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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Povos Indígenas em Quadrinhos: o olhar etnográfico-semiótico do artista brasileiro Sérgio Macedo]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[For Clifford Geertz, the concept of culture is semiotic in its essence. This article aims to reveal the ethnographic semiotic look, immersed in the Indigenous culture, by the artist and designer Sergio Macedo in his book: "Indigenous people in Comics books." It is not just a sequence of visual narratives, but mostly of a manifesto that gives voice to indigenous through artistic language of comics books.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>    <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Povos Ind&iacute;genas em Quadrinhos: o olhar etnogr&aacute;fico-semi&oacute;tico do artista brasileiro S&eacute;rgio Macedo</b></p>     <p><b>Indigenous people in Comics: the ethnographic-semiotic look by the Brazilian artist S&eacute;rgio Macedo</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Cl&aacute;udia Matos Pereira&#42;</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&#42;Brasil, artista pl&aacute;stica, professora de Artes e Desenho. Mestre Ci&ecirc;ncia da Religi&atilde;o pela Universidade federal de Juiz de Fora (UFJF-2007). Professora assistente em Desenho de modelo vivo. Graduada em Artes pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em Licenciatura Plena e Bacharelado (UFJF).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Belas Artes, Programa de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais. Av. Pedro Calmon, 550, Cidade Universit&aacute;ria, Rio de Janeiro &#8211; RJ, CEP 21941-901, Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b>    <br></p>     <p>Para Clifford Geertz o conceito de cultura &eacute; semi&oacute;tico em sua ess&ecirc;ncia. O presente artigo tem como objetivo revelar o olhar etnogr&aacute;fico-semi&oacute;tico, imerso na cultura ind&iacute;gena, do artista e desenhista S&eacute;rgio Macedo em seu livro: "Povos Ind&iacute;genas em Quadrinhos." N&atilde;o se trata apenas de uma sequ&ecirc;ncia de narrativas visuais, mas sobretudo de um manifesto que d&aacute; voz aos ind&iacute;genas, mediante a linguagem art&iacute;stica da hist&oacute;ria em quadrinhos.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> imagem e cultura / arte brasileira / hist&oacute;ria em quadrinhos / povos ind&iacute;genas / etnografia.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>For Clifford Geertz, the concept of culture is semiotic in its essence. This article aims to reveal the ethnographic semiotic look, immersed in the Indigenous culture, by the artist and designer Sergio Macedo in his book: "Indigenous people in Comics books." It is not just a sequence of visual narratives, but mostly of a manifesto that gives voice to indigenous through artistic language of comics books. </p>     <p><b>Keywords:</b></b> image and culture / brasilian art / comics / indigenous people / ethnography.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Nasce em 1951, na cidade de Al&eacute;m Para&iacute;ba, estado de Minas Gerais, aquele que nos anos de 1970, viria a ser o primeiro autor brasileiro a publicar Hist&oacute;rias em Quadrinhos na &#39;Revista Grilo&#39;, que, at&eacute; ent&atilde;o, s&oacute; publicava artistas estrangeiros: S&eacute;rgio Macedo. Inicia os primeiros desenhos com dois anos e meio de idade e, com quatro anos e meio, desenha sua primeira p&aacute;gina de HQ, ao copiar uma p&aacute;gina do cl&aacute;ssico "O &Uacute;ltimo dos Moicanos."</p>     <p>Em 1973, publicou o primeiro livro de HQ brasileiro, "O Karma de Gargoot". Em 1974, foi para a Fran&ccedil;a e depois viveu por 25 anos no Taiti. Nos EUA, seu livro "Lakota: An Illustrated History", foi premiado com o Benjamin Franklin Award como a melhor obra multicultural de 1997. Em 2007, recebeu no Brasil o trof&eacute;u HQ Mix, categoria <i>Grande Mestre</i> e lan&ccedil;ou em 2008 o &aacute;lbum &#39;HQ Xingu!&#39;. Em 2012 lan&ccedil;ou o livro que &eacute; tema deste artigo.</p>     <p>Segundo Levi-Strauss (1986: 49), "a etnografia &eacute; uma das raras voca&ccedil;&otilde;es aut&ecirc;nticas" e o homem pode descobri-la dentro de si pr&oacute;prio sem nunca t&ecirc;-la aprendido. Em sua trajet&oacute;ria, S&eacute;rgio Macedo (2014) afirma: "o motor essencial da obra foi o contato direto com os povos ind&iacute;genas que conheci." Sua voca&ccedil;&atilde;o se constr&oacute;i intuitivamente, mediante o olhar etnogr&aacute;fico-semi&oacute;tico e a paix&atilde;o pela arte. Ao acreditar, como Max Weber, que o ser humano &eacute; um animal entrela&ccedil;ado &agrave; teia de significados tecida por ele mesmo, Clifford Geertz (2008:4) fundamenta seu conceito de cultura como semi&oacute;tico e afirma que "as formas culturais podem ser tratadas como textos." S&eacute;rgio Macedo expressa na arte sequencial a experi&ecirc;ncia do contato cultural em &#39;textos visuais.&#39;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Processo de cria&ccedil;&atilde;o dos Quadrinhos</b></p>     <p>Segundo o artista, d&eacute;cadas de trabalho se fizeram necess&aacute;rias na elabora&ccedil;&atilde;o deste livro. Utilizou vasta bibliografia, artigos da imprensa nacional e estrangeira, relat&oacute;rios e publica&ccedil;&otilde;es da Funai (Funda&ccedil;&atilde;o Nacional do &Iacute;ndio), disserta&ccedil;&otilde;es e teses de antrop&oacute;logos, filmes, document&aacute;rios e DVDs. Este livro &eacute; uma s&iacute;ntese que condensa um conhecimento intelectual e que se concretiza a partir do encontro com o contexto real ind&iacute;gena.</p>     <p>Passa a ser um "narrador" que conta "hist&oacute;rias de trechos da vida" (Eisner, 2005:40) desde a forma&ccedil;&atilde;o das primeiras sociedades ind&iacute;genas no pa&iacute;s, chegando ao per&iacute;odo considerado "Descobrimento do Brasil" (introdu&ccedil;&atilde;o) e a seguir, as hist&oacute;rias em sequ&ecirc;ncia: <i>Yanomami; Xavante</i> (1700-1993); <i>Xingu</i> (1960-1990); <i>Kayap&oacute;; Suru&iacute; </i>(1960-1988) e <i>Panar&aacute;</i> (1968-1989). Seu livro (<a href="#f1">Figura 1</a>) &eacute; uma <i>graphic novel</i>, onde os personagens s&atilde;o pessoas reais, o que requer um trabalho mais sofisticado em que ele, artista, &eacute; um ilustrador-narrador-roteirista.</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a08f1.jpg"></a>    
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Nos anos de 1980, S&eacute;rgio Macedo n&atilde;o possu&iacute;a scanner e nem computador. Afirma que procurou realizar uma Hist&oacute;ria em Quadrinhos &#39;document&aacute;ria&#39;, e que privilegiou o realismo naturalista nos desenhos. Todos os Quadrinhos, (com exce&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s imagens realizadas em desenho digital), foram pintados com acr&iacute;lico sobre papel, pincel e aer&oacute;grafo. H&aacute; riqueza e fidelidade nos detalhes, tanto nas paisagens, quanto na retrata&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndios, das pinturas corporais, adere&ccedil;os, arte plum&aacute;ria, como nas atividades cotidianas, rituais e m&iacute;sticas das tribos, circunst&acirc;ncias conflitantes e dif&iacute;ceis sofridas por eles. Muitas imagens foram criadas a partir de fotografias publicadas pela imprensa e por fotografias enviadas a ele, quando residia no Taiti &#8211; local em que ampliou seu olhar multicultural, ao conviver durante vinte e seis anos com a cultura <i>Ma&#39;ohi</i>.</p>     <p>Em 1987, deixa o Taiti, e juntamente com sua esposa taitiana, dirige-se ao norte do Mato Grosso, no Brasil, para viver alguns meses na aldeia <i>Kayap&oacute; Metyktire</i>. O contato com os lideres: <i>Ropni</i> (muito conhecido como cacique <i>Raoni</i>), <i>Lobal, Kremoro e Krumare</i> marcou definitivamente a sua vida e trajet&oacute;ria. Neste per&iacute;odo de &#39;aprendizado&#39; e influ&ecirc;ncia desenvolveu um novo olhar, novo escutar e sentir &#8211; uma imers&atilde;o visual, crom&aacute;tica, sonora, arom&aacute;tica, cotidiana, de partilhas de cren&ccedil;as, conceitos, num universo integrado &agrave; natureza.</p>     <p>Os quadrinhos deste livro apresentam transi&ccedil;&otilde;es predominantemente como &#39;a&ccedil;&otilde;es distintas&#39; ao buscar movimento din&acirc;mico de avan&ccedil;o do roteiro. Em v&aacute;rias p&aacute;ginas percebe-se "momentos dentro de momentos centrais" (McCloud, 1993: 37) ou cenas maiores, com ritmos que demonstram maturidade na elabora&ccedil;&atilde;o visual de cada p&aacute;gina. A formata&ccedil;&atilde;o e a composi&ccedil;&atilde;o dos quadrinhos s&atilde;o diversificadas. H&aacute; harmonia crom&aacute;tica, cuidado visual com o tratamento da cor, seja na obten&ccedil;&atilde;o de contrastes, como no equil&iacute;brio e peso visual do layout das p&aacute;ginas. Os textos, segundo S&eacute;rgio Macedo, s&atilde;o inseridos com prop&oacute;sitos hist&oacute;rico, social e pol&iacute;tico, informativo, mas principalmente, retratam o ponto de vista dos &iacute;ndios (<a href="#f2">Figura 2</a>).</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a08f2.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&Eacute; uma obra de n&atilde;o fic&ccedil;&atilde;o. Busca estabelecer uma empatia, o &#39;contrato&#39; entre narrador/p&uacute;blico (Eisner, 2005:51-53). H&aacute; habilidade narrativa que combina hist&oacute;ria, a&ccedil;&atilde;o, aventura e din&acirc;mica entre textos do narrador e bal&otilde;es com falas dos personagens. A linguagem &eacute; de f&aacute;cil acesso ao leitor. Algumas palavras t&iacute;picas dos nativos s&atilde;o preservadas e cont&eacute;m a tradu&ccedil;&atilde;o para o portugu&ecirc;s. Will Eisner, al&eacute;m de considerar as Hist&oacute;rias em Quadrinhos &#8211; arte &#8211; "por muito tempo advogou o potencial dos quadrinhos de n&atilde;o fic&ccedil;&atilde;o" (McCloud, 1993:37-38).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Percurso do artista na constru&ccedil;&atilde;o das narrativas visuais</b></p>     <p>"Os antrop&oacute;logos n&atilde;o estudam as aldeias (tribos, cidades, vizinhan&ccedil;as...), eles estudam nas aldeias" (Geertz, 2008:16). Antes de chegar &agrave; aldeia, S&eacute;rgio Macedo relata ter passado semanas na sede da Funai, em Bras&iacute;lia, a fim de obter autoriza&ccedil;&atilde;o oficial para entrar em terras ind&iacute;genas. Manteve contatos inesquec&iacute;veis com os <i>Xavante</i> e depois com as etnias <i>Kamayur&aacute;, Yawalapiti, Kayap&oacute;, Xavante, Kuikuro, Panar&aacute;</i> e outras.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&agrave;s margens do rio Xingu, conheceu &iacute;ndios <i>Tapirap&eacute;, Kayabi, Kayap&oacute;</i> e <i>Panar&aacute;</i>. Ficou dois meses na aldeia dos <i>Kayap&oacute; Metuktire</i>, onde viviam fam&iacute;lias de &iacute;ndios <i>Tapayuna</i>, alguns <i>Panar&aacute;</i>, alguns <i>Suy&aacute;</i>, &iacute;ndios de outros grupos <i>Kayap&oacute;</i> e de outras etnias passavam como visitantes. Segundo o artista, foi uma ocasi&atilde;o fabulosa para conhecer a vida desses povos. Visitou igualmente a aldeia <i>Panar&aacute;</i>, cujo primeiro contato com os brancos se dera em 1974.</p>     <p>S&eacute;rgio Macedo (2014) n&atilde;o promove um discurso unilateral: suas narrativas gr&aacute;ficas se constroem a partir dos relatos ind&iacute;genas. Ele comenta ter agido de forma respeitosa, antecipadamente, &agrave; entrega dos originais &agrave; editora: "antes da publica&ccedil;&atilde;o, mostrei as hist&oacute;rias e desenhos &agrave;s lideran&ccedil;as de cada povo nele retratado, os &iacute;ndios gostaram e aprovaram." As p&aacute;ginas amplamente ilustradas representam a voz destes povos, suas mitologias, lendas passadas de gera&ccedil;&atilde;o a gera&ccedil;&atilde;o pela oralidade. Palavras de <i>Mayal&uacute; Waur&aacute; Txucarram&atilde;e</i>, ativista ind&iacute;gena e filha do cacique <i>Megaron</i> e sobrinha (neta, pelos conceitos ind&iacute;genas) do grande cacique <i>Raoni</i> quando as lideran&ccedil;as receberam o livro publicado:</p>     <blockquote><i>Oi Sergio recebemos sim, eu mostrei para meu av&ocirc; Raoni e para um grupo de lideran&ccedil;as que estavam no Instituto Raoni e eles adoraram e ele pediu que eu perguntasse se tinha como o senhor enviar mais para dar deixar em cada aldeia e muita gente est&aacute; querendo, at&eacute; mesmo os n&atilde;o ind&iacute;genas que v&atilde;o ao Instituto est&atilde;o querendo </i>&#91;...&#93;<i> as crian&ccedil;as aqui se encantaram, assim como os mais velhos tamb&eacute;m. Parab&eacute;ns n&oacute;s aqui adoramos</i> (Txucarram&atilde;e, 2012).</blockquote>     <p>Para Walter Benjamin, (1985:204) a narrativa &eacute; uma forma artesanal de comunica&ccedil;&atilde;o. "Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retir&aacute;-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a m&atilde;o do oleiro na argila do vaso."</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4. Um olhar antropol&oacute;gico-etn&oacute;grafico intuitivo?</b></p>     <p>Sob o ponto de vista acad&ecirc;mico pressup&otilde;e-se que um etn&oacute;grafo possua um arcabou&ccedil;o te&oacute;rico capaz de selecionar vari&aacute;veis para construir seu objeto de estudo, que fa&ccedil;a recortes para delimit&aacute;-lo, v&aacute; a &#39;campo&#39;, recolha anota&ccedil;&otilde;es, di&aacute;rios, relatos, imagens, etc, para depois organiz&aacute;-los e sistematizar a pesquisa, contextualizando-a. Observa-se que, muitas vezes, o resultado vai mais al&eacute;m que o &#39;trabalho de campo&#39;. N&atilde;o nos cabe neste breve estudo aprofundarmos quest&otilde;es sobre a antropologia, a antropologia interpretativa e os percursos te&oacute;ricos da antropologia p&oacute;s-moderna, nem tampouco discutir a evolu&ccedil;&atilde;o dos estudos etnogr&aacute;ficos. Diante deste universo, pode-se dizer que S&eacute;rgio Macedo dedicou-se primeiramente ao conhecimento de seu objeto de estudo, mediante pesquisa bibliogr&aacute;fica, foi a &#39;trabalho de campo,&#39; manteve conviv&ecirc;ncias com etnias ind&iacute;genas, recolheu relatos e imagens, a fim de realizar seu projeto, de forma intuitiva. Percorreu um caminho semelhante ao do investigador cient&iacute;fico, por&eacute;m constr&oacute;i um ide&aacute;rio que culmina na realiza&ccedil;&atilde;o de &#39;textos visuais.&#39; Trata-se de um trabalho art&iacute;stico, em que prevalece a imagem como linguagem. "O etn&oacute;grafo &#39;inscreve&#39;, o discurso social: ele o anota" (Geertz, 2008:14). S&eacute;rgio Macedo &#39;inscreve&#39; por meio de desenhos &#8211; &#39;inscreve&#39; atrav&eacute;s da arte.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Segundo S&eacute;rgio Macedo (2014), a cria&ccedil;&atilde;o dessa obra foi um &#39;ato de amor.&#39; A arte &eacute; o seu vocabul&aacute;rio para expressar a sensibilidade com os problemas dos povos ind&iacute;genas:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote><i>O conhecimento da beleza e riqueza da sua cultura e, infelizmente, das atrocidades cometidas contra esses povos, resultado da falta de consci&ecirc;ncia e da gan&acirc;ncia do homem branco, respons&aacute;vel por um verdadeiro genoc&iacute;dio e pela extin&ccedil;&atilde;o de muitas etnias, precisa ser divulgado </i>(Macedo, 2014).</blockquote>     <p>Ele elabora um manifesto visual, uma interven&ccedil;&atilde;o, uma den&uacute;ncia de tudo aquilo que permeia a luta destes povos pela sobreviv&ecirc;ncia. Percebe-se uma milit&acirc;ncia est&eacute;tica e a busca em conscientizar o leitor para algo que deve ser preservado: o respeito pela diversidade, pelo espa&ccedil;o e pela tradi&ccedil;&atilde;o de cada cultura. Em etnografia, o dever da teoria &eacute; fornecer um vocabul&aacute;rio no qual possa ser expresso o que o ato simb&oacute;lico tem a dizer sobre ele mesmo &#8211; isto &eacute;, sobre o papel da cultura na vida humana" (Geertz, 2008:19).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Benjamin, Walter (1987) <i>Obras escolhidas: magia e t&eacute;cnica, arte e pol&iacute;tica</i>. S&atilde;o Paulo: Brasiliense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1431565&pid=S1647-6158201400010000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Eisner, Will (2005) <i>Narrativas gr&aacute;ficas</i>. S&atilde;o Paulo: Devir.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1431567&pid=S1647-6158201400010000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Geertz, Clifford (2008) <i>A interpreta&ccedil;&atilde;o das culturas</i>. Rio de Janeiro: Ed. LCT.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1431569&pid=S1647-6158201400010000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Levi-Strauss, Claude (1986) <i>Tristes Tr&oacute;picos</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1431571&pid=S1647-6158201400010000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>McCloud, Scott (1993) <i>Reinventando os quadrinhos</i>. S&atilde;o Paulo: M. Books.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1431573&pid=S1647-6158201400010000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 27 de janeiro e aprovado a 31 de janeiro de 2014.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:claudiamatosp@hotmail.com">claudiamatosp@hotmail.com</a>  (Cl&aacute;udia Matos Pereira)</p>     ]]></body>
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