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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Márcia Beatriz e/ou Jaque Jolene: convivência em interlúdio dramático]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The project of creation of the artist Márcia Beatriz Granero presents to the public the itinerary of an intimate journey, sometimes almost an autobiographical account. Project created to establish a confrontation between personalities of a possible heteronym artist, each work highlights stocks of a single woman, Jaque Jolene. Marcia Beatriz is a Brazilian multimedia artist who stands out by the inventiveness of her video performances, with works in Images contre Nature, International Festival of Vidéo Experimentale, Marseille, France; and in the latest edition of Temporada of Paço das Artes in São Paulo. Here we propose a critical reading of the itinerary of recent creations of Márcia Beatriz Granero.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>M&aacute;rcia Beatriz e/ou Jaque Jolene: conviv&ecirc;ncia em interl&uacute;dio dram&aacute;tico</b></p>     <p><b>M&aacute;rcia Beatriz and/or Jaque Jolene: living in dramatic interlude</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Claudia Fazzolari&#42; </b></p>     <p>&#42;Brasil. Licenciada em Artes Pl&aacute;sticas, Instituto de Artes (IA) Universidade Estadual Paulista (UNESP), Mestre em Artes Visuais, IA, UNESP, Doutora em Ci&ecirc;ncias da Comunica&ccedil;&atilde;o, Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es e Artes (ECA), Universidade de S&atilde;o Paulo (USP).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: PROLAM &ndash; Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Integra&ccedil;&atilde;o da Am&eacute;rica Latina, Universidade de S&atilde;o Paulo, Pesquisadora do Programa de P&oacute;s-Doutorado PNPD CAPES. Rua do Anfiteatro, 181, Colmeias, Favo 1, Cidade Universit&aacute;ria, Universidade de S&atilde;o Paulo, SP. Cep: 05508-060, Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>O projeto de cria&ccedil;&atilde;o da artista M&aacute;rcia Beatriz Granero apresenta ao p&uacute;blico o itiner&aacute;rio de um percurso &iacute;ntimo, algumas vezes quase um relato autobiogr&aacute;fico. Projeto criado para estabelecer um confronto entre personalidades de um poss&iacute;vel heter&ocirc;nimo da artista, cada obra destaca exist&ecirc;ncias de uma &uacute;nica mulher, Jaque Jolene. M&aacute;rcia Beatriz &eacute; artista multim&iacute;dia brasileira que se destaca pela inventiva de suas videoperformances, com trabalhos participantes no Images contre Nature, Festival Internacional de Vid&eacute;o Experimentale, Marseille, Fran&ccedil;a e, na recente edi&ccedil;&atilde;o da Temporada do Pa&ccedil;o das Artes, em S&atilde;o Paulo. Prop&otilde;e-se aqui um acompanhamento cr&iacute;tico do itiner&aacute;rio de recentes cria&ccedil;&otilde;es de M&aacute;rcia Beatriz Granero. </p>     <p><b>Palavras chave: </b> performance, arte contempor&acirc;nea, heter&ocirc;nimo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>The project of creation of the artist M&aacute;rcia Beatriz Granero presents to the public the itinerary of an intimate journey, sometimes almost an autobiographical account. Project created to establish a confrontation between personalities of a possible heteronym artist, each work highlights stocks of a single woman, Jaque Jolene. Marcia Beatriz is a Brazilian multimedia artist who stands out by the inventiveness of her video performances, with works in Images contre Nature, International Festival of Vid&eacute;o Experimentale, Marseille, France; and in the latest edition of Temporada of Pa&ccedil;o das Artes in S&atilde;o Paulo. Here we propose a critical reading of the itinerary of recent creations of M&aacute;rcia Beatriz Granero.</p>     <p><b>Keywords:</b> performance, contemporary art, heteronym.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o: pensamentos soltos e algumas considera&ccedil;&otilde;es</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando confrontados pelas "experi&ecirc;ncias" de Jaque Jolene n&atilde;o sabemos, de fato, quem est&aacute; diante de n&oacute;s, se uma mulher jovem, sensual, em traje improvisado para data e local, que em atitude suspeita circula entre aos visitantes de um cemit&eacute;rio, se uma decidida mulher que se aventura em uma serralheria ou se uma senhora de idade incerta, de apar&ecirc;ncia cansada, apesar do esfor&ccedil;o por manter-se impec&aacute;vel, proje&ccedil;&atilde;o incontorn&aacute;vel do fantasma que vaga pelo subterr&acirc;neo de um edif&iacute;cio p&uacute;blico na cidade de S&atilde;o Paulo.</p>     <p>Diante das estranhezas citadas acima, proponho aqui uma aproxima&ccedil;&atilde;o com uma parcela do universo das cria&ccedil;&otilde;es da artista M&aacute;rcia Beatriz Granero (s.d) estabelecendo uma possibilidade de encontro com suas investidas desde passos heteron&iacute;micos.</p>     <p>Esses passos heteron&iacute;micos ser&atilde;o tratados como processos emancipat&oacute;rios, como a&ccedil;&otilde;es de personalidades art&iacute;sticas prontas para embaralhar nossa compreens&atilde;o usual.</p>     <p> A artista cria &#8211; conduz e emancipa sua obra &ndash; por meio de uma proje&ccedil;&atilde;o chamada Jaque Jolene, como um poss&iacute;vel heter&ocirc;nimo proposto para revelar as realidades que cercam e sufocam a vida contempor&acirc;nea.</p>     <p>De fato n&atilde;o sabemos se M&aacute;rcia Beatriz assume intimamente a fratura deste poss&iacute;vel heter&ocirc;nimo, se a artista permite de forma consciente a apari&ccedil;&atilde;o de um duplo, ou, sequer, se havia refletido sobre a possibilidade dessa densa conviv&ecirc;ncia com seu outro encarnado, esse ser que diverge da realidade e insiste em manter-se presente, ainda que ocasionalmente.</p>     <p>Se partirmos de uma corrente defini&ccedil;&atilde;o de heter&ocirc;nimo, encontramos este substantivo cansado que indica o nome de algu&eacute;m usado por outro, para sinalizar autoria do que, de fato, n&atilde;o faz ou fez, como chave e condi&ccedil;&atilde;o singular da po&eacute;tica de um criador &uacute;nico que marca o s&eacute;culo XX com seus muitos "outros".</p>     <p>Sabemos que o escritor Fernando Pessoa escolheu seus muitos outros &ndash; Alberto Caeiro, Ricardo Reis, &Aacute;lvaro de Campos, Bernardo Soares &#8211; e deu a eles vida e temperamento conforme suas possibilidades de inven&ccedil;&atilde;o de uma consciente forma de histeria. </p>     <p>Os passos heteron&iacute;micos da artista vagando com Jaque Jolene por onde quer que ela v&aacute;, encarnada por ela e nela nos permitem rever uma situa&ccedil;&atilde;o inquietante: Jaque Jolene seria um ser duplo alterado que se materializa e desta forma d&aacute; vida a um lugar de constitui&ccedil;&atilde;o da subjetividade que percebemos na cena contempor&acirc;nea?</p>     <p>Que especial zona de subjetividade promove cada apari&ccedil;&atilde;o de Jaque Jolene? A constru&ccedil;&atilde;o pensada por M&aacute;rcia Beatriz possibilitou a exist&ecirc;ncia de Jaque Jolene como uma entidade, como uma lembran&ccedil;a necess&aacute;ria e encarna&ccedil;&atilde;o de um avesso desconhecido ou como revela&ccedil;&atilde;o de um plano de insurg&ecirc;ncia da artista? </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>1. De quantas simula&ccedil;&otilde;es necessitamos para sobreviver? </b></p>     <p>Assim como Fernando Pessoa assume ser criador de heter&ocirc;nimos aqui a artista assume a cria&ccedil;&atilde;o de uma persona minuciosamente constru&iacute;da e interpretada, para estabelecer outro contato com o entorno que nos cerca nesta farsa, ou seja, nesta forma de apari&ccedil;&atilde;o no mundo que se aqui se chama Jaque Jolene.</p>     <p>A cria&ccedil;&atilde;o merece grande aten&ccedil;&atilde;o. J&aacute; a intencionalidade do nome composto indica pistas desta possibilidade heteron&iacute;mica que possui vida pr&oacute;pria, v&iacute;cios, manias e virtudes. Como uma personagem que logo se tornar&aacute; aut&ocirc;noma &ndash; este custo dram&aacute;tico dos heter&ocirc;nimos &ndash; o duplo pode ser compreendido como uma apari&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o ocupa exatamente um lugar pr&oacute;prio. &Eacute; ela pr&oacute;pria a materializa&ccedil;&atilde;o de um dispositivo criado por M&aacute;rcia Beatriz para uma constru&ccedil;&atilde;o ficcional que se expande em conflito.</p>     <p>A criadora, de fato, trata de rela&ccedil;&otilde;es de poder em sua constru&ccedil;&atilde;o ficcional, (Butler, 2007: 47). Como artista ela cria seu avesso e procura em cada situa&ccedil;&atilde;o reafirm&aacute;-lo para que suas a&ccedil;&otilde;es sejam convertidas ao real. Jaque Jolene, esta "figura indefinida" mostra em suas incurs&otilde;es pela cidade, pelos espa&ccedil;os p&uacute;blicos, como M&aacute;rcia Beatriz mant&eacute;m controle sobre sua exist&ecirc;ncia, sobre suas apari&ccedil;&otilde;es e muitas vezes, transtornada luta pelo cancelamento da identidade de sua autora, de sua criadora. </p>     <p>Proponho agora repassarmos algumas apari&ccedil;&otilde;es de Jaque Jolene para buscar os sinais desta luta entre criador e cria&ccedil;&atilde;o. Sabemos que ao chamar Jaque Jolene &agrave; cena, a artista pronunciou seu nome e investiu de for&ccedil;a uma figura incerta, misto de passado e presente, pretens&atilde;o de futuro incerto.</p>     <p>Como vemos, resgatar a heteron&iacute;mia &eacute; tamb&eacute;m assumir riscos. Considerada fen&ocirc;meno e marca do esp&iacute;rito de uma &eacute;poca, no caso de Jaque Jolene tudo se encaixa, inclusive esta vers&atilde;o datada, pois nossa "figura indefinida" &eacute; a pr&oacute;pria encarna&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica descontextualizada, &eacute; uma vers&atilde;o ficcional de um estado de suspens&atilde;o no tempo.</p>     <p>A videoperformance <i>Frisson</i>, de 2012, &eacute; uma apari&ccedil;&atilde;o de Jaque Jolene que traz nossa fic&ccedil;&atilde;o como encarna&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica descontextualizada, em meio aos visitantes do Cemit&eacute;rio do Ara&ccedil;&aacute;, no Dia dos Mortos, em S&atilde;o Paulo. Como se comporta Jaque Jolene? Desentendida de si, atordoada entre os visitantes, tamb&eacute;m ela levava flores aos finados, confusa e atordoada (<a href="#f1">Figura 1</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a06f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <p>Sabemos que as decis&otilde;es est&atilde;o nas m&atilde;os de M&aacute;rcia Beatriz. Ela decide se a fic&ccedil;&atilde;o visitar&aacute; um cemit&eacute;rio, um p&aacute;tio abandonado, um edif&iacute;cio p&uacute;blico, ou se permanecer&aacute; &agrave; espreita para que numa pr&oacute;xima situa&ccedil;&atilde;o seja autorizada sua reapari&ccedil;&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Conforme o escritor Octavio Paz afirma, toda obra &eacute; um intervalo ficcional, "A obra faz o olho que a contempla &ndash; ou ao menos, &eacute; um ponto de partida: desde ela e por ela o espectador inventa outra obra. (...) Um obra &eacute; uma m&aacute;quina de significar" (Paz, 2008: 60).</p>     <p>Da mesma forma sentimos as incurs&otilde;es de Jaque Jolene pela cidade: suas andan&ccedil;as, suas ang&uacute;stias encarnadas em performances s&atilde;o intervalos, s&atilde;o a obra de M&aacute;rcia Beatriz. Esta possibilidade heteron&iacute;mica que se anuncia &eacute; a pr&oacute;pria diferen&ccedil;a, &eacute; ela a obra, a m&aacute;quina de significar criada pela artista.</p>     <p>A autoridade da criadora sobre Jaque Jolene &eacute; um dado concreto. Todo heter&ocirc;nimo sabe que sua exist&ecirc;ncia depende de uma necessidade do outro. Traduzir a condi&ccedil;&atilde;o de um heter&ocirc;nimo como uma personalidade distinta, ou contraste entre vida interior e vida exterior, um desvio psicol&oacute;gico &eacute; tarefa quase inexplic&aacute;vel.</p>     <p>Como Pessoa certa ocasi&atilde;o exp&ocirc;s em carta ao cr&iacute;tico e escritor Adolfo Casais Monteiro:</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote><i>graduei as influ&ecirc;ncias, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discuss&otilde;es e as diverg&ecirc;ncias de crit&eacute;rios, e em tudo isto me pareceu que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim, e parece que assim ainda se passa.</i> (Pessoa, 1974: 98) </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>Afinal o que significa embaralhar a autoria na cena contempor&acirc;nea? Chegar&aacute; o momento que em uma consulta ao Google n&atilde;o haver&aacute; mais M&aacute;rcia Beatriz Granero que apresente Jaque Jolene? Haver&aacute; somente Jaque Jolene em cena?</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Os desvarios de um duplo encarnado</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Seriam os desvarios de Jaque Jolene efeitos dram&aacute;ticos de despersonaliza&ccedil;&atilde;o ou inven&ccedil;&atilde;o materializada pela artista para finalmente al&ccedil;ar o heter&ocirc;nimo &agrave; condi&ccedil;&atilde;o aut&ocirc;noma? </p>     <p>Dando sequ&ecirc;ncia &agrave; aproxima&ccedil;&atilde;o proposta conhecemos a obra <i>S&uacute;bita</i>, uma videoinstala&ccedil;&atilde;o de 2013, que incorpora dram&aacute;tica narrativa de encontro e desencontro entre artista e condi&ccedil;&atilde;o heteron&iacute;mica (<a href="#f2">Figura 2</a>). Nesta ocasi&atilde;o tomamos contato com o texto da pr&oacute;pria criadora,</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a06f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <blockquote><i>Quando convidei Jaque Jolene para essa proposta no Centro Cultural S&atilde;o Paulo, nem imagin&aacute;vamos o que poderia acontecer, o que encontrar&iacute;amos. </i>&#91;...&#93;<i> dessa vez me deparei com um cen&aacute;rio carregado de mem&oacute;ria. Logo que Jaque entrou no espa&ccedil;o se identificou com as hist&oacute;rias presentes nas paredes de concreto. Aprofundando essa rela&ccedil;&atilde;o, descobriu no subterr&acirc;neo sua real liga&ccedil;&atilde;o com o pr&eacute;dio. </i> (Granero, 2013) </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>Jaque Jolene sempre se manteve ativa em performances (Aizpuru, 2009: 36) mas agora destacada no texto de apresenta&ccedil;&atilde;o da obra, conhece um documento que reafirma seu protagonismo, afinal ela foi "convidada" para a proposta realizada no Centro Cultural S&atilde;o Paulo.</p>     <p>Na performance <i>Von Sutnner Salad, </i> de 2013, a artista refor&ccedil;a o protagonismo de sua marca heteron&iacute;mica quase emancipada e revela em tom solene "Jaque Jolene encontra uma fenda no tempo (...) transportando-se ao ano de 1905. Na Pinacoteca do Estado de S&atilde;o Paulo ela recebe o Pr&ecirc;mio Nobel da Paz."(Granero, 2013)</p>     <p>Refer&ecirc;ncia direta &agrave; figura de Bertha Von Suttner, primeira mulher a receber o Nobel da Paz, novamente percebemos que a fic&ccedil;&atilde;o agora carrega outro <i>status</i> sendo elevada inclusive &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de protagonista hist&oacute;rica na trama reinventada.</p>     <p>Retomando nossa reflex&atilde;o sobre as rela&ccedil;&otilde;es de poder estabelecidas entre criador e marca heteron&iacute;mica percebemos que entre artista e cria&ccedil;&atilde;o existe uma fissura que se expande continuamente em zonas de tens&atilde;o. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Jaque Jolene logo saber&aacute; que seu protagonismo (Cao, 2000: 29) desde sua cria&ccedil;&atilde;o, j&aacute; existia, pois &eacute; ela que, com suas hist&oacute;rias, reafirma o avesso de um sujeito que incomoda a artista, que certamente atormenta M&aacute;rcia Beatriz. A fic&ccedil;&atilde;o encarna um dispositivo operacional pensado pela artista. Tal dispositivo operado pela semi-consci&ecirc;ncia da criadora, encontra seus precedentes em tempos e apari&ccedil;&otilde;es distintas, em circunst&acirc;ncias muito particulares.</p>     <p>Parece haver no heter&ocirc;nimo uma condi&ccedil;&atilde;o negociada entre criador e cria&ccedil;&atilde;o de gradativa aceita&ccedil;&atilde;o de um autoengano. O criador, aquele que det&eacute;m o poder de administrar a vida deste heter&ocirc;nimo conhece sua pr&oacute;pria autoridade, admite sua superioridade inicial e procura constantemente rever os riscos que sua cria&ccedil;&atilde;o pode oferecer &agrave; continuidade deste projeto inacabado.</p>     <p>J&aacute; o heter&ocirc;nimo ou a cria&ccedil;&atilde;o, essa personagem que se debate, inicialmente pouco sabe de sua condi&ccedil;&atilde;o, mas sem d&uacute;vida logo percebe que sua vida se tornar&aacute;, de alguma maneira, independente de seu criador. Percebe que embora n&atilde;o tenha o poder de ativar sua apari&ccedil;&atilde;o, tampouco ser&aacute; logo abandonada visto que sua semi-consci&ecirc;ncia &eacute; compartilhada entre ela e o pr&oacute;prio criador. </p>     <p>Daqui decorre o autoengano que criador e cria&ccedil;&atilde;o conhecem t&atilde;o bem. Tanto um quanto outro sabem que n&atilde;o ter&atilde;o a mesma exist&ecirc;ncia se essa condi&ccedil;&atilde;o negociada se esgotar ou se for interrompida. Assim tamb&eacute;m se comporta a parceria entre M&aacute;rcia Beatriz Granero e Jaque Jolene.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Considera&ccedil;&otilde;es finais</b></p>     <p>Quando a artista decidiu dar forma &agrave; Jaque Jolene, muniu-se de estrat&eacute;gias que deveriam estruturar sua decis&atilde;o: escolheu seu nome, elencou ainda que de forma n&atilde;o textual suas caracter&iacute;sticas: mulher, branca, ocidental, para dar in&iacute;cio ao projeto desta cria&ccedil;&atilde;o processual. </p>     <p>Os trajes do duplo, seu caminhar, seu olhar e sua postura s&atilde;o elementos importantes para a constru&ccedil;&atilde;o desta fic&ccedil;&atilde;o encarnada. Suas sand&aacute;lias de salto, suas bolsas, seus cintos, seus brincos e, definitivamente seus &oacute;culos escuros s&atilde;o ind&iacute;cios de uma presen&ccedil;a estranha, de um desencontro que ela pr&oacute;pria parece reconhecer em suas performances. Estas s&atilde;o as particularidades deste heter&ocirc;nimo de M&aacute;rcia Beatriz.</p>     <p>E de fato, o que a performance significa? Mais do que a presen&ccedil;a deste corpo ou a primazia deste ou daquele comportamento a performance &eacute; lugar em que colocamos em quest&atilde;o um dispositivo operante (Rivera, 2013: 20). Jaque Jolene &eacute; ela pr&oacute;pria um dispositivo operante que se debate com a autoridade de sua criadora. </p>     <p>N&atilde;o podemos duvidar: a artista discute rela&ccedil;&otilde;es de poder na estrutura e na l&oacute;gica dos lugares da cria&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea quando ativa as reapari&ccedil;&otilde;es de Jaque Jolene.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este dispositivo operante que conhecemos como Jaque Jolene faz uso de um corpo constitu&iacute;do como constru&ccedil;&atilde;o cultural, como reitera&ccedil;&atilde;o exagerada da evid&ecirc;ncia do feminino, constitu&iacute;do como ambiente destinado &agrave; pr&aacute;tica da subvers&atilde;o. &Eacute; esta uma face da individualidade incompleta fabricada por M&aacute;rcia Beatriz para cada performance.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Aizpuru, M. (2009). <i>Performanceras: mujer, arte y acci&oacute;n, </i> una aproximaci&oacute;n. In: <i>ZEHAR. Performance. </i>Donostia / San Sebasti&aacute;n: Arteleku.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1437998&pid=S1647-6158201500020000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Butler, J. (2007) <i>El g&eacute;nero en disputa</i>. El feminismo y la subversi&oacute;n de la identidad. Barcelona: Paid&oacute;s.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438000&pid=S1647-6158201500020000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>F. Cao, M. L. (2000). <i>Creaci&oacute;n art&iacute;stica y mujeres, Recuperar la memoria. </i> Madrid: Narcea.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438002&pid=S1647-6158201500020000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p><i>M&aacute;rcia Beatriz Granero</i> (s.d.) &#91;Consult. 01-09-2015&#93; Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.marciabeatrizgranero.com" target="_blank">http://www.marciabeatrizgranero.com</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438004&pid=S1647-6158201500020000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Paz, Octavio. (2008). <i>Marcel Duchamp, ou, o castelo da pureza</i>. S&atilde;o Paulo: Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438005&pid=S1647-6158201500020000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Pessoa, Fernando (1974). <i>Obras em Prosa</i>. Rio de Janeiro: Aguilar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438007&pid=S1647-6158201500020000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Rivera, Tania (2013). <i>O avesso do imagin&aacute;rio. Arte contempor&acirc;nea e psican&aacute;lise. </i> S&atilde;o Paulo: Cosac Naify.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438009&pid=S1647-6158201500020000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 6 de setembro de 2015 e aprovado a 23 de setembro de 2015.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:cfazzolari@gmail.com">cfazzolari@gmail.com</a> (Claudia Fazzolari)</p>      ]]></body><back>
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