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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Como um grão de areia: Sobre uma obra de Regina de Paula]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The photographic work "As a grain of sand" by Regina de Paula operates as a starting point for a reflection on God, History and origin. The presence/absence of a Bible alternated nine times on a surface of sand can be read. for example, as the issues of elective affinity that Walter Benjamin uses to define History as an overlapping of time in a succession of "nows". This anti-historicist History referred by the author via enunciation of the category is origin is formalized, in de Paula's work as a devir aesthetics.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Como um gr&atilde;o de areia. Sobre uma obra de Regina de Paula</b></p>     <p><b>As a grain of sand. About one work by Regina de Paula</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Zalinda Cartaxo&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual. Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Pl&aacute;sticas, Pontif&iacute;cia universidade Cat&oacute;lica do Rio de Janeiro (PuC-RJ). Mestrado em Hist&oacute;ria e Cr&iacute;tica de Arte, universidade Federal do Rio de Janeiro (uFRJ). Doutorado em Artes, universidade de S&atilde;o Paulo (uSP) e Doutorado em Artes Visuais, uFRJ. Professora Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Artes C&ecirc;nicas. Av. Pasteur, 436 (fundos) &#8211; Urca &#8211; Cep 22290-240 Rio de Janeiro, Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b>    <br> </p>     <p>Tomar-se-&aacute; como aporte para reflex&atilde;o sobre Deus, hist&oacute;ria e origem, a obra fotogr&aacute;fica Como um gr&atilde;o de areia, de 2014, da artista visual Regina de Paula. As nove imagens alternadas pela presen&ccedil;a/aus&ecirc;ncia de uma B&iacute;blia sob uma superf&iacute;cie de areia oferecem leitura que tangencia, por exemplo, as quest&otilde;es da afinidade eletiva de que nos fala Walter Benjamin, quando localiza a Hist&oacute;ria como configura&ccedil;&atilde;o, em que os tempos se sobrep&otilde;em em infinitos &#39;agoras&#39;. A hist&oacute;ria anti-historicista referida pelo autor, a partir da enuncia&ccedil;&atilde;o da categoria de origem, vemos aqui formalizada numa est&eacute;tica do devir. </p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Artes visuais / fotografia / origem.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>The photographic work "As a grain of sand" by Regina de Paula operates as a starting point for a reflection on God, History and origin. The presence/absence of a Bible alternated nine times on a surface of sand can be read. for example, as the issues of elective affinity that Walter Benjamin uses to define History as an overlapping of time in a succession of "nows". This anti-historicist History referred by the author via enunciation of the category is origin is formalized, in de Paula&#39;s work as a devir aesthetics.</p>     <p><b>Keywords:</b> Visual Art / photography / origin.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Segundo Walter Benjamin (1987: 239),"quem pretende se aproximar do pr&oacute;prio passado soterrado deve agir como um homem que escava."Ao faz&ecirc;-lo, "n&atilde;o deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalh&aacute;-lo como se espalha a terra, revolv&ecirc;-lo como se revolve o solo. Pois &#39;fatos&#39; nada s&atilde;o al&eacute;m de camadas que apenas &agrave; explora&ccedil;&atilde;o mais cuidadosa entregam aquilo que recompensa a escava&ccedil;&atilde;o" (Benjamin, 1987: 239). A latente vontade de discernir entre <i>o objeto do saber e o objeto da verdade</i>, a partir de uma est&eacute;tica em devir, tomaremos aqui, como exemplo, na obra <i>Como um gr&atilde;o de areia</i>, de 2014, da artista visual Regina de Paula. Trata-se de uma fotografia com nove imagens alternadas pela presen&ccedil;a/aus&ecirc;ncia de uma b&iacute;blia sobre uma superf&iacute;cie de areia. O objeto-b&iacute;blia possui um corte central quadrangular que, na seq&uuml;&ecirc;ncia fotogr&aacute;fica, ora est&aacute; preenchido pela areia, ora revela-se pela sua aus&ecirc;ncia. O objeto-b&iacute;blia utilizado pela artista &eacute; parte da sua performance <i>Sobre a areia</i>, de 2014, quando &eacute; banhada nas &aacute;guas do mar.</p>     <p>Mais do que associar o objeto crist&atilde;o, nascido da cren&ccedil;a em <i>Deus</i>, ao ato do batismo, esta obra reflete sobre uma temporalidade que transcende qualquer religiosidade. A b&iacute;blia, aqui, alinha-se ao conceito de mitologia, uma esp&eacute;cie de <i>hist&oacute;ria das verdades humanas</i> que repete a din&acirc;mica m&iacute;stica e, principalmente, cultural, de tantas outras religi&otilde;es e fatos, de qualquer tempo, lugar ou <i>Deus</i>. O objeto-livro eleito, a b&iacute;blia, constitui-se, aqui, como afirmativa do humano e de sua hist&oacute;ria. A sua elei&ccedil;&atilde;o indica vontade de revela&ccedil;&atilde;o da sua <i>verdade</i> imanente, a vontade de restaura&ccedil;&atilde;o, em todas as suas inst&acirc;ncias, do seu conte&uacute;do temporal.</p>     <p>O objeto-b&iacute;blia da fotografia <i>Como um gr&atilde;o de areia</i> (<a href="#f1">Figura 1</a>; <a href="#f2">Figura 2</a>), &eacute; potencialmente temporal: guarda, em si, al&eacute;m do pr&oacute;prio tempo da hist&oacute;ria, o tempo recente da interven&ccedil;&atilde;o perform&aacute;tica da artista. Tal comp&ecirc;ndio, ap&oacute;s sua imers&atilde;o no mar, tornou-se, quase, massa disforme incapaz de representar com exatid&atilde;o a hist&oacute;ria. Cont&ecirc;m v&aacute;rios &#39;agoras&#39;. Com a subtra&ccedil;&atilde;o de parte da b&iacute;blia, vis&iacute;vel pelo cubo vazio, e, quando lan&ccedil;ada ao mar, ora retendo &aacute;gua, ora areia, cria uma esp&eacute;cie de <i>anamnesia material</i>, em que uma nova forma surge conciliando temporalidades e lugares diversos. Para Georges Didi-Huberman (2009: 57), ao referir-se &agrave; escultura, "a forma que se erige do material ser&aacute; concebida como o resultado de uma escava&ccedil;&atilde;o &#91;...&#93; e este, por sua vez, ser&aacute; concebido como uma dial&eacute;tica do substrato, do vazio e da carne que cava...". De acordo com o autor (Didi-Huberman, 2009: 58), fazer uma escava&ccedil;&atilde;o "&eacute; fazer a anamnesia do material que foi submerso pela m&atilde;o: o que a m&atilde;o extrai do material n&atilde;o &eacute; outra coisa que uma forma presente onde se aglutinam, se inscrevem, todos os <i>tempos do lugar</i> concreto, de onde extrai seu &#39;estado nascente&#39;". Ainda para o autor (Didi-Huberman, 2009: 59), o escultor se apodera de todos os sentidos do tempo: "escavar n&atilde;o &eacute; somente cavar a terra para tirar dela coisas mortas h&aacute; muito tempo. &Eacute; tamb&eacute;m preparar, na terra aberta &#91;...&#93;, um passo para formas que tenham em si mesmas a mem&oacute;ria do seu devir, do seu nascimento ou crescimento futuros." Huberman (2009: 61) finaliza afirmando que a arqueologia do material n&atilde;o &eacute; concebida, sen&atilde;o, pelo confronto com uma arqueologia do sujeito, indagando: "consistiria, ent&atilde;o, a arte do escultor em cavar galerias, em escavar na mem&oacute;ria da sua pr&oacute;pria carne e de seu pr&oacute;prio pensamento?" Cumpre-se a senten&ccedil;a de Benjamin (1987: 239), "quem pretende se aproximar do pr&oacute;prio passado soterrado deve agir como um homem que escava." </p>     <p>&nbsp;</p><a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v5n10/5n10a12f1.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v5n10/5n10a12f2.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>O &#39;estado nascente&#39; referido por Didi-Huberman podemos comparar ao conceito de &#39;origem&#39; tratado por Walter Benjamin. Para o autor, existe um desacordo entre <i>o objeto do saber</i> e o <i>objeto da verdade</i>. Atrav&eacute;s da origem &eacute; poss&iacute;vel a reflex&atilde;o sobre a totalidade e, dessa forma, representa&ccedil;&atilde;o da <i>verdade dos objetos</i>. De acordo com Jeanne Marie Gagnebin (1989: 285), existem tr&ecirc;s aspectos que definem o conceito de origem em Benjamin: como oposi&ccedil;&atilde;o ao <i>conceito de g&ecirc;nese</i>; como restaura&ccedil;&atilde;o inacabada e aberta; e, ligada ao conceito de <i>destrui&ccedil;&atilde;o</i>. No primeiro, localizamos a ruptura com o tempo linear, cronol&oacute;gico, favorecendo o di&aacute;logo das estruturas do presente com o passado; no segundo, a remiss&atilde;o ao passado, pela intermedia&ccedil;&atilde;o da lembran&ccedil;a, produz efeito de reprodu&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, a consci&ecirc;ncia da perda; no terceiro caso, a recupera&ccedil;&atilde;o da origem ocorre pela <i>dispers&atilde;o e reuni&atilde;o</i>, pela <i>destrui&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o</i>.</p>     <p>As imagens contidas na obra <i>Como um gr&atilde;o de areia</i> apresentam um objeto simb&oacute;lico, a b&iacute;blia, que, de algum modo, cr&ecirc; revelar a origem do homem e do mundo. Contudo, sua mera presen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; suficiente para ativar aquilo que potencialmente lhe &eacute; imanente. Foi necess&aacute;rio confront&aacute;-la com os res&iacute;duos do real (o mar e a areia) que fazem parte, inclusive, do seu discurso simb&oacute;lico. O pr&oacute;prio t&iacute;tulo da obra foi retirado de um trecho da b&iacute;blia.</p>     <p>A <i>origem</i>, enquanto fen&ocirc;meno, n&atilde;o &eacute; encontrada em sua totalidade. Ela revela-se pela sua incompletude, visto que &eacute; inevit&aacute;vel o seu confronto com a pr&eacute; e a p&oacute;s-hist&oacute;ria. <i>Coisa</i> e <i>verdade</i> tornam-se indissoci&aacute;veis indicando a necessidade de comprova&ccedil;&atilde;o dos fatos para constituir-se como <i>origem</i> e desenhar a hist&oacute;ria. Segundo Benjamin (1984: 45), "cabe ao investigador examinar a estrutura, que no final da an&aacute;lise desemboca na origem, revelando o solo que nasceu a id&eacute;ia." Para o autor (Benjamin, 1984: 45), "a investiga&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica consiste pois em representar a id&eacute;ia (atualiz&aacute;-la) atrav&eacute;s da descri&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos, gra&ccedil;as a uma an&aacute;lise estrutural, que uma vez conclu&iacute;da revela a origem. "Podemos localizar na reflex&atilde;o est&eacute;tica de Regina de Paula uma pr&aacute;tica formalizada e metaf&oacute;rica da busca da <i>origem</i>. A incis&atilde;o promovida pela artista no interior do objeto-b&iacute;blia atrav&eacute;s do exerc&iacute;cio da escava&ccedil;&atilde;o, p&aacute;gina ap&oacute;s p&aacute;gina, repetidamente, reflete a fala anterior de Benjamin: "&#39;fatos&#39; nada s&atilde;o al&eacute;m de camadas que apenas &agrave; explora&ccedil;&atilde;o mais cuidadosa entregam aquilo que recompensa a escava&ccedil;&atilde;o". Aparentemente a escava&ccedil;&atilde;o do objeto-b&iacute;blia chegou a um vazio, um oco quadrangular no interior do comp&ecirc;ndio.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote><i>Segundo Victor Burgin, antes da perspectiva de ponto de fuga surgir no Renascimento n&atilde;o existia a &#39;aus&ecirc;ncia&#39;, em que o "horror vacui" era manifesto na filosofia aristot&eacute;lica, nas cosmologias cl&aacute;ssicas, onde o espa&ccedil;o era plenitude e na Idade M&eacute;dia, em que Deus manifestava-se como totalidade. Com o surgimento da perspectiva no quattrocento o sujeito depara-se, pela primeira vez, com a aus&ecirc;ncia no campo de vis&atilde;o. O vazio transforma-se em objeto de abje&ccedil;&atilde;o (grau zero da espacializa&ccedil;&atilde;o).</i> &#91;...&#93; <i>Para o autor, o conceito de abjeto poderia corresponder &agrave; separa&ccedil;&atilde;o entre &#39;sujeito&#39; e &#39;objeto&#39;, contudo est&aacute; na hist&oacute;ria do primeiro sendo anterior a esta dicotomia. Tem in&iacute;cio com a expuls&atilde;o do sujeito pela sua m&atilde;e pr&eacute;-&eacute;dipica, em que o corpo procriador da mulher biol&oacute;gica &eacute; o primeiro objeto de abje&ccedil;&atilde;o. O "corpo da mulher recorda aos homens a sua pr&oacute;pria mortalidade" (Burgin, 2004, p. 91). Para Lacan, a esfera das cosmologias cl&aacute;ssicas representa o espa&ccedil;o f&iacute;sico onde o sujeito, repetidamente, renasce e o vazio central nela contida, o lugar do objeto perdido, assim como, da morte do sujeito</i> (Cartaxo, 2012: 87).</blockquote></p>     <p>O vazio presente no interior do objeto-b&iacute;blia podemos comparar &agrave;quele pr&oacute;prio da disciplina arquitetura. O prefixo &#39;<i>ar</i>&#39; de arquitetura que tem sua raiz no grego &#39;<i>arch&eacute;</i>&#39; tamb&eacute;m est&aacute; presente na palavra &#39;<i>arro</i>&#39; (ocos), da&iacute; o significado do termo arquitetura: constru&ccedil;&atilde;o de ocos. Por sua vez, a palavra Arca (que significa grande caixa) &eacute; proveniente do latim &#39;<i>arc&egrave;re</i>&#39; (cortar, delimitar) colaborando na compreens&atilde;o que temos do espa&ccedil;o arquitet&ocirc;nico como aquele que define os espa&ccedil;os interno (finito) e externo (ilimitado). Tal conflito pensado a partir do objeto-b&iacute;blia remete &agrave; categoria est&eacute;tica do sublime, quando a finitude da mat&eacute;ria &eacute; vencida pela infinitude da Alma como nos indica o comp&ecirc;ndio. A arquitetura Ocidental tem seu come&ccedil;o alinhado ao surgimento da pr&aacute;tica projetual, atrav&eacute;s, especialmente, da descoberta da perspectiva de ponto de fuga, cuja base principal est&aacute; na afirma&ccedil;&atilde;o do sujeito. No &acirc;mbito da cidade, a perspectiva revelou a consci&ecirc;ncia do ser-no-mundo do homem, &agrave; medida que a caixa arquitet&ocirc;nica convergia para a linha do horizonte, o lugar simb&oacute;lico da nossa exist&ecirc;ncia. A experi&ecirc;ncia do sujeito no espa&ccedil;o persp&eacute;ctico, ou, de outro modo, no interior da caixa-cubo arquitet&ocirc;nica, foi pensada nas suas infinitas possibilidades por Alberti que a concluiu numa s&iacute;ntese de sete itiner&aacute;rios: os movimentos para cima ou para baixo, para a esquerda ou para a direita, avan&ccedil;ando ou retrocedendo e, finalmente, girando. De modo an&aacute;logo, as axialidades do corpo humano definem uma orienta&ccedil;&atilde;o septen&aacute;ria no espa&ccedil;o tridimensional: o corpo em p&eacute; refere-se ao eixo vertical da gravidade; o rosto representa a frontalidade, que, com sua bilateralidade sim&eacute;trica define a direita e a esquerda e seus respectivos hemisf&eacute;rios; a posteridade como regi&atilde;o topol&oacute;gica do atr&aacute;s; e, por &uacute;ltimo, o &#39;espa&ccedil;o interior&#39; do homem, em que pela rota&ccedil;&atilde;o e circularidade de seus membros determina a esfera da a&ccedil;&atilde;o. Tal concep&ccedil;&atilde;o espacial orientada para o homem reflete o esp&iacute;rito humanista-renascentista na valoriza&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia e da individualidade do mesmo. Conciliar o vazio quadrangular, quase &#39;malevitchiano&#39;, ao universo b&iacute;blico de uma hist&oacute;ria supostamente reveladora da nossa <i>origem</i> significa afirmar uma temporalidade amb&iacute;gua fundada numa estrutura em <i>devir</i>. Segundo Fernando Pessoa (1994: 211),</p>     <blockquote>... <i>as coisas s&atilde;o como que c&uacute;bicas; a nossa sensa&ccedil;&atilde;o delas plano-quadrada. Cada sensa&ccedil;&atilde;o pode dizer-se c&uacute;bica porque envolve um triplo: a coisa-em-si (seja ela o que for), a nossa percep&ccedil;&atilde;o individual, e nossa percep&ccedil;&atilde;o extra-individual, </i>&#91;...&#93;<i> metafisicamente falando, este &uacute;ltimo g&ecirc;nero de percep&ccedil;&atilde;o &eacute; o comum a tudo o que existe, a quanto &eacute; universo de quanto &eacute; universo.</i></blockquote></p>     <p>O espa&ccedil;o c&uacute;bico no interior do objeto-b&iacute;blia, regular, ortogonal e geom&eacute;trico contradiz a &#39;situa&ccedil;&atilde;o&#39; em que o comp&ecirc;ndio &eacute; apresentado: esp&eacute;cie de massa disforme, recorrente da sua imers&atilde;o no mar, ora envolto e preenchido por areia, ora ausente (fisicamente) / presente (iman&ecirc;ncia). A imers&atilde;o do objeto-b&iacute;blia na areia, assim como a inser&ccedil;&atilde;o da areia &#39;dentro&#39; dele, rompe com os limites entre obra e espa&ccedil;o, entre coisa e lugar. O<i> informe</i> (<i>formless</i>) teorizado pelos cr&iacute;ticos Rosalind Krauss e Yve-Alain Bois a partir da formula&ccedil;&atilde;o de Bataille, de 1929, buscou superar a dicotomia forma/conte&uacute;do. Dos quatro conceitos que tratam do<i> informe</i> (<i>formless</i>), apresentados pelos autores &#8211; a <i>horizontalidade</i>, a <i>pulsa&ccedil;&atilde;o</i>, o <i>baixo materialismo</i> e a <i>entropia</i> &#8211;, o que melhor representa o <i>estado das coisas</i>, &eacute; o &uacute;ltimo. A <i>entropia</i> rompe com o purismo modernista que exigia limites espec&iacute;ficos para a obra de arte. A partir da l&oacute;gica de Bataille, da experi&ecirc;ncia como excesso fundada numa estrutura de <i>deslimites</i>, os autores refletem sobre as novas pr&aacute;ticas contempor&acirc;neas. A dissolu&ccedil;&atilde;o do objeto-b&iacute;blia no seu entorno-areia, e <i>vice-versa</i>, a ruptura dos limites, aqui, hist&oacute;ricos, geogr&aacute;ficos, ideol&oacute;gicos, est&eacute;ticos etc., repercutem as din&acirc;micas temporais que, por sua vez, retomam o conceito de <i>origem</i>. Obra cumulativa de tempos e espacialidades, <i>Como um gr&atilde;o de areia</i>, constitui-se como objeto de pot&ecirc;ncia. Como nas palavras de Benjamin (1985: 229-30), "a hist&oacute;ria &eacute; objeto de uma constru&ccedil;&atilde;o cujo lugar n&atilde;o &eacute; o tempo homog&ecirc;neo e vazio, mas um tempo saturado de &#39;agoras&#39;."</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Benjamin, Walter (1984) <i>Origem do Drama Barroco Alem&atilde;o</i>. S&atilde;o Paulo: Brasiliense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1434376&pid=S1647-6158201400020001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Benjamin, Walter (1987) <i>Rua de m&atilde;o &uacute;nica</i>. Rio de Janeiro: Brasiliense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1434378&pid=S1647-6158201400020001200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Benjamin, Walter (1985) "Sobre o Conceito de Hist&oacute;ria." In: <i>Obras Escolhidas</i>. S&atilde;o Paulo: Brasiliense.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1434380&pid=S1647-6158201400020001200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Cartaxo, Zalinda (2012) <i>Pintura e Realidade. Realismo arquitet&ocirc;nico na pintura contempor&acirc;nea. Adriana Varej&atilde;o e Jos&eacute; Louren&ccedil;o</i>. Rio e Janeiro: Apicuri.</p>     <!-- ref --><p>Gagnebin, J. M. (1989) "Notas sobre as no&ccedil;&otilde;es de origem e original em Walter Benjamin." <i>34 Letras</i>, n. 5/6, set.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1434383&pid=S1647-6158201400020001200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Pessoa, Fernando (1994) <i>O Cubo das Sensa&ccedil;&otilde;es: textos filos&oacute;ficos</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&atilde;o &Aacute;tica, vol. 2,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1434385&pid=S1647-6158201400020001200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 4 de setembro e aprovado a 23 de setembro de 2014</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name = "c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:z.cartaxo@uol.com.br">z.cartaxo@uol.com.br</a></p>      ]]></body><back>
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