<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1647-6158</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista :Estúdio]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Estúdio]]></abbrev-journal-title>
<issn>1647-6158</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1647-61582013000200041</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Petrit Halilaj, Poisoned by men in need of some love: Uma exposição de histórias que contam a história de um País]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Petrit Halilaj, Poisoned by men in need of some love: An exhibition of stories telling the History of a country]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Santos]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luísa]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,European university Viadrina Faculty of Social and Cultural Sciences & Humboldt Viadrina School of Governance]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Frankfurt Alemanha]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2013</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2013</year>
</pub-date>
<volume>4</volume>
<numero>8</numero>
<fpage>298</fpage>
<lpage>309</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582013000200041&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582013000200041&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582013000200041&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Como é que uma exposição ou um trabalho artístico pode ser social e político? Nos anos 70, Joseph Beuys introduziu o conceito de escultura social que proclamava que os espectadores se tornariam os catalisadores para a transformação da sociedade. Este artigo pretende descobrir as preocupações artísticas em relação à sociedade através do trabalho de Petrit Halilaj na sua mais recente exposição.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[How can an exhibition or an artwork be social and political? In the 1970s, Joseph Beuys coined the term social sculpture, which proclaimed that spectators would become the catalists for social transformation. This paper intends to discover the artistic preocupations towards society through the work of Petrit Halilaj in his most recent exhibition.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Petrit Halilaj]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[crítica social]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[política]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[arte relacional]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[narrativa]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Petrit Halilaj]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[social critique]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[politics]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[relational art]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[narrative]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER: ARTIGOS ORIGINAIS POR AUTORES CONVIDADOS</b></p>     <p align="right"><b>DOSSIER: INVITED ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Petrit Halilaj, Poisoned by men in need of some love: Uma exposi&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;rias que contam a hist&oacute;ria de um Pa&iacute;s</b></p>     <p><b>Petrit Halilaj, Poisoned by men in need of some love: An exhibition of stories telling the History of a country</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lu&iacute;sa Santos&#42;</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&#42;Portugal, designer de comunica&ccedil;&atilde;o e curadora. Licenciada em Design de Comunica&ccedil;&atilde;o pela Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes e Mestre em Curating Contemporary Art pelo Royal College of Art, Londres. Frequenta o Doutoramento na European university Viadrina.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Frequenta doutoramento na European university Viadrina, Faculty of Social and Cultural Sciences & Humboldt-Viadrina School of Governance , CCCPM (Cross-Cultural Complex Project Management. Main building, HG 057, Grosse Scharrnstrasse 59, 15230 Frankfurt (Oder), Alemanha.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b>    <br></p>     <p>Como &eacute; que uma exposi&ccedil;&atilde;o ou um trabalho art&iacute;stico pode ser social e pol&iacute;tico? Nos anos 70, Joseph Beuys introduziu o conceito de escultura social que proclamava que os espectadores se tornariam os catalisadores para a transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade. Este artigo pretende descobrir as preocupa&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sociedade atrav&eacute;s do trabalho de Petrit Halilaj na sua mais recente exposi&ccedil;&atilde;o.</p>     <p><b><b>Palavras-chave:</b></b> Petrit Halilaj, cr&iacute;tica social, pol&iacute;tica, arte relacional, narrativa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT</b>    <br> </p>     <p>How can an exhibition or an artwork be social and political? In the 1970s, Joseph Beuys coined the term social sculpture, which proclaimed that spectators would become the catalists for social transformation. This paper intends to discover the artistic preocupations towards society through the work of Petrit Halilaj in his most recent exhibition. </p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Keywords:</b> Petrit Halilaj, social critique, politics, relational art, narrative.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Petrit Halilaj (n. 1986, Kost&euml;rrc, Kosovo) segue uma tradi&ccedil;&atilde;o de arte contempor&acirc;nea que demonstra preocupa&ccedil;&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas que tem ra&iacute;zes hist&oacute;ricas como a miss&atilde;o ut&oacute;pica de Joseph Beuys de "construir um organismo social enquanto trabalho art&iacute;stico" e de transformar arte no "&uacute;nico poder evolucion&aacute;rio e revolucion&aacute;rio" (cf. citado em Bishop, 2006: 125). Esta miss&atilde;o de Beuys tem um contexto hist&oacute;rico, enraizado na cultura e ambiente social do P&oacute;s-Guerra da Segunda Guerra Mundial na Alemanha. O contexto de Halilaj &eacute; a queda do Comunismo e a dissolu&ccedil;&atilde;o do estado Socialista depois de 1989 na ex-Jugosl&aacute;via, caracterizados por conflitos &eacute;tnicos, tens&otilde;es culturais, e uma guerra civil que levou um pa&iacute;s e um povo fragilizados, bem como as suas tradi&ccedil;&otilde;es, institui&ccedil;&otilde;es e museus a um caos tr&aacute;gico.</p>     <p>Este artigo come&ccedil;a por contextualizar historicamente as circunst&acirc;ncias sociais e pol&iacute;ticas do trabalho de Petrit Halilaj como forma de localizar as suas ideias e respostas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sociedade que o rodeia. Estas ideias s&atilde;o o tema do artigo, que pretende, no seu desenvolvimento, come&ccedil;ar por observar o contexto hist&oacute;rico das preocupa&ccedil;&otilde;es e criticas sociais na arte contempor&acirc;nea em geral. De seguida, pretende-se olhar para estas inquieta&ccedil;&otilde;es, de um modo mais concreto, atrav&eacute;s do trabalho de Halilaj, no exemplo especifico da sua mais recente exposi&ccedil;&atilde;o, no Museu WIELS, em Bruxelas, de 7 de Setembro de 2013 a 5 de Janeiro de 2014. Ao longo do artigo, em termos de m&eacute;todo cient&iacute;fico, percebe-se o uso do m&eacute;todo narrativo (Boje, 2001), escolhido pelas caracter&iacute;sticas do trabalho do artista e para permitir uma leitura subjectiva e aberta, em vez de uma leitura dogm&aacute;tica. No entanto, para os objectivos deste texto, n&atilde;o h&aacute; um cap&iacute;tulo dedicado &agrave; metodologia. O artigo conclui com uma breve reflex&atilde;o sobre o poss&iacute;vel papel social da arte contempor&acirc;nea.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Contexto hist&oacute;rico no Kosovo: queda do Comunismo, dissolu&ccedil;&atilde;o do socialismo, depois de 1989</b></p>     <p>Em 1945, depois da Segunda Guerra Mundial, a Rep&uacute;blica Socialista Federativa da Jugosl&aacute;via foi formada enquanto Estado socialista dirigido por Josip Broz Tito. Tito diminuiu a influ&ecirc;ncia dos dois maiores grupos &eacute;tnicos da &eacute;poca, os s&eacute;rvios e os croatas, para proporcionar uma maior representatividade para todos os outros, refor&ccedil;ando a diversidade &eacute;tnica nos Balc&atilde;s. Tito desobedeceu a Stalin, escolhendo a sua pr&oacute;pria vis&atilde;o de socialismo, independente dos par&acirc;metros impostos pelos sovi&eacute;ticos no leste europeu, atrav&eacute;s das democracias-populares. Tito era reconhecido e respeitado pelo povo pela enorme valoriza&ccedil;&atilde;o das diversidades &eacute;tnicas que inclu&iacute;am diferen&ccedil;as religiosas e idiom&aacute;ticas (dois idiomas com alfabetos diferentes). Ao ignorar e desafiar as ordens de Hitler e, mais tarde, de Stalin, conseguiu manter a Jugosl&aacute;via em paz durante a Guerra Fria.</p>     <p>Depois da morte de Tito, em 1980, uma crise constitucional instaurou o nacionalismo em todas as rep&uacute;blicas e prov&iacute;ncias. A maioria albanesa no Kosovo exigiu o estatuto de rep&uacute;blica enquanto que a S&eacute;rvia come&ccedil;ou a exercer controlo sobre suas prov&iacute;ncias aut&oacute;nomas e exigiu que todos os governos fossem todos de um &uacute;nico partido pol&iacute;tico. Com a morte de Tito, morreu tamb&eacute;m a defesa pela diversidade &eacute;tnica nos Balc&atilde;s.</p>     <p>Em Janeiro de 1990, foi convocado o 14&ordm; Congresso Extraordin&aacute;rio da Liga dos Comunistas da Jugosl&aacute;via, composto, em grande parte, pelas delega&ccedil;&otilde;es eslovenas e s&eacute;rvias. A delega&ccedil;&atilde;o s&eacute;rvia, liderada por Milo&#353;evi&cacute;, insistiu em privilegiar a popula&ccedil;&atilde;o mais numerosa, os s&eacute;rvios. Os eslovenos, por seu lado, com o apoio dos croatas, propuseram uma reforma da Jugosl&aacute;via que daria mais poder &agrave;s rep&uacute;blicas, numa continua&ccedil;&atilde;o do enfoque dado por Tito &agrave; diversidade cultural, mas foram derrotados na vota&ccedil;&atilde;o. Como resultado, as delega&ccedil;&otilde;es eslovena e croata abandonaram o Congresso, e o Partido Comunista da Jugosl&aacute;via foi dissolvido.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cerca de um ano e meio mais tarde, no dia 25 de Junho 1991, a Eslov&eacute;nia e a Cro&aacute;cia declararam independ&ecirc;ncia da Jugosl&aacute;via. Na Eslov&eacute;nia, a Defesa Territorial Eslovena, uma organiza&ccedil;&atilde;o paramilitar estabelecida na constitui&ccedil;&atilde;o de 1974, delimitou as fronteiras Jugoslavas com a &Aacute;ustria e a It&aacute;lia. Paralelamente, Milo&#353;evi&cacute;, presidente da S&eacute;rvia e Tudjman, presidente da Cro&aacute;cia, assinaram o acordo de Kara&#273;or&#273;evo que veio dividir a B&oacute;snia (em emergente independ&ecirc;ncia) entre s&eacute;rvios e croatas. No mesmo ano, rebentou a Guerra de Independ&ecirc;ncia da Cro&aacute;cia. Os s&eacute;rvios &eacute;tnicos criaram seu pr&oacute;prio estado, a Rep&uacute;blica S&eacute;rvia da Krajina, em regi&otilde;es maioritariamente habitadas por s&eacute;rvios. A Cro&aacute;cia, negou-se a reconhecer tais entidades, e a guerra foi declarada entre a rec&eacute;m formada Rep&uacute;blica da Cro&aacute;cia e os dissidentes servo-croatas.</p>     <p>No Kosovo, ao longo da d&eacute;cada de 1990, a lideran&ccedil;a da popula&ccedil;&atilde;o albanesa adoptou t&eacute;cnicas de resist&ecirc;ncia sem recurso a viol&ecirc;ncia. Em 1996, os albaneses radicais formaram o Ex&eacute;rcito de Liberta&ccedil;&atilde;o do Kosovo, que tomou medidas com uso de for&ccedil;a e armas na prov&iacute;ncia meridional da S&eacute;rvia. A Jugosl&aacute;via respondeu com uso indiscriminado de for&ccedil;a contra popula&ccedil;&otilde;es civis, e originou a exist&ecirc;ncia de muitos refugiados albaneses &eacute;tnicos. Depois do fracasso da Confer&ecirc;ncia de Rambouillet no in&iacute;cio de 1999, que pretendia estabelecer a paz entre os representantes da Jugosl&aacute;via, a OTAN (Organiza&ccedil;&atilde;o do Tratado do Atl&acirc;ntico Norte) come&ccedil;ou a bombardear a S&eacute;rvia e o Montenegro por cerca de tr&ecirc;s meses, at&eacute; que o governo de Milo&#353;evi&cacute; retirou as suas for&ccedil;as do Kosovo. Desde Junho de 1999, a prov&iacute;ncia tem sido governada por for&ccedil;as de paz da OTAN e, at&eacute; 2003, tamb&eacute;m por for&ccedil;as militares da R&uacute;ssia.</p>     <p>Depois de uma s&eacute;rie de conflitos que se seguiram &agrave; Guerra de Independ&ecirc;ncia Croata (1991-1995), &agrave; Guerra da B&oacute;snia (1992-1995) e &agrave; Guerra de Kosovo (1998-1999), formaram-se sete pa&iacute;ses a partir da antiga Jugosl&aacute;via. O Kosovo &eacute; administrado pelas Na&ccedil;&otilde;es Unidas, apesar de ter declarado unilateralmente a sua independ&ecirc;ncia em 2008. Estes conflitos de quase tr&ecirc;s d&eacute;cadas deixaram mais de 30.000 mortos e 10.000 feridos e marcaram o fim da Jugosl&aacute;via e das suas caracter&iacute;sticas culturais diversas, defendidas por Tito at&eacute; &agrave; sua morte, em 1980.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. A Arte Contempor&acirc;nea e as suas preocupa&ccedil;&otilde;es sociais, uma contextualiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica</b></p>     <p>A produ&ccedil;&atilde;o de arte &eacute; considerada um comportamento humano universal, inata &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o pessoal e interpessoal (Malchiodi, 2007). Em d&eacute;cadas recentes, os artistas t&ecirc;m vindo a alargar as fronteiras da arte, em tentativas de tocar a vida em di&aacute;logos entre o conforto do quotidiano e a estranheza do desconhecido e entre a observa&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica e o observa&ccedil;&atilde;o e ac&ccedil;&atilde;o cr&iacute;ticas. O pluralismo de representa&ccedil;&otilde;es da arte e as suas interpreta&ccedil;&otilde;es neste processo de alargar fronteiras, tem como ponto comum a observa&ccedil;&atilde;o critica e a tentativa de interven&ccedil;&atilde;o na sociedade e na sua cultura.</p>     <p>No Manifesto para uma Revolu&ccedil;&atilde;o Independente da Arte, assinado por Andr&eacute; Breton e Diego Rivera (1938) (acredita-se que Trotsky e Andr&eacute; Breton escreveram o Manifesto apesar de ter sido assinado por Rivera e Breton), sob os efeitos sociais do fascismo Alem&atilde;o e do estalinismo Russo, defendiam que a arte s&oacute; poderia ser revolucion&aacute;ria e ter um efeito na sociedade sendo independente de quaisquer constru&ccedil;&otilde;es sociais:</p>     <blockquote><i>A verdadeira arte, que n&atilde;o se satisfaz em fazer varia&ccedil;&otilde;es de modelos existentes mas que insiste em expressar as necessidades interiores do homem e da humanidade no seu tempo &#8211; a arte verdadeira n&atilde;o pode n&atilde;o ser revolucion&aacute;ria, n&atilde;o aspirar a uma reconstru&ccedil;&atilde;o radical da sociedade </i>(Breton e Rivera, 1938).</blockquote></p>     <p>O conceito de Breton e Rivera, quanto &agrave; independ&ecirc;ncia da arte, afirmava ent&atilde;o que a arte se for verdadeira, teria que ter um papel na cultura e na sociedade. O Manifesto opunha-se ao reacion&aacute;rio:</p>     <blockquote><i>A arte revolucion&aacute;ria independente tem que juntar as suas for&ccedil;as para a luta contra a persegui&ccedil;&atilde;o reacion&aacute;ria. Tem que proclamar alto pelo seu direito de existir. Uma uni&atilde;o de for&ccedil;as deste tipo &eacute; o objectivo da International Federation of Independent Revolutionary Art (Federa&ccedil;&atilde;o Internacional de Arte Revolucion&aacute;ria Independente) que acreditamos ser agora necess&aacute;ria &agrave; forma </i>(Breton e Rivera, 1938).</blockquote></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O Manifesto teve seguidores como Herbert Marcuse que, nas suas cartas para os Surrealistas de Chicago (Marcuse, 1971), citou esta parte do Manifesto (Marcuse, 1971) para clarificar a sua posi&ccedil;&atilde;o de que a arte n&atilde;o &eacute; revolucion&aacute;ria por fazer pedidos &agrave; classe trabalhadora e por juntar as massas para se manifestarem nas ruas. Para ele, numa sociedade capitalista, a classe trabalhadora seria sempre manipulada e, como tal, a revolu&ccedil;&atilde;o seria um trabalho da arte que poderia subverter a realidade instrumentalizada e dar poder &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Nos anos 70, a rela&ccedil;&atilde;o da arte com a sociedade surgiu quase sempre conotada com o termo Escultura Social, um conceito inventado pelo artista alem&atilde;o Joseph Beuys (1921 &#8211; 1986) com uma s&eacute;rie de semin&aacute;rios p&uacute;blicos no inicio dos anos 70, a que chamou de "Energy Plan for the Western Man". O termo escultura social era dirigido a um tipo de arte que acontecia no dom&iacute;nio social e, para ser completo, precisava de participa&ccedil;&atilde;o de uma audi&ecirc;ncia (Kuoni, 1990). Beuys acreditava que os espectadores tornavam-se participantes e, assim, catalisadores para uma escultura social que transformaria a sociedade pela liberta&ccedil;&atilde;o da criatividade popular.</p>     <p>Nos anos 90, as refer&ecirc;ncias ao papel da arte na sociedade surgiram quase sempre ligadas ao termo pr&aacute;tica social. Este termo aparece repetido &agrave; exaust&atilde;o em textos de artistas e cr&iacute;ticos de arte contempor&acirc;neos nas suas reflex&otilde;es sobre arte que pede participa&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico. Ac&ccedil;&atilde;o, arte enquanto espa&ccedil;o p&uacute;blico e arte enquanto interac&ccedil;&atilde;o e participa&ccedil;&atilde;o tornaram-se ideias associadas ao termo.</p>     <p>No livro Est&eacute;tica Relacional (1998), Bourriaud observou a "arte enquanto lacuna social" (cf. citado Bishop, 2006: 160). Composto por uma colec&ccedil;&atilde;o de ensaios, o livro de Bourriaud elevou uma ent&atilde;o nova forma de produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, colocando o foco em trabalhos art&iacute;sticos que tomavam como seu "horizonte te&oacute;rico o mundo das interac&ccedil;&otilde;es humanas e o seu contexto social em vez de uma afirma&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o privado e simb&oacute;lico" (Bourriaud, 1998: 14). Nesta colec&ccedil;&atilde;o de ensaios, Bourriaud apresentou uma sustenta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica para pr&aacute;ticas de arte de artistas como Rirkrit Tiravanija, Philippe Parreno, e Vanessa Beecroft que mostravam preocupa&ccedil;&otilde;es com o dia-a-dia e com comportamento humano e produziam espa&ccedil;os de conv&iacute;vio que encorajavam e for&ccedil;avam rela&ccedil;&otilde;es inter-humanas e de comunica&ccedil;&atilde;o (Bourriaud, 1998). Bourriaud defendeu que a arte relacional era um reinvestimento na pr&aacute;tica art&iacute;stica enquanto meio de aprender a viver no mundo de uma melhor forma. Para Bourriaud, a arte relacional seria uma iniciativa para lutar contra os problemas da aliena&ccedil;&atilde;o e da normaliza&ccedil;&atilde;o dos mundos moderno e contempor&acirc;neos. Segundo o autor, esta luta poderia ser facilitada com micro-utopias tempor&aacute;rias que promoveriam novos modelos de participa&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica (Bourriaud, 1998).</p>     <p>Muitas das exposi&ccedil;&otilde;es, dos textos e dos programas acad&eacute;micos feitos sob as ideias de pr&aacute;tica social e est&eacute;tica relacional t&ecirc;m tentado encontrar ra&iacute;zes hist&oacute;ricas paralelas, e muitos escolheram colocar a pr&aacute;tica social ao lado da arte comunit&aacute;ria e de um novo g&eacute;nero de arte p&uacute;blica. Experi&ecirc;ncias em alternativas &#8211; desde jardins comunit&aacute;rios iniciados por Museus (como o Tate Modern Community Garden, Londres, 2001) a refei&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias em espa&ccedil;o p&uacute;blico (como o projecto "H&aacute; Mesa", de Lu&iacute;sa Alpalh&atilde;o, 2012) e publicidade gratuita para pequeno com&eacute;rcio (como o projecto "Shop Local", de Bob and Roberta Smith, Londres, 2006) &#8211; tornaram-se uma forma e pr&aacute;tica comum nas artes.</p>     <p>Num texto para Living as Form (2011), cat&aacute;logo da exposi&ccedil;&atilde;o com o mesmo nome, a curadora Maria Lind descreveu pr&aacute;tica social como</p>     <blockquote><i>ao contr&aacute;rio dos seus predecessores de avant-garde como o Construtivismo Russo, o Futurismo, o Situacionismo, a Tropicalia, o Fluxus e o Dada&iacute;smo, a arte com preocupa&ccedil;&otilde;es sociais n&atilde;o &eacute; um movimento art&iacute;stico. Ao contr&aacute;rio, estas pr&aacute;ticas culturais indiciam uma nova ordem social&#8211;modos de vida que enfatizam a participa&ccedil;&atilde;o, desafiam o poder e habitam entre disciplinas diversas como o planeamento urbano, o trabalho comunit&aacute;rio, o teatro e as artes visuais</i> (Lind, 2011: 19).</blockquote></p>     <p>Lind defende que os "artistas h&aacute; muito que desejam que a arte entre na vida" (Lind, 2011: 21) enfatizando corela&ccedil;&otilde;es entre arte, cultura, quotidiano e sociedade. No mesmo texto, Lind fala de uma arte com preocupa&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. H&aacute; uma enorme variedade de projectos art&iacute;sticos a mostrar um interesse sustentado em impacto, em termos sociais e pol&iacute;ticos. Este interesse &eacute; demonstrado de maneiras diversas, desde passar uma mensagem de um modo anal&iacute;tico ou documental at&eacute; pedir participa&ccedil;&atilde;o, que em alguns casos, significa tomar ac&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas (Lind, 2011).</p>     <p>Enquanto a esfera social continua a ser um tema recorrente na pr&aacute;tica art&iacute;stica, a hist&oacute;ria da arte, os programas acad&eacute;micos, e os historiadores e cr&iacute;ticos de arte, v&ecirc;m urg&ecirc;ncia em compreender e localizar a fronteira da integra&ccedil;&atilde;o da arte na sua rela&ccedil;&atilde;o com o social (Larsen, 2011).</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>3. Petrit halilaj, "Poisoned by men in need of some love", ou como uma exposi&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;rias conta a hist&oacute;ria social e pol&iacute;tica de um Pa&iacute;s</b></p>     <p>Petrit Halilaj cresceu nos momentos que seguiram a queda do Muro de Berlim, em 1989, e marcaram o que viria a ser conhecida como ex-Jugosl&aacute;via, pautados por conflitos &eacute;tnicos, guerra, ex&iacute;lio for&ccedil;ado, corrup&ccedil;&atilde;o e perda. Durante o conflito no Kosovo, viveu com a fam&iacute;lia num campo de refugiados. O corpo de trabalho de Halilaj reflecte uma vis&atilde;o critica perante o seu contexto hist&oacute;rico e social.</p>     <p>Com uso recorrente a materiais como terra, borracha, madeira, animais e desenhos delicados, evoca um mundo pessoal ao mesmo tempo que revela as realidades de um mundo maior correspondente a uma esfera sociopol&iacute;tica. A vis&atilde;o de Halilaj de casa e identidade nacional n&atilde;o &eacute; documental nem rom&acirc;ntica mas tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; assumida e cruamente cr&iacute;tica. Habita subtilmente num territ&oacute;rio entre mem&oacute;ria e presente, real e ficcionado, pessoal e experi&ecirc;ncia partilhada.</p>     <p>Na sua primeira exposi&ccedil;&atilde;o na B&eacute;lgica, e maior exposi&ccedil;&atilde;o individual at&eacute; &agrave; data, sob o t&iacute;tulo "Poisoned by men in need of some love", a decorrer ao mesmo tempo que a sua representa&ccedil;&atilde;o no Pavilh&atilde;o do Kosovo na Bienal de Veneza, Halilaj mostra a sua investiga&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua no Museu de Hist&oacute;ria Natural na capital do Kosovo, Pristina, um museu not&aacute;vel e amado antes dos nacionalismos desintegrarem o que foi uma vez chamado de Jugosl&aacute;via. No WIELS, em Bruxelas, Halilaj apresenta uma grande e nova instala&ccedil;&atilde;o composta por uma s&eacute;rie de animais esculpidos a partir de animais empalhados em degrada&ccedil;&atilde;o profunda doados pelo Museu de Hist&oacute;ria Natural da Pristina, um filme e um conjunto de documentos e fotografias. H&aacute; v&aacute;rios anos que Halilaj tem procurado perceber o destino dos animais empalhados que costumavam estar expostos no Museu.</p>     <p>V&aacute;rios animais de diversas esp&eacute;cies entraram para a colec&ccedil;&atilde;o do Museu de Hist&oacute;ria Natural entre 1951 e 1971. O conte&uacute;do da colec&ccedil;&atilde;o, apesar de n&atilde;o corresponder na totalidade ao per&iacute;odo de governo de quase 30 anos (entre 1953 e 1980) de Tito, demonstra muito dos seus interesses como a preocupa&ccedil;&atilde;o em mostrar a diversidade &eacute;tnica do povo. Nesses anos, a institui&ccedil;&atilde;o foi crescendo como um lugar apreciado pela popula&ccedil;&atilde;o, com mais de 1 800 animais empalhados, incluindo 850 esp&eacute;cies de insectos, 27 esp&eacute;cies de peixes, 11 anf&iacute;bios, 20 r&eacute;pteis, 36 mam&iacute;feros, 577 animais com asas, e 49 esqueletos de outras esp&eacute;cies. A colec&ccedil;&atilde;o inclu&iacute;a algumas esp&eacute;cies raras extraordin&aacute;rias e uma mostra rica em vida animal apresentada em dioramas feitos manualmente ou em vitrines espalhadas ao longo do museu.</p>     <p>Com a queda do Comunismo e a dissolu&ccedil;&atilde;o do Socialismo depois de 1989, vieram o conflito &eacute;tnico, as tens&otilde;es culturais, e uma guerra civil que deixou o pa&iacute;s, o seu povo e as suas institui&ccedil;&otilde;es destru&iacute;dos e imersos em caos. Quando a guerra acabou, surgiram novas prioridades para a na&ccedil;&atilde;o. Em 2001, um decreto oficial ordenou que toda a colec&ccedil;&atilde;o de animais do Museu fosse removida e armazenada de um modo arbitr&aacute;rio, em caixotes, sem quaisquer cuidados, em caves cheias de humidade, enquanto o Museu que os tinha albergado durante anos se tornava cen&aacute;rio para uma exposi&ccedil;&atilde;o de heran&ccedil;a de tradi&ccedil;&atilde;o popular. O gesto foi demonstrativo de um esfor&ccedil;o de mostrar um sentido claro de uma identidade nacional do Kosovo, de distingui-la dos seus vizinhos etnicamente diversos.</p>     <p>Antes de serem colocados em caves, os animais foram fotografados em cerca de oitenta imagens que documentam o &uacute;ltimo momento em que estavam intactos. Sujeitos a humidade e temperaturas n&atilde;o controladas, os animais da colec&ccedil;&atilde;o ficaram destru&iacute;dos.</p>     <p>Mais de uma d&eacute;cada depois do final da guerra, o Kosovo (produto dos nacionalismos fragmentados da Jugosl&aacute;via) ainda luta por apresentar-se como uma entidade e identidade e por fazer paz com a sua hist&oacute;ria. Se o inicio da hist&oacute;ria do museu reflectia a na&ccedil;&atilde;o pr&oacute;spera do tempo em que foi constru&iacute;do, a sua presente hist&oacute;ria reflecte as consequ&ecirc;ncias da guerra no pa&iacute;s. N&atilde;o foi por acaso que Halilaj escolheu este museu enquanto met&aacute;fora da identidade e das possibilidades de futuro do seu pa&iacute;s.</p>     <p>Quando entramos na sala de exposi&ccedil;&otilde;es do WIELS, somos cumprimentados por um grupo de quatro mochos, castanhos, aparentemente feitos de terra, que nos observam de uma esp&eacute;cie de escadaria met&aacute;lica na parede frontal (<a href="#f1">Figura 1</a>, <a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>, <a href="#f4">Figura 4</a>). Ao nosso lado esquerdo, &eacute; dif&iacute;cil n&atilde;o notar a presen&ccedil;a de um pequeno can&aacute;rio amarelo que se destaca por ser dos poucos elementos de cor que encontramos no espa&ccedil;o. Ao longo do espa&ccedil;o come&ccedil;amos por encontrar v&aacute;rias esp&eacute;cies de animais livres em posi&ccedil;&otilde;es observantes e dialogantes, depois vemos tamb&eacute;m vitrines vazias mas com vest&iacute;gios de presen&ccedil;a de animais que j&aacute; l&aacute; estiveram encaixotados, pelas penas e pelo colados &agrave; madeira. Tanto os animais (ou os que restava deles antes de serem reinterpretados por Halilaj) vieram do mesmo Museu de Hist&oacute;ria Natural da Pristina.</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a41f1.jpg"></a>    
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a41f2.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a41f3.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v4n8/4n8a41f4.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>Uns animais parecem observar-nos com a devida dist&acirc;ncia, a partir do tecto, outros parecem estar &agrave; conversa, um pato com o pesco&ccedil;o encostado a uma vitrine fechada parece tentar escutar o que se passar&aacute; l&aacute; dentro. Um urso est&aacute; deitado dentro de uma arca, como que a dormir.</p>     <p>As hist&oacute;rias poss&iacute;veis multiplicam-se ao longo do espa&ccedil;o em que ficamos entre a surpresa e estranheza ao encontrar animais castanhos, feitos de terra e de dejectos, que, s&oacute; depois de uma leitura atenta e de ver o filme do segundo piso, confirmamos serem os animais empalhados do Museu de Hist&oacute;ria Natural. A escolha da terra para cobrir e refazer os animais n&atilde;o ter&aacute; sido arbitr&aacute;ria nem inocente, remete para a guerra territorial que deixou o museu mas tamb&eacute;m o seu pa&iacute;s e o seu povo em desgra&ccedil;a. Alguns detalhes no espa&ccedil;o n&atilde;o s&atilde;o vis&iacute;veis num primeiro olhar, como os documentos museol&oacute;gicos de classifica&ccedil;&atilde;o em dois idiomas (Alban&ecirc;s e S&eacute;rvio) numa parede que parecem estar em espelho com os documentos da outra parede, nas mesmas cores de papel e tipo de letra. No entanto, numa das paredes s&oacute; encontramos um dos idiomas, o Alban&ecirc;s, que passou a ser a &uacute;nica l&iacute;ngua oficial depois da guerra, silenciando o S&eacute;rvio.</p>     <p>No final da sala, encontramos umas escadas estreitas de metal, apresentadas &agrave; entrada por um veado e habitadas na parte de cima por dois p&aacute;ssaros, que conduzem a um piso superior onde est&aacute; o v&iacute;deo produzido por Halilaj como documento da abertura das caves. Depois de ver os animais na primeira sala, dispostos com base nas fotografias tiradas ao &uacute;ltimo momento antes da colec&ccedil;&atilde;o ser escondida em caves, a sensa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma mistura de surpresa com absurdo e afecto. Perante o v&iacute;deo, com tr&ecirc;s projec&ccedil;&otilde;es em tr&ecirc;s paredes da pequena sala do piso superior, a sensa&ccedil;&atilde;o &eacute; diferente. Reconhecemos os animais da primeira sala, que poderiam ser apenas representa&ccedil;&otilde;es mas afinal s&atilde;o os animais de uma colec&ccedil;&atilde;o que foi negligenciada e a sensa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma mistura de tristeza, empatia e revolta.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Halilaj filmou todo o processo de abertura das caves, fechadas por mais de dez anos e de primeiro encontro dos t&eacute;cnicos e do primeiro diretor, hoje resignado a fun&ccedil;&otilde;es meramente administrativas, com a colec&ccedil;&atilde;o arruinada. A tentativa de Halilaj de gravar e prestar homenagem &agrave; velha colec&ccedil;&atilde;o aponta para as consequ&ecirc;ncias das prioridades da nova na&ccedil;&atilde;o de mostrar uma cultura &agrave; custa do sil&ecirc;ncio de outra.</p>     <p>Ficamos com uma sensa&ccedil;&atilde;o de dor e de empatia por aquelas pessoas que v&ecirc;m, como Halilaj, pela primeira vez, uma colec&ccedil;&atilde;o em ru&iacute;na. Naquele momento, a hist&oacute;ria da colec&ccedil;&atilde;o e do povo s&atilde;o uma e a met&aacute;fora de Halilaj torna-se clara. O povo, tal como a colec&ccedil;&atilde;o, foi negligenciado e silenciado, deixou de poder manifestar as suas diferen&ccedil;as em particularidades, &agrave; primeira vista simples, como a possibilidade de falar e escrever em dois idiomas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o: o poss&iacute;vel papel social da ar te, uma breve reflex&atilde;o</b></p>     <p>As perspectivas na hist&oacute;ria da arte em rela&ccedil;&atilde;o com o seu papel social formam uma pan&oacute;plia diversa. Para nomear algumas, enquanto a UNESCO afirma que o que faz a arte contempor&acirc;nea tornou-se dependente das ideologias e dos conflitos pol&iacute;ticos (UNESCO, 1976), para Breton e Rivera a arte s&oacute; poderia ser revolucion&aacute;ria e ter um efeito na sociedade sendo independente de quaisquer constru&ccedil;&otilde;es sociais (Breton e Rivera, 1938). A vis&atilde;o ut&oacute;pica de Beuys, nos anos 70, clamava por uma arte que, para ser completa, precisava de participa&ccedil;&atilde;o de uma audi&ecirc;ncia (Kuoni, 1990). J&aacute; para Bourdieu (1984), a produ&ccedil;&atilde;o de arte poderia ser observada como meio para exclus&atilde;o. Uma vis&atilde;o posterior mostrava uma perspectiva diferente, e colocava a arte enquanto lugar de produ&ccedil;&atilde;o de encontros e rela&ccedil;&otilde;es sociais (Bourriaud, 1998).</p>     <p>Na senda para tentar perceber se a arte pode ter um papel de mudan&ccedil;a social, &eacute; poss&iacute;vel encontrar muitos textos cr&iacute;ticos que defendem que a arte pode ter um papel na sociedade. Algumas refer&ecirc;ncias, tanto de textos como de trabalhos art&iacute;sticos, avan&ccedil;am que a arte n&atilde;o s&oacute; pode como deve ter um papel social. Apesar de haver uma grande variedade de textos e trabalhos art&iacute;sticos que defendem o papel activo da arte na sociedade, este papel n&atilde;o &eacute; sempre visto &agrave; mesma luz e usado da mesma forma. Enquanto alguns artistas preferem pedir a participa&ccedil;&atilde;o activa, que muitas vezes &eacute; traduzida em ac&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, outros artistas, como Petrit Halilaj, mostram-nos uma alternativa ao pedido de participa&ccedil;&atilde;o activa como o conhecemos. Sem pedir, directamente, ac&ccedil;&atilde;o, deixa-nos a reflectir, com um inc&oacute;modo latente perante uma realidade social que demonstra problemas s&eacute;rios.</p>     <p>As consequ&ecirc;ncias de observar, de conhecer, de reflectir sobre um conhecimento visto &agrave; luz de uma observa&ccedil;&atilde;o que conta hist&oacute;rias reais e, no caso de Halilaj, a Hist&oacute;ria de um povo, mant&ecirc;m-se em aberto. Mesmo que n&atilde;o tenha mudado nada na realidade do p&uacute;blico que viu a exposi&ccedil;&atilde;o no WIELS, mudou o microcosmos daquele Museu de Hist&oacute;ria Natural. Naquele momento, em que abriram a colec&ccedil;&atilde;o e perceberam a realidade, muitas conversas foram documentadas por Petrit que revelam uma reflex&atilde;o profunda sobre os momentos que viveram e os que vivem. Poder&aacute; n&atilde;o ser uma mudan&ccedil;a t&atilde;o ambiciosa como uma revolu&ccedil;&atilde;o mas tem o valor de uma reflex&atilde;o. O seu poder equivale ao poder que d&aacute; a quem nela participou e a quem a observa de decidir o que fazer com ela, seja a n&iacute;vel individual ou de grupo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bishop, Claire (2006). <i>Participation (Documents of Contemporary Art).</i> London: Whitechapel Gallery editions.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430212&pid=S1647-6158201300020004100001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Boje, David (2001). <i>Narrative Methods for Organizational and Communication Research.</i> London: Sage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430214&pid=S1647-6158201300020004100002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bourriaud, Nicolas (1998). <i>Relational Aesthetics.</i> Paris: Les Presses Du Reel edition.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430216&pid=S1647-6158201300020004100003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bourdieu, Pierre (1984). <i>Distinction: A Social Critique of the Judgment of Taste.</i> Harvard: Harvard University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430218&pid=S1647-6158201300020004100004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Breton, Andr&eacute;, Rivera, Diego (1938) <i>Manifesto for an Independent Revolutionary Art.</i> &#91;Consult. 20130831&#93; Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.marxists.org/subject/art/lit_crit/works/rivera/manifesto.htm" target="_blank">http://www.marxists.org/subject/art/lit_crit/works/rivera/manifesto.htm</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430220&pid=S1647-6158201300020004100005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Kuoni, Carin (1990). <i>Energy Plan for the Western Man: Joseph Beuys in America.</i> New York: Four Walls Eight Windows.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430221&pid=S1647-6158201300020004100006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Larsen, Lars Bang (2011). <i>The Long Nineties.</i> New York: Frieze, Issue 144. &#91;Consult. 2013-09-01&#93; Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.frieze.com/issue/article/the-longnineties/" target="_blank">http://www.frieze.com/issue/article/the-longnineties/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430223&pid=S1647-6158201300020004100007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Malchiodi, Cathy A. (2007). <i>Art Therapy Sourcebook.</i> New York: McGraw-Hill Professional.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430224&pid=S1647-6158201300020004100008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Marcuse, Herbert (1971). "The Movement in a New Era of Repression: An Assessment," <i>Berkeley Journal of Sociology</i>, 16 (1971-1972): 1-14. (pdf). transcript of a speech delivered by Marcuse at the University of California, Berkeley, on February 3, 1971.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430226&pid=S1647-6158201300020004100009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Thompson, Nato, ed. (2011). <i>Living as Form. Social Engaged Art from 1991-2011.</i> New York: The MIT Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430228&pid=S1647-6158201300020004100010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>UNESCO (1976). <i>Resolution 4.126 adopted by the General Conference at its nineteenth session.</i> Paris: UNESCO.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1430230&pid=S1647-6158201300020004100011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Artigo completo enviado a 24 de setembro e aprovado a 27 de setembro 2013.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:luisa.santos@network.rca.ac.uk">luisa.santos@network.rca.ac.uk</a> (Lu&iacute;sa Santos)</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bishop]]></surname>
<given-names><![CDATA[Claire]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Participation: Documents of Contemporary Art]]></source>
<year>2006</year>
<publisher-loc><![CDATA[London ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Whitechapel Gallery editions]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Boje]]></surname>
<given-names><![CDATA[David]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Narrative Methods for Organizational and Communication Research]]></source>
<year>2001</year>
<publisher-loc><![CDATA[London ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Sage]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bourriaud]]></surname>
<given-names><![CDATA[Nicolas]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Relational Aesthetics]]></source>
<year>1998</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Les Presses Du Reel]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bourdieu]]></surname>
<given-names><![CDATA[Pierre]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Distinction: A Social Critique of the Judgment of Taste]]></source>
<year>1984</year>
<publisher-loc><![CDATA[Harvard ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Harvard University Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Breton]]></surname>
<given-names><![CDATA[André]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Rivera]]></surname>
<given-names><![CDATA[Diego]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Manifesto for an Independent Revolutionary Art]]></source>
<year>1938</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Kuoni]]></surname>
<given-names><![CDATA[Carin]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Energy Plan for the Western Man: Joseph Beuys in America]]></source>
<year>1990</year>
<publisher-loc><![CDATA[New York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Four Walls Eight Windows]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Larsen]]></surname>
<given-names><![CDATA[Lars Bang]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The Long Nineties]]></article-title>
<source><![CDATA[Frieze]]></source>
<year>2011</year>
<numero>144</numero>
<issue>144</issue>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Malchiodi]]></surname>
<given-names><![CDATA[Cathy A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Art Therapy Sourcebook]]></source>
<year>2007</year>
<publisher-loc><![CDATA[New York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[McGraw-Hill Professional]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Marcuse]]></surname>
<given-names><![CDATA[Herbert]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The Movement in a New Era of Repression: An Assessment]]></article-title>
<source><![CDATA[Berkeley Journal of Sociology]]></source>
<year>1971</year>
<month>19</month>
<day>71</day>
<numero>16</numero>
<issue>16</issue>
<page-range>1-14</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Thompson]]></surname>
<given-names><![CDATA[Nato]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Living as Form: Social Engaged Art from 1991-2011]]></source>
<year>2011</year>
<publisher-loc><![CDATA[New York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[The MIT Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<nlm-citation citation-type="book">
<collab>UNESCO</collab>
<source><![CDATA[Resolution 4.126 adopted by the General Conference at its nineteenth session]]></source>
<year>1976</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[UNESCO]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
