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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Cahier de Linoléum, de Viteix: História, ideologia e pesquisa plástica]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In 1984, the Angolan painter Victor Teixeira (Viteix), publishes in Paris the "Cahier de linoleum", which brings together more than two dozen prints on linoleum. Altogether these images cover issues ranging from historical events that marked the last years of colonial rule to daily episodes where plastic experimentation comes associated with reflection on cultural identity.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>M&Atilde;OS</b>    <br> </p>     <p align="right"><b>HANDS</b>    <br> </p>       <p><b>O <i>Cahier de Linol&eacute;um,</i> de Viteix. Hist&oacute;ria, ideologia e pesquisa pl&aacute;stica</b></p>     <p><b>The <i>CahierLinol&eacute;um</i>, from Viteix: History, ideology and art quest</b></p>     <p>&nbsp;</p>       <p><b>Teresa Matos Pereira &#42;</b></p>       <p>&#42;Portugal, artista visual. Doutoramento em Belas-Artes (Pintura); Mestrado em Teorias da Arte; Licenciatura em Artes Pl&aacute;sticas (Pintura) pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. Afilia&ccedil;&atilde;o: Instituto Polit&eacute;cnico de Set&uacute;bal, Escola Superior de Educa&ccedil;&atilde;o. </p> <a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO:</b>    <br>Em 1984, o pintor angolano V&iacute;tor Teixeira (Viteix), edita, em Paris o Cahier de Linol&eacute;um, que re&uacute;ne mais de duas dezenas de gravuras em lin&oacute;leo. No seu conjunto estas imagens abrangem quest&otilde;es que v&atilde;o desde acontecimentos hist&oacute;ricos que marcaram os derradeiros anos do regime colonial a epis&oacute;dios do quotidiano, onde a experimenta&ccedil;&atilde;o pl&aacute;stica surge associada &agrave; reflex&atilde;o em torno da identidade cultural.</p>      <p><b>Palavras chave:</b> Viteix, Gravura, Arte angolana, colonialismo, identidade cultural</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>        <p><b>ABSTRACT:</b>    <br>In 1984, the Angolan painter Victor Teixeira (Viteix), publishes in Paris the "Cahier de linoleum", which brings together more than two dozen prints on linoleum. Altogether these images cover issues ranging from historical events that marked the last years of colonial rule to daily episodes where plastic experimentation comes associated with reflection on cultural identity.</p>     <p><b>Keywords:</b> Viteix, engraving, Angolan art, colonialism, cultural identity</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>       <p><b>1. A&ccedil;&atilde;o e Cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica</b></p>       <p>V&iacute;tor Manuel Teixeira, (1940-1993), ou <i>Viteix &#150;</i> nome com o qual assinar&aacute; a sua obra , destaca-se como uma das figuras chave no cen&aacute;rio das artes pl&aacute;sticas angolanas ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia do pa&iacute;s, n&atilde;o s&oacute; pela a&ccedil;&atilde;o desenvolvida enquanto criador, mas igualmente enquanto formador e dinamizador.</p>     <p>Com a Independ&ecirc;ncia Nacional regressa a Angola onde ser&aacute; membro fundador da Uni&atilde;o Nacional dos Artistas Pl&aacute;sticos (desempenhando o cargo de Secret&aacute;rio &#150; Geral entre 1987-89), professor do 1&ordm; Curso de Instrutores de Artes Pl&aacute;sticas desenvolvido em 1978 pelo Conselho Nacional de Cultura, membro da AICA (Associa&ccedil;&atilde;o Internacional de Cr&iacute;ticos de Arte) e trilhando um percurso enquanto artista, onde a investiga&ccedil;&atilde;o e aprofundamento pl&aacute;stico dos valores est&eacute;tico-simb&oacute;licos do patrim&oacute;nio cultural angolano, &eacute; assumida como for&ccedil;a motriz para a cria&ccedil;&atilde;o de uma po&eacute;tica individual que, reclamando as ra&iacute;zes identit&aacute;rias africanas, n&atilde;o esquece a dimens&atilde;o universal da arte.</p>     <p>Viteix ir&aacute; desenvolver uma gram&aacute;tica visual e pl&aacute;stica dominada antes de tudo, pela presen&ccedil;a e poder do desenho, onde a linha fluida define corpos e formas em movimento ao mesmo tempo que assume a capacidade de criar uma caligrafia cada vez mais individualizada. A sobreposi&ccedil;&atilde;o de figuras humanas, animais e s&iacute;mbolos num espa&ccedil;o imaterial, come&ccedil;a a evidenciar-se na d&eacute;cada de 70 em algumas obras de desenho, pintura e gravura de que se destaca a edi&ccedil;&atilde;o de autor do <i>Cahier de Linol&eacute;um</i> (<a href="#f1">Figuras 1 e 2</a>) sobre o qual se debru&ccedil;ar&aacute; especificamente este artigo.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a02f1-2.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Neste caderno, editado em Paris no ano de 1984 (ap&oacute;s terminar na Universidade Paris VIII um doutoramento em Est&eacute;tica intitulado <i>Pratique et Th&eacute;orie des Arts Plastiques Angolais (de la Traditions a une Nouvelle Expression)</i>, Viteix re&uacute;ne um conjunto de gravuras realizadas em lin&oacute;leo onde se destaca a evoca&ccedil;&atilde;o de acontecimentos que marcaram a luta pela independ&ecirc;ncia do seu pa&iacute;s ou de imagens que integram, na sua g&eacute;nese, as marcas identit&aacute;rias de uma vivencialidade culturalmente enraizada.</p>      <p>Este artigo visa assim realizar uma abordagem ao <i>Cahier de Linol&eacute;um</i>, considerando n&atilde;o s&oacute; as dimens&otilde;es pl&aacute;sticas e t&eacute;cnicas inerentes &agrave; gravura, mas igualmente a articula&ccedil;&atilde;o entre a imag&eacute;tica explorada pelo pintor e as quest&otilde;es acerca da identidade cultural, hist&oacute;ria e ideologia, levantadas nos textos escritos que integram o caderno.</p>                             <p><b>2. Hist&oacute;ria e Ideologia</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Numa pequena nota introdut&oacute;ria ao <i>Cahier de Linol&eacute;um</i> Viteix informa que a grava&ccedil;&atilde;o de pequenas placas de lin&oacute;leo se inclui em processos de trabalho anteriores &agrave; presente edi&ccedil;&atilde;o e que estas adotam duas naturezas distintas: por um lado consistem em experi&ecirc;ncias diretas e por outro, integram um espetro mais alargado que abrange a pintura, assumindo-se, nas suas palavras, como "s&iacute;nteses de trabalho"</p>     <p>Este caderno re&uacute;ne assim um conjunto de gravuras que "sobreviveram" &agrave;s desloca&ccedil;&otilde;es do pintor para o exterior do seu pa&iacute;s &#150; uma vez que grande parte da sua obra gravada se havia perdido &#150; pressupondo uma pr&aacute;tica continuada principalmente durante a d&eacute;cada de setenta, ao mesmo tempo que assinala a import&acirc;ncia desta express&atilde;o no conjunto da sua obra pl&aacute;stica.</p>      <p>Se a grava&ccedil;&atilde;o de imagens sobre suportes diferenciados &eacute; uma pr&aacute;tica corrente nas express&otilde;es pl&aacute;sticas dos grupos etnolingu&iacute;sticos que comp&otilde;em o tecido sociocultural de Angola, abrangendo objetos de uso corrente, arquitetura, escultura, etc., o facto &eacute; que t&eacute;cnicas como a xilogravura e o lin&oacute;leo conheceram, um primeiro impulso, ao n&iacute;vel do ensino formal, com a sua introdu&ccedil;&atilde;o de um curso de Pintura Decorativa no final da d&eacute;cada de 50 do s&eacute;culo XX na Escola Industrial de Luanda, onde se teria divulgado e praticado a gravura em lin&oacute;leo.</p>      <p>Mais tarde ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia nacional foi criada a Oficina Experimental de Gravura onde Viteix viria a desenvolver esta forma de express&atilde;o, a par com a forma&ccedil;&atilde;o em conjunto com artistas cubanos que a&iacute; viriam a desenvolver uma a&ccedil;&atilde;o no ensino. Ser&aacute; igualmente no &acirc;mbito da a&ccedil;&atilde;o conjunta do artista e do professor que surgir&aacute; uma parte substancial das gravuras que integrar&atilde;o o cahier de lin&oacute;leum, editado posteriormente em Paris.</p>      <p>No pref&aacute;cio do <i>Cahier</i>, Lu&iacute;s Silva refere que a obra de Viteix em geral, e este conjunto em particular, se situa num enquadramento mais vasto da luta de liberta&ccedil;&atilde;o nacional dos povos africanos, entendida na perspetiva de Am&iacute;lcar Cabral, ou seja, a luta de liberta&ccedil;&atilde;o como ato de cultura. Na verdade o pr&oacute;prio Viteix n&atilde;o deixar&aacute; de afirmar em v&aacute;rios momentos a import&acirc;ncia da cultura em geral e das artes em particular como elementos de consciencializa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e c&iacute;vica, atribuindo ao artista um papel atuante, preconizado pelo engajamento pol&iacute;tico. A arte, assim considerada, n&atilde;o deixar&aacute; de expressar o confronto entre passado e presente, com vista a produzir uma rutura com o legado colonial, por um lado, e por outro contribuir para cimentar uma unidade identit&aacute;ria de contornos nacionais. No &acirc;mbito desta consciencializa&ccedil;&atilde;o, a utiliza&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnicas de reprodu&ccedil;&atilde;o de imagens assumem uma import&acirc;ncia acrescida j&aacute; que, como lembra o pintor, &ldquo;<i>nas lutas para nos libertarmos de Portugal, utilizamos muitas vezes esse sistema de reprodu&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica para divulgarmos as nossas ideias, o que contribuiu tamb&eacute;m para popularizar a xilogravura no nosso pa&iacute;s&rdquo;</i> (Teixeira, 1988).</p>     <p>&Eacute; neste contexto que poderemos incluir muitas das gravuras que integram o <i>Cahier</i>, com especial destaque para "<i>4 F&eacute;vrier</i>", "<i>Dans la Guerre</i>", "<i>L&rsquo;Abattu</i>", "<i>La Chute d&rsquo;u Camarade</i>", "<i>Guerrillero</i>", "<i>Adam&Eve ou personnages masculin&f&eacute;minin avec un fusil</i>", ou "<i> Dans la Paix</i>" entre outras.  A gravura intitulada "<i>4 F&eacute;vrier, 1961</i>" (<a href="#f3">Figura 3</a>), evoca os acontecimentos ocorridos nesse dia quando um grupo de independentistas angolanos lan&ccedil;a um ataque &agrave; Casa da Reclus&atilde;o Militar (a cadeia da PIDE em Luanda), uma esquadra da PSP e a Emissora Oficial de Angola, e que, embora redundado num esfor&ccedil;o fracassado de libertar os prisioneiros pol&iacute;ticos, acabaria por assumir um simbolismo crucial no despontar das lutas armadas pela Liberta&ccedil;&atilde;o Nacional de Angola, da Guin&eacute;-Bissau, de Mo&ccedil;ambique. Na gravura de Viteix, o amontoado de figuras ca&iacute;das, e as armas rudimentares (catanas e canhangulos) aludem n&atilde;o s&oacute; ao epis&oacute;dio hist&oacute;rico concreto mas pronunciam acima de tudo as adversidades dos anos de guerra que se seguiriam.</p>         <p>&nbsp;</p> <a name="f3"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a02f3.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Por outro lado, a sua coloca&ccedil;&atilde;o no in&iacute;cio da s&eacute;rie de 22 gravuras que comp&otilde;em o <i>Cahier de Lin&oacute;leum</i>, confere-lhe, de certo modo, um simbolismo seminal, refor&ccedil;ado por uma outra gravura intitulada "<i>Adam&Eve ou personnages masculin&f&eacute;minin avec un fusil</i>", datada de 1968, onde o casal primordial se faz acompanhar de uma espingarda. A evoca&ccedil;&atilde;o da luta armada como forma de liberta&ccedil;&atilde;o e da cria&ccedil;&atilde;o de um &ldquo;homem novo&rdquo; forjado no combate &#8211; de que Viteix falar&aacute; na sua tese de doutoramento, retomando algumas ideias de ide&oacute;logos como Am&iacute;lcar Cabral &#8211; encontra aqui uma forma de express&atilde;o que re&uacute;ne simbolismo e mem&oacute;ria hist&oacute;rica, transfigurada plasticamente, num "realismo imagin&aacute;rio, po&eacute;tico" (Teixeira, 1986)</p>     <p>&nbsp;</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao mesmo tempo e, observando o conjunto de gravuras que comp&otilde;em o <i>Cahier</i>, &eacute; poss&iacute;vel estabelecer um nexo cronol&oacute;gico na sua organiza&ccedil;&atilde;o, bipartida entre dois momentos: antes e depois da Independ&ecirc;ncia Nacional.</p>     <p>Na verdade poderemos considerar um primeiro ciclo de gravuras que se inicia com a imagem do 4 de Fevereiro &agrave; qual se seguem cinco outras, evocativas da guerra de liberta&ccedil;&atilde;o que culminam na gravura intitulada <i>"Dans la Paix"</i> (<a href="#f5-7">Figura 7</a>)  a qual de resto constitui um estudo para a obra hom&oacute;nima de pintura, datada de 1984/85.</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f4"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a02f4.jpg">     
<p>&nbsp;</p> <a name="f5-7"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a02f5-7.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p>Um segundo ciclo integra um conjunto de imagens v&aacute;rias que incluem representa&ccedil;&otilde;es carnavalescas, dan&ccedil;as, representa&ccedil;&otilde;es teatrais, cenas do quotidiano, etc., e que, conjuntamente com os s&iacute;mbolos que emolduram algumas delas, n&atilde;o deixam de se enquadrar numa recupera&ccedil;&atilde;o do patrim&oacute;nio cultural end&oacute;geno que, considerado &agrave; luz da resist&ecirc;ncia ao colonialismo, &eacute; encarado pelo pintor como uma esp&eacute;cie de cimento simb&oacute;lico na arquitetura de uma unidade de contornos nacionais.</p>        <p>Na gravura intitulada <i>"Dans la Guerre"</i> (<a href="#f4">Figura 4</a>) as figuras hirtas segurando espingardas, junto ao limite inferior da composi&ccedil;&atilde;o (possivelmente a evoca&ccedil;&atilde;o dos soldados do ex&eacute;rcito portugu&ecirc;s) contrastam com o dinamismo e altera&ccedil;&otilde;es de escala das restantes figuras que povoam o espa&ccedil;o e que, segurando, lan&ccedil;as, machados ou catanas aludem aos guerrilheiros angolanos, que lutam contra os primeiros.</p>       <p>A narrativa heroicizada que domina estas duas gravuras ser&aacute; refor&ccedil;ada pela figura&ccedil;&atilde;o dos camaradas ca&iacute;dos em combate como por exemplo em <i>"L&rsquo;Abattu"</i> (<a href="#f5-7">Figura 5</a>) ou <i>"La Chute d&rsquo;u Camarade"</i> (<a href="#f5-7">Figura 6</a>). A primeira representa, atrav&eacute;s de tra&ccedil;os sint&eacute;ticos a figura isolada do guerrilheiro, abatido, que cai por terra, enquanto na segunda os companheiros se debru&ccedil;am sobre o camarada morto, numa sobreposi&ccedil;&atilde;o de figuras definida pela trajet&oacute;ria descendente da queda.</p>     <p>&nbsp;</p>       <p><b>3. Identidades</b></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A gravura intitulada "<i>Dans la Paix</i>", datada de 1975, marca a passagem para uma outra ordem de registos onde pontuam mascarados (<i>"Sans titre"</i>), bailarinos (<i>"Danse Batuki"</i> &#8211; <a href="#f8">Figura 8</a> &#8211; , "<i>Batukada</i>"), epis&oacute;dios quotidianos(<i>"Personnages avec un bidon de l&rsquo;eau sur la t&ecirc;te"</i>, <i>"Personnage avec un animal"</i> &#8211; <a href="#f9">Figura 9</a>), alus&otilde;es ao carnaval, representa&ccedil;&otilde;es teatrais (<i>"Sc&egrave;ne Th&eacute;&acirc;trale"</i>) etc., sendo que muitas destas ir&atilde;o assumir igualmente um cunho experimental integrando processos criativos que culminar&atilde;o em pinturas de maiores dimens&otilde;es realizadas nas t&eacute;cnicas da aguarela ou do &oacute;leo.</p>      <p>&nbsp;</p> <a name="f8"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a02f8.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f9"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a02f9.jpg">     
<p>&nbsp;</p>      <p>Nestas, destacam-se a sobreposi&ccedil;&atilde;o de figuras (animais e humanas) apontamentos de paisagem, signos abstratos que ganham autonomia do espa&ccedil;o compositivo parecendo por vezes flutuar no vazio. &agrave; fluidez e linearismo de algumas destas representa&ccedil;&otilde;es, associam-se os frisos de motivos geom&eacute;tricos e simb&oacute;licos que enquadram o plano da imagem e que se assume como uma estrat&eacute;gia compositiva, transversal a grande parte da obra pict&oacute;rica de Viteix a partir da d&eacute;cada de setenta.</p>     <p>Estes motivos, retirados do vasto universo das express&otilde;es pl&aacute;sticas &ldquo;tradicionais&rdquo; e vest&iacute;gios arqueol&oacute;gicos (caba&ccedil;as, m&aacute;scaras, estatu&aacute;ria, gravura rupestre, pinturas murais, etc&#8230;) assumem, neste caso, o perfil de uma caligrafia, conceptualmente situada numa rela&ccedil;&atilde;o entre vis&iacute;vel e invis&iacute;vel, mem&oacute;ria, imagem e palavra que possibilita a articular tradi&ccedil;&atilde;o e modernidade, diversidade e unidade cultural, passado e presente.</p>                                   <p><b>Nota Final</b></p>      <p>O <i>Cahier de Lin&oacute;leum</i> de Viteix, para l&aacute; do papel que assume enquanto elemento de s&iacute;ntese de um percurso realizado pelo autor  situado entre o final da d&eacute;cada de sessenta e a d&eacute;cada de oitenta do s&eacute;culo XX  no &acirc;mbito da experimenta&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento de t&eacute;cnicas de gravura em relevo, congrega um conjunto de imagens que, no seu conjunto materializam visualmente, n&atilde;o s&oacute; um dado per&iacute;odo da hist&oacute;ria de Angola, como uma s&eacute;rie de ideias que informaram a luta anticolonial, abrindo caminho para a afirma&ccedil;&atilde;o de identidades imaginadas &agrave; escala da na&ccedil;&atilde;o.</p>       <p>Neste sentido, a forma&ccedil;&atilde;o de uma imag&eacute;tica onde se sobrep&otilde;e o mito, a realidade, a utopia e a hist&oacute;ria assume uma duplicidade conceptual &agrave; qual n&atilde;o &eacute; estranha a met&aacute;fora da apropria&ccedil;&atilde;o, recupera&ccedil;&atilde;o e reconquista de um patrim&oacute;nio cultural, s&iacute;mbolo de soberania e consci&ecirc;ncia identit&aacute;ria. Esta duplicidade, estabelece um tr&acirc;nsito entre um sentido restrito, e uma abertura a m&uacute;ltiplas leituras, afirmando o direito &agrave; diferen&ccedil;a, mas aberta a outras refer&ecirc;ncias culturais e civilizacionais.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>       <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Margarido, Alfredo (2006). "La Peinture Angolaise de Viteix" <i>Latitudes. Cahiers Lusophones</i>. N&ordm;28, Decembre de 2006 .  p. 62&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1420570&pid=S1647-6158201200020000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Silva, Luis (1984) pref&aacute;cio a Cahier de Linol&eacute;um. Paris: edi&ccedil;&atilde;o de autor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1420571&pid=S1647-6158201200020000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Teixeira, Vitor Manuel (1983). <i>Pratique et Th&eacute;orie des Arts plastiques Angolais (de la Traditions a une Nouvelle Expression)</i>. Paris: Universit&eacute; de Paris VIII. (Tese de doutoramento in&eacute;dita)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1420572&pid=S1647-6158201200020000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Teixeira, Vitor Manuel (1984). La Cahier de Linol&eacute;um. Paris: edi&ccedil;&atilde;o de autor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1420573&pid=S1647-6158201200020000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Teixeira, V&iacute;tor Manuel (1986) J&uacute;lio Pinto. "<i>Viteix de Passagem por Lisboa. &ldquo;N&oacute;s, africanos, somos surrealistas</i>&rdquo; <i>Di&aacute;rio Popular</i>, 3 de Setembro.</p>      <!-- ref --><p>Teixeira, V&iacute;tor (1988) Vieira, Hamilton de. "A Arte que viu a Revolu&ccedil;&atilde;o" <i>A Tarde</i>, S. Paulo, 26 de Setembro&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1420576&pid=S1647-6158201200020000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Vieira, Hamilton de (1988). "A Arte que viu a Revolu&ccedil;&atilde;o" <i>A Tarde</i>, S.Paulo, 26 de Setembro.  (A prop&oacute;sito da exposi&ccedil;&atilde;o "Arte Contempor&acirc;nea Angolana", no foyer do Teatro Castro Alves)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1420577&pid=S1647-6158201200020000200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo submetido a 9 de setembro e aprovado a 23 de setembro de 2012.</p>     <p>&nbsp;</p>       <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="c0"></a></p>      <p> <a name="c0">Contatar a autora:</a> <a href="mailto:teresamatospereira@yahoo.com">teresamatospereira@yahoo.com</a> (Teresa Matos Pereira)</p>         ]]></body><back>
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