/3n5a53f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p>       Em <i>A Mulher Pantera</i> temos uma seq&uuml;&ecirc;ncia de seis imagens, obtidas a partir de uma &uacute;nica cena, onde vemos a cabe&ccedil;a de uma mulher dentro d&#39;&aacute;gua, em uma piscina ou um lago, em uma cena noturna. Nas duas primeiras imagens do trabalho a mulher parece relaxada, tranq&uuml;ila. Nas duas imagens seguintes observamos que ela esta olhando para algo, ou algu&eacute;m, que est&aacute; fora do quadro. &Eacute; dif&iacute;cil perceber seu sentimento neste momento. Nas duas &uacute;ltimas fotos notamos uma transforma&ccedil;&atilde;o da mulher: seu rosto come&ccedil;a a se modificar e, finalmente, ela parece gritar. O t&iacute;tulo &#8211; <i>A Mulher Pantera</i> &#8211; funciona como uma forma de elucidar, em parte, a a&ccedil;&atilde;o. Vera n&atilde;o nos mostra a poss&iacute;vel transforma&ccedil;&atilde;o da nadadora em mulher pantera nem, t&atilde;o pouco, nos d&aacute; a raz&atilde;o do t&iacute;tulo. Ela deixa as imagens como um grande enigma pleno de quest&otilde;es: Quem &eacute; esta mulher? Porque se transforma em pantera? O que a levou a esta situa&ccedil;&atilde;o? Ela est&aacute; sendo amea&ccedil;ada? Ela atacar&aacute;? Como &eacute; uma mulher pantera? Ao mesmo tempo em que podemos imaginar respostas para estas perguntas, somos levados em uma viagem no tempo, j&aacute; que o pr&oacute;prio t&iacute;tulo, e as imagens, indicam que este &eacute; provavelmente um filme antigo, possivelmente um filme classe &#34;B&#34;, como os que se assistia nas matin&ecirc;s nos finais de semana dos anos 1960.       </p>           <p>       Imagino que Vera Chaves Barcellos, n&atilde;o fez este trabalho preocupada com o destino da mulher pantera, mas, mais provavelmente, tenta resgatar as emo&ccedil;&otilde;es da juventude, dela e nossa, seu p&uacute;blico, nos apresentando em algumas poucas imagens, um trabalho que ativa, por sua for&ccedil;a evocadora, a nossa mem&oacute;ria.  	       </p>           <p>       O segundo trabalho, intitulado <i>Pequeno Discurso Amoroso</i>, tamb&eacute;m formado por seis fotografias, diferentemente do exemplo anterior, teve suas imagens obtidas em cenas esparsas de um filme. Chama a aten&ccedil;&atilde;o o fato de podermos visualizar, com bastante destaque, os limites da tela da televis&atilde;o, criando grandes &aacute;reas negras, no entorno da imagem do filme. Aqui as imagens n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o claras quanto no trabalho anterior. As duas primeiras fotografias mostram um jovem refletido em um espelho &#8211; possivelmente em um banheiro p&uacute;blico &#8211;, a primeira de frente e a segunda de costas. A terceira foto da seq&uuml;&ecirc;ncia nos mostra uma mulher, ao ar livre, junto a uma estrutura de barras na qual ela se ap&oacute;ia. A quarta imagem nos apresenta um jovem, aparentemente diferente daquele das duas primeiras fotos e parte do rosto da mulher da imagem anterior, no limite da parte direita da foto. As duas &uacute;ltimas fotografias do conjunto apresentam imagens confusas, na qual percebemos uma poss&iacute;vel sobreposi&ccedil;&atilde;o de pr&eacute;dios, uma s&eacute;rie de estruturas horizontais que formam linhas e, finalmente, com alguma transpar&ecirc;ncia, uma figura feminina em movimento. Na &uacute;ltima imagem a mulher, em movimento, est&aacute; de costas para o espectador.        </p>           <p>       Diversas interroga&ccedil;&otilde;es surgem deste conjunto: nenhum personagem parece estar falando ou tentando se comunicar; os lugares onde ocorrem as a&ccedil;&otilde;es diferem bastante, com exce&ccedil;&atilde;o das duas &uacute;ltimas imagens; &eacute; poss&iacute;vel ao espectador/observador estabelecer certa rela&ccedil;&atilde;o visual entre a segunda, a quinta e a sexta imagem, pois nestas temos algumas recorr&ecirc;ncias, tais como a figura feminina sozinha e parada, ou caminhando e, finalmente, s&atilde;o imagens com &ecirc;nfase nas linhas horizontais.        </p>           <p>       Certamente podemos falar em narrativa de um tipo bastante diferente do exemplo anterior. Neste <i>Pequeno Discurso Amoroso</i> v&ecirc;-se uma narrativa com lacunas, com grandes vazios, que precisam ser preenchidos pelo espectador. A margem de participa&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico neste caso se amplia, ao contr&aacute;rio do A <i>Mulher Pantera</i>, no qual cada expectador pode preencher os vazios a partir de suas experi&ecirc;ncias pessoais ou mem&oacute;rias cinematogr&aacute;ficas. Neste segundo exemplo, o t&iacute;tulo tem uma fun&ccedil;&atilde;o diferente daquela do primeiro trabalho, pois aparentemente este t&iacute;tulo faz refer&ecirc;ncia aos <i>Fragmentos de um Discurso Amoroso</i>, obra de Roland Barthes na qual o amor nos &eacute; apresentado em forma de verbetes de um dicion&aacute;rio, em fragmentos, como as imagens desta obra. Neste trabalho de Vera, o t&iacute;tulo &eacute; antes um elemento instigador, mais do que uma descri&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do da obra, pois, aparentemente, n&atilde;o h&aacute; nada nestas imagens que sugira um pequeno discurso amoroso&#8230;       </p>           <p>       Vera Chaves Barcellos em sua obra no geral, e na s&eacute;rie <i>De Pel&iacute;cula</i> em particular, prop&otilde;e-nos muitas quest&otilde;es, das quais saliento aqui, duas: por um lado, uma reflex&atilde;o sobre os significados das imagens no mundo contempor&acirc;neo, pois ao se apropriar de imagens normalmente fugazes, ao preserv&aacute;-las ela lhes da um novo status. Um status evocador de reminisc&ecirc;ncias. Por outro lado nos prop&otilde;e narrativas que s&atilde;o verdadeiros enigmas visuais. Nos dois aspectos ela solicita, aos seus espectadores, uma participa&ccedil;&atilde;o ativa.        </p>           <p>&nbsp;</p>           <p>&nbsp;</p>           <p>Artigo completo submetido em 20 de janeiro e aprovado em 8 de fevereiro de 2012.</p>           <p>&nbsp;</p>           ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p><a name = "c0">Correio</a> eletr&oacute;nico: <a href="mailto:alfredo.nicolaiewsky@gmail.com">alfredo.nicolaiewsky@gmail.com</a>  (Alfredo Nicolaiewsky).</p>            ]]></body>
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