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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Pele Preta: a poética da luz]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Black Skin: the poetics of light]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Rio Grande do Sul Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação Departamento de Comunicação]]></institution>
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<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582016000400018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582016000400018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582016000400018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[O artigo proposto tem por objetivo refletir acerca do trabalho seminal da fotógrafa artista Maureen Bisilliat, Pele preta. O ensaio fotográfico Pele preta foi realizado na década de 1960. A série aqui trabalhada é composta por 23 imagens em preto e branco de três modelos negros: uma mulher, um homem e uma criança, além de imagens de ex-votos. Através dessas imagens a artista afirma sua visão política e social da sociedade brasileira aliada a uma poética da luz com traços surrealistas. Conceitos como o de Fotografia Menor (Gonçalves, 2009) e o de Imagem Cristal (Deleuze, 2007; Fatorelli, 2003) estarão presentes.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The proposed article aims to reflect on the seminal work of photographer artist Maureen Bisilliat, Black Skin. The photographic Black Skin essay was conducted in the 1960s. The series consists of 23 black and white images of three black models: a woman, a man and a child, and votive images. Through these images the artist asserts her political and social vision of Brazilian society combined with a poetic light with surrealist features. Concepts such as Photography Minor (Gonçalves, 2009) and the Crystal Image (Deleuze, 2007; Fatorelli 2003) will be present.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Pele Preta: a po&eacute;tica da luz</b></p>     <p><b>Black Skin: the poetics of light</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Sandra Maria L&uacute;cia Pereira Gon&ccedil;alves&#42;</b></p>     <p>&#42;Brasil, artista visual (Fotografia). Professora e pesquisadora. Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o Visual, Escola de Belas-Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Mestrado em Comunica&ccedil;&atilde;o e Cultura na Escola de Comunica&ccedil;&atilde;o UFRJ; Doutorado em Comunica&ccedil;&atilde;o e Cultura na Escola de Comunica&ccedil;&atilde;o UFRJ.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Faculdade de Biblioteconomia e Comunica&ccedil;&atilde;o; Departamento de Comunica&ccedil;&atilde;o. Rua Ramiro Barcelos, 2705 &#8211; Campus Sa&uacute;de &#8211; Porto Alegre &#8211; RS &#8211; CEP 90035-007 Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b> </p>     <p>O artigo proposto tem por objetivo refletir acerca do trabalho seminal da fot&oacute;grafa artista Maureen Bisilliat, Pele preta. O ensaio fotogr&aacute;fico Pele preta foi realizado na d&eacute;cada de 1960. A s&eacute;rie aqui trabalhada &eacute; composta por 23 imagens em preto e branco de tr&ecirc;s modelos negros: uma mulher, um homem e uma crian&ccedil;a, al&eacute;m de imagens de ex-votos. Atrav&eacute;s dessas imagens a artista afirma sua vis&atilde;o pol&iacute;tica e social da sociedade brasileira aliada a uma po&eacute;tica da luz com tra&ccedil;os surrealistas. Conceitos como o de Fotografia Menor (Gon&ccedil;alves, 2009) e o de Imagem Cristal (Deleuze, 2007; Fatorelli, 2003) estar&atilde;o presentes.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Maureen Bisilliat, Pele preta, Fotografia express&atilde;o. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b> </p>     <p>The proposed article aims to reflect on the seminal work of photographer artist Maureen Bisilliat, Black Skin. The photographic Black Skin essay was conducted in the 1960s. The series consists of 23 black and white images of three black models: a woman, a man and a child, and votive images. Through these images the artist asserts her political and social vision of Brazilian society combined with a poetic light with surrealist features. Concepts such as Photography Minor (Gon&ccedil;alves, 2009) and the Crystal Image (Deleuze, 2007; Fatorelli 2003) will be present.</p>     <p><b>Keywords</b>: Maureen Bisilliat, Black skin, Photography expression. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O artigo proposto tem por objetivo refletir acerca do trabalho seminal da fot&oacute;grafa artista Maureen Bisilliat, <i>Pele preta</i>. O ensaio fotogr&aacute;fico <i>Pele preta</i> foi realizado na d&eacute;cada de 1960. A s&eacute;rie aqui trabalhada &eacute; composta por imagens em preto e branco de tr&ecirc;s modelos negros: uma mulher, um homem e uma crian&ccedil;a, al&eacute;m de imagens de ex-votos. Trabalho menos vis&iacute;vel da obra fotogr&aacute;fica produzida por Maureen Bisilliat, veio a p&uacute;blico na primeira grande exposi&ccedil;&atilde;o da artista, realizada em 1966 no Museu de Arte Moderna de S&atilde;o Paulo (Brasil). Em 2014, o Instituto Moreira Salles, detentor do direito patrimonial sobre a obra da artista, editou na cole&ccedil;&atilde;o <i>A forma da Luz</i>, um pequeno fotolivro com a s&eacute;rie <i>Pele preta</i> &#8211; uma sele&ccedil;&atilde;o de 23 imagens do ensaio original (Bisilliat, 2014). &Eacute; sobre esse trabalho que a reflex&atilde;o aqui se dar&aacute;.</p>     <p>Maureen Bisilliat nasceu na Inglaterra (1931), filha de diplomata argentino e m&atilde;e artista pl&aacute;stica Inglesa e teve uma vida n&ocirc;made at&eacute; se estabelecer no Brasil em 1957. Sua identifica&ccedil;&atilde;o e seu encantamento pelo pa&iacute;s levaram-na a adquirir cidadania brasileira. Bisilliat se interessou pelo Brasil profundo por meio de cl&aacute;ssicos da literatura brasileira como Euclides da Cunha e Jo&atilde;o Guimar&atilde;es Rosa. Neste sentido, seu ensaio <i>Pele preta</i> apresenta caracter&iacute;sticas que iriam marcar seu trabalho de associar texto e imagem nas narrativas que constr&oacute;i, bem como trabalhar quest&otilde;es que a levassem a entender o pa&iacute;s escolhido para viver. Fot&oacute;grafa artista, Maureen Bisilliat transita em um universo movedi&ccedil;o onde o documento literal da realidade se esfuma&ccedil;a na a&ccedil;&atilde;o autoral e expressiva do artista. Desse modo o real e o imagin&aacute;rio se entrela&ccedil;am permanentemente em seu trabalho. Maureen Bisilliat faz da fotografia o lugar de sua arte e profiss&atilde;o.</p>     <p>Aproveita-se esta introdu&ccedil;&atilde;o para indicar os conceitos que norteiam este artigo, qual seja os de Fotografia Menor (Gon&ccedil;alves, 2009) &#8211; quanto &agrave; tem&aacute;tica escolhida &#8211; e o de Imagem Cristal &#8211; a forma levando a uma ruptura do mais evidente da imagem &#8211; proposto por Fatorelli (2003) a partir de leitura do conceito em Deleuze (2007). Acredita-se que tais conceitos dar&atilde;o conta da reflex&atilde;o proposta, qual seja a da pot&ecirc;ncia da imagem art&iacute;stica enquanto horizonte reflexivo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Maureen e a Fotografia</b></p>     <p>Pintora de forma&ccedil;&atilde;o (na d&eacute;cada de 1950 estudou pintura com Andr&eacute; Lhote, surrealista, em Paris, e frequentou o <i>Arts Students League</i>, em Nova York. Maureen Bisilliat substituiu a pintura, considerada sedent&aacute;ria para o seu temperamento inquieto, pela fotografia no in&iacute;cio dos anos 1960 &#8211; seu marido &agrave; &eacute;poca, o fot&oacute;grafo espanhol Jos&eacute; Ant&ocirc;nio Carbonell a influenciou na escolha, que se fez definitiva ap&oacute;s o encontro com a obra liter&aacute;ria <i>Grande sert&atilde;o: veredas</i>, de Guimar&atilde;es Rosa, em 1963 (Fern&aacute;ndez, 2011). Seu desejo de conhecer o Brasil profundo das gerais (Minas Gerais) mostrado por Guimar&atilde;es Rosa, levou-a a uma viagem pelo interior do pa&iacute;s de ado&ccedil;&atilde;o munida daquilo que seria seu instrumento de trabalho por longos anos, a c&acirc;mera fotogr&aacute;fica. As imagens produzidas, quando publicadas na forma de foto-livro, <i>A Jo&atilde;o Guimar&atilde;es Rosa</i> (Bisilliat, 1969), se fizeram acompanhar por trechos de <i>Grande sert&atilde;o: veredas</i> selando a uni&atilde;o entre fotografia e literatura no trabalho da artista, como se pode observar na <a href="#f1">Figura 1</a>: no livro, a p&aacute;gina a esquerda da imagem de um sertanejo apresenta palavras retiradas <i>de Grande sert&atilde;o veredas</i>.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a18f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>As imagens liter&aacute;rias de Bisilliat levaram-na ao fotojornalismo. Trabalhou para a Editora Abril (1964-1972) em revistas como <i>Quatro Rodas</i> e <i>Realidade</i>. Na revista <i>Realidade</i> pode exercer seu of&iacute;cio fotogr&aacute;fico com total liberdade de express&atilde;o e meios, pois n&atilde;o havia limite na quantidade de filmes utilizados nem no modo como os assuntos eram abordados. Ap&oacute;s esse per&iacute;odo passou a se dedicar a projetos pessoais de documenta&ccedil;&atilde;o expressiva, e expandir os limites do vis&iacute;vel, aliando a imagem fotogr&aacute;fica a textos de escritores como Euclides da Cunha, Ad&eacute;lia Prado, Jorge Amado e poetas como Jo&atilde;o Cabral de Mello Neto e Carlos Drummond de Andrade. A s&eacute;rie fotogr&aacute;fica <i>Pele preta</i>, primeiro trabalho fotogr&aacute;fico da artista a vir a publico, exposto no Museu de Arte Moderna de S&atilde;o Paulo, em 1966, e objeto de reflex&atilde;o deste artigo, &eacute; inaugural no uso do texto ao pontuar as imagens fotogr&aacute;ficas da s&eacute;rie com trechos de poemas de Jorge de Lima, poeta modernista brasileiro.</p>     <p>Considera-se importante ressaltar o trabalho da artista realizado no Parque Ind&iacute;gena do Xingu durante os anos 1970. Neste trabalho, transformado no livro <i>Xingu, Territ&oacute;rio Tribal</i> (Bisilliat, 1990) em 1979, a linguagem pl&aacute;stica de Maureen Bisilliat incorpora a cor como determinante expressiva (<a href="#f2">Figura 2</a>), refor&ccedil;ando o trabalho dram&aacute;tico com a luz caracter&iacute;stico de sua obra. Desde os anos 1980, Maureen dedica-se ao trabalho com v&iacute;deo e edi&ccedil;&atilde;o de texto e imagem, al&eacute;m de dar continuidade a seus projetos fotogr&aacute;ficos por meio de revis&otilde;es e novas leituras de seu material de arquivo.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a18f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Sobre a S&eacute;rie <i>Pele preta</i></b> </p>     <p>O ensaio fotogr&aacute;fico <i>Pele preta</i> foi realizado na d&eacute;cada de 1960. A s&eacute;rie &eacute; composta, como apontado na introdu&ccedil;&atilde;o deste artigo, por 23 fotografias em preto e branco de tr&ecirc;s modelos negros: uma mulher, um homem e uma crian&ccedil;a, al&eacute;m de imagens de ex-votos. Atrav&eacute;s de uma po&eacute;tica formal baseada no uso dram&aacute;tico da luz e a fragmenta&ccedil;&atilde;o dos modelos, a artista traz quest&otilde;es importantes &agrave; sociedade brasileira. A mais vis&iacute;vel dessas quest&otilde;es diz respeito ao lugar ocupado pelo negro nessa sociedade. No jogo de claro-escuro, oportunizado pela fotografia em branco e preto, emerge a problem&aacute;tica proposta pela artista: a emers&atilde;o e presen&ccedil;a positiva do negro na sociedade brasileira (Titan Jr., 2014). Refor&ccedil;a este car&aacute;ter da s&eacute;rie a presen&ccedil;a de trechos de poemas de Jorge de Lima, poeta pertencente &agrave; segunda gera&ccedil;&atilde;o de modernistas brasileiros. Esses artistas eram politizados, questionadores e buscavam a cria&ccedil;&atilde;o de uma arte moderna brasileira, com a valoriza&ccedil;&atilde;o do nacional. A realidade brasileira e seu cotidiano sem gl&oacute;ria com seus tipos populares era o foco desses artistas, deixando a burguesia fora da cena art&iacute;stica (principalmente na literatura). Soma-se ao exposto, a percep&ccedil;&atilde;o de certa heran&ccedil;a surrealista na po&eacute;tica de Maureen Bisilliat, refor&ccedil;ando a ideia do vir &agrave; tona do reprimido proposto pela s&eacute;rie. Essa ideia se torna percept&iacute;vel na sequencia de imagens proporcionada pelo pequeno fotolivro, como pode ser observado, por exemplo, nas duas imagens a seguir (<a href="#f3">Figura 3</a> e <a href="#f4">Figura 4</a>):</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a18f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a18f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>V&ecirc;-se na <a href="#f3">Figura 3</a>, uma cabe&ccedil;a de madeira (ex-voto) deitada sobre uma superf&iacute;cie plana e apoiada por uma m&atilde;o negra; m&atilde;os de madeira, tamb&eacute;m ex-votos, se colocam por tr&aacute;s da cabe&ccedil;a numa composi&ccedil;&atilde;o intrigante e desconcertante. Na imagem seguinte (<a href="#f4">Figura 4</a>) saindo da escurid&atilde;o, observa-se a cabe&ccedil;a de um menino negro que repousa sobre a m&atilde;o de uma mulher, tamb&eacute;m negra. As imagens mostradas s&atilde;o fragmentos que se unem e levam o leitor a refletir sobre uma rela&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel de causa e efeito entre as duas imagens, ou seja: ex-votos significam a realiza&ccedil;&atilde;o de um milagre, representam a cura de um &oacute;rg&atilde;o doente pela divindade; s&atilde;o testemunhos de gratid&atilde;o &#8211; em lugares de romaria h&aacute; salas espec&iacute;ficas para eles. Ent&atilde;o, ao se associar as duas imagens, dentro da tem&aacute;tica percept&iacute;vel no trabalho, qual seja a da inser&ccedil;&atilde;o do negro como parte fundante da sociedade brasileira, a sequencia parece falar da realiza&ccedil;&atilde;o desse milagre de assimila&ccedil;&atilde;o positiva. A imagem a seguir (<a href="#f5">Figura 5</a>), um pequeno anjo perfaz o caminho proposto. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a18f5.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Como qualquer crian&ccedil;a, liberto, vestido com asas, saindo das sombras, n&atilde;o mais fragmento, ele quer voar. Ele quer ir t&atilde;o alto quanto os seus sonhos o possam levar. Soma-se a isso a preocupa&ccedil;&atilde;o formal da artista no trato dado a seus modelos: s&atilde;o imagens fortemente est&eacute;ticas que primam pelos primeiros planos de grande beleza pl&aacute;stica; trazendo uma sensa&ccedil;&atilde;o t&aacute;ctil a seus observadores. Cortes e fragmentos, jogos de luz provocam uma sensa&ccedil;&atilde;o de estranheza que estimula o leitor a refletir acerca do que v&ecirc;.</p>     <p>O olhar autoral, o dialogismo estabelecido com seus retratados, o trabalho com a luz e a forma, os cortes realizados nas imagens fizeram e fazem de Maureen Bisilliat uma fot&oacute;grafa de rara sensibilidade e est&eacute;tica sofisticada. Suas imagens fotogr&aacute;ficas expandem os limites referenciais da coisa dada (a fotografia). A artista n&atilde;o busca a simples rela&ccedil;&atilde;o que produz semelhan&ccedil;a de um original, mas o &quot;jogo de opera&ccedil;&otilde;es que produz aquilo a que chamamos arte, ou seja, precisamente uma altera&ccedil;&atilde;o de semelhan&ccedil;a&quot; (Ranci&egrave;re, 2011: 14) que faz o leitor da imagem ultrapassar a superf&iacute;cie da imagem dada. S&atilde;o imagens e sequ&ecirc;ncias imag&eacute;ticas que possibilitam o aparecimento daquilo que Fatorelli (2003) nomeia de Imagem Cristal (Fatorelli desenvolve sua ideia a partir do conceito deleuziano de Imagem Cristal aplicado ao cinema &#91;Deleuze, 2007&#93;). Para o autor, essas imagens s&atilde;o aquelas em que a subservi&ecirc;ncia &agrave; refer&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; o que interessa, dependentes que s&atilde;o de certas configura&ccedil;&otilde;es do vis&iacute;vel, do tempo e do espa&ccedil;o. Potentes e obtusas, prop&otilde;em realidades que n&atilde;o se confundem com elas. S&atilde;o imagens onde a met&aacute;fora do cristal se concretiza, pois elas espelham multiplicidades.</p>     <p>Amb&iacute;guas, potentes, incertas e instigantes as imagens da s&eacute;rie <i>Pele preta</i> mergulham o seu leitor/espectador no universo do comum, da figura an&ocirc;nima. Nesse sentido trazem a reboque o conceito de Fotografia Menor (Gon&ccedil;alves, 2009). Tal conceito, baseado no conceito de Literatura Menor desenvolvido por Deleuze & Guattari (2014) para pensar a literatura de Kafka, considera que tais desvios tem&aacute;ticos e modos de fazer fotogr&aacute;fico potencializam aberturas para o outro, aquele relegado a um segundo plano na hist&oacute;ria. A s&eacute;rie <i>Pele preta</i> implica seu leitor a certo engajamento pol&iacute;tico, hist&oacute;rico e po&eacute;tico ao longo de um percurso entre real e imagin&aacute;rio &#8211; possibilidade de constru&ccedil;&atilde;o de uma ponte para o novo na transforma&ccedil;&atilde;o dos modos estabelecidos de ver e sentir, uma metamorfose.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Fot&oacute;grafa expressiva, Maureen Bisilliat, de acordo com a categoria desenvolvida por Rouill&eacute; (2009) de fot&oacute;grafo artista, realiza na s&eacute;rie selecionada para reflex&atilde;o o que se pode chamar de documental expandido (vai al&eacute;m da mera refer&ecirc;ncia documental propondo novos horizontes reflexivos). Suas imagens transformam-se em discurso vivo ao trazer no seu jogo de claro-escuro e fragmenta&ccedil;&atilde;o quest&otilde;es que perpassam, ainda, a sociedade brasileira, tal como o lugar que essa outorga ao negro. O trabalho de Maureen parece visar &agrave; inser&ccedil;&atilde;o definitiva do negro, sem estere&oacute;tipos, como cidad&atilde;o brasileiro. Assim, por exemplo, o corpo da mulher negra (<a href="#f6">Figura 6</a>), seguidamente erotizado pela m&iacute;dia e pelo discurso dominante, &eacute; posto em quest&atilde;o atrav&eacute;s da constru&ccedil;&atilde;o de uma nudez possuidora de sensualidade singela e invulgar. Nesse sentido, sua fotografia j&aacute; nasce &#39;Menor&#39;, esbarra e enfrenta o senso comum pequeno-burgu&ecirc;s forjado por valores capitalistas. Nasce da&iacute; uma pot&ecirc;ncia cristalina, multifacetada, revolucion&aacute;ria, desestabilizadora de verdades estabelecidas.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v7n16/7n16a18f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A leitura que aqui se prop&ocirc;s da serie <i>Pele preta</i> &eacute; uma das in&uacute;meras poss&iacute;veis, talvez a mais coesa no descont&iacute;nuo de sentido proposto por imagens. Apesar da intens&atilde;o primeira da autora das imagens apresentadas, seu potencial cristalino possibilita lacunas e brechas por onde outros sentidos aderem. Sentidos esses sempre provis&oacute;rios, como os reflexos de um cristal.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b> </p>     <!-- ref --><p>Bisilliat, Maureen (2014). &quot;Pele Preta<i>&quot;.</i> In <i>A Forma da Luz,</i> vol. 3. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles. ISBN: 85-8346-011-6.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450979&pid=S1647-6158201600040001800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bisilliat, Maureen (2009). <i>Fotografias.</i> Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles. ISBN: 978-85-86707-45-2.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450981&pid=S1647-6158201600040001800002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bisilliat, Maureen (1969). <i>A Jo&atilde;o Guimar&atilde;es Rosa</i>. S&atilde;o Paulo: Brunner.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450983&pid=S1647-6158201600040001800003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Bisilliat, Maureen (1990). <i>Xingu, territ&oacute;rio tribal</i>. S&atilde;o Paulo: Aut&ecirc;ntica. ISBN: 85-293-0006-8.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450985&pid=S1647-6158201600040001800004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Deleuze, Gilles (2007). <i>A Imagem tempo.</i> S&atilde;o Paulo, SP: Brasiliense. ISBN: 85-11-22028-3.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450987&pid=S1647-6158201600040001800005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Deleuze, Gilles & Guattari, Felix (2014). <i>Kafka, por uma Literatura menor.</i> Rio de Janeiro: Aut&ecirc;ntica. ISBN: 8582173121.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450989&pid=S1647-6158201600040001800006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Fatorelli, Antonio (2003). <i>Fotografia e viagem: entre a natureza e o artif&iacute;cio</i>. Rio de Janeiro, RJ: Relume Dumara. ISBN: 85-7316-323-2.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450991&pid=S1647-6158201600040001800007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Fern&aacute;ndez, Horacio (2011). <i>Fotolivros latino-americanos.</i> S&atilde;o Paulo: Cosac Naify. ISBN: 978-85-405-0106-5.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450993&pid=S1647-6158201600040001800008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Gon&ccedil;alves, Sandra M L P. (2009) &quot;Por uma fotografia menor no jornalismo di&aacute;rio contempor&acirc;neo&quot;. <i>Revista da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Programas de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Comunica&ccedil;&atilde;o | E-comp&oacute;s</i>. E-ISSN 1808-2599. v. 12, n. 2, maio / ago. Bras&iacute;lia. &#91;Consult. 2015-12-14&#93;. Dispon&iacute;vel em URL: <a href="http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/view/393/364" target="_blank">http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/view/393/364</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450995&pid=S1647-6158201600040001800009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Ranci&egrave;re, Jacques (2011) <i>O destino das Imagens</i>. Lisboa: Orfeu Negro. ISBN: 978-989-8327-17-8&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450996&pid=S1647-6158201600040001800010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Rouill&eacute;, Andr&eacute; (2009). <i>A fotografia: entre documento e arte contempor&acirc;nea</i>. S&atilde;o Paulo, SP: SENAC. ISBN: 978-7359-876-6.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450997&pid=S1647-6158201600040001800011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Titan Jr, Samuel (Org.) (2014). &quot;Pele Preta.&quot; In <i>A Forma da Luz, vol. 3</i>. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles. ISBN: 85-8346-011-6.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1450999&pid=S1647-6158201600040001800012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo recebido a 28 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:sandrapgon@terra.com.br">sandrapgon@terra.com.br</a> (Sandra Gon&ccedil;alves)</p>     ]]></body>
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