<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1647-6158</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista :Estúdio]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Estúdio]]></abbrev-journal-title>
<issn>1647-6158</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1647-61582014000200023</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Esferas Suspensas, entrevista a Rui Chafes]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Suspended Spheres, Rui Chafes interviewed]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Serra]]></surname>
<given-names><![CDATA[Rui]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Faculdade de Belas-Artes ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
<country>Portugal</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2014</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2014</year>
</pub-date>
<volume>5</volume>
<numero>10</numero>
<fpage>178</fpage>
<lpage>184</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582014000200023&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582014000200023&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582014000200023&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ENTREVISTA</b></p>     <p align="right"><b>INTERVIEW</b></p>     <p><b>Esferas Suspensas, entrevista a Rui Chafes</b></p>     <p><b>Suspended Spheres, Rui Chafes interviewed</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Rui Serra&#42;</b></p>     <p>&#42;Portugal, artista pl&aacute;stico / pintor e professor de pintura. Licenciatura em Pintura, pela Faculdade de Belas-Artes da universidade de Lisboa (FBAUL). Mestrado em Pintura (FBAUL). Doutoramento em Belas-Artes, especialidade de Pintura (FBAUL).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes. Largo da Academia Nacional de Belas-Artes. 1249-058 Lisboa, Portugal. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b>    <br> </p>     <p>Esta entrevista possui dois grandes objectivos: reflectir sobre uma s&eacute;rie escult&oacute;rica de Rui Chafes, e justificar a sua dimens&atilde;o art&iacute;stica &agrave; luz de uma sensibilidade que aflora a transcend&ecirc;ncia na Arte actual.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Escultura / Suspens&atilde;o / Alquimia / F&eacute; / Deus.</p>     <p>&nbsp;</p>    <p><b>ABSTRACT</b></p>     <p>This interview consists of two main objectives: to reflect on a series of sculptures of Rui Chafes, and justify his artistic dimension in a domain that concerns the issue of transcendence in the current Art.</p>      <p><b>Keywords:</b> Sculpture / Suspension / Alchemy / Faith / God.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&#8211; Entre 1998 e 2005 executaste um conjunto de esculturas com os seguintes t&iacute;tulos: <i>Amanhecer, Que Far&aacute;s, Deus, Se Eu Morrer?, Sol, Suave Medo Escuro, Um Sopro, Entre o Dia e o Sonho, Perder a Sombra, A Tua Sombra, Respira&ccedil;&atilde;o, Durante o Sono, A Alma, Pris&atilde;o do Corpo, Aproxima-te, Ouve-me, O &Uacute;ltimo Olhar, Passagem, A Sombra da Tua Sombra, Apaga-me os Olhos, Breve Mas Infinita Dist&acirc;ncia, Ou&ccedil;o-te T&atilde;o Lentamente</i> e <i>N&atilde;o Pesar Sobre a Terra</i>. S&atilde;o esculturas em ferro cuja configura&ccedil;&atilde;o consiste numa grande esfera, como um bal&atilde;o, suspensa sobre linhas delgadas e ondulantes, parecendo manter-se num estado interm&eacute;dio de levita&ccedil;&atilde;o (<a href=#f1>Figura 1</a>, <a href=#f2>Figura 2</a>, <a href=#f3>Figura 3</a>, <a href=#f4>Figura 4</a>, <a href=#f5>Figura 5</a>, ). Posso considerar estas esculturas uma s&eacute;rie?</b></p>     <p>&nbsp;</p><a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v5n10/5n10a23f1.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v5n10/5n10a23f2.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v5n10/5n10a23f3.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v5n10/5n10a23f4.jpg"></a>    
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p><a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v5n10/5n10a23f5.jpg"></a>    
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Rui Chafes:</b> Estas obras constituem uma s&eacute;rie no tempo. Sempre trabalhei por s&eacute;ries, que se podem estender por v&aacute;rios anos, com interrup&ccedil;&otilde;es. Funcionam para mim como varia&ccedil;&otilde;es de um tema (tal como na m&uacute;sica) em que vou procurando todas as formas poss&iacute;veis ou pass&iacute;veis de serem &uacute;teis, at&eacute; chegar a um ponto em que j&aacute; compreendi a escultura, em que n&atilde;o preciso de investigar mais. Sempre trabalhei assim e n&atilde;o &eacute; nada complicado nem na minha cabe&ccedil;a nem historicamente: os escultores g&oacute;ticos sempre fizeram varia&ccedil;&otilde;es sobre temas (Anuncia&ccedil;&atilde;o, Virgem com o Menino, Crucifix&atilde;o, etc.). Por outro lado, eu venho historicamente da heran&ccedil;a da escultura Minimalista e P&oacute;s-Minimalista americana dos anos 60 e 70, e esse foi um contexto em que os artistas trabalharam e desenvolveram precisamente a no&ccedil;&atilde;o de s&eacute;rie. N&atilde;o podemos esquecer que foram esses autores que deram o impulso mais significativo &agrave; hist&oacute;ria da escultura contempor&acirc;nea enquanto pr&aacute;tica e cr&iacute;tica de um processo material de invers&atilde;o do espa&ccedil;o.</p>     <p><b>&#8211; &Eacute; s&oacute; uma escultura com v&aacute;rios momentos?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Toda a minha escultura &eacute; uma s&oacute; escultura com v&aacute;rios momentos. Um filme com v&aacute;rios fotogramas. Por isso est&aacute; inacabada.</p>     <p><b>&#8211; Os t&iacute;tulos que atribu&iacute;stes &agrave;s &#39;esferas&#39; s&atilde;o cita&ccedil;&otilde;es, par&aacute;frases ou s&atilde;o simplesmente inventados por ti?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Todos os meus t&iacute;tulos s&atilde;o reinterpreta&ccedil;&otilde;es e reinven&ccedil;&otilde;es de todas as representa&ccedil;&otilde;es do Mundo atrav&eacute;s da Palavra. Tudo o que lemos, reinventamos.</p>     <p><b>&#8211; V&ecirc;s nas met&aacute;foras religiosas, ocultistas, alqu&iacute;micas, uma forma do teu trabalho aceder a um patamar espiritual, em que a mat&eacute;ria/forma &#39;&eacute; como se&#39; fosse esp&iacute;rito/sentido?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Creio que o sentido po&eacute;tico (tal como o entendia Pasolini) &eacute; o que nos permite agir sobre o mundo a partir de uma desloca&ccedil;&atilde;o (por vezes m&iacute;nima, por vezes enorme) de sentido do ponto de vista. O sentido po&eacute;tico &eacute; o que desloca o espectador (n&atilde;o existe Arte se n&atilde;o for recebida, vista, ouvida, etc.) para um ponto onde uma nova constru&ccedil;&atilde;o da realidade pode acontecer. "N&atilde;o existe Arte sem transforma&ccedil;&atilde;o", como escreveu Robert Bresson.</p>     <p><b>&#8211; Sentes que haver&aacute; conex&otilde;es gen&eacute;ricas e/ou espec&iacute;ficas de sentido entre ti e, por exemplo, Mark Rothko e Andrei Tarkovsky?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Tens raz&atilde;o. Mas n&atilde;o te esque&ccedil;as, igualmente muito importante: Ad Reinhardt!</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&#8211; Pelo facto de teres estudado na Alemanha, e estes autores serem oriundos da Europa do Norte, pode presumir-se uma certa cumplicidade geogr&aacute;fico-cultural entre voc&ecirc;s?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> &Eacute; dif&iacute;cil responder. Aparentemente existe o &#39;anel n&oacute;rdico/russo/japon&ecirc;s&#39;, que conteria em si o sil&ecirc;ncio e a estagna&ccedil;&atilde;o do tempo. A cultura germ&acirc;nica, da qual sempre estive muito pr&oacute;ximo, &eacute; uma cultura de rigor e exactid&atilde;o, mesmo na dem&ecirc;ncia. Mas, por exemplo, a constru&ccedil;&atilde;o do tempo em Bresson ou em Pasolini tamb&eacute;m me guia os passos e eles s&atilde;o meridionais. &Eacute; dif&iacute;cil responder com geografia. Mas sim, na verdade a chuva, o frio e a escurid&atilde;o moldam o car&aacute;cter de uma cultura de uma forma diferente que o sol, o calor e a luz. Trata-se de negociar o mundo interior com o mundo exterior. A Arte ser&aacute; sempre a fric&ccedil;&atilde;o entre o mundo interior e o mundo exterior.</p>     <p><b>&#8211; H&aacute; uns anos disseste-me que havia uma estreita intimidade entre estas esculturas e o filme Andrei Rublev de Tarkovsky. Podes especificar como?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> H&aacute; muitas intimidades com esse filme (feito no ano em que nasci, 1966) e com toda a obra de Tarkovsky. Andrei Rublev foi a minha primeira aula de Est&eacute;tica a s&eacute;rio, quando era estudante na F.B.A.U.L.. A&iacute; percebi, pela primeira vez, que a escultura pode ser apenas um enorme bal&atilde;o que se eleva lentamente no ar, levando consigo a emo&ccedil;&atilde;o e o entusiasmo sem fim de um homem que perde o peso da gravidade.</b></p>     <p><b>&#8211; A prop&oacute;sito desse filme, que relata a vida de Andrei Rublev, um pintor de &iacute;cones russo do final da Idade M&eacute;dia, recordo que &eacute; muito conhecido o teu entusiasmo pela obra do escultor Tilman Riemenschneider do g&oacute;tico tardio alem&atilde;o. V&ecirc;s alguma rela&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel entre estes dois autores?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> S&atilde;o dois autores que desenharam as marcas da sua F&eacute; com o maior rigor, nos seus respectivos materiais. Ambos criaram um espa&ccedil;o de defini&ccedil;&atilde;o para essa zona amb&iacute;gua a que chamamos &#39;F&eacute; na Arte&#39;. E ambos achavam que seguir uma regra e uma disciplina ser&aacute; sempre um caminho mais seguro para chegar &agrave; grande Arte do que seguir apenas os instintos de express&atilde;o pessoal. Falamos de Arte, falamos de fechar as janelas para n&atilde;o ouvir o ru&iacute;do da multid&atilde;o, l&aacute; fora. No entanto, ambas as obras deveriam ser vistas no seu mundo, no mundo onde nasceram e a onde pertencem: a Igreja, n&atilde;o o Museu.</p>     <p><b>&#8211; Pode assumir-se metaforicamente que &eacute;s um demiurgo que &#39;domina&#39; a arte alqu&iacute;mica?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Todos os artistas que pretendam algo mais do que a representa&ccedil;&atilde;o o ter&atilde;o de ser, de certa maneira. A alquimia consiste em transformar a mat&eacute;ria em energia. S&oacute; isso.</p>     <p><b>&#8211; A m&oacute;nada &eacute; o n&uacute;mero um na contagem alqu&iacute;mica. A m&oacute;nada &eacute; negra e n&atilde;o pode ser claramente compreendida. Ela &eacute; inumana, ou melhor, &eacute; pr&eacute;-humana. Pensaste na ideia de m&oacute;nada quando concebeste a s&eacute;rie das &#39;esferas&#39;?</b></p>     <p><b>R.C.: </b>N&atilde;o. Pensei no Tarkovsky. E pensei num sol negro a elevar-se, suavemente, numa paisagem sem fim, sobre o caminho de algu&eacute;m que vai morrer. E pensei tamb&eacute;m que este bal&atilde;o negro &eacute; a Morte: uma sombra que entra, pairando silenciosamente, numa casa. E ningu&eacute;m se apercebe dela.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&#8211; Na alquimia existe tamb&eacute;m um outro conceito &#8211; o Sol Negro &#8211; que &eacute; sin&oacute;nimo da extin&ccedil;&atilde;o de toda a luz e de toda a vida num mundo frio e hostil. O negro consiste no encontro com a mat&eacute;ria primordial, ou seja, com o inconsciente. As esculturas possuem esta cor por esse motivo?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> As minhas esculturas s&atilde;o negras mas sem brilho. N&atilde;o quero que a sua presen&ccedil;a reflicta a luz, quero que a absorva. Tal como as pinturas de Ad Reinhardt, a presen&ccedil;a vem do negativo, da absor&ccedil;&atilde;o da luz, n&atilde;o da sua reflex&atilde;o. S&atilde;o sombras, s&atilde;o negativos. S&atilde;o negativos de esculturas, sombras de esculturas, um <i>contra-mundo</i>. Anti-esculturas.</p>     <p><b>&#8211; Este negro nas tuas esculturas recorda tamb&eacute;m o numinoso, o <i>mysterium tremendum et fascinans</i>, nomeado por Rudolf Otto. Se considerar que estamos perante o incompreens&iacute;vel, faz sentido tentar explicar as tuas obras?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Nunca faz sentido tentar explicar obras que n&atilde;o s&atilde;o comunica&ccedil;&atilde;o. Podemos fazer aproxima&ccedil;&otilde;es ao seu enigma original mas ser&aacute; imposs&iacute;vel explicar. O meu trabalho (felizmente!) espanta-me continuamente. Por vezes, passados muitos anos, ainda n&atilde;o o compreendo nem compreendo as raz&otilde;es que me levaram a fazer uma coisa ou outra, surpreende-me. O enigma permanece. Mas eu n&atilde;o fecho portas, eu deixo portas abertas. Mas s&atilde;o muito estreitas.</p>     <p><b>&#8211; Existe alguma conex&atilde;o entre estas tuas obras e um dos momentos inaugurais da hist&oacute;ria do abstraccionismo, a execu&ccedil;&atilde;o por Kasimir Malevich, em 1913, dos cen&aacute;rios para a &oacute;pera <i>Vit&oacute;ria Sobre o Sol</i> (&oacute;pera na qual o Sol &eacute; ocultado por um eclipse total e definitivo, terminando com a destrui&ccedil;&atilde;o da dimens&atilde;o tempo, e fazendo surgir uma nova realidade suprematista)?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> O referente &eacute; a <i>Vittoria del Sole</i> do Gerhard Merz, meu professor.</p>     <p><b>&#8211; Consideras haver nestas tuas esculturas destrui&ccedil;&atilde;o do tempo, estagna&ccedil;&atilde;o do tempo, ou estar-se-&aacute; num momento anterior ao nascimento dos ciclos temporais?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Acredito que haja a tentativa de parar o tempo.</p>     <p><b>&#8211; Elas s&atilde;o &#39;mudas&#39; ou &#39;sonoras&#39;?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Mudas n&atilde;o s&atilde;o, sen&atilde;o seriam est&eacute;reis. O sil&ecirc;ncio n&atilde;o existe, nunca neste mundo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&#8211; Maria Filomena Molder no livro <i>Mat&eacute;rias Sens&iacute;veis</i> afirma que, na esteira de Novalis, as tuas obras s&atilde;o como que dejectos, expuls&otilde;es do corpo e que os grandes segredos das tuas esculturas est&atilde;o encerrados no corpo. Tamb&eacute;m acredito que em toda a tua obra est&aacute; latente uma sensa&ccedil;&atilde;o de sexualidade aplicada &agrave;s formas. Pode pensar-se esta tua s&eacute;rie como um pren&uacute;ncio de um &oacute;rg&atilde;o reprodutor feminino prestes a ser fecundado?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Gosto da ideia de semente, de insemina&ccedil;&atilde;o. De as ideias serem sementes levadas pelo vento e, conforme o terreno onde caem, podem ou n&atilde;o germinar. J&aacute; me t&ecirc;m falado, por diversas vezes, da proximidade do meu trabalho com formas ou energias sexuais. Eu entendo a sexualidade no meu trabalho como Novalis a entendia. N&atilde;o penso que seja o tema central da minha obra mas admito que haja pessoas que vejam formas sexuais nas minhas esculturas. Provavelmente, as formas sexuais existem em todo o lado, tudo depende da cabe&ccedil;a das pessoas. A sexualidade nasce e morre na nossa cabe&ccedil;a. Neste sentido, &eacute; evidente que se pode considerar que a obra art&iacute;stica &eacute; um &oacute;rg&atilde;o reprodutor feminino, prestes a ser fecundado, embora se possa tamb&eacute;m considerar ser um &oacute;rg&atilde;o reprodutor masculino, prestes a fecundar.</p>     <p><b>&#8211; A prop&oacute;sito de Novalis, no <i>Fragmento</i> de 1798 intitulado <i>Pollen</i> o autor faz uma analogia entre o poeta e o sacerdote. Numa &eacute;poca secular como a nossa acreditas que o ser-se criador &eacute; uma esp&eacute;cie de sacerd&oacute;cio?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Ser-se criador &eacute; um destino, cabe ao artista cumpri-lo, pois n&atilde;o lhe pode fugir. Acho eu.</p>     <p><b>&#8211; Poder&aacute; haver, no momento actual, um processo de transfer&ecirc;ncia da condi&ccedil;&atilde;o religiosa do padre, rabi, im&atilde;, xam&atilde;, etc., para a condi&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica do autor?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Um artista pode ser um padre ou um guerreiro, depende. Mas a entrega e a disciplina s&atilde;o equivalentes.</p>     <p><b>&#8211; A Arte &eacute; a tua religi&atilde;o?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> A Arte &eacute; o meu &uacute;nico Deus.</p>     <p><b>&#8211; Na tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, a ess&ecirc;ncia divina de Deus define-se a partir da Sua identifica&ccedil;&atilde;o com Cristo, cuja miss&atilde;o universal &eacute; o sacrif&iacute;cio. Desse modo Deus &eacute;, antes de mais, aquele que &#39;&eacute; para os outros&#39;. Quando intitulaste uma das tuas &uacute;ltimas exposi&ccedil;&otilde;es <i>Eu Sou os Outros</i> havia na express&atilde;o um sentido expl&iacute;cito &agrave; figura de Cristo?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Havia, sobretudo, uma inten&ccedil;&atilde;o de anula&ccedil;&atilde;o do ego. Essa s&eacute;rie tem t&iacute;tulos como: <i>Eu Sou os Outros, Sou Como Tu, Venho de T</i> ou <i>Eu N&atilde;o Sou Meu</i>. Claro que essa &#39;dilui&ccedil;&atilde;o do eu nos outros&#39;, que &eacute; uma forma de solidariedade e de anonimato, se relaciona com a figura de Cristo, aquele que &#39;&eacute; para os outros&#39;. Como deves calcular, eu adoro Jesus Cristo: foi ele que trouxe a d&uacute;vida ao edif&iacute;cio arcaico e imut&aacute;vel da religi&atilde;o mais empedernida. Ele &eacute; o que pergunta. Mas, como nos lembra Pasolini, ele n&atilde;o traz s&oacute; a paz, tamb&eacute;m traz a espada. E traz uma nova maneira de, pela paz, fazer guerra &agrave; injusti&ccedil;a.</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>&#8211; Sei que j&aacute; foste contactado para apresentares trabalhos teus no interior de igrejas alem&atilde;s e austr&iacute;acas. Como foi a experi&ecirc;ncia?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Foi uma experi&ecirc;ncia altamente interessante. Ali&aacute;s, os trabalhos que fiz est&atilde;o instalados permanentemente nessas igrejas na Alemanha e na &Aacute;ustria. Todo o processo negocial com os eclesi&aacute;sticos, com os representantes da Igreja Cat&oacute;lica e com os representantes da Igreja Evang&eacute;lica foi muito interessante e educativo, pelas diferen&ccedil;as radicais entre a mentalidade operativa das duas Igrejas. Al&eacute;m disso, foi uma ocasi&atilde;o de testar, mais uma vez, a dif&iacute;cil rela&ccedil;&atilde;o entre o Modernismo e a Igreja que, como sabemos, foi uma hist&oacute;ria de destrui&ccedil;&atilde;o. A Arte Moderna e a Igreja t&ecirc;m uma absoluta m&uacute;tua desconfian&ccedil;a, o que se compreende pela hist&oacute;ria da aventura modernista e todos os seus impulsos iconoclastas. Penso que agora, finalmente, se possa retomar a rela&ccedil;&atilde;o secular entre Arte e religi&atilde;o (ou Igreja). Acredito que tenha de haver novas portas a abrir, a revolu&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria.</p>     <p><b>&#8211; Existem rela&ccedil;&otilde;es aprofundadas entre ti e o mundo religioso, ou foram apenas encontros pontuais entre duas realidades distintas?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Somos todos religiosos, mas s&oacute; alguns de n&oacute;s v&atilde;o &agrave; Igreja. Penso existirem grandes diferen&ccedil;as entre F&eacute;, Religi&atilde;o e Institui&ccedil;&atilde;o. A Arte &eacute; sempre religiosa, mesmo a que pare&ccedil;a mais profana. Apesar da minha educa&ccedil;&atilde;o laica, sou contra a dessacraliza&ccedil;&atilde;o das coisas e das pessoas. Pelo contr&aacute;rio, acredito que se deve sacralizar o milagre da vida o mais poss&iacute;vel. O milagre &eacute; a explica&ccedil;&atilde;o inocente do mist&eacute;rio real que habita o Homem, do poder que nele se dissimula. N&atilde;o podemos morrer incultos, profanos. Se n&atilde;o sabemos porque vimos a este mundo, qual o sentido superior da nossa estadia na Terra, o que nos resta &eacute; esta sociedade desencantada, ignorante e materialista. Mesmo o comunista mais intenso que era o Pasolini sabia que a dimens&atilde;o do sagrado &eacute; essencial para a sobreviv&ecirc;ncia do ser humano. Sem o sentido do sagrado, o homem morre e a sua cultura desaparece. Temos necessidade do sentido do sagrado e essa &eacute; tamb&eacute;m a &uacute;nica esperan&ccedil;a contra a destrui&ccedil;&atilde;o e a eros&atilde;o que esta sociedade de consumo nos inflige. A consci&ecirc;ncia de participar numa dimens&atilde;o superior, que nos transcende, permite-nos dignificar aquilo a que chamamos vida. N&atilde;o pode ser s&oacute; e apenas biologia. Os Antigos viam Deus por detr&aacute;s de cada erva, cada pedra, cada nuvem, cada crian&ccedil;a que nascia. Tudo era apenas vis&atilde;o e voz, outra voz: a Natureza falava. O vento que passava nas folhas das &aacute;rvores, a espuma do mar, o sil&ecirc;ncio, o aroma, a voz, tudo era rasto da Sua presen&ccedil;a. E existiam rituais que introduziam o mito na realidade e o tornavam parte da viv&ecirc;ncia di&aacute;ria. E a Arte era o espelho dessa &iacute;ntima rela&ccedil;&atilde;o, era o produto do seu encantamento, era a testemunha e o motor dessa magia. "Um homem &eacute; um deus mortal, um deus &eacute; um homem imortal", disse Heraclito. O que costumo explicar &eacute; que os deuses fizeram os homens e os homens fizeram os deuses.</p>     <p><b>&#8211; Por &uacute;ltimo, tens sentido nos &uacute;ltimos tempos uma maior aproxima&ccedil;&atilde;o da Igreja ao teu trabalho?</b></p>     <p><b>R.C.:</b> Talvez, n&atilde;o estou certo. Sei que o meu trabalho n&atilde;o &eacute; iconoclasta nem destrutivo. Acredito que, de alguma forma, existe esperan&ccedil;a.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo submetido a 5 de Setembro e aprovado a 23 de setembro de 2014</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name = "c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:ruirgserra@sapo.pt">ruirgserra@sapo.pt</a></p>      ]]></body>
</article>
