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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[João Paulo Queiroz: Desenhos, 2005-2016. Acalmar a natureza inquieta do lugar]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[João Paulo Queiroz has been developing a body ofwork in aseries based in repetition, observation and representation of the same place since 2005. Along the twelve years that encompass theartistic production translated in a body ofwork of hundreds ofdrawings, João Paulo Queiroz revisited, during onemonthinthesummer of every year, one place that became both subject and object of study. This paper aims to reflect on the processes and methodologies inherent toan unquiet practice.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER EDITORIAL</b></p>     <p align="right"><b>EDITORIAL SECTION</b></p>     <p><b>Jo&atilde;o Paulo Queiroz: Desenhos, 2005-2016. Acalmar a natureza inquieta do lugar</b></p>     <p><b>Jo&atilde;o Paulo Queiroz: Drawings, 2005-2016</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Lu&iacute;sa Santos&#42;</b></p>     <p>&#42;Portugal, curadora, Professora Gulbenkian, CECC, Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas, Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa. Doutorada em Estudos de Cultura pela Humboldt-Viadrina School of Governance, Berlim (2015). Mestre em Curadoria de Arte Contempor&acirc;nea pela Royal College of Art, Londres (2008). Licenciada em Design de Comunica&ccedil;&atilde;o pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (2003).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Cat&oacute;lica Portuguesa, Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas. Palma de Cima, 1649-023 Lisboa. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b> </p>     <p>Jo&atilde;o Paulo Queiroz tem vindo a desenvolver um corpo de trabalho em s&eacute;rie a partir da repeti&ccedil;&atilde;o, da observa&ccedil;&atilde;o e da representa&ccedil;&atilde;o de um mesmo lugar desde 2005. Ao longo dos doze anos que medeiam a produ&ccedil;&atilde;o traduzida no corpo de trabalho que hoje se afirma, Jo&atilde;o Paulo Queiroz regressou, durante um m&ecirc;s de Ver&atilde;o de cada ano, a um mesmo lugar que se tornou, simultaneamente, sujeito e objecto do seu estudo. Este artigo pretende reflectir sobre os processos e metodologias inerentes a uma pr&aacute;tica continuada dedesenho na multiplicidade de inquietudes que representa. </p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Repeti&ccedil;&atilde;o / observa&ccedil;&atilde;o / representa&ccedil;&atilde;o / desenho / paisagem / lugar.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b> </p>     <p>Jo&atilde;o Paulo Queiroz has been developing a body ofwork in aseries based in repetition, observation and representation of the same place since 2005. Along the twelve years that encompass theartistic production translated in a body ofwork of hundreds ofdrawings, Jo&atilde;o Paulo Queiroz revisited, during onemonthinthesummer of every year, one place that became both subject and object of study. This paper aims to reflect on the processes and methodologies inherent toan unquiet practice.</p>     <p> <b>Keywords:</b> Repetition / observation / representation / drawing / landscape / place</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Jo&atilde;o Paulo Queiroz (1966, Portugal), tem vindo a desenvolver um conjunto composto por <i>s&eacute;rie</i>s de desenhos com uma metodologia baseada em repeti&ccedil;&atilde;o, num acto que podemos considerar performativo na medida em que o corpo se torna parte do desenho, em observa&ccedil;&atilde;o continuada e, finalmente, em representa&ccedil;&atilde;o de um mesmo lugar desde 2005. Durante os doze anos que medeiam o conjunto existente at&eacute; hoje, Jo&atilde;o Paulo Queiroz produziu, durante um m&ecirc;s de Ver&atilde;o de cada ano, uma s&eacute;rie de desenhos, com 21x21cm, nos Valinhos, em F&aacute;tima, num per&iacute;metro de cerca de 300 metros. Ao longo dos doze anos, poder&iacute;amos, naturalmente, esperar algumas marcas humanas no lugar, tendo em conta a velocidade dos dias intr&iacute;nseca &agrave; sociedade contempor&acirc;nea. Contudo, neste lugar, h&aacute; uma serenidade testemunhada visualmente pela paisagem, ao longo dos v&aacute;rios conjuntos que formam a s&eacute;rie produzida ao longo de mais de uma d&eacute;cada.</p>     <p>Se pensarmos na arte contempor&acirc;nea enquanto sistema social  &ndash;  uma ideia do soci&oacute;logo Alem&atilde;o Niklas Luhmann (1984)  &ndash;  situaremos a arte no dom&iacute;nio da percep&ccedil;&atilde;o do mundo. E &eacute; precisamente de percep&ccedil;&atilde;o do mundo que nos rodeia, no que nos &eacute; mais familiar mas tamb&eacute;m naquilo que nos surpreende e nos escapa  &ndash;  e a imensid&atilde;o da natureza ser&aacute; a met&aacute;fora perfeita para o que entendemos como Sublime que admiramos mas que n&atilde;o alcan&ccedil;amos  &ndash; , que este conjunto trata.</p>     <p>A natureza tem sido objecto de estudo, representa&ccedil;&atilde;o e interpreta&ccedil;<i>&atilde;oaolongo da</i> hist&oacute;ria da arte. Num processo paulatino de observa&ccedil;&atilde;o e contempla&ccedil;&atilde;o, Jo&atilde;o Paulo Queiroz explora, por um lado, os significados da percep&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica do espa&ccedil;o e do tempo e, por outro, as mudan&ccedil;as f&iacute;sicas, ora subtis ora dr&aacute;sticas, inerentes <i>&agrave; mat&eacute;ria de</i> uma paisagem natural ao longo de um dia, de um m&ecirc;s e, pensando no conjunto na sua totalidade, ao longo de doze anos.</p>     <p>Este artigo come&ccedil;a por contextualizar, no dom&iacute;nio da hist&oacute;ria da arte, a representa&ccedil;&atilde;o da natureza na sua rela&ccedil;&atilde;o com a ideia de Sublime. Esta ideia &eacute; o tema do artigo, que pretende, no seu desenvolvimento, investigar o car&aacute;cter inquieto da natureza bem como dos processos de representa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica da mesma, atentando na ideia de Sublime. De seguida, pretende-se um olhar &agrave; especificidade do corpo de trabalho de Jo&atilde;o Paulo Queiroz a par de outros exemplos comparativos numa tentativa de perceber converg&ecirc;ncias e diverg&ecirc;ncias ao longo da hist&oacute;ria da arte na representa&ccedil;&atilde;o da paisagem. Ao longo do artigo, o m&eacute;todo narrativo (Boje, 2001) e as compara&ccedil;&otilde;es s&atilde;o os escolhidos pelas caracter&iacute;sticas do trabalho do artista e para permitir uma leitura subjectiva e aberta (Eco, 1962), por oposi&ccedil;&atilde;o a uma leitura dogm&aacute;tica. No entanto, para os objectivos deste texto, n&atilde;o h&aacute; um cap&iacute;tulo dedicado &agrave; metodologia. O artigo termina com uma breve proposta de reflex&atilde;o conclusiva sobre a inquietude partilhada pela natureza e pela pr&aacute;tica de represent&aacute;-la a partir do trabalho de Jo&atilde;o Paulo Queiroz.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. A paisagem: lugar do Sublime e lugar a <i>desublimar</b></p>     <p></i></b>Historicamente, a representa&ccedil;&atilde;o da paisagem n&atilde;o tem sido tratada como um motivo independente na arte Europeia: na maior parte dos casos, apresenta-se como cen&aacute;rio para alguma situa&ccedil;&atilde;o ou como estudo pr&eacute;vio para um desenho, pintura ou escultura (Sarapik, 2012). A paisagem enquanto g&eacute;nero independente surge no trabalho produzido por escolas como a pintura Flamenga do S&eacute;c. XVII e nas ideias do Romantismo do S&eacute;c. XIX. Contudo, apesar de silenciosa, a paisagem sempre foi observada e representada ao longo da Hist&oacute;ria, como testemunham motivos da natureza na Idade M&eacute;dia e do in&iacute;cio do Renascimento, momento no qual a paisagem viria a tornar-se um dos objectos de representa&ccedil;&atilde;o  &ndash;  apesar de, na maior parte das vezes enquanto cen&aacute;rio  &ndash;  mais explorados para contar as hist&oacute;rias da B&iacute;blia e os temas da mitologia cl&aacute;ssica (Sarapik, 2012).</p>     <p>As paisagens, enquanto imagens de cen&aacute;rios naturais, mantiveram-se populares na arte do final do S&eacute;c. XIX e in&iacute;cio do S&eacute;c. XX. Duas inova&ccedil;&otilde;es tornaram a tarefa de desenhar e pintar ao ar livre mais f&aacute;cil: a primeira residiu no desenvolvimento dos transportes, com os comboios e os carros a possibilitarem viagens mais r&aacute;pidas a lugares menos acess&iacute;veis; a segunda assentou no surgimento da tinta em tubo, que permitiu uma portabilidade do material a par da possibilidade de manter-se seco e us&aacute;vel em quaisquer locais.</p>     <p>Motivados em parte pela insatisfa&ccedil;&atilde;o com a cidade moderna, muitos artistas procuraram lugares intocados, pr&oacute;ximos da ideia de para&iacute;so. Nestes lugares, longe do bul&iacute;cio urbano, os artistas podiam focar-se no seu trabalho e observar a natureza em primeira m&atilde;o. Como consequ&ecirc;ncia, muitos ensaios art&iacute;sticos tiveram lugar na natureza, com o uso experimental de tintas e de cores inesperadas, n&atilde;o naturalistas. Artistas como Vincent van Gogh (1853-1890, Holanda), em trabalhos como a <I>The Starry Night</i> (1889), quebraram as fronteiras tradicionais da representa&ccedil;&atilde;o objectiva da natureza apontando para uma representa&ccedil;&atilde;o que assume a natureza enquanto sujeito, numa explora&ccedil;&atilde;o dos lugares psicol&oacute;gicos e espirituais da paisagem.</p>     <p>Esta explora&ccedil;&atilde;o traduz-se de um modo particularmente fascinante na ideia de Sublime entendida pelos artistas nas suas representa&ccedil;&otilde;es da natureza. Nas artes visuais, o Sublime &eacute;, regra geral, associado ao per&iacute;odo entre 1750 e 1850 quando se deu uma nova resposta emocional &agrave; paisagem, primeiramente desenvolvida no trabalho dos pintores Rom&acirc;nticos, e atingindo o apogeu com o trabalho de J.M.W. Turner (1775-1851, Reino Unido). A hist&oacute;ria vigente &eacute; de que o termo ter&aacute; perdido a sua forma original depois de 1850 devido a uma mudan&ccedil;a nos valores est&eacute;ticos e culturais, dando caminho ao Belo como conceito ideal (Prettejohn, 2007), que, por sua vez, &eacute; abandonado com a arte conceptual das d&eacute;cadas de 1960 e 1970 que advoga a primazia da ideia sobre a forma.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De todos os pintores Rom&acirc;nticos influenciados pela est&eacute;tica do Sublime, Turner talvez tenha sido o mais reconhecido pelo sucesso em capturar o efeito de total aus&ecirc;ncia de limites que Edmund Burke (1729-1797, Irlanda) e Immanuel Kant (1724-1804, Alemanha) identificaram como pr&eacute;-requisito &agrave; representa&ccedil;&atilde;o verbal e visual do Sublime enquanto algo que pode ser evocado mas n&atilde;o atingido (Wilton, 1980). Os trabalhos de Turner tipicamente vistos enquanto tradu&ccedil;&atilde;o visual do Sublime usam uma linguagem formal que escapa a defini&ccedil;&otilde;es precisas, usando a pintura enquanto ferramenta para transmitir o simultaneamente aterrorizador e maravilhoso. Atrav&eacute;s de justaposi&ccedil;&otilde;es de escurid&atilde;o e de luz, de efeitos de simbiose, de configura&ccedil;&otilde;es de energia centr&iacute;fuga e de distor&ccedil;&otilde;es de escala, as pinturas de Turner elevam e inspiram a percep&ccedil;&atilde;o do observador.</p>     <p>Mas &eacute; tamb&eacute;m a percep&ccedil;&atilde;o do observador que <i>desublima</i> a paisagem. Esta <i>desublima&ccedil;&atilde;o</i> reside nos modos de ver paisagens que atentam &agrave;s realidades materiais do lugar representado (Wright, 1997). A inclus&atilde;o de observadores contemplativos nas paisagens tornou-se uma ferramenta efectiva para mostrar como uma experi&ecirc;ncia est&eacute;tica poderia ser focada no sujeito que observa, como demonstram, por exemplo, as pinturas de Caspar David Friedrich (1774-1840, Alemanha), que frequentemente inclu&iacute;am uma figura ao fundo a contemplar uma determinada vista de modo a representar a experi&ecirc;ncia da percep&ccedil;&atilde;o de algo sem limites f&iacute;sicos.</p>     <p>Tamb&eacute;m a &ecirc;nfase Pr&eacute;-Rafaelita na particularidade de um lugar eleva as realidades materiais de cada lugar. Paralelo ao fasc&iacute;nio cient&iacute;fico pela hist&oacute;ria natural caracter&iacute;stico de meados do S&eacute;c. XIX, com o seu sentido de curiosidade pela infinitude e complexidade do mundo natural, este per&iacute;odo tornou-se particularmente apelativo para artistas que defendiam a busca da verdade enquanto objectivo primordial da arte (Ansted, 1863).</p>     <p>A ci&ecirc;ncia veio desvendar os imensur&aacute;veis conceitos como tempo, espa&ccedil;o e exist&ecirc;ncia que, simultaneamente, fascinam e aterrorizam o ser humano. E foi este desvendar que veio oferecer uma nova linguagem para evocar o Sublime.</p>     <p>A tens&atilde;o entre a representa&ccedil;&atilde;o do material e do simb&oacute;lico, que pode assinalar a impossibilidade do visual em evocar o Sublime, &eacute; central no trabalho de Holman Hunt (1827-1910, Reino Unido), um dos fundadores do Pr&eacute;-Rafaelismo. O artista viria a fazer a liga&ccedil;&atilde;o com a teoria do poeta Rom&acirc;ntico Samuel Taylor Coleridge (1772-1834, Reino Unido), que anunciava o s&iacute;mbolo como uma forma de conhecimento que quebrava a distin&ccedil;&atilde;o entre sujeito e objecto. Na sua pintura <I>The Light of the World in 1851&ndash;2 (Keble College, Oxford)</i> (1851-53), a ideia de representar a verdade da natureza tornou-se um imperativo moral, entendendo a natureza enquanto representante da verdade transcendente, uma ideia que vem a ser resgatada mais de um s&eacute;culo depois por Luhmann (1984), no seu entendimento do papel social da arte exclusivamente no dom&iacute;nio da percep&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A leitura do "Modern Painters" (1843) de John Ruskin (1819-1900, Reino Unido) t&ecirc;-lo-ia convencido da necessidade de fundir conte&uacute;do moral com realismo e adoptou a ideia de Ruskin do simbolismo tipol&oacute;gico (que residia em ler profecias ao contr&aacute;rio) para mostrar a possibilidade de combinar realismo e simbolismo sem distorcer o primeiro com redund&acirc;ncias aleg&oacute;ricas.</p>     <p>Ruskin &eacute; o autor do termo "arte de paisagem hist&oacute;rica" para descrever o trabalho de Hunt e distinguir dois tipos de Pr&eacute;-Rafaelismo, o po&eacute;tico e o prosaico, sendo o primeiro relativo &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o e o outro do dom&iacute;nio da ci&ecirc;ncia, afirmando que o &uacute;ltimo seria o mais significante para os tempos modernos em gravar monumentos do passado e cenas de beleza natural amea&ccedil;adas pelas for&ccedil;as da moderniza&ccedil;&atilde;o (Cook & Wedderburn, 1903-12). V&aacute;rios artistas, ao longo do S&eacute;c. XIX, influenciados pelas ideias de Ruskin sobre o prosaico, viriam a apresentar os problemas em expressar visualmente o Sublime num questionamento sobre o valor da Arte  &ndash;  cuja funda&ccedil;&atilde;o residiria na filosofia mental, lidando com as influ&ecirc;ncias do mundo externo na mente humana  &ndash;  e da Ci&ecirc;ncia  &ndash;  cuja mat&eacute;ria seria independente da sua rela&ccedil;&atilde;o com o homem, sendo o seu campo o dom&iacute;nio da mente (Brett, 1852). Sob este ponto de vista, a ci&ecirc;ncia e a arte seriam modelos a partir dos quais n&atilde;o se poderia chegar a uma s&iacute;ntese dado que quaisquer tentativas de aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave;s necessidades cient&iacute;ficas por parte da arte resultaria numa perda da perspectiva humana. Com o final do Pr&eacute;-Rafaelismo nos anos de 1860, os objectivos da arte passaram a divergir dos da ci&ecirc;ncia e cada &aacute;rea deveria encontrar os seus pr&oacute;prios termos.</p>     <p>O regresso &agrave; est&eacute;tica do Sublime pode ser visto tamb&eacute;m como uma resposta ao que tem sido descrito enquanto crise de f&eacute; que seguiu as teorias Darwinianas de selec&ccedil;&atilde;o natural e evolu&ccedil;&atilde;o, a par de uma preocupa&ccedil;&atilde;o crescente com as consequ&ecirc;ncias da industrializa&ccedil;&atilde;o e da urbaniza&ccedil;&atilde;o no meio ambiente.</p>     <p>Seguindo a concep&ccedil;&atilde;o Burkiana de Sublime, que toma como miss&atilde;o a busca por uma linguagem secular para uma experi&ecirc;ncia humana profunda, o interesse renovado pelo Sublime, depois do final do Pr&eacute;-Rafaelismo, pode ser visto como uma tentativa de encontrar uma nova linguagem n&atilde;o religiosa mas espiritual. Por outro lado, para os artistas que mantiveram um sentido de f&eacute;, o Sublime representava uma experi&ecirc;ncia religiosa. Nas duas tend&ecirc;ncias, contudo, a paisagem tornava-se, nesta &eacute;poca, um dom&iacute;nio metaf&iacute;sico para a projec&ccedil;&atilde;o de emo&ccedil;&atilde;o, um espa&ccedil;o limite que atravessava factos e sentimentos e no qual a natureza funcionava como reflexo do sujeito observador.</p>     <p>Para Ruskin, artistas como Hunt e George Frederic Watts (1817-1904, Reino Unido), artistas com uma est&eacute;tica pr&oacute;xima de Turner, mantiveram o papel &eacute;tico da arte ao usar o visual como ferramenta para exprimir o mist&eacute;rio e o medo inerentes ao desconhecido. No caso de Watts, com os seus elementos abstractos para comunicar aspira&ccedil;&otilde;es espirituais, o simbolismo servia para entender &aacute;reas da exist&ecirc;ncia humana que residem para l&aacute; da l&oacute;gica cient&iacute;fica. O simbolismo abstracto de Watts pode ser visto como um ponto de partida para a abstrac&ccedil;&atilde;o do Sublime que podemos encontrar no S&eacute;c. XX, nos padr&otilde;es densos da energia centr&iacute;fuga do Caos e nas paisagens apocal&iacute;pticas abstractas de artistas como Wassily Kandinsky (1866-1944, R&uacute;ssia).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Jean-Fran&ccedil;ois Lyotard (1924-1998, Fran&ccedil;a), com o seu <I>The Postmodern Condition</i> (1979), veio definir a ideia de p&oacute;s-moderno enquanto final das grandes-narrativas que tomamos como verdades absolutas, uma defini&ccedil;&atilde;o que confrontava os sistemas pol&iacute;ticos, culturais e epistemol&oacute;gicos com os seus pr&oacute;prios limites, nos quais deixam de operar. Era este tipo de potencial em traduzir este tipo de confronto que Lyotard viu numa arte do Sublime, desta &eacute;poca, que residiria na apresenta&ccedil;&atilde;o do irrepresent&aacute;vel. Actos radicais na arte contempor&acirc;nea podem efectivamente recusar a compreens&atilde;o e a inclus&atilde;o em categorias de significado e narrativas pr&eacute;-concebidas confrontando assim os observadores com as suas limita&ccedil;&otilde;es conceptuais. As paisagens industriais de Edward Burtynsky (1955, Canad&aacute;), com o seu car&aacute;cter esmagadoramente destruidor, os espa&ccedil;os criados por Anish Kapoor (1954, &Iacute;ndia) nos quais somos convidados a entrar e onde somos engolidos pela diferen&ccedil;a de escala ser&atilde;o exemplares das representa&ccedil;&otilde;es do Sublime na arte contempor&acirc;nea, primeiro enunciada por Lyotard com a sua concep&ccedil;&atilde;o de p&oacute;s-modernismo.</p>     <p>Muitos dos temas provocados pelo Sublime ao longo da Hist&oacute;ria, desde os assentes na ideia de que o moderno &eacute; muito mais sobre libertar as for&ccedil;as aterrorizadoras do que dominar o ambiente na sua mat&eacute;ria aos que elevam o car&aacute;cter singular de cada aspecto material da natureza, ajudam a explicar porque &eacute; que as m&uacute;ltiplas formas do Sublime  &ndash;  e de <i>desublimar</i>  &ndash;  continuaram a fascinar os artistas do S&eacute;c. XX e a prevalecer na contemporaneidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Jo&atilde;o Paulo Queiroz: acalmar a natureza inquieta do lugar</b></p>     <p>Quando estamos perante este conjunto, tornamo-nos testemunhas das mudan&ccedil;as da mesma paisagem ao longo de um m&ecirc;s nos &uacute;ltimos doze anos com as datas sempre indicadas na parte superior do desenho  &ndash;  como 13 de agosto e 8 de setembro de 2015 &ndash;, escritas &agrave; m&atilde;o tamb&eacute;m com o pastel de &oacute;leo. Mesmo que n&atilde;o tiv&eacute;ssemos quaisquer informa&ccedil;&otilde;es sobre a localiza&ccedil;&atilde;o exacta destes desenhos, as oliveiras, as azinheiras, os sobreiros, as pedras de calc&aacute;rio, com a identidade das suas tipologias e esp&eacute;cies denunciam a sua liga&ccedil;&atilde;o indubit&aacute;vel a Portugal (<a href="#f1">Figura 1</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v8n17/8n17a03f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A escolha do pastel de &oacute;leo prende-se com as necessidades intr&iacute;nsecas &agrave; representa&ccedil;&atilde;o da natureza: a natureza &eacute; mais r&aacute;pida que n&oacute;s, pede-nos velocidade, as sombras correm, as cores mudam a um ritmo que mal conseguimos acompanhar em observa&ccedil;&atilde;o e que, mesmo em meios como a fotografia e o v&iacute;deo ser&aacute; sempre imposs&iacute;vel de captar em toda a sua complexidade. E &eacute; tamb&eacute;m esta necessidade de velocidade que determina o formato pequeno.</p>     <p>O formato pintado, ao longo de todo o conjunto, &eacute; repetida e propositadamente quadrado. Trata-se de uma escolha consciente de ren&uacute;ncia &agrave; seguran&ccedil;a do rect&acirc;ngulo de ouro encontrado na natureza, nas artes e na arquitetura, e incorporado por artistas como Piet Mondrian (1872-1944, Holanda), Le Corbusier (1887-1965, Su&iacute;&ccedil;a) e Leonardo da Vinci (1452-1519, It&aacute;lia), matem&aacute;ticos e arquitectos, desde a Gr&eacute;cia cl&aacute;ssica at&eacute; &agrave; contemporaneidade. O rect&acirc;ngulo de ouro representa a busca permanente da harmonia e da beleza. Pela express&atilde;o do movimento, mantendo-se em espiral at&eacute; ao infinito, o rect&acirc;ngulo de ouro exprime o Belo.</p>     <p>Ao optar pelo quadrado em vez do rect&acirc;ngulo de ouro para representar esta natureza especifica, &agrave; qual tem retomado nos &uacute;ltimos doze anos, Jo&atilde;o Paulo Queiroz assume o desafio da dificuldade  &ndash;  ou da impossibilidade  &ndash;  de exprimir o Belo na sua plenitude.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nas primeiras s&eacute;ries, os desenhos surgiam como s&iacute;nteses, como um exerc&iacute;cio de mem&oacute;ria, numa ambiciosa busca permanente ao que a observa&ccedil;&atilde;o das cores intensas das &aacute;rvores e das pedras escreve e esconde, simultaneamente. At&eacute; 2010, estamos perante uma aproxima&ccedil;&atilde;o clara aos referentes. Enquanto nos primeiros anos da s&eacute;rie o ch&atilde;o mostra a sua posi&ccedil;&atilde;o mais perto de n&oacute;s, nos seus imensos acidentes (<a href="#f2">Figura 2</a>)., a partir de 2010, de um modo gradual at&eacute; aos &uacute;ltimos anos, o olhar levanta-se e come&ccedil;a a revelar o c&eacute;u nos seus movimentos r&aacute;pidos. Se por um lado o c&eacute;u concede um car&aacute;cter de familiaridade aos desenhos, por outro, a representa&ccedil;&atilde;o torna-se mais complexa a n&iacute;vel da forma e, essencialmente, nas suas camadas de interpreta&ccedil;&atilde;o (<a href="#f3">Figura 3</a>, <a href="#f4">Figura 4</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v8n17/8n17a03f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v8n17/8n17a03f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v8n17/8n17a03f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A um primeiro olhar, vemos &aacute;rvores, todas tratadas de modo igual. Contudo, sob um olhar mais atento, rapidamente percebemos que as &aacute;rvores que aparecem aqui representadas  &ndash;  ora em primeiro plano, ora em grupos num plano mais afastado  &ndash;  e que foram escolhidas para serem desenhadas s&atilde;o, claramente desafiantes ao n&iacute;vel da t&eacute;cnica: troncos retorcidos, copas de &aacute;rvores com recortes que s&oacute; se deixam adivinhar perante o contraste com um c&eacute;u em constante muta&ccedil;&atilde;o, texturas imposs&iacute;veis ao olho humano, nos seus detalhes e tonalidades infinitas. Jo&atilde;o Paulo Queiroz fala de "acalmar a natureza" e &eacute; disso que se trata: selecciona as &aacute;rvores mais rebeldes e trata depois de seren&aacute;-las, com o tra&ccedil;o, para que as olhemos como &aacute;rvores que s&atilde;o, no seu crescimento e movimentos lentos, e n&atilde;o como muitas vezes pensamos v&ecirc;-las, humanizadas e &agrave; nossa semelhan&ccedil;a, com troncos que nos lembram bra&ccedil;os agitados.</p>     <p>Na &uacute;ltima s&eacute;rie do conjunto at&eacute; &agrave; data (2016), h&aacute; um foco num dos elementos desta paisagem espec&iacute;fica. Todos os desenhos desta s&eacute;rie  &ndash;  a mais longa do conjunto  &ndash;  confidenciam o regresso ao mesmo local e a tomada do mesmo referente, das mesmas &aacute;rvores, prancha ap&oacute;s prancha, em cento e doze desenhos. Com as varia&ccedil;&otilde;es dos dias, das horas, das inclina&ccedil;&otilde;es do sol &agrave; mesma hora, em cada desenho as &aacute;rvores escrevem-se diferentes. Tal como todas as outras &aacute;rvores representadas ao longo dos doze anos, vivem nesta zona de Portugal mediterr&acirc;neo. Azinheiras ainda novas, n&atilde;o se apresentam com caracter&iacute;sticas especiais nas suas formas ou simbolismos mas sim como verdadeiras daquela paisagem, tal como a luz, a terra os sobreiros, as oliveiras, as pedras, e a erva de sequeiro representadas ao longo de todo o conjunto determinado pelas doze s&eacute;ries.</p>      <p>A natureza, neste conjunto de Jo&atilde;o Paulo Queiroz, apresenta-se mais como resultado de uma experi&ecirc;ncia interpretativa e vivencial do que como um argumento ou uma tem&aacute;tica  &ndash;  incide nos aspectos nos quais a natureza se sobrep&otilde;e a uma no&ccedil;&atilde;o visual de paisagem e encontra uma uni&atilde;o corporal com o ser humano. O desenvolvimento da representa&ccedil;&atilde;o da natureza neste conjunto, no qual o acto de desenhar assenta num esfor&ccedil;o continuado do corpo, pode ser comparado com a filosofia fenomenol&oacute;gica de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961, Fran&ccedil;a) e, em particular, &agrave;s no&ccedil;&otilde;es de experi&ecirc;ncia contida e interconectividade, nas quais defendia que o nosso objectivo constante, enquanto seres humanos, residiria em assumirmos uma posi&ccedil;&atilde;o nos espa&ccedil;os, nos objectos e nas ferramentas, descrevendo o corpo como o lugar onde esta apropria&ccedil;&atilde;o acontece (Merleau-Ponty, 1945).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Muitas vezes, pensamos no trabalho do artista contempor&acirc;neo como um trabalho de atelier. Contudo, aqui, somos transportados para a realidade dos Impressionistas do S&eacute;c. XIX que pintavam ao ar livre e espontaneamente nos lugares que escolhiam em vez de num atelier a partir de estudos.</p>     <p>Cada um dos desenhos aqui apresentado foi produzido ao longo de um dia, independentemente das condi&ccedil;&otilde;es meteorol&oacute;gicas, desde o amanhecer ao entardecer, at&eacute; ao ponto em que se torna imposs&iacute;vel ver com nitidez, como o c&eacute;u mas tamb&eacute;m os jogos de luz e de sombra nas &aacute;rvores, na vegeta&ccedil;&atilde;o e nas pedras denunciam. Em alguns desenhos podemos ver que estaria prestes a chover e noutros, que estaria, de facto a chover (como o desenho "c" de 31 de Agosto da s&eacute;rie de 2015). Outros desenhos revelam dias de muito sol e podemos adivinhar a dificuldade de manter os past&eacute;is de &oacute;leo sem derreter antes de tocarem a superf&iacute;cie de papel (como o desenho "b" de 4 de Agosto ou o "c" de 8 de Agosto, tamb&eacute;m da s&eacute;rie de 2015).</p>     <p>Num processo reminiscente do de Impressionistas como Paul C&eacute;zanne (1839-1906, Fran&ccedil;a), em pinturas como <I>L'All&eacute;e au Jas de Bouffan</i> (c. 1874-75), a composi&ccedil;&atilde;o dos desenhos das &uacute;ltimas s&eacute;ries do conjunto &eacute; complexa, nas formas densas, na folhagem com diferentes tonalidades, nos recortes cuidados das copas das &aacute;rvores, nos troncos dram&aacute;ticos que aqui s&atilde;o serenados, e nos c&eacute;us em constante muta&ccedil;&atilde;o como vemos nos v&aacute;rios desenhos, de "a" a "e", ao longo de cada dia, correspondente a cada m&ecirc;s e a cada ano.</p>     <p>A especificidade identit&aacute;ria da natureza, do campo, e das &aacute;rvores que n&atilde;o teve toda a aten&ccedil;&atilde;o nas representa&ccedil;&otilde;es de paisagem na Hist&oacute;ria da Arte Portuguesa, &eacute; sujeita a um olhar anal&iacute;tico e detalhado de Jo&atilde;o Paulo Queiroz. Com um convite a uma imers&atilde;o total na contempla&ccedil;&atilde;o, o mundo que este olhar nos apresenta assenta, contudo, t&atilde;o paradoxal quanto conscientemente, mais do que na impress&atilde;o subjectiva de um determinado lugar, no car&aacute;cter inescap&aacute;vel da mudan&ccedil;a inquieta e inquietante que representa os ciclos de vida e morte, e &eacute;, afinal, inerente tanto &agrave; natureza como ao ser humano.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o: uma breve reflex&atilde;o sobre a inquietude da pr&aacute;tica do desenho</b> </p>     <p>Perante os desenhos de Jo&atilde;o Paulo Queiroz somos, simultaneamente, confrontados com a quietude desta paisagem espec&iacute;fica, que permanece livre de interven&ccedil;&otilde;es humanas ao longo de mais de uma d&eacute;cada, e com a sensa&ccedil;&atilde;o inquietante inerente &agrave; natureza que nos escapa na sua vastid&atilde;o.</p>     <p>Se por um lado, este conjunto se apresenta como uma <i>desublima&ccedil;&atilde;o</i> da paisagem  &ndash;  a mat&eacute;ria deste lugar adquire uma import&acirc;ncia de protagonista, com a preocupa&ccedil;&atilde;o em identificar e revelar as esp&eacute;cies naturais caracter&iacute;sticas da zona  &ndash;  por outro lado, a quietude buc&oacute;lica que compete com a mutabilidade constante da mesma mat&eacute;ria natural, convoca a sensa&ccedil;&atilde;o de falta de controlo diante de algo que na sua velocidade e ritmo, n&atilde;o conseguimos deter e apreender.</p>     <p>A metodologia de Jo&atilde;o Paulo Queiroz, baseada na observa&ccedil;&atilde;o repetida de um mesmo lugar num m&ecirc;s de Ver&atilde;o, na dificuldade que essa escolha temporal apresenta para o dom&iacute;nio da t&eacute;cnica (os past&eacute;is de &oacute;leo, que derretem; o corpo que fica exposto ao calor ao longo dos dias de Ver&atilde;o), traduz-se num aparente afastamento da est&eacute;tica do Sublime. A busca paulatina, ao longo de doze anos, pela melhor e mais fiel representa&ccedil;&atilde;o das oliveiras, das azinheiras, dos sobreiros, das pedras de calc&aacute;rio, est&aacute; t&atilde;o ligada ao desejo de aproxima&ccedil;&atilde;o e entendimento da dureza da natureza quanto &agrave; busca pela identifica&ccedil;&atilde;o por parte dos segundos observadores (n&oacute;s).</p>     <p>Com esta metodologia, Jo&atilde;o Paulo Queiroz aponta para uma nova forma de express&atilde;o visual. Nas v&aacute;rias s&eacute;ries que comp&otilde;em os desenhos, a experi&ecirc;ncia de fasc&iacute;nio &eacute; conseguida ora por uma sensa&ccedil;&atilde;o de aproxima&ccedil;&atilde;o aos detalhes daquilo que nos &eacute; mais pr&oacute;ximo  &ndash;  o ch&atilde;o e o que conseguimos tocar das &aacute;rvores representados em cada tonalidade da folhagem, da terra e das pedras (nas primeiras s&eacute;ries)  &ndash;  ora por uma sensa&ccedil;&atilde;o de afastamento daquilo que nos escapa, f&iacute;sica e conceptualmente  &ndash;  o c&eacute;u imenso, nublado ou limpo (nas &uacute;ltimas s&eacute;ries).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao convidar-nos a identificar as esp&eacute;cies com as suas caracter&iacute;sticas particulares e a contemplar a vastid&atilde;o de uma natureza em constante muta&ccedil;&atilde;o, os desenhos de Jo&atilde;o Paulo Queiroz evocam, por um lado, a no&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica de Sublime de Kant  &ndash;  a ideia de que a mente det&eacute;m o poder de estender as fronteiras do que a imagina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o consegue compreender que, neste caso, se revela nas m&uacute;ltiplas e c&iacute;clicas rela&ccedil;&otilde;es entre tempo e espa&ccedil;o que no limite se referem aos ciclos de vida e morte partilhados entre a natureza e o ser humano. Os motivos representados nestes desenhos  &ndash;  em especial as &aacute;rvores  &ndash;  actuam enquanto guias que nos conduzem tamb&eacute;m a sentimentos de deslumbramento, uma ideia reminiscente da no&ccedil;&atilde;o de Sublime de Samuel Taylor Coleridge na qual a consci&ecirc;ncia individual seria engolida por uma sensa&ccedil;&atilde;o de eternidade. Por outro lado, a identifica&ccedil;&atilde;o que Jo&atilde;o Paulo Queiroz alme ja com sucesso, do observador perante a especificidade e identidade destas esp&eacute;cies naturais, leva-nos de volta ao nosso mundo, real e palp&aacute;vel que n&atilde;o partilha a sensa&ccedil;&atilde;o de deslumbramento criada pelo Sublime. E &eacute; precisamente na inquietude provocada pela tens&atilde;o entre as duas sensa&ccedil;&otilde;es  &ndash;  o Sublime e a <i>desublima&ccedil;&atilde;o</i>  &ndash;  que reside, paradoxalmente, o fasc&iacute;nio pela natureza, por esta natureza aqui representada.</p>     <p>Diz Jo&atilde;o Paulo Queiroz que as &aacute;rvores "ensinam coisas, que demoram a aprender. Uma delas &eacute; que entre elas e eu, elas ganham" (Queiroz, 2016). O que a hist&oacute;ria de arte nos ensina, &eacute; que talvez a natureza  &ndash;  seja no seu car&aacute;cter Sublime ou <i>desublimada</i>, sempre em co-exist&ecirc;ncia com as preocupa&ccedil;&otilde;es do que &eacute; ser(-se) humano  &ndash; , ganha sempre face &agrave;s nossas tentativas de representa&ccedil;&atilde;o e de apreendermos o mundo que nos rodeia na sua totalidade. E ser&aacute; talvez essa nossa derrota que nos continuar&aacute; a manter fascinados e aterrados perante a (nossa) natureza.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Ansted (1863). <I>Science and Art V: On the General Relation of Physical Geography and Geology to the Progress of Landscape Art in Various Countries</i>, Art Journal, Dezembro 1863, p. 235.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451271&pid=S1647-6158201700010000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Boje, David (2001). <I>Narrative Methods for Organizational and Communication Research</i>. London: Sage.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451273&pid=S1647-6158201700010000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Bourriaud, Nicolas (1998). <I>Relational Aesthetics.</i> Dijon: Les Presses Du Reel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451275&pid=S1647-6158201700010000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p></i>Brett, John, entrada de di&aacute;rio, 23 Abril 1852, <i>in</i> Charles Brett (ed.), <I>John Brett, Diary 1851&ndash;1860</i>, manuscrito n&atilde;o publicado, 2002, p.12.</p>     <p>Cook & Wedderburn (ed.) (1903&ndash;12). <I>The Works of John Ruskin</i>, vol.14, Lancaster: Lancaster University, pp.465, 464&ndash;70.</p>     <!-- ref --><p>Eco, Umberto (1986). <I>Obra Aberta: Forma e Indetermina&ccedil;&atilde;o nas Po&eacute;ticas Contempor&acirc;neas.</i> S&atilde;o Paulo: Editora Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451279&pid=S1647-6158201700010000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Joll, Evelyn (ed.) (2001). <I>The Oxford Companion to J.M.W. Turner</i>, Oxford: Oxford University Press, pp. 26-259.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451281&pid=S1647-6158201700010000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Lyotard, Jean-Fran&ccedil;ois (1982). <i>"Presenting the Unpresentable: The Sublime",</i> traduzido por Lisa Liebmann, Artforum April, 20(8): pp.64&ndash;69.</p>     <!-- ref --><p>Luhmann, Niklas (1984). <I>Soziale Systeme: Grundri&szlig; einer allgemeinen Theorie,</i> Frankfurt: Suhrkamp.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451284&pid=S1647-6158201700010000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Merleau-Ponty, Maurice (1945). <I>Phenomenology of Perception</i>, trad. Colin Smith, London: Routldege, 2002, p.178.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451286&pid=S1647-6158201700010000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Prettejohn, Elizbeth (2007). <I>Art for Art's Sake: Aestheticism in Victorian Painting</i>, London and New Haven: Yale University Press.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451288&pid=S1647-6158201700010000300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Sarapik, Virve (2002). <I>Landscape: The problem of representation</i>. V. Sarapik, K. T&uuml;&uuml;r, M. Laanemets. Koht ja paik/Place and Location (183-200). Tallinn: Eesti Kunstiakadeemia. (Proceedings of the Estonian Academy of Arts; 10).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451290&pid=S1647-6158201700010000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Shaw, Philip (2006). <I>The Sublime</i>, London: Routledge, p.94.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451292&pid=S1647-6158201700010000300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Wilton, Andrew (1980). <I>Turner and the Sublime</i>. (cat&aacute;logo de exposi&ccedil;&atilde;o). London: British Museum.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1451294&pid=S1647-6158201700010000300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>Wright, Alastair Ian (1997). "Suburban Prospects: Vision and Possession in Ford Madox Brown's An English Autumn Afternoon", in Margaretta Frederick Watson (ed.), <I>Collecting the Pre-Raphaelites: The Anglo-American Enchantment</i>, Aldershot: Ashgate, pp.192&ndash;3.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 5 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro 2017</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:luisa.santos@network.rca.ac.uk">luisa.santos@network.rca.ac.uk</a> (Lu&iacute;sa Santos)</p>      ]]></body><back>
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