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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The main theme of this article is the paintings books, here named binded paintings. We will research two sides of these objects: the morphological side, that is, how it is built, its size, the sequence in the book format; the semantic side, that is, its definition as artist’s books, their contradictions as book pages and paintings, and their meanings and reasons in the context of the artists body of work.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>&Uacute;NICOS</b>    <br> </p>     <p align="right"><b>UNIQUE</b>    <br> </p>        <p><b> Pinturas encadernadas ou pinturas enquanto livros</b></p>      <p><b>Binded paintings, or paintings as books</b></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Paulo C&eacute;sar Ribeiro Gomes&#42;</b></p>      <p>&#42;Brasil, artista visual. Professor universit&aacute;rio, Universidade Federal do Rio Grande do Sul &ndash; UFRGS, Instituto de Artes &#8211; Departamento de Artes Visuais e Universidade Federal de Santa Maria &ndash; UFSM, Centro de Artes e Letras &ndash; Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais. Bacharel em Artes Pl&aacute;sticas &ndash; Desenho (UFRGS, 1995), Mestre em Artes Visuais &ndash; Po&eacute;ticas Visuais (UFRGS, 1998), Stage Doctoral &ndash; &Eacute;cole des Hautes &Eacute;tudes en Sciences Sociales, Paris (EHESS, 2001-2002). Doutor em Artes Visuais &ndash; Po&eacute;ticas Visuais (UFRGS, 2003).      <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>RESUMO:</b>    <br>O tema central deste artigo &eacute; os livros de pinturas, aqui intitulados de pinturas encadernadas. Investigaremos dois aspectos desses objetos: aspectos morfol&oacute;gicos, isto &eacute;, o princ&iacute;pio de sua constru&ccedil;&atilde;o, o formato adotado, a quest&atilde;o da sequencialidade do formato livro; aspectos sem&acirc;nticos, isto &eacute;, sua defini&ccedil;&atilde;o enquanto livros de artista, as contradi&ccedil;&otilde;es da pintura enquanto p&aacute;ginas de livros, as raz&otilde;es para tal e seus significados nas obras desses artistas.</p>      <p><b>Palavras chave:</b> pinturas encadernadas, livros de artista, pintura</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>ABSTRACT:</b>    <br>The main theme of this article is the paintings books, here named binded paintings. We will research two sides of these objects: the morphological side, that is, how it is built, its size, the sequence in the book format; the semantic side, that is, its definition as artist&rsquo;s books, their contradictions as book pages and paintings, and their meanings and reasons in the context of the artists body of work. </p>      <p><b>Keywords:</b> binded paintings, artists&rsquo; books, painting.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>     <blockquote> <i>Quanto a mim, que, confesso, presto muito mais aten&ccedil;&atilde;o na forma&ccedil;&atilde;o e na fabrica&ccedil;&atilde;o das obras do que nas pr&oacute;prias obras, tenho o h&aacute;bito ou a mania de s&oacute; apreciar as obras como a&ccedil;&otilde;es.</i></p>     <p>&#8211; Paul Val&eacute;ry</p></blockquote></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p> Neste texto, tratarei das pinturas encadernadas de tr&ecirc;s artistas pl&aacute;sticos, de origens e gera&ccedil;&otilde;es diferentes: Lenir de Miranda (Pedro Os&oacute;rio, Brasil, 1945), Frantz &#91;Antonio Augusto Frantz Soares&#93; (Rio Pardo, Brasil, 1963) e Margarida Prieto (Torres Vedras, Portugal, 1976). Al&eacute;m de pintores, esses tr&ecirc;s artistas t&ecirc;m em comum o fato de proporem o suporte livro para a apresenta&ccedil;&atilde;o de suas pinturas. O tema central deste artigo s&atilde;o os livros de pinturas, ou o que intitulo de pinturas encadernadas. Algumas quest&otilde;es naturalmente nos v&ecirc;m &agrave; mente quando estamos frente a estes livros, tais como se eles s&atilde;o livros de artista; se s&atilde;o pinturas em outro formato; por que esse formato, ao inv&eacute;s das pinturas colocadas nas paredes; qual a diferen&ccedil;a entre as pinturas tradicionais e essas, encadernadas, etc. Mas a pergunta que mais me intriga &eacute; outra: por que me atraem esses livros de pintura? Evidentemente estamos aqui tratando de duas quest&otilde;es diferentes: a primeira diz respeito a livros, e a segunda diz respeito a pinturas. O estranhamento vem exatamente dessa uni&atilde;o improv&aacute;vel que &eacute; a de pinturas em livros ou pinturas encadernadas. Por que pinturas em livros? </p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b> 1. Sobre pinturas fora das paredes</b></p>      <p>Pinturas s&atilde;o para serem vistas de p&eacute;, enquadradas, postas nas paredes, distantes, longe das m&atilde;os. Se a mudan&ccedil;a de suporte da tela do chassi para o livro &eacute;, por si s&oacute;, transgressora, aqui ela potencializa-se pela sensa&ccedil;&atilde;o de estranhamento. Embora pouco notada devido a sua recorr&ecirc;ncia e ao h&aacute;bito institu&iacute;do, a aus&ecirc;ncia da moldura na pintura contempor&acirc;nea &eacute; um indicativo importante a ser observado. Vemos que os tr&ecirc;s artistas aqui tratados abrem m&atilde;o da moldura como se essa fosse um impedimento aos limites da percep&ccedil;&atilde;o de suas pinturas. Essa tomada de decis&atilde;o, caracter&iacute;stica da pintura contempor&acirc;nea, elimina a fun&ccedil;&atilde;o tradicional de limite ou <i>paregon</i>, isto &eacute;, a retirada do espa&ccedil;o de separa&ccedil;&atilde;o entre a obra e o mundo e tamb&eacute;m o primeiro fundo sobre o qual se destaca a obra. &Eacute; a elimina&ccedil;&atilde;o dos limites que havia entre a representa&ccedil;&atilde;o e a realidade. A aus&ecirc;ncia das molduras abre para as telas a possibilidade de infinitude: elas se expandem pelas paredes, pelo espa&ccedil;o f&iacute;sico, pela totalidade do campo visual do espectador. No nosso caso particular, a elimina&ccedil;&atilde;o dos limites na apresenta&ccedil;&atilde;o do formato livro promove uma percep&ccedil;&atilde;o de outra ordem: a sucess&atilde;o de p&aacute;ginas d&aacute; a sensa&ccedil;&atilde;o de continuidade que a pintura isolada n&atilde;o tem, pois essa &eacute; de alguma forma (mesmo sem os limites expl&iacute;citos das molduras) algo completo e finito. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><b>2. Sobre pinturas em livros</b> </p>      <p>A quest&atilde;o da organiza&ccedil;&atilde;o de obras de arte em livros tem seu come&ccedil;o no famoso <i>Libro dei disegni</i>, de Giorgio Vasari (1511&ndash;1574), que ocupa um lugar excepcional dentro da historia da arte. Com essa atitude de Vasari, "le dessin prend une dimension &lsquo;historique&rsquo;" (Goguel, 1987: 26). O que pensar das pinturas quando elas abandonam as paredes e optam pelo reduto privado dos livros? Se fossem livros de artistas, eles naturalmente indicariam um princ&iacute;pio narrativo, pela pr&oacute;pria natureza de base desses objetos. Se a narra&ccedil;&atilde;o aqui est&aacute; ausente, qual a fun&ccedil;&atilde;o do livro de pintura?</p>      <p>A essa &uacute;ltima interroga&ccedil;&atilde;o acredito que a resposta &eacute; a seguinte: folhear pinturas. Folhear pinturas &eacute; uma atividade que pressup&otilde;e o recolhimento e o vagar da a&ccedil;&atilde;o, ao contr&aacute;rio das pinturas tradicionalmente colocadas nas paredes, que trabalham com o tempo da frui&ccedil;&atilde;o reduzido devido aos naturais limites da resist&ecirc;ncia f&iacute;sica (imaginamos sempre ver pinturas de p&eacute;, pois sentar-se para observ&aacute;-las &eacute; um ato naturalmente associado aos estudiosos). Do ponto de vista estrito de sua coloca&ccedil;&atilde;o no suporte livro, a pintura muda de significado enquanto g&ecirc;nero, pois n&atilde;o estando mais restrita aos suportes port&aacute;teis (telas, pain&eacute;is etc.) e suportes fixos (pintura mural), ela modifica-se em ess&ecirc;ncia. A forma final dos livros de pintura n&atilde;o &eacute; muito diferente dos livros de artistas tradicionais. Eles mant&ecirc;m as mesmas caracter&iacute;sticas morfol&oacute;gicas, ou seja, a sucess&atilde;o de p&aacute;ginas e a encaderna&ccedil;&atilde;o, e a leitura se d&aacute; de modo tradicional, ao folhear as p&aacute;ginas. Resumindo, afirmamos que seu formato &eacute; can&ocirc;nico, acatando a apar&ecirc;ncia tradicional de livros. Um aspecto a ser destacado nesses livros &eacute; que eles n&atilde;o s&atilde;o narrativos, isto &eacute;, eles n&atilde;o prop&otilde;em uma leitura linear; ao contr&aacute;rio, eles pressup&otilde;em uma leitura incerta, com avan&ccedil;os e recuos, paradas e acelera&ccedil;&otilde;es, voltas para compara&ccedil;&otilde;es e constata&ccedil;&otilde;es.</p>      <p> M&aacute;rio de Andrade (1893&ndash;1945) escreveu (1965: 72) que os limites da tela est&atilde;o subordinados &agrave; quest&atilde;o da composi&ccedil;&atilde;o. A composi&ccedil;&atilde;o pressup&otilde;e a consci&ecirc;ncia do todo que ser&aacute; visto pelo observador a uma relativa dist&acirc;ncia e em condi&ccedil;&otilde;es pr&eacute;-determinadas, o que n&atilde;o ocorre aqui, pois essas pinturas foram feitas para serem vistas com as m&atilde;os. Elas compartilham da natureza primeira dos livros, sejam eles de artista ou n&atilde;o, que &eacute; a de &quot;&#91;&#8230;&#93; mostrar e esconder. Qualquer que seja o seu repert&oacute;rio, num maior ou menor grau, ele estar&aacute; coordenando a estrutura da obra. No caso presente, a dimens&atilde;o do olhar &eacute; mais do que a de um simples leitor. O olhar &eacute; pleno. L&ecirc;, sim, &agrave;s vezes. Mas no seu fluxo normal ele desvela. &Eacute; de voyeur e de cientista&quot; (Silveira, 2001: 241-242). Elas nos lembram ainda, irresistivelmente, a id&eacute;ia de uma galeria port&aacute;til, aquela &quot;inven&ccedil;&atilde;o&quot; do famoso <i>Padre Resta</i> (1635&ndash;1714), que tornou sua cole&ccedil;&atilde;o conhecida como <i>Galleria portabile</i>, que consistia em uma cole&ccedil;&atilde;o de desenhos encadernados, da&iacute; cham&aacute;-la de galeria port&aacute;til, isto &eacute;, desenhos apresentados em volumes ou portf&oacute;lios (<i>&aacute;lbum</i> e <i>cartela</i>, em italiano).</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b>3. As pinturas encadernadas</b></p>     <p>   Os tr&ecirc;s artistas que apresento aqui t&ecirc;m algumas caracter&iacute;sticas comuns, outras que os particularizam e, finalmente, eles aportam algumas contribui&ccedil;&otilde;es ao g&ecirc;nero livro de pintura. Em comum, Margarida, Frantz e Lenir t&ecirc;m o fato de serem pintores. A pintura &eacute; para esses artistas o meio por excel&ecirc;ncia de sua express&atilde;o pl&aacute;stica. H&aacute; em suas obras um pensamento pict&oacute;rico dominante: neste aspecto, a pintura ser&aacute; o foco central, sendo observados aspectos da constru&ccedil;&atilde;o da obra pict&oacute;rica dos tr&ecirc;s artistas, tais como a rela&ccedil;&atilde;o com a figura&ccedil;&atilde;o, com as abstra&ccedil;&otilde;es (livre e geom&eacute;trica), com a composi&ccedil;&atilde;o, as cores, os m&eacute;todos de trabalho.</p>      <p>A pintura de Margarida Prieto tem uma caracter&iacute;stica dominante, que &eacute; o seu aspecto decorativo. Suas superf&iacute;cies s&atilde;o caracterizadas pela presen&ccedil;a de formas org&acirc;nicas e padr&otilde;es geom&eacute;tricos. As cores s&atilde;o contrastantes e a pintura &eacute; lisa, sem a marca da manualidade. Trata-se de uma pintura cerebral, no sentido de ser cuidadosamente elabora e executada, n&atilde;o deixando margem &agrave; improvisa&ccedil;&atilde;o e ao acaso. A intencionalidade na sua pintura evidencia-se no rigor e no controle absoluto dos seus fins pretendidos. Em seus livros, h&aacute; a deliberada inten&ccedil;&atilde;o de construir um espa&ccedil;o de frui&ccedil;&atilde;o ao alcance das m&atilde;os, uma pintura para ser gozada no sil&ecirc;ncio do reduto privado, um apelo ao olhar ego&iacute;sta que acata a impositiva sequ&ecirc;ncia e a serialidade natural do objeto. </p>       <p>Partindo de di&aacute;logos estabelecidos entre os padr&otilde;es decorativos de artista ingleses oriundos do movimento <i>Arts and Crafts</i>, como William Morris, associados &agrave; necessidade de constituir espa&ccedil;os de interlocu&ccedil;&atilde;o no universo culto da pintura (o decorativismo de Matisse e a geometria dos concretistas), suas p&aacute;ginas abrem um campo prop&iacute;cio &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o, associando formas org&acirc;nicas e geom&eacute;tricas ao sabor de sua inven&ccedil;&atilde;o. A artista escreveu, em sua disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado (2008: 102), que &quot;&#91;&#8230;&#93; A escolha de padr&otilde;es como imagem, para articular com o desenho geom&eacute;trico, deve-se &agrave; sua estrutura repetitiva.&quot; Associados &agrave; riqueza visual dos padr&otilde;es est&atilde;o as cores, geralmente baixas e reduzidas em intensidade e brilho. Foscas e discretas, elas n&atilde;o escondem, entretanto, o evidente prazer de jogo a que a artista se prop&otilde;e e nos prop&otilde;e. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A apresenta&ccedil;&atilde;o de seus livros de pintura inclui as elaboradas capas de tecido preto (<a href="#f1-2">Figura 1</a>) e as etiquetas em metal com o g&ecirc;nero de obra que est&aacute; propondo e a sua numera&ccedil;&atilde;o na sequ&ecirc;ncia de sua realiza&ccedil;&atilde;o. A amplid&atilde;o generosa de suas p&aacute;ginas duplas (quando aberto o <i>Livro-pintura #6</i> fica com o formato aproximado de 70 x 100 cm) permite a imers&atilde;o do olhar em um campo amplo de visualiza&ccedil;&atilde;o que vai se expandindo e retraindo de acordo com a constru&ccedil;&atilde;o proposta. Acontecendo desde a abertura da capa, pois o campo pict&oacute;rico inicia-se j&aacute; naquele lugar em que geralmente se encontram as guardas, n&atilde;o h&aacute; uma sequ&ecirc;ncia evidente: percebemos algumas recorr&ecirc;ncias, com a de semic&iacute;rculos, geralmente monocrom&aacute;ticos, nas extremidades das p&aacute;ginas, deixando um campo central no qual as formas org&acirc;nicas, que remetem &agrave; vegeta&ccedil;&atilde;o, dialogam com formas geom&eacute;tricas r&iacute;gidas, grandes listras e barras, que ao organizarem-se em paralelas e transversais, chegam a constituir configura&ccedil;&otilde;es que remetem a casas ou constru&ccedil;&otilde;es. A varia&ccedil;&atilde;o formal, mesmo obedecendo a princ&iacute;pios ignorados, prop&otilde;e um jogo visual que vai se modificando a cada virada de p&aacute;gina, variando entre os semic&iacute;rculos monocrom&aacute;ticos, as formas org&acirc;nicas, as barras e as pseudoconfigura&ccedil;&otilde;es.</p>           <p>&nbsp;</p> <a name="f1-2"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a17f1-2.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Os livros de Frantz s&atilde;o reposit&oacute;rios de pinturas n&atilde;o figurativas (<a href="#f1-2">Figura 2</a>), sem padr&otilde;es reguladores, tais como a composi&ccedil;&atilde;o, de cores intensas e gritantes, uma refer&ecirc;ncia obrigat&oacute;ria na pintura gestual e emocional. N&atilde;o h&aacute; em Frantz a deliberada inten&ccedil;&atilde;o de pintar para construir livros de pinturas. Sua pintura &eacute;, depois de feita, subordinada &agrave; ordem rigorosa do livro, que imp&otilde;e sua sequ&ecirc;ncia e sua serialidade. Se for fato que a pintura, no seu formato tradicional, sobre uma superf&iacute;cie qualquer (tela, papel, madeira etc.), feita com tinta aplicada com instrumentos variados, tem uma caracter&iacute;stica f&iacute;sica de se dar a ver na sua totalidade, essa caracter&iacute;stica impositiva da tela (principalmente) n&atilde;o est&aacute; contemplada nos suportes propostos pelo artista. Aqui n&atilde;o vemos o todo da pintura, mas apenas partes dela. Frantz faz seus livros com o material de revestimento dos ateli&ecirc;s, isto &eacute;, aqueles utilizados pelos artistas para proteger as superf&iacute;cies (paredes e pisos), evitando que elas sejam atingidas pelos restos e respingos de tintas. A regra impositiva &eacute; a do aproveitamento desse material, de ateli&ecirc;s de diversos artistas (inclusive do pr&oacute;prio Frantz), que ele chama de &quot;campo de batalha&quot;, no qual sobrevivem, ap&oacute;s a retirada das obras prontas, o que o artista chama de &quot;sobras de pintura&quot;.</p>      <p>Rigorosamente falando, temos uma composi&ccedil;&atilde;o casual editada (termo usado pelo artista) segundo crit&eacute;rios n&atilde;o declarados. Importante observar aqui que estas pinturas encadernadas t&ecirc;m ainda algumas caracter&iacute;sticas not&aacute;veis: todas as encaderna&ccedil;&otilde;es s&atilde;o id&ecirc;nticas, n&atilde;o havendo, nas capas de lona branca, quaisquer indica&ccedil;&otilde;es do que se trata (essa regra se altera quando o artista autentica a pe&ccedil;a, apondo sua assinatura em uma das guardas internas e isso s&oacute; ocorre quando o livro passa para as m&atilde;os de um colecionador); n&atilde;o h&aacute; qualquer indica&ccedil;&atilde;o de qual lado do livro se inicia a frui&ccedil;&atilde;o, permitindo que o leitor/observador abra-o de qualquer maneira, &agrave; moda ocidental ou &agrave; moda oriental, de um lado ou de outro, n&atilde;o importa; os tamanhos variam do infinitamente pequeno, quase miniatura, at&eacute; o imenso, como se fosse um atlas ou um dispendioso livro de reprodu&ccedil;&otilde;es.</p>       <p>A pintura de Lenir n&atilde;o tem, a priori, um destino certo: sua destina&ccedil;&atilde;o final poder&aacute; ser um livro, uma pintura tradicional a ser exposta nas paredes de uma galeria ou museu, um detalhe de pintura sobreposto a outra pintura maior, uma mini-pintura ricamente emoldurada, um peda&ccedil;o de tela com registro preso a parede por alfinetes&#8230; O rigor de seu trabalho n&atilde;o est&aacute; no exterior, na forma vis&iacute;vel ou em seu suporte, mas na ordena&ccedil;&atilde;o cartesiana do seu discurso pict&oacute;rico. Intr&iacute;nseco &agrave; id&eacute;ia mesma de pintura, suas imagens, que remetem a paisagens, a interiores e a formas org&acirc;nicas (n&atilde;o importa) n&atilde;o se submetem a nenhuma ordem <i>a priori</i>, somente ao desejo de vir a ser. &Eacute; uma pintura resultante de um processo tenso, com todas as determinantes sociais e tamb&eacute;m das individuais e emocionais com forte base liter&aacute;ria: &agrave;s perip&eacute;cias narradas por Homero, na <i>Odiss&eacute;ia</i>, Lenir de Miranda associa seu Ulisses, h&iacute;brido daquele de Homero com o irland&ecirc;s moderno de James Joyce (<a href="#f3">Figura 3</a>). Eles s&atilde;o personagens s&iacute;ntese dos dilemas de suas &eacute;pocas, <i>tabula rasa</i> da cultura dos seus mundos. Trata-se de um di&aacute;logo entre a artista e seu vasto referencial de autores liter&aacute;rios, fonte inesgot&aacute;vel de refer&ecirc;ncias continuadamente retomadas e atualizadas.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"> <img src="/img/revistas/est/v3n6/3n6a17f3.jpg">     
<p>&nbsp;</p>     <p>Se os procedimentos pict&oacute;ricos de Lenir de Miranda t&ecirc;m caracter&iacute;sticas muito particulares (perspectiva substitu&iacute;da pela sobreposi&ccedil;&atilde;o dos elementos e das formas; satura&ccedil;&atilde;o das cores cruas e evocativas; s&iacute;ncopes nos suportes articulados por justaposi&ccedil;&otilde;es; grafismo an&aacute;rquico), estes n&atilde;o s&atilde;o indicativos de narrativas, mas dos processos internos da constru&ccedil;&atilde;o do discurso, resqu&iacute;cios textuais de suas conversas com seus autores de elei&ccedil;&atilde;o. Sua pintura trata de mat&eacute;rias agregadas, que n&atilde;o vale <i>per se</i>, mas pelo que pode ser complementar ao seu pensamento construtor. A superf&iacute;cie &eacute; o que h&aacute; de mais profundo nesta pintura: sua pele &eacute; a ossatura em constru&ccedil;&atilde;o e a carne em forma&ccedil;&atilde;o. &Egrave; uma pintura na qual a constru&ccedil;&atilde;o se d&aacute; de dentro para fora, como &eacute; de se esperar, mas que &eacute; exibida pelo avesso. Logo, &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o de fora para dentro: vemos o esqueleto antes de ver a carne, vemos a carne antes de ver pele, vemos a pele antes de ver as marcas do mundo, uma paisagem ex&oacute;gena. O formato livro, atentamente estudado por Paulo Silveira (2001: 241), ensina-nos que &quot;Dificilmente se pode imaginar esse livros de p&eacute;. Sua posi&ccedil;&atilde;o natural parece ser a horizontal, mesmo quando s&atilde;o de materiais r&iacute;gidos. Isso talvez acentue a fun&ccedil;&atilde;o da p&aacute;gina n&atilde;o como sequ&ecirc;ncia cin&eacute;tica, mas como etapas sedimentares.&quot; </p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>4. Fruindo as pinturas encadernadas</b></p>      <p>Se as raz&otilde;es pelas quais esses artistas encadernam as suas pinturas n&atilde;o s&atilde;o claras, os princ&iacute;pios que eles utilizam o s&atilde;o, assim tamb&eacute;m como as recorr&ecirc;ncias, pois essas os aproximam. Nos livros de pintura de Margarida, Frantz e Lenir, o que mais fica evidente, ao olh&aacute;-los conjuntamente (al&eacute;m das evidentes diferen&ccedil;as de concep&ccedil;&atilde;o), &eacute; a impositiva vontade que eles comportam de serem manuseados. Os modos de faz&ecirc;-los s&atilde;o importantes, pois variam de acordo com a intencionalidade: em todos eles h&aacute; o cuidado extremo de igual&aacute;-los nas suas apar&ecirc;ncias externas. As encaderna&ccedil;&otilde;es em tecidos pretos de Margarida, em tecidos brancos de Frantz e as de Lenir, em burocr&aacute;ticas percalinas marrons, mais do que a uniformiza&ccedil;&atilde;o do formato, indicam um <i>modus operandi</i> preciso, uma pr&aacute;tica recorrente e um suporte assumido como forma art&iacute;stica <i>per se</i>.  </p>     <p>As inten&ccedil;&otilde;es nos interessam igualmente, pois n&atilde;o s&atilde;o iguais: Margarida pensa sua pintura enquanto livro, Frantz pensa o livro como um suporte ideal para a pr&aacute;tica da apropria&ccedil;&atilde;o e da organiza&ccedil;&atilde;o de pinturas v&aacute;rias (de autores e tipos) e Lenir pensa os livros como suportes ideais para organizar a multiplicidade de meios de suas proto-narrativas, deixando-as organizadas e &iacute;ntegras. Em todos eles, a quest&atilde;o da pintura &eacute; fundamental, pois, rigorosamente falando, eles fazem pinturas que s&atilde;o fru&iacute;das no formato livro, mas sem a determina&ccedil;&atilde;o rigorosa da frui&ccedil;&atilde;o pict&oacute;rica tradicional, que pressup&otilde;e um espectador ligeiro e pouco afeito &agrave;s sutilezas dos outros sentidos, al&eacute;m da vis&atilde;o.</p>      <p>Avan&ccedil;ando para uma investiga&ccedil;&atilde;o mais ampla, investimos aqui em algumas considera&ccedil;&otilde;es sobre o papel do livro de artista, dentro do contexto das t&eacute;cnicas art&iacute;sticas contempor&acirc;neas, enquanto suporte para a pintura e como elas contribuem para outra abordagem da quest&atilde;o da pintura na contemporaneidade. Pois, se n&atilde;o fosse pela excel&ecirc;ncia intr&iacute;nseca da obras de nossos artistas, a simples apresenta&ccedil;&atilde;o dessas pinturas encadernadas evidencia uma mudan&ccedil;a de car&aacute;ter da pintura, ao mudar a maneira de fru&iacute;-las e o tempo de sua frui&ccedil;&atilde;o. Se os aspectos morfol&oacute;gicos, tais como o princ&iacute;pio de sua constru&ccedil;&atilde;o, o formato adotado, a quest&atilde;o da sequencialidade s&atilde;o super&aacute;veis, do ponto de vista do g&ecirc;nero &quot;livro de artista&quot;, a quest&atilde;o da encaderna&ccedil;&atilde;o investe em um aspecto in&eacute;dito, at&eacute; o momento, para essa modalidade. Trata-se do ato em si de encadernar as pinturas, uma atitude, rigorosamente falando, de car&aacute;ter museogr&aacute;fico, organizando as obras em uma exposi&ccedil;&atilde;o particular e inusual. Isso se reflete de modo contundente na frui&ccedil;&atilde;o dessas pinturas.</p>      <p>O formato livro (no caso dessas pinturas encadernadas) imp&otilde;e um tempo estendido, maior que o da observa&ccedil;&atilde;o da pintura na parede. Ele exige uma aproxima&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e imp&otilde;e uma rela&ccedil;&atilde;o sensorial espa&ccedil;o-temporal, que amplifica a mera frui&ccedil;&atilde;o visual para uma frui&ccedil;&atilde;o t&aacute;til ou, mais precisamente, uma frui&ccedil;&atilde;o t&aacute;til-visual dessas pinturas encadernadas. Poder&iacute;amos dizer que s&atilde;o pinturas h&aacute;pticas, pinturas para serem vistas com os dedos, pinturas que tocamos com os olhos e vemos com as m&atilde;os. &Eacute; irresist&iacute;vel aqui se lembrar de M&aacute;rio de Andrade (1965: 73-74), que escreveu que &quot;Os amadores do desenho guardam os seus em pastas. Desenhos s&atilde;o para a gente folhear, s&atilde;o para serem lidos que nem poesias, s&atilde;o haicais, s&atilde;o rubaes, s&atilde;o quadrinhas e sonetos&quot;.</p>      <p>Essas pinturas t&ecirc;m outra natureza por serem encadernadas? Talvez sim, pois elas n&atilde;o se d&atilde;o como fatos conclusivos, como seriam se estivessem encerradas nas suas composi&ccedil;&otilde;es fechadas para serem vistas de longe e de passagem. Elas adquirem aqui uma natureza diferente de suas irm&atilde;s penduradas nas paredes, pois se o formato livro imp&otilde;e um tempo estendido e a aproxima&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica, elas perdem o car&aacute;ter de evid&ecirc;ncias conclusivas. A transfer&ecirc;ncia da pintura para o suporte livro permite a sensa&ccedil;&atilde;o de inacabamento. As possibilidades da permuta&ccedil;&atilde;o das imagens ao alcance das m&atilde;os e da sucess&atilde;o aleat&oacute;ria, criada pelo folhear das p&aacute;ginas, permitem recuperar o princ&iacute;pio da tradu&ccedil;&atilde;o. Aquele princ&iacute;pio, que a pintura, enquanto arte de cria&ccedil;&atilde;o de refer&ecirc;ncias, perdeu, ao tornar-se uma pr&aacute;tica de apresenta&ccedil;&atilde;o ao inv&eacute;s de representa&ccedil;&atilde;o. Trata-se do prazer primordial do desvelamento e da descoberta dos modelos de organiza&ccedil;&atilde;o do pensamento construtivo, das formas de express&atilde;o da sensibilidade e de uma l&iacute;ngua comum, partilhada entre artistas e fruidores. Essas pinturas encadernadas prop&otilde;em aos seus fruidores o prazer, compartilhado com seus autores, de pintar para conhecer.</p>     <p>&nbsp;</p>        <p><b>Refer&ecirc;ncias</b> </p>      <!-- ref --><p>Andrade, M&aacute;rio de. (1965) &quot;<i>Do Desenho</i>&quot;, in <i>Aspectos das Artes Pl&aacute;sticas no Brasil</i>. S&atilde;o Paulo: Livraria Martins Editora,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1421631&pid=S1647-6158201200020001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Goguel, Catherine Monbeing (1987) <i>Le dessin encadr&eacute;. "LES CADRES " </i>&quot;, <i>Revue de l&rsquo;Art</i>, n&ordm; 76. Dispon&iacute;vel em: <a href="www.pers&eacute;e.fr" target="_blank">www.pers&eacute;e.fr</a></p>      <p>Prieto, Margarida Penetra (2006-2007) O Livro-Pintura. Lisboa, Portugal: Universidade de Lisboa &ndash; Faculdade de Belas Artes. Disserta&ccedil;&atilde;o de Mestrado em Pintura &ndash; Variante I &ndash; Te&oacute;rica e Pr&aacute;tica.</p>      <!-- ref --><p>Silveira, Paulo (2001). <i>A P&aacute;gina Violada: da ternura &agrave; inj&uacute;ria na constru&ccedil;&atilde;o do livro de artista.</i> Porto Alegre: Ed.Universidade/UFRGS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1421635&pid=S1647-6158201200020001700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>      <p>Val&eacute;ry, Paul (1991) &quot;<i>Poesia e Pensamento Abstrato</i>&quot;, in <i>Variedades</i>. S&atilde;o Paulo: Iluminuras &ndash; Projetos e Produ&ccedil;&otilde;es Editoriais Ltda. </p>     <p>&nbsp;</p>      <p> Artigo completo recebido a 8 de setembro e aprovado a 23 de setembro de 2012.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="c0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>       <a name = "c0">Correio</a> eletr&oacute;nico: <a href="mailto:oluapgomes@ibest.com.br">oluapgomes@ibest.com.br</a> (Paulo Gomes).</p>          ]]></body><back>
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