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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In the analysis of the work of art called Ituporanga, by Caio Reisewitz (Brasil, 1967), I took into consideration the experience felt through the contact with the work, the recurrent photographical approach to the Brazilian landscape in the production developed by the artist, and his discourse about the processes of creation, in order to understand how the art installation promotes the displacement from the contemplative place, to a social place.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>    <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>A imagem como o&aacute;sis: o lugar e a paisagem perdida</b></p>     <p><b>The image as an Oasis: the place and the lost landscape</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Beatriz Basile da Silva Rauscher&#42;</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&#42;Brasil, artista visual. Graduada em Artes Pl&aacute;sticas pela Funda&ccedil;&atilde;o Armando Alvares Penteado (FAAP) S&atilde;o Paulo; mestre em Artes pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), SP; doutora em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre RS com Est&aacute;gio de doutorado na Universit&eacute; Sorbonne Nouvelle &#8211; Paris III, Paris, Fran&ccedil;a.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade  Federal  de  Uberl&acirc;ndia.  Programa  de  P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o  em  Artes.  Grupo  de  Pesquisa  Po&eacute;ticas  da  Imagem  UFU / CNPq.  Av. Jo&atilde;o  Naves  de  &Aacute;vila, 2121 &#8211; Bairro Santa  M&ocirc;nica  &#8211; Bloco IV Uberl&acirc;ndia &#8211; MG &#8211; CEP: 38408-100, Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b>    <br></p>     <p>Na an&aacute;lise da obra Ituporanga de Caio Reisewitz (Brasil, 1967), considerei a experi&ecirc;ncia do contato com o trabalho; a recorrente abordagem fotogr&aacute;fica da paisagem brasileira na produ&ccedil;&atilde;o do artista e seu discurso sobre o processo de cria&ccedil;&atilde;o, para observar de qual modo a instala&ccedil;&atilde;o promove o deslocamento do lugar contemplativo, para um lugar social, em um sentido pol&iacute;tico e cr&iacute;tico. </p>     <p><b><b>Palavras-chave:</b></b> Caio Reisewitz / paisagem / instala&ccedil;&atilde;o / site-specific.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b>    <br> </p>     <p>In the analysis of the work of art called Ituporanga, by Caio Reisewitz (Brasil,</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>1967), I took into consideration the experience felt through the contact with the work, the recurrent photographical approach to the Brazilian landscape in the production developed by the artist, and his discourse about the processes of creation, in order to understand how the art installation promotes the displacement from the contemplative place, to a social place.</p>     <p><b>Keywords:</b> Caio Reisewitz / landscape / art installation / site-specific.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>No bairro paulistano do Belenzinho, no ver&atilde;o de 2010, foi forjado um lugar de frescor em meio &agrave; aridez de asfalto e do concreto da megacidade: um lugar para contemplar a natureza. O dispositivo da cren&ccedil;a: uma fotografia de uma cachoeira impressa em 78 partes e colada na monumental janela do espa&ccedil;o multiuso do SESC Belenzinho (centro de cultura esporte e lazer). O artista: Caio Reisewitz, que tem como uma das marcas de sua produ&ccedil;&atilde;o fotogr&aacute;fica a abordagem rigorosa da paisagem natural brasileira. Num primeiro momento, restituir a experi&ecirc;ncia ancestral da desmesura da natureza parece ser o objetivo principal do investimento po&eacute;tico dessa instala&ccedil;&atilde;o, intitulada <i>Ituporanga</i> (<a href="#f1">Figura 1</a>). Veremos de que modo o dispositivo opera na ambiguidade do paradis&iacute;aco e melanc&oacute;lico simultaneamente.</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a21f1.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>Para pensar o dispositivo, colocarei em quest&atilde;o os modos com que o artista aciona aspectos diversos do sitio para reconstituir, atrav&eacute;s da imagem, a experi&ecirc;ncia da natureza e ir mais al&eacute;m. Considerei como ferramenta te&oacute;rica os tr&ecirc;s paradigmas de <i>site-specificity</i>, esquematizado por Miwon Kwon, ou seja, o "fenomenol&oacute;gico, social/institucional e discursivo" (Kwon, 2008:173), no&ccedil;&otilde;es que se sobrep&otilde;e operando simultaneamente em v&aacute;rias pr&aacute;ticas art&iacute;sticas contempor&acirc;neas. "Ituporanga" &eacute; um voc&aacute;bulo tupi-guarani que, atrav&eacute;s da jun&ccedil;&atilde;o dos termos y&#39;tu ("cachoeira") e porang ("bonito"), significa "cachoeira bonita". A topon&iacute;mia brasileira &eacute; repleta de palavras em tupi-guarani, assim, nossa geografia, batizada pelos &iacute;ndios, sempre ressoa, melancolicamente, a ideia de um para&iacute;so perdido. Reisewitz tira partido po&eacute;tico dos nomes dos lugares que fotografa, fazendo convergir com as belas imagens de serras, rios e florestas a ideia de natureza intocada e selvagem que tais nomes evocam.</p>     <p>A aura do passado est&aacute; tamb&eacute;m nas refer&ecirc;ncias que o artista afirma (2010) constitu&iacute;rem seu olhar: a pintura de paisagem dos artistas viajantes europeus do s&eacute;culo XVIII e brasileiros do s&eacute;culo XIX, e as fotografias de paisagens do s&eacute;culo XIX, tanto as da cole&ccedil;&atilde;o de D. Pedro II como as do fot&oacute;grafo Marc Ferrez (1843-1923). Percebo, no entanto, que, para que as belas paisagens fa&ccedil;am sentido diante da atual devasta&ccedil;&atilde;o da natureza e para que o artista possa ser absolvido de uma poss&iacute;vel acusa&ccedil;&atilde;o de "mero esteticismo", suas paisagens estabeleceram pontes com o ecol&oacute;gico, mesmo como subtexto de seu discurso.</p>     <p>Considero a obra de Reisewitz permeada pelas ambiguidades, expressas por Cauquelin a prop&oacute;sito da fun&ccedil;&atilde;o da paisagem como objeto cultural que reassegura a percep&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o e do tempo, pois, na atualidade, a paisagem pode ser fortemente evocada nas "tentativas de &#39;repensar&#39; o planeta como eco-socio-sistema", ao mesmo tempo em que nos leva ao "reconforto de uma paisagem-natureza, abrigo da pureza e refugio" (2007:12). Toda a obra de Reisewitz &eacute; assim: tomando partido da natureza do fotogr&aacute;fico, ele coloca as qualidades do vis&iacute;vel e do verdadeiro em tens&atilde;o. Vejo, ainda, que, em Ituporanga, a partir de um determinado dispositivo situacional, o artista ir&aacute; inflexionar os aspectos do contemplativo em rela&ccedil;&atilde;o ao reflexivo na constru&ccedil;&atilde;o de um site discursivo no sentido de Kwon.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Lugar f&iacute;sico: "a janela"</b></p>     <p>A fisicalidade do lugar &eacute; determinante em Ituporanga. Entrando no &aacute;trio do pr&eacute;dio do SESC, a janela de vidro, em sua monumentalidade, &eacute; presen&ccedil;a contundente. Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute;: seu recorte em ret&acirc;ngulos est&aacute; rebatido no ch&atilde;o de vidro que a espelha e, ao mesmo tempo, deixa ver a piscina ol&iacute;mpica no andar de baixo do edif&iacute;cio. Ch&atilde;o e parede de vidro colocam em jogo espelhamentos rec&iacute;procos (<a href="#f2">Figura 2</a>).</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a21f2.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>A vis&atilde;o da cachoeira refletida no piso se encontra com a &aacute;gua da piscina, como se nela desaguasse. A obra em contexto, exige a presen&ccedil;a corporal do espectador "em imediatidade sensorial da extens&atilde;o espacial e dura&ccedil;&atilde;o temporal &#91;...&#93; mais do que instantaneamente &#39;percebida&#39; em epifania visual por um olho sem corpo" (Kwon, 2008 :167). Se a cria&ccedil;&atilde;o de Reisewitz est&aacute; baseada na experi&ecirc;ncia corporal da arquitetura do lugar, esta transborda para a obra, tanto pela radicaliza&ccedil;&atilde;o do aspecto dimensional da imagem &#8211; j&aacute;, em certa medida, presente no programa do artista &#8211; quanto pela escolha do elemento &aacute;gua como objeto de refer&ecirc;ncia da natureza na paisagem. O que o artista quer com a imagem da grande queda d&#39;&aacute;gua &eacute; capitalizar para o trabalho as qualidades f&iacute;sicas do site, realocar as conting&ecirc;ncias do contexto no significado interno do objeto art&iacute;stico, e, para isso apela a um modelo de percep&ccedil;&atilde;o de ordem fenomenol&oacute;gica. </p>     <p>"Por esta janela me dou conta da paisagem" diz Cauquelin (2007: 136). A janela &eacute; o instrumento paisag&iacute;stico por excel&ecirc;ncia, pois produz o encolhimento necess&aacute;rio para manter o desmesurado e a for&ccedil;a eruptiva da natureza &agrave; dist&acirc;ncia (<i>ibidem</i>).</p>     <p>Reisewitz incorpora &agrave; <i>Ituporanga</i> a janela como dispositivo do olhar e da cren&ccedil;a, n&atilde;o para colocar a natureza &agrave; dist&acirc;ncia e sim para torn&aacute;-la mais pr&oacute;xima. Isto se produz pela tomada fotogr&aacute;fica: o artista neutraliza o ponto de vista do homem diante da grande queda d&#39;&aacute;gua. Seu olhar se constr&oacute;i a partir de um ponto de vista ideal, frontal e flutuante. Ao excluir a dimens&atilde;o do humano na representa&ccedil;&atilde;o da paisagem, quer forjar sua presen&ccedil;a e confront&aacute;-la com seu deslocamento pelo espa&ccedil;o da instala&ccedil;&atilde;o. Assim, de posse da paisagem enunciada pela fotografia, o artista a amplia, divide em partes e imprime em substrato transl&uacute;cido, para aderi-la aos ret&acirc;ngulos de vidro da janela, provocando a ilus&atilde;o de que a natureza, em toda a sua for&ccedil;a, est&aacute; mais perto, por&eacute;m, l&aacute; fora.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Lugar social: "o bairro; a institui&ccedil;&atilde;o"</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As pr&aacute;ticas art&iacute;sticas contempor&acirc;neas, informadas pelo pensamento contextual desafiaram "&#39;a inoc&ecirc;ncia&#39; do espa&ccedil;o e a concomitante pressuposi&ccedil;&atilde;o de um sujeito/espectador universal (apesar de possuidor de corpo f&iacute;sico) tal como defendia o modelo fenomenol&oacute;gico" (Kwon, 2008:168). Trata-se das pr&aacute;ticas de teor cr&iacute;tico-institucional que levar&atilde;o em conta, nas suas produ&ccedil;&otilde;es, os padr&otilde;es sociais do espectador. A observa&ccedil;&atilde;o da intera&ccedil;&atilde;o dos frequentadores do SESC, em contato com o trabalho, fez-me acreditar que o artista se perguntou "onde?" e "para quem?", ao conceber esta instala&ccedil;&atilde;o-paisagem.</p>     <p>Com um n&uacute;mero extraordin&aacute;rio de frequentadores, o Belenzinho &eacute; a maior unidade do SESC. Certamente, Reisewitz considerou o potencial de visibilidade do trabalho ao direcion&aacute;-lo para o local de intenso fluxo dentro do edif&iacute;cio, ou seja, o gigantesco &aacute;trio, um v&atilde;o livre do centro da torre do edif&iacute;cio de quatro andares, sobre a piscina. A concep&ccedil;&atilde;o de <i>Ituporanga</i> levou em conta a conex&atilde;o com este p&uacute;blico (nem sempre atento &agrave;s artes pl&aacute;sticas), poss&iacute;vel pela experi&ecirc;ncia coletiva associada ao lazer. Em oposi&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o institucional convencional, que isola a obra de arte do mundo externo, aqui, o trabalho coloca ativamente essa aproxima&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><i>Ituporanga</i> foi instalada por ocasi&atilde;o da inaugura&ccedil;&atilde;o do novo complexo, per&iacute;odo das f&eacute;rias de ver&atilde;o, que tornava seu parque aqu&aacute;tico de seis piscinas, com capacidade para duas mil pessoas, um especial atrativo. Assim, o local imprime marcas a esse trabalho. Acredito ser o artista sens&iacute;vel a este contexto potencializador de rela&ccedil;&otilde;es e intera&ccedil;&otilde;es p&uacute;blico-obra. A janela n&atilde;o seria um dispositivo paisag&iacute;stico engenhoso na obra sem a fun&ccedil;&atilde;o de oferecer espetacularmente o deleite da paisagem aos usu&aacute;rios do espa&ccedil;o e dos eventos que se programam ali.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Lugar discursivo: "da consci&ecirc;ncia; da evas&atilde;o"</b></p>     <p>Seria a possibilidade discursiva operada pelo s&iacute;tio capaz de tirar a obra <i>Ituporanga</i> de uma derrapagem no espetacular? Para Kwon, a busca por um engajamento tem entre as suas preocupa&ccedil;&otilde;es a integra&ccedil;&atilde;o da arte mais diretamente no &acirc;mbito social, seja para reendere&ccedil;ar problemas sociais urgentes ou para relativiz&aacute;-la como apenas uma entre muitas formas de trabalho cultural, tratando as preocupa&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas e hist&oacute;ricas da arte como quest&otilde;es secund&aacute;rias. Expandindo a arte na cultura; borrando a divis&atilde;o arte /n&atilde;o-arte.</p>     <p>Kwon chama de arte <i>site-oriented</i> trabalhos que se caracterizam por uma determina&ccedil;&atilde;o discursiva, na qual a obra &eacute; informada por uma gama mais ampla de disciplinas e se sintoniza com discursos populares. Podemos verificar esses aspectos a prop&oacute;sito da cria&ccedil;&atilde;o da obra: o artista, sobre esse processo, indica a pesquisa hist&oacute;rica realizada para conhecer as caracter&iacute;sticas originais &#8211; hidrogr&aacute;ficas e topogr&aacute;ficas &#8211; do bairro Belenzinho; sobre os primeiros habitantes do lugar, os &iacute;ndios Guaianases, e sobre o fato de que, em &eacute;pocas mais recentes, o bairro era &aacute;rea de banhos, de lazer e de desfrute do ar puro. Lugar de "riachos e cachoeiras que desembocavam no rio Tamanduate&iacute;" (Reisewitz, apud Ursaia, 2010). Assim, ao remeter ao passado do pr&oacute;prio lugar da obra, antecipa (e orienta) os sentidos e efeitos que o trabalho quer acessar.</p>     <p>Aspectos identit&aacute;rios do bairro, tomados de sua hist&oacute;ria como lugar, sobrepostos ao enquadramento institucional de car&aacute;ter comunit&aacute;rio, convergem para o discurso eleito pelo artista, que seleciona o conte&uacute;do que pretende gerar. Assim, o passado industrial do bairro, motivo de orgulho pela sua import&acirc;ncia econ&ocirc;mica, &eacute; preterido em favor da ideia de uma arc&aacute;dia paradis&iacute;aca, como lugar do &oacute;cio buc&oacute;lico e de prazer. Kwon ainda afirma que o site-oriented, diferentemente dos modelos anteriores, "n&atilde;o &eacute; definido como &#39;pr&eacute;-condi&ccedil;&atilde;o&#39;, mas antes &eacute; &#39;gerado&#39; pelo trabalho (frequentemente como "conte&uacute;do"), e ent&atilde;o &#39;comprovado&#39; mediante sua converg&ecirc;ncia com uma forma&ccedil;&atilde;o discursiva existente" (2008: 171).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assim, em oposi&ccedil;&atilde;o ao modelo de recep&ccedil;&atilde;o generalizante, Reisewitz prop&otilde;e um modo de aprecia&ccedil;&atilde;o orientado para uma comunidade (clientela) do centro que encomenda a obra. Aqui, antes que uma rela&ccedil;&atilde;o conflituosa ou contradit&oacute;ria, o artista adere ao projeto da institui&ccedil;&atilde;o ao modelar os significados do seu trabalho aos aspectos identit&aacute;rios do lugar. Em uma dupla via de interesses, enquanto a institui&ccedil;&atilde;o emoldura a obra em termos sociais e pol&iacute;ticos, a pr&oacute;pria obra imprime singularidade ao lugar (Kwon, 2008: 170).</p>     <p>Acredito que as v&aacute;rias camadas de sentidos, relacionadas aos lugares que <i>Ituporanga</i> p&otilde;e em movimento, n&atilde;o seriam poss&iacute;veis nas meras paisagens fotogr&aacute;ficas de Reisewitz. A efic&aacute;cia pol&iacute;tica da instala&ccedil;&atilde;o &eacute; por em pauta, intersubjetivamente, atrav&eacute;s de uma paisagem contemplativa, o discurso ecol&oacute;gico da urg&ecirc;ncia da preserva&ccedil;&atilde;o da natureza, para uma determinada comunidade que est&aacute; apenas em busca de se aliviar do calor.</p>     <p>Seria poss&iacute;vel ainda questionar esta efic&aacute;cia, considerando que os temas ecol&oacute;gicos est&atilde;o muito presentes na m&iacute;dia e j&aacute; parecem incorporados no discurso corrente, mas, ao encontrar a ancora localizacional no discusivo, <i>Ituporanga</i> associa o prazer contemplativo, oportunizado pela paisagem (natureza como miragem), &agrave; culpa pela sua inexist&ecirc;ncia de fato. Se h&aacute; um sentido ativista em <i>Ituporanga</i>, &eacute; enfatizar e "expandir a natureza social da produ&ccedil;&atilde;o e recep&ccedil;&atilde;o de arte" (Kwon, 2008:171) levando mais adiante algo j&aacute; presente no programa da obra de Reisewitz: a melancolia pela paisagem perdida.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Cauquelin, Anne (2007) <i>A inven&ccedil;&atilde;o da paisagem</i>. (Tradu&ccedil;&atilde;o de Marcos Marcionilo) S&atilde;o Paulo: Martins Fontes. ISBN 978-85-99102-53-4&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1428440&pid=S1647-6158201300020002100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Kwon, Miwon (2008) "Um lugar ap&oacute;s o outro: anota&ccedil;&otilde;es sobre site-specificity". <i>Revista Arte & Ensaios</i> n.17, pp.167-187. (Tradu&ccedil;&atilde;o de Jorge Menna Barreto) Rio de Janeiro: UFRJ. ISSN: 1516-1692.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1428441&pid=S1647-6158201300020002100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Reisewitz, Caio; Chaia, Miguel (2010) "Conversa entre Caio Reisewitz e Miguel Chaia" in: Reisewitz, Caio (2010) <i>Caio Reisewitz: parece verdade</i> ( curadoria de Fernando Cocchiarale). S&atilde;o Paulo: Cosac Naify. ISBN 978-85-7503-707-2&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1428443&pid=S1647-6158201300020002100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Ursaia, Renata (2010). <i>Ituporanga. Ensaio document&aacute;rio sobre instala&ccedil;&atilde;o do artista Caio Reisewitz no SESC Belenzinho, em dezembro de 2010</i> &#91;Consult. 2013-06-26&#93; Dispon&iacute;vel em <a href="http://vimeo.com/20557999" target="_blank">http://vimeo.com/20557999</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1428444&pid=S1647-6158201300020002100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Sobre o Sistema SESC. &#91;Consult. 2013-08-12&#93; Disponivel em <a href="http:http://www.sesc.com.br/portal/sesc/o_sesc/" target="_blank">http://www.sesc.com.br/portal/sesc/o_sesc/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1428445&pid=S1647-6158201300020002100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 5 de setembro e aprovado a 24 de setembro de 2013.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:beatriz.rauscher@gmail.com">beatriz.rauscher@gmail.com</a> (Beatriz Rauscher)</p>      ]]></body><back>
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