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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Pedro Cabrita Reis: A Diferença da Repetição]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In his essay "Why Read the Classics" Italo Calvino begins by stating that classics are books that usually hear "I'm rereading..." and never "I am reading..." (Calvino, 2009). From his point of view, the iterative prefix "Re" points to the idea that there has already been "a before" and so we find ourselves in a state of repetition. Within Pedro Cabrita Reis coherent work, the viewer is confronted with common, recognizable objects, being able to discover "the new" in the recognizable and recognize before knowing.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b>    <br> </p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b>    <br> </p>  	    <p><b>Pedro Cabrita Reis: A Diferen&ccedil;a da Repeti&ccedil;&atilde;o</b></p> 	    <p><b>Pedro Cabrita Reis: The Difference of Repetition</b></p> 		    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>Ant&oacute;nio Fernando Silva&#42;</b></p> 	    <p>&#42;Portugal, artista visual. Licenciatura Artes Pl&aacute;sticas - Pintura (Escola Superior de Belas Artes do Porto, ESBAP); Mestrado Hist&oacute;ria da Arte (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, FLUP). Afilia&ccedil;&atilde;o actual: Escola Superior de Educa&ccedil;&atilde;o do Instituto Polit&eacute;cnico do Porto.</p> 		    <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p> 		    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> 		    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>RESUMO    <br>     </b>No seu ensaio "Porqu&ecirc; Ler os Cl&aacute;ssicos" Italo Calvino come&ccedil;a por afirmar que cl&aacute;ssicos s&atilde;o os livros de que se costuma ouvir dizer "Estou a reler&#8230;" e nunca "Estou a ler&#8230;" (Calvino, 2009) Deste ponto de vista, o prefixo iterativo "Re" p&otilde;e-nos na condi&ccedil;&atilde;o de ter havido j&aacute; um antes e de se estar, agora, numa condi&ccedil;&atilde;o de repeti&ccedil;&atilde;o. Na coer&ecirc;ncia pr&oacute;pria da obra de Pedro Cabrita Reis, o espectador &eacute; confrontado com objectos comuns, reconhec&iacute;veis, onde &eacute; poss&iacute;vel descobrir o novo no conhecido e reconhecer, antes de conhecer.</p> 	    <p><b>Palavras chave</b>: Contempor&acirc;neo, cl&aacute;ssico, ordem, conhecimento, reconhecimento, cria&ccedil;&atilde;o. </p> 		    <p>&nbsp;</p> 		    <p>&nbsp;</p> 	    <p><b>ABSTRACT    <br>     </b>In his essay &quot;Why Read the Classics&quot; Italo Calvino begins by stating that classics are books that usually hear &quot;I&#39;m rereading...&quot; and never &quot;I am reading...&quot; (Calvino, 2009). From his point of view, the iterative prefix "Re" points to the idea that there has already been "a before" and so we find ourselves in a state of repetition. Within Pedro Cabrita Reis coherent work, the viewer is confronted with common, recognizable objects, being able to discover "the new" in the recognizable and recognize before knowing.</p> 	    <p><b>Keywords:</b> Contemporary, classic, order, knowledge, recognition, creation</p> 		    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> 		    <p>&nbsp;</p>       <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b><br/ >      <p>    <blockquote><i>Vivemos num tempo sem fulgura&ccedil;&otilde;es, um tempo de repeti&ccedil;&atilde;o. (...) A ideia da repeti&ccedil;&atilde;o &eacute; o que permite ao presente alastrar</i>[-se]<i> ao passado e ao futuro, canibalizando-os </i>(Santos, 2006).<br/ > </blockquote></p>         <p>Pedro Cabrita Reis desde a sua afirma&ccedil;&atilde;o como artista, nos anos 80, constr&oacute;i uma obra com os restos do desabamento do edif&iacute;cio das utopias est&eacute;ticas e ideol&oacute;gicas do modernismo. </p>    <p>O contempor&acirc;neo, como um tempo que re&uacute;ne todos os tempos, caracteriza-se pela acumula&ccedil;&atilde;o e a s&iacute;ntese. &Eacute; retrospectivo, enquanto o moderno era prospectivo (cf. Ardenne, 1997). </p>    <p>Para Agamben o contempor&acirc;neo possui &quot;uma rela&ccedil;&atilde;o singular com o nosso pr&oacute;prio tempo, que a ele adere e dele se distancia em simult&acirc;neo,&quot; num jogo de coincid&ecirc;ncia que cega, ou de anacronismo que, porque se distancia, v&ecirc;. Deste modo, h&aacute; nesta atitude uma ac&ccedil;&atilde;o que se empreende e que falha, porque estar no <i>ponto de fractura</i> do tempo &eacute; o que nos possibilita estar e falhar, mas &eacute; tamb&eacute;m &quot;o lugar de um encontro e de um confronto entre os tempos e as gera&ccedil;&otilde;es&quot; (Agamben, 2010). </p>    <p>Pretende-se indagar uma vontade cl&aacute;ssica na obra de PCR, que afirma recolher a informa&ccedil;&atilde;o da contemporaneidade e a emo&ccedil;&atilde;o, do tempo todo (cf. Almeida, 2008), atrav&eacute;s de um permanente deslumbramento do olhar, um olhar filos&oacute;fico, que origina um processo de conhecimento que se organiza a partir de uma dimens&atilde;o po&eacute;tica. A sua ac&ccedil;&atilde;o, coerente e program&aacute;tica, assenta num l&eacute;xico vasto e ecl&eacute;ctico de formas e de m&uacute;ltiplos entendimentos que recuperam um passado pr&eacute;-moderno, em que se incorpora um arca&iacute;smo <i>e a busca de um fôlego rom&acirc;ntico para a cria&ccedil;&atilde;o</i> (Pinharanda, 1999). Em toda a sua obra demanda o gesto fundador que ambiciona a unidade e procura o reencontro da harmonia primordial, procurando superar o sentimento de perda atrav&eacute;s de um trabalho de constru&ccedil;&atilde;o da beleza, numa busca de uma cosmogonia pr&oacute;pria e primordial que procura um lugar para o Homem no mundo. </p> 		    <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Estranheza e conhecimento</b><br/ >      <p>No seu ensaio Porqu&ecirc; Ler os Cl&aacute;ssicos Italo Calvino come&ccedil;a por afirmar que &quot;cl&aacute;ssicos s&atilde;o os livros de que se costuma ouvir dizer &#39;Estou a reler&#8230;&#39; e nunca &#39;Estou a ler&#8230;&#39;&quot; (Calvino, 2009). Deste ponto de vista, o prefixo iterativo Re p&otilde;e-nos na condi&ccedil;&atilde;o de ter havido j&aacute; um antes e de se estar, agora, numa condi&ccedil;&atilde;o de repeti&ccedil;&atilde;o. </p>    <p>Na coer&ecirc;ncia pr&oacute;pria da obra de Pedro Cabrita Reis, o espectador &eacute; continuamente confrontado com objectos comuns, reconhec&iacute;veis, que se apresentam, contudo, num corpus de obra org&acirc;nico, f&iacute;sico e po&eacute;tico. Esse &eacute;, no entanto, um reconhecimento que provoca ao mesmo tempo uma estranheza. Esta tens&atilde;o, produzida pela obra, entre o que se conhece e o que, simultaneamente, surge como estranho, pode constituir-se como uma possibilidade de encontro facultando &quot;dar forma &agrave;s experi&ecirc;ncias futuras, fornecendo modelos, conte&uacute;dos, termos de compara&ccedil;&atilde;o, (...) paradigmas de beleza&quot; (Calvino, 2009). </p>    <p>&Eacute; uma obra que se alimenta da mat&eacute;ria do mundo, sem contudo procurar uma estetiza&ccedil;&atilde;o dos materiais, humildes e simples que transportam e afirmam um sentido origin&aacute;rio. Os lugares que constr&oacute;i t&ecirc;m uma depurada linguagem e a sua constru&ccedil;&atilde;o mobiliza arqueologias do quotidiano que se organizam numa tens&atilde;o entre mist&eacute;rio e revela&ccedil;&atilde;o, luz e sombra, obscuridade e transpar&ecirc;ncia. A partir de restos constr&oacute;i uma arte que busca o que &eacute; vital (<a href="#f1">Figura 1</a>; <a href="#f2">Figura 2</a>; <a href="#f3">Figura 3</a>). </p>            <p>&nbsp;</p> <a name="f1"> <img src="/img/revistas/est/v4n7/4n7a16f1.jpg"></a>      
<p>&nbsp;</p> <a name="f2"> <img src="/img/revistas/est/v4n7/4n7a16f2.jpg"></a>      
<p>&nbsp;</p> <a name="f3"> <img src="/img/revistas/est/v4n7/4n7a16f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <p>O primeiro corpo que os lugares que constr&oacute;i abrigam &eacute; o seu e cada obra revela sempre uma espessura e uma marca autoral que &eacute;, simultaneamente, a do construtor. </p>    <p>Decifra o trabalho realizado no espa&ccedil;o, mede-o, mapeia-o, passando os objectos criados a terem uma presen&ccedil;a, uma l&oacute;gica interna, pass&iacute;vel de transmitir um conhecimento n&atilde;o racionaliz&aacute;vel e onde a marca da m&atilde;o &eacute; deixada como uma abertura para uma subjectividade que se mant&eacute;m secreta e misteriosa. </p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>E, assim, cada trabalho seu constitui-se menos como obra e mais como processo de descoberta e de ordena&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua. </p>    <p>Deste modo o seu trabalho revela uma ac&ccedil;&atilde;o de rigor e de equil&iacute;brio, exercendo &quot;uma influ&ecirc;ncia especial (&#8230;) mimetizando-se em inconsciente colectivo ou individual&quot; (Calvino, 2009) abrindo-se a novas leituras e a novas descobertas, porque sempre incompleto. </p>    <p>Cabrita Reis &quot;transfere a quest&atilde;o da &#39;assemblage&#39; dos materiais para os processos de constru&ccedil;&atilde;o e para um discurso po&eacute;tico que encontra algumas das suas principais refer&ecirc;ncias numa hist&oacute;ria &iacute;ntima e pessoal&quot; (Hegyi e Todol&iacute;, 1999) onde &eacute; poss&iacute;vel admitir essa qualidade que cada <i>releitura</i> oferece como primeira descoberta, abrindo um novo modo de ver o j&aacute; olhado e, pelo sentido da composi&ccedil;&atilde;o da obra que transmuta os materiais, possibilita que a primeira leitura seja j&aacute; uma releitura, por oferecer um reconhecimento, que se constitui como um rumor de continuidade no tempo. </p>    <p>Organiza, assim, met&aacute;foras a partir de arqu&eacute;tipos colectivos. Da&iacute; a <i>casa</i> ser fulcral na sua obra. Esta &eacute; erigida como um segundo corpo a partir do qual o Homem pode situar-se no mundo. Por isso constr&oacute;i unidades m&iacute;nimas, <i>lugares favoritos</i>, em que a marca do corpo, do seu corpo, ao dar forma &agrave; constru&ccedil;&atilde;o, ao conferir-lhe uma dimens&atilde;o antropom&eacute;trica, incorpora tamb&eacute;m uma dimens&atilde;o antropol&oacute;gica. </p>    <p>Nunca as obras de Cabrita Reis se apresentam como evid&ecirc;ncias ilustrativas. Na sua natureza, oculta&ccedil;&atilde;o e revela&ccedil;&atilde;o caminham a par sugerindo mais que impondo. Assim, &eacute; poss&iacute;vel descobrir o novo no conhecido e reconhecer, antes de conhecer. Contudo este reconhecimento n&atilde;o retira o mist&eacute;rio &agrave; obra, antes o adensa. </p>    <p>O espectador &eacute; confrontado com uma estranha familiaridade e o autor exp&otilde;e, assim, a possibilidade de ter um c&uacute;mplice que complete a po&eacute;tica ou que consiga incorporar novos modos de ver. Como o pr&oacute;prio afirma: </p>    <p>     <blockquote><i> Um dos meus anseios mais profundos &eacute; que, ap&oacute;s verem uma coisa minha, as pessoas identifiquem a realidade atrav&eacute;s dos meus trabalhos. Isto &eacute;, v&ecirc;em a escada, o Posto de Observa&ccedil;&atilde;o, v&ecirc;em a Catedral e, depois, ao passarem por um pr&eacute;dio em constru&ccedil;&atilde;o numa colina, n&atilde;o poder&atilde;o jamais desligar-se do que viram. A arte, se se pretende como meio ou instrumento para expandir a intelig&ecirc;ncia ou a percep&ccedil;&atilde;o do mundo, tem aqui uma fun&ccedil;&atilde;o unificadora</i> (Cabrita Reis, 2000). </blockquote> </p>    <p>Este convite &agrave; unifica&ccedil;&atilde;o com o acto de cria&ccedil;&atilde;o pode estender-se, tamb&eacute;m, aos seus pares no sentido em que Walter Benjamin afirmava que: </p>     <blockquote><i> &Eacute; decisivo que a produ&ccedil;&atilde;o tenha um car&aacute;cter de modelo, capaz de, em primeiro lugar, levar outros produtores &agrave; produ&ccedil;&atilde;o e, em segundo lugar, pôr &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o um aparelho melhorado. E esse aparelho &eacute; tanto melhor quanto mais consumidores levar &agrave; produ&ccedil;&atilde;o, numa palavra, quanto melhor for capaz de transformar os leitores ou espectadores em colaboradores</i> (Benjamin, 2006). </blockquote>  		    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> 		    <p><b>Conclus&atilde;o</b><br/ >     <p>Neste jogo de constru&ccedil;&atilde;o-desconstru&ccedil;&atilde;o abstrai sem, contudo, isolar. Os lugares que constr&oacute;i, porque reconhec&iacute;veis, admitem e convocam o espectador a apropriar-se da obra atrav&eacute;s de um pensamento corporal e a tornar-se parte da constru&ccedil;&atilde;o e, tamb&eacute;m, construtor. Nesse processo de apropria&ccedil;&atilde;o completa a obra e aproxima-se da ac&ccedil;&atilde;o criativa potenciada pela simplicidade, reconhecida, dos processos. </p>    <p>A constru&ccedil;&atilde;o a partir de <i>ferro-velho po&eacute;tico</i> (cf. Rimbaud), organiza o caos numa vontade de ordem cosmog&oacute;nica. As obras, transformadas em totalidades, abrem-se a uma compreens&atilde;o s&oacute; alcan&ccedil;&aacute;vel por via da ilumina&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica. A sua obra n&atilde;o duplica o mundo mas reorganiza-o e reconstitui-o a partir de um acto origin&aacute;rio de cria&ccedil;&atilde;o que revela e partilha, na pr&oacute;pria obra, os meios da sua produ&ccedil;&atilde;o (cf. Benjamin, 2006). Faculta, assim, ao espectador n&atilde;o s&oacute; reconhecer mas identificar o potencial de <i>conseguir fazer</i>. Ao expor a obra e os seus processos oferece, tamb&eacute;m, a condi&ccedil;&atilde;o de liberdade da cria&ccedil;&atilde;o. </p>    <p>Esta capacidade de usufruir dos materiais e objectos comuns revela um optimismo do olhar devolvido pelo acto construtivo que d&aacute; a ver uma beleza erigida contra a natureza. A consci&ecirc;ncia de separa&ccedil;&atilde;o, de perda e afastamento da natureza que n&atilde;o se domina, tem no trabalho de constru&ccedil;&atilde;o, porque se desenvolve no tempo, uma possibilidade de re-liga&ccedil;&atilde;o. Atrav&eacute;s do trabalho, em que a pintura &eacute; a matriz a partir do qual exerce uma intelig&ecirc;ncia que produz conhecimento do mundo e sobre o mundo adoptando o modelo da poesia como inst&acirc;ncia superior, o pensamento materializa-se. Ao ganhar uma dimens&atilde;o de imobilidade a arte erige-se &quot;no tempo e contra o tempo&quot; (Steiner, 1992) e configura-se &quot;como equivalente ao universo, tal como os antigos talism&atilde;s,&quot; numa ideia de obra total (Calvino, 2009). </p>    <p>Combina mem&oacute;rias e gestos de ac&ccedil;&otilde;es da vida quotidiana, que acentuam a for&ccedil;a metaf&oacute;rica das suas obras como uma viagem que olha o lado obscuro das cidades dando a ver as suas constru&ccedil;&otilde;es inacabadas, os seus despojos e acumula&ccedil;&otilde;es. Constru&ccedil;&otilde;es simples para as quais olha, reconhecendo nelas uma linhagem e um gesto fundador porque, por mais simples e ef&eacute;meras, se constituem como unidades m&iacute;nimas de espa&ccedil;o, de abrigo, que aliam o trabalho e o engenho. Assim, cada obra de PCR pode ser uma homenagem e a partilha de uma vis&atilde;o, que &eacute; a marca do autor transformada em d&aacute;diva que reconhece e se inscreve numa genealogia de construtores, questionando incessantemente o lugar onde est&aacute;. </p>    <p>Desta forma aproxima-se duma no&ccedil;&atilde;o de cl&aacute;ssico porque, no ritmo de vida actual que &quot;n&atilde;o reconhece tempos longos, nem a respira&ccedil;&atilde;o do <i>Otium</i> humanista&quot; (Calvino, 2009) consegue criar ao ritmo do respirar combinando, nas suas obras, a actualidade, quer como ru&iacute;do de fundo quer construindo, com as ru&iacute;nas dessa actualidade, um tempo que persiste para al&eacute;m dele (<i>dur&eacute;e</i>), arriscando uma constru&ccedil;&atilde;o que sintetiza o passado e inventa o futuro. </p>   </p>       <p>&nbsp;</p>        <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Agamben, Giorgio (2010) <i>Nudez.</i> Lisboa: Rel&oacute;gio d’&Aacute;gua. p.20.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424914&pid=S1647-6158201300010001600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Almeida, Marta Moreira de; Moura, Eduardo Souto; Seabra, Augusto M. [et al.] (2008) &quot;Uma conversa no campo, entrevista conduzida por Augusto M. Seabra e Eduardo Souto Moura,&quot; in <i>Pedro Cabrita Reis: colec&ccedil;&otilde;es privadas.</i> Tavira: C&acirc;mara Municipal, pp.79-126.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424916&pid=S1647-6158201300010001600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Ardenne, Paul (1997) <i>L&#39;&Acirc;ge Contemporain, Une Histoire des arts plastiques &agrave; la fin du XXe si&egrave;cle.</i> Paris: &Eacute;ditions du Regard.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424918&pid=S1647-6158201300010001600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Benjamin, Walter (2006) "O Autor como produtor" in <i>A Modernidade.</i> Lisboa: Ass&iacute;rio & Alvim. pp. 287-288.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424920&pid=S1647-6158201300010001600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Calvino, Italo (2009) <i>Porqu&ecirc; ler os cl&aacute;ssicos&#8211;</i> Lisboa: Teorema.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424922&pid=S1647-6158201300010001600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Hegyi, L&oacute;r&aacute;nd & Todol&iacute;, Vicente (1999) <i>Pedro Cabrita Reis.</i> Mil&atilde;o: Charta / Museum Moderner Kunst Stiftung Wien / Museu Serralves.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424924&pid=S1647-6158201300010001600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Pinharanda, Jo&atilde;o (1999) "O Artista no Centro do Mundo". <i>P&uacute;blico,</i> 19 de Novembro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424926&pid=S1647-6158201300010001600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Reis, Pedro Cabrita (2000) &quot;Realidades ut&oacute;picas&quot; [entrevista conduzida por Jos&eacute; Sousa Machado] in </i>Arte Ib&eacute;rica</i>. N&ordm; 32 (Fevereiro), pp. 68-74.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424928&pid=S1647-6158201300010001600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Reis, Pedro Cabrita (2011) <i>One after another, a few silent steps</i>. Cat&aacute;logo. Museu Colec&ccedil;&atilde;o Berardo 4 de Julho - 02 de Outubro de 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424930&pid=S1647-6158201300010001600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->  </p>    <!-- ref --><p>Santos, Boaventura Sousa (2006) <i>A Gram&aacute;tica do Tempo, para uma nova cultura pol&iacute;tica.</i> Porto: Edi&ccedil;&otilde;es Afrontamento.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424932&pid=S1647-6158201300010001600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>    <!-- ref --><p>Steiner, George (1992) <i>No Castelo do Barba Azul. Algumas Notas para a Redefini&ccedil;&atilde;o da Cultura.</i> Lisboa. Rel&oacute;gio d’ &Aacute;gua.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1424934&pid=S1647-6158201300010001600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>  		    <p>&nbsp;</p> 		    <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 13 de janeiro e aprovado a 30 de janeiro de 2013.</p>       <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="c0"></a></p>     <p>       <a name="c0">Correio</a> eletr&oacute;nico:<a href="mailto:afsilva@ese.ipp.pt">afsilva@ese.ipp.pt</a>        (Ant&oacute;nio Fernando Silva). </p>            ]]></body><back>
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