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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA["A compass in the pocket" presents two exhibitions and a painting in three scenes or acts. Hugo Barata, artist and curator, takes the viewer into a pictorial dimension which, steeped in the cinematographic universe, explores different notions of space and time without ever deviating from the surface of things (skin).]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Um Compasso no Bolso</b></p>     <p><b>A compass in the pocket</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Ana Rito&#42;</b></p>     <p>&#42;Portugal, artista visual, curadora, investigadora e docente. Estudante de doutoramento. Licenciatura em Pintura, Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes (FBAUL); Mestrado em Pintura, FBAUL.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa; Faculdade de Belas-Artes; Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o e Estudo em Belas Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas Artes, 1249-058 Lisboa, Portugal.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b> </p>     <p>&quot;Um compasso no bolso&quot; apresenta duas exposi&ccedil;&otilde;es e uma pintura em tr&ecirc;s cenas ou atos. Hugo Barata, artista e curador, transporta o espectador para uma dimens&atilde;o pict&oacute;rica que, mergulhada no universo cinematogr&aacute;fico, explora diferentes no&ccedil;&otilde;es de espa&ccedil;o e tempo sem nunca se desviar da superf&iacute;cie das coisas (pele).</p>     <p><b>Palavras chave:</b> pintura, acontecimento, materialidade, superf&iacute;cie, (in)vis&iacute;vel</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b> </p>     <p>&quot;A compass in the pocket&quot; presents two exhibitions and a painting in three scenes or acts. Hugo Barata, artist and curator, takes the viewer into a pictorial dimension which, steeped in the cinematographic universe, explores different notions of space and time without ever deviating from the surface of things (skin).</p>     <p><b>Keywords</b>: painting, happening, materiality, surface, (in)visible</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>UM COMPASSO NO BOLSO &eacute; uma opera&ccedil;&atilde;o investigativa cuja estrutura adopta um certo l&eacute;xico cinematogr&aacute;fico, ao mesmo tempo que museogr&aacute;fico e que se traduz num conjunto de tr&ecirc;s cenas: <i>situ</i>-a&ccedil;&otilde;es, com personagens reais e fict&iacute;cias, vis&iacute;veis e invis&iacute;veis, habitantes de zonas tensionais comuns: o(s) espa&ccedil;o(s) do espectador e as suas materialidades.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Cena 1. Noite sem nome (<i>couple</i>)</b></p>     <p>Pequenos monumentos que atestam o in&iacute;cio da possibilidade apresenta a sua estrat&eacute;gia investigativa: situar a pr&aacute;tica art&iacute;stica e curatorial entre no&ccedil;&otilde;es diversas de palco e de ecr&atilde; no reposicionamento dos seus mediadores &#8211; privilegiando (elasticizando e definindo) uma &quot;zona de contacto&quot; que se efectiva quer no espa&ccedil;o expositivo quer, mais concretamente, na experi&ecirc;ncia da instala&ccedil;&atilde;o/ambiente que posta em cena o corpo de um espectador movente e activo na condu&ccedil;&atilde;o do seu pr&oacute;prio processo perceptivo. </p>     <p>A pr&oacute;pria Sala do Veado (Museu Nacional de Hist&oacute;ria Natural e da Ci&ecirc;ncia) permite expandir o processo de metamorfose, na produ&ccedil;&atilde;o de uma nova forma de descontinuidade narrativa que convoca o espa&ccedil;o f&iacute;sico: a arquitectura torna-se elemento estruturante do projecto, pondo em rela&ccedil;&atilde;o uma diversidade de componentes audio-visuais &#8211; imagens em movimento, sonoras ou mudas (sequ&ecirc;ncias e <i>loops</i>) e imagens fixas. &Eacute; constru&iacute;do um mundo guiado segundo um princ&iacute;pio de repeti&ccedil;&atilde;o-varia&ccedil;&atilde;o que afecta a linguagem, os corpos e os lugares, na reuni&atilde;o essencial de v&aacute;rias express&otilde;es e no confronto de universos de mat&eacute;rias a partir dos quais estabelece esta proposta, criando formas a partir de formas j&aacute; existentes, corpos a partir de corpos, espa&ccedil;os a partir de espa&ccedil;os. As imagens, os sons, os movimentos ou as palavras s&atilde;o reinventadas, re-mediadas desde o seu interior, mais especificamente nos seus &quot;intervalos&quot; &#8211; de um conceito para outro, de uma disciplina para outra &#8211; criando constela&ccedil;&otilde;es em tr&acirc;nsito constante, onde a contamina&ccedil;&atilde;o de elementos resulta numa narrativa fragmentada (e consequentemente incompleta). <i>Paisagem Demorada</i> (Hugo Barata, 2015). Demorada porque expandida. Demorada porque fragmentada, porque dispersa, porque espa&ccedil;ada. O artista acentua a horizontalidade da narrativa com o travelling a que obriga o espectador, quebrando-a na figura de um plinto que exibe um livro de colec&ccedil;&atilde;o (da sua colec&ccedil;&atilde;o particular), da d&eacute;cada de 1950, no seio do qual se encontram cinco fotografias de arquivo intervencionadas e colocadas cirurgicamente com o aux&iacute;lio de pequenos peda&ccedil;os de gesso (<a href="#f1">Figura 1</a>, <a href="#f2">Figura 2</a>). Estas fotografias resultam de um trabalho minucioso de recolha e arquivo de imagens onde o mar surge como uma esp&eacute;cie de personagem, humorado, animado. O livro, referente a reprodu&ccedil;&otilde;es de pinturas e esculturas cl&aacute;ssicas, re&uacute;ne um conjunto de gravuras do qual Hugo Barata ter&aacute; elegido duas: uma mulher e um homem que decide afastar do &acirc;mago da instala&ccedil;&atilde;o para os colocar na entrada da Sala do Veado, como observadores, como interlocutores de toda a trama. Ao homem sobrep&otilde;e o mar, submerge-o nas &aacute;guas negras. &Agrave; mulher deixa s&oacute;, como pilar de todas as imagens. </p>     <blockquote>     <br><i>There exist what we call images of things, </i>     <br><i>Which as it were peeled off from the surfaces</i>     <br><i>Of objects, fly this way and that through the air &#8230; </i>     <br><i>I say therefore that likenesses or thin shapes</i>     ]]></body>
<body><![CDATA[<br><i>Are sent out from the surfaces of things</i>     <br><i>Which we must call as it were their films or bark.</i>     <p> &#8211; Titus Lucretius Carus, <i>De Rerum Natura,</i> Livro IV</p></blockquote>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a18f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a18f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A materialidade de uma imagem, e a imin&ecirc;ncia do toque, manifesta-se na superf&iacute;cie tensional do mundo e das coisas, transportando-nos, de quando em vez, para locais inacess&iacute;veis, implaus&iacute;veis e imensur&aacute;veis. </p>     <p>Para Lucr&eacute;cio a imagem &eacute; uma coisa flutuante, em tr&acirc;nsito, que deixa rastro, abre fendas e ostenta cicatrizes, como uma pele, como uma pel&iacute;cula. A &quot;inelut&aacute;vel modalidade do vis&iacute;vel&quot; (<i>ineluctable modality of the visible</i>) sugerida por Joyce em Ulisses, aponta a invas&atilde;o, o &quot;encavalgamento&quot; entre o olhado/tocado e o que olha/toca como se a tactilidade fosse prometida, de uma certa forma, &agrave; visibilidade. Cada trabalho &eacute; uma pesquisa e acarreta consigo outras possibilidades de investiga&ccedil;&atilde;o, logo &eacute; precisamente no interst&iacute;cio das coisas que o pensamento flui e que outras imagens s&atilde;o chamadas. O molde de gesso ao fundo indicia a natureza transitiva de <i>Pequenos Monumentos</i>. </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Cena 2. The Blind Man (<i>cabinet</i>)</b></p>     <p>Se, segundo Carlos Vidal (2011) (j&aacute; o dissera sobre Caravaggio, o mesmo que, segundo certas narrativas, andaria traria sempre <i>um compasso no bolso</i>) a pintura pode ser um acontecimento, um corpo-superf&iacute;cie, uma sequ&ecirc;ncia, Hugo Barata convoca tamb&eacute;m o pict&oacute;rico, na composi&ccedil;&atilde;o que parece desconstruir a cada novo elemento. Falamos de corpo. Falamos de filme. Falamos de pele. Falamos essencialmente de pintura. </p>     <p>Aquela que acontece, aquela que se esconde, que n&atilde;o se deixa ver no seu todo (porque algo &quot;em falta&quot; n&atilde;o &eacute; representado, porque n&atilde;o devolve o olhar, porque ignora ou afasta o espectador &#8211; sendo temperamental portanto), aquela, que por essa raz&atilde;o, cria zonas tensionais e convoca o vazio. O desvelamento do corpo-superf&iacute;cie (tela, arm&aacute;rio, parede, papel, tecido, etc.) acontece nos contornos que a luz desenha, os mesmos contornos que definem a zona de n&eacute;voa (incerta), n&atilde;o pertencendo a nenhum outro lugar que n&atilde;o o da indetermina&ccedil;&atilde;o. Porque estes contornos n&atilde;o s&atilde;o fixos, actuando como espectros ou apari&ccedil;&otilde;es, d&atilde;o forma ao corpo para logo de seguida o mergulhar de imediato nas profundidades do negro. Do(a) cinza. Veja-se a pintura <i>The Reference (another small fire) Cabinet version</i> (reminisc&ecirc;ncia do projecto <i>Pequenos Monumentos</i> que atestam o in&iacute;cio da possibilidade, Sala do Veado &#8211; MNHNC). O que acontece quando observamos uma pintura que nos conduz a uma fotografia, ou o que aparenta ser uma fotografia? E se essa fotografia, agora pintura, estiver a meio de um processo de destrui&ccedil;&atilde;o, de desaparecimento? Que tudo se apague, dizemos. Para que possamos ver, esperamos. Para que possamos tocar, tentamos. Ora, a base do toque &eacute; precisamente tentar chegar a uma coisa, a um lugar ou a uma pessoa (incluindo n&oacute;s mesmos), implicando tamb&eacute;m esta o seu inverso: isto &eacute;, ser tocado de volta. </p>     <p>Para al&eacute;m do mais, devemos considerar que, como fun&ccedil;&atilde;o receptiva da pele (e falamos de pintura, de filme, repito), o toque n&atilde;o &eacute; apenas uma prerrogativa da m&atilde;o. &Eacute; tamb&eacute;m uma fun&ccedil;&atilde;o que cobre a totalidade do corpo, incluindo o pr&oacute;prio olho e os p&eacute;s, estabelecendo assim o nosso contacto com o plano horizontal. </p>     <p>Esta esp&eacute;cie de investimento afectivo projecta a imagem e o &quot;eu&quot; transformado na superf&iacute;cie; o corpo n&atilde;o &eacute; ausente de forma alguma. Em vez disso, o corpo encontra-se sempre exterior &agrave; sua forma vis&iacute;vel. Neste sentido, a pele do espectador estende-se para al&eacute;m do seu pr&oacute;prio corpo; tenta alcan&ccedil;ar a pintura, o filme no mesmo sentido que a pintura, o filme tenta atingi-lo a ele &#8211; o corpo. &Agrave; medida que a imagem &eacute; traduzida em resposta f&iacute;sica, o corpo e a imagem n&atilde;o mais funcionam como unidades distintas, mas como superf&iacute;cies de contacto, comprometidas com uma constante actividade rec&iacute;proca de alinhamento assim como de inflex&atilde;o. A sala, com o &quot;seu&quot; arm&aacute;rio suspenso, integra esta sequ&ecirc;ncia pict&oacute;rica, aquela que se estende at&eacute; ao acontecimento, que se projecta nas peles e nas superf&iacute;cies das coisas e das imagens, fazendo filme com elas (<a href="#f3">Figura 3</a>, <a href="#f4">Figura 4</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a18f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a18f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>Cena 3. The Shield (<i>pele</i>)</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em <i>Surface: Matters of Aesthetics, Materiality, and Media</i>, Giuliana Bruno (2014) explora uma no&ccedil;&atilde;o de membrana mediadora das rela&ccedil;&otilde;es entre interior e exterior, passado e presente, p&uacute;blico e privado: a(s) superf&iacute;cie(s). Apostado numa transversalidade operativa, aplicada a uma esp&eacute;cie de pele que elasticiza a cada novo assunto que explora, o texto expande lateralmente (ganhando &quot;corpo&quot;, espessura, e conectando um vasto mapa rizom&aacute;tico) ao evocar a perce&ccedil;&atilde;o sensorial de um observador m&oacute;vel e migrante. A superficialidade &eacute; tendencialmente tida enquanto lugar de descontentamento, na medida em que o que &eacute; &quot;superficial&quot; n&atilde;o &eacute; denso, profundo, cheio ou satisfat&oacute;rio. Ora, &eacute; nos ant&iacute;podas desta observa&ccedil;&atilde;o que Bruno opera, apontando ent&atilde;o a pele como superf&iacute;cie, interface e forma de habita&ccedil;&atilde;o primeira. </p>     <p>A superf&iacute;cie-pele &eacute; assim pensada, avan&ccedil;amos n&oacute;s, como <i>meeting point</i>, espa&ccedil;o de conex&atilde;o e contamina&ccedil;&atilde;o, cuja extens&atilde;o &oacute;bvia a outras mat&eacute;rias parece aqui pertinente e prof&iacute;cua: o pr&oacute;prio vestu&aacute;rio, as paredes, os espelhos, as telas, as tape&ccedil;arias, as cortinas, os v&eacute;us (de Ver&oacute;nica), os ecr&atilde;s.</p>     <p>Pensar a imagem, e pens&aacute;-la como coisa, implica uma aproxima&ccedil;&atilde;o multidimensional, olh&aacute;-la de frente, ponderar os seus limites (os seus lados, fronteiras, moldura), indagar o que estar&aacute; por detr&aacute;s da primeira &quot;pele&quot; (vis&iacute;vel), caminhar para o seu interior e tocar as suas v&iacute;sceras. Abordar este &quot;para l&aacute; da imagem&quot;, ou o por &quot;detr&aacute;s da imagem&quot; requer uma sucess&atilde;o de proje&ccedil;&otilde;es. </p>     <p>Projetamos uma s&eacute;rie de ecr&atilde;s imagin&aacute;rios, enformados pelas nossas pr&oacute;prias narrativas, pela pr&oacute;pria ontologia dos ecr&atilde;s e das imagens, na tentativa de uma qualquer rela&ccedil;&atilde;o com aquilo que se nos apresenta, num primeiro momento, como impenetr&aacute;vel e incognosc&iacute;vel. </p>     <blockquote><i>Projection or protection, that which one poses or throws in front of oneself, either as the projection of a project, of a task to accomplish, or as the protection created by a substitute, a prosthesis that we put forth in order to represent, replace, shelter, or dissimulate ourselves, or as to hide something unavowable &#8211; like a shield</i> &#91; &#8230; &#93; <i>behind which one guards oneself in secret or in shelter in case of danger</i> (Derrida,1993:11-2), </blockquote>     <p>Alinhamos a nossa perce&ccedil;&atilde;o, e a nossa posi&ccedil;&atilde;o, em rela&ccedil;&atilde;o a esta imagem-coisa a partir destes ecr&atilde;s virtuais, num jogo que oscila, naturalmente, entre estados de aten&ccedil;&atilde;o e distra&ccedil;&atilde;o, de aproxima&ccedil;&atilde;o (mergulho, imers&atilde;o) e afastamento, encontrando, algures, um <i>punctum</i> de contacto: um canal para o seu interior ou um convite para o seu exterior, um apartamento sem retorno &#8211; sim, porque as imagens tamb&eacute;m rejeitam os seus observadores/espectadores. <i>The Shield</i> (2015) parece convocar este alinhamento, entre o desvio e o embate, entre o vis&iacute;vel e o invis&iacute;vel (ou ligeiramente percept&iacute;vel). Este tecido-pele, que cobre o corpo na totalidade, esvazia-se para receber todas as figuras, todas as projec&ccedil;&otilde;es e todos os ecr&atilde;s (<a href="#f5">Figura 5</a>, <a href="#f6">Figura 6</a>). </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a18f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v7n15/7n15a18f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Simultaneamente pr&oacute;xima e distante, &eacute; este o paradoxo da imagem que procura o seu espectador, que quer vir ao seu encontro (para logo se esconder de novo), a mesma que com ele exercita um jogo duplo em que a premissa parece ser a aceita&ccedil;&atilde;o do fen&oacute;meno, o do fasc&iacute;nio, o da reversibilidade, o do aur&aacute;tico: o aparecimento &uacute;nico de algo distante.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Hugo Barata coloca o espectador no &acirc;mago de um processo amb&iacute;guo que resulta de uma constante migra&ccedil;&atilde;o entre estados e territ&oacute;rios distintos e comprometidos com as suas &quot;falas&quot; e agentes: figuras espectrais que se repetem, nos mesmos enquadramentos, nos mesmos gestos, no mesmo sil&ecirc;ncio das suas pinturas, desenhos e filmes (e algumas esculturas). Esta perman&ecirc;ncia entre dois planos e entre dois actos &#8211; entre a m&atilde;o e a vis&atilde;o &#8211; parecem coincidir com o jogo subtil (e revert&iacute;vel) entre movimento e estaticidade que o artista permite ao seu espectador (que, na sua pr&oacute;pria mobilidade, percepciona a pequena figura quieta e em sombra &#8211; a ilumina&ccedil;&atilde;o &eacute; desenhada de forma a n&atilde;o revelar totalmente a imagem-coisa). A tens&atilde;o activada pela intersec&ccedil;&atilde;o destes estados acciona a potencialidade do instante. A imagem (no seio da nossa an&aacute;lise) opera no sentido em que esta direcciona a aten&ccedil;&atilde;o do espectador para um momento espec&iacute;fico no tempo &#8211; em direc&ccedil;&atilde;o ao real e constru&iacute;do por si &#8211; mas atrav&eacute;s de mecanismos ilus&oacute;rios ou ficcionados, utilizando-se precisamente da dial&eacute;ctica estabelecida por intervalos perceptivos distintos e de natureza oposta. Este &quot;corpo a corpo&quot;, manifesto em forma de encontro, este &quot;momento da vis&atilde;o&quot;, prov&eacute;m da interse&ccedil;&atilde;o (intuitiva) entre a ilus&atilde;o e a realidade, o real e o virtual, resultando numa &quot;sensa&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea de presen&ccedil;a&quot;, no seio de um qualquer <i>cinema-theather</i>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b> </p>     <!-- ref --><p>Bruno, Giuliana (2014) <i>Surface: Matters of Aesthetics, Materiality, and Media</i>. Chicago: The University of Chicago Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1449367&pid=S1647-6158201600030001800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Carus, Titus Lucretius (1997), <i>DE RERUM NATURA</i> (On the Nature of the Universe: a new verse translation by Sir Ronald Melville). Oxford: Claredon Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1449369&pid=S1647-6158201600030001800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Derrida, Jacques (1993), <i>Aporias</i>, trans. Thomas Dutoit. Stanford, CA: Stanford University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1449371&pid=S1647-6158201600030001800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Vidal, Carlos (2011) <i>Deus e Caravaggio</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es Vendaval. ISBN: 9789728984137&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1449373&pid=S1647-6158201600030001800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 30 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:anarito.ar@gmail.com">anarito.ar@gmail.com</a> (Ana Rito)</p>      ]]></body><back>
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