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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entre-lugares: as Pinturas secas, de Luiz Monken]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Between-places: the Dry Paintings, by Luiz Monken]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Considering painting as a process experience helps in understanding the "dry paintings" of the Brazilian artist Luiz Monken. The support of the tradition is replaced by the MDF (fiber wood), creating new technique to reconcile acrylic paint and fire, responsible for the baroque blackness of its pictorial spaces. Instead of the brush, the massarico that burns the surface and draws the volumetric shapes. The confrontation between being and nothing, empty and full, abstract and concrete, infinitude and finitude, point to intermediate places: between-places.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[pintura]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>Artigos originais</b></p>     <p align="right"><b>Original articles</b></p>     <p><b>Entre-lugares: as Pinturas secas, de Luiz Monken</b></p>     <p><b>Between-places: the Dry Paintings, by Luiz Monken</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Zalinda Cartaxo&#42;</b></p>     <p><b>&#42;</b>Brasil, artista visual. Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Pl&aacute;sticas  &ndash;  Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Mestrado em Hist&oacute;ria e Cr&iacute;tica de Arte  &ndash;  Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Doutorado em Artes, Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Doutorado em Artes Visuais, UFRJ. </p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Artes C&ecirc;nicas. Avenida Pasteur n&ordm; 436, fundos, Urca, Rio de Janeiro/ RJ, CEP 22.290-240 Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumo:</b></p>     <p>Considerar a pintura como uma experi&ecirc;ncia processual auxilia na compreens&atilde;o das "pinturas secas" do artista brasileiro Luiz Monken. O suporte da tradi&ccedil;&atilde;o &eacute; substitu&iacute;do pelo MDF (madeira de fibra), criando nova t&eacute;cnica ao conciliar a tinta acr&iacute;lica e o fogo, respons&aacute;vel pela negritude barroca dos seus espa&ccedil;os pict&oacute;ricos. Ao inv&eacute;s do pincel, o massarico que queima a superf&iacute;cie e desenha as formas volum&eacute;tricas. O confronto entre ser e nada, vazio e pleno, abstrato e concreto, infinitude e finitude, apontam para lugares intermedi&aacute;rios: entre-lugares. </p>     <p>  <b>Palavras-chave:</b> pintura / espa&ccedil;o / t&eacute;cnica.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Abstract:</b></p>     <p>Considering painting as a process experience helps in understanding the "dry paintings" of the Brazilian artist Luiz Monken. The support of the tradition is replaced by the MDF (fiber wood), creating new technique to reconcile acrylic paint and fire, responsible for the baroque blackness of its pictorial spaces. Instead of the brush, the massarico that burns the surface and draws the volumetric shapes. The confrontation between being and nothing, empty and full, abstract and concrete, infinitude and finitude, point to intermediate places: between-places.</p>     <p><b>Keywords:</b> painting / space / techinique. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Segundo Joseph Kosuth (1997), com o surgimento do <i>ready-made</i>, a arte deixou de focar a forma da linguagem (problema de morfologia) para se concentrar no que seria dito (problema de fun&ccedil;&atilde;o), ou seja, na transfer&ecirc;ncia da &ecirc;nfase da 'apar&ecirc;ncia' para a 'concep&ccedil;&atilde;o'. Ainda segundo o artista, toda arte depois de Duchamp &eacute;, por natureza, conceitual, visto que, <i>"a arte s&oacute; existe conceitualmente"</i>. </p>     <p>  Desenvolver qualquer tipo de reflex&atilde;o sobre as "pinturas secas" do artista brasileiro Luiz Monken, significa considerar a dimens&atilde;o filos&oacute;fica que as constitui. De um modo geral, a produ&ccedil;&atilde;o do artista transita (considerando, tamb&eacute;m, suas cria&ccedil;&otilde;es com outros meios e espacialidades) num territ&oacute;rio, cuja experi&ecirc;ncia ocorre de forma aberta, infinita, inconclusa e, fundamentalmente, processual. Da&iacute; tomarmos como refer&ecirc;ncia o discurso de Kosuth. Por mais atrativas que suas "pinturas secas" sejam, visualmente falando, o artista opera numa dimens&atilde;o que est&aacute; al&eacute;m da frui&ccedil;&atilde;o visual. </p>     <p>Nesta s&eacute;rie podemos localizar, conjuntamente, v&aacute;rias quest&otilde;es relevantes para a disciplina pintura, especialmente, quando pensada conceitualmente: o suporte utilizado, a ado&ccedil;&atilde;o de materiais e t&eacute;cnicas n&atilde;o tradicionais, a cita&ccedil;&atilde;o &agrave; Hist&oacute;ria da Arte (neste caso, ao espa&ccedil;o infinito Barroco) ou o uso do <i>tromp</i>-<i>l'oeil</i>.</p>     <p>A discuss&atilde;o sobre o suporte tem sido quest&atilde;o premente desde, especialmente, o Per&iacute;odo Moderno com as investiga&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas das Vanguardas Art&iacute;sticas, culminando nas experimenta&ccedil;&otilde;es contempor&acirc;neas. Neste contexto podemos citar as pinturas losangulares de Mondrian, as geometrias irregulares das telas de Frank Stella ou de Mel Bochnner, as pinturas brancas de Robert Ryman ou, ainda, as pinturas p&oacute;s-minimalistas de Richard Tuttle e Keith Sonnier. De v&aacute;rias maneiras o suporte foi testado, pensado, discutido e praticado. As "pinturas secas" do artista brasileiro inscrevem-se nesta filia&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Luiz Monken possui forma&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica em arquitetura, portanto, sua proximidade com mat&eacute;rias, materiais e espa&ccedil;o, &eacute; visivelmente influente na sua po&eacute;tica. N&atilde;o se trata de um arquiteto-artista, mas de um artista consciente que buscou forma&ccedil;&atilde;o condizente &agrave;s suas necessidades est&eacute;ticas. Vem da sua forma&ccedil;&atilde;o em arquitetura a qualidade e sofistica&ccedil;&atilde;o do seu pensamento espacial e conceitual. &Eacute; muito comum o uso de materiais de constru&ccedil;&atilde;o na sua produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica: azulejos, lajotas ou a pedra. A elei&ccedil;&atilde;o da pedra como elemento figurativo protagonizador das suas "pinturas secas" vem, muito mais, das suas qualidades metaf&oacute;ricas, do que propriamente pl&aacute;sticas. Do mesmo modo, a cita&ccedil;&atilde;o ao espa&ccedil;o negro e infinito do Barroco. Juntos, operam um di&aacute;logo fundamentalmente paradoxal. Para tanto, o artista criou nova t&eacute;cnica que confere a materialidade necess&aacute;ria &agrave; imagem e ao espa&ccedil;o: </p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>     <p><I>Inicialmente fa&ccedil;o um esbo&ccedil;o dos contornos com grafite &agrave; m&atilde;o livre numa chapa de MDF cr&uacute;. Com a ajuda de um ma&ccedil;arico vou queimando a superf&iacute;cie da placa bem vagarosamente, ora aproximando e ora afastando a chama de fogo da superf&iacute;cie, com muito controle, para n&atilde;o queim</i>&aacute;<i>-la totalmente. Onde se queima mais fica completamente preto. Menos surgem v&aacute;rios tons de marrons. Nas &aacute;reas onde a queima do MDF &eacute; mais branda aparece uma colora&ccedil;&atilde;o amarelada muito forte, devido &agrave; qu&iacute;mica da madeira em rea</i>&ccedil;&atilde;o com a chama do ma&ccedil;arico. <I>Para ameniz&aacute;-la passo uma camada de tinta acr&iacute;lica branca muito rala com um pincel bem macio. Finalizando, aplico uma camada de verniz fixador spray incolor, em toda a superf&iacute;cie trabalhada para uma maior conserva&ccedil;&atilde;o da obra</i> (Luiz Monken, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal)</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>O enfrentamento dos materiais e das mat&eacute;rias nesta s&eacute;rie de Luiz Monken revela o qu&atilde;o essencial torna-se o <i>real</i> (<a href="#f1">Figura 1</a>). N&atilde;o se trata da representa&ccedil;&atilde;o de uma pedra num espa&ccedil;o negro, sen&atilde;o, da constru&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o pict&oacute;rico &uacute;nico constituido, simultaneamente e indissocialmente, de forma e lugar. Patrick Vauday (2002), em seu <i>'La Peintura et l'Image: y a-t-il peinture sans image?'</i>, prop&otilde;e a denomina&ccedil;&atilde;o <i>de espa&ccedil;o imaginal</i> para aquele espa&ccedil;o comum, diferenciado, que deixa claro o pr&oacute;ximo e o distante, a representa&ccedil;&atilde;o e o meio. Para o autor o ponto de vista da pintura n&atilde;o &eacute; o 'ou' (alternativa disjuntiva), mas sim o 'e' (simultaneidade conjuntiva). Numa pintura, a imagem est&aacute; em composi&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica com a mat&eacute;ria: &eacute; pr&oacute;prio da imagem pictural compor sua superf&iacute;cie manual com o plano visual da representa&ccedil;&atilde;o. Desta forma, o <i>espa&ccedil;o imaginal</i> &eacute; aquele da indetermina&ccedil;&atilde;o visto que o fundo altera a forma, faz-se superf&iacute;cie, signo e a mat&eacute;ria criam agenciamentos imprevis&iacute;veis. A imagem pict&oacute;rica n&atilde;o &eacute; sujeito nem objeto, mas sim percurso entre os dois  &ndash;  &eacute; trajeto e meio. Conseq&uuml;entemente, o <i>espa&ccedil;o imaginal</i> &eacute; mais topol&oacute;gico  &ndash;  a topologia estuda a no&ccedil;&atilde;o de vizinhan&ccedil;a dos elementos de dado conjunto independente das dist&acirc;ncias entre os mesmos  &ndash; , quando, numa pintura elementos composicionais constituem-se pelo movimento de atra&ccedil;&atilde;o e repuls&atilde;o, independentemente da dist&acirc;ncia que os separa. Tal espa&ccedil;o, nada mais &eacute;, sen&atilde;o, um espa&ccedil;o de contra&ccedil;&atilde;o e de dilata&ccedil;&atilde;o, em que qualquer elemento pode vir a se relacionar com o outro. As "pinturas secas" de Luiz Monken inscrevem-se nesta estrutura de din&acirc;mica temporal incessante.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a06f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A dimens&atilde;o filos&oacute;fico-conceitual das "pinturas secas" de Monken, por analogia, aproxima-se, de algum modo, da c&eacute;rebre pintura <I>Marat assassin&eacute;</i>, de 1793, pintada por Jacques-Louis David (<a href="#f2">Figura 2</a>). David representa a morte de Marat, segundo Giulio Carlo Argan (1994:44), &agrave; "velha maneira da pintura do Iluminismo (Hogarth) de determinar o local do fato mediante uma s&eacute;rie de presen&ccedil;as significativas, testemunhais; mas n&atilde;o h&aacute; o gosto narrativo que dava &agrave; representa&ccedil;&atilde;o a dura&ccedil;&atilde;o de uma cena de teatro, de um cap&iacute;tulo de romance."</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a06f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Se na pintura de David existe o confronto entre a representa&ccedil;&atilde;o do <i>tromp</i>-<i>l'oeil</i> da parte inferior com a abstra&ccedil;&atilde;o da parte superior, em Monken, a solidez figurativa da pedra tamb&eacute;m contrasta com o fundo negro abstrato. Para Argan (1994:44), referindo-se &agrave; obra de David, "a defini&ccedil;&atilde;o do local, t&atilde;o exata em primeiro plano, dilui-se no alto: mais da metade do quadro &eacute; vazia, &eacute; um fundo abstrato, sem sinal algum de exist&ecirc;ncia". O autor conclui que, "da presen&ccedil;a tang&iacute;vel das coisas passa-se &agrave; desolada aus&ecirc;ncia, da realidade ao nada, do ser ao n&atilde;o-ser", em que "na ex&iacute;gua zona intermedi&aacute;ria morre Marat: David n&atilde;o descreve a viol&ecirc;ncia do assassinato, nem o tormento da agonia, nem a ang&uacute;stia da morte, mas, como fil&oacute;sofo, a passagem do ser ao nada".</p>     <p>Segundo Argan (1994:44), esse "est&oacute;ico deter-se no momento da morte", aproxima David de Caravaggio, referindo-no ao <I>Sepultamento de Cristo</i>, quando o bra&ccedil;o que pende representa o &uacute;ltimo sopro de vida, tal qual em <I>Marat assassin&eacute;</i>. Argan alerta que David chegou a Caravaggio atrav&eacute;s de Poussin, em que o tema da morte &eacute; recorrente, "como passagem do presente a um passado sem fim, do drama &agrave; catarse" (Argan, 1994:44): </p>     <p>    <blockquote><i>Somente al&eacute;m da vida reencontrva aquela serenidade cl&aacute;ssica que, para ele, reunia o sentido pag&atilde;o ou natural e o sentido espiritual ou crist&atilde;o da vida. No entanto, a filosofia de David n&atilde;o &eacute; crist&atilde; nem pag&atilde;, &eacute; at&eacute;ia. Para ele, a morte &eacute; apenas o deter-se do presente, as coisas sem a vida. N&atilde;o havendo drama, n&atilde;o h&aacute; tempo nem espa&ccedil;o.</i></blockquote></p>     <p>Ainda sobre <I>Marat assassin&eacute;</i>, Argan observa que n&atilde;o existe nenhuma fonte de luz que justifique o contraste entre luz e sombra, lembrando que a primeira significa a vida e a segunda, a morte. Ambas existem em reciprocidade. Indo mais al&eacute;m, o autor indica o acordo entre a forma-Marat com a estrutura compositiva da obra, em que o nariz acompanha a horizontalidade da borda da banheira e as sobrancelhas a verticalidade do bra&ccedil;o e da caixa: a figura est&aacute; na pintura e <i>vice-versa</i>, tal qual nos fala Vauday. Segundo o autor, a hist&oacute;ria para David "n&atilde;o &eacute; mais fato memor&aacute;vel e exemplar, tampouco drama ou epis&oacute;dio; &eacute; a l&oacute;gica e, ao mesmo tempo, a moral dos acontecimentos" (Argan, 1994, 44).</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As afinidades entre as "pinturas secas", de Monken, e <I>Marat assassin&eacute;</i>, de David, ocorrem no &acirc;mbito filos&oacute;fico-conceitural. Tamb&eacute;m nas pinturas do artista brasileiro inexiste a narrativa de uma cena ou ind&iacute;cios de um drama ("n&atilde;o havendo drama, n&atilde;o h&aacute; tempo nem espa&ccedil;o"). Simplesmente um bloco de pedra (cada um numa pintura) que parece flutuar num espa&ccedil;o escuro. Nossos olhos, viciados, talvez os veja apoiados sobre um ch&atilde;o invis&iacute;vel, contudo, n&atilde;o h&aacute;, realmente, a indica&ccedil;&atilde;o de que ele exista. &Eacute; certo, entretanto, que as arestas dos blocos de pedra est&atilde;o ajustadas &agrave;s nossas refer&ecirc;ncias espacias, arquitet&ocirc;nicas, ortogonalmente, portanto, existe uma distens&atilde;o da pintura no espa&ccedil;o, al&eacute;m da afirma&ccedil;&atilde;o da subjetividade (as formas regulares existem pelo e para o sujeito).</p>     <p>  O confronto objetividade-figurativa <i>versus</i> a abstra&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m existe nas "pinturas secas". Contudo, diferentemente de David que trata da transi&ccedil;&atilde;o entre a vida e a morte, as pinturas de Monken <i>revelam</i> um lugar intermedi&aacute;rio entre a vida e a morte: um <i>entre-lugar</i>. Neste, parece n&atilde;o existir nem passado, nem presente, visto n&atilde;o haver qualquer tipo de narrativa ou alus&atilde;o temporal. A pedra, elemento da natureza, mas tamb&eacute;m estrutura do humano na constru&ccedil;&atilde;o das suas arquiteturas-abrigo, aqui &eacute; met&aacute;fora. O protagonismo da imagem-pedra parece indicar a infinitude da Natureza frente &agrave; finitude humana. Tal qual na pintura de Caspar Fridrich, <I>The Temple of Juno in Agrigento</i>, de c. 1828-1830, (<a href="#f3">Figura 3</a>) em que o templo-pedra sobrevive ao seu criador, nas "pinturas secas" de Luiz Monken as pedras em destaque parecem retomar a categoria est&eacute;tica do <i>sublime</i> para refletir sobre as fragilidades do tempo atual, em que</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a06f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>     <p><i>... na &eacute;poca do desgelo, os limites se fundem, se deslizam, se submergem e reermergem por todas as partes. As identidades  &ndash;  nacionais, culturais, individuais  &ndash;  experimentam as ansiedades exultantes que acompanham a amea&ccedil;a de dissolu&ccedil;&atilde;o (...). As fronteiras da Europa atual s&atilde;o cada vez mais porosas.</i> (Burgin, 2004:165)</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>Segundo Victor Burgin (2004), antes da perspectiva de ponto de fuga surgir no Renascimento n&atilde;o existia a 'aus&ecirc;ncia', em que o "<i>horror vacui</i>" era manifesto na filosofia aristot&eacute;lica, nas cosmologias cl&aacute;ssicas, onde o espa&ccedil;o era <i>plenitude</i> e na Idade M&eacute;dia, em que Deus manifestava-se como <i>totalidade</i>. Com o surgimento da perspectiva no <i>quattrocento</i> o sujeito depara-se, pela primeira vez, com a aus&ecirc;ncia no campo de vis&atilde;o. O vazio transforma-se em objeto de <i>abje&ccedil;&atilde;o</i> (grau zero da espacializa&ccedil;&atilde;o). Burgin afirma n&atilde;o existir espa&ccedil;o de representa&ccedil;&atilde;o sem sujeito, nem sujeito sem espa&ccedil;o referente, concluindo a exist&ecirc;ncia de limites para o mesmo. Para o autor, o conceito de <i>abjeto</i> poderia corresponder &agrave; separa&ccedil;&atilde;o entre 'sujeito' e 'objeto', contudo est&aacute; na hist&oacute;ria do primeiro sendo anterior a esta dicotomia. Tem in&iacute;cio com a expuls&atilde;o do sujeito pela sua m&atilde;e pr&eacute;-&eacute;dipica, em que o corpo procriador da mulher biol&oacute;gica &eacute; o primeiro objeto de <i>abje&ccedil;&atilde;o</i>. O "corpo da mulher recorda aos homens a sua pr&oacute;pria mortalidade" (Burgin, 2004:91). Para Lacan, a esfera das cosmologias cl&aacute;ssicas representa o espa&ccedil;o f&iacute;sico onde o sujeito, repetidamente, renasce e o vazio central nela contida, o lugar do objeto perdido, assim como, da morte do sujeito.</p>     <p>A indissociabilidade entre forma e espa&ccedil;o nas "pinturas secas" de Monken (iclusive, com o mesmo tratamento t&eacute;cnico  &ndash;  fatura e materiais), tal qual nos fala, tamb&eacute;m, Patrick Vauday, a necessidade de reuni&atilde;o, de concilia&ccedil;&atilde;o do <i>ser-no-mundo</i>, alinha-se &agrave; reflex&atilde;o de Burgin quanto &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o do <i>vazio</i> em objeto de <i>abje&ccedil;&atilde;o</i>. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>  Os fundos na cor de ouro das pinturas do Trecento, o espa&ccedil;o negro e infinito do Barroco, os brancos de Mal&eacute;vich ou do artista brasileiro Leonilson, cada um destes, &agrave; sua maneira, sustenta um conceito espacial, que, em comum, refletem o sentido de extens&atilde;o ou deslimite. N&atilde;o &eacute; diferente nos negros em carv&atilde;o das "pinturas secas" de Luiz Monken, contudo, sua espacialidade, densa (em mat&eacute;ria, o fogo transforma a madeira em carv&atilde;o), est&aacute; atrelada aos s&oacute;lidos de forma un&iacute;ssona. Aqui, n&atilde;o existe o <i>abismo</i>. Tal qual nos fala Burgin, n&atilde;o existe espa&ccedil;o de representa&ccedil;&atilde;o sem sujeito, nem sujeito sem espa&ccedil;o referente. A pedra que vira p&oacute;, met&aacute;fora do homem no mundo, est&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o direta ao espa&ccedil;o negro que o sustenta (o <I>Absolutamente grande</i>) e <i>vice-versa.</i> O artista enfatisa esta indissociabilidade no uso das t&eacute;cnicas e materiais: ambos constituem-se em igualdade.</p>     <p>A suspens&atilde;o temporal da representa&ccedil;&atilde;o (forma e espa&ccedil;o), a aus&ecirc;ncia de a&ccedil;&atilde;o ou de dramaticidade, a inexist&ecirc;ncia do tempo passado ou presente, absolutamente tudo, revela um <i>locus</i>, em que o confronto entre <i>ser</i> e <i>nada</i>, <i>vazio</i> e <i>pleno</i>, <i>abstrato</i> e <i>concreto</i>, <i>infinitude</i> e <i>finitude</i>, apontam para lugares intermedi&aacute;rios: entre-<i>lugares</i>. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b> </p>     <!-- ref --><p>Argan, G.C. (1994). <I>Arte moderna</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Lestras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1454704&pid=S1647-6158201700030000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <!-- ref --><p>Burgin, Victor. (2004) <I>Ensayos</i>. Barcelona: Gustavo Gili,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1454706&pid=S1647-6158201700030000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Kosuth, J, (1997) <i>'L'Art Apr&egrave;s la Philosophie'</i>. In: Harrison, Charles & Wood, Paul. <I>Art en Th&eacute;orie 1900-1990</i>. Paris: Hazan.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1454708&pid=S1647-6158201700030000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Vauday, Patrick. (2002). <I>La Peintura et l'Image: y a-t-il peinture sans image?</i> Pleins Veux.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1454710&pid=S1647-6158201700030000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 20 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro 2017</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:z.cartaxo@uol.com.br">z.cartaxo@uol.com.br</a> (Zalinda Cartaxo)</p>     ]]></body>
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