<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1647-6158</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista :Estúdio]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Estúdio]]></abbrev-journal-title>
<issn>1647-6158</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1647-61582016000200009</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA['Tudo está relacionado'de André Penteado, ou o momento em que Angela Davis habitou uma sala comercial na avenida Sumaré]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA['Everything is related' by André Penteado, or the moment when Angela Davis occupied a commercial area on Avenida Sumaré]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Moraes]]></surname>
<given-names><![CDATA[Fernanda Grigolin]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade Estadual de Campinas Instituto de Artes ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[São Paulo ]]></addr-line>
<country>Brasil</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<volume>7</volume>
<numero>14</numero>
<fpage>73</fpage>
<lpage>80</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582016000200009&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582016000200009&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582016000200009&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[O presente artigo conta um trajeto no interior da mostra Tudo está relacionado, do artista brasileiro André Penteado. Montada em um andar de um edifício comercial em uma importante avenida da cidade, a exposição pode ser lida como um atlas que une três séculos de imagens da família de Penteado conjuntamente com seus projetos artísticos. Livros de artista convivem com arquivo familiar e fotos avulsas, bem como negativos preto e branco, fotografados por uma tia, chamada Gilda, quando morou nos Estados Unidos nos anos 1970, e entre essas imagens uma fotografia de Angela Davis, filósofa e ativista do movimento Pantera Negra.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper tells the trajectory of the exhibition "Everything is related", by Brazilian artist André Penteado. Assembled on a floor of a commercial building on an important avenue of the city, the show can be understood as an atlas that unifies three centuries of images of Penteado's family put together with his artistic projects. Artist books are together with the family archive. There are also separate photographs, besides black and white, 35mm negatives shot by Gilda, an aunt when she lived in the United States in the 1970's; among these photos, one of Angela Davis, philosopher and activist of the Black Panther's Movement.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[arte contemporânea]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[memória]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[fotografia]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[contemporary art]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[memory]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[photography]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>&#39;Tudo est&aacute; relacionado&#39;de Andr&eacute; Penteado, ou o momento em que Angela Davis habitou uma sala comercial na avenida Sumar&eacute;</b></p>     <p><b>&#39;Everything is related&#39; by Andr&eacute; Penteado, or the moment when Angela Davis occupied a commercial area on Avenida Sumar&eacute;</b> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Fernanda Grigolin Moraes&#42;</b> </p>     <p>&#42;Brasil, artista visual. Bacharel em Comunica&ccedil;&atilde;o Social (Universidade Metodista de S&atilde;o Paulo, UMESP). Mestre em Artes Visuais Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes. R. Elis Regina, 50, Cidade Universit&aacute;ria Zeferino Vaz, Campinas, CEP 13083-854, S&atilde;o Paulo, Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>O presente artigo conta um trajeto no interior da mostra Tudo est&aacute; relacionado, do artista brasileiro Andr&eacute; Penteado. Montada em um andar de um edif&iacute;cio comercial em uma importante avenida da cidade, a exposi&ccedil;&atilde;o pode ser lida como um atlas que une tr&ecirc;s s&eacute;culos de imagens da fam&iacute;lia de Penteado conjuntamente com seus projetos art&iacute;sticos. Livros de artista convivem com arquivo familiar e fotos avulsas, bem como negativos preto e branco, fotografados por uma tia, chamada Gilda, quando morou nos Estados Unidos nos anos 1970, e entre essas imagens uma fotografia de Angela Davis, fil&oacute;sofa e ativista do movimento Pantera Negra.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> arte contempor&acirc;nea, mem&oacute;ria, fotografia. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>This paper tells the trajectory of the exhibition &quot;Everything is related&quot;, by Brazilian artist Andr&eacute; Penteado. Assembled on a floor of a commercial building on an important avenue of the city, the show can be understood as an atlas that unifies three centuries of images of Penteado&#39;s family put together with his artistic projects. Artist books are together with the family archive. There are also separate photographs, besides black and white, 35mm negatives shot by Gilda, an aunt when she lived in the United States in the 1970&#39;s; among these photos, one of Angela Davis, philosopher and activist of the Black Panther&#39;s Movement. </p>     <p><b>Keywords:</b> contemporary art, memory, photography</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Entro na exposi&ccedil;&atilde;o <i>Tudo est&aacute; relacionado</i>. Andr&eacute; Penteado me recepciona, ele recebe todos os visitantes. J&aacute; no hall de entrada quatro v&iacute;deos s&atilde;o projetados ao mesmo tempo em <i>loop</i>. Aparecem combinados filmes 16 mm feitos pelo av&ocirc; de Penteado nos anos 40; super 8 dos anos 70 da sua tia Gilda; trechos do filme <i>A Moreninha</i>, estrelado por sua tia Tony, e pequenos v&iacute;deos digitais de autoria do artista. No corredor que d&aacute; acesso &agrave;s salas, imagens fotogr&aacute;ficas postas na parede; depois trafego pelas divis&oacute;rias de vidro, que d&atilde;o passagem &agrave;s demais salas. Uma das salas cont&eacute;m amplia&ccedil;&otilde;es divididas por paletas de cor, por exemplo. Em outras veem-se amplia&ccedil;&otilde;es e contatos de v&aacute;rias &eacute;pocas da fam&iacute;lia de Penteado, convivendo com mesas sobre as quais h&aacute; livros de artista, fotografias dos prim&oacute;rdios fotogr&aacute;ficos, &aacute;lbuns de fam&iacute;lia e negativos preto e branco, 35 mm, fotografados por uma tia fot&oacute;grafa, chamada Gilda, do tempo em que morou nos Estados Unidos nos anos 1970. E na sala 3, numera&ccedil;&atilde;o dada pelo fot&oacute;grafo, &eacute; a em que fico mais tempo: ela tem duas divis&oacute;rias de vidro, uma frontal e outra lateral. Logo na entrada pode-se ver o verso das imagens postas (<a href="#f1">Figura 1</a>). Olho para a parede oposta &agrave; divis&oacute;ria, e entre os versos das fotografias vejo a imagem de Rebecca, uma jovem que participou de um projeto de Andr&eacute; sobre fam&iacute;lias de suicidas. (O projeto teve in&iacute;cio depois de uma trag&eacute;dia pessoal: o pai de Andr&eacute; se matou. O primeiro livro de Penteado, publicado em 2014, foi sobre o tema: <i>Suic&iacute;dio de meu pai</i>.) A imagem me chama a aten&ccedil;&atilde;o e me aproximo. Aquele olhar me intriga. Depois, ao entrar na sala, do lado esquerdo de Rebecca encontro Angela Davis e, &agrave; esquerda de Davis, a tia de Andr&eacute;, Gilda, a autora da imagem de Davis.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a09f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A exposi&ccedil;&atilde;o pode ser lida como um atlas que une tr&ecirc;s s&eacute;culos de imagens. Volto para Davis v&aacute;rias vezes; outras mulheres negras est&atilde;o retratadas naquela sala, mas &eacute; Davis que me desperta a aten&ccedil;&atilde;o: ela &eacute; ativista e est&aacute; em um momento simb&oacute;lico e bom para pensar. </p>     <p>A imagem de Angela Davis est&aacute; na quina (<a href="#f2">Figura 2</a>). Ela est&aacute; em um momento combativo no meio da multid&atilde;o, seguramente a falar de direitos civis. A imagem &eacute; o trecho da l&acirc;mina do atlas em que eu paro. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a09f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Eu me afasto da sala, tento retomar as demais salas da exposi&ccedil;&atilde;o. Mas &eacute; a imagem de Davis que segue comigo ao longo do trajeto. Talvez seja o grande labirinto das quest&otilde;es raciais unidas &agrave;s quest&otilde;es das mulheres, que ainda n&atilde;o resolvemos e segue entre as l&acirc;minas do atlas. O atlas, para Didi-Huberman, &eacute; como uma mina. Ele &eacute; uma forma visual de conhecimento, uma maneira s&aacute;bia de ver: &quot;Contra toda a pureza est&eacute;tica, introduz o m&uacute;ltiplo, o diverso, todo o hibridismo da montagem&quot; (Didi-Huberman, 2010: 15). </p>     <p> O lugar de Davis na montagem do artista &eacute; momento gatilho para mim. &Eacute; a partir dela que fa&ccedil;o a leitura do atlas (da exposi&ccedil;&atilde;o). A partir da imagem de Davis, eu realizo o percurso na exposi&ccedil;&atilde;o; por&eacute;m, antes de falar de Davis, contarei um pouco de <i>Tudo est&aacute; relacionado</i>. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>1. Um pouco sobre a exposi&ccedil;&atilde;o</b></p>     <p>Andr&eacute; Penteado &eacute; um artista brasileiro de fam&iacute;lia quatrocentona, termo que usamos para aqueles que est&atilde;o no Brasil desde os tempos coloniais. Pessoas que ocuparam no passado, e muitos ainda ocupam, um espa&ccedil;o de privil&eacute;gio social e cultural em nossa sociedade. </p>     <p>Ao ser questionado por mim quanto aos motivos pelos quais realizou o projeto, Penteado me contou que <i>Tudo est&aacute; relacionado</i> surgiu de uma vontade de ver o que j&aacute; estava presente desde o come&ccedil;o no seu trabalho e como isso se relacionava com as imagens de sua fam&iacute;lia. A ancestralidade &eacute; o que move <i>Tudo est&aacute; relacionado</i>, e seguramente por isso os objetivos da exposi&ccedil;&atilde;o, para o autor, foram integrar e relacionar quatro arquivos distintos, um herdado pela fam&iacute;lia e tr&ecirc;s gerados por ele (<a href="#f3">Figura 3</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a09f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O lugar da exposi&ccedil;&atilde;o foi essencial para Penteado, um andar comercial &#8211; uma antiga oficina de telefones celulares &#8211;, localizado no bairro de Perdizes em S&atilde;o Paulo. </p>     <blockquote><i>Ap&oacute;s meses olhando todos os arquivos e fazendo a pr&eacute;-sele&ccedil;&atilde;o das fotografias, conclu&iacute; que este trabalho deveria ser mais do que um estudo sobre mem&oacute;ria e afetos familiares. Ele deveria, tamb&eacute;m, enfatizar quest&otilde;es relacionadas &agrave; pr&oacute;pria natureza da imagem fotogr&aacute;fica.</i> &#91; &#8230; &#93; <i>a oficina ajudaria a complexificar o seu entendimento. Esta decis&atilde;o trouxe para a superf&iacute;cie do projeto a quest&atilde;o do arquivo, de onde e como s&atilde;o guardadas as mem&oacute;rias &#8211; qualquer mem&oacute;ria, n&atilde;o somente as familiares &#8211; e a rela&ccedil;&atilde;o da imagem fotogr&aacute;fica com elas</i> (Penteado, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal, 2015). </blockquote>     <p>A oficina, com suas paredes brancas e divis&oacute;rias de vidro, permitiu que mais de uma sala fosse vista de cada vez e tamb&eacute;m que se tivesse acesso ao verso de algumas fotografias. Estas sobreposi&ccedil;&otilde;es de imagens, al&eacute;m de enriquecerem a exposi&ccedil;&atilde;o, criam as camadas e camadas de ancestralidade entregues nas imagens. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. O atlas</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como reler o que produzimos e o que herdamos? Como prever o porvir, a &uacute;ltima imagem a se realizar? Essas perguntas s&atilde;o essenciais ao projeto de Andr&eacute; Penteado e elas fazem parte da sua busca por compreender as conex&otilde;es entre as milhares de fotografias da exposi&ccedil;&atilde;o. </p>     <p><i>Tudo est&aacute; relacionado</i> &eacute; o atlas da ancestralidade de Penteado, por&eacute;m n&atilde;o segue nenhuma l&oacute;gica cronol&oacute;gica, &eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o completamente anacr&ocirc;nica. O processo de ocupa&ccedil;&atilde;o das paredes, segundo o autor, foi tamb&eacute;m intuitivo. Ele afirma que fez um mapeamento, entretanto o destino final &eacute; o desconhecido. </p>     <p>Todavia, o encontro com o desconhecido &eacute; o encontro com a diversidade. A compara&ccedil;&atilde;o com o Atlas (Mnemosyne) de Aby Warburg &eacute; fecunda para se pensar, j&aacute; que a forma de montagem realizada por Warburg &eacute; muito usual entre artistas contempor&acirc;neos. De acordo Cristina Tart&aacute;s Ruiz e Rafael Guridi Gardia (2013), cada uma das fotografias do Atlas de Aby Warburg constitu&iacute;a uma l&acirc;mina do atlas. O processo permite o reposicionamento de imagens ou a introdu&ccedil;&atilde;o parcial de novos elementos, para estabelecer novas rela&ccedil;&otilde;es, um processo aberto e infinito (Ruiz & Garcia, 2013: 4). </p>     <p>Parto da ideia de que, por ser aberto o processo, a leitura por meio da imagem de Angela Davis se mostra essencial, j&aacute; que &eacute; o atlas uma m&aacute;quina de ativa&ccedil;&atilde;o de ideias e rela&ccedil;&otilde;es (Ruiz & Garcia, 2013). &Eacute; no atlas que a ancestralidade do autor (Andr&eacute; Penteado) se encontra com um fato hist&oacute;rico e importante: a luta pelos direitos civis. O fato &eacute; incorporado no ativismo de Angela Davis, uma das mulheres mais importantes dos anos 1970.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. O trajeto, o encontro com Angela Davis, a imagem gatilho</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>They gave you sunshine</i>     <br><i>They gave you sea</i>     <br><i>They gave you everything but</i>     ]]></body>
<body><![CDATA[<br><i>the jailhouse key. </i>     <br><i>They gave you coffee</i>     <br><i>They gave you tea</i>     <br><i>They gave you everything</i>     <br><i>but equality</i></p>     <p>&quot;Angela&quot;, Yoko Ono e John Lennon</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A imagem de Angela Davis est&aacute; na quina de uma parede da sala 3, a sala de paredes e vidros expostos. Ela est&aacute; num com&iacute;cio, seguramente s&atilde;o os duros anos 1970. Atr&aacute;s dela as iniciais da Cia trazem tr&ecirc;s palavras chaves: conspira&ccedil;&atilde;o, imperialismo e agress&atilde;o (<a href="#f4">Figura 4</a>). Naquela &eacute;poca, Angela Davis era a mulher mais perseguida do pa&iacute;s do capital, os Estados Unidos da Am&eacute;rica. Fil&oacute;sofa e escritora, Davis era temida pelo fato de ser negra, ativista e comunista. Logo depois, foi presa. E l&aacute; o mundo clamou por sua liberdade. A ela, eles deram tudo menos a igualdade. Assim diz trecho da m&uacute;sica de Yoko Ono e John Lennon. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v7n14/7n14a09f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Hoje Angela Davis segue viva, com 71 anos, seus escritos feministas s&atilde;o lidos por milhares de mulheres negras, na maioria jovens de todas as Am&eacute;ricas e da &Aacute;frica. Entre as socializadas como brancas, como eu, pouco lemos o que Davis escreveu (cf. Davis, 1981). Ainda seguimos a crer que a luta pelos direitos das mulheres teve in&iacute;cio com as sufragistas. Ledo engano. </p>     <p>Mulheres negras sempre trabalharam. O trabalho prec&aacute;rio segue com elas at&eacute; os dias de hoje. Seguramente, falar de liberdade e direitos das mulheres &#8211; e, por consequ&ecirc;ncia, feminismo &#8211; s&oacute; &eacute; potente quando agregado &agrave;s quest&otilde;es raciais e de classe social. </p>     <p>Busco nos escritos de Davis o que ela diz sobre os afrodescendentes daquele pa&iacute;s: </p>     <blockquote><i>Atrav&eacute;s do for&ccedil;ado sistema de arrendamento, o povo negro foi obrigado a realizar os mesmos pap&eacute;is executados por eles pr&oacute;prios na escravatura. Homens e mulheres foram detidos ou presos, ao menor pretexto, a fim de serem alugados pelas autoridades como trabalhadores condenados. Enquanto os donos de escravos reconheceram os limites da crueldade com a qual eles exploravam a sua &quot;valiosa&quot; propriedade humana, essas cautelas n&atilde;o eram necess&aacute;rias para os plantadores do p&oacute;s-guerra que alugavam os negros condenados por relativamente pequenos prazos</i> (Davis, 2013: 68). </blockquote>     <p>Ao lado de Davis, tanto esquerdo quanto direto, duas mulheres brancas. &Agrave; esquerda, Gilda, numa foto arrancada de um &aacute;lbum de fam&iacute;lia onde est&aacute; escrito &quot;Berkeley 1975&quot;. Seguramente, anos depois de ter se encontrado com Angela no com&iacute;cio, Gilda se casou e teve um filho. &Agrave; direita, Rebecca, antes mencionada. Certamente, as duas mulheres &#8211; Gilda e Rebecca &#8211; j&aacute; deviam ter encontrado mulheres negras trabalhando em situa&ccedil;&otilde;es de trabalho dom&eacute;stico. A voz de Angela Davis volta a falar: </p>     <blockquote><i>Se as mulheres brancas aceitavam o trabalho dom&eacute;stico, apenas se n&atilde;o encontrassem nada melhor, as mulheres negras estavam aprisionadas nessa ocupa&ccedil;&atilde;o at&eacute; ao advento da Segunda Guerra Mundial</i> (Davis, 2013: 71). </blockquote>     <p>A desigualdade entre mulheres &eacute; latente at&eacute; hoje. Na pr&oacute;pria exposi&ccedil;&atilde;o de Andr&eacute; Penteado h&aacute; uma imagem de uma mulher negra prestando servi&ccedil;os dom&eacute;sticos com um pano branco na m&atilde;o, por exemplo. At&eacute; hoje mulheres negras seguem a receber sal&aacute;rios inferiores &agrave;s mulheres brancas. Os anos 1970 foram importantes para a luta racial e feminista tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Na Am&eacute;rica Latina, as mulheres de esquerda pegavam em armas. As feministas negras s&atilde;o categ&oacute;ricas ao falar de feminismo:</p>     <blockquote><i>As mulheres brancas que dominam o discurso feminista &#8211; as quais, na maior parte, fazem e formulam a teoria feminista &#8211; t&ecirc;m pouca ou nenhuma compreens&atilde;o da supremacia branca como estrat&eacute;gia, do impacto psicol&oacute;gico da classe, de sua condi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dentro de um Estado racista, sexista e capitalista</i> (Hooks, 2015: 196). </blockquote>     <p>As quest&otilde;es raciais s&atilde;o aprofundadas e tornam-se complexas quando unidas &agrave;s de g&ecirc;nero e classe social, pontua Bell Hooks, outra te&oacute;rica feminista afro-americana. Volto &agrave; Davis, que fala das mesmas quest&otilde;es, e, por meio de Davis e Hooks, reencontro Sueli Carneiro, uma das mais importantes pensadoras brasileiras: </p>     <blockquote><i>Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a prote&ccedil;&atilde;o paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? N&oacute;s, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majorit&aacute;rio, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como fr&aacute;geis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante s&eacute;culos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas... Mulheres que n&atilde;o entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar!</i> (Carneiro, 2003: 1). </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A voz da brasileira se soma a todas as outras e tamb&eacute;m &agrave;s imagens que comp&otilde;em o projeto de Penteado. &quot;As imagens s&atilde;o atos, mem&oacute;rias, questionamentos (...) vis&otilde;es e prefigura&ccedil;&otilde;es&quot; (Samain, 2011: 40). </p>     <p>Depois do encontro de tantas vozes falantes em um &uacute;nico trecho da l&acirc;mina do atlas, volto ao projeto de Andr&eacute; Penteado como um todo, volto &agrave;s suas perguntas primordiais e me indago: Como reconstruir o porvir ou mesmo falar das imagens que herdamos, incluindo o questionamento de nossos lugares de privil&eacute;gios como mulheres e homens brancos? </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Carneiro, Sueli (2003) &quot;Enegrecer o feminismo: a situa&ccedil;&atilde;o da mulher negra na Am&eacute;rica Latina a partir de uma perspectiva de g&ecirc;nero.&quot; In ASHOKA, Empreendedores Sociais e TAKANO Cidadania (org). <i>Racismos Contempor&acirc;neos.</i> Rio de Janeiro: Takano &#91;Consult. 2015-11-22&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.unifem.org.br/sites/700/710/00000690.pdf" target="_blank">http://www.unifem.org.br/sites/700/710/00000690.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440252&pid=S1647-6158201600020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Davis, Angela (1981). <i>Mulher, ra&ccedil;a e classe</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o Livre. Plataforma Gueto_2013.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440253&pid=S1647-6158201600020000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Didi-Huberman, Georges (2010). <i>Atlas. &iquest;C&oacute;mo llevar el mundo a cuestas?</i> Museo Nacional Centro de Arte Reina Sof&iacute;a, Madrid. 26 noviembre 2010 &#8211; 28 marzo 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440255&pid=S1647-6158201600020000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Hooks, Bell (2015, jan.-abr.). &quot;Mulheres negras: moldando a teoria feminista.&quot; <i>Revista Brasileira de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica</i>, Bras&iacute;lia, n. 16: 193-210. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/0103-335220151608.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440257&pid=S1647-6158201600020000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Ruiz, Cristina Tart&aacute;s & Garcia, Rafael Guridi (2013). &quot;Cartograf&iacute;as de la Memoria. Aby Warburg y el Atlas Mnemosyne.&quot;: <i>Revista de Expresi&oacute;n Gr&aacute;fica Arquitect&oacute;nica</i>, n. 21: 226-35. &#91;Consult. 2015-11-22&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="http://dialnet.unirioja.es/ejemplar/335370" target="_blank">http://dialnet.unirioja.es/ejemplar/335370</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440259&pid=S1647-6158201600020000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Russo, Felipe (2015 nov.). <i>Tudo est&aacute; relacionado</i>, Andr&eacute; Penteado e o outro. <i>Jornal de Borda</i> 02.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440260&pid=S1647-6158201600020000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Samain, Etienne (2011 jul.). &quot;As &#39;Mnemosyne(s)&#39; de Aby Warburg: Entre antropologia, imagens e arte.&quot; <i>Revista Poiesis</i>, Niter&oacute;i, n. 17: 29-51. &#91;Consult. 2015-11-19&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.poiesis.uff.br/" target="_blank">http://www.poiesis.uff.br/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1440262&pid=S1647-6158201600020000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 26 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:fernanda.grigolin@gmail.com">fernanda.grigolin@gmail.com</a> (Fernanda Grigolin)</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Carneiro]]></surname>
<given-names><![CDATA[Sueli]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero]]></article-title>
<collab>ASHOKA^dEmpreendedores Sociais</collab>
<collab>TAKANO^dCidadania</collab>
<source><![CDATA[Racismos Contemporâneos]]></source>
<year>2003</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Takano]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Davis]]></surname>
<given-names><![CDATA[Angela]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Mulher, raça e classe]]></source>
<year>1981</year>
<publisher-name><![CDATA[Plataforma Gueto_2013]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Didi-Huberman]]></surname>
<given-names><![CDATA[Georges]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Atlas: ¿Cómo llevar el mundo a cuestas?]]></source>
<year>2010</year>
<publisher-loc><![CDATA[Madrid ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Hooks]]></surname>
<given-names><![CDATA[Bell]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Mulheres negras: moldando a teoria feminista]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Brasileira de Ciência Política]]></source>
<year>2015</year>
<month>, </month>
<day>ja</day>
<numero>16</numero>
<issue>16</issue>
<page-range>193-210</page-range><publisher-loc><![CDATA[Brasília ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ruiz]]></surname>
<given-names><![CDATA[Cristina Tartás]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Garcia]]></surname>
<given-names><![CDATA[Rafael Guridi]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="es"><![CDATA[Cartografías de la Memoria: Aby Warburg y el Atlas Mnemosyne]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista de Expresión Gráfica Arquitectónica]]></source>
<year>2013</year>
<numero>21</numero>
<issue>21</issue>
<page-range>226-35</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Russo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Felipe]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="es"><![CDATA[Tudo está relacionado: André Penteado e o outro]]></article-title>
<source><![CDATA[Jornal de Borda]]></source>
<year>2015</year>
<month> n</month>
<day>ov</day>
<numero>02</numero>
<issue>02</issue>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Samain]]></surname>
<given-names><![CDATA[Etienne]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As 'Mnemosyne(s)' de Aby Warburg: Entre antropologia, imagens e arte]]></article-title>
<source><![CDATA[Revista Poiesis]]></source>
<year>2011</year>
<month> j</month>
<day>ul</day>
<numero>17</numero>
<issue>17</issue>
<page-range>29-51</page-range><publisher-loc><![CDATA[Niterói ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
