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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article aims to analyze the representation of architecture in painting by Brazilian artist Adriana Maciel as well as the consequences of the use of this motif in the development of his work.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER: ARTIGOS ORIGINAIS POR AUTORES CONVIDADOS</b></p>     <p align="right"><b>DOSSIER: INVITED ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Adriana Maciel: arquiteturas da pintura</b></p>     <p><b>Adriana Maciel: Painting&#39;s architectures</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Marilice Corona&#42;</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&#42;Par acad&eacute;mico externo da Revista Est&uacute;dio. Professora universit&aacute;ria e artista visual.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal de Rio Grande do Sul, Instituto das Artes. Rua Senhor dos Passos, 248. CEP 90020-180 &#8211; Centro &#8211; Porto Alegre, RS Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b>    <br> </p>     <p>Este artigo tem como objetivo analisar a representa&ccedil;&atilde;o da arquitetura na pintura da artista brasileira Adriana Maciel assim como os desdobramentos do uso desse motivo no desenvolvimento de sua obra. </p>     <p><b>Palavras chave:</b> pintura / arquitetura / espa&ccedil;o / representa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This article aims to analyze the representation of architecture in painting by Brazilian artist Adriana Maciel as well as the consequences of the use of this motif in the development of his work. </p>      <p><b>Keywords:</b></b> painting / architecture / space / representation</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Este artigo tem como objetivo circunscrever alguns aspectos que se evidenciam na obra da artista brasileira Adriana Maciel. Adriana nasceu em Belo Horizonte (1964), mas j&aacute; h&aacute; alguns anos reside e trabalha na cidade do Rio de Janeiro. A artista formou-se, em Artes Pl&aacute;sticas pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1991, tendo freq&uuml;entado, de 1994 a 1995, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Seu trabalho &eacute; predominantemente em pintura sendo que, de alguns anos para c&aacute;, a artista vem estendendo sua pesquisa ao campo da fotografia e do v&iacute;deo. Adriana come&ccedil;a sua atua&ccedil;&atilde;o profissional no in&iacute;cio dos anos 90, participando de v&aacute;rios sal&otilde;es brasileiros de import&acirc;ncia bem como, de mostras coletivas e individuais. Em 2008 recebeu o pr&ecirc;mio Proj&eacute;teis Funarte de Arte Contempor&acirc;nea 2007-2008.</p>     <p>Meu encontro com a obra de Adriana se deu no ano de 2001. Naquela &eacute;poca eu estava em meio a minha pesquisa de mestrado, cujo tema centrava-se na convencionalidade dos sistemas de representa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o em pintura. Esse encontro fora uma grata surpresa, pois, o trabalho de Adriana tratava de quest&otilde;es que me eram caras: a representa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o arquitet&ocirc;nico em pintura, o vazio e o espa&ccedil;o da mem&oacute;ria.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. A pintura de arquitetura e a arquitetura da pintura</b></p>     <p>Para quem investiga a convencionalidade dos sistemas de representa&ccedil;&atilde;o como discursos da pintura, a representa&ccedil;&atilde;o da arquitetura apresenta-se como motivo ideal. Pode-se dizer que a imagem arquitet&ocirc;nica evoca tr&ecirc;s esp&eacute;cies de espa&ccedil;os, tr&ecirc;s eixos que, a meu ver, entrela&ccedil;ados, constituem a obra: o espa&ccedil;o da mem&oacute;ria, o espa&ccedil;o da hist&oacute;ria e o espa&ccedil;o est&eacute;tico.</p>     <p>1) O Espa&ccedil;o da Mem&oacute;ria. Este espa&ccedil;o diz respeito ao universo &iacute;ntimo do artista, &agrave;quelas imagens que o cercam e que s&atilde;o refer&ecirc;ncias pessoais, afetivas. Imagens que desencadeiam novas imagens. Imagens que dever&atilde;o ser transferidas para o campo da pintura e transmutadas. Refere-se aos documentos de trabalho do artista. Costumo dizer que s&atilde;o a energia vital da obra; aquilo que lhe confere singularidade.</p>     <p>2) O Espa&ccedil;o Hist&oacute;rico: Aqui se estabelece o di&aacute;logo com a hist&oacute;ria da pintura e suas conven&ccedil;&otilde;es. Revisitar a hist&oacute;ria permite a formula&ccedil;&atilde;o de novas perguntas e o resgate de imagens ou motivos representacionais.</p>     <p>3) O Espa&ccedil;o Est&eacute;tico: Este espa&ccedil;o seria a zona de confronto e de revis&atilde;o dos discursos pict&oacute;ricos. &Eacute; o espa&ccedil;o de contextualiza&ccedil;&atilde;o, entendimento e discuss&atilde;o sobre os discursos da pintura contempor&acirc;nea. Sempre lembrando que esta discuss&atilde;o perpassa e &eacute; levantada pela imagem pict&oacute;rica.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A partir destes tr&ecirc;s eixos tentarei uma aproxima&ccedil;&atilde;o das pinturas de Adriana Maciel.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. O espa&ccedil;o da mem&oacute;ria e a mem&oacute;ria do espa&ccedil;o</b></p>     <p>A princ&iacute;pio, observando a estrutura das pinturas de Adriana , levantei a hip&oacute;tese de que suas imagens de interiores seriam derivadas de registros fotogr&aacute;ficos, principalmente devido &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da luz e ao aspecto de corte fotogr&aacute;fico que apresentam (<a href="#f1">Figura 1</a>) No entanto, em entrevista com a artista, acabo por descobrir outros aspectos em seu processo. As imagens pict&oacute;ricas de Adriana partem de pequenos croquis, escritos e registros de mem&oacute;ria. Muitas vezes s&atilde;o as mem&oacute;rias dos espa&ccedil;os um dia habitados na inf&acirc;ncia que se tornam os documentos geradores de suas obras. Ao ser indagada sobre a origem da imagem da pintura S/ t&iacute;tulo, 2003 (<a href="#f1">Figura 1</a>), a artista comenta:</p>     <blockquote><i>O quintal da casa da minha m&atilde;e (em BH), onde residi por aproximadamente 25 anos da minha vida. Possui um al&ccedil;ap&atilde;o; um buraco no concreto do quintal. A tela exposta em 2004, &eacute; quase fiel a este espa&ccedil;o que sempre me intrigou. Era um lugar inacess&iacute;vel, sempre trancado com cadeado, mas sabia desde pequena, que era um grande buraco vazio por ser um reservat&oacute;rio de &aacute;gua que nunca funcionou como tal. Era &oacute;timo para a fantasia: inacess&iacute;vel, perigoso e um absoluto vazio para ser preenchido com toda a imagina&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel. Esta tela poderia ser oriunda de um registro fotogr&aacute;fico. N&atilde;o inventei, existe. Mesmo assim, &eacute; uma tela realizada de mem&oacute;ria.</i></blockquote>     <p>&nbsp;</p><a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a22f1.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>Importante salientar, tamb&eacute;m, que seu pai era arquiteto e as imagens e projetos desse campo constitu&iacute;ram tanto o arcabou&ccedil;o imag&eacute;tico da artista como sua experi&ecirc;ncia sensorial em rela&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o. Do ponto de vista da experi&ecirc;ncia vivida, sabemos da impregna&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o arquitet&ocirc;nico sobre o sujeito, dos espa&ccedil;os que habitamos ao longo da vida e de como a lembran&ccedil;a dos acontecimentos habitam estes espa&ccedil;os. Gaston Bachelard j&aacute; teria ressaltado que a mem&oacute;ria n&atilde;o registra as "dura&ccedil;&otilde;es abolidas". Conforme o autor, </p>     <blockquote><i>s&oacute; podemos pens&aacute;-las, pens&aacute;-las na linha de um tempo abstrato privado de qualquer espessura. &Eacute; pelo espa&ccedil;o, &eacute; no espa&ccedil;o que encontramos os belos f&oacute;sseis de dura&ccedil;&atilde;o concretizados por longas perman&ecirc;ncias. O inconsciente permanece nos locais. As lembran&ccedil;as s&atilde;o im&oacute;veis, tanto mais s&oacute;lidas quanto mais bem espacializadas</i> (Bachelard, 2000, pp 28-29).</blockquote>     <p>Os antigos, estudiosos da arte da mem&oacute;ria ou mnemot&eacute;cnica, j&aacute; o sabiam quando sugeriam, como Quintiliano, que </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote><i>para bem recordar um discurso deve-se em primeiro lugar recordar uma constru&ccedil;&atilde;o a mais ampla e variada poss&iacute;vel, com p&aacute;tio, sala de estar, os quartos, os sal&otilde;es, sem omitir as est&aacute;tuas e outros ornamentos que decoram esses espa&ccedil;o</i> (Yates, 2007, p.19).</blockquote>     <p>Ou seja, o primeiro passo era imprimir na mem&oacute;ria uma s&eacute;rie de loci, lugares, para em seguida serem alojadas pelo orador, em disposi&ccedil;&atilde;o ordenada, as imagens do discurso.</p>     <p>Adriana ao transmutar em pintura aqueles espa&ccedil;os/mem&oacute;rias que intimamente lhe devastam, oferece-nos uma s&eacute;rie de <i>loci</i>, de espa&ccedil;os vazios que ser&atilde;o preenchidos com nossas pr&oacute;prias proje&ccedil;&otilde;es. S&atilde;o nossas mem&oacute;rias e experi&ecirc;ncias corporais que construir&atilde;o a narrativa. N&atilde;o por acaso, a artista lan&ccedil;a m&atilde;o do colorido intenso em favor de uma sutil palheta de brancos. A tela em branco carrega consigo um car&aacute;ter paradoxal. Ao mesmo tempo em que ela nos remete &agrave; ideia de vazio, de lapso, de aus&ecirc;ncia da imagem, ela &eacute; todas as imagens em pot&ecirc;ncia, &eacute; possibilidade de apari&ccedil;&atilde;o. A luz que nos permite visualizar as imagens e as coisas do mundo &eacute; a mesma que em sua intensidade &eacute; capaz de nos ofuscar, cegar. Do ponto de vista temporal, a mesma luz que d&aacute; visibilidade &agrave;s imagens, atrav&eacute;s de sua intensidade por longos per&iacute;odos de tempo, as faz desbotar. Literal e metaforicamente, o tempo descolore as imagens. As fotos antigas e mal acondicionadas s&atilde;o testemunhas. Fotografia e pintura est&atilde;o implicadas, mesmo que de modos distintos, neste processo de apari&ccedil;&atilde;o e desapari&ccedil;&atilde;o. A palheta de Adriana &eacute; extremamente rica em sutilezas de tons. "Os brancos s&atilde;o sempre impregnados com outras cores", afirma a artista.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Um percurso hist&oacute;rico: o espa&ccedil;o na pintura</b></p>     <p>Na obra de Adriana n&atilde;o &eacute; apenas a mem&oacute;ria &iacute;ntima que &eacute; ativada, mas a pr&oacute;pria mem&oacute;ria da pintura. Escolher a arquitetura como motivo tamb&eacute;m &eacute; uma forma de evocar a sua ocorr&ecirc;ncia e import&acirc;ncia na hist&oacute;ria da pintura ocidental.</p>     <p>As investiga&ccedil;&otilde;es efetuadas pelos pintores renascentistas italianos para resolver o novo senso de espa&ccedil;o que surgia, bem como a oportunidade de aplicar o m&eacute;todo da perspectiva linear descrito por Alberti, levaram esses pintores a compor suas pinturas atrav&eacute;s da representa&ccedil;&atilde;o de estruturas arquitet&ocirc;nicas. A cria&ccedil;&atilde;o de compartimentos, de sobreposi&ccedil;&otilde;es de ambientes e elementos como colunas, arcos, assim como a inclus&atilde;o das vedutas que indicavam um prolongamento para o espa&ccedil;o exterior da paisagem, permitiam utilizar o novo sistema e amplificar a sensa&ccedil;&atilde;o espacial.</p>     <p>Na pintura holandesa do s&eacute;culo XVII, viu-se surgir, ao lado da natureza-morta e da pintura de g&ecirc;nero, uma outra categoria pict&oacute;rica denominada Pintura Arquitet&ocirc;nica. Pode-se dizer que este ramo da pintura holandesa situa-se entre a pintura de paisagem e a pintura de cotidiano. "Perspectivas" era o nome gen&eacute;rico atribu&iacute;do a todo tipo de pintura arquitet&ocirc;nica. Tratam-se de vistas de interiores, sobretudo de igrejas e pal&aacute;cios, e de exteriores, p&aacute;tios, terra&ccedil;os e jardins, cenas de ruas e vias urbanas. Conforme Slive (1998: 262), "os pintores do s&eacute;culo VXII foram os primeiros a minimizar a import&acirc;ncia das pessoas nos cen&aacute;rios arquitet&ocirc;nicos, de forma a acentuar a beleza e a forma das constru&ccedil;&otilde;es, agora temas independentes." As pinturas de Pieter Saenredam , por exemplo, chamam a aten&ccedil;&atilde;o pelas min&uacute;sculas figuras em preto que pontuam e dimensionam o majestoso espa&ccedil;o no qual se encontram, conduzindo nosso olhar para a dist&acirc;ncia.</p>     <p>A pintura de g&ecirc;nero holandesa, por sua vez, apresenta-nos outra esp&eacute;cie de espa&ccedil;o e ser&aacute; esta uma refer&ecirc;ncia importante &agrave; pintura de Adriana Maciel. Se a pintura renascentista italiana ir&aacute; resgatar os elementos arquitet&ocirc;nicos dos cen&aacute;rios do teatro antigo para criar espa&ccedil;o e profundidade para a representa&ccedil;&atilde;o do corpo e a pintura arquitet&ocirc;nica holandesa faz da arquitetura seu tema principal, representando em escala diminuta a monumentalidade dos espa&ccedil;os p&uacute;blicos, pode-se dizer que a pintura de g&ecirc;nero nos oferece a constru&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o &iacute;ntimo. Sendo assim, ao contr&aacute;rio da exacerba&ccedil;&atilde;o da dist&acirc;ncia, oferece-nos um espa&ccedil;o quase sem recuo, espa&ccedil;o pouco profundo e pr&oacute;ximo ao espectador. Por certo, diferentemente do g&ecirc;nero anterior, o espa&ccedil;o constru&iacute;do, o ambiente interior est&aacute; a servi&ccedil;o da a&ccedil;&atilde;o de seus personagens. Postamos-nos como voyeurs de uma cena &iacute;ntima constru&iacute;da em forma de caixa na qual a parede de fundo, muito pr&oacute;xima a n&oacute;s, &#8211; penso aqui em Veermer, uma refer&ecirc;ncia cara &agrave; artista &#8211; duplica a pr&oacute;pria superf&iacute;cie da tela. Daniel Arasse aponta um aspecto que diferencia as representa&ccedil;&otilde;es de paredes dos interiores de Vermeer da maior parte de seus contempor&acirc;neos. Na maioria de suas pinturas, n&atilde;o encontramos aberturas ao fundo que prolonguem o espa&ccedil;o. O artista nos apresenta espa&ccedil;os fechados iluminados por janelas laterais em perspectiva que muitas vezes vemos de perfil (Arasse, 2001 :145). As paredes de Vermeer localizam-se pr&oacute;ximas ao espectador. O fundo da caixa de cena avan&ccedil;a. Em <i>A Leiteira</i> (<a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>), Arasse ressalta um detalhe curioso que comprovaria a aten&ccedil;&atilde;o do pintor voltada &agrave; import&acirc;ncia da superf&iacute;cie pict&oacute;rica.</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a22f2.jpg"></a>    
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a22f3.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <blockquote><i>Vermeer havia pintado, inicialmente, um objeto dependurado &agrave; parede, sem d&uacute;vida, um mapa. Deixando, finalmente, sobre a parede nua, somente os tra&ccedil;os cuidadosamente representados do que estava ali fixado (um prego e um buraco de outro prego arrancado), Vermeer evacua toda informa&ccedil;&atilde;o particular e deixa ver somente, para equilibrar a multiplica&ccedil;&atilde;o luminosa da natureza morta posicionada sobre a mesa ao primeiro plano, a representa&ccedil;&atilde;o de uma superf&iacute;cie que se apresenta como uma superf&iacute;cie de pintura</i> (Arasse, 2001: 145)</blockquote>     <p>Retire-se os personagens e objetos que habitam o espa&ccedil;o e logo poderemos estabelecer rela&ccedil;&otilde;es com a pintura de Adriana. Em suas pinturas do final dos anos de 1990 a artista cria espa&ccedil;os arquitet&ocirc;nicos de interiores vazios pontuados por pequenos objetos solit&aacute;rios (<a href="#f4">Figura 4</a>). Objetos utilit&aacute;rios que nos remetem a a&ccedil;&otilde;es cotidianas que nos s&atilde;o bem conhecidas. Solit&aacute;rios evocam a aus&ecirc;ncia da presen&ccedil;a humana. S&atilde;o objetos, tamb&eacute;m, que intensificam a ideia de recept&aacute;culo, de reservat&oacute;rio: uma garrafa, uma caixa, um copo, uma x&iacute;cara ou outros. Objetos que servem para guardar ou receber coisas . A estrutura espacial, por sua vez, &eacute; constru&iacute;da em alguns casos por uma perspectiva obl&iacute;qua (<a href="#f4">Figura 4</a>), mas, na maior parte das vezes apresenta-se em perspectiva frontal. Nesse caso o espa&ccedil;o torna-se menos profundo e a planaridade da pintura torna-se mais evidente (<a href="#f5">Figura 5</a>). Observando a <a href="#f5">Figura 5</a>, podemos tra&ccedil;ar fortes rela&ccedil;&otilde;es com a an&aacute;lise de Arasse sobre parede de fundo de A Leiteira de Veermer. Na representa&ccedil;&atilde;o de Adriana tudo fora subtra&iacute;do, restando apenas os pregos e o tecido branco. Objetos fixados sobre a superf&iacute;cie vertical que intensificam e duplicam a natureza do suporte. Tecido e pregos sobre a parede n&atilde;o estariam metaforizando as especificidades da pr&oacute;pria tela que os cont&eacute;m? O plano frontal parece assumir cada vez mais relev&acirc;ncia na obra de Adriana apontando para novas quest&otilde;es.</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a22f4.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a22f5.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>3. A parede e o espa&ccedil;o na e da pintura</b></p>     <p>A representa&ccedil;&atilde;o da arquitetura e seus elementos estruturais funcionam como um excelente procedimento para discutir a querela modernista sobre a antinomia ilus&atilde;o-planaridade, sobre o espa&ccedil;o <i>na</i> e <i>da</i> pintura. Adriana n&atilde;o descarta a representa&ccedil;&atilde;o para discutir a linguagem. A artista discute o espa&ccedil;o pict&oacute;rico sem recorrer a reducionismos e sem abrir m&atilde;o de sua dimens&atilde;o metaf&oacute;rica. A partir de 2003, refer&ecirc;ncias a objetos, ao ch&atilde;o e ao teto s&atilde;o retiradas da imagem. Resta apenas o plano da parede representada e dividida internamente por representa&ccedil;&otilde;es de nichos, reentr&acirc;ncias, cortes ortogonais e volumes representados. Adriana come&ccedil;a a dividir a tela em pol&iacute;pticos e os cortes, agora reais, reverberam na imagem pintada. A parede onde se encontra o quadro torna-se parte integrante da pintura. De anteparo passivo passa a elemento ativo da composi&ccedil;&atilde;o. Adriana incorpora em seu trabalho o pr&oacute;prio espa&ccedil;o expositivo. Como sabemos, o quadro como objeto (pintura e quadro-limite) apresenta-se indissoci&aacute;vel da institui&ccedil;&atilde;o, do espa&ccedil;o de exposi&ccedil;&atilde;o, da parede do cubo branco. A pintura sempre esteve condicionada aos espa&ccedil;os de sua apresenta&ccedil;&atilde;o. As transforma&ccedil;&otilde;es, ao longo da hist&oacute;ria, das fun&ccedil;&otilde;es da pintura est&atilde;o <i>pari passu</i> com as transforma&ccedil;&otilde;es ocorridas em seus modos de apresenta&ccedil;&atilde;o. Segundo Krauss,</p>     <blockquote><i>dada sua fun&ccedil;&atilde;o de suporte material da exposi&ccedil;&atilde;o, a parede da galeria tornou-se o significante de inclus&atilde;o e pode, portanto, ser considerada per se uma representa&ccedil;&atilde;o do que poder&iacute;amos chamar de 'exposicidade'</i> (Krauss, 2002: 41-42).</blockquote>     <p>A hist&oacute;ria da arte moderna est&aacute; correlacionada &Agrave; hist&oacute;ria da constitui&ccedil;&atilde;o  dos espa&ccedil;os de visibilidade da pr&oacute;pria arte. Sabe-se que a pintura moderna foi pouco a pouco tomando consci&ecirc;ncia e posse do espa&ccedil;o de exposi&ccedil;&atilde;o como conte&uacute;do, sendo que a est&eacute;tica da superf&iacute;cie e da autodefini&ccedil;&atilde;o empreendeu um movimento de distens&atilde;o entre o limite da tela e a parede. Consciente do espa&ccedil;o  que a pr&oacute;pria pintura habita, Adriana come&ccedil;a cada vez mais a dialogar com as paredes, os cantos e o ch&atilde;o do espa&ccedil;o expositivo (<a href="#f6">Figura 6</a>, <a href="#f7">Figura 7</a>). A profundidade representada simula, atrav&eacute;s do trompe l&#39;oeil, a escava&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria parede onde  o quadro se encontra suspenso assim como fragmentos de telas projetam-se  para fora, em dire&ccedil;&atilde;o a sala de exposi&ccedil;&atilde;o. Em Deslocamento  (<a href="#f8">Figura 8</a>) a pintura rompe com a estrutura quadrangular do suporte. Uma pequena tela desliza para fora do limite do ret&acirc;ngulo. O vazio n&atilde;o &eacute; mais representado, o nicho  torna-se real. Existe aqui uma ambiguidade perceptiva, pois, ora o branco da  parede torna-se buraco, apagamento, lapso da imagem, ora projeta-se para a frente como mais uma tela virgem a ser preenchida. Atrav&eacute;s dessa nova opera&ccedil;&atilde;o, a artista instaura uma nova s&eacute;rie de loci no qual dever&atilde;o ser alojadas, n&atilde;o apenas a mem&oacute;ria &iacute;ntima, mas a hist&oacute;ria da pintura e sua antiga querela em torno da representa&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>&nbsp;</p><a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a22f6.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a22f7.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a22f8.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Arasse, Daniel. (2001) <i>L&#39;ambition de Vermeer.</i> Paris : Adam Biro. ISBN 2-87660-321-7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1432783&pid=S1647-6158201400010002200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Bachelard, Gast&oacute;n (2000) <i>A po&eacute;tica do espa&ccedil;o.</i> S&atilde;o Paulo: Martins Fontes. ISBN 85-336-0234-0&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1432784&pid=S1647-6158201400010002200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Krauss,Rosalind (2002) "Os espa&ccedil;os discursivos da fotografia" in: <i>O fotogr&aacute;fico</i>. Barcelona: Gustavo Gili. ISBN 84-252-1858-6&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1432785&pid=S1647-6158201400010002200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Yates, Frances (2007) <i>A arte da mem&oacute;ria.</i> Campinas: Ed. Unicamp. ISBN 978-85-268-0768-6&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1432786&pid=S1647-6158201400010002200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo enviado a 26 de janeiro e aprovado a 31 de janeiro 2014</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:mvcorona@terra.com.br">mvcorona@terra.com.br</a> (Marilice Corona)</p>      ]]></body><back>
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