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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Desenho, Identidade e Alteridade: quando tudo é uma questão de suporte]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Analysis of drawings from Daniela Maura's series - "Guide for good practices" and "Monsters". She represents herself acting with other figures and forms; this allows us to quote about her identity. We work with otherness conception, that forms our identity; we use the concepts of Unheimliche (Freud) and "Extimacy" (Lacan).]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>      <p><b>Desenho, Identidade e Alteridade: quando tudo &eacute; uma quest&atilde;o de suporte</b></p>     <p><b>Drawing, Identity and Otherness: when everything is concerned with the support</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Cl&aacute;udia Maria Fran&ccedil;a da Silva&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual e docente universit&aacute;ria. Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Pl&aacute;sticas pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais; Mestrado em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Doutorado em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberl&acirc;ndia, Campus Santa M&ocirc;nica, Av. Jo&atilde;o Naves de &Aacute;vila, 2160, Bloco 1I, Cep: 38400-902 &#8211; Uberl&acirc;ndia &ndash; MG, Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>An&aacute;lise de desenhos das s&eacute;ries "Manual de boas pr&aacute;ticas" e "Monstros", da artista brasileira Daniela Maura. Ela se representa contracenando com figuras e formas outras, permitindo-nos problematizar sua identidade. Trabalhamos com a ideia de alteridade formadora da identidade; valemo-nos dos conceitos de Unheimliche (Freud) e Extimidade (Lacan). </p>     <p><b>Palavras-chave:</b></b> desenho contempor&acirc;neo, identidade, estranho, &ecirc;xtimo. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>Analysis of drawings from Daniela Maura&#39;s series &ndash; "Guide for good practices" and "Monsters". She represents herself acting with other figures and forms; this allows us to quote about her identity. We work with otherness conception, that forms our identity; we use the concepts of Unheimliche (Freud) and "Extimacy" (Lacan).</p>     <p><b>Keywords:</b> contemporary drawing, identity, uncanny, extimate.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Considera&ccedil;&otilde;es iniciais</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apresentamos desenhos da artista brasileira Daniela Maura, pertencentes a duas s&eacute;ries: "Manual de boas pr&aacute;ticas" (2013) e "Monstros" (2014). S&atilde;o autorrepresenta&ccedil;&otilde;es produzidas por t&eacute;cnicas mistas, em que a artista coloca-se em diversas situa&ccedil;&otilde;es, contracenando com objetos e outras figuras, humanas ou n&atilde;o. Neles encontram-se o questionamento de si e de sua identidade (atuando no campo do conceito) e uma aten&ccedil;&atilde;o aos suportes para as inscri&ccedil;&otilde;es gr&aacute;ficas (aspecto f&iacute;sico dos desenhos).</p>     <p>Percebemos a consci&ecirc;ncia da alteridade posta no desejo de quase "fus&atilde;o" com o outro; por meio dessa consci&ecirc;ncia, inferimos que a autorrepresenta&ccedil;&atilde;o se d&aacute; n&atilde;o tanto pelo radical "auto", mas sim, pelo "hetero": o outro que est&aacute; ao seu lado, atr&aacute;s de si, dentro e entre as formas. A escolha dos suportes refor&ccedil;a tais situa&ccedil;&otilde;es de heterogeneidade e soma de realidades distintas. Acreditamos que o suporte &eacute; mais um agente a refor&ccedil;ar as ideias e formas apresentadas nas visualidades da artista. </p>     <p>A constru&ccedil;&atilde;o textual problematiza este aspecto autorrepresentacional de seu trabalho aspecto de seu trabalho; buscamos compreender como se fragmenta e se constr&oacute;i o sentido de identidade em sua po&eacute;tica. Valemo-nos de depoimentos informais e de texto n&atilde;o publicado da artista e nos conceitos de "Unheimliche" (Freud) e "Extimidade" (Lacan), da Psican&aacute;lise. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Desenho, suporte e performatividade </b></p>     <p>Para Daniela Maura, o Desenho tem sido "um meio para se estabelecer um processo de autoconhecimento e auto-reconhecimento &#91;sic&#93; e tamb&eacute;m um m&eacute;todo para construir uma rela&ccedil;&atilde;o de afeto com o outro" (Maura, "Claro escuro: estudos para possibilidades do amor" texto para proposta de exposi&ccedil;&atilde;o). Admitido como "meio de configura &ccedil;&atilde;o de estados internos e como modo de aproxima&ccedil;&atilde;o e de elabora&ccedil;&atilde;o de v&iacute;nculos" (Maura, idem), cabe a ele tramar uma no&ccedil;&atilde;o comp&oacute;sita para si, para a artista e n&oacute;s, que os vemos. Conhecer e reconhecer-se nestas constru&ccedil;&otilde;es gr&aacute;ficas pressup&otilde;e sua efic&aacute;cia na correspond&ecirc;ncia formal imagem/referente; para al&eacute;m, trata-se mesmo de agenciar modos diversos de evoca&ccedil;&atilde;o de sua identidade pelo gesto gr&aacute;fico e escolha de suportes.</p>     <p>Seu Desenho torna-se um processo h&iacute;brido que congrega croquis, fotografia e colagem, articulando a presentidade, o cotidiano, o eu/outro, a passagem do tempo. Diversos recursos s&atilde;o utilizados para performar sua inquietante presen&ccedil;a ou inquietante aus&ecirc;ncia no espa&ccedil;o composicional. Tomemos um desenho da s&eacute;rie "Manual de boas pr&aacute;ticas", realizado sobre o papel carbono. Nele, percebemos de imediato a identidade da artista dando-se por meio do acr&eacute;scimo de atributos do sexo oposto (<a href="#f1">Figura 1</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a08f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <p>A figura levanta o vestido e olha em dire&ccedil;&atilde;o ao p&ecirc;nis ereto. Suspend&ecirc;-lo com os bra&ccedil;os e m&atilde;os &eacute; transform&aacute;-lo em uma "cortina" que nos revela uma cena; trata-se ent&atilde;o de um refor&ccedil;o enunciativo do que deve ser visto por n&oacute;s. O corpo torna-se "lugar" da a&ccedil;&atilde;o performativa do desenho e da forma representada. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No entanto, h&aacute; outra situa&ccedil;&atilde;o instigante, relacionada &agrave; constru&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica. Observando outros desenhos da artista, percebemos a import&acirc;ncia da linha em sua pureza e defini&ccedil;&atilde;o. O desenho &eacute; fornecido pelo tra&ccedil;o, sem sombreamentos; quase n&atilde;o h&aacute; hachuras. Aqui, percebemos lacunas de contorno: nos p&eacute;s, o intervalo entre as pernas vem para o primeiro plano em fun&ccedil;&atilde;o de um erro de deslocamento da linha que d&aacute; o contorno da perna, construindo assim, um volume t&atilde;o estranho quanto a representa&ccedil;&atilde;o de um corpo "transg&ecirc;nero".</p>     <p>Talvez isso venha do uso do papel-carbono. Esse suporte apresenta uma das superf&iacute;cies revestida de uma pel&iacute;cula de tinta transfer&iacute;vel. Em seu uso costumeiro, coloca-se o suporte entre duas folhas comuns, brancas. Na folha superior fazemos o desenho, imediatamente transferido para a inferior, via folha de carbono. Press&otilde;es exercidas sobre esta permitem que sua camada de pigmento imprima manchas na superf&iacute;cie imediatamente abaixo de si. Ocorre uma relativa cegueira da condu&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica por press&otilde;es manuais inadvertidas; isso pode gerar informa&ccedil;&otilde;es visuais mais fortes do que o desenho intencionado. Desenhos feitos por papel carbono s&atilde;o muito mais efeitos de contato e impress&atilde;o; a percep&ccedil;&atilde;o visual torna-se relativamente secund&aacute;ria no processo.</p>     <p>Acreditamos que Daniela Maura tenha usado uma &uacute;nica folha de papel carbono como matriz para v&aacute;rios desenhos ou que tenha retirado a folha-guia, desenhando diretamente sobre o papel carbono. O contato direto com este suporte coloca-o como superf&iacute;cie desafiadora da defini&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica, acentuando o grau de errabilidade de suas inscri&ccedil;&otilde;es. </p>     <p>Tendemos a considerar que o desenho come&ccedil;a nos gestos e tra&ccedil;os vis&iacute;veis sobre um suporte. Enfatiza-se a visualidade e a visibilidade do resultado suplantando a percep&ccedil;&atilde;o do fazer do artista, mesmo que o trabalho final d&ecirc; ind&iacute;cios de seu fazer. A afirma&ccedil;&atilde;o da identidade do ser-Desenho seria proporcional a esse grau de visibilidade dos tra&ccedil;os sobre um suporte. No entanto, o corpo do suporte tamb&eacute;m existe e &eacute; anterior aos gestos e tra&ccedil;os. Percebendo sua pot&ecirc;ncia expressiva, a desenhista se esmera criando situa&ccedil;&otilde;es em que o suporte possa "falar". Come&ccedil;a entendendo o Desenho como pr&aacute;tica do elogio ao contato. Parece-me ser esse o caso dos desenhos da s&eacute;rie "Manual de boas pr&aacute;ticas". Al&eacute;m de representar uma alteridade jacente no falo masculino presente no corpo de uma mulher, o suporte singular se mostraria tamb&eacute;m como alteridade da constru&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica.</p>     <p>O suporte tamb&eacute;m tem voz na s&eacute;rie, "Monstros". O papel que simula o papel de parede problematiza a nitidez da cena representada. Essa dificuldade de discernimento das personagens vem, antes de tudo, pelo contraste da estampa delicada com a face monstruosa que nos encara (<a href="#f2">Figura 2</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a08f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <p>O papel de parede traz o aconchego consigo ao referir-se a algo familiar: a casa, lugar para onde nos voltamos todos os dias, onde descansa o corpo. Mas o desenho pode nos dizer que no interior daquilo que &eacute; mais familiar, pode residir o Outro, o estranho.</p>     <p>Um grau de estranhamento depositado no seio da familiaridade, conforme Freud em suas formula&ccedil;&otilde;es sobre o conceito de "estranho" (Freud, 1980). Considerando o termo em alem&atilde;o &#8211; a part&iacute;cula "heimliche" (familiar) somada ao prefixo negativo "un", ele percebe o significado contradit&oacute;rio no seio da palavra, expressando ao mesmo tempo a intimidade e o aconchego com algo perturbador que se esconde. Em "Das Unheimliche", Freud analisa o conto "O Homem de areia", de Hoffmann, em que uma boneca animada, Ol&iacute;mpia, torna-se objeto de paix&atilde;o de um ser humano, Nataniel. Ele n&atilde;o percebe que Ol&iacute;mpia &eacute; um aut&ocirc;mato. O sil&ecirc;ncio e respostas m&iacute;nimas: "Oh,oh!" e "Boa noite, amor", proferidas pela boneca em intervalos regulares, ao inv&eacute;s de o desiludirem, estimulam o comportamento cada vez mais "mec&acirc;nico" de Nataniel, no desenrolar da narrativa. Questionamos, assim, quem ali &eacute; realmente o aut&ocirc;mato. Sobre essa incerteza da identidade das personagens, Freud aponta que esse efeito psicol&oacute;gico provocado sobre o leitor tem sido uma estrat&eacute;gia recorrente na literatura fant&aacute;stica.</p>     <p>Os desenhos da s&eacute;rie "Monstros" evocam os contos de fadas e f&aacute;bulas, em que um elemento n&atilde;o-humano contracena com o humano. A figura desfalecida &ndash; inconsciente &ndash; permite que se erija outra figura humana com face monstruosa. Esta, um duplo, rouba a cena e olha para n&oacute;s: "O duplo, o objeto originariamente inventado &#39;contra o desaparecimento do eu&#39;, (...) acaba por significar esse desaparecimento mesmo &ndash; nossa morte &ndash; quando aparece e nos &#39;olha&#39;" (Didi-Huberman, 1998: 229). </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Freud tamb&eacute;m toca na quest&atilde;o do "duplo" como central, tanto na fic&ccedil;&atilde;o quanto em nossas vidas, no jogo fundamental entre vida e morte que fazemos quando crian&ccedil;as, desejando que nossas bonecas e bonecos tenham vida &ndash; pois a representa&ccedil;&atilde;o dada no duplo evoca a supera&ccedil;&atilde;o da brevidade da vida e tamb&eacute;m a pr&oacute;pria brevidade desse mesmo ato de supera&ccedil;&atilde;o de seu poder. Segundo o autor, podemos superar esse jogo infantil na vida adulta ou podemos atualiz&aacute;-lo, por meio das repeti&ccedil;&otilde;es involunt&aacute;rias; talvez a organiza&ccedil;&atilde;o dos desenhos de Daniela Maura em "s&eacute;ries" seja um modo de n&atilde;o se esgotar a quest&atilde;o. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Considera&ccedil;&otilde;es finais</b></p>     <p>Em ambas as s&eacute;ries de desenhos, a figura feminina n&atilde;o nos olha. Ela est&aacute; l&aacute;, mas de olhos fechados, desacordada, olhando para outro objeto ou dire&ccedil;&atilde;o: h&aacute; sempre um olhar de desvio despotencializando sua presen&ccedil;a como deflagradora consciente das a&ccedil;&otilde;es. Ela &eacute; objetualizada, tornando-se o lugar que oportuniza outra cena &ndash; seu corpo/palco para a encena&ccedil;&atilde;o do p&ecirc;nis ereto, o desfalecimento para que outra ere&ccedil;&atilde;o se d&ecirc;: a da face monstruosa. Em ambos os casos, o desvio/aus&ecirc;ncia do olhar que nos encara &eacute; tamb&eacute;m o canal para a exposi&ccedil;&atilde;o de sua intimidade, na rela&ccedil;&atilde;o amorosa do entre-dois ou no ambiente dom&eacute;stico, evocado pelo papel de parede.</p>     <p>Para Piera Aulagnier (apud Frayze-Pereira, 2005), no processo de constitui&ccedil;&atilde;o da identidade, manter segredos &eacute; vital para o exerc&iacute;cio do pensamento; o secreto &eacute; a express&atilde;o da liberdade na diferencia&ccedil;&atilde;o do sujeito. Segredar &eacute; segregar-se, colocar-se em um lugar secreto. Ali, o sujeito reavalia experi&ecirc;ncias e trocas sociais em fluxo, para obter s&iacute;nteses que possam lhe dizer, de algum modo, quem &eacute; para si e para os outros. </p>     <p>Lacan construir&aacute; o neologismo "extimidade" para referir-se a um espa&ccedil;o existente na intimidade, mas que se revela fora de si, em seu exterior. O <i>&ecirc;xtimo</i> &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o que nubla as fronteiras entre o p&uacute;blico e o privado, fronteira que insistimos em construir para a constitui&ccedil;&atilde;o da identidade. Mladen Dolar percebe o <i>&ecirc;xtimo</i> como desdobramento do <i>Unheimliche</i>: ambos referem-se a algo nosso que de t&atilde;o secreto, se esvai e resvala em uma alteridade, que em um primeiro momento, nos inquieta. &Eacute; um "Isso" (Lacan, 2008) que se revela, a princ&iacute;pio, em posi&ccedil;&atilde;o perif&eacute;rica, mas que &eacute;, na verdade, central na constitui&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria. Dolar escreve que a extimidade "n&atilde;o aponta nem para o interior nem para o exterior e se torna amea&ccedil;adora, provocando horror e ang&uacute;stia. A extimidade &eacute; simultaneamente o n&uacute;cleo &iacute;ntimo e o corpo estrangeiro; em uma palavra, &eacute; unheimliche". (Dolar, s.d, s.p.)</p>     <p>Os desenhos autorrepresentacionais de Daniela Maura apresentam-nos esse dilema na revela&ccedil;&atilde;o do sujeito-artista. Colocando-se em posi&ccedil;&atilde;o perif&eacute;rica a partir da emerg&ecirc;ncia do Outro (falo, monstro), a representa&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica e composicional aponta o caminho da <i>n&atilde;o</i> identidade da artista consigo mesma para que ela possa se identificar. </p>     <p>Para isso, o suporte &eacute; um elemento importante no processo de cria&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>Consideramos que o tra&ccedil;o de Daniela Maura &eacute; o dado instaurador de uma <i>identidade</i> no desenho. Reside um aspecto "caligr&aacute;fico", revelador da singularidade de sua proposta gr&aacute;fica: linhas puras e unas na representa&ccedil;&atilde;o das figuras humanas. A pr&aacute;tica constante de croquis deu-lhe um saber sobre a representa&ccedil;&atilde;o da forma em diversas posi&ccedil;&otilde;es. O desenho &eacute; um exerc&iacute;cio constante no cotidiano da artista: ela desenha a casa, o espa&ccedil;o &iacute;ntimo, modos de ocupa&ccedil;&atilde;o; tal como um cronista que pin&ccedil;a o inusitado no interior do banal &ndash; necessitando viver o cotidiano como fen&ocirc;meno &#8211; os desenhos de Maura s&atilde;o cr&ocirc;nicas que revelam o cotidiano como assunto e o desenho como h&aacute;bito. </p>     <p>O suporte &eacute; lugar onde se assenta a pr&aacute;tica costumeira de desenhar. Ele problematiza aquilo que se tornou a identidade da artista: a pr&oacute;pria inscri&ccedil;&atilde;o. Em "Manual de boas pr&aacute;ticas", o desafio est&aacute; no fazer o desenho; instaurar-se-ia uma condi&ccedil;&atilde;o de cegueira para que a cena se desenhe revelando pontos de esquecimento nos contornos da figura. J&aacute; em "Monstros", a estampa nubla o aspecto horroroso, obsceno da cena. Um suporte <i>&ecirc;xtimo</i>, borrador do ato de identifica&ccedil;&atilde;o da inscri&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fica. &Eacute; como se materializasse uma "entropia" que, ao final, unificar&aacute; todas as diferen&ccedil;as, se colocando como ponto zero para o desenho recome&ccedil;ar o processo de constitui&ccedil;&atilde;o de sua pr&oacute;pria identidade.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Didi-Huberman, Georges (1998) <i>O que vemos, o que nos olha. </i> S&atilde;o Paulo: Editora 34.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438164&pid=S1647-6158201500020000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Dolar, Mladen (s.d.). <i>"Estarei com voc&ecirc; em sua noite de n&uacute;pcias": Lacan e o Estranho. </i> Tradu&ccedil;&atilde;o de Bruno Holmes Chads. Dispon&iacute;vel em <a href="http://ideiaeideologia.com/wp-content/uploads/2013/05/Mladen-Dolar-The-Uncanny_traduc%CC%A7a%CC%83o_.pdf" target="_blank">http://ideiaeideologia.com/wp-content/uploads/2013/05/Mladen-Dolar-The-Uncanny_traduc%CC%A7a%CC%83o_.pdf</a>. Acessado em 22.07.2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438166&pid=S1647-6158201500020000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Frayze-Pereira, Jo&atilde;o (2005). <i>Arte, dor</i>. Inquietudes entre est&eacute;tica e psican&aacute;lise. S&atilde;o Paulo: Ateli&ecirc; Editorial.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438168&pid=S1647-6158201500020000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Freud, Sigmund (1980) <i>O estranho. </i> Edi&ccedil;&atilde;o Standard das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud, 17. Rio de Janeiro: Imago.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438170&pid=S1647-6158201500020000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Lacan, Jacques. (2008). <i>O semin&aacute;rio, livro 16: de um ao outro. </i> Rio de Janeiro: Zahar,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438172&pid=S1647-6158201500020000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 5 de setembro de 2015 e aprovado a 23 de setembro de 2015.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:claudiamfsg@yahoo.com.br">claudiamfsg@yahoo.com.br</a> (Cl&aacute;udia Fran&ccedil;a)</p>      ]]></body><back>
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