<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1647-6158</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista :Estúdio]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Estúdio]]></abbrev-journal-title>
<issn>1647-6158</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1647-61582015000200014</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Fraturas expostas: uma análise das pinturas de "Desconstruções," de Alan Fontes]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Open fractures: an analysis of "Desconstruções," paintings of Alan Fontes]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Costa]]></surname>
<given-names><![CDATA[Alexandre Rodrigues da]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade do Estado de Minas Gerais Escola Guignard Departamento de Disciplinas Teóricas e Psicopedagógicas]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Belo Horizonte Minas Gerais]]></addr-line>
<country>Brasil</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<volume>6</volume>
<numero>12</numero>
<fpage>141</fpage>
<lpage>149</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582015000200014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582015000200014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582015000200014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Este artigo se propõe a analisar as pinturas da série Desconstruções, de 2014, do artista mineiro Alan Fontes, a partir dos conceitos de informe e heterogenia de Georges Bataille. Tais conceitos nos permitirão pensar em uma pintura que se detém de maneira crítica sobre a arquitetura, ao tratar a casa como lugar precário, aberto aos acidentes. A casa se constitui, nas pinturas de Alan Fontes, como um espaço de proliferação de sentidos, que se abre, através do dilaceramento, para a desordem, a desintegração do que é familiar, quando as formas se dissolvem no vazio que as sustenta.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article aims to analyze the paintings of Deconstructions series, 2014, by the artist Alan Fontes, from Minas Gerais, based on the Georges Bataille's concepts of formless and heterogeneity. These concepts allow us to think about a painting that works critically the architecture, to treat the house as precarious place, opening to accidents. The house is, in the Alan Fontes' paintings, a proliferation of directions that opens through tearing, for the disorder, the disintegration of which is familiar when empty forms dissolve themselves in what keeps them.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[informe]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[labirinto]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[desastre]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[ormless]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[labyrinth]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[disaster]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Fraturas expostas: uma an&aacute;lise das pinturas de "Desconstru&ccedil;&otilde;es," de Alan Fontes</b></p>     <p><b>Open fractures: an analysis of "Desconstru&ccedil;&otilde;es," paintings of Alan Fontes</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Alexandre Rodrigues da Costa&#42; </b></p>     <p>&#42;Brasil, poeta. Licenciatura em Literatura Brasileira e Portuguesa pela Faculdade de Letras (FALE), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestrado em Po&eacute;ticas da Modernidade, FALE, UFMG. Doutorado em Literatura Comparada, FALE, UFMG. </p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Escola Guignard, Departamento de Disciplinas Te&oacute;ricas e Psicopedag&oacute;gicas. Rua Asc&acirc;nio Burlamarque, 540, Belo Horizonte, Estado Minas Gerais CEP: 30315-030, Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Este artigo se prop&otilde;e a analisar as pinturas da s&eacute;rie Desconstru&ccedil;&otilde;es, de 2014, do artista mineiro Alan Fontes, a partir dos conceitos de informe e heterogenia de Georges Bataille. Tais conceitos nos permitir&atilde;o pensar em uma pintura que se det&eacute;m de maneira cr&iacute;tica sobre a arquitetura, ao tratar a casa como lugar prec&aacute;rio, aberto aos acidentes. A casa se constitui, nas pinturas de Alan Fontes, como um espa&ccedil;o de prolifera&ccedil;&atilde;o de sentidos, que se abre, atrav&eacute;s do dilaceramento, para a desordem, a desintegra&ccedil;&atilde;o do que &eacute; familiar, quando as formas se dissolvem no vazio que as sustenta.</p>     <p><b>Palavras chave: </b> informe, labirinto, desastre. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>This article aims to analyze the paintings of Deconstructions series, 2014, by the artist Alan Fontes, from Minas Gerais, based on the Georges Bataille&#39;s concepts of formless and heterogeneity. These concepts allow us to think about a painting that works critically the architecture, to treat the house as precarious place, opening to accidents. The house is, in the Alan Fontes&#39; paintings, a proliferation of directions that opens through tearing, for the disorder, the disintegration of which is familiar when empty forms dissolve themselves in what keeps them.</p>     <p><b>Keywords:</b> formless, labyrinth, disaster.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>O desastre arru&iacute;na tudo, deixando tudo intacto. </i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&ndash; Maurice Blanchot</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>A s&eacute;rie <i>Desconstru&ccedil;&otilde;es</i>, de 2014, do artista mineiro Alan Fontes, nascido na cidade de Ponte Nova, em 1980, pretende, a partir de imagens coletadas de jornais, revistas e internet, trabalhar o conceito de casa como ru&iacute;na, fragmentos de mem&oacute;rias, restos que sobrevivem ao desastre. Tema recorrente em seus trabalhos, como podemos perceber nas obras <i>A casa</i>, 2005-2007, <i>Bar da Ana</i>, 2006, <i>A casa dos espelhos</i>, 2006, <i>Kitnet</i>, 2010, <i>Casa Kubitschek</i>, 2014, e em <i>Sobre Incertas Casas</i>, 2015, a casa surge, nas pinturas e instala&ccedil;&otilde;es de Alan Fontes, sempre de forma inusitada, no momento em que o artista almeja quebrar com o senso comum que tende a defini-la como abrigo, conforto. Em <i>Desconstru&ccedil;&otilde;es</i>, a casa nos &eacute; apresentada como lugar ao avesso, pois o que vemos s&atilde;o os seus interst&iacute;cios, seu interior que, agora, se confunde com o espa&ccedil;o em volta (<a href="#f1">Figura 1</a>). Antes, lugar de prote&ccedil;&atilde;o, a casa, nessa s&eacute;rie de pinturas, revela-se como o que escapa &agrave; utilidade, ao se tornar um corpo informe, diante do qual a ordem n&atilde;o tem mais vez. A casa converte-se, portanto, em um entre lugar, onde o ordenamento matem&aacute;tico, diante do que foge &agrave; raz&atilde;o, fracassa, desmorona. Nesse sentido, o desastre permite ver a casa como um ser monstruoso, o que encontra respaldo na cr&iacute;tica que o pensador franc&ecirc;s Georges Bataille faz sobre a arquitetura. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a14f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <p><b>Entre o desastre e o informe</b></p>     <p>Na s&eacute;rie <i>Desconstru&ccedil;&otilde;es</i>, Alan Fontes, ao se ocupar do que sobrou ap&oacute;s os desastres, vai ao encontro daquilo que Georges Bataille prop&otilde;e ao analisar a quest&atilde;o da arquitetura na cultura ocidental. Para Bataille, a arquitetura &eacute; mais outro nome para o sistema, a regulariza&ccedil;&atilde;o do plano, ou seja, tudo aquilo que, sob a forma de monumento, se designa como express&atilde;o da ordem social. No segundo n&uacute;mero da revista <i>Documents</i>, publicado em 1929, Bataille abre o dicion&aacute;rio cr&iacute;tico com o verbete "Arquitetura". Nesse texto, ao se deter na arquitetura como express&atilde;o da sociedade, Bataille observa como os monumentos projetam ordem, poder e medo, de tal forma que </p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote><i>sempre que a composi&ccedil;&atilde;o arquitet&ocirc;nica est&aacute; em outros lugares al&eacute;m dos monumentos, seja no rosto, roupas, m&uacute;sica ou pintura, podemos inferir a preval&ecirc;ncia de um gosto pela autoridade humana ou divina</i> (Bataille, 1970: 171). </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para o arquiteto, o dom&iacute;nio da ideia sobre a mat&eacute;ria, traduzido em termos de projeto, impede a diferen&ccedil;a, pois a repeti&ccedil;&atilde;o imobiliza-se em harmonia, no momento em que a anula&ccedil;&atilde;o do tempo se d&aacute; pela manuten&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es constantes. De acordo com Denis Hollier, em sua leitura sobre a met&aacute;fora arquitetural em Bataille: </p>     <blockquote><i>A execu&ccedil;&atilde;o precisa apenas cumprir o seu programa, submetendo-o at&eacute; que ele desapare&ccedil;a dentro dela. O projeto, por natureza, &eacute; destinado a reproduzir a sua forma, e, para assegurar a sua pr&oacute;pria reprodu&ccedil;&atilde;o, ele elimina qualquer coisa que n&atilde;o tenha sido prevista e que o tempo pode levar a se opor a ele. O futuro (o edif&iacute;cio realizado) deve estar em conformidade com o presente (a concep&ccedil;&atilde;o do plano). O tempo &eacute; eliminado</i> (Hollier, 1989: 45). </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>Nas pinturas que constituem a s&eacute;rie <i>Desconstru&ccedil;&otilde;es</i>, Alan Fontes busca, nas imagens de casas em ru&iacute;nas, o que desafia o projeto: o desastre. Nessas pinturas, a desordem prevalece, no instante em que a casa n&atilde;o mais ret&eacute;m, a partir de sua estrutura, a perman&ecirc;ncia da forma. O desastre, nesse sentido, rompe com ideia de projeto, ao impedir que a repeti&ccedil;&atilde;o se mantenha como consagra&ccedil;&atilde;o da harmonia: "a harmonia como o projeto rejeita o tempo; o seu princ&iacute;pio &eacute; a repeti&ccedil;&atilde;o pela qual qualquer poss&iacute;vel se eterniza" (Bataille, 1992: 62). O desastre carrega, assim, uma concep&ccedil;&atilde;o de tempo pr&oacute;prio (<a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>). Nas palavras de Maurice Blanchot:</p>     <blockquote><i>Quando o desastre chega, ele n&atilde;o chega. O desastre &eacute; sua pr&oacute;pria imin&ecirc;ncia, mas desde que o futuro, tal como n&oacute;s o concebemos na ordem do tempo vivido, pertence ao desastre, o desastre sempre o tem subtra&iacute;do ou o dissuadido, n&atilde;o h&aacute; futuro para o desastre, como n&atilde;o h&aacute; tempo ou espa&ccedil;o para sua realiza&ccedil;&atilde;o</i> (Blanchot, 1980: 7-8). </blockquote>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a14f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>  <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a14f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <p>A desagrega&ccedil;&atilde;o da casa dissolve tanto os limites entre o interno e o externo quanto as rela&ccedil;&otilde;es que se estabelecem entre passado, presente e futuro, uma vez que o espa&ccedil;o seguro &eacute; substitu&iacute;do por um espa&ccedil;o e tempo indeterminados. Os fragmentos, resultantes do desastre, sobrevivem duplamente como vest&iacute;gios, pois rementem a uma origem parcialmente apagada e a uma representa&ccedil;&atilde;o obliterada, incompleta. O que vemos se forma a partir das ru&iacute;nas de um presente deteriorado, cujos destro&ccedil;os se fazem vis&iacute;veis pela escolha do pintor em destac&aacute;-los, ao privilegiar a desordem, a precariedade e fragilidade dos objetos como detentores das nossas mem&oacute;rias. O tempo desfigura a mem&oacute;ria, ao permitir que o desastre disperse, desmorone n&atilde;o s&oacute; a casa, mas aquilo que se guarda nela. A pintura configura-se de restos, sob os quais o esqueleto, a estrutura do que antes era casa, aparece incompleto, desarticulado em meio ao entulho, a este corpo em decomposi&ccedil;&atilde;o, constitu&iacute;do de tetos, paredes e objetos despeda&ccedil;ados. A concep&ccedil;&atilde;o da casa como ser vivo torna-se mais evidente, quando olhamos com aten&ccedil;&atilde;o para algumas dessas pinturas e notamos como o entulho, que o desastre forma, assemelha-se &agrave;s v&iacute;sceras. Dilaceradas, as casas de Alan Fontes se projetam t&atilde;o prec&aacute;rias quanto nas obras de artistas como Robert Smithson ou Gordon Matta-Clark, pois lhes &eacute; negado o antes, uma hist&oacute;ria que possa atrelar as ru&iacute;nas a qualquer ponto determinado no tempo. A perda de refer&ecirc;ncia nos arremessa para uma estrutura que oscila entre forma e n&atilde;o forma, cujo excesso se d&aacute; a partir de um processo de divis&atilde;o e reuni&atilde;o simult&acirc;neas, pois, como um organismo que se reproduz por cissiparidade, n&atilde;o h&aacute; mais hierarquia sobre o que resta da casa: "Tudo se divide em dois. O significado se move atrav&eacute;s da clivagem" (Hollier, 1989: 77).</p>     <p>Nesse sentido, esse excesso, que visualmente lembra interst&iacute;cios, nos remete, ao mesmo tempo, ao informe e ao labirinto na obra de Bataille. Cunhado como verbete, no dicion&aacute;rio cr&iacute;tico, o informe, segundo Bataille, "n&atilde;o &eacute; apenas um adjetivo que d&aacute; significados, mas um termo que serve para desclassificar, exigindo que cada coisa tenha a sua forma" (Bataille, 1970: 217). O informe, no entanto, n&atilde;o &eacute; um conceito, pois sua exist&ecirc;ncia s&oacute; &eacute; percept&iacute;vel como opera&ccedil;&atilde;o, na verdade, contra-opera&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que ele desclassifica, "designa o que n&atilde;o tem seus direitos em nenhum sentido e se espalha por todos os lugares" (Bataille, 1970: 217). Do mesmo modo que o informe &eacute; concebido como uma esp&eacute;cie de sabotagem contra o sistema acad&ecirc;mico, Bataille, de acordo com Denis Hollier, "inverte o sentido metaf&oacute;rico tradicional do labirinto que geralmente liga-o com o desejo de sair" (Hollier, 1989: 60). O labirinto &eacute; a exist&ecirc;ncia operacional do informe, pois sua estrutura anti-hier&aacute;rquica op&otilde;e-se a concep&ccedil;&atilde;o geom&eacute;trica idealizada, para a qual a sa&iacute;da representaria a realiza&ccedil;&atilde;o do projeto, da utopia. Denis Hollier, ao analisar a quest&atilde;o do labirinto em Bataille, comenta:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <blockquote><i>Nunca se est&aacute; dentro do labirinto, porque, incapaz de deix&aacute;-lo, incapaz compreend&ecirc;-lo com um &uacute;nico olhar, nunca se sabe se &eacute; dentro. Devemos descrever o labirinto como ambiguidade intranspon&iacute;vel, estrutura espacial, onde nunca se sabe se a pessoa est&aacute; sendo expulsa ou sendo enclausurada, um espa&ccedil;o composto exclusivamente de aberturas, onde nunca se sabe se elas abrem para o interior ou o exterior, se elas s&atilde;o para sair ou entrar</i> (Hollier, 1989: 61). </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>Esse excesso sem sa&iacute;da, estrutura que desorienta, pode ser percebido nas casas das pinturas de <i>Desconstru&ccedil;&otilde;es</i>, nas quais as estruturas, ao se desmancharem, confundem o dentro e o fora (<a href="#f4">Figura 4</a>). A casa passa a se constituir de espa&ccedil;os abertos, mas de maneira que, ao subsistirem ainda algumas paredes, o provis&oacute;rio se torna o tempo de uma amea&ccedil;a desconhecida, lugar de extravio, de n&atilde;o-saber. Em vez de buscarmos a sa&iacute;da de tal labirinto, permanecer&iacute;amos perdidos nele, alimentados pelo encontro com o imposs&iacute;vel como afirma&ccedil;&atilde;o da instabilidade de terrenos nunca mapeados, sempre abertos &agrave; exig&ecirc;ncia de um andar sem meta. O labirinto, pensado como opera&ccedil;&atilde;o do informe, afirma a precariedade da arquitetura, seu fim inevit&aacute;vel, no qual a decomposi&ccedil;&atilde;o prevalece, ao exibir, por meio da ru&iacute;na, a ruptura com um suposto projeto e lugar idealizados. Assim, ao revelar a estrutura, seu dentro e fora, Alan Fontes acaba por destacar a incompletude, no sentido de que a morte se faz presente atrav&eacute;s da podrid&atilde;o, da casa que se desintegra sob o impacto do desastre. A casa, em estado de ru&iacute;na, aparece como um lugar de experi&ecirc;ncias desfeitas, onde o privado se d&aacute; a ver pela mutila&ccedil;&atilde;o de seus c&ocirc;modos, a abertura de espa&ccedil;os que se projetam para o exterior, exibindo o que antes estava escondido. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a14f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Alan Fontes recria o desastre, ao oferecer o estranhamento como uma forma de, apropriando-nos das palavras de Rosalind Krauss, "entrar num mundo sem centro, um mundo de substitui&ccedil;&otilde;es e transposi&ccedil;&otilde;es em parte alguma legitimado pelas revela&ccedil;&otilde;es de um tema transcendental" (Krauss, 1986: 258). Podemos perceber isso, ao olhar para a tela <i>Desconstru&ccedil;&otilde;es n&ordm; 1</i> (<a href="#f5">Figura 5</a>), na qual, em meio ao caos, destacam-se um banheiro, uma mesa com bolo de anivers&aacute;rio e uma cadeira com bal&otilde;es azuis amarrados. Os limites que separam o comer e o defecar s&atilde;o rompidos pela transpar&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o onde a import&acirc;ncia das coisas &eacute; relativizada, no instante em que as dist&acirc;ncias desaparecem e eles se refletem. Os objetos se tornam, assim, partes da paisagem que os cerca. A estrutura, estilha&ccedil;ada, quebrada, ao mesmo tempo que revela a mat&eacute;ria de que &eacute; feita, mescla-se ao espa&ccedil;o aberto, pois os detritos, ao se projetarem em diferentes posi&ccedil;&otilde;es e dist&acirc;ncias, dispersam n&atilde;o apenas a no&ccedil;&atilde;o de centro, mas tamb&eacute;m a de limite entre o natural e o manufaturado. O que temos assim &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o cujo arranjo se d&aacute; pela desordem: "um arranjo de tipo novo, que n&atilde;o seria o de uma harmonia, de uma conc&oacute;rdia ou de uma concilia&ccedil;&atilde;o, mas que aceitar&aacute; a disjun&ccedil;&atilde;o ou a diverg&ecirc;ncia como centro infinito" (Blanchot, 2010: 43). A partir dessa prolifera&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os, podemos pensar na heterogenia como movimento que se abre tanto para o entrela&ccedil;amento da arquitetura com a pintura quanto para a desarmonia que entre elas se constr&oacute;i, quando o informe se constitui em um tempo de decomposi&ccedil;&atilde;o, no qual as ru&iacute;nas das casas revelam sua precariedade e seu excesso. Esse excesso n&atilde;o deve ser pensado como descart&aacute;vel, mas viol&ecirc;ncia que rompe com a ordem, ao afirmar a impossibilidade de se reconstituir o passado e se prender a um presente. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v6n12/6n12a14f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Embora n&atilde;o haja cad&aacute;veres, nas telas de Alan Fontes, a morte manifesta-se como elemento desarticulador, capaz de despeda&ccedil;ar a integralidade dos espa&ccedil;os, ao mostrar que a casa, como extens&atilde;o dos corpos, &eacute; t&atilde;o inst&aacute;vel e fr&aacute;gil quanto estes. Nesse sentido, os cen&aacute;rios, que dela irrompem, subsistem como restos, fragmentos: "a ruptura da homogeneidade pessoal, a proje&ccedil;&atilde;o para o exterior de uma parte de si pr&oacute;prio com o seu car&aacute;ter ao mesmo tempo violento e doloroso" (Bataille, 2007: 104). A casa, levada ao colapso, ultrapassa a medida de si mesma, para se oferecer ao avesso: mem&oacute;ria dilacerada, exposta para todos a verem.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <!-- ref --><p>Bataille, Georges (2007) <i>O &acirc;nus solar (e outros textos do sol</i>). Tradu&ccedil;&atilde;o de An&iacute;bal Fernandes. Lisboa: Ass&iacute;rio & Alvim. ISBN: 978-972-37-1195-0&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438736&pid=S1647-6158201500020001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Bataille, Georges (1970). <i>Oeuvres Compl&egrave;tes: volume I. </i> Paris: &Eacute;ditions Gallimard. ISBN: 978-2070267934.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438737&pid=S1647-6158201500020001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bataille, Georges (1992). <i>A experi&ecirc;ncia interior. </i> Tradu&ccedil;&atilde;o de Celso Lib&acirc;nio Coutinho, Magali Montagn&eacute; e Antonio Ceschin. S&atilde;o Paulo: Editora &Aacute;tica. ISBN: 85-08-04051-2.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438739&pid=S1647-6158201500020001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Blanchot, Maurice (2010). <i>A conversa infinita 3: a aus&ecirc;ncia de livro, o neutro, o fragment&aacute;rio</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o de Jo&atilde;o Moura Jr. S&atilde;o Paulo: Escuta. ISBN: 978-85-7137-299-3.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438741&pid=S1647-6158201500020001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Blanchot, Maurice (1980). <i>L&#39;&eacute;criture du d&eacute;sastre</i>. Paris: &Eacute;ditons Gallimard. ISBN: 2-07-022248-9.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438743&pid=S1647-6158201500020001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Hollier, Denis (1989). <i>Against architecture: the writings of Georges Bataille. </i> Translated by Besty Wing. Massachusetts: The MIT Press. ISBN: 0-262-08186-5.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438745&pid=S1647-6158201500020001400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Krauss, Rosalind E. (1986). <i>Caminhos da escultura moderna</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o de Julio Fischer. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes. ISBN: 85-336-0958-2.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1438747&pid=S1647-6158201500020001400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 7 de setembro de 2015 e aprovado a 23 de setembro de 2015.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:rodriguescosta@hotmail.com">rodriguescosta@hotmail.com</a> (Alexandre Rodrigues da Costa)</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bataille]]></surname>
<given-names><![CDATA[Georges]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[ânus solar: (e outros textos do sol)]]></source>
<year>2007</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Assírio & Alvim]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bataille]]></surname>
<given-names><![CDATA[Georges]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Oeuvres Complètes: volume I]]></source>
<year>1970</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Éditions Gallimard]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bataille]]></surname>
<given-names><![CDATA[Georges]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A experiência interior]]></source>
<year>1992</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora Ática]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Blanchot]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maurice]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A conversa infinita 3: a ausência de livro, o neutro, o fragmentário]]></source>
<year>2010</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Escuta]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Blanchot]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maurice]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[L'écriture du désastre]]></source>
<year>1980</year>
<publisher-loc><![CDATA[Paris ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Éditons Gallimard]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Hollier]]></surname>
<given-names><![CDATA[Denis]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Against architecture: the writings of Georges Bataille]]></source>
<year>1989</year>
<publisher-loc><![CDATA[Massachusetts ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[The MIT Press]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Krauss]]></surname>
<given-names><![CDATA[Rosalind E.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Caminhos da escultura moderna]]></source>
<year>1986</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Martins Fontes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
