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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A cidade visível e a cidade tangível: A paisagem urbana como palimpsesto na obra de António Ole]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In the 70s, António Ole initiates a multidisciplinary artistic research around the architectures from the slums of Luanda ("musseques"). This resulted in the creation of a series of collages, photographs and installations that present fragments of urban landscapes confronting the viewer with the precariousness of the materials but also the resilience and improvisation who daily builds these survival structures.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>    <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>A cidade vis&iacute;vel e a cidade tang&iacute;vel. A paisagem urbana como palimpsesto na obra de Ant&oacute;nio Ole</b></p>     <p><b>The visible and the tangible city: the cityscape in the work of Ant&oacute;nio Ole</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Teresa Matos Pereira&#42;</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&#42;Portugal, artista pl&aacute;stica. Doutoramento em Belas Artes (especialidade de Pintura); Mestrado em Teorias da Arte; Licenciatura em Artes Pl&aacute;sticas (Pintura) &#8211; Faculdade de Belas Artes de Lisboa.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes, Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o e Estudos de Belas-Artes. Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058 Lisboa, Portugal. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b>    <br> </p>     <p>Na d&eacute;cada de 70, Ant&oacute;nio Ole inicia uma pesquisa art&iacute;stica multidisciplinar em torno das arquiteturas e viv&ecirc;ncias dos bairros pobres da cidade de Luanda (musseques). Desta resultaram um conjunto de fragmentos de paisagens urbanas que se apresentam sob a forma de fotografia, colagem ou instala&ccedil;&atilde;o confrontando o observador com a precariedade dos materiais mas tamb&eacute;m com a capacidade de resist&ecirc;ncia e improviso de quem diariamente constr&oacute;i estas estruturas de sobreviv&ecirc;ncia.</p>     <p><b><b>Palavras-chave:</b></b> Paisagem urbana / musseque / arquiteturas de sobreviv&ecirc;ncia / criatividade / resili&ecirc;ncia.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b>    <br> </p>     <p>In the 70s, Ant&oacute;nio Ole initiates a multidisciplinary artistic research around the architectures from the slums of Luanda ("musseques"). This resulted in the creation of a series of collages, photographs and installations that present fragments of urban landscapes confronting the viewer with the precariousness of the materials but also the resilience and improvisation who daily builds these survival structures.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Keywords:</b> Urban landscape / urban slum / architectures of survival / creativity / resilience.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Visualidade, tangibilidade e visibilidade</b></p>     <p>Ant&oacute;nio Ole (n. Luanda em 1951) ir&aacute; desenvolver um percurso multifacetado, dividido entre o cinema, a fotografia e as artes pl&aacute;sticas. Na d&eacute;cada de 1970 e in&iacute;cio dos anos 80 estuda cultura afro-americana na Universidade da Calif&oacute;rnia UCLA, licenciando-se em cinema no Center for Advanced American Film Studies, do Film Institute (Los Angeles).</p>     <p>Ao longo do seu percurso enquanto artista pl&aacute;stico Ant&oacute;nio Ole ir&aacute; realizar &ndash; atrav&eacute;s da pintura, da fotografia do v&iacute;deo e da instala&ccedil;&atilde;o &ndash; um conjunto de reflex&otilde;es est&eacute;ticas a quest&otilde;es que envolvem a hist&oacute;ria colonial de Angola, a diversidade cultural do pa&iacute;s, mas igualmente as viv&ecirc;ncias do quotidiano urbano da cidade de Luanda, onde reside e trabalha.</p>     <p>As incurs&otilde;es pl&aacute;sticas e fotogr&aacute;ficas ao espa&ccedil;o urbano, desenvolvidas por Ant&oacute;nio Ole, definem-se em planos de significa&ccedil;&atilde;o que problematizam as v&aacute;rias modalidades do ver, onde o sentido da paisagem &eacute; discutido n&atilde;o s&oacute; na sua visualidade mas acima de tudo num plano da visibilidade.</p>     <p>Neste caso consideramos em primeiro lugar que a dimens&atilde;o visual da paisagem sup&otilde;e simultaneamente a exist&ecirc;ncia de uma realidade concreta e uma codifica&ccedil;&atilde;o do que &eacute; observado &#8211; traduzido atrav&eacute;s de uma imagem. Em segundo lugar, o plano visual apresenta-se como ponto de partida para um olhar que indaga a visibilidade dessa imagem, envolvendo um processo elaborado de reflex&atilde;o onde se articulam elementos visuais, experi&ecirc;ncias e mem&oacute;rias, resultando na cria&ccedil;&atilde;o de no&ccedil;&otilde;es que se v&atilde;o sedimentando a v&aacute;rios n&iacute;veis das subjetividades individuais, coletivas e sociais.</p>     <p>Assim, os fragmentos da paisagem urbana de Luanda, designadamente dos bairros pobres (musseques) n&atilde;o poder&aacute; ser encarados apenas na sua dimens&atilde;o puramente visual mas integram-se numa reflex&atilde;o mais ampla em torno da hist&oacute;ria do pa&iacute;s e da sociedade que inevitavelmente foram moldando o espa&ccedil;o da cidade, deixando impressos na sua epiderme os vest&iacute;gios da passagem do tempo e da a&ccedil;&atilde;o humana.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. texturas da cidade</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O interesse inicial pela arquitetura e pelo urbanismo na d&eacute;cada de 70 coincide com as primeiras experi&ecirc;ncias na fotografia, no &acirc;mbito da qual Ole inicia um conjunto de retratos dos habitantes dos musseques que mais tarde se alargar&atilde;o &agrave;s estruturas prec&aacute;rias que comp&otilde;em estes bairros perif&eacute;ricos da cidade de Luanda. Estas investidas est&eacute;ticas pelos musseques resultam numa gradual aproxima&ccedil;&atilde;o ao fragmento, extra&iacute;do de paisagens em incessante muta&ccedil;&atilde;o, alimentadas pela mis&eacute;ria, resili&ecirc;ncia e criatividade.</p>     <p>Ao mesmo tempo esta abordagem est&eacute;tica a uma paisagem socialmente estigmatizada revelar-se-&aacute; ao logo do percurso de Ant&oacute;nio Ole, sob diversas modalidades estabelecendo, contudo, uma din&acirc;mica de intervisualidade, que atravessa as v&aacute;rias dimens&otilde;es pl&aacute;sticas da sua obra.</p>     <p>Neste sentido iremos considerar alguns dos seus projetos quer no &acirc;mbito da fotografia quer das artes pl&aacute;sticas ou da instala&ccedil;&atilde;o onde a reflex&atilde;o em torno da paisagem urbana &#8211; entendida n&atilde;o s&oacute; nas suas dimens&otilde;es visuais mas igualmente sociais e hist&oacute;ricas &#8211; assume uma tamb&eacute;m uma vertente interventiva que, longe de fazer uma qualquer "apologia da pobreza" denuncia, ao inv&eacute;s, a capacidade de resist&ecirc;ncia dos habitantes/construtores de tais paisagens &ndash; tanto em termos sociol&oacute;gicos como hist&oacute;ricos.</p>     <p>Este fato &eacute; aflorado por exemplo nos document&aacute;rios que Ant&oacute;nio Ole realiza no final da d&eacute;cada, designadamente o filme "<i>O Ritmo dos N&#39;Gola Ritmos</i>" onde se det&eacute;m nos sucessivos estratos que comp&otilde;em as habita&ccedil;&otilde;es destes bairros pobres, afirmando que "os musseques crescem ao ritmo da hist&oacute;ria; crescem, multiplicam--se &#91;&#8230;&#93; superf&iacute;cies, arranjo &#8230; a mis&eacute;ria criando as suas armas de defesa" (Ole: 1978) Posteriormente esta pesquisa resultar&aacute; n&atilde;o s&oacute; em s&eacute;ries de fotografias que retratam vest&iacute;gios de arquiteturas marcadas pelo abandono onde a passagem do tempo e a ru&iacute;na n&atilde;o deixam de se constituir como met&aacute;foras de uma realidade violenta onde os seus atores, embora fisicamente ausentes, s&atilde;o convocados atrav&eacute;s de uma cenografia fantasmag&oacute;rica.</p>     <p>Nas palavras do autor estas imagens constituem-se como "&#91;&#8230;&#93; um jogo c&eacute;nico sem personagens. N&atilde;o est&atilde;o ali fisicamente mas deixaram o seu rasto irrepar&aacute;vel, criado pelo espetro das ruinas e do absurdo" (Ole, 2003: 18).</p>     <p>No tr&iacute;ptico <i>Urban Choices (I)</i> (<a href="#f1">Figura 1</a>) este rasto &eacute; pressentido atrav&eacute;s das sucessivas camadas que sobressaem das paredes em deteriora&ccedil;&atilde;o e que metaforicamente se configuram como palimpsestos reescritos e reconfigurados ao longo do tempo pela ocupa&ccedil;&atilde;o e abandono, onde a epiderme das estruturas urbanas emerge como suporte simb&oacute;lico de uma realidade social corro&iacute;da pela guerra.</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a24f1.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>Neste caso poderemos falar numa "est&eacute;tica do fragmento" onde a precariedade e a descontinuidade podem abrir a possibilidade de releituras e de ressemantiza&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>3. A paisagem urbana como s&iacute;mbolo de resili&ecirc;ncia</b></p>     <p>A instala&ccedil;&atilde;o "<i>Na Margem da Zona Limite</i>" de 1994 no Teatro Elinga em Luanda (<a href="#f2">Figura 2</a>) marcar&aacute; simultaneamente o culminar de um processo criativo desenvolvido pelo artista durante os anos anteriores onde a pintura se vai assumindo como suporte mat&eacute;rico de processos de acumula&ccedil;&atilde;o (de vest&iacute;gios, caligrafias e imagens) atrav&eacute;s da colagem, mas tamb&eacute;m como ponto de partida para um conjunto de instala&ccedil;&otilde;es intituladas Township Walls que o artista vai apresentando nas diversas exposi&ccedil;&otilde;es internacionais &ndash; Chicago 2001, Veneza 2003, Lisboa 2003 (<a href="#f3">Figura 3</a>), D&uuml;sseldorf 2004 (<a href="#f4">Figura 4</a>), e Washington (2009) &#8211; e que integram igualmente vest&iacute;gios urbanos recolhidos nas cidades onde realiza as instala&ccedil;&otilde;es de grande escala.</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a24f2.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a24f3.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a24f4.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>As fachadas dos musseques de Luanda surgem como evoca&ccedil;&otilde;es de uma paisagem urbana que configura uma diversidade de geografias humanas e sociais onde a temporalidade fragmentada da hist&oacute;ria se reflete na materialidade da obra. Em <i>Margem da Zona Limite</i> &ndash; e posteriormente nas <i>Township Walls</i> &ndash; come&ccedil;a por integrar uma constru&ccedil;&atilde;o formada por chapas met&aacute;licas, t&aacute;buas, fragmentos arquitet&oacute;nicos (portas, janelas&#8230;), etc., que evocando a arquitetura dos musseques, confronta o observador com a precariedade dos materiais mas tamb&eacute;m a capacidade de resist&ecirc;ncia e improviso de quem diariamente constr&oacute;i estas <i>estruturas de sobreviv&ecirc;ncia</i>.</p>     <p>Estas instala&ccedil;&otilde;es exploram por um lado, a criatividade contingente dos construtores ef&eacute;meros destas habita&ccedil;&otilde;es &#8211; <i>estruturas de sobreviv&ecirc;ncia</i> como vir&aacute; a chamar-lhes &#8211; e por outro evocam a capacidade humana de superar as dificuldades mesmo dispondo de escassos recursos. Nas palavras do autor</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote><i>Durante todos estes anos o meu trabalho foi &agrave; volta das "urbanidades", da observa&ccedil;&atilde;o destes mecanismos de resist&ecirc;ncia e sobreviv&ecirc;ncia. A minha arte &eacute; muito sobre isso, sobre como se supera, como se sobrevive</i> (Ole: 2009)</blockquote></p>     <p>Neste sentido, para l&aacute; da dimens&atilde;o visual e pl&aacute;stica estas instala&ccedil;&otilde;es n&atilde;o deixam de evocar em primeiro lugar, uma dimens&atilde;o sociol&oacute;gica que acompanha a hist&oacute;ria da pr&oacute;pria cidade de Luanda, constituindo-se igualmente como elementos de reflex&atilde;o em torno da hist&oacute;ria violenta de Angola &#8211; quer durante o per&iacute;odo colonial quer ap&oacute;s a independ&ecirc;ncia do pa&iacute;s &ndash; onde as estruturas e fachadas vis&iacute;veis denunciam uma textura deixada pelo tempo, pelas viv&ecirc;ncias e tr&acirc;nsitos humanos.</p>     <p>Na verdade, o crescimento da cidade sobretudo a partir do final da II Guerra Mundial &ndash; em virtude de um crescimento populacional e econ&oacute;mico &ndash; esteve na origem de uma separa&ccedil;&atilde;o cada vez mais acentuada entre a cidade do asfalto (a cidade colonial) e os bairros perif&eacute;ricos de constru&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria e configura&ccedil;&atilde;o labir&iacute;ntica onde residia a popula&ccedil;&atilde;o pobre, o espa&ccedil;o f&iacute;sico e social dos colonizados, dos marginalizados e cuja fisionomia estava em permanente transfigura&ccedil;&atilde;o. No final da d&eacute;cada de 50 e sobretudo na d&eacute;cada de 60 ser&aacute; nesta outra cidade de terra batida, que os movimentos nacionalistas ir&atilde;o encontrar um terreno f&eacute;rtil &agrave; sua propaga&ccedil;&atilde;o, assumindo igualmente um outro sentido de resist&ecirc;ncia (neste caso de sentido hist&oacute;rico contra o colonialismo).</p>     <p>As fachadas do musseque, reconfiguradas nas instala&ccedil;&otilde;es de Ant&oacute;nio Ole representam tamb&eacute;m uma segrega&ccedil;&atilde;o que, sendo inicialmente racial durante o per&iacute;odo colonial, transformou-se posteriormente numa segrega&ccedil;&atilde;o social separando o territ&oacute;rio de diferentes classes.</p>     <p>Esta dial&eacute;tica entre resist&ecirc;ncia, sobreviv&ecirc;ncia e criatividade que alimenta o processo criativo do artista, alarga-se para l&aacute; dos limites da cidade de Luanda estendendo-se a outras cidades onde constr&oacute;i as suas <i>Township Walls</i> recolhendo localmente os materiais que as ir&atilde;o compor. Na verdade o autor explica que as instala&ccedil;&otilde;es s&atilde;o "&#91;&#8230;&#93; sempre diferentes, com materiais recolhidos em cada um dos lugares onde foram feitas e ap&oacute;s visitas a espa&ccedil;os das respetivas cidades que tivessem a ver com essa problem&aacute;tica &ndash; sempre a da arquitetura ligada a esquemas de sobreviv&ecirc;ncia" Estas <i>Township Walls</i> iriam estar na origem da instala&ccedil;&atilde;o integrada na exposi&ccedil;&atilde;o <i>Who Knows Tomorrow</i> e intitulada <i>The Entire World/Transitory Geometry</i> (2010) no Hamburger Bahnhof &#8211; Museu de arte contempor&acirc;nea em Berlim, onde o artista realiza uma parede composta por contentores e que &ndash; para l&aacute; da alus&atilde;o ao muro que dividiu a cidade durante cerca de 29 anos &#8211; permite estabelecer um feixe de significados que sintetiza a reflex&atilde;o est&eacute;tica desenvolvida por Ant&oacute;nio Ole desde a d&eacute;cada de 70. Partindo de uma refer&ecirc;ncia aos fluxos comerciais e migrat&oacute;rios transnacionais problematiza as conting&ecirc;ncias a que os imigrantes enfrentam nas metr&oacute;poles ocidentais, relembrando &#8211; atrav&eacute;s da recolha de materiais in loco &ndash; as condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias em que estes (sobre)vivem e integrando transitoriamente as paisagens urbanas transformando-as, complexificando-as.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4. Nota final</b></p>     <p>A pesquisa realizada por Ant&oacute;nio Ole em torno da paisagem urbana constitui, como vimos, uma componente essencial do seu percurso art&iacute;stico permitindo articular as dimens&otilde;es da perce&ccedil;&atilde;o, da mem&oacute;ria sensorial e da plasticidade inerentes &agrave; deambula&ccedil;&atilde;o pelos diversos espa&ccedil;os da cidade com uma reflex&atilde;o mais alargada acerca da resili&ecirc;ncia humana face &agrave; viol&ecirc;ncia (quer em termos hist&oacute;ricos quer vivenciais).</p>     <p>Na verdade, as estruturas abandonadas ou as fachadas do musseque v&atilde;o testemunhando, atrav&eacute;s de letreiros, sinais, cicatrizes, acidentes e texturas impressas nas superf&iacute;cies dos materiais, os tr&acirc;nsitos e a&ccedil;&atilde;o humana, mas tamb&eacute;m problematizam as diversas fronteiras/margens existentes no tecido urbano onde a fisicalidade dos materiais surge como uma pele que corporiza a invisibilidade das rela&ccedil;&otilde;es humanas nos v&aacute;rios espa&ccedil;os da cidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <p>AA.VV. (1997) <i>Ant&oacute;nio Ole: Retrospetiva 1967/1997</i>. Luanda: Centro Cultural Portugu&ecirc;s &ndash; Instituto Cam&otilde;es.</p>     <!-- ref --><p>AA.VV. (2004) <i>Ant&oacute;nio Ole: Marcas de um Percurso</i>. Lisboa: Culturgest.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1428688&pid=S1647-6158201300020002400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>AA.VV. (2009) <i>Ant&oacute;nio Ole: Na Pele da Cidade</i>. Luanda: Instituto Cam&otilde;es &ndash; Centro Cultural Portugu&ecirc;s. </p>     <p>Mixinge, Adriano (1999) "Ant&oacute;nio Ole &ndash; La Traves&iacute;a desde Angola". <i>Lapiz</i>, Madrid, n&ordm;155, (Julho), pp. 61 &#8211; 67.</p>     <!-- ref --><p>Mixinge, Adriano (2011). "Ant&oacute;nio Ole, un artiste en constant renouvellement", in <i>Angola : Figures de Pouvoir.</i> Paris : Mus&eacute;e Dapper, pp. 269-271.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1428692&pid=S1647-6158201300020002400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Piedade, Joana Sim&otilde;es (2009). <i>Ant&oacute;nio Ole : Texturas Urbanas</i>. &#91;Consult. 2013-08-23&#93; Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.opais.net/pt/revista/?id=1639&det=7972&mid=1" target="_blank">http://www.opais.net/pt/revista/?id=1639&det=7972&mid=1</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1428694&pid=S1647-6158201300020002400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Ole, Ant&oacute;nio (1978) <i>O Ritmo dos N&#39;Gola Ritmos</i>. Document&aacute;rio&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1428695&pid=S1647-6158201300020002400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 6 de setembro e aprovado a 24 de setembro de 2013</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:teresamatospereira@yahoo.com">teresamatospereira@yahoo.com</a> (Teresa Matos Pereira)</p>      ]]></body><back>
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