<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1647-6158</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista :Estúdio]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Estúdio]]></abbrev-journal-title>
<issn>1647-6158</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1647-61582016000300008</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O social media como veículo da obra de arte total de Ana Pérez-Quiroga]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Social Media as the Vehicle of Ana Pérez-Quiroga's Total Art]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Aristimuño]]></surname>
<given-names><![CDATA[Felipe]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Faculdade de Belas-Artes ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
<country>Portugal</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2016</year>
</pub-date>
<volume>7</volume>
<numero>15</numero>
<fpage>65</fpage>
<lpage>72</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582016000300008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582016000300008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582016000300008&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Pensaremos neste artigo acerca da obra "Self-portrait of a female artist as part of society", da artista portuguesa Ana Pérez-Quiroga. Esta obra, que podemos definir como social media art, vem sendo construída ao longo dos últimos 4 anos no aplicativo Instagram e conta com mais de 16.000 imagens publicadas até o momento. Analisaremos o trabalho a partir do conceito de "arte total", ou Gesammtkunstwerk, adotado pela artista para determinar a sua busca poética intermediática, com a hipótese de que a arte pode se tornar total ao encontrar-se com a vida num conjunto de eventos sequenciais mediados por objetos e imagens do quotidiano. Faremos, ainda, uma breve relação com a obra "home", também de Ana Pérez-Quiroga, no sentido de perceber como o social media pode servir de veículo para uma "arte total" contemporânea em ambas as propostas da artista.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this article we discuss the work "Self-portrait of a female artist as part of society", by the Portuguese artist Ana Pérez-Quiroga. This work, which can be defined as social media art, has been built over the last 4 years using the Instagram app, and has over 16,000 images published so far. We analyze this artwork based on the concept of "total art", or Gesammtkunstwerk, adopted by the artist to determine her intermedia poetic search, with the assumption that art can become "total" when connecting to real life in a set of sequential events mediated by everyday objects and images. We will also briefly relate this artwork with the project "Home", also by Ana Pérez-Quiroga, to find out how social media can serve as a vehicle for a contemporary "total art" in both projects.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[social media art]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[obra de arte total]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[arte intermédia]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[social media art]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[total work of art]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[intermedia art]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>O social media como ve&iacute;culo da obra de arte total de Ana P&eacute;rez-Quiroga</b></p>     <p><b>Social Media as the Vehicle of Ana P&eacute;rez-Quiroga&#39;s Total Art</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Felipe Aristimu&ntilde;o&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual, curador e professor. Bacharel em Fotografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Artes (IA-UFRGS); licenciado em Artes Visuais pelo IA-UFRGS; Mestre em Ensino de Artes Visuais pela Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes (FBAUL).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes. Largo da Academia Nacional de Belas Artes, 1249-058, Lisboa, Portugal.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b> </p>     <p>Pensaremos neste artigo acerca da obra &quot;Self-portrait of a female artist as part of society&quot;, da artista portuguesa Ana P&eacute;rez-Quiroga. Esta obra, que podemos definir como social media art, vem sendo constru&iacute;da ao longo dos &uacute;ltimos 4 anos no aplicativo Instagram e conta com mais de 16.000 imagens publicadas at&eacute; o momento. Analisaremos o trabalho a partir do conceito de &quot;arte total&quot;, ou Gesammtkunstwerk, adotado pela artista para determinar a sua busca po&eacute;tica intermedi&aacute;tica, com a hip&oacute;tese de que a arte pode se tornar total ao encontrar-se com a vida num conjunto de eventos sequenciais mediados por objetos e imagens do quotidiano. Faremos, ainda, uma breve rela&ccedil;&atilde;o com a obra &quot;home&quot;, tamb&eacute;m de Ana P&eacute;rez-Quiroga, no sentido de perceber como o social media pode servir de ve&iacute;culo para uma &quot;arte total&quot; contempor&acirc;nea em ambas as propostas da artista.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> social media art, obra de arte total, arte interm&eacute;dia. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b> </p>     <p>In this article we discuss the work &quot;Self-portrait of a female artist as part of society&quot;, by the Portuguese artist Ana P&eacute;rez-Quiroga. This work, which can be defined as social media art, has been built over the last 4 years using the Instagram app, and has over 16,000 images published so far. We analyze this artwork based on the concept of &quot;total art&quot;, or Gesammtkunstwerk, adopted by the artist to determine her intermedia poetic search, with the assumption that art can become &quot;total&quot; when connecting to real life in a set of sequential events mediated by everyday objects and images. We will also briefly relate this artwork with the project &quot;Home&quot;, also by Ana P&eacute;rez-Quiroga, to find out how social media can serve as a vehicle for a contemporary &quot;total art&quot; in both projects.</p>     <p><b>Keywords</b>: social media art, total work of art, intermedia art. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Refletiremos acerca da obra &quot;<i>Self-portrait of a female artist as part of society</i>&quot; (<a href="#f1">Figura 1</a>), da artista portuguesa Ana P&eacute;rez-Quiroga. Esta obra, que podemos definir como <i>social media art</i>, vem sendo constru&iacute;da ao longo dos &uacute;ltimos 4 anos no aplicativo <i>Instagram</i> e conta com mais de 16.000 imagens publicadas at&eacute; o momento.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a08f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A vida, conforme nos diz Ana P&eacute;rez-Quiroga (2015), pode ser observada a partir de &quot;um conjunto de eventos sequenciais mediados por objetos do quotidiano&quot;. O aplicativo <i>Instagram</i>, espa&ccedil;o / dispositivo de cria&ccedil;&atilde;o e socializa&ccedil;&atilde;o medi&aacute;tica, mapeia esse quotidiano, registando e organizando os objetos que rodeiam a artista numa narrativa visual e sequencial (temporal). Para al&eacute;m da temporalidade e da materialidade dos objetos e imagens, o choque entre o &iacute;ntimo e o exposto, o p&uacute;blico e o privado, representa outra dimens&atilde;o do autorretrato, principalmente pelo alcance transversal que os <i>social media</i> podem ter. Todos esses elementos fazem parte da estrat&eacute;gia da artista para unir a arte com a vida, ideia chave do conceito de &quot;arte total&quot; (Wagner 1849-1993).</p>     <p>Analisaremos o trabalho, portanto, a partir do conceito de &quot;arte total&quot;, ou Gesammtkunstwerk, adotado pela artista para determinar a sua busca po&eacute;tica intermedi&aacute;tica. Pensaremos acerca do conceito de <i>social media art</i> e faremos, ainda, uma breve rela&ccedil;&atilde;o com a obra &quot;Home&quot;, tamb&eacute;m de Ana P&eacute;rez-Quiroga, no sentido de perceber como o <i>social media</i> pode servir de ve&iacute;culo para uma &quot;arte total&quot; contempor&acirc;nea em ambas as propostas da artista.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Autorretrato em <i>social media.</i> O quotidiano e a narrativa transversal como estrat&eacute;gias da arte total</b></p>     <p>A no&ccedil;&atilde;o de &quot;arte total&quot; (ou <i>Gesammtkunstwerk)</i> teve sua origem no pensamento rom&acirc;ntico alem&atilde;o do s&eacute;culo XIX, desenvolvido principalmente por Richard Wagner em seus ensaios &quot;Art and revolution&quot; e &quot;The Art-work of the future&quot; (1849-1993: 69-214). Conforme Matthew Smith, a <i>Gesamtkunstwerk</i> surgiu com uma inextric&aacute;vel liga&ccedil;&atilde;o com o desenvolvimento de novas tecnologias (mecaniza&ccedil;&atilde;o) e o crescente dom&iacute;nio dos <i>mass media</i> em meados do s&eacute;culo XIX (Smith, 2007). O autor nos diz que o conceito de arte total foi retomado e atualizado constantemente ao longo s&eacute;culo XX e XXI, passando pelo Bauhaus, o cinema americano, a Disneyl&acirc;ndia, o surrealismo e a <i>transmedia storytelling</i> contempor&acirc;nea. Na ideia original de Wagner, o povo representa a for&ccedil;a condicionante de uma obra de Arte (Wagner, 1994: 78). Neste sentido, percebemos que a <i>Gesammtkunstwerk</i> n&atilde;o busca apenas uma uni&atilde;o ou intera&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dia art&iacute;sticos, mas uma express&atilde;o de um ideal social: uma unidade do corpo social na arte ou, como interpreta Ana P&eacute;rez-Quiroga, a rela&ccedil;&atilde;o entre &quot;arte e vida&quot;.</p>     <p>Essa busca da rela&ccedil;&atilde;o entre &quot;arte e vida&quot; revela-se no car&aacute;ter narrativo que a obra <i>Self-portrait of a female artist as part of society</i> adquire no suporte dos <i>social media</i>. As imagens publicadas diariamente constroem uma linha do tempo, da mais antiga &agrave; mais recente, descrevendo as rela&ccedil;&otilde;es sociais de Ana P&eacute;rez-Quiroga a partir de imagens da sua vida pessoal privada (<a href="#f2">Figura 2</a>), bem como por representa&ccedil;&otilde;es da artista enquanto figura p&uacute;blica (<a href="#f3">Figura 3</a>). Desta forma, surgem narrativas visuais interativas que permitem a participa&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico, seja por meio de intera&ccedil;&otilde;es textuais na plataforma do Instagram, ou pela participa&ccedil;&atilde;o direta enquanto personagem nas imagens do autorretrato.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a08f2.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a08f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&Eacute; justamente a capacidade de transversalidade dos <i>social media</i> que inspira Ana P&eacute;rez-Quiroga. Para a artista, no <i>social media</i> &eacute; poss&iacute;vel atingir todo o tipo de pessoas, construindo um p&uacute;blico muito mais heterog&eacute;neo e participativo do que em uma exposi&ccedil;&atilde;o tradicional. Ela explora, assim, rela&ccedil;&otilde;es com o p&uacute;blico e com outras obras suas (<a href="#f4">Figura 4</a>), buscando quebrar o papel do expectador contemplativo, desafiando simultaneamente os conceitos de arte &quot;maior&quot; e arte &quot;menor&quot;. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a08f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>H&aacute;, conforme percebemos, afinidades entre a transversalidade descrita por Quiroga e o conceito de <i>transmedia storytelling</i> (Jenkins, 2003; Giovagnoli, 2011). Max Giovagnoli define as &quot;narrativas transmedi&aacute;ticas&quot; da seguinte maneira:</p>     <blockquote><i>Contar hist&oacute;rias simultaneamente em m&uacute;ltiplos m&eacute;dia &eacute; como criar uma nova geografia da est&oacute;ria, e isso requer que o autor e o p&uacute;blico encontrem espa&ccedil;os novos e interativos para compartilhar conte&uacute;dos</i> (...). <i>Mas o mais importante: tudo deve come&ccedil;ar com uma est&oacute;ria.</i> (Giovagnoli, 2011) (tradu&ccedil;&atilde;o nossa). </blockquote>     <p>O <i>transmedia storytelling</i> &eacute; um conceito aplicado diretamente &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o massiva, ou &agrave; industria do entretenimento comercial (Giovagnoli, 2011:3). Seus objetivos aproximam-se dos ideais da &quot;arte total&quot;, envolvendo diversos m&eacute;dia e, principalmente, o p&uacute;blico na cria&ccedil;&atilde;o de objetos culturais. Suas finalidades, entretanto, afastam-se dos ideais anticomerciais do romantismo (Wilson, 2007:24-6), isso porque visam o lucro de grandes produtoras de conte&uacute;do. Percebemos que Ana P&eacute;rez-Quiroga questiona, justamente, esse car&aacute;ter comercial das narrativas transmedi&aacute;ticas ao colocar em venda todas as imagens que comp&otilde;em seu autorretrato, bem como quase todos os objetos de sua casa (projeto <i>Home</i>, <a href="#f5">Figura 5</a>). Ao entrar na &quot;loja virtual&quot; do projeto <i>Home</i>, o espectador/usu&aacute;rio pode se perguntar: &quot;quem pagaria 62 Euros por uma batedeira usada?&quot;. E logo, &quot;o que h&aacute; de especial nessa batedeira, ent&atilde;o?&quot; Ana P&eacute;rez Quiroga prop&otilde;e, portanto, uma instabilidade (uma chamada de aten&ccedil;&atilde;o) na percep&ccedil;&atilde;o quotidiana.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a08f5.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>2. <i>Social media art.</i> O consumo de objetos que nos define</b></p>     <p>Percebemos que os espa&ccedil;os sociais medi&aacute;ticos s&atilde;o, com ou sem a presen&ccedil;a de anunciantes, muito mais solid&aacute;rios do que econ&ocirc;micos, uma vez que &eacute; f&aacute;cil observar, por meio de viv&ecirc;ncias em Rede, que grande parte dos conte&uacute;dos que se tornam virais em <i>social media</i> n&atilde;o possuem motiva&ccedil;&atilde;o (ou patroc&iacute;nio) comercial. Ana P&eacute;rez-Quiroga explora e desafia a diversidade dos <i>social media,</i> buscando definir sua arte e o consumo online n&atilde;o pela natureza dos objetos e imagens, mas pelo car&aacute;ter cr&iacute;tico e relacional que esses objetos e imagens podem ter com o p&uacute;blico, propondo um novo olhar sobre o banal.</p>     <p>Ben Davis (2010) caracteriza a <i>social media art</i> como um campo de cria&ccedil;&atilde;o flutuante entre os m&eacute;dia sociais e n&atilde;o sociais, entre a <i>new media art,</i> como o <i>videogame</i>, e a arte realmente colaborativa online. Para o autor, uma obra de arte em <i>social media</i> pode conservar as caracter&iacute;sticas de cria&ccedil;&atilde;o colaborada e compartilhamento das redes sociais online n&atilde;o-art&iacute;sticas, caracter&iacute;sticas essas que podem figurar em maior ou menor grau em diversas obras de <i>social media artists</i> analisadas em seu ensaio. Aqui, arriscamos definir a <i>social media art</i> a partir de uma reflex&atilde;o acerca da comunica&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica de Andr&eacute; Lemos (2015:40), onde o autor observa que existem diferentes usos das redes sociais, dentro e fora das l&oacute;gicas do programa. Para Lemos, a tecnologia n&atilde;o pode ser pensada como uma subst&acirc;ncia com ess&ecirc;ncia em si, mas como campo associado a uma complexidade de fatores sociais, que se transforma consoante &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es coletivas e individuais. A cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica em <i>social media</i> pode surgir, ent&atilde;o, das rela&ccedil;&otilde;es e apropria&ccedil;&otilde;es simb&oacute;licas que o artista e seu p&uacute;blico criam ao redor do dispositivo social-medi&aacute;tico, independentemente da natureza desse dispositivo.</p>     <p>Entendemos, ent&atilde;o, que a possibilidade de a&ccedil;&otilde;es diversas e n&atilde;o programadas em <i>social media</i> viabiliza a cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica nesse dom&iacute;nio. Em seu autorretrato, Ana P&eacute;rez-Quiroga apropria-se do dispositivo Instagram para manifestar-se artisticamente, construindo uma narrativa de si pr&oacute;pria para conectar-se de forma transversal com seu p&uacute;blico, que participa da obra em diversos n&iacute;veis, seja na constru&ccedil;&atilde;o ou no seu consumo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Mapeando e revelando o quotidiano. Uma breve rela&ccedil;&atilde;o com o projeto <i>Home</i></b></p>     <p>Ana P&eacute;rez-Quiroga pretende, seja com seu autorretrato em <i>social media art</i> ou no projeto <i>Home</i>, revelar narrativas produzidas pela justaposi&ccedil;&atilde;o de objetos e imagens do quotidiano. Para trazer &agrave; tona essas narrativas, a artista n&atilde;o pretende recortar os objetos de seus espa&ccedil;os utilit&aacute;rios, transportando-os para a galeria de arte como prop&ocirc;s Marcel Duchamp em seu <i>readymade</i>. Ela lan&ccedil;a m&atilde;o de diversos media (instala&ccedil;&atilde;o, website, social media) para que paremos, observemos e vivenciemos os objetos e as imagens em seus habitats, uma vez que o sentido se constr&oacute;i na sequencialidade e no relacionamento entre as imagens, os objetos e seu consumo.</p>     <p>No projeto <i>Home</i> h&aacute; duas dimens&otilde;es complementares: a casa da artista, uma instala&ccedil;&atilde;o que pode ser explorada pelo p&uacute;blico presencialmente, e o website do projeto, que se assemelha a uma loja online (figuras 5), com um cat&aacute;logo de todos os objetos presentes na instala&ccedil;&atilde;o (a maioria possui pre&ccedil;o para venda). Para poder comprar objetos, entretanto, o interessado dever&aacute; ter passado ao menos duas noites na casa da artista, tendo vivenciado a rela&ccedil;&atilde;o do objeto a ser comprado com o restante da instala&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Na obra <i>Self-portrait of a female artist as part of society</i>, como vimos anteriormente, a narrativa &eacute; constru&iacute;da por uma linha do tempo com imagens do quotidiano da artista. A identidade de Ana P&eacute;rez-Quiroga &eacute; representada pelo conjunto de imagens publicadas diariamente no Instagram e pela intera&ccedil;&atilde;o que essas geram com o p&uacute;blico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Percebemos, em ambas as obras, a necessidade da artista em construir um brevi&aacute;rio que d&ecirc; sentido ao conjunto de objetos e imagens que a rodeiam, qui&ccedil;&aacute; para preserv&aacute;-los enquanto documentos/vest&iacute;gios da sua identidade. Caso ela n&atilde;o fa&ccedil;a esse invent&aacute;rio, h&aacute; a possibilidade de que esses objetos e imagens banais desapare&ccedil;am, como acontece com quase todos os objetos do quotidiano (descart&aacute;veis). Para Nestor Garcia Canclini, a arte contempor&acirc;nea trabalha com a imin&ecirc;ncia, com o que est&aacute; por acontecer. O patrim&ocirc;nio, por sua vez, representa aquilo que est&aacute; em perigo de se deteriorar ou de desaparecer. A pr&aacute;tica art&iacute;stica n&atilde;o inaugura o sentido, mas o reinventa a partir de um patrim&ocirc;nio, do que j&aacute; est&aacute; feito, dito e organizado (Canclini, 2009:129). Ao construir seus brevi&aacute;rios do quotidiano, a artista lan&ccedil;a propostas de interpreta&ccedil;&atilde;o, cr&iacute;tica e, conforme percebemos, de preserva&ccedil;&atilde;o das suas narrativas. Conservar o objeto isoladamente n&atilde;o faz sentido. O que a artista prop&otilde;e &eacute; preservar as rela&ccedil;&otilde;es entre objetos e a vida.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>A partir da obra <i>Self-portrait of a female artist as part of society,</i> um <i>social media art</i> constru&iacute;do por Ana P&eacute;rez-Quiroga no aplicativo Instagram, pensamos neste artigo acerca do conceito de &quot;arte total&quot;, adotado pela artista para descrever sua busca po&eacute;tica de unir arte e vida. Para melhor compreendermos os conceitos adotados pela artista, fizemos uma breve pesquisa bibliogr&aacute;fica, buscando definir arte total, <i>social media art</i> e <i>transmedia storytelling</i>.</p>     <p>Tendo em vista que o foco deste artigo foi a obra de Ana P&eacute;rez-Quiroga, lan&ccedil;amos apenas em linhas gerais a defini&ccedil;&atilde;o de <i>social media art</i>. Para um maior aprofundamento no tema, propomos a leitura do artigo &quot;<i>Social Media Art in the expanded Field</i>&quot;, de Ben Davis (2010), onde o autor analisa diversas obras e artistas de <i>social media</i> nos Estados Unidos, lan&ccedil;ando linhas para a reflex&atilde;o e defini&ccedil;&atilde;o deste tipo de arte.</p>     <p>Ao perceber que uma dimens&atilde;o importante da obra de Quiroga envolve a descri&ccedil;&atilde;o da sua identidade pela justaposi&ccedil;&atilde;o de imagens do quotidiano, fizemos, tamb&eacute;m, uma breve rela&ccedil;&atilde;o do trabalho da artista com o conceito de <i>transmedia storytelling</i>. Observamos, principalmente no projeto <i>Home</i>, a utiliza&ccedil;&atilde;o de diferentes meios (instala&ccedil;&atilde;o, website e <i>social media</i>) para construir uma narrativa: a vida da artista.</p>     <p>A partir das reflex&otilde;es acerca dos conceitos e dos modos criativos de Ana P&eacute;rez-Quiroga, conclu&iacute;mos que o <i>social media</i> serviu aos objetivos de integra&ccedil;&atilde;o &quot;arte e vida&quot; proposta pela artista, possibilitando que seu p&uacute;blico vivencie sua produ&ccedil;&atilde;o no quotidiano, propiciando, simultaneamente, um espa&ccedil;o de cria&ccedil;&atilde;o, cr&iacute;tica e preserva&ccedil;&atilde;o das narrativas constru&iacute;das.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b> </p>     <!-- ref --><p>Davis, Ben (2010) &quot;Social Media Art in the Expanded Field. Squaring the circle of &#39;art and social media&#39;.&quot; <i>Artnet</i>, 14 August 2010. &#91;Consult. 2015-12-12&#93; Dispon&iacute;vel em <a href="http://www.artnet.com/magazineus/authors/davis.asp" target="_blank">http://www.artnet.com/magazineus/authors/davis.asp</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1448360&pid=S1647-6158201600030000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Garc&iacute;a Canclini, N&eacute;stor (2009-2012). <i>A Sociedade sem relato: antropologia e est&eacute;tica da imin&ecirc;ncia</i>. Trad, Maria Paula Gurgel Ribeiro. S&atilde;o Paulo: EdiUSP. ISBN: 978-85-314-1369-8&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1448361&pid=S1647-6158201600030000800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Giovagnoli, Max (2011) <i>Transmedia Storytelling. Imagery, Shapes and Techniques</i>. &#91;Consult. 2015-12-12&#93; Dispon&iacute;vel em <a href="http://beta.upc.edu.pe/matematica/portafolios/nmynt/book-by-max-giovagnoli-transmedia-storytelling-imagery-shapes-and-techniques.pdf" target="_blank">http://beta.upc.edu.pe/matematica/portafolios/nmynt/book-by-max-giovagnoli-transmedia-storytelling-imagery-shapes-and-techniques.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1448362&pid=S1647-6158201600030000800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Jenkins, Henry (2003) <i>Transmedia Storytelling. Moving Characters from Books to Films to Video Games Can Make Them Stronger and More Compelling, 15 January 2003</i>. &#91;Consult. 2015-12-12&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.technologyreview.com/news/401760/transmedia-storytelling/" target="_blank">http://www.technologyreview.com/news/401760/transmedia-storytelling/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1448363&pid=S1647-6158201600030000800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>P&eacute;rez-Quiroga, Ana (2015). <i>Home: brevi&aacute;rio do Quotidiano #8 : os regimes acumulativos dos objetos e as suas determinantes</i>. &#91;Consult. 2015-12-12&#93; Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.anaperezquirogahome.com/" target="_blank">http://www.anaperezquirogahome.com/</a> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1448364&pid=S1647-6158201600030000800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Smith, Matthew Wilson (2007) <i>The Total Work of Art: From Bayreuth to Cyberspace</i>. New York: Taylor & Francis. ISBN: 0203963164&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1448365&pid=S1647-6158201600030000800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Wagner, Richard (1993) <i>The Art-Work of the Future, and other works</i>: <i>trans. and ed. W. Ashton Ellis</i> &#91;orig. 1849&#93;.London: Lincoln. ISBN: 0-8032-9752-1&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1448366&pid=S1647-6158201600030000800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 30 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:felipegibraltar@gmail.com">felipegibraltar@gmail.com</a> (Felipe Aristimu&ntilde;o)</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Davis]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ben]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Social Media Art in the Expanded Field: Squaring the circle of 'art and social media']]></article-title>
<source><![CDATA[Artnet]]></source>
<year>2010</year>
<month>14</month>
<day> A</day>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[García Canclini]]></surname>
<given-names><![CDATA[Néstor]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A Sociedade sem relato: antropologia e estética da iminência]]></source>
<year>2009</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[EdiUSP]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Giovagnoli]]></surname>
<given-names><![CDATA[Max]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Transmedia Storytelling: Imagery, Shapes and Techniques]]></source>
<year>2011</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Jenkins]]></surname>
<given-names><![CDATA[Henry]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Transmedia Storytelling: Moving Characters from Books to Films to Video Games Can Make Them Stronger and More Compelling, 15 January 2003]]></source>
<year>2003</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pérez-Quiroga]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ana]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Home: breviário do Quotidiano #8 : os regimes acumulativos dos objetos e as suas determinantes]]></source>
<year>2015</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Smith]]></surname>
<given-names><![CDATA[Matthew Wilson]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Total Work of Art: From Bayreuth to Cyberspace]]></source>
<year>2007</year>
<publisher-loc><![CDATA[New York ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Taylor & Francis]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Wagner]]></surname>
<given-names><![CDATA[Richard]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[The Art-Work of the Future, and other works: trans. and ed. W. Ashton Ellis]]></source>
<year>1993</year>
<publisher-loc><![CDATA[London ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Lincoln]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
