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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article discusses de role of art as political critique during the military regime at Brazil (1964-85). We will departure from the creative process of Raphael Samu for Universidade Federal de Espírito Santo (1974) and then we will search for the purposes and reflections of the artist on the political situation during those years. This study shows that, through a lyrical visual language, the artist uses a strateg y of political resistance that remained unseen by the political authorities and by the state censorship.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER: ARTIGOS ORIGINAIS POR AUTORES CONVIDADOS</b></p>     <p align="right"><b>DOSSIER: INVITED ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Chumbo em Anos de Chumbo: o lirismo combate a ditadura</b></p>     <p><b>Art against dictatorship</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Jos&eacute; Cirillo&#42;</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&#42;Par acad&eacute;mico externo da Revista Est&uacute;dio. Professor universit&aacute;rio e artista visual.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal de Esp&iacute;rito Santo, Centro de Artes, Programa de P&oacute;s Gradua&ccedil;&atilde;o. Av. Fernando Ferrari, 514 &#8211; Goiabeiras &#8211; Vit&oacute;ria &#8211; ES. CEP 29075-910 Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b>    <br> </p>     <p>O presente artigo discute o papel da arte como estrat&eacute;gia de cr&iacute;tica pol&iacute;tica durante a Ditadura Militar no Brasil (1964-1985). A partir do estudo do processo criativo do painel mural de Raphael Samu (1974) para a Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo, pretendemos evidenciar uma intencionalidade do artista em fazer uma reflex&atilde;o sobre o estado pol&iacute;tico do pa&iacute;s naqueles anos. O estudo revela que por meio de uma linguagem visual l&iacute;rica, o artista usa uma estrat&eacute;gia de resist&ecirc;ncia pol&iacute;tica que passa desapercebida pelas autoridades universit&aacute;rias e mesmo pela censura do estado de controle. </p>     <p><b>Palavras chave:</b> arte p&uacute;blica / Raphael Sam&uacute; / arte capixaba / ditadura militar.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This article discusses de role of art as political critique during the military regime at Brazil (1964-85). We will departure from the creative process of Raphael Samu for Universidade Federal de Esp&iacute;rito Santo (1974) and then we will search for the purposes and reflections of the artist on the political situation during those years. This study shows that, through a lyrical visual language, the artist uses a strateg y of political resistance that remained unseen by the political authorities and by the state censorship. </p>      <p><b>Keywords:</b></b> public art / Raphael Sam&uacute; / capixaba art / military regime.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>A Ditadura Militar brasileira teve sua fase mais retalhadora nos anos de 1970, d&eacute;cada de aprimoramento dos mecanismos de controle e tortura. S&atilde;o anos de forte propaganda oficial do governo; anos de p&atilde;o e circo, mas, sobretudo, anos de chumbo para os movimentos sociais ou qualquer tipo de oposi&ccedil;&atilde;o declarada. Fazer resist&ecirc;ncia aberta ao governo militar era colocar-se voluntariamente nos s&iacute;tios da tortura. Neste contexto de repress&atilde;o foi constru&iacute;da a obra mural que representaria a rec&eacute;m-criada Universidade Federal no Esp&iacute;rito Santo. Raphael Sam&uacute;, professor e artista com ampla experi&ecirc;ncia na produ&ccedil;&atilde;o de obras em grande escala foi convidado pelo Reitor do novo campus para executar a obra. A escolha parece ter ignorado a mem&oacute;ria e a cultura deste artista, filho de pais h&uacute;ngaros foragidos para o Brasil em decorr&ecirc;ncia do regime pol&iacute;tico da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica. Sam&uacute; projeta e executa uma obra p&uacute;blica de 140 m2 que aparentemente discorre sobre a utopia e a ci&ecirc;ncia, sobre a Universidade e o futuro.</p>     <p>A an&aacute;lise de documentos do processo dessa obra, bem como de sua contamina&ccedil;&atilde;o pela cultura do momento hist&oacute;rico, associados a uma an&aacute;lise semi&oacute;tica das imagens, revelam que talvez esta seja a maior obra de resist&ecirc;ncia e cr&iacute;tica pol&iacute;ticas aos anos de ditadura em solo capixaba. Um grito silencioso que evoca a resist&ecirc;ncia da juventude e coloca a Universidade e o conhecimento como a nova utopia de transforma&ccedil;&atilde;o social em dire&ccedil;&atilde;o ao futuro.</p>     <p>A Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo (UFES) foi criada em 1961, no apagar das luzes do governo Kubitschek, mas sua efetiva&ccedil;&atilde;o e edifica&ccedil;&atilde;o se deram ao som dos anos que sucederam o Golpe Militar de 1964. Assim, o novo espa&ccedil;o acad&ecirc;mico que materializava o sonho capixaba de ter em seu solo uma Universidade federal, agrega-se &agrave; vontade pol&iacute;tica de tamb&eacute;m avan&ccedil;ar os limites municipais da capital.</p>     <p>O Pr&eacute;dio inicialmente utilizado para a Administra&ccedil;&atilde;o Central e pela Biblioteca da UFES ficava imediatamente na entrada do campus. O projeto arquitet&ocirc;nico deste pr&eacute;dio desenhava um grande pared&atilde;o de mais de 140 metros quadrados, uma empena cega virada para a cidade. O reitor, M&aacute;ximo Borgo (1971-1975), convidou o rec&eacute;m-contratado professor do Centro de Artes, Raphael Sam&uacute; para realizar uma obra neste espa&ccedil;o.</p>     <p>O painel realizado por Raphael Sam&uacute; se configurou em um mural de aproximadamente 140 m2, localizado na entrada da UFES. Segundo relatos, na &eacute;poca a localiza&ccedil;&atilde;o do painel estava relacionada &agrave; quest&atilde;o dela dar-se &agrave; cidade. Um novo futuro e limites para uma cidade insular. Os estudantes, professores ou t&eacute;cnicos da UFES, mas, principalmente os transeuntes pela grande avenida de integra&ccedil;&atilde;o da cidade, ao passarem ou entrarem na nova Universidade seriam acometidos pelo que Pierce chama de admir&aacute;vel. Uma grande obra que interligaria visualmente a cidade e a Universidade. Um sobressalto aos sentidos que nos parece ocultar uma fratura no crescente esvaziamento cr&iacute;tico da percep&ccedil;&atilde;o promovida pelo ent&atilde;o governo militar que orquestrou a Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), que usurpou os direitos civis e exerceu sua capacidade de massacrar a liberdade e os direitos humanos.</p>     <p>Al&eacute;m das quest&otilde;es da censura pol&iacute;tica e cultural acirradas nos anos de 1970, outros desafios estruturais para a cria&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o da obra se colocaram ao artista, mas o mais s&eacute;rio parece ter sido mesmo lidar com a tesoura da censura militar. Assim, como criar uma obra, em plena repress&atilde;o militar que ao mesmo tempo n&atilde;o fosse censurada, mas que n&atilde;o se subjugasse a ela? Sam&uacute; colocou-se nesta empreitada.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. A experi&ecirc;ncia em arte p&uacute;blica de Raphael Sam&uacute;</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Parece-nos que Raphael Sam&uacute; encontra em sua hist&oacute;ria pessoal a estrat&eacute;gia e a imagem geradora da obra investigada. Nascido em S&atilde;o Paulo em 1929, ingressou em 1949 na Escola de Belas Artes de S&atilde;o Paulo, formando-se em escultura em 1955.Seu interesse em trabalhar com tesselas levou-lhe a prestar servi&ccedil;os em uma empresa especializada nesse campo. Durante esse per&iacute;odo, Sam&uacute; adquiriu seus conhecimentos sobre a produ&ccedil;&atilde;o de obras murais com pastilhas de vidro, executando trabalhos para artista como Di Cavalcante, L&iacute;vio Abramo, Clovis Graciano e C&acirc;ndido Portinari.</p>     <p>Sam&uacute; &eacute; conduzido, ainda em S&atilde;o Paulo, por um processo de contamina&ccedil;&atilde;o pela est&eacute;tica urbana e social, de forma&ccedil;&atilde;o de imagens da cidade, e n&atilde;o poderia esquecer isto na estrutura&ccedil;&atilde;o de sua obra. Como os artistas para os quais trabalhou, ele experimenta diversas linguagens, mas &eacute; a interface de seu projeto po&eacute;tico com a cidade que nos interessa aqui. Falamos de uma produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica de Sam&uacute; que se enquadra numa perspectiva ampliada do que &eacute; entendido como espa&ccedil;o p&uacute;blico. Alves (2006) conceitua espa&ccedil;o p&uacute;blico como sendo "aquele para cujo acesso o expectador necessita da livre circula&ccedil;&atilde;o". Para este autor, para apreciar a arte em espa&ccedil;o p&uacute;blico, n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria permiss&atilde;o, nem pagamento, nem tampouco atravessar muros, grades, etc.</p>     <p>&Eacute; neste ponto que desenvolvemos a tese de que a obra de Raphael Sam&uacute;, de forte tend&ecirc;ncia para as quest&otilde;es do espa&ccedil;o p&uacute;blico, apresenta uma tend&ecirc;ncia &agrave; uma cr&iacute;tica social expressiva &#8211; poss&iacute;vel influ&ecirc;ncia de Portinari e Graciano. Analisando os documentos e arquivos do processo criador deste artista, parece-nos poss&iacute;vel afirmar que Sam&uacute; revela uma intencionalidade: compartilhar a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica da obra, levar ao grande p&uacute;blico a experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, n&atilde;o apenas por meio das formas, ou das cores, mas principalmente pela sua dimens&atilde;o e situa&ccedil;&atilde;o espacial em espa&ccedil;os coletivos. Sua produ&ccedil;&atilde;o mural revela figuras de p&eacute;s descal&ccedil;os, corpos com bra&ccedil;os e pernas fortes, uma poss&iacute;vel analogia com o imagin&aacute;rio simb&oacute;lico do trabalhador bra&ccedil;al que ser&aacute; recorrente em sua obra mural &#8211; e que tamb&eacute;m nos remete &agrave; poss&iacute;veis influ&ecirc;ncias da est&eacute;tica de Graciano e Portinari, e por que n&atilde;o, dos muralistas mexicanos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Considera&ccedil;&otilde;es sobre o tema e o projeto: radiografia de uma obra</b></p>     <p>O desafio colocado ao artista era domar uma empena cega de um pr&eacute;dio t&eacute;rreo &#8211; que se alongava friamente em sua alva brancura ao olhar do passante. Sam&uacute; tem o desafio de humaniza-la e dar-lhe uma identidade, e para tal. Toda sua experi&ecirc;ncia adquirida nos tempos da S&atilde;o Paulo foi colocada em a&ccedil;&atilde;o. A imagem do painel deveria refletir sua &eacute;poca, a miss&atilde;o da Universidade, a coletividade. E esse foi o caminho escolhido no processo de cria&ccedil;&atilde;o desta obra que sucedeu etapa por etapa ao longo de meses. Num trabalho de joalheiro, na precis&atilde;o de cada tessela... num trabalho de engenheiro, calculava cada cent&iacute;metro da obra... planejava... executava... constru&iacute;a andaimes e escadas, edificava.</p>     <p>A quest&atilde;o social permanecia. Como construir uma imagem de futuro para uma Universidade se colocava como um desafio em tempos de censura. Assim, na interface com a cultura de seu tempo, bem como com a media&ccedil;&atilde;o de sua mem&oacute;ria como sujeito fenomenol&oacute;gico, revelam-se tend&ecirc;ncias do projeto po&eacute;tico do artista. Assim, toma na sociedade e nas quest&otilde;es atuais o ponto de partida das diretrizes a serem consideradas para a produ&ccedil;&atilde;o. Imagens de desenvolvimento, de sonho que se torna realidade, da tecnologia transformando a sociedade. Estas s&atilde;o nortes iniciais. O in&iacute;cio dos anos de 1970 ainda estava tomado pelo assombro dos primeiros passos na Lua. A corrida espacial era fato, embora fora fic&ccedil;&atilde;o. A imagem: um sonho que se realizava. Utopia e realidade como dualidades complementares. Bin&ocirc;mios iniciais nortearam o projeto. Sam&uacute; se coloca ent&atilde;o em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; materializa&ccedil;&atilde;o dessa imagem da utopia x realidade. A forma geral deveria ser capaz de expressar essa realiza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Tendo crescido na S&atilde;o Paulo dos anos de 1920 e 1930, Sam&uacute; acompanhou toda a movimenta&ccedil;&atilde;o cultural da cidade ao longo dos anos de 1960. Viu a utopia de uma capital nacional edificada no nada em cinco anos. Viu o homem que acabara de chegar a Lua. Nos anos de 1960, sonhos se materializavam. Flash Gordon &#8211; paix&atilde;o infantil do artista &#8211; era republicado; Gordon era fic&ccedil;&atilde;o em uma manh&atilde; de domingo de 1934. Armstrong era um fato em 1969. A lua e as espa&ccedil;onaves havia se tornado realidade. "<i>Um pequeno passo para o homem, mas um gigantesco passo para a humanidade", diria o astronauta</i>.</p>     <p>Parecia que a promessa positivista se concretizara e a tecnologia redimiria a humanidade, superaria as diferen&ccedil;as, minimizaria o sofrimento &#8211; pura ilus&atilde;o ufanista do fim da d&eacute;cada de 1960, quando a realidade social do mundo estava prestes a desabar. A Guerra Fria dividira o mundo. As pessoas pareciam emudecidas por totalitarismos pol&iacute;ticos e econ&ocirc;micos. Raphael Sam&uacute;, filho cultural e exilado do Leste Europeu, com pais despatriados pela ditadura sovi&eacute;tica, encontrou na saga espacial a imagem inicial. A met&aacute;fora da fic&ccedil;&atilde;o se tornara realidade. Uma met&aacute;fora da pr&oacute;pria hist&oacute;ria da UFES, o novo campus era um fato, e o painel expressaria isto. Promessas de desenvolvimento cient&iacute;fico e cultural estavam &agrave; sombra do manto totalitarista do regime militar e da opress&atilde;o pol&iacute;tica no Brasil. Essa n&eacute;voa cinzenta pairava nos becos escuros da gl&oacute;ria da propaganda desenvolvimentista do pa&iacute;s. Neste conflito deste contexto, as imagens e o projeto do painel come&ccedil;am a configurar-se.</p>     <p>Dos tempos de sonho, e da esperan&ccedil;a de uma solu&ccedil;&atilde;o para os problemas, um recorte da saga de Flash Gordon. Gordon &eacute; um &iacute;ndice da utopia. Neil Armstrong, a imagem da Apolo 11 e do astronauta s&atilde;o materializa&ccedil;&otilde;es da realidade. "&#91;...&#93; <i>um gigantesco passo para a humanidade</i>"... Talvez da&iacute; a met&aacute;fora que uniu as imagens e a Universidade e revelam a intencionalidade po&eacute;tica: a UFES, um grande passo para a sociedade e cultura do estado. A realidade metaf&oacute;rica se materializava numa pequena caminhada na Lua. A Universidade federal no Esp&iacute;rito Santo se materializava numa corrida pela madrugada nos corredores do Congresso Nacional (NB: A pressa do ent&atilde;o deputado Dirceu Cardoso, atravessando a noite em correria a Esplanada dos Minist&eacute;rios com um processo nas m&atilde;os era o retrato da urg&ecirc;ncia do Esp&iacute;rito Santo. A Universidade Estadual, um projeto ambicioso, mas de manuten&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil, se transformava numa institui&ccedil;&atilde;o federal. Foi o &uacute;ltimo ato administrativo do presidente Juscelino Kubitschek, em 30 de janeiro de 1961. Para o Esp&iacute;rito Santo, um dos mais importantes). Esse di&aacute;logo com a realidade de seu tempo e seu espa&ccedil;o parecem ter norteado as escolhas deste artista. Se a fic&ccedil;&atilde;o virou realidade, a utopia se materializou.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se nos deitamos os sentidos no painel, inicialmente parece-nos uma obra apenas ufanistas. Doce ilus&atilde;o da censura da &eacute;poca. Nossa hip&oacute;tese aqui &eacute; que juntamente com a met&aacute;fora constru&iacute;da entre <i>utopia x realidade</i>, Sam&uacute; n&atilde;o se desconecta da outra met&aacute;fora que assola o Brasil: <i>militar x civil, opress&atilde;o x liberdade, democracia x ditadura</i>. Essas oposi&ccedil;&otilde;es sem&acirc;nticas, veladas no plano da apar&ecirc;ncia, se revelam no plano de conte&uacute;do da obra (<a href="#f1">Figura 1</a>, <a href="#f2">Figura 2</a>).</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a29f1.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a29f2.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4. Edifica&ccedil;&atilde;o de um discurso velado</b></p>     <p>Ao analisar-se o projeto e a obra, observar-se que ela est&aacute; dividida em dois grandes campos a partir de um eixo central. O centro da imagem &eacute; ocupado por um jovem em um microsc&oacute;pio.</p>     <p>Na <a href="#f3">Figura 3</a> &agrave; direita podem ser vistos dois recortes inspirados em imagens de desenho de quadrinhos (Flash Gordon), uma refer&ecirc;ncia &agrave; Apolo XI e ao M&oacute;dulo Lunar, finalizando com as imagens de algu&eacute;m caminhando com macac&atilde;o espacial e o retrado do astronauta. &agrave; esquerda da imagem central, percebe-se um grupo de pessoas, provavelmente jovens pelo bi&oacute;tipo, usando cal&ccedil;as levemente curtas com os p&eacute;s descal&ccedil;os e ao fundo deles a sombra de outras pessoas; os jovens parecem conversar, estando virados de costas para as imagens anteriores e com um deles voltado, o rosto voltado para o final do projeto, no qual pode-se ver a sigla da Universidade "UFES" acompanhada de desenho que representam uma computador de bobinas, um cart&atilde;o e n&uacute;meros relacionados a processamento de dados.</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v5n9/5n9a29f3.jpg"></a>    
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Pode-se dizer que o plano da apar&ecirc;ncia dessa obra apresenta revela a intencionalidade primeira: a oposi&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica <i>utopia x realidade</i> contrapondo a saga espacial e a saga da Universidade, mediadas pelo conhecimento investigativo indiciado na imagem do eixo central. A localiza&ccedil;&atilde;o topol&oacute;gica das sequencias na obra parecem revelar outra intencionalidade: esbo&ccedil;a-se uma cr&iacute;tica &agrave; situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tico-social da &eacute;poca. Em toda a metade direita da obra as imagens referem-se a um conte&uacute;do militarizado, representado por Flash Gordon, por Neil Armstrong e a Apolo 11. Na metade esquerda, um conte&uacute;do c&iacute;vel constru&iacute;do com a imagem dos jovens e da Universidade (pertencente ao Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o ao das For&ccedil;as Armadas no Brasil). Assim, parece se construir por tr&aacute;s da oposi&ccedil;&atilde;o conjuntiva <i>utopia x realidade</i>, uma oposi&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica disjuntiva e antag&ocirc;nica entre <i>MILITAR x CIVIL</i>; topologicamente, a localiza&ccedil;&atilde;o das imagens &agrave; direita e esquerda constr&oacute;i outra oposi&ccedil;&atilde;o que refor&ccedil;a essa intencionalidade cr&iacute;tica disjuntiva expressa na oposi&ccedil;&atilde;o <i>DIREITA x ESQUERDA</i>. Observa-se, ainda que a mancha s&oacute;lida que d&aacute; contorno ao retrato do astronauta ir&aacute; transpor-se para o eixo central da obra, sendo seu azul interrompido por uma linha azul mais claro que define a imagem inicial na parte central da imagem.</p>     <p>Enquanto estes dois campos da obra revelam uma aproxima&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de antagonias, o centro da imagem &eacute; ocupado pela imagem de uma pessoa e um microsc&oacute;pio: jovem, homem e de cabelos pretos e longos que parece estar fazendo pesquisas &#8211; uma poss&iacute;vel met&aacute;fora do investigar e produzir conhecimento como algo que n&atilde;o est&aacute; limitado ao setor militar. Se o retrato do astronauta demarca o fim da &aacute;rea da "direita" na obra, &eacute; da mancha que se forma a partir da roupa do jovem central que brota a silueta que sugere o grupo de estudantes, de costas para a direita da obra e voltados para a extrema esquerda, onde se coloca o nome da Universidade e as imagens ligadas a computadores. Uma cr&iacute;tica ao sistema pol&iacute;tico do per&iacute;odo aparentemente se instalou.</p>     <p>Se os jovens promissores, inteligentes e com a frieza necess&aacute;ria para os servi&ccedil;os aeroespaciais se configuram em Gordon e Armstrong (um jogador de polo e um brilhante estudante do MIT/USA), na metade esquerda os jovens se transfiguram na met&aacute;fora do trabalhador: p&eacute;s descal&ccedil;os e fortes, pernas torneadas e a cal&ccedil;a ligeiramente curta, imagens que encontram sua analogia na est&eacute;tica social dos artistas com e para os quais Sam&uacute; trabalhara em S&atilde;o Paulo. A oposi&ccedil;&atilde;o entre esses dois tipos de jovens revela a potencialidade cr&iacute;tica da obra. Inten&ccedil;&atilde;o consciente? Talvez seja intuitivamente que a mente criadora evoque essas met&aacute;foras edificantes &#8211; prov&aacute;vel fruto de mem&oacute;ria familiar do artista, permeada pela resist&ecirc;ncia &agrave; pol&iacute;tica sovi&eacute;tica no Leste Europeu.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>5. Considera&ccedil;&otilde;es finais</b></p>     <p>Era sabido, naquele momento dos anos de 1970, nos anos de chumbo da ditadura no Brasil, que as universidades, junto aos sindicatos, eram ber&ccedil;o das esquerdas e da resist&ecirc;ncia &agrave; ditadura. A proposta do artista expressa que esta nova Universidade deveria ser constru&iacute;da por esses jovens; constr&oacute;i uma met&aacute;fora do trabalho. A utopia &eacute; retomada e a nova Universidade parece ser aquela constru&iacute;da pelo esfor&ccedil;o das novas gera&ccedil;&otilde;es &#8211; de costas para os totalitarismos e focadas no futuro. Sam&uacute; nos oferece um objeto sens&iacute;vel. Um objeto pol&iacute;tico. Compartilha essa experi&ecirc;ncia est&eacute;tica, entrega &agrave; UFES e &agrave; cidade essa experi&ecirc;ncia. A obra parece ser a met&aacute;fora da transforma&ccedil;&atilde;o. Um &iacute;ndice da resist&ecirc;ncia inteligente e silenciosa daqueles grandes artistas que cruzaram ativamente os anos duros da hist&oacute;ria brasileira.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Alves, Jos&eacute; Francisco (Ed.) (2008). <i>Experi&ecirc;ncias em Arte P&uacute;blica: Mem&oacute;ria e Atualidade</i>. Porto Alegre: Artfolio e Editora da Cidade. 72 p.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1433364&pid=S1647-6158201400010002900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo enviado a 20 de janeiro e aprovado a 31 de janeiro 2014</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:josecirillo@pq.cnpq.br">josecirillo@pq.cnpq.br</a> (Jos&eacute; Cirillo)</p>      ]]></body><back>
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