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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article aims to analyse the relationship between matter, time and memory in the work of Brazilian artist Emanuel Monteiro. To this end, the writings of Gaston Bachelard on material imagination will be of great importance.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>As paisagens submersas de Emanuel Monteiro</b></p>     <p><b>The submerged landscapes of Emanuel Monteiro</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Marilice Corona&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual. Membro do conselho editorial. Bacharelado em Artes Pl&aacute;sticas, Pintura, e Desenho pelo Instituto de Artes da Universidade Federal de Rio Grande do Sul, (UFRGS, IA). Mestrado em Po&eacute;ticas Visuais, UFRGS, IA. Doutorado em Po&eacute;ticas Visuais, UFRGS, IA com est&aacute;gio Universit&eacute; Paris I &#8211; Panth&eacute;on Sorbonne-Paris.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Artes, Departamento de Artes Visuais, Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais. Rua Senhor dos Passos 248, Bairro Centro, Porto Alegre, RS, Cep CEP 90020-180, Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Este artigo tem como objetivo analisar a rela&ccedil;&atilde;o entre a mat&eacute;ria, o tempo e a mem&oacute;ria no trabalho do artista brasileiro Emanuel Monteiro. Para tanto, os escritos de Gast&oacute;n Bachelard, sobre a imagina&ccedil;&atilde;o material ser&atilde;o de grande import&acirc;ncia.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> desenho, livro de artista, mat&eacute;ria, tempo e mem&oacute;ria</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>This article aims to analyse the relationship between matter, time and memory in the work of Brazilian artist Emanuel Monteiro. To this end, the writings of Gaston Bachelard on material imagination will be of great importance.</p>     <p><b>Keywords:</b> drawing, artist book, matter, time and memory</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este artigo tem como objetivo analisar alguns aspectos dos trabalhos do jovem artista brasileiro Emanuel Monteiro. Monteiro nasceu em Londrina, em 1988 e passou boa parte de sua vida em Camb&eacute;, uma cidade do interior do Paran&aacute;. &Eacute; artista e pesquisador, tendo defendido, em 2015 a disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado intitulada <i>Paisagens Perme&aacute;veis</i> no Curso de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o do Curso de Artes Visuais do Instituto de Artes da UFRGS. Possui gradua&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica pela Universidade Estadual de Londrina (2011) e foi professor de arte na Prefeitura Municipal de Camb&eacute; (2012-2013). Em 2013 transfere-se para a cidade de Porto Alegre para realizar sua pesquisa de mestrado, fato esse que lhe permitiu desenvolver uma farta produ&ccedil;&atilde;o de trabalhos acompanhada de profunda reflex&atilde;o te&oacute;rica. Dedica-se ao desenho, &agrave; pintura e livros de artista, explorando seus cruzamentos e desdobramentos. Em 2014 foi contemplado com 1° Pr&ecirc;mio (aquisi&ccedil;&atilde;o) no Sal&atilde;o Nacional de Arte de Jata&iacute; do Museu de Arte Contempor&acirc;nea de Jata&iacute;,Goi&aacute;s. Em 2015 realizou a individual <i>Paisagens Submersas</i> na Galeria Augusto Meyer da Casa de Cultura Mario Quintana, sele&ccedil;&atilde;o do 4° Pr&ecirc;mio IEAVi de Porto Alegre, RS o que resultou em sua indica&ccedil;&atilde;o, na categoria Artista Revela&ccedil;&atilde;o, ao IX Pr&ecirc;mio A&ccedil;orianos de Artes Pl&aacute;sticas, Porto Alegre, RS. Al&eacute;m disso j&aacute; foi convidado a participar de v&aacute;rias coletivas no pa&iacute;s. Atualmente, reside em Porto Alegre onde d&aacute; continuidade a sua produ&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. A casa, o quintal e a mem&oacute;ria</b></p>     <p>O espa&ccedil;o da casa tem se apresentado como tema recorrente na po&eacute;tica de diversos artistas. Gast&oacute;n Bachelard em <i>A po&eacute;tica do espa&ccedil;o</i> dedica um cap&iacute;tulo ao estudo sobre a presen&ccedil;a e a pot&ecirc;ncia da imagem da casa e seus aposentos na literatura e na poesia. Segundo o autor, &quot;analisada nos horizontes mais diversos, parece que a imagem da casa se torna a topografia de nosso ser &iacute;ntimo&quot; (1993: 33). Local de abrigo e prote&ccedil;&atilde;o, espa&ccedil;o da experi&ecirc;ncia vivida, experienciamos a impregna&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o arquitet&ocirc;nico. N&atilde;o por acaso, os espa&ccedil;os que habitamos ao longo da vida tornam-se fonte inesgot&aacute;vel de caras lembran&ccedil;as e preciosas imagens. A lembran&ccedil;a dos acontecimentos habitam estes espa&ccedil;os.</p>     <p>A imagem da casa surge j&aacute; no in&iacute;cio das pesquisas de Emanuel Monteiro e, como veremos, a experi&ecirc;ncia de afastar-se, por alguns anos, de sua terra natal provocar&aacute; um mergulho, em profundidade, em quest&otilde;es que lhe s&atilde;o caras. </p>     <p>Na s&eacute;rie <i>Um lugar para a intimidade</i>, 2011 (<a href="#f1">Figura 1</a>), o artista configura, a partir de suas lembran&ccedil;as, diversos pontos de vista de uma de suas casas da inf&acirc;ncia. S&atilde;o imagens sint&eacute;ticas, planares, quase geom&eacute;tricas constru&iacute;das com &oacute;leo de linha&ccedil;a e p&oacute; de grafite sobre papel. O artista tamb&eacute;m se refere a essas imagens como <i>noturnos</i>, pois, segundo ele, tratam-se de vis&otilde;es da casa, de seus c&ocirc;modos e do quintal durante o per&iacute;odo da noite. </p>     <blockquote>       <p><i>Percebia esta s&eacute;rie de desenhos, como noturnos, pois mostravam vis&otilde;es da casa no per&iacute;odo da noite, como um desejo de condensar seu negror na impregna&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria. Procurava um c&eacute;u que pudesse se aproximar da ideia de um abismo, como uma passagem que se abrisse no cotidiano para o desconhecido, para o obscuro, como um lugar para se perder, constituindo assim pequenos espa&ccedil;os de imensid&atilde;o. A casa da inf&acirc;ncia parece-me hoje, ao rememor&aacute;-la, um lugar dotado de magia, no qual o poss&iacute;vel e o imposs&iacute;vel se faziam presentes e indistintos. N&atilde;o cabiam certezas nem limites na geometria desses espa&ccedil;os, mas sim imagens que permeavam todos os c&ocirc;modos e atravessavam paredes, portas e janelas para se ampliarem no vasto quintal que se abria para a extens&atilde;o infinita de todo o c&eacute;u</i> (Monteiro, 2015:307). </p>       <p>&nbsp;</p> </blockquote> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a03f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se observarmos bem, encontramos nesses desenhos a cont&iacute;nua presen&ccedil;a de elementos de passagem como portas e janelas. Pequenas formas que ao modo de buracos quadrangulares negros irrompem a superf&iacute;cie plana e branca do papel. A imensid&atilde;o da noite aqui se torna forma e as rela&ccedil;&otilde;es de figura e fundo e de interior e exterior tornam-se d&uacute;bias, inst&aacute;veis. A instabilidade n&atilde;o prov&eacute;m apenas da ambiguidade formal, mas do pr&oacute;prio material utilizado. Com o passar do tempo o &oacute;leo invade os limites das demarca&ccedil;&otilde;es lineares como se a noite de grafite amea&ccedil;asse inundar os c&ocirc;modos. Atento ao comportamento da mat&eacute;ria e &agrave; pot&ecirc;ncia de sua significa&ccedil;&atilde;o, o artista ir&aacute;, como veremos mais adiante, torn&aacute;-la o ponto crucial de seu trabalho. </p>     <p>Ecl&eacute;a Bosi, em seu livro <i>Mem&oacute;ria e sociedade</i>, chama nossa aten&ccedil;&atilde;o para a constante presen&ccedil;a da imagem da casa materna nas autobiografias:</p>     <blockquote><i>A casa materna &eacute; uma presen&ccedil;a constante nas auto-biografias. Nem sempre &eacute; a primeira casa que se conheceu, mas &eacute; aquela em que vivemos momentos mais importantes da inf&acirc;ncia. Ela &eacute; o centro geom&eacute;trico do mundo, a cidade cresce a partir dela, em todas as dire&ccedil;&otilde;es. Fixamos a casa com as dimens&otilde;es que ela teve para n&oacute;s e causa espanto a redu&ccedil;&atilde;o que sofre quando vamos rev&ecirc;-la com os olhos de adulto. (...) O espa&ccedil;o da primeira inf&acirc;ncia pode n&atilde;o transpor os limites da casa materna, do quintal, de um peda&ccedil;o de rua, de bairro. Seu espa&ccedil;o nos parece enorme, cheio de possibilidade de aventura. A janela que d&aacute; para um estreito canteiro, abre-se para um jardim de sonho, o v&atilde;o embaixo da escada &eacute; uma caverna para os dias de chuva</i> (Bosi, 1994: 435). </blockquote>     <p>Sendo &quot;centro geom&eacute;trico&quot; &eacute; atrav&eacute;s das portas e janelas que se alcan&ccedil;a o mundo. Na s&eacute;rie <i>Um lugar para a intimidade,</i> de Emanuel Monteiro, interessa-me a representa&ccedil;&atilde;o desses elementos de passagem, visto que, ser&atilde;o esses que dar&atilde;o acesso a um espa&ccedil;o intermedi&aacute;rio entre a casa e a paisagem. S&atilde;o elementos que prefiguram a exist&ecirc;ncia de um espa&ccedil;o intermedi&aacute;rio que na verdade ser&aacute; a fonte tanto de suas imagens quanto da mat&eacute;ria que as configuram: o quintal. </p>     <p>Seria poss&iacute;vel dizer que o quintal de uma casa &eacute; uma esp&eacute;cie de primeiro laborat&oacute;rio onde, na inf&acirc;ncia, investiga-se a natureza ao modo de pequenos naturalistas: colecionando insetos, sementes, folhas e flores; recolhendo terras e fazendo misturas; plantando e vendo crescer; observando a transforma&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria e seu processo de decomposi&ccedil;&atilde;o. Talvez as experi&ecirc;ncias proporcionadas pelas brincadeiras no quintal nos ensinem as primeiras no&ccedil;&otilde;es de tempo. Quantos de n&oacute;s n&atilde;o encontramos, depois de adultos, entre as amareladas p&aacute;ginas de algum livro de aventura, um fragmento de folhagem esquecido que lutou por germinar? </i></p>     <p>As obras de Emanuel Monteiro t&ecirc;m o poder de mexer com adormecidas lembran&ccedil;as. &Eacute; atrav&eacute;s da expressiva materialidade de seus desenhos que entramos em contato com a for&ccedil;a das subst&acirc;ncias elementares. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Do quintal &agrave;s Paisagens Submersas</b></p>     <blockquote><i>O quintal</i> &#91;noz diz Emanuel&#93; <i>limiar entre a casa e o resto do mundo, &eacute; o lugar da colheita das sementes e das flores que caem da &aacute;rvore de nossa fam&iacute;lia. Terreno da lavoura cotidiana, onde se cultivou pacientemente durante os anos as descobertas no brincar, nas solid&otilde;es sem medida da inf&acirc;ncia, nas horas abertas e incont&aacute;veis dos dias. Durante as noites, a escurid&atilde;o do quintal arrastava-se por debaixo das portas e janelas abertas, invadindo a alma. As paredes internas e o teto da casa, formando o abrigo do tempo que se deposita nas superf&iacute;cies, na tinta descascando e desprendendo-se das paredes que revelam uma cor escondida, paisagem submersa onde se ouvem os rumores das &aacute;guas do tempo que correm por toda sua extens&atilde;o. Abertura para o c&eacute;u. Inven&ccedil;&atilde;o do mar. Cada camada &eacute; um anel do tempo do tronco de nossa hist&oacute;ria. Entre estas paredes e este teto encontram-se os m&oacute;veis da casa, silenciosos confidentes com suas gavetas de guardar, lugares de esconder os medos e segredos</i> (Monteiro, 2015:381). </blockquote>     <p>Gaston Bachelard principia seu livro <i>A &aacute;gua e os sonhos</i> distinguindo duas imagina&ccedil;&otilde;es que, a seu ver, s&atilde;o indispens&aacute;veis ao estudo filos&oacute;fico da cria&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica: a <i>imagina&ccedil;&atilde;o formal</i> e a <i>imagina&ccedil;&atilde;o material</i>. A primeira estaria ligada ao devir das superf&iacute;cies, &agrave; sedu&ccedil;&atilde;o e &agrave; beleza sendo que a imagina&ccedil;&atilde;o material apontaria para o mergulho em profundidade. Para o autor, &quot;essas imagens da mat&eacute;ria n&oacute;s as sonhamos substancialmente, intimamente&quot; e, nesse caso, sugere que encontremos, por tr&aacute;s das imagens que se mostram, as imagens que se ocultam, de modo a atingir a pr&oacute;pria raiz da for&ccedil;a imaginante (Bachelard, 1989: 2). Essa distin&ccedil;&atilde;o pareceu-me oportuna para tentar aproximar-me dos trabalhos de Emanuel Monteiro. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Paisagens submersas</i> re&uacute;ne um conjunto de desenhos no qual essas duas for&ccedil;as imaginantes atuam juntas. A princ&iacute;pio detectamos algumas imagens: uma cadeira, um barco, flores, ra&iacute;zes, sementes e outros (<a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>). Mas a intensidade das imagens est&aacute; na for&ccedil;a da mat&eacute;ria que lhes d&aacute; vida. Emanuel n&atilde;o utiliza materiais convencionais na fatura de seus desenhos. O artista vai buscar no quintal da casa materna no Paran&aacute; ou nos arredores da sua morada atual &#8211; e tempor&aacute;ria &#8211; em Porto Alegre, a mat&eacute;ria prima para produzir suas tintas. Terra, sementes e flores permanecem por longos dias submersas em potes de &aacute;gua fechados. Como um alquimista, Emanuel observa as &quot;conservas&quot; e aguarda a transforma&ccedil;&atilde;o da mat&eacute;ria. A flor macerada, &uacute;mida e decomposta transmuta-se em tinta. O tempo e sua inexor&aacute;vel passagem est&atilde;o implicados desde o in&iacute;cio de seu processo de cria&ccedil;&atilde;o. A &aacute;gua, s&iacute;mbolo da vida, do movimento e da transforma&ccedil;&atilde;o altera a mat&eacute;ria e agrega-se a essa. Feito po&ccedil;&atilde;o, a nova subst&acirc;ncia derrama-se sobre a extens&atilde;o do papel e a natureza absorvente do suporte vai retendo aos poucos os res&iacute;duos depositados pelo artista em busca da configura&ccedil;&atilde;o das formas. Se, por um lado, a &aacute;gua reflete a voracidade do tempo, cabe ao suporte o papel da mem&oacute;ria. A imagina&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica se completa na medida em que tinta e suporte derivam da mesma origem. Suas figuras manifestam-se t&atilde;o fluidas e aquosas quanto o fundo em que habitam. Delineadas por linhas t&ecirc;nues e de extrema delicadeza declaram o fracasso de uma reten&ccedil;&atilde;o completa diante do inevit&aacute;vel transbordamento da mancha. An&aacute;logas ao trabalho da mem&oacute;ria, as imagens de Emanuel apresentam-se submersas em uma atmosfera enevoada, monocr&ocirc;mica, com t&atilde;o pouco contraste como as suaves lembran&ccedil;as que caracterizam o sentimento de uma grande dist&acirc;ncia. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a03f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a03f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O artista configura paisagens com as subst&acirc;ncias elementares que primordialmente constituem uma paisagem: a terra, a &aacute;gua, o ar e res&iacute;duos vegetais. Alan Roger nos faz lembrar que o conceito de paisagem se trata de um construto cultural, correlacionado &agrave;s transforma&ccedil;&otilde;es de concep&ccedil;&atilde;o de homem e natureza que marcam o in&iacute;cio da Idade Moderna bem como a um fen&ocirc;meno, denominado por ele, de <i>artealiza&ccedil;&atilde;o</i>. Ou seja, que o conceito de paisagem surge como o resultado de uma a&ccedil;&atilde;o contemplativa mediada pela arte (Roger, 1997). Do ponto de vista formal, seria poss&iacute;vel dizer, por exemplo, que a pintura de paisagem &eacute;, normalmente, caracterizada pela subdivis&atilde;o de planos &#8211; o c&eacute;u e a terra, o c&eacute;u e a &aacute;gua, o c&eacute;u, a &aacute;gua e a terra, etc... A representa&ccedil;&atilde;o da linha de horizonte &eacute; presen&ccedil;a constante e determina o encontro das diferentes mat&eacute;rias. A sensa&ccedil;&atilde;o de dist&acirc;ncia &eacute; seu pressuposto e aponta para a posi&ccedil;&atilde;o do homem diante do mundo. O quadro, como janela, circunscreve e intensifica a dist&acirc;ncia entre o olhar e a linha de horizonte. Representa um ponto de vista. No entanto, as paisagens que Emanuel Monteiro nos oferece parecem ser de outra ordem. N&atilde;o est&atilde;o inscritas na figura&ccedil;&atilde;o e nem ao menos apresentam a apar&ecirc;ncia codificada das tradicionais pinturas ou desenhos de paisagem. A dist&acirc;ncia aqui evocada &eacute;, sobretudo, temporal. A paisagem emerge pela for&ccedil;a da mat&eacute;ria. &Eacute; a imagina&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica que nos faz sentir a paisagem. Nos desenhos de Monteiro, o grande plano &eacute; composto de fragmentos, estrutura-se em forma de grade. Suas paisagens s&atilde;o o desdobramento de seus <i>Di&aacute;rios</i> e livros de artista (<a href="#f4">Figura 4</a>, <a href="#f5">Figura 5</a>). <i>Paisagens submersas</i> recolhidas de seu quintal. Enquanto livros n&atilde;o se oferecem apenas aos olhos, mas aguardam o contato &iacute;ntimo das m&atilde;os. A p&aacute;gina n&atilde;o &eacute; fundo para uma representa&ccedil;&atilde;o, torna-se mat&eacute;ria. Folheamos terras, flores, cascas e sementes e, ao toc&aacute;-las, formam-se em n&oacute;s outras tantas paisagens. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a03f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a03f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>3. Do livro &agrave; paisagem</b></p>     <p>&quot;O livro aberto abre uma paisagem&quot; nos diz Monteiro (2015:431). Ao desdobrar para os lados e para baixo as p&aacute;ginas do que poderia compor um livro, seria poss&iacute;vel dizer que o artista intenciona quebrar com a leitura sequencial que o caracteriza. Uma leitura que, habitualmente, se desenvolve da esquerda para a direita e se estrutura em come&ccedil;o, meio e fim. Ao desdobrar as p&aacute;ginas, Monteiro nos oferece o plano e a profundidade, tudo exposto a um s&oacute; tempo. Do livro n&atilde;o retira somente o formato das p&aacute;ginas, mas traz dele a escrita como elemento pl&aacute;stico e s&iacute;gnico. Aqui a suavidade da linha desaparece e o que vemos surgir s&atilde;o os sulcos inundados de l&iacute;quido em uma grafia pontiaguda e urgente. Em <i>Os Dias</i>, 2015 (<a href="#f6">Figura 6</a>), em meio &agrave;s manchas derivadas do esfrega&ccedil;o en&eacute;rgico da mat&eacute;ria em decomposi&ccedil;&atilde;o, o artista transcreve trechos de <i>A montanha m&aacute;gica</i> de Thomas Mann em que se encontra a frase &quot;&Eacute; poss&iacute;vel uma sucess&atilde;o no eterno ou uma justaposi&ccedil;&atilde;o no infinito?&quot; (<a href="#f7">Figura 7</a>) . A justaposi&ccedil;&atilde;o de 65 &quot;p&aacute;ginas&quot;, que conformam uma esp&eacute;cie de paisagem panor&acirc;mica, apresenta, al&eacute;m da frase de Mann, a inscri&ccedil;&atilde;o &quot;n&atilde;o me lembro&quot; repetida &agrave; exaust&atilde;o. Como se pairasse, aqui, o temor &agrave; &quot;doen&ccedil;a da ins&ocirc;nia&quot; &#8211; e seu subsequente dano &agrave; mem&oacute;ria &#8211; que abateu o povoado de Macondo em Cem anos de Solid&atilde;o, de Garc&iacute;a M&aacute;rquez, leitura, ali&aacute;s, que lhe &eacute; cara. Ainda sobre a escrita, em <i>Na espera, envelhece o sol</i> (<a href="#f8">Figura 8</a>), percebemos em cada &quot;p&aacute;gina&quot; a inscri&ccedil;&atilde;o de uma data, como se um di&aacute;rio &iacute;ntimo migrasse, agora, para a esfera p&uacute;blica. Da intimidade do livro-objeto &agrave; grande dimens&atilde;o que abarca o corpo do espectador. A folha de ouro, t&atilde;o empregada nos espa&ccedil;os celestiais da pintura medieval, esparrama-se horizontalmente, quase liquefeita, feito rastro de sol sobre a terra. Uma breve mancha de luz prestes a desaparecer no horizonte das palavras.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a03f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a03f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a03f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Seria poss&iacute;vel dizer que o trabalho de Emanuel Monteiro apresenta-se, de certo ponto de vista, na contram&atilde;o do momento acelerado em que vivemos, bem como, das pr&aacute;ticas art&iacute;sticas atuais t&atilde;o voltadas &agrave;s novas tecnologias. Tempo, mat&eacute;ria e mem&oacute;ria est&atilde;o impressos na obra acabada e s&atilde;o pressuposto em seu pr&oacute;prio processo de cria&ccedil;&atilde;o. O artista d&aacute; tempo &agrave; mat&eacute;ria, espera seu envelhecimento e transforma o que est&aacute; prestes a sumir em obra. Emanuel trata dos mist&eacute;rios que envolvem nossa conting&ecirc;ncia humana: nossa origem e nosso destino.</p>     <p>Emanuel Monteiro convida-nos a olhar atrav&eacute;s da janela de seu quintal e, se o fizermos em profundidade, talvez de l&aacute; avistemos, e n&atilde;o sem nostalgia, as <i>Paisagens submersas</i> de um ciclo em que todos estamos envolvidos. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bachelard, Gast&oacute;n (1989) <i>A &aacute;gua e os sonhos</i>. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes. ISBN 85-3360-819-5&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1449588&pid=S1647-6158201600040000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Bachelard, Gast&oacute;n (2000) <i>A po&eacute;tica do espa&ccedil;o.</i> S&atilde;o Paulo: Martins Fontes. ISBN 85-336-0234-0&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1449589&pid=S1647-6158201600040000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Bosi, Ecl&eacute;a (1994) <i>Mem&oacute;ria e sociedade: lembran&ccedil;a de velhos</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1994. ISBN 85-7164-393-8&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1449590&pid=S1647-6158201600040000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Monteiro, Emanuel (2015) <i>Paisagens Perme&aacute;veis</i>. Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado, Curso de P&oacute;s Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais (&ecirc;nfase Po&eacute;ticas Visuais), Instituto de Artes, Universidade Federal de Rio Grande do Sul. Porto Alegre.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1449591&pid=S1647-6158201600040000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Roger, Alain (1997) <i>Court trait&eacute; du paysage</i>. Paris: Gallimard. ISBN 978-2-07-074938-6&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1449593&pid=S1647-6158201600040000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 22 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:mvcorona@terra.com.br">mvcorona@terra.com.br</a> (Marilice Corona)</p>      ]]></body><back>
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