<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1647-6158</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista :Estúdio]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Estúdio]]></abbrev-journal-title>
<issn>1647-6158</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1647-61582017000300014</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Fotografia e a Duração no Trabalho de José Luís Neto]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Photography and duration in the work of José Luís Neto]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Rodrigues]]></surname>
<given-names><![CDATA[Miguel Novais Jasmins]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Lisboa Faculdade de Belas Artes ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Lisboa ]]></addr-line>
<country>Portugal</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<volume>8</volume>
<numero>19</numero>
<fpage>133</fpage>
<lpage>143</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582017000300014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582017000300014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582017000300014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Este trabalho olha a obra de José Luís Neto à luz do conceito de duração definido por Henri Bergson. Procura contrapor, à ideia de que a fotografia procura uma representação da identidade do fotografado, a ideia de uma identidade do próprio meio, através, ao mesmo tempo, de uma procura da sua natureza intrínseca e dos seus limites na tentativa de registar coisas que são do domínio daquilo que vive e que, portanto, dura.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This work looks at the work of José Luís Neto in the light of the concept of duration as defined by Henri Bergson. It seeks to counteract, to the idea that the photograph seeks a representation of the identity of the person photographed, the idea of an identity of the medium itself, through, at the same time, a search of its intrinsic nature and its limits in the attempt to record things that are Of the domain of that which lives and which, therefore, lasts.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[fotografia]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[duração]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[tempo]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[identidade]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[photography]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[duration]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[time]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[identity]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>Artigos originais</b> </p>     <p align="right"><b>Original articles</b></p>     <p><b>A Fotografia e a Dura&ccedil;&atilde;o no Trabalho de Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto</b></p>     <p>  <b>Photography and duration in the work of Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Miguel Novais Jasmins Rodrigues&#42;</b> </p>     <p><b>&#42;</b>Portugal, artista visual. </p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes, Mestrado Arte Multim&eacute;dia. Largo da Academia Nacional de Belas Artes, 1249-058 Lisboa, Portugal. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumo:</b> </p>     <p>Este trabalho olha a obra de Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto &agrave; luz do conceito de dura&ccedil;&atilde;o definido por Henri Bergson. Procura contrapor, &agrave; ideia de que a fotografia procura uma representa&ccedil;&atilde;o da identidade do fotografado, a ideia de uma identidade do pr&oacute;prio meio, atrav&eacute;s, ao mesmo tempo, de uma procura da sua natureza intr&iacute;nseca e dos seus limites na tentativa de registar coisas que s&atilde;o do dom&iacute;nio daquilo que vive e que, portanto, dura.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> fotografia / dura&ccedil;&atilde;o / tempo / identidade</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Abstract:</b> </p>     <p>This work looks at the work of Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto in the light of the concept of duration as defined by Henri Bergson. It seeks to counteract, to the idea that the photograph seeks a representation of the identity of the person photographed, the idea of an identity of the medium itself, through, at the same time, a search of its intrinsic nature and its limits in the attempt to record things that are Of the domain of that which lives and which, therefore, lasts.</p>     <p><b>Keywords:</b> photography / duration / time / identity</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Neste trabalho, recorro ao conceito de dura&ccedil;&atilde;o, definido pelo fil&oacute;sofo franc&ecirc;s Henri Bergson, (1859-1941) para mostrar a forma como o fot&oacute;grafo Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto (S&aacute;t&atilde;o, 1966) se distancia da rela&ccedil;&atilde;o de verosimilhan&ccedil;a entre a fotografia e uma no&ccedil;&atilde;o objetiva da realidade para assumir o pr&oacute;prio meio como seu objeto. Como, desta forma, recusa a ideia cl&aacute;ssica de rela&ccedil;&atilde;o com essa ideia de realidade e abre a caixa negra (Flusser, 1983), expondo a planura da folha branca e a nossa forma de ver e de perceber atrav&eacute;s dela e abrindo, na sua pr&aacute;tica fotogr&aacute;fica um espa&ccedil;o a essa dura&ccedil;&atilde;o que Bergson conceptualizou.</p>     <p>  </p>     <p><b>22474 e 22475</b></p>     <p>Em 1913, Joshua Benoliel, rep&oacute;rter fotogr&aacute;fico do in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, est&aacute; na Penitenci&aacute;ria de Lisboa, ao servi&ccedil;o do jornal O S&eacute;culo, para registar a cerim&oacute;nia de aboli&ccedil;&atilde;o do capuz naquela institui&ccedil;&atilde;o (<a href="#f1">Figura 1</a>). Na descri&ccedil;&atilde;o do site do Centro Portugu&ecirc;s de Fotografia, pode ler-se que esta cerim&oacute;nia </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a14f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>     <p><i>marca o fim da obrigatoriedade do uso deste dispositivo que havia sido introduzida pelo regulamento dos servi&ccedil;os prisionais em 1884. Realizada no anfiteatro deste estabelecimento prisional, apresenta-nos um fragmento dos momentos que antecederam essa cerim&oacute;nia.</i></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Estamos a 5 de Fevereiro de 1913 e os prisioneiros est&atilde;o dispostos numa estrutura destinada a manter imposs&iacute;vel a comunica&ccedil;&atilde;o entre si. Cada um deles usa um capuz, de modo a que n&atilde;o possa ver outros prisioneiros ou ser visto por estes. Este sistema, denominado regime de reclus&atilde;o pensilvaniano, estivera em vigor desde 1888. Partindo de princ&iacute;pios racionalistas e iluministas, focava a ideia de que o criminoso poderia ser requalificado socialmente atrav&eacute;s do isolamento, da reflex&atilde;o interior, da educa&ccedil;&atilde;o e da religi&atilde;o. A estrutura aqui apresentada servia esse prop&oacute;sito de isolamento e incomunicabilidade. </p>     <p>Este regime de reclus&atilde;o foi substitu&iacute;do pelo regime auburneano, que alternava o isolamento e o contacto entre os presidi&aacute;rios. A pr&aacute;tica religiosa e educativa, que antes se dava, tamb&eacute;m, sem comunica&ccedil;&atilde;o entre presidi&aacute;rios foi aberta e era permitido o conv&iacute;vio entre os presidi&aacute;rios em todas as atividades sociais: o trabalho, o ensino, a religi&atilde;o ou o exerc&iacute;cio.</p>     <p>Para 22474, simultaneamente o nome da s&eacute;rie e o n&uacute;mero de arquivo do negativo original de Benoliel, Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto vai olhar para esse negativo, isolar cada um dos presidi&aacute;rios ali representados e fotografar esse fragmento no negativo original, voltando, depois, a fotografar o negativo do negativo, e o negativo do negativo do negativo, aumentando o tamanho da face de cada presidi&aacute;rio. </p>     <p>Em entrevista a Ricardo Nicolau (Cat&aacute;logo BES Photo 2006), Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto conta que passou sete anos, entre 1993 e 2000 a pensar neste trabalho. Andava com a fotografia, que olhava e estudava com frequ&ecirc;ncia e considerava as suas implica&ccedil;&otilde;es sociais, pol&iacute;ticas e identit&aacute;rias.</p>     <p>  Francisco Feio (2003) sugere uma dupla no&ccedil;&atilde;o do que est&aacute; a ser retratado com este trabalho. Ao levar a cabo o processo de amplia&ccedil;&atilde;o do fragmento repetindo o processo fotogr&aacute;fico original e trabalhando sempre sobre o negativo, 22474 deixa no ar a quest&atilde;o sobre o que est&aacute;, na realidade, a ser retratado. </p>     <p>As imagens finais que este trabalho apresenta n&atilde;o nos dizem nada sobre os presidi&aacute;rios representados no negativo original de Benoliel. O ar fantasmag&oacute;rico das imagens que resultam deste processo acaba por abri-las ainda mais, ao furar a apar&ecirc;ncia objetiva para nos mostrar uma esp&eacute;cie de espelho, j&aacute; n&atilde;o do tema representado, mas do pr&oacute;prio meio que permite a sua representa&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>A cada novo negativo criado, 22474 torna mais evidentes os constituintes b&aacute;sicos da imagem fotogr&aacute;fica (<a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>): o gr&atilde;o, o nitrato de s&oacute;dio e, ao mesmo tempo, pela sua repeti&ccedil;&atilde;o quasi performativa, a forma como o ato de fotografar implica um distanciamento em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; coisa fotografada.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a14f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a14f3.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>22475 refor&ccedil;a esta quest&atilde;o. Trata-se do mesmo processo sobre o negativo seguinte: Benoliel fez duas imagens, uma imediatamente antes da remo&ccedil;&atilde;o dos capuzes e outra imediatamente a seguir, dando-nos, assim, uma ideia do efeito daquela lei.</p>     <p>Podemos entender este trabalho como uma segunda tentativa no sentido de descobrir  &ndash;  literalmente  &ndash;  os rostos por tr&aacute;s de um v&eacute;u a impedir a nossa aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave; identidade dos retratados. </p>     <p>A amplia&ccedil;&atilde;o das imagens de 22475, no entanto, mant&eacute;m a mesma opacidade em rela&ccedil;&atilde;o ao que deveria mostrar; d&aacute;-nos o mesmo resultado paradoxal: quanto mais pr&oacute;ximos ficamos do negativo, quanto mais a sua imagem &eacute; ampliada, menos n&iacute;tida fica a imagem que esse negativo regista. </p>     <p>Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto diz-nos que n&atilde;o tem interesse na imagem de uma suposta realidade, que apenas lhe interessam as suas ideias e inquieta&ccedil;&otilde;es; o questionamento dele &eacute; sempre em rela&ccedil;&atilde;o ao m&eacute;dium. Estes dois trabalhos, aparentemente sobre a identidade e despersonaliza&ccedil;&atilde;o dos reclusos perante o sistema prisional, (NB: Foucault (1988) releva, na altera&ccedil;&atilde;o das normas que levam, primeiro ao sistema pensilvaniano e, mais tarde, ao auburneano, n&atilde;o o cuidado e respeito pela natureza humana, mas a preocupa&ccedil;&atilde;o por uma maior efici&ecirc;ncia no controle, n&atilde;o s&oacute; do criminoso, como da sociedade e da forma como esta percebe e se relaciona com uma ideia de justi&ccedil;a) mostram-nos antes um estudo sobre os limites da fotografia e questionam a cren&ccedil;a de Talbot de que a fotografia permitiria que a natureza se representasse a si mesma sem interven&ccedil;&atilde;o humana. </p>     <p>Ao despir a imagem do seu contexto de verosimilhan&ccedil;a e expor o processo mec&acirc;nico pelo se chega &agrave; prova fotogr&aacute;fica final, levanta a quest&atilde;o sobre se n&atilde;o seremos n&oacute;s que vivemos aprisionados numa forma est&aacute;tica e mec&acirc;nica de representar processos de exist&ecirc;ncia.</p>     <p>Desde logo, pelo t&iacute;tulo. O negativo tem um n&uacute;mero de arquivo assim como o presidi&aacute;rio tem um n&uacute;mero na pris&atilde;o. Foucault (1988) aborda a pena de pris&atilde;o pela necessidade de ocultar processos de viol&ecirc;ncia p&uacute;blica. O criminoso deixa de servir de exemplo para o poder da justi&ccedil;a e passa a ser imagem de uma for&ccedil;a de reconvers&atilde;o, de uma capacidade de organiza&ccedil;&atilde;o que requalifica a pessoa atrav&eacute;s de um controle apertado do seu tempo, da sua sociabilidade e do seu trabalho.</p>     <p>O n&uacute;mero alude, assim, tamb&eacute;m, a este novo modelo de organiza&ccedil;&atilde;o e ordenamento de h&aacute;bitos e pessoas das quais a pris&atilde;o &eacute; um exemplo vis&iacute;vel e o arquivo  &ndash;  Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto trabalha num arquivo (Fotogr&aacute;fico Municipal de Lisboa)  &ndash;  oferece um fator de organiza&ccedil;&atilde;o e administra&ccedil;&atilde;o que permite esse controle.</p>     <p>O rigor do processo alude, tamb&eacute;m, &agrave; forma de tratamento e de gest&atilde;o do corpo social, &agrave; divis&atilde;o e &agrave; especializa&ccedil;&atilde;o relativamente desinformada em rela&ccedil;&atilde;o ao todo do qual faz parte. Continuamos perante a ambival&ecirc;ncia de um rigor tremendo com vista a um fim organizacional espec&iacute;fico e, olhando para esse fim, da radiografia de um processo, ao mesmo tempo, perfeitamente objetivo e indefinido.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>N&atilde;o, Chromatic Fantasy e Continuum</b></p>     <p>Antes de 22474 e 22475, Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto desenvolve outro trabalho, <I>N&atilde;o</i>, de 1996 (<a href="#f4">Figura 4</a>), uma s&eacute;rie de seis imagens, de 24cm de altura e uma largura que varia entre os 106 e os 196 cms.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a14f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>No texto em que descreve a g&eacute;nese do trabalho, diz-nos:</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>     <p><i>Sonhei com uma est&aacute;tua, a Est&aacute;tua da Luz. Havia uma tempestade e a est&aacute;tua enterrava-se lentamente. Comecei a ficar angustiado e aflito. Tentei salv&aacute;-la, puxando-a pela cabe&ccedil;a. A cabe&ccedil;a separou-se do corpo e ficou nas minhas m&atilde;os. Nesse mesmo instante a est&aacute;tua enterrou-se completamente e eu gritei "N&atilde;o". Nessa mesma noite pensei em fazer um projecto fotogr&aacute;fico a olhar para a lente da minha m&aacute;quina fotogr&aacute;fica dizendo: "N&atilde;o</i>. </p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>As imagens da s&eacute;rie mostram o movimento da sua cabe&ccedil;a enquanto a meneia e diz N&atilde;o. Este trabalho tem uma particularidade. Neto construiu um motor que, acoplado &agrave; c&acirc;mara fotogr&aacute;fica, lhe permitia avan&ccedil;ar o rolo a uma velocidade mais ou menos constante. O resultado viria a ser repetido em <I>Chromatic Fantasy (2003)</i> e em <I>Continuum (2005).</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><I>N&atilde;o</i> prolonga o questionamento da rela&ccedil;&atilde;o da luz com a fotografia. O sonho que d&aacute; origem ao trabalho coloca-nos perante essa possibilidade de a fotografia por em causa a nossa rela&ccedil;&atilde;o com a luz, de matar a forma como percebemos a luz, as suas nuances e a sua rela&ccedil;&atilde;o com o tempo. P&otilde;e em evid&ecirc;ncia aquilo que a fotografia, historicamente, decidiu deixar de fora: a dura&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>Fl&uacute;sser (1998, 33) diz-nos que a imagem t&eacute;cnica &eacute; a "imagem produzida por aparelhos" e que &eacute; um produto de textos cient&iacute;ficos. As imagens t&eacute;cnicas s&atilde;o "produtos indiretos de textos" diferenciam-se, historicamente, das imagens tradicionais pois sucedem aos textos enquanto as outras os precedem; Segundo Fl&uacute;sser, a escrita linear surge a partir de um rasgar produzido pela leitura temporal de elementos na mesma imagem.</p>     <p>Esta quest&atilde;o, aliada &agrave; verosimilhan&ccedil;a da imagem t&eacute;cnica com a realidade que representa  &ndash;  j&aacute; aqui fal&aacute;mos do <i>pencil of nature</i> de Talbot  &ndash;  confere-lhe esse estatuto de inquestionabilidade. Aquilo que a sua superf&iacute;cie aparenta, &eacute;. </p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>     <p><i>O mundo a ser representado parece ser a causa das imagens t&eacute;cnicas, e elas pr&oacute;prias parecem ser o &uacute;ltimo efeito de uma complexa cadeia causal que parte do mundo.</i> (Fl&uacute;sser 1998, 24)</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>&Eacute; como se a cabe&ccedil;a da est&aacute;tua da luz nas m&atilde;os de Neto durasse sempre com a mesma luz, como numa fotografia. Como se fosse esse o pesadelo: que a fotografia, a imagem t&eacute;cnica, viesse a determinar o fim da varia&ccedil;&atilde;o da luz sobre os objetos; o fim da passagem do tempo sobre a nossa consci&ecirc;ncia das coisas.</p>     <p>Henri Bergson (1988), fala-nos da dura&ccedil;&atilde;o como a experi&ecirc;ncia psicol&oacute;gica do tempo. Diz-nos que aquilo que comummente designamos por tempo cronol&oacute;gico implica uma esp&eacute;cie de mapa espacial, sequencial, onde possamos ver os momentos encadeados. Em <I>A Evolu&ccedil;&atilde;o Criadora,</i> diz-nos que a intelig&ecirc;ncia &eacute; capaz desse encadeamento por um esfor&ccedil;o de abstra&ccedil;&atilde;o. A forma como a nossa intelig&ecirc;ncia reconstitui o movimento, diz-nos, colocando imagens em sequ&ecirc;ncia e dando-lhes movimento, como num filme, leva-nos a pensar que o movimento &eacute; decompon&iacute;vel.</p>     <p>O trabalho de Ettiene Jules Marey &eacute; disso um exemplo claro, criando a apar&ecirc;ncia do movimento ao animar a sequ&ecirc;ncia de imagens. Bergson diz-nos que o verdadeiro movimento &eacute; a experi&ecirc;ncia qualitativa da dura&ccedil;&atilde;o, una e indecompon&iacute;vel em cada instante. A possibilidade de decompor o movimento est&aacute; aberta &agrave; intelig&ecirc;ncia, &agrave; an&aacute;lise, mas n&atilde;o &agrave; experi&ecirc;ncia da sua dura&ccedil;&atilde;o. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Em <I>Chromatic Fantasy</i> (<a href="#f5">Figura 5</a>, <a href="#f6">Figura 6</a>)<i>,</i> produzido entre as s&eacute;ries 22474 (2000) e 22475 (2003), Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto retrata o m&uacute;sico Jo&atilde;o Paulo Esteves da Silva. Recorrendo novamente aos motores que lhe permitem a rota&ccedil;&atilde;o do negativo, captou a express&atilde;o do m&uacute;sico durante uma extens&atilde;o de tempo.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a14f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a14f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Mais tarde, pediu-lhe que tocasse um auto-retrato musical a partir daquele retrato fotogr&aacute;fico, transformando a sua face numa esp&eacute;cie de partitura.</p>     <p>Apesar de a nota&ccedil;&atilde;o musical nos apresentar a obra escrita e sequenciada no espa&ccedil;o, a execu&ccedil;&atilde;o da m&uacute;sica, assim como a sua audi&ccedil;&atilde;o, implica uma presen&ccedil;a de esp&iacute;rito constante no instante e na nota a ser executada ou escutada. As transforma&ccedil;&otilde;es que atravessamos no processo, mais do que contrariar essa no&ccedil;&atilde;o de tempo indiviso, v&ecirc;m confirm&aacute;-lo: para qualquer instante que atravessemos, senti-lo-emos sempre como uma unidade e traremos para a&iacute;, sempre, a totalidade da nossa experi&ecirc;ncia.</p>     <p>Chegamos, por fim, a <I>Continuum</i> (2005), mais um trabalho em que Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto recorre aos motores que lhe permitem rodar o negativo durante a sua exposi&ccedil;&atilde;o. Colocando-nos novamente perante pain&eacute;is fotogr&aacute;ficos de grandes dimens&otilde;es, Neto convida o espetador a deslocar-se ao longo destes. O lado performativo presente na repeti&ccedil;&atilde;o do ato fotogr&aacute;fico em 22474 e 22475 passa agora para o lado do espetador.</p>     <p>Ricardo Nicolau refere que </p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><i>O est&uacute;dio de Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto sempre teve, tanto quanto pude constatar em v&aacute;rias visitas, as paredes brancas e completamente nuas  &ndash;  &agrave; excep&ccedil;&atilde;o, nos &uacute;ltimos meses, de uma folha de papel fotogr&aacute;fico sensibilizado afixada num dos muros, mais ou menos &agrave; altura dos nossos olhos... ...Deste processo resultaram bandas que, com intermit&ecirc;ncias mais ou menos regulares, v&atilde;o, num sistema de barras verticais, do preto ao branco, passando por v&aacute;rias grada&ccedil;&otilde;es de cinzentos.</i> (Nicolau, 2007) </p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Ao convidar o espetador a acompanhar o percurso do negativo que devolve &agrave; luz a sua cont&iacute;nua dura&ccedil;&atilde;o sobre a mat&eacute;ria, Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto devolve-nos a experi&ecirc;ncia da nossa identidade enquanto seres no tempo. </p>     <p>Fl&uacute;sser compara a c&acirc;mara fotogr&aacute;fica com a caixa preta. Arlindo Machado, na apresenta&ccedil;&atilde;o da edi&ccedil;&atilde;o portuguesa, fala do termo, que vem da eletr&oacute;nica, </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>    <blockquote><i>onde &eacute; utilizado para designar uma parte complexa de um circuito electr&oacute;nico que &eacute; omitida intencionalmente no desenho de um circuito maior (geralmente para fins de simplifica&ccedil;&atilde;o) e substitu&iacute;da por uma caixa vazia, sobre a qual apenas se escreve o nome do circuito omitido.</i> (Fl&uacute;sser, 1988, 11)</blockquote></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Ao fazer-nos trabalhar para esse circuito, a fotografia condiciona o nosso modo de nos relacionarmos com o tempo muito mais no sentido dessa espacialidade, usando os termos de Bergson, do que na dura&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>  Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto abre essa caixa preta e denuncia o seu circuito de representa&ccedil;&atilde;o trazendo-nos de volta &agrave; experi&ecirc;ncia da dura&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s do uso da tecnologia que melhor serviu a fragmenta&ccedil;&atilde;o da nossa vis&atilde;o e perce&ccedil;&atilde;o do tempo. Voltando &agrave; an&aacute;lise de Foucault &agrave; forma como as pris&otilde;es modernas permitem gerir e fragmentar o tempo dos presidi&aacute;rios, podemos perceber um lado intimamente subversivo, abrindo perante n&oacute;s uma experi&ecirc;ncia do tempo como uma experi&ecirc;ncia que fazemos ao durar, fora do alcance do controlo a que a constante divis&atilde;o do nosso espa&ccedil;o de tempo e da nossa aten&ccedil;&atilde;o nos for&ccedil;a.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bergson, Henri, (1988) <I>Ensaios sobre os dados imediatos da consci&ecirc;ncia</i> Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455466&pid=S1647-6158201700030001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Fl&uacute;sser, Vil&eacute;m, (1998) <I>Ensaio sobre a fotografia: para uma filosofia da t&eacute;cnica.</i> Lisboa:Rel&oacute;gio D'&Aacute;gua Editores.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455468&pid=S1647-6158201700030001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Foucault, Michel (1988) <I>Vigiar e Punir.</i> Petr&oacute;polis: Editora Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455470&pid=S1647-6158201700030001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Nicolau, Ricardo (2007) "Longa Dura&ccedil;&atilde;o." In <I>Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto</i> URL: <a href="http://www.joseluisneto.pt" target="_blank">www.joseluisneto.pt</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455472&pid=S1647-6158201700030001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Feio, Francisco (2003) "Uma imagem, um negativo, todos os rostos" In <I>Jos&eacute; Lu&iacute;s Neto</i> URL: <a href="http://www.joseluisneto.pt" target="_blank">www.joseluisneto.pt</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455473&pid=S1647-6158201700030001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 25 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro 2017</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:miguel.n.rodrigues@campus.ul.pt">miguel.n.rodrigues@campus.ul.pt</a> (Miguel Novais Jasmins Rodrigues)</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bergson]]></surname>
<given-names><![CDATA[Henri]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Ensaios sobre os dados imediatos da consciência]]></source>
<year>1988</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Edições 70]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Flússer]]></surname>
<given-names><![CDATA[Vilém]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Ensaio sobre a fotografia: para uma filosofia da técnica]]></source>
<year>1998</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Relógio D'Água]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Foucault]]></surname>
<given-names><![CDATA[Michel]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Vigiar e Punir]]></source>
<year>1988</year>
<publisher-loc><![CDATA[Petrópolis ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Vozes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Nicolau]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ricardo]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Longa Duração]]></article-title>
<source><![CDATA[José Luís Neto]]></source>
<year>2007</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Feio]]></surname>
<given-names><![CDATA[Francisco]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Uma imagem, um negativo, todos os rostos]]></article-title>
<source><![CDATA[José Luís Neto]]></source>
<year>2003</year>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
