<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1647-6158</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista :Estúdio]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Estúdio]]></abbrev-journal-title>
<issn>1647-6158</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1647-61582015000200019</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA["Pintura Habitada" de Helena Almeida: entre um antes e um depois]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA["Pintura Habitada" from Helena Almeida: between before and after]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pires]]></surname>
<given-names><![CDATA[Lara Vanessa Casal]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
<country>Portugal</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2015</year>
</pub-date>
<volume>6</volume>
<numero>12</numero>
<fpage>184</fpage>
<lpage>189</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582015000200019&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582015000200019&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582015000200019&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[O objecto de análise deste artigo é a série: Pintura Habitada criada por Helena Almeida em 1975. A discussão desta série é tecida em torno da exploração do acto performativo da artista e ao mesmo tempo do observador como co-fabricante do sentido da obra. A reflexão teórica desenvolver-se-à em articulação com a Lógica da Sensação de Deleuze.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The subject of this article is the series: Painting Inhabited created by Helena Almeida in 1975. The discussion in this series is woven around the exploration of the performative Act of the artist at the same time, the observer as co-manufacturer of the meaning of the work. The theoretical reflection to develop in conjunction with the logic of sense of Deleuze.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Imagens]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[pintura]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[fotografia]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[observador]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[performer]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Pictures]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[painting]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[photography]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[observer]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[performer]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b> "Pintura Habitada" de Helena Almeida: entre um antes e um depois</b></p>     <p><b> "Pintura Habitada" from Helena Almeida: between before and after</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lara Vanessa Casal Pires&#42; </b></p>     <p>&#42;Portugal, investigadora e performer. Licenciatura em Artes Performativas pela Escola Superior de Tecnologias e Artes de Lisboa (ESTAL) e Mestrado em Filosofia com especializa&ccedil;&atilde;o em Est&eacute;tica pela Faculdade de Ci&ecirc;ncias Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Doutoranda em Artes (Artes Performativas e da Imagem em Movimento). Alameda da Universidade, 1600-214, Lisboa, Portugal.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>O objecto de an&aacute;lise deste artigo &eacute; a s&eacute;rie: Pintura Habitada criada por Helena Almeida em 1975. A discuss&atilde;o desta s&eacute;rie &eacute; tecida em torno da explora&ccedil;&atilde;o do acto performativo da artista e ao mesmo tempo do observador como co-fabricante do sentido da obra. A reflex&atilde;o te&oacute;rica desenvolver-se-&agrave; em articula&ccedil;&atilde;o com a L&oacute;gica da Sensa&ccedil;&atilde;o de Deleuze.</p>     <p><b>Palavras chave: </b> Imagens, pintura, fotografia, observador e performer.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>The subject of this article is the series: Painting Inhabited created by Helena Almeida in 1975. The discussion in this series is woven around the exploration of the performative Act of the artist at the same time, the observer as co-manufacturer of the meaning of the work. The theoretical reflection to develop in conjunction with the logic of sense of Deleuze.</p>     <p><b>Keywords:</b> Pictures, painting, photography, observer and performer.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em 1975 Helena Almeida cria uma s&eacute;rie: <i>Pintura Habitada</i> (acr&iacute;lico sobre fotografia a preto e branco). Uma s&eacute;rie que convida o olhar e a perce&ccedil;&atilde;o do observador atrav&eacute;s de um percurso pr&oacute;prio podendo ser experienciado como que uma colagem fragment&aacute;ria da investiga&ccedil;&atilde;o feita pela autora. </p>     <p>O presente artigo ir&aacute; analisar esta s&eacute;rie atendendo ao <i>ato performativo</i>, dentro da obra, que permite ao observador reconhecer e construir imagens durante a sua observa&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da <i>composi&ccedil;&atilde;o. </i> Este artigo ir&aacute; descrever como a abordagem performativa da autora possibilita um <i>papel</i> de observador <i>co-fabricante</i> de sentido da obra.</p>     <p>Como ponto de partida, e do mesmo modo que Deleuze em L&oacute;gica da sensa&ccedil;&atilde;o, o presente artigo descreve o erro de se "acreditar que o pintor est&aacute; diante de uma superf&iacute;cie branca (&ndash;) (onde) poderia reproduzir um objeto exterior" (Deleuze, 2011: 151) uma vez que na experimenta&ccedil;&atilde;o da cria&ccedil;&atilde;o a "superf&iacute;cie branca" do corpo em performance est&aacute; cheia. Assim, prop&otilde;e-se que o performer tal como Bacon, em Deleuze, delimita atrav&eacute;s de um "trabalho preparat&oacute;rio" (Deleuze, 2011: 169) o "surgimento de um outro mundo" (Deleuze, 2011: 171) feito de acidentes e de acaso a que Bacon chama de "diagrama" (Deleuze, 2011: 123), "como uma cat&aacute;strofe que ocorre sobre a tela" (Deleuze, 2011: 170). Na cria&ccedil;&atilde;o em performance, dentro de uma "zona controlada", o performer articula simultaneidades em tr&acirc;nsito, tal como o ato de pintar &eacute; precedido por um "trabalho preparat&oacute;rio invis&iacute;vel e silencioso" (Deleuze, 2011: 169). O momento informado e marcado pela passagem, isto &eacute;, na evid&ecirc;ncia do deslocamento ocorrido entre um antes e um depois a an&aacute;lise do corpo do performer pode esclarecer quais as liga&ccedil;&otilde;es estabelecidas entre a experi&ecirc;ncia do corpo e a experimenta&ccedil;&atilde;o na cria&ccedil;&atilde;o de Pintura Habitada.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Documentar um gesto e pintar sobre uma fotografia</b></p>     <p>Helena Almeida (n. 1934) cria em 1975 uma s&eacute;rie de sete fotografias a preto e branco e pintura acr&iacute;lica azul (46 x 40 cm cada) intitulada <i>Pintura Habitada</i>. Nesta s&eacute;rie a artista reflecte sobre a potencialidade da pintura insistindo na rela&ccedil;&atilde;o entre quem pinta e a pintura em si, e n&atilde;o na apresenta&ccedil;&atilde;o de algo que revele o que &eacute; espec&iacute;fico do "fazer" da pintura. Helena Almeida cria em Pintura Habitada uma pintura atrav&eacute;s de uma ac&ccedil;&atilde;o pict&oacute;rica posterior ao registo fotogr&aacute;fico, compondo materialmente um documento de um gesto encenado e dirigido para o espa&ccedil;o de observa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A escassa utiliza&ccedil;&atilde;o de cor &eacute; posterior ao registo do gesto oferecido e (re)conhecido. &Eacute; deste modo que Helena Almeida estabelece um jogo subtil, tornando poss&iacute;vel transitar entre aquilo que &eacute; representado e o que &eacute; composto pelo observador. O tempo e a materialidade do gesto da artista pertecem &agrave; fotografia, e a suspens&atilde;o dram&aacute;tica da ac&ccedil;&atilde;o pertence &agrave; pintura. A combina&ccedil;&atilde;o destes instrumentos expressivos produz formas e movimentos que deslocam a percep&ccedil;&atilde;o e introduz uma dimens&atilde;o de vest&iacute;gio. Ao movimento descont&iacute;nuo, que n&atilde;o p&aacute;ra de oscilar, que aproxima e afasta &eacute; o impacto do que resta do tempo de contacto e do que est&aacute; ausente. Uma vez que cada gesto particular do corpo sugere uma particular rela&ccedil;&atilde;o com o tempo, as rela&ccedil;&otilde;es circulam e n&atilde;o se fixam, as rela&ccedil;&otilde;es d&atilde;o lugar &agrave; experi&ecirc;ncia que aponta para o que est&aacute; ausente, aproximando aquilo que &eacute; anterior &agrave;s imagens.</p>     <p>Em Pintura Habitada um corpo hesitante &eacute; fotografado, mas o percurso invis&iacute;vel do gesto n&atilde;o pode ser alcan&ccedil;ado. A fotografia e a ac&ccedil;&atilde;o pict&oacute;rica posterior torna vis&iacute;vel um corpo "apanhado" entre duas temporalidades, um corpo entre um antes e um depois. Ivo Braz escreve em <i>Pensar a Pintura: Helena Almeida</i> (1947-1979) que: "O pintor era situado num &#39;antes,&#39; limitado ao processo de cria&ccedil;&atilde;o e afastado no momento da conclus&atilde;o. O espectador era diferido para um &#39;depois&#39; n&atilde;o intervindo na obra j&aacute; conclu&iacute;da" (Braz, 2007: 56). </p>     <p>Assim, a an&aacute;lise que se prop&otilde;e tecer no presente artigo parte destas duas quest&otilde;es: qual o fio condutor entre o antes e o depois? e qual a rela&ccedil;&atilde;o do gesto, da pintura e da dimens&atilde;o das imagens?</p>     <p>Na rela&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica que o observador estabelece na sua experi&ecirc;ncia da pintura parece fundamental a emerg&ecirc;ncia de uma outra dimens&atilde;o significativa que por si s&oacute; n&atilde;o est&aacute; contida na representa&ccedil;&atilde;o. Ou como escreve Ivo Braz os "processos de antecipa&ccedil;&atilde;o e retrospec&ccedil;&atilde;o, de velamento e desvendamento" (Braz, 2007: 101) permitem uma outra abordagem &agrave; cria&ccedil;&atilde;o.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O gesto encenado e ensaiado faz aparecer como que uma esp&eacute;cie de cen&aacute;rio para a apresenta&ccedil;&atilde;o de Helena Almeida. &Eacute; deste modo que os elementos constituintes das suas cria&ccedil;&otilde;es podem ser re-pensados. Isto quer dizer, no intervalo das suas composi&ccedil;&otilde;es, derivam deslocamentos das quest&otilde;es que recorrentemente coloca na sua produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, nomeadamente: a (auto) representa&ccedil;&atilde;o. E &eacute; nessa experi&ecirc;ncia que as articula&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o sendo estabelecidas s&atilde;o depuradas.</p>     <p>O que se prop&otilde;e ao longo deste artigo &eacute; que a obra concretiza o lugar da d&uacute;vida: a obra &eacute; como que o lugar da reflex&atilde;o tornada vis&iacute;vel. E <i>Pintura Habitada</i> (1975) &eacute; a concretiza&ccedil;&atilde;o do lugar onde &eacute; pensado aquilo que n&atilde;o se consegue explicar.</p>     <p>A cria&ccedil;&atilde;o de Helena Almeida potencia outros relacionamentos, outras liga&ccedil;&otilde;es com a obra em si mesma. Atrav&eacute;s da descontinuidade do gesto (uma vez que como j&aacute; foi referido, o gesto pertence a duas temporalidades). A reflex&atilde;o em torno da no&ccedil;&atilde;o de descontinuidade, que parece constituir a no&ccedil;&atilde;o relacional de um antes e de um depois, permite a constru&ccedil;&atilde;o de formas de compreens&atilde;o do que est&aacute; sendo experimentado e a experi&ecirc;ncia em si mesma (em vez do abandono).</p>     <p>As quest&otilde;es que a artista coloca s&atilde;o (re)lan&ccedil;adas na experi&ecirc;ncia da obra, elas reverberam constitu&iacute;ndo formas de compreens&atilde;o do esquisso do ato performativo. Assim, as imagens criadas na quietude representam, por fragmentos, a manipula&ccedil;&atilde;o da artista e n&atilde;o constituem um (auto)retrato. &Eacute; na experi&ecirc;ncia perceptiva encenada que o observador constr&oacute;i o sentido. E &eacute; neste exerc&iacute;cio de co-fabrica&ccedil;&atilde;o de sentido, que o ato performativo estabelece uma tens&atilde;o entre performer versus a sua obra e a experi&ecirc;ncia do observador. Na tens&atilde;o que o observador experimenta, ele parece deslocar-se, incluir-se na obra mas de forma descont&iacute;nua. Ainda assim, o modo como se desloca em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; cria&ccedil;&atilde;o &eacute; privilegiado, uma vez que a interroga&ccedil;&atilde;o das possibilidades de significa&ccedil;&atilde;o tornam a experi&ecirc;ncia uma oportunidade de composi&ccedil;&atilde;o e de reflex&atilde;o.</p>     <p>Pintura Habitada (1975) cria um espa&ccedil;o que pode ser partilhado, que apesar de breve e de constituir apenas um vislumbre &eacute; "uma possibilidade prec&aacute;ria de um n&oacute;s" (2007: 91) como escreve Peggy Phelan em <i>Intus: Helena Almeida. </i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Come&ccedil;ar</b></p>     <p><i>&Eacute; um erro acreditar que o pintor se encontra perante uma superf&iacute;cie branca. A cren&ccedil;a figurativa decorre desse erro: com efeito, se o pintor estivesse diante de uma superf&iacute;cie branca, poderia reproduzir nela um objecto exterior, que funcionaria como modelo. Mas n&atilde;o &eacute; assim. O pintor tem muitas coisas na cabe&ccedil;a, &agrave; volta dele ou no seu est&uacute;dio. Ora acontece que tudo o que tem na cabe&ccedil;a ou &agrave; sua volta est&aacute; j&aacute; na tela, mais ou menos actualiza&ccedil;&atilde;o, antes de come&ccedil;ar o seu trabalho. Tudo isso est&aacute; presente na tela, enquanto imagens actuais ou virtuais. De modo que o pintor n&atilde;o trata de preencher uma superf&iacute;cie branca, mas sim esvaziar, desimpedir ou limpar uma superf&iacute;cie. Sendo assim, o pintor n&atilde;o pinta para reproduzir na tela um objeto que funcionasse como modelo; pinta por cima de imagens que j&aacute; l&aacute; est&atilde;o para pintar uma tela cujo funcionamento vai desmantelar as rela&ccedil;&otilde;es entre o modelo e a c&oacute;pia. Resumindo, o que &eacute; preciso definir s&atilde;o todos esses "dados" que est&atilde;o na tela antes de come&ccedil;ar o trabalho do pintor</i> (Deleuze, 2011: 151).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A "superf&iacute;cie branca" (Deleuze, 2011: 151) do corpo est&aacute; cheia antes de come&ccedil;ar. Em Pintura Habitada (1975) Helena Almeida estabelece um percurso criativo combinando fotografia e pintura. O ato performativo da artista &eacute; registado fotograficamente e posteriormente age sobre a fotografia.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os gestos capturados e impressos na fotografia, parecem antever uma sensa&ccedil;&atilde;o de descontinuidade, de ruptura ou at&eacute; mesmo o sentimento que uma poss&iacute;vel cat&aacute;strofe ocorra sobre a tela (Deleuze, 2011: 170). Este sentimento da fragilidade do que &eacute; percepcionado &eacute; express&atilde;o das descontinuidades operadas por Helena Almeida na composi&ccedil;&atilde;o da sua obra em s&eacute;rie. O refluxo e a circula&ccedil;&atilde;o s&atilde;o aspectos v&iacute;siveis na s&eacute;rie Pintura Habitada, revelando a parcialidade de cada uma das fotografias.</p>     <p>A documenta&ccedil;&atilde;o do gesto, do corpo como m&eacute;dium, isto &eacute;, da simultaneidade da artista e das suas imagens, ou melhor dizendo, da artista e do seu objecto afasta a possibilidade de Helena Almeida se colocar diante uma superf&iacute;cie onde "poderia reproduzir um objecto exterior" (Deleuze, 2011: 151). O corpo como fonte do movimento captado fotograficamente &eacute; fruto de um "trabalho preparat&oacute;rio" (Deleuze, 2011: 169). Helena Almeida faz algo acontecer e o corpo &eacute; percorrido pelo gesto captado. Onde tudo pode acontecer qualquer coisa &eacute; suspenso e marcado por uma mancha azul. E &eacute; deste modo que as imagens re&uacute;nem dois momentos. Este entrela&ccedil;amento &eacute; operado pela artista antes mesmo de come&ccedil;ar ou como escreve Deleuze: "O acto de pintar &eacute; sempre desfasado, sempre em oscila&ccedil;&atilde;o entre um antes e um depois (&ndash;) Antes de a pintura come&ccedil;ar, est&aacute; j&aacute; tudo na tela, o pr&oacute;prio pintor tamb&eacute;m (Deleuze, 2011: 168).</p>     <p>O "surgimento de um outro mundo" (Deleuze, 2011: 171), isto &eacute;, de um outro lado que est&aacute; encoberto permitem a afirma&ccedil;&atilde;o de uma exist&ecirc;ncia, da potencialidade da pintura e da supera&ccedil;&atilde;o das oposi&ccedil;&otilde;es e dos limites (interior/exterior). Helena Almeida n&atilde;o prop&otilde;e um termo interm&eacute;dio, a sua cria&ccedil;&atilde;o cont&eacute;m em simultaneo e em pot&ecirc;ncia essas dicotomias.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o. Um corpo no espa&ccedil;o e a materializa&ccedil;&atilde;o de um gesto</b></p>     <p>Helena Almeida experimenta um gesto que &eacute; tornado vis&iacute;vel n&atilde;o para que o gesto em si seja compreendido, mas para que ele d&ecirc; continuidade &agrave; experi&ecirc;ncia.</p>     <p>O discurso da artista em Pintura Habitada (1975) aborda a cria&ccedil;&atilde;o como que uma esp&eacute;cie de consci&ecirc;ncia do processo, que d&aacute; conta das articula&ccedil;&otilde;es entre as imagens oferecidas.</p>     <p>Ao longo do artigo foi proposta que toda a an&aacute;lise interpretativa &eacute; flex&iacute;vel e o observador quando "convidado" a pensar de acordo com a sua experi&ecirc;ncia e conhecimento torna poss&iacute;vel o aparimento de novas configura&ccedil;&otilde;es apare&ccedil;am.</p>     <p>Considerar a s&eacute;rie Pintura Habitada como que um encontro, isto &eacute;, como que uma partilha entre os elementos intervenientes (artista e observador) permite (re) definir as rela&ccedil;&otilde;es de autoria e de recep&ccedil;&atilde;o na s&eacute;rie da artista.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Braz, Ivo (2007). <i>Pensar a Pintura: Helena Almeida</i> (1947-1979). Lisboa: Colibri/IHA-Estudos de Arte Contempor&acirc;nea, FCSH.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1439159&pid=S1647-6158201500020001900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Almeida, Diana V (2011). "Helena em di&aacute;logo com Luiza Neto Jorge, para se escrever" in Ana Daniela Coelho e Jos&eacute; Duarte (Org.). <i>A Jangada de Ulisses: Volume dos Jovens Investigadores</i>, Lisboa: ULICES/CEAUL, 87-97.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1439161&pid=S1647-6158201500020001900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Carlos, I. & Phelan, : (Ed.) (2005) <i>Intus: Helena Almeida. </i> Lisboa: CAM &ndash; Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 7 de setembro de 2015 e aprovado a 23 de setembro de 2015.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:ppires.lara@gmail.com">ppires.lara@gmail.com</a> (Lara Vanessa Casal Pires)</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Braz]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ivo]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Pensar a Pintura: Helena Almeida (1947-1979)]]></source>
<year>2007</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Colibri/IHA-Estudos de Arte Contemporânea, FCSH]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Almeida]]></surname>
<given-names><![CDATA[Diana V]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Helena em diálogo com Luiza Neto Jorge, para se escrever]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Coelho]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ana Daniela]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Duarte]]></surname>
<given-names><![CDATA[José]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A Jangada de Ulisses: Volume dos Jovens Investigadores]]></source>
<year>2011</year>
<page-range>87-97</page-range><publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[ULICES/CEAUL]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Carlos]]></surname>
<given-names><![CDATA[I.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Phelan]]></surname>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Intus: Helena Almeida]]></source>
<year>2005</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[CAM - Fundação Calouste Gulbenkian]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
