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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O redondo, o interior e o exterior: materializações do desejo na escultura monumento 'Tocar o Sol', de Quintino Sebastião]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The round, the inside and the outside: materializations of desire in 'Touch the Sun', of Quintino Sebastião]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article looks at the documents the artist Quintino Sebastião (1940), which refers to the initial image of the public art piece "Touch the Sun", 2001. We identified, in 148 sketchbooks, some of his thought about his intentions and choices to the project. The image (Round) reveals an artist's tendency to the women body sensuality, and seems to follow the rounded shape of female breasts. The study focuses on the process of critical and inferential criticism; beyond the phenomenology of the round and the dialectics of outside and inside.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>O redondo, o interior e o exterior: materializa&ccedil;&otilde;es do desejo na escultura monumento &#39;Tocar o Sol&#39;, de Quintino Sebasti&atilde;o</b> </p>     <p><b>The round, the inside and the outside: materializations of desire in &#39;Touch the Sun&#39;, of Quintino Sebasti&atilde;o</b> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Aparecido Jos&eacute; Cirillo&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual e professor universit&aacute;rio. Membro do Conselho Editorial. Licenciado em Artes pela Universidade Federal de Uberl&acirc;ndia (UFU). Mestre em Educa&ccedil;&atilde;o pela Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo (UFES). Doutor em Comunica&ccedil;&atilde;o e Semi&oacute;tica pela Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo (UFES), Centro de Artes, Laboratorio de Extens&atilde;o e Pesquisa em Artes (LEENA). Av. Fernando Ferrari, 514 &#8211; Goiabeiras, Vit&oacute;ria &#8211; ES, 29075-910, Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Este artigo analisa os documentos do artista Quintino Sebasti&atilde;o (1940) em busca da imagem geradora da obra &quot;Tocar o Sol&quot;, de 2001. S&atilde;o 148 cadernos que permitem identificar tend&ecirc;ncias e intencionalidades do projeto po&eacute;tico da obra. A imagem geradora (o redondo) revela uma tend&ecirc;ncia deste artista, e parece decorrer das formas arredondadas de seios femininos. O estudo estrutura-se na cr&iacute;tica de processo e na cr&iacute;tica inferencial; al&eacute;m da fenomenologia do redondo e a dial&eacute;tica do exterior e do interior de Bachelard. </p>     <p><b>Palavras-chave</b>: arte p&uacute;blica; Quintino Sebasti&atilde;o; processo de cria&ccedil;&atilde;o</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>This article looks at the documents the artist Quintino Sebasti&atilde;o (1940), which refers to the initial image of the public art piece &quot;Touch the Sun&quot;, 2001. We identified, in 148 sketchbooks, some of his thought about his intentions and choices to the project. The image (Round) reveals an artist&#39;s tendency to the women body sensuality, and seems to follow the rounded shape of female breasts. The study focuses on the process of critical and inferential criticism; beyond the phenomenology of the round and the dialectics of outside and inside. </p>     <p><b>Keywords</b>: public art; Quintino Sebasti&atilde;o; creative process</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Desvelando sistemas n&atilde;o-lineares e construindo ilhas de estrutura</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando a obra se p&otilde;e aos sentidos em espa&ccedil;os p&uacute;blicos, sup&otilde;e-se que perten&ccedil;a a um conjunto de significa&ccedil;&otilde;es e tradi&ccedil;&otilde;es que a definem como arte: um sistema semi&oacute;tico mais ou menos fechado, definido leis e conven&ccedil;&otilde;es que permitem tal percep&ccedil;&atilde;o. Ou seja, estabelece-se um eixo paradigm&aacute;tico que torna poss&iacute;vel a leitura da rede de significa&ccedil;&otilde;es que &eacute; a arte p&uacute;blica em sua rela&ccedil;&atilde;o afetiva com os sujeitos que a vivenciam. Esse eixo de sentidos cria uma representa&ccedil;&atilde;o mental que se coloca no lugar do objeto que se observa, permitindo ao transeunte estabelecer um novo conjunto de significa&ccedil;&otilde;es em intera&ccedil;&atilde;o com a sua experi&ecirc;ncia vivida e o ato de observa&ccedil;&atilde;o/media&ccedil;&atilde;o com a obra. Por&eacute;m, estamos no campo da intera&ccedil;&atilde;o com o objeto. </p>     <p>Mas, a curiosidade aqui remete para o momento anterior, aquele que antecede a obra: o momento da sua feitura. Cada registro de artista, cada esbo&ccedil;o para uma obra, &eacute; apenas aquilo que foi capturado durante o ato criador, &eacute; nota&ccedil;&atilde;o, talvez &iacute;ndice de uma mudan&ccedil;a de regra durante o jogo, uma evid&ecirc;ncia da modifica&ccedil;&atilde;o, do movimento din&acirc;mico e multidirecional em busca de uma recompensa material: a obra. Pode-se dizer que &eacute; apenas a ponta do iceberg da cria&ccedil;&atilde;o. Assim, estudar o processo de cria&ccedil;&atilde;o &eacute; olhar para vest&iacute;gios desse percurso, mirar tend&ecirc;ncias e intencionalidades do projeto po&eacute;tico; &eacute; desvelar encargos e diretrizes das media&ccedil;&otilde;es entre o desejo pessoal e a concretiza&ccedil;&atilde;o da obra. </p>     <p>Este estudo sobre uma obra de Quintino Sebasti&atilde;o parte da instabilidade que parece estabelecer padr&otilde;es e fluxos; leis e movimentos em descoberta. Os estudos do processo de cria&ccedil;&atilde;o buscam se aproximar da origem da turbul&ecirc;ncia e da coer&ecirc;ncia da mente criadora, compreendendo-a como uma a&ccedil;&atilde;o n&atilde;o est&aacute;vel, ou como din&acirc;mica da n&atilde;o estabilidade. &Eacute; a busca de uma certa possibilidade no caos: ilhas de estrutura.</p>     <p>Parte-se, entretanto, da compreens&atilde;o de que nessas ilhas de estrutura (cadernos de artista) h&aacute; pensamento, uma certa ordem em constru&ccedil;&atilde;o. Mas, esta ordem &eacute; do campo das possibilidades, assim como a pr&oacute;pria obra deles decorrente. S&atilde;o, ambos, uma escolha entre outras tantas poss&iacute;veis. A obra apresentada &eacute; uma vers&atilde;o dentro de um sem-fim de probabilidades &#8211; ela &eacute; o poss&iacute;vel toler&aacute;vel, a necessidade de se ter um novo ponto de partida. Claro que, assim colocado, a an&aacute;lise desse percurso por um pesquisador do processo tamb&eacute;m &eacute; do campo das possibilidades, porque o documento de processo tem potencialidade interpretativa ilimitada. S&oacute; est&atilde;o acess&iacute;veis momentos do movimento da cria&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;veis nesses fragmentos que se cruzam e formam um &uacute;nico objeto: o processo de media&ccedil;&atilde;o em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; obra. E tudo isto, mediado pela capacidade interpretativa e da capacidade de construir documentos em meio ao caos da cria&ccedil;&atilde;o e de l&ecirc;-los e interpret&aacute;-los.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Os cadernos de Quintino Sebasti&atilde;o: ilhas de estrutura mediada</b></p>     <p>Essa situa&ccedil;&atilde;o de caos, sem ordem aparente, que se apresenta ao pesquisador nos cadernos de artista, &eacute; relativizada quando se depara com os documentos do escultor portugu&ecirc;s Quintino Sebasti&atilde;o, pois ele sistematizou digitalmente seus cadernos e anota&ccedil;&otilde;es, dando-lhes uma primeira ordena&ccedil;&atilde;o (temporal), determinando-lhes uma certa ordem nesse caos da cria&ccedil;&atilde;o. Mais uma probabilidade interpretativa. </p>     <p>Quintino Sebasti&atilde;o nasceu em Portugal, em 1940. Enquanto estudante, teve como mestre Jorge Vieira (1922-1998), fator determinante na sua forma&ccedil;&atilde;o. Participou, por convite ou sele&ccedil;&atilde;o, em cerca de setenta exposi&ccedil;&otilde;es, em Galerias de Arte, Sal&otilde;es e Bienais de Arte Moderna, tanto em Portugal quanto no estrangeiro; realizando duas Exposi&ccedil;&otilde;es individuais em Lisboa. &Eacute; autor de cen&aacute;rios para teatro; colaborou tamb&eacute;m em cenografia para televis&atilde;o e cinema. Foi Professor da Sociedade Nacional de Belas Artes &#8211; Lisboa durante 32 anos; inicialmente, no Curso de Forma&ccedil;&atilde;o Art&iacute;stica e depois, como respons&aacute;vel pelo programa do Curso de Desenho, sendo seu coordenador. Hoje dedica-se exclusivamente &agrave; sua produ&ccedil;&atilde;o como artista. Sua experi&ecirc;ncia como docente talvez o tenha auxiliado no modo de organiza&ccedil;&atilde;o e apresenta&ccedil;&atilde;o de seus Cadernos de Desenho, como ele mesmo chama seus documentos de processo.</p>     <p>Cada um dos 148 cadernos (como ele define os seus arquivos no blog) est&aacute; agrupado por d&eacute;cada. Assim, ele organiza cronologicamente suas anota&ccedil;&otilde;es, embora a numera&ccedil;&atilde;o dos cadernos n&atilde;o corresponda &agrave; ordem temporal do conte&uacute;do em alguns deles: por exemplo, o Caderno 1 &eacute; composto por desenhos de 2002, enquanto os Cadernos 3 e 4 se referem a desenhos de 1960; ou o 33, que se refere a desenho de 1978/79. Essa ordem &eacute; interna a cada caderno, n&atilde;o ao bloco de cadernos como um todo. O que parece indicar que sua digitaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi sequencial. Percebe-se, ao &quot;folhear&quot; os diversos arquivos, que eles est&atilde;o editados por um filtro pessoal que provavelmente eliminou parte de suas anota&ccedil;&otilde;es, em detrimento do que deveria e/ou poderia ser publicizado. Por&eacute;m, ainda carregam, potencialmente, o pensamento criador do escultor. No conjunto destes mais de mil documentos digitais, que perpassam toda a obra do artista, n&atilde;o encontramos arquivos espec&iacute;ficos, da obra &quot;Tocar o Sol&quot;, entretanto, &eacute; poss&iacute;vel perceber aspectos da sua imagem geradora (o redondo) e de como o artista foi se aproximando das escolhas finais (a semiesfera). &Eacute; nesta dire&ccedil;&atilde;o que ir&aacute; este texto.</p>     <p>Assim, este estudo se atem aos documentos produzidos entre as d&eacute;cadas de 1970 a 1990, nos quais a imagem do redondo surge em diversos desenhos e projetos. Suas reflex&otilde;es visuais ser&atilde;o decisivas para as escolhas que o artista far&aacute; na defini&ccedil;&atilde;o do projeto da obra &quot;Tocar o Sol&quot;. Parte-se de alguns pontos: (a) a percep&ccedil;&atilde;o da sensualidade do redondo, para em seguida, (b) discutir-se os conceitos de presen&ccedil;a e aus&ecirc;ncia e de espa&ccedil;o interior e exterior para chegar aos elementos conceituais geradores da obra em estudo (c).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Tocar o Sol : uma escultura monumento</b></p>     <p> &quot;Tocar o Sol&quot; est&aacute; localizada na Costa da Caparica, Portugal; foi inaugurada em 2001, sendo financiada pela Administra&ccedil;&atilde;o do Conselho de Almada, quando da comemora&ccedil;&atilde;o de 25 anos de Poder Local. Na ocasi&atilde;o, a C&acirc;mara Municipal aprovou 11 obras de arte p&uacute;blica para cada uma das 11 freguesias do Conselho. No caso da Costa da Caparica, o artista escolhido foi Quintino Sebasti&atilde;o. </p>     <p>A obra &eacute; composta por duas semiesferas de superf&iacute;cie regular e lisa que tem no interior, em alto e baixo relevo, a figura da palma de uma m&atilde;o (<a href="#f1">Figura 1</a>). Realizada em bronze, ela apresenta dois tratamentos distintos: o bronze bruto e o polido (de tom amarelado) que representa, segundo o artista, o sol da Costa da Caparica. A m&atilde;o, parece remeter &agrave; for&ccedil;a do trabalho e ao tocar o sol. Mas, tamb&eacute;m parece evocar um conceito gerador na obra: a dualidade da presen&ccedil;a e da aus&ecirc;ncia, do dentro e do fora &#8211; oposi&ccedil;&otilde;es sem&acirc;nticas complementares relevantes.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a07f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>2.1 A imagem geradora: expressividade da redondez</b> </p>     <p>A an&aacute;lise pr&eacute;via dos documentos permitiu a verifica&ccedil;&atilde;o de que h&aacute; a recorr&ecirc;ncia da presen&ccedil;a do redondo desde seus esbo&ccedil;os mais antigos, no final da d&eacute;cada de 1960. Por&eacute;m, esse parece ser o redondo do ge&ocirc;metra: o perfeito redondo da superf&iacute;cie, oco no seu interior. Vazio de continuidades e de possibilidades. Os desenhos do artista, naquele momento, pareciam apontar para uma intencionalidade formal que se p&otilde;e na superf&iacute;cie do objeto, na sua apar&ecirc;ncia externa, mas que em sua complexidade dentro-fora. </p>     <p>Mas, h&aacute; ind&iacute;cios de que a inquietude da cria&ccedil;&atilde;o lhe bateu. Parece que ouviu as musas bachelardianas a sussurrarem-lhe: &quot;O mundo &eacute; redondo em torno do ser redondo&quot; (Bachelard, 2015:354). Ai, possivelmente, se revelaram as artimanhas da mente em seu processo de cria&ccedil;&atilde;o, que, provocada, se lan&ccedil;ou em uma ansiosa busca por dissecar a forma da esfera. Em seus cadernos, nos anos seguintes, ele desvela e experimenta possibilidades, alguns aspectos que o afastam da frieza geom&eacute;trica de suas formas iniciais, passando pela sensualidade e suavidade do corpo feminino para, enfim, alcan&ccedil;ar a expressividade da redondeza plena, evidente na obra em estudo. </p>     <p>A primeira refer&ecirc;ncia ao corpo feminino &eacute; ainda no Caderno 4, da d&eacute;cada de 1960, por&eacute;m essa forma &eacute; tomada de contornos de forte influ&ecirc;ncia da escultura de Marino Marini (1901-1980) ou de Bruno Giorgi (1905-1993) &#8211; revela-se que havia uma forte tend&ecirc;ncia moderna de sua representa&ccedil;&atilde;o da figura que se estendeu at&eacute; os &uacute;ltimos anos de 1970. Mas, exatamente em 1979 (Caderno 32), as formas arredondadas aparecem de forma mais explicita, embora ainda dissociadas do feminino. O redondo desta &eacute;poca &eacute; ainda quase o geom&eacute;trico, diferente dos da d&eacute;cada seguinte, quando a presen&ccedil;a feminina se fortalece e o redondo ganha aspectos de sensualidade, de &quot;redondez&quot;. O corpo se associa ao redondo. Os estudos de 1980 pareciam afastar Quintino da geometriza&ccedil;&atilde;o anterior do corpo; o redondo aparece, forte; ganha a vol&uacute;pia da redondez humana.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao observar esses desenhos, n&atilde;o se pode deixar de lembrar da redondeza bachelardiana do ser que &quot;se tornar&aacute; para n&oacute;s um instrumento que nos permita reconhecer a primitividade de algumas imagens do ser&quot; (Bachelard, 2008:350). Essa primitividade plena pode &quot;afirmar nosso ser intimamente, pelo interior. Porque vivido a partir do interior, sem exterioridade, o ser n&atilde;o poderia deixar de ser redondo&quot; (Bachelard, 2008:350). Quintino parece &#8211; consciente ou n&atilde;o desse ato &#8211; tomar esse conceito para si. Come&ccedil;a a desvelar o feminino pelo que o difere: sua redondez das ancas, da barriga, dos seios. E &eacute; nos seios que sua aten&ccedil;&atilde;o se redobrar&aacute;. </p>     <p>A perfei&ccedil;&atilde;o geom&eacute;trica da esfera, n&atilde;o mais a cartesiana dos estudos inicias, pois a esfericidade dos seios &eacute; plena. Seu interior nutre a vida. Nutre a forma. O desejo parece ai repousar no calor primitivo da plenitude po&eacute;tica. Um guia que conduzir&aacute; centenas de desenhos do artista. Instaura-se, no inicio dos anos de 1980, esse fasc&iacute;nio pela redondez plena &#8211; tomada a partir dos seios, buscada em outras partes do corpo, mas sempre retomada deles: os seios, qual seres orgulhosamente arredondados.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2.2 Os seios como imagem geradora: uma fenomenologia da redondez plena</b></p>     <p>Aqui, exatamente, parece se revelar uma tend&ecirc;ncia expressiva no projeto po&eacute;tico do artista para o redondo fenomenol&oacute;gico; e fica not&oacute;rio que n&atilde;o o faz de modo aleat&oacute;rio. &Eacute; crescente seu interesse pela &quot;redondez plena&quot; do corpo feminino. Qual Cam&otilde;es, Quintino se deixa ser encantado pelas T&aacute;gides emergidas do Tejo, seduzem-no como aos poetas. Nos estudos que se seguem, entre 1980 e 1990, os seios tomam o artista. Tomado pelo encantamento de Musas, ele parece ir ao encontro da plenitude da esfera. Disseca. Rompe-lhes as entranhas. As coloca desnudas. E seu interior pleno lhe &eacute; ofertado. Os desenhos de Quintino, ao longo daqueles anos, investigam &agrave; fundo essa forma (<a href="#f2">Figura 2</a>); desvendam universos internos desse espa&ccedil;o de perfeita redondeza.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a07f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Parece que o tema o moveu, em particular por uma aparente paix&atilde;o pela perfei&ccedil;&atilde;o desta forma que alimenta-lhe o corpo e a alma. &Agrave; medida que avan&ccedil;am para os anos de 1990, seus cadernos revelam que ele ir&aacute; experimentar efeitos da germina&ccedil;&atilde;o, de nascimento a partir desse redondo (<a href="#f3">Figura 3</a>). O brotamento emana do interior. Macula e rompe o exterior.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a07f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>2.3 Presen&ccedil;as da aus&ecirc;ncia: dial&eacute;tica do interior e do exterior</b></p>     <p>Nos documentos de Quintino, de 1988 a 1996, pode-se perceber que a superf&iacute;cie limitante da forma circular, do redondo geom&eacute;trico, ou mesmo a volumetria dos seios, n&atilde;o mais parecem atender seus desejos de cria&ccedil;&atilde;o. Pelo brotamento, ele avan&ccedil;a na imensid&atilde;o &iacute;ntima da forma. Desvenda sua carne, suas entranhas, se coloca nos dois lugares, no dentro e no fora, simultaneamente (<a href="#f4">Figura 4</a> e <a href="#f5">Figura 5</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a07f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a07f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>E s&atilde;o nessas novas formas que a imagem geradora de &quot;Tocar o Sol&quot; parece surgir. A semiesfera das sementes partidas que brotam como vida. Que tocam o inating&iacute;vel. Que podem tocar o sol, ou que, pelo menos, v&atilde;o em sua dire&ccedil;&atilde;o. Retomando Bachelard, pode-se pensar que nasce a premissa conceitual que gera o projeto po&eacute;tico dessa obra, cuja dualidade entende que &quot;o no exterior e o no interior s&atilde;o ambos <i>&iacute;ntimos;</i> est&atilde;o sempre prontos a inverter-se, a trocar suas hostilidades&quot; (Bachelard, 2015: 339). O artista vai em dire&ccedil;&atilde;o a este pensamento nas suas experimenta&ccedil;&otilde;es formais. Uma cartografia para esta ambiguidade espacial que o seduz e o conduz a um voltar-se a si mesmo. Uma geografia &iacute;ntima da imensid&atilde;o e da duplicidade de espa&ccedil;os que parecem conduzir o artista a uma rela&ccedil;&atilde;o eid&eacute;tica com a natureza. </p>     <p>Assim, o fim dos anos de 1990 encontra um artista que fez compreender que o feminino inserido na natureza &eacute; germinal. Frutificado em seu interior. Fez avan&ccedil;ar-se pelo exterior. A fecundidade natural, a germina&ccedil;&atilde;o que origina vidas e seus frutos foram evocados. E a dupla natureza das sementes parece ter sido explorada. </p>     <p>Desses desenhos, certamente, se originou a imagem geradora e as experimenta&ccedil;&otilde;es eid&eacute;tica e conceitual (Grando, 2009) que foram fundamentais para a defini&ccedil;&atilde;o de &quot;Tocar o Sol&quot;. O fruto que contem a semente da vida. Contem presen&ccedil;a e aus&ecirc;ncia como forma. Positivo e negativo. Baixo e alto-relevo. Presen&ccedil;a e aus&ecirc;ncia po&eacute;ticas. Seu vazio repleto dessa aus&ecirc;ncia. E presen&ccedil;a que deixou sua aus&ecirc;ncia na mem&oacute;ria da mat&eacute;ria. Constitui-se ai a po&eacute;tica de um devaneio gerador. A imensid&atilde;o &iacute;ntima que extrapola sua interioridade. Que toca o inating&iacute;vel. Que se refugia na intimidade do seu exterior. Diria, o poeta, que seu &quot;esp&iacute;rito perdeu sua p&aacute;tria geom&eacute;trica e a alma flutua&quot; (Bachelard, 2015: 339). Talvez em dire&ccedil;&atilde;o ao sol.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Considerando-se que &uacute;nica presen&ccedil;a direta ao processo de cria&ccedil;&atilde;o de &quot;Tocar o Sol&quot; &eacute; um pequeno dossi&ecirc; que se encontra nos arquivos do artista &#8211; contendo algumas observa&ccedil;&otilde;es (entre elas uma maquete, <a href="#f6">Figura 6</a>) e fotos da sua inaugura&ccedil;&atilde;o &#8211; pode-se concluir que esta aproxima&ccedil;&atilde;o foi poss&iacute;vel pelas marcas deixadas pelo projeto po&eacute;tico de Quintino ao longo de sua produ&ccedil;&atilde;o. Foi poss&iacute;vel por aproxima&ccedil;&atilde;o das escolhas que podem ter levado a ela. N&atilde;o se partiu da obra e seu processo, mas do processo do artista.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a07f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Em &quot;Tocar o Sol&quot;, a redondez plena do exterior agrega a continuidade admir&aacute;vel de seu interior que se expandiu. Um poema visual, cujo processo n&atilde;o surge nos documentos materiais ou de esbo&ccedil;os constitutivos, mas sim nas perturba&ccedil;&otilde;es e inquietudes que levaram o artista &agrave; obra &#8211; desde seu encargo (realizar a obra a pedido do conselho de Almada), passando pelas diretrizes de suas convic&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas de esquerda, de seu papel social como sujeito pol&iacute;tico e artista, passando pelas necessidades da mat&eacute;ria e da forma, das expectativas do Conselho de Almada, para enfim celebrar a vida da obra. Quintino parece ter buscado em si e em suas mem&oacute;rias e desejos a puls&atilde;o para a obra.</p>     <p>Assim, este artigo conclui-se corroborando com o pensamento de Salles (2003) e Grando (2009) de que &eacute; preciso entender que uma obra se d&aacute; em um cont&iacute;nuo dentro do projeto po&eacute;tico do artista. V&ecirc;-se que, buscando entender seus percursos, &eacute; poss&iacute;vel se aproximar de alguns aspectos processuais do conjunto de obras, ou de uma em espec&iacute;fico. &Eacute; preciso entender o que o percurso &eacute; documento de processo. &Eacute; preciso Tocar o Sol, falar do inating&iacute;vel. Falar sobre a mem&oacute;ria que escapa-se do comum.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Agradecimentos</b></p>     <p>Autor em est&aacute;gio p&oacute;s-doutoral desenvolvido com recursos da CAPES/ MEC e da FAPES, cuja finalidade &eacute; o levantamento e a an&aacute;lise de obras no litoral centro-sul de Portugal.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bachelard, G. (2015) <i>A Po&eacute;tica do Espa&ccedil;o</i>. Trad. Ant&ocirc;nio C. Leal e L&iacute;dia V. S. Leal. S/l: S/ed. Dispon&iacute;vel em <a href="https://bibliotecadafilo.wordpress.com/2013/11/13/bachelard-g-varios-titulos/" target="_blank">https://bibliotecadafilo.wordpress.com/2013/11/13/bachelard-g-varios-titulos/</a>. Acesso em 23/12/2015&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440074&pid=S1647-6158201600020000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Grando, &Acirc;ngela; Cirillo, J. (2009) <i>Arqueologias da Cria&ccedil;&atilde;o</i>. Belo Horizonte: C/ Arte. ISBN 8576540851&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440075&pid=S1647-6158201600020000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Salles, Cec&iacute;lia (2003) <i>Gesto Inacabado</i>. S&atilde;o Paulo: AnnaBlume. ISBN: 857419042X&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440076&pid=S1647-6158201600020000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 30 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:josecirillo@hotmail.com">josecirillo@hotmail.com</a> (Aparecido Jos&eacute; Cirillo)</p>     ]]></body>
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