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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Felippe Moraes: tudo o que nos ultrapassa]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Faculdade de Belas-Artes Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes (CIEBA)]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The following article develops a brief reflection on the plastic work of the brazilian artist Felippe Moraes, triggered by a seemingly paradoxical alliance between scientific methodology and spiritual search. Throughout the text not only his motivations are analyzed but also the works that were shaped by them. It is concluded that the body of work of Moraes is a singular praise to the human condition, and to the permanent quest to understand it in its distinct dimensions.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>Artigos originais</b> </p>     <p align="right"><b>Original articles</b></p>     <p><b>Felippe Moraes: tudo o que nos ultrapassa</b></p>     <p><b>Felippe Moraes: everything that is beyond us</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Susana Rocha&#42;</b></p>     <p>&#42;Portugal, artista visual. Mestre em Ensino de Artes Visuais, Universidade de Lisboa. Mestre em Pintura, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL). Licenciada em Pintura, FBAUL. </p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o e Estudos em Belas-Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas Artes, 1249-058 Lisboa, Portugal. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumo:</b> </p>     <p>O presente artigo desenvolve uma breve reflex&atilde;o sobre a obra pl&aacute;stica do artista brasileiro Felippe Moraes, nascida de uma alian&ccedil;a aparentemente paradoxal entre metodologia cient&iacute;fica e busca espiritual. Ao longo do texto s&atilde;o analisadas n&atilde;o s&oacute; as suas motiva&ccedil;&otilde;es como as obras que lhes d&atilde;o forma. Conclui-se que a obra de Moraes &eacute; um elogio singular &agrave; condi&ccedil;&atilde;o humana, e ao &iacute;mpeto da busca por compreend&ecirc;-la nas suas distintas dimens&otilde;es.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> Felippe Moraes / Arte Contempor&acirc;nea / M&eacute;todo / Espiritualidade / Paradoxo. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Abstract:</b> </p>     <p>The following article develops a brief reflection on the plastic work of the brazilian artist Felippe Moraes, triggered by a seemingly paradoxical alliance between scientific methodology and spiritual search. Throughout the text not only his motivations are analyzed but also the works that were shaped by them. It is concluded that the body of work of Moraes is a singular praise to the human condition, and to the permanent quest to understand it in its distinct dimensions. </p>     <p><b>Keywords:</b> Felippe Moraes / Contemporary Art / Method / Spirituality / Paradox. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Arte e ci&ecirc;ncia t&ecirc;m, ao longo da hist&oacute;ria, oscilado entre uma rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima e convergente e uma rela&ccedil;&atilde;o conflituosa e dissonante, que revela as assimetrias poss&iacute;veis entre dois grandes campos que acompanham o percurso da humanidade. Se a estes adicionarmos a f&eacute;, como uma terceira grande for&ccedil;a motriz do &iacute;mpeto do ser humano e como um terceiro grande produto do nosso intelecto, estamos perante uma trindade de complexas e profundas rela&ccedil;&otilde;es, com m&uacute;ltiplas nuances e idiossincrasias, que tornam poss&iacute;vel formular todas as grandes quest&otilde;es sobre cada uma das equa&ccedil;&otilde;es que nos ultrapassa.</p>     <p>&Eacute; neste cruzamento de universos que podemos encontrar a obra de Felippe Moraes, artista brasileiro oriundo do Rio de Janeiro, cidade onde nasceu em 1988. </p>     <p>Actualmente doutorando em Arte Contempor&acirc;nea no Col&eacute;gio das Artes da Universidade de Coimbra, Felippe Moraes &eacute; um artista pl&aacute;stico representado pela proeminente Galeria Bar&oacute; de S&atilde;o Paulo, tendo sido, entre outras relevantes distin&ccedil;&otilde;es, escolhido como finalista do Pr&eacute;mio EDP (SP) e financiado pelo Pr&eacute;mio Arte Monumento 2016 (FUNARTE).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. A ci&ecirc;ncia como m&eacute;todo para questionar a ci&ecirc;ncia</b> </p>     <blockquote>     <p><i>Nem mesmo catalogando consigo compreender a dimens&atilde;o subjectiva do mundo.</i>(Moraes, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal)</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>Felippe Moraes tem constru&iacute;do, no decorrer dos &uacute;ltimos anos, uma obra que alia dois aspectos basilares da nossa cultura: uma met&oacute;dica racionalidade cient&iacute;fica focada nos processos e nos valores mensur&aacute;veis, e a procura de algo transcendente que explique o que a raz&atilde;o n&atilde;o consegue.</p>     <p>Sentindo o mundo como a continuidade de uma dimens&atilde;o espiritual, mas ciente de que a sociedade contempor&acirc;nea tende a valorizar e operar a partir de verdades concretas e absolutas, Felippe Moraes aceita o desafio, e parece partir de um lugar de desconfian&ccedil;a deste sistema estritamente racional  &ndash;  onde tudo precisa de ser logicamente comprovado e respondido  &ndash;  para instrumentalizar e usar regras e processos cient&iacute;ficos de um modo subversivo, chegando a um lugar de f&eacute; em algo maior e sem nome. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Assim, a matem&aacute;tica enquanto linguagem limitada pelas suas pr&oacute;prias regras e voc&aacute;bulos torna-se, neste contexto, insuficiente ao inv&eacute;s de uma provedora de verdade absoluta. E a f&eacute;, numa cren&ccedil;a que n&atilde;o se resume &agrave; ideia de Deus, pode traduzir-se apenas num desejo de infinito. </p>     <p>Aparentemente paradoxais, as duas ambival&ecirc;ncias, imperativo metodol&oacute;gico-cient&iacute;fico e vontade de cren&ccedil;a numa transcend&ecirc;ncia infinita, sustentam uma procura m&eacute;trica e processual, que questiona a ci&ecirc;ncia atrav&eacute;s da pr&oacute;pria ci&ecirc;ncia. Nesse processo come&ccedil;amos a compreender que, tamb&eacute;m no dom&iacute;nio cientifico, existem perguntas &agrave;s quais n&atilde;o &eacute; dada resposta por exiguidade de um conhecimento inerentemente racional no qual nos habituamos a confiar como &uacute;nico e constante emissor de respostas, h&aacute;bito que Moraes permanentemente contraria, esfor&ccedil;ando-se por tornar vis&iacute;veis as for&ccedil;as imateriais que participam e, qui&ccedil;&aacute;, sustentam a nossa exist&ecirc;ncia. </p>     <p>Numa po&eacute;tica delicada e atenta &agrave;s pequenas subtilezas, as formula&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas evocadas tornam-se fic&ccedil;&otilde;es entr&oacute;picas, e desse modo absolutamente contrarias ao positivismo que se poderia deduzir do aspecto formal das obras criadas pelo artista (<a href="#f1">Figura 1</a>). No final, o que mais parece importar a Moraes &eacute; a busca por respostas, o desencadear de resson&acirc;ncias internas que despertem as quest&otilde;es mais profundas e universais da humanidade  &ndash;  e para as quais n&atilde;o &eacute; necessariamente oferecida uma resposta verific&aacute;vel. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Nas palavras do curador Alexandre S&aacute;, o trabalho de Felippe Moraes: </p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>     <p>(...) <i>tem como material sem&acirc;ntico a ci&ecirc;ncia. Suas f&oacute;rmulas e suas fabula&ccedil;&otilde;es est&atilde;o ali. As equa&ccedil;&otilde;es matem&aacute;ticas, as topologias do terreno (subjectivo e objectivo), a geologia do espa&ccedil;o (entre o eu e o tu) e todas as outras possibilidades de compreens&atilde;o e utiliza&ccedil;&atilde;o do af&atilde; quantitativo que se estabelece enquanto pesquisa. Contudo, Felippe Moraes faz uso deste material de maneira l&uacute;dica, consideravelmente ficcional, como se soubesse da verdade que atravessa tais c&aacute;lculos e exactamente por isto, optasse assumidamente por desconfiar deles, torcendo-os e aplicando-os j&aacute; de outra forma, na materialidade refinada dos objectos e proposi&ccedil;&otilde;es; promovendo um tipo de lastro po&eacute;tico que se sustenta pela coragem da sua d&uacute;vida, pela certeza inelut&aacute;vel de suas ang&uacute;stias e pela instabilidade de suas formula&ccedil;&otilde;es pl&aacute;sticas</i> (S&aacute;: 2016).</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>2. Uma rede de refer&ecirc;ncias</b></p>     <p>A introdu&ccedil;&atilde;o de enuncia&ccedil;&otilde;es matem&aacute;ticas ou cient&iacute;ficas como meio para tentar compreender e expressar o espiritual atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica permite tra&ccedil;ar uma extensa e antiga &aacute;rvore geneal&oacute;gica para a pr&aacute;tica de Felippe Moraes. </p>     <p>A influ&ecirc;ncia da teosofia na arte existe desde tempos imemoriais; a representa&ccedil;&atilde;o da geometria sagrada na arte prolongou-se durante s&eacute;culos; a matem&aacute;tica e a propor&ccedil;&atilde;o &aacute;urea foram essenciais ao Renascimento; o simbolismo geom&eacute;trico de car&aacute;cter universalizante participou do Construtivismo; a m&eacute;trica musical esteve profundamente associada &agrave; Abstrac&ccedil;&atilde;o L&iacute;rica... Por&eacute;m todos estes momentos fazem parte de uma hist&oacute;ria longa e j&aacute; bem contada. </p>     <p>Apesar de claramente se denotar a influ&ecirc;ncia de antigos g&eacute;nios, como Euclides ou Leonardo Da Vinci, na obra de Moraes, bem como a influ&ecirc;ncia posterior de Kasimir Malevich ou mesmo de Piet Mondrian, se quisermos nomear parentes art&iacute;sticos menos distantes de Felippe Moraes temos que focar, sobretudo, a contemporaneidade.</p>     <p>Artistas conceptuais como Walter de Maria, Joseph Kosuth e Sol Lewitt abriram caminho e revelaram-se marcantes na aceita&ccedil;&atilde;o do m&eacute;todo enquanto possibilidade art&iacute;stica, e &eacute; neles que a rede de refer&ecirc;ncias de Felippe Moraes verdadeiramente se enra&iacute;za. </p>     <blockquote>     <p><i>Acredito que, sem esses artistas, talvez n&atilde;o tivesse chegado &agrave;s minhas conclus&otilde;es. Acontece como na met&aacute;fora de estarmos sentados sobre os ombros de gigantes: s&oacute; vemos alguns horizontes em dado momento hist&oacute;rico, porque outros estabeleceram uma estrada para que caminh&aacute;ssemos por ela.</i>     <br> <I>Walter De Maria &eacute; particularmente importante para mim pelo trabalho "Broken Kilometer", que discute</i> a no&ccedil;&atilde;o de tamanho, de propor&ccedil;&atilde;o e d<i>e arbitrariedade das unidades de medida. Sol Lewitt interessa-me muito no sentido das regras que estabelece para desenhar e como, dessa forma, o desenho &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o directa da aplica&ccedil;&atilde;o de um m&eacute;todo. Kosuth, por sua vez, interessa-me por reflectir acerca da linguagem e de suas diferentes manifesta&ccedil;&otilde;es.</i> (...)     <br> <I>No sentido mais transcendental do meu trabalho, inseriria, por exemplo Kasemir Malevich, Mondrian, Yves Klein e Anish Kapoor. Acredito que esses, com o passar de pouco mais de um s&eacute;culo est&atilde;o, afinal, a falar das mesmas coisas mas com linguagens pr&oacute;prias dos seus tempos. Falam de uma certa capacidade de ultrapassar o mundo do tang&iacute;vel por meio da forma e da experi&ecirc;ncia da mesma.</i>    <br> <I>Como refer&ecirc;ncia na arte brasileira, Ant&otilde;nio Dias sempre foi um artista, como eu dividido entre o pragmatismo e o espiritual. O que me interessa nele, principalmente, s&atilde;o as suas fases mais conceptuais, em que estabelece "grids" convocando rela&ccedil;&otilde;es humanas e mapas estelares</i> (Moraes, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal).</p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Cada um destes fortes exemplos ecoa no universo de refer&ecirc;ncias do artista Felippe Moraes, podendo a sua influ&ecirc;ncia ser pressentida no decorrer da descoberta da sua obra. Assim sendo, resta-nos descobri-la. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. O verbo e o seu peso</b></p>     <p>Em 2009, Felippe Moraes inicia a obra "Verbo" (2009-2010) (<a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>). Num processo quase ritualista, que demora cerca de 7 meses a ser completado, o artista recorta todas as apari&ccedil;&otilde;es da palavra "Deus" presentes numa B&iacute;blia. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Partindo do conceito formulado no primeiro Evangelho de Jo&atilde;o: "No princ&iacute;pio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (JO 1:1) "E o Verbo se fez carne, e habitou entre n&oacute;s" (JO 1:4), Moraes tenta, atrav&eacute;s deste fonema, que se torna palavra, e que impresso se materializa, encontrar e extrapolar o "verbo" que &eacute; "Deus", para fora do texto  &ndash;  ou seja, materializar este "verbo"; torn&aacute;-lo "carne"; tornar o imaterial, palp&aacute;vel. De seguida, cataloga as 5101 apari&ccedil;&otilde;es da palavra, em folhas A4.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Quando confrontados com os espa&ccedil;os vazios do livro, percebemos que a palavra "Deus" parece realmente carregar uma pot&ecirc;ncia que abandonou o texto, e que agora nos confronta, vertical, na parede em frente. </p>     <p>&Eacute; certo que a ideia de Deus, como acontece com todas as coisas, &eacute; mais poderosa que a palavra que possibilita nome&aacute;-la. Por&eacute;m, a palavra n&atilde;o se dilui quando separada da narrativa. J&aacute; a narrativa, com os seus espa&ccedil;os vazios, parece sugerir-nos poder ser preenchida com qualquer outra designa&ccedil;&atilde;o deste mesmo, ou de um outro qualquer Deus. </p>     <p>Num momento posterior, Felippe Moraes cria um desdobramento desta obra. Designa-o "O Peso do Verbo" (2010-2014). Numa cont&iacute;nua procura por dar forma ao espiritual, o artista apresenta-nos uma balan&ccedil;a que equilibra o peso dos 5101 recortes da palavra Deus, com 15g de sal. Na parede atr&aacute;s da balan&ccedil;a, s&atilde;o tamb&eacute;m dispostos em frascos de vidro, mais 71 reagentes qu&iacute;micos. Desta forma, Moraes parece evocar a possibilidade de Deus se encontrar em pot&ecirc;ncia, nas reac&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas para as quais os v&aacute;rios reagentes remetem. </p>     <p>Neste jogo metaf&oacute;rico, digno de um incans&aacute;vel alquimista, onde o artista evidencia que tudo o que tem um peso, e que reage quimicamente, inevitavelmente existe, s&atilde;o usados m&eacute;todos considerados cient&iacute;ficos, que, no entanto, nos conduzem a descobertas sem resultados maiores. Embora "Deus" possa ser contabilizado, materializado e at&eacute; pesado... continuamos no final do processo, precisamente onde come&ccedil;amos: com a desconfian&ccedil;a de que para verdadeiramente tornar Deus em algo concreto a metodologia cientifica n&atilde;o servir&aacute;. O trabalho de Felippe Moraes, pertence deste modo ao dom&iacute;nio da fenomenologia, mas remete-nos sempre para o que est&aacute; para al&eacute;m dela. &Eacute; desse modo um trabalho de evoca&ccedil;&otilde;es, onde os fracassos da ci&ecirc;ncia se tornam evid&ecirc;ncia de transcend&ecirc;ncia. Onde o relevante est&aacute; para al&eacute;m de n&oacute;s. </p>     <p>Por&eacute;m, Moraes n&atilde;o desiste dos n&uacute;meros.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4. N&uacute;meros, infinitos e divis&otilde;es</b></p>     <p>Ainda que a rela&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e espiritualidade se revele por vezes dif&iacute;cil, Felippe Moraes desvenda formas de fazer um permanente elogio &agrave; matem&aacute;tica, quando esta nos remete para o sublime infinito. &Eacute; isso que acontece com a obra "Ï€" (2010-2011), onde podemos observar alguns algarismos, deste n&uacute;mero intermin&aacute;vel, escritos a dourado sobre uma parede branca. </p>     <p>&Eacute; tamb&eacute;m o que &eacute; deduzido dos pain&eacute;is LED designados "Ï€" (2016), "Ï†" (2016) e "Primos" (2016) (<a href="#f4">Figura 4</a>, <a href="#f5">Figura 5</a>). Neles vemos uma vez mais os algarismos do n&uacute;mero pi (n&uacute;mero infinito e por isso designado de irracional), os algarismos do n&uacute;mero fi (n&uacute;mero correspondente &agrave; propor&ccedil;&atilde;o &aacute;urea) e diferentes n&uacute;meros primos (n&uacute;meros apenas diviseis por 1 ou por si mesmos, dando resultados inteiros), respectivamente.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f4.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Atrav&eacute;s destes n&uacute;meros estranhos, carregados de poder simb&oacute;lico, somos uma vez mais conduzidos a um questionamento sobre o funcionamento do universo, sobre a nossa capacidade de compreens&atilde;o sobre que nos rodeia e a nossa dificuldade em aceitar a inexist&ecirc;ncia de explica&ccedil;&otilde;es verific&aacute;veis.</p>     <p>Felippe Moraes atrai&ccedil;oa a nossa sensa&ccedil;&atilde;o de seguran&ccedil;a e estabilidade revelando-nos um mundo onde n&atilde;o s&oacute; o universo macro dos n&uacute;meros infinitamente grandes nos parece espantar, mas tamb&eacute;m um mundo onde a tend&ecirc;ncia para o sublime pode ainda ser encontrada na incomensur&aacute;vel divis&atilde;o das coisas.</p>     <p>Partindo em direc&ccedil;&atilde;o a este contexto at&oacute;mico, onde todos somos feitos da mesma mat&eacute;ria basilar, interessa reflectir sobre "Divis&atilde;o" (2011) (<a href="#f6">Figura 6</a>). Nela, uma unidade (um tronco), &eacute; apresentada inteira, em 13 partes iguais, dividida ao meio e dividida em quartos. Uma unidade nunca &eacute; s&oacute; uma unidade, mas sim todas as divis&otilde;es poss&iacute;veis em direc&ccedil;&atilde;o ao &aacute;tomo. E ainda assim... parece pairar a pergunta: num conhecimento em constante evolu&ccedil;&atilde;o, o que poderemos encontrar depois do &aacute;tomo? O nada? Ou ser&aacute; que &eacute; o tudo que reside nessa poss&iacute;vel descoberta? </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Nem mesmo Felippe Moares se atreveria a reduzir um tronco a um &aacute;tomo na sua procura obstinada por respostas. Mas a sugest&atilde;o dessa ambi&ccedil;&atilde;o reside nesta sensa&ccedil;&atilde;o de progress&atilde;o que nasce da crescente divis&atilde;o da unidade e que a reduz, nas palavras de Raphael Fonseca, "a &iacute;ndices de exist&ecirc;ncia que n&atilde;o s&atilde;o capazes de substituir os nomes pr&oacute;prios" (Fonseca: 2012).</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>5. Padr&otilde;es invis&iacute;veis</b></p>     <p>Na sua cont&iacute;nua e curiosa demanda em conhecer a face oculta do mundo, Felippe Moraes tem-se focado, mais recentemente, em descobrir os padr&otilde;es invis&iacute;veis que nos rodeiam. As premissas que usa s&atilde;o as mesmas que at&eacute; aqui usou. Por&eacute;m, a sem&acirc;ntica cient&iacute;fica fica, por hora, apenas subentendida, possibilitando um lugar de destaque a aspectos mais sensitivos, que d&atilde;o origem a sedu&ccedil;&otilde;es hipn&oacute;ticas originadas por movimento ou som. </p>     <p>Em "Movimento Pendular #1" (2014) (<a href="#f7">Figura 7</a>), o artista solta um p&ecirc;ndulo de vidro que, perdendo areia, forma no ch&atilde;o desenhos circulares conc&ecirc;ntricos, com uma amplitude cada vez menor. A dan&ccedil;a deste p&ecirc;ndulo prende o olhar de cada espectador e fixa-o no processo deste desenho ordenado e preciso, criado pelas leis da f&iacute;sica. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O resultado final revela uma sobreposi&ccedil;&atilde;o complexa de curvas, que nos conduz o olhar para o centro vazio. A nossa mem&oacute;ria cria, atrav&eacute;s do pensamento rizom&aacute;tico que lhe &eacute; caracter&iacute;stico, rela&ccedil;&otilde;es com movimentos c&oacute;smicos, com buracos negros, ou implos&otilde;es de universos inteiros. Ao contr&aacute;rio do p&ecirc;ndulo de Foucault, aqui, o movimento da terra n&atilde;o parece o destino final.</p>     <p>Em "Tubos Sonoros" (2014) (<a href="#f8">Figura 8</a>) &eacute; a varia&ccedil;&atilde;o do som que nos desperta para o mist&eacute;rio que parece esconder-se dentro de cada tubo. Numa l&oacute;gica que dita o funcionamento de qualquer instrumento musical de sopro, os diferentes comprimentos produzem diferentes varia&ccedil;&otilde;es sonoras. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O artista d&aacute; deste modo, e uma vez mais, forma ao imaterial. Convoca-o a revelar-se e a participar das suas obras, permitindo que o p&uacute;blico fa&ccedil;a a sua pr&oacute;pria descoberta de um modo activo e participante. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tanto "Movimento Pendular #1" como "Tubos Sonoros" s&atilde;o potentes experi&ecirc;ncias que parecem nascer do exterior para o interior. Hipn&oacute;ticos, ressoam visual e auditivamente em cada espectador, ecoando muito para al&eacute;m do tempo em que nos confrontamos com as obras. S&atilde;o dois exemplos, nos quais Felippe Moraes se torna, por momentos, "um revelador, mais que um criador" (Moraes, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>6. Horizonte</b></p>     <p>Para terminar este breve percurso pela prof&iacute;cua obra de Felippe Moraes, &eacute; indispens&aacute;vel dedicar aten&ccedil;&atilde;o a uma das suas obras mais recentes, "Monumento ao Horizonte" (2016) (<a href="#f9">Figura 9</a>, <a href="#f10">Figura 10</a>), que pode ser encontrada no pont&atilde;o Caminho Niemeyer, em Niter&oacute;i  &ndash;  Rio de Janeiro. De certo modo, esta obra &eacute; a s&uacute;mula de todos os princ&iacute;pios que guiam a pr&aacute;tica deste autor, at&eacute; este momento.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f9"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f9.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f10"><img src="/img/revistas/est/v8n18/8n18a10f10.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Partindo de uma obra anterior, "A Dist&acirc;ncia do Horizonte" (2010), onde o artista desenvolve uma f&oacute;rmula matem&aacute;tica para calcular a dist&acirc;ncia entre o olhar do observador e o seu horizonte &oacute;ptico, sendo a altura dos olhos de cada observador que determina a dist&acirc;ncia que o seu olhar pode alcan&ccedil;ar, Moraes oferece com "Monumento ao Horizonte", um olhar mais grandioso que qualquer outro. </p>     <p>Esta estrutura em a&ccedil;o eleva-nos, atrav&eacute;s de uma escada interior, at&eacute; uma fenda que, fixando-nos o olhar, oferece um horizonte cerca de 7 km mais long&iacute;nquo do que aquele que seria poss&iacute;vel ver a partir de uma altitude de 0 metros. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esta estrutura que nos eleva parece n&atilde;o s&oacute; homenagear o horizonte, mas sobretudo a admir&aacute;vel busca humana por "ver mais longe", por descobrir novas costas, olhar para l&aacute; de fronteiras, e conquistar o direito a um mundo onde &eacute; a nossa latitude de conhecimento que permite que sejamos grandes; e &eacute; a eterna busca por ampli&aacute;-la que nos orienta atrav&eacute;s do tempo. </p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>     <p><i>Seu acabamento j&aacute; riscado e marcado denota a a&ccedil;&atilde;o de um tempo que ainda n&atilde;o passou, sugerindo sua exist&ecirc;ncia no mundo desde muito antes de sua instala&ccedil;&atilde;o. Este proto-mirante est&aacute; voltado para o oeste, como se fosse a agulha de uma b&uacute;ssola poente, e nada mais po&eacute;tico do que construir um aparato que desafia o tempo cronol&oacute;gico apontando sempre para o anoitecer (afinal, &eacute; no Rio que inventaram o aplauso ao p&ocirc;r do sol).</i> </p>     <p><I>De forma alongada, quando visto de frente seu aspecto oscila entre o totem e o mon&oacute;lito: pode ser visto como um objeto cuja presen&ccedil;a &eacute; ancestral, ou ent&atilde;o como elemento natural; algo constru&iacute;do por uma civiliza&ccedil;&atilde;o antiga ou mat&eacute;ria org&acirc;nica que brota da pr&oacute;pria terra, irrompida do ch&atilde;o. Por outro lado, tamb&eacute;m parece erguer-se como lugar artificial criado fora de nosso tempo, como se trazido para o passado-presente para suscitar o porvir e nos fazer encarar o futuro  &ndash;  em cada esfera distinta de apreens&atilde;o da obra ativamos diferentes modos de ser, estar e se perceber no mundo.</i> (Lima, 2016)</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>Esta obra sem tempo, sem &eacute;poca, e por isso ru&iacute;na eterna e futurista, que estruturalmente oferece uma possibilidade real (a de ver mais longe), mas que n&atilde;o parece sustentar qualquer consequ&ecirc;ncia pragm&aacute;tica, vale-se do seu intuito po&eacute;tico para nos lembrar que as descobertas de novos horizontes nem sempre devem ser comandadas por prop&oacute;sitos funcionais, mas por chamamentos interiores, por puls&otilde;es em direc&ccedil;&atilde;o a este infinito, que o horizonte tamb&eacute;m &eacute;. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Felippe Moraes prop&otilde;e pensar a arte como um di&aacute;logo entre a ci&ecirc;ncia e a espiritualidade, numa constante descoberta que nos revela seres orientados para o conhecimento mas tamb&eacute;m impelidos para uma cren&ccedil;a espiritual. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Convocando um vasto leque de refer&ecirc;ncias e auto-refer&ecirc;ncias, o artista cria uma obra po&eacute;tica, que formalmente apresenta uma linguagem cient&iacute;fica na sua busca metodol&oacute;gica por algo maior do que a raz&atilde;o poder&aacute; explicar. Nesta ambival&ecirc;ncia, Felippe Moraes presta tributo a uma grande dualidade da condi&ccedil;&atilde;o humana: a constante procura de conhecimento, concreto e transcendente, sobre tudo o que parece ultrapassar-nos. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Agradecimentos</b></p>     <p>Bolseira Funda&ccedil;&atilde;o para a Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (FCT).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b> </p>     <!-- ref --><p>Fonseca, Raphael (2012) <i>1,04 Cent&iacute;metros</i>. &#91;Consult. 2017-01-04&#93; Dispon&iacute;vel em URL: <a href="http://www.mkgallery.org/downloads/137/104centmetrospt.pdf" target="_blank">http://www.mkgallery.org/downloads/137/104centmetrospt.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1453617&pid=S1647-6158201700020001000001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Lima, J&uacute;lia (2016) <I>Monumento ao Horizonte</i>. &#91;Consult. 2017-01-09&#93; Dispon&iacute;vel em URL: <a href="http://cargocollective.com/felippemoraes/Monumento-ao-Horizonte" target="_blank">http://cargocollective.com/felippemoraes/Monumento-ao-Horizonte</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1453618&pid=S1647-6158201700020001000002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>S&aacute;, Alexandre (2016) <I>Felippe Moraes</i>. &#91;Consult. 2017-01-03&#93; Dispon&iacute;vel em URL: <a href="http://cargocollective.com/felippemoraes/Obras/Texto" target="_blank">http://cargocollective.com/felippemoraes/Obras/Texto</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1453619&pid=S1647-6158201700020001000003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Artigo completo submetido a 19 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro 2017</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:susanavrocha@gmail.com">susanavrocha@gmail.com</a> (Susana Rocha)</p>      ]]></body><back>
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