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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A poética do livro de artista: Memórias da menina gravada, de Kelly Taglieber]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This text is proposed to consider the experience of leafing through the book of artist Memórias da Menina Gravada by Brazilian artist Kelly Taglieber. An unconventional feminine universe of images and texts permeates the composition of the whole book. The theoretical dialog for composing this text is based on Maurice Blanchot, understanding that nothing there, image or word, there is to be an account of something that is stated as a knowing, on the contrary, all event comes to be strangeness.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>M&Atilde;OS</b>    <br> </p>     <p align="right"><b>HANDS</b>    <br> </p>       <p><b>A po&eacute;tica do livro de artista: <i>Mem&oacute;rias da menina gravada</i>, de Kelly Taglieber</b></p>      <p><b>Artists&rsquo;book poetics: Kelly Taglieber&rsquo;s &lsquo;Mem&oacute;rias da menina gravada&rsquo;</b></p>     <p>&nbsp;</p>  <b>Anita Prado Koneski&#42;</b>      <p>&#42;Brasil, professora de Filosofia da Arte e de Hist&oacute;ria da Arte, Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Pl&aacute;sticas, Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestrado em Literatura  Teoria Liter&aacute;ria, UFSC. Doutorado em Teoria Liter&aacute;ria, UFSC.</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>        <p><b>RESUMO:</b>    <br>O presente texto prop&otilde;e-se a pensar a experi&ecirc;ncia de folhear o livro de artista Mem&oacute;rias da Menina Gravada, da artista brasileira Kelly Taglieber. Um universo feminino n&atilde;o convencional, de imagens e textos, permeia a composi&ccedil;&atilde;o de todo o livro. O di&aacute;logo te&oacute;rico para compor este texto fundamenta-se em Maurice Blanchot, entendendo que nada ali, imagem ou palavra,  est&aacute; para ser o relato de algo que se afirma como um saber, ao contr&aacute;rio, todo acontecimento adv&eacute;m com o intuito de ser estranhamento.</p>     <p><b>Palavras-chaves: </b>livro de artista, imagem, escritura.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>ABSTRACT:</b>    <br>This text is proposed to consider the experience of leafing through the book of artist Mem&oacute;rias da Menina Gravada by Brazilian artist Kelly Taglieber. An unconventional feminine universe of images and texts permeates the composition of the whole book. The theoretical dialog for composing this text is based on Maurice Blanchot, understanding that nothing there, image or word, there is to be an account of something that is stated as a knowing, on the contrary, all event comes to be strangeness.</p>     <p><b>Keywords:</b> artist&#39;s book, image, scripture.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>  	    <p>Kelly Taglieber &eacute; uma artista pl&aacute;stica brasileira, residente na cidade de Florian&oacute;polis,  ilha do Estado de Santa Catarina,  formada em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina, UDESC-CEART. Seus trabalhos fascinam na medida em que apresentam um di&aacute;logo com o monstruoso. O livro de artista, <i>Mem&oacute;rias da menina gravada</i>, n&atilde;o foge &agrave; regra. Trata-se de um livro de 29X39 cm, em que se encontram gravadas imagens de &lsquo;bonecas&rsquo; (como as chama a artista) sobre p&aacute;ginas de  lin&oacute;leo, alternadas com textos escritos &agrave; m&atilde;o, com caneta prateada.  Nele observamos um universo feminino nada convencional, fundado n&atilde;o na beleza e na idealiza&ccedil;&atilde;o do que seja habitualmente o feminino, mas nos enigmas e nos monstros que rondam esse universo.</p> 	    <p>O presente artigo pretende narrar a experi&ecirc;ncia de contato com essa obra e pens&aacute;-la com base no conceito de <i>obscuro</i> que  encontro em Maurice Blanchot (2001). Pretende, portanto, aproximar o livro de artista de Kelly &agrave; experi&ecirc;ncia do <i>obscuro</i>, desde que me percebo  diante de uma fala com o  desconhecido, n&atilde;o porque seja o &lsquo;n&atilde;o conhecido,&rsquo; ou o absolutamente incognosc&iacute;vel, mas com esse objeto maior do pensamento e da po&eacute;tica, em que n&atilde;o ser&aacute; nunca revelado, mas &lsquo;indicado,&rsquo; conforme nos afirma Blanchot (2001).  Para tanto, parto das seguintes indaga&ccedil;&otilde;es: o que &lsquo;indicam&rsquo; as &lsquo;falas&rsquo; que encontro ao folhear as p&aacute;ginas desse livro? O que nelas &lsquo;indica&rsquo; a constata&ccedil;&atilde;o de que as imagens de bonecas que acompanham essa escritura se assemelham aos monstros que certa vez, na inf&acirc;ncia, visitaram  os meus sonhos? As bonecas de Kelly s&atilde;o monstros, e a inf&acirc;ncia relatada na escritura anexada &agrave;s imagens constituem uma fala cruel: nada mais obscuro que isso. Observo uma invers&atilde;o radical do que &eacute; ser boneca e do que &eacute; ser inf&acirc;ncia, pois ao mesmo tempo que se aproxima de mim, tamb&eacute;m se distancia, fundando uma experi&ecirc;ncia que n&atilde;o se explica pelas vias do saber.</p> 	    <p>Assim, este artigo compreende o <i>ato de folhear</i> as p&aacute;ginas desse livro de artista como uma experi&ecirc;ncia de <i>estranhamento</i>, em que as palavras se entrela&ccedil;am com as imagens de bonecas gravadas, que s&atilde;o na sua inteireza imagens do monstruoso e do disforme. O <i>estranhamento</i> firma-se ainda no suporte em que tudo isso vem acolhido, ou seja, o lin&oacute;leo colorido, rom&acirc;ntico, compondo o fundo com flores e frutas, acrescidos &agrave; delicadeza da transpar&ecirc;ncia e do colorido. A cada virar de p&aacute;gina deparo-me  com um fundo diferente, negro, floral, ou transparente, e, nele, a imagem da boneca, com sua identidade sempre nociva, de olhos esbugalhados, dentes agressivos, tran&ccedil;as iri&ccedil;adas, fazendo frente ao meu desejo de deleite. O que me fascina nesse livro &eacute; o inusitado que se d&aacute; na luta dos opostos que se trava entre o ameno do fundo do lin&oacute;leo e a imagem e o texto, que, se nos dispusermos a ler, a fala que ouviremos &eacute; a da &lsquo;menina gravada&rsquo; que sussurra seu mundo (<a href="#f1">Figura 1 e 2</a>).</p>        <p>&nbsp;</p> <a name="f1"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a09f1-2.jpg">     
<p>&nbsp;</p>  	    <p> Ao folhear tais p&aacute;ginas, percebo que entro num universo feminino de imagens e textos, acrescidos a uma experi&ecirc;ncia de estranhamento. O que fascina nesse livro de artista n&atilde;o &eacute; o universo feminino convencional, fundado na beleza e na idealiza&ccedil;&atilde;o de um prot&oacute;tipo do que seja o feminino, mas no seu inverso, no enigma que permeia a composi&ccedil;&atilde;o de todo o livro, em que a imagem feminina torna-se um grande monstro. No livro de artista de Kelly, a fei&uacute;ra debate-se com a beleza, sob um fundo de pretensa beleza e a artificialidade do lin&oacute;lio, que monta um cen&aacute;rio ir&ocirc;nico para o que ampara: a escritura e a imagem (<a href="#f3">Figura 3</a>).</p>        <p>&nbsp;</p> <a name="f3"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a09f3.jpg">     
<p>&nbsp;</p>  	<b>1. A fala obscura da menina gravada</b></p>       	    <p>Todo livro de artista funda-se como um objeto que convida ao tato, uma vez que &eacute; essencialmente realizado para o manuseio. Assim, o livro de artista de Kelly Taglieber nos convida &agrave; experi&ecirc;ncia t&aacute;til de folhear grandes p&aacute;ginas moles e &aacute;speras, feitas de lin&oacute;leo, que o leitor as ver&aacute;, infalivelmente, dobrarem-se sobre si mesmas, no movimento do folhear. Diante disso, percebo que, como primeiro passo, devo deter-me aos cuidados de acomodar esse grande livro sobre um local que o torne confort&aacute;vel a meu corpo para que se posicione perfeitamente aos meus olhos.  Ent&atilde;o, ler tal livro &eacute; de in&iacute;cio um di&aacute;logo com o espa&ccedil;o. &eacute; como se fosse necess&aacute;ria uma preocupa&ccedil;&atilde;o em acolh&ecirc;-lo antes de empreender a caminhada do &lsquo;olhar,&rsquo; a fim de reconhec&ecirc;-lo em meu pr&oacute;prio espa&ccedil;o corporal e ajust&aacute;-lo &agrave; minha visada. 	Parece-me imposs&iacute;vel olh&aacute;-lo imediatamente sem que se realize esse ritual. O corpo e o livro de artista de Kelly necessitam encaixar-se, devo favorecer as condi&ccedil;&otilde;es para a forma&ccedil;&atilde;o do &lsquo;ninho,&rsquo; ou seja, existe um tempo e um espa&ccedil;o de acolhimento. Outro ponto que igualmente parte desse ritual de acolhimento (como um toque quase sagrado) &eacute; o que adv&eacute;m da magia do livro ser um objeto &uacute;nico. Trata-se de uma esp&eacute;cie de obra que carrega em si a experi&ecirc;ncia primorosa da elabora&ccedil;&atilde;o da artista: um <i>livro &uacute;nico</i>. N&atilde;o manuseio qualquer livro, n&atilde;o dedico a ele uma leitura como fa&ccedil;o com outros livros, ele faz sentido como objeto-escritura, e &eacute; unicamente desse modo que ele ganha significado como livro de artista, resultando da&iacute; a necessidade de um tato diferenciado, o acolhimento no espa&ccedil;o do meu corpo, um cuidado no olhar, e de todo o ritual de participa&ccedil;&atilde;o e acolhimento que &eacute; fundamento nessa &lsquo;leitura.&rsquo; 	</p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Uma vez acolhido, o livro de artista <i>Mem&oacute;rias da Menina Gravada</i> me oferece um mundo de imagens e palavras, imagens gravadas e palavras escritas que trazem em suas p&aacute;ginas a presen&ccedil;a da estranha personagem: a boneca. A cada p&aacute;gina deparo-me com essa personagem grotesca a espreitar-me em diversas posi&ccedil;&otilde;es, com diversos olhares,  e me surpreende porque por vezes ela me espreita entre as transpar&ecirc;ncias.  Ela &eacute; a presen&ccedil;a do avesso do mundo das meninas.  No livro de Kelly, as meninas s&atilde;o, a meu ver, a met&aacute;fora de um mundo perdido, fundam uma rela&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncia da qual parece que nada sabemos, por&eacute;m, tamb&eacute;m n&atilde;o podemos atestar que tudo ali  &eacute; desconhecido.   	</p>    <p>As palavras, relatos de dor, lidas no movimento do olhar, e que se anexam simultaneamente  &agrave;s imagens,  fundam a experi&ecirc;ncia com o <i>obscuro</i>,  instituem  radicalmente um espa&ccedil;o que beira o monstruoso e o disforme. O <i>estranhamento</i> recebe todo seu aval no acolhimento do suporte a que tudo vem reunido, ou seja, o lin&oacute;leo colorido, rom&acirc;ntico, compondo o fundo com flores e frutas, acrescidos &agrave; delicadeza da transpar&ecirc;ncia, torna-se quase uma ironia ao mundo que ali se instala. A cada virada de p&aacute;gina deparo-me com um fundo diferente, negro, floral, ou transparente, e, nele, a imagem da boneca, com sua identidade sempre nociva, de olhos grandes e disformes, dentes agressivos, tran&ccedil;as eri&ccedil;adas,  fazendo frente ao nosso desejo de deleite e refor&ccedil;ando o <i>obscuro</i> (<a href="#f4">Figura 4</a>).</p>        <p>&nbsp;</p> <a name="f4"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a09f4.jpg">     
<p>&nbsp;</p>  	    <p>O que me fascina nesse livro &eacute; o inusitado resultado da luta dos opostos que se trava entre o ameno do fundo do lin&oacute;leo, a imagem nele gravada, e o texto que, se nos dispusermos a ler, ouviremos a fala da menina, a &lsquo;menina gravada,&rsquo;  como um  relado <i>estranho</i>  do que lhe resta como mem&oacute;ria. As palavras s&atilde;o uma esp&eacute;cie de sussurro, fazendo um fundo sonoro, na frente, entre ou por detr&aacute;s das imagens, querendo dizer para al&eacute;m do que propriamente dizem. Ler tais palavras escritas em letras prateadas n&atilde;o resulta num saber sobre o mundo, ao contr&aacute;rio, ler significa mergulhar cada vez mais no mist&eacute;rio, pois, como afirma Blanchot (2001, p. 66): &lsquo;Falar n&atilde;o &eacute; ver.&rsquo;  Ou seja, falar n&atilde;o &eacute; trazer &agrave; luz um saber, pois a palavra aqui no livro de artista &eacute; a palavra terr&iacute;vel, a palavra que desorienta e que se torna perversa, principalmente quando encontra  a imagem. Nesse encontro, palavra e imagem s&atilde;o perversas, fundam um mundo de saberes que aparecem como &lsquo;falas&rsquo; cifradas, e j&aacute; n&atilde;o sei quem encontra quem, se a palavra encontra a imagem, ou a imagem encontra a palavra, ou por onde devo iniciar minha rela&ccedil;&atilde;o de contato. Mas, num segundo momento, percebo que n&atilde;o &eacute; o caso de   preocupar-me com isso. E passo a sentir apenas a unidade perfeita dessa uni&atilde;o (palavra e imagem), &agrave; medida que uma n&atilde;o quer legislar sobre a outra, ambas comp&otilde;em uma unidade, resguardando cada uma os seus enigmas, fazendo-se mist&eacute;rio,  trazendo a fala da artista como unidade dilacerada, lugar que diz a priva&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia.  	</p>    <p>Trata-se da palavra do <i>desvio</i> e da imagem do <i>obscuro</i>, (ou a imagem do desvio e a palavra do obscuro) elaborada no dia, talvez no dia mais noturno de todos, em que a menina n&atilde;o soube como escapar da dor que o destino lhe impingiu. Leio em suas p&aacute;ginas prateadas: &ldquo;Fechou seus olhos acanhada e fria, por um instante apenas. Por um instante, apenas. Pensou que tinha ca&iacute;do dentro de um po&ccedil;o, estava tudo escuro. O mais escuro do escuro, denso e pesado, tinha lama no fundo e n&atilde;o havia luz.&rdquo; Uma fala silenciosa e solit&aacute;ria que se interroga sobre sua pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia e que resiste a uma tematiza&ccedil;&atilde;o. Talvez esteja em Blanchot (1993, p. 24) a explica&ccedil;&atilde;o, quando ele defende que: &ldquo;Escrever &eacute; entrar na afirma&ccedil;&atilde;o da solid&atilde;o onde o fasc&iacute;nio amea&ccedil;a.&rdquo; Por&eacute;m a quest&atilde;o aqui n&atilde;o &eacute; apenas a escrita, mas tamb&eacute;m a  imagem, que arrasta o olhar para uma profundidade im&oacute;vel, esse lugar em que n&atilde;o podemos mais conferir &agrave; imagem um lugar certeiro, porque ela &eacute; absolutamente estranha ao presente do tempo ou a uma leitura segura.  	</p>    <p>Folheio as p&aacute;ginas no confronto incessante do que <i>n&atilde;o me acolhe</i>, mas que me fascina, e esse fasc&iacute;nio anula completamente meu poder de atribuir-lhes sentido. &eacute; nesse momento que a menina gravada transforma seu mundo num pr&oacute;ximo-distante, entra no espa&ccedil;o do que em mim soa como repercuss&atilde;o, e convida-me a um aprofundamento, e o ser do que ali se instala faz-se meu tamb&eacute;m. &eacute; quando, diz Bachelard (1993, p. 10) &ldquo;revivemos nossas tenta&ccedil;&otilde;es de ser poeta,&rdquo; e a simpatia do olhar &ldquo;&eacute; insepar&aacute;vel da admira&ccedil;&atilde;o.&rdquo; Ali a <i>menina gravada</i> revela sua intimidade obscura nos tra&ccedil;os leves da cabe&ccedil;a grande, nas tran&ccedil;as arrepiadas, nos olhos tortos e corpo de velha, que  se fazem obscuridade na trama da palavra com a imagem (<a href="#f4">Figura 4</a>).</p>    	     <p>Folheio o livro como enigma, um espa&ccedil;o misterioso, em que &lsquo;algu&eacute;m fala&rsquo; uma fala dolorida, que desejo afastar, mas n&atilde;o consigo. Percebo que as falas, presentes no livro de artista de Kelly, n&atilde;o s&atilde;o apenas da  &lsquo;menina gravada,&rsquo; podem  ser  de muitas outras meninas, as  gravadas nas entrelinhas dessas p&aacute;ginas,  marcadas pelas letras de caneta prata, envolta nos artif&iacute;cios das flores coloridas do lin&oacute;leo, em que leio: &ldquo;O mundo encantado do quarto de brinquedos&rdquo; &#91;&#8230;&#93; fora invadido por piratas e homens maliciosos. &#91;&#8230;&#93; Enquanto a menina segurasse a boneca, n&atilde;o seria atacada. Sua inoc&ecirc;ncia estava por um fio, at&eacute; seu mundo fant&aacute;stico havia sido profanado.&rdquo;</p>   	</p>    <p>As &lsquo;meninas gravadas&rsquo; constroem e elaboram os enigmas na dial&eacute;tica do dia. No seu cotidiano o mundo faz-se dolorido, nele  as meninas ficam &lsquo;velhas,&rsquo; com &lsquo;corpo de velha,&rsquo; percebem seu mundo violado,  e tudo vira segredo, um segredo s&oacute; delas. S&atilde;o com seus segredos que elas tecem suas po&eacute;ticas.   Aqui,  a <i>menina gravada</i>  fez-se livro, fez-se obra, e nele ela torna-se <i>fala essencial</i>.  No livro de artista de Kelly Taglieber,  a <i>menina gravada</i> encontrou um   local em que pode fazer a sua morada, falar de seus segredos e construir sua fala essencial. Na obscuridade das met&aacute;foras, no fundo do lin&oacute;leo colorido, entre as flores vermelhas e tra&ccedil;os negros da gravura, na escritura que ilustra o inomin&aacute;vel, a menina gravada <i>indica</i> seu mundo: n&atilde;o se mostra, mas tamb&eacute;m n&atilde;o &lsquo;se esconde.&rsquo; Se os caminhos s&atilde;o indicados, constato que  eles s&atilde;o inseguros, feitos de  rela&ccedil;&otilde;es de experi&ecirc;ncias que mostram que o <i>dia</i>, esse espa&ccedil;o de constru&ccedil;&atilde;o do mundo, carrega junto, invariavelmente, a invisibilidade da <i>noite</i>, esse lugar em que tudo me confunde, em que tudo &eacute; mais profundo e gritante, onde  habita o inomin&aacute;vel, e o que faz sentido como exist&ecirc;ncia. 	</p>    <p>A inseparabilidade entre a forma e seu conte&uacute;do,  radicalidade essencial no livro de artista de Kelly Taglieber,  permite que eu associe poeticamente os ru&iacute;dos do pl&aacute;stico que o livro emite quando viro as suas p&aacute;ginas  ao poss&iacute;vel sussurro da <i>menina gravada</i>, e nessa associa&ccedil;&atilde;o tento dizer para mim mesma a experi&ecirc;ncia de minha intencionalidade. Vejo, ent&atilde;o, que a <i>menina gravada</i> emite ru&iacute;dos. O virar das p&aacute;ginas deve ser lento, tudo ali se dobra sobre si mesmo, as p&aacute;ginas que se colam formam, casualmente, outras imagens na mescla da transpar&ecirc;ncia do pl&aacute;stico e a opacidade do lin&oacute;leo. Exercito minha experi&ecirc;ncia t&aacute;til, em que tatear j&aacute; &eacute; pensar. Percebo que j&aacute; n&atilde;o posso mais falar uma fala distante, a fala da certeza,  pois sou tamb&eacute;m uma &lsquo;menina gravada.&rsquo; Nas dobras e desdobras das p&aacute;ginas, o ser  das imagens e das palavras  passam a ser meu tamb&eacute;m.</p>         ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     	    <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>    	    <p>O livro de artista, <i>A menina Gravada</i>, de Kelly Taglieber, instalou-me no movimento de desejo de escrever sobre ele. E foi esse movimento que me instigou a investigar essa obra no sentido de possibilidade de <i>diz&ecirc;-la</i>. O grande livro inundou meus olhos de curiosidade e meus pensamentos de saberes sobre ele. Mas, ao follhear cada p&aacute;gina, uma a uma, o mundo ali instalado retirou minhas possibilidades de saber sobre ele, e fez-me perceber que cada folha desse livro de artista segura seu enigma,  e que cada folha cont&eacute;m  falas que repercutem intensamente em meu ser como impossibilidade de diz&ecirc;-las. A escritura que acompanha as imagens s&atilde;o esp&eacute;cies de vozes, repletas de saberes que n&atilde;o consigo explic&aacute;-los por refer&ecirc;ncias objetivas. Tais imagens que acompanham a escritura, por sua pr&oacute;pria natureza, n&atilde;o t&ecirc;m alguma necessidade de um saber, e assim reverberam em mim como impossibilidade. Imagem e escritura, ali, nada precisam comprovar. Estou diante do obscuro, essa rela&ccedil;&atilde;o sem &lsquo;saber&rsquo; que tanto me ensina, esse saber que &eacute; de outra ordem e que faz sentido essencial para as minhas investiga&ccedil;&otilde;es. Descubro que toda obra &eacute; um <i>risco</i>, tal como pensa Blanchot (1987, p. 240), que o poeta se p&otilde;e em <i>risco</i>, e diante desse risco  podemos dizer que as &ldquo;compreendemos sempre demais e sempre de menos.&rdquo; &eacute;, ent&atilde;o, quando o livro de artista que investigo entra num &lsquo;refluxo de ambig&uuml;idade essencial,&rsquo; como afirma Blanchot (1987, p. 240), que me coloca no jogo em que se entrela&ccedil;am o <i>sim</i> e o <i>n&atilde;o</i> e faz-me vislumbrar o obscuro como lugar de experi&ecirc;ncia com o saber essencial, e que acaba por fazer de minha escrita sobre a obra um movimento de <i>contornar</i>  a obra, essa rica sugest&atilde;o de Blanchot (2001, p. 64) para escrituras e imagens do desvio,  essas imagens e escrituras t&atilde;o inquietantes, como &eacute; o livro de artista <i>Mem&oacute;rias da Menina Gravada</i>, de Kelly Taglieber.</p>         <p>&nbsp;</p>           <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>      <!-- ref --><p>Bachelard, Gaston (1993) <i>A Po&eacute;tica do Espa&ccedil;o</i>. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1421057&pid=S1647-6158201200020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Blanchot, Maurice (2001) <i>A Conversa Infinita</i>. S&atilde;o Paulo: Escuta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1421059&pid=S1647-6158201200020000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Blanchot, Maurice (1987) <i>O Espa&ccedil;o Liter&aacute;rio</i>. Rio de Janeiro: Rocco.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1421061&pid=S1647-6158201200020000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p>Artigo completo recebido a 5 de setembro e aprovado a 23 de setembro de 2012.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="c0"></a></p>     <p>       <a name = "c0">Correio</a> eletr&oacute;nico: <a href="mailto:anitapk@uol.com.br">anitapk@uol.com.br</a> (Anita Koneski).</p>          ]]></body><back>
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