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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Planos em diálogo: sobre um livro de artista de Fernando Augusto]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Dialogue: on an artist book of Fernando Augusto]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Espírito Santo Centro de Artes Departamento de Artes Visuais]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Analysis of an artist' book made by Fernando Augusto, Brazilian artist, in 2008. His artwork is made of interferences in other book, about Amilcar de Castro' artworks. This analysis starts from the complexity of book in general, a group of several different knowledge and staff, under editor's response, that assumes himself a composite authorship. Regarding to a book about artist' artworks, parallels systems touch themselves (artistic and editorial); Fernando Augusto' intervention is radical by cancelling all signs of identification of editor as a specific author.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>Artigos originais</b></p>     <p align="right"><b>Original articles</b></p>     <p><b>Planos em di&aacute;logo: sobre um livro de artista de Fernando Augusto</b></p>     <p><b>Dialogue: on an artist book of Fernando Augusto</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Cl&aacute;udia Maria Fran&ccedil;a da Silva&#42;</b></p>     <p><b>&#42;</b>Brasil, artista visual e docente universit&aacute;ria. Doutora em Artes pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande Do Sul (UFRGS). Bacharel em Desenho e Bacharel em Escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). </p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo, Centro de Artes, Departamento de Artes Visuais. Departamento de Artes Visuais  &ndash;  CEMUNI II. Centro de Artes. Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo. Av. Fernando Ferrari, 514, Campus Universit&aacute;rio Goiabeira. Goiabeiras, Vit&oacute;ria/ES CEP: 29075-910. Brasil. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>Resumo:</b></p>     <p>An&aacute;lise de um livro de artista realizado em 2008 pelo artista brasileiro Fernando Augusto. O livro &eacute; um conjunto de interfer&ecirc;ncias realizadas sobre outro livro de 2000, respectivo a trabalhos art&iacute;sticos de Amilcar de Castro. A an&aacute;lise parte da complexidade dos livros em geral, em que diversos saberes se organizam por um editor, que assume para si uma autoria comp&oacute;sita. Em um livro sobre um artista visual, sistemas paralelos se tangenciam (o sistema art&iacute;stico e o sistema editorial); a interven&ccedil;&atilde;o de Fernando Augusto &eacute; radical ao anular os elementos que possam identificar a figura autoral do editor.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> livro de artista / desenho contempor&acirc;neo / autoria</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Abstract:</b></p>     <p>Analysis of an artist' book made by Fernando Augusto, Brazilian artist, in 2008. His artwork is made of interferences in other book, about Amilcar de Castro' artworks. This analysis starts from the complexity of book in general, a group of several different knowledge and staff, under editor's response, that assumes himself a composite authorship. Regarding to a book about artist' artworks, parallels systems touch themselves (artistic and editorial); Fernando Augusto' intervention is radical by cancelling all signs of identification of editor as a specific author.</p>     <p><b>Keywords:</b> artist' book / contemporary drawing / authorship</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Considera&ccedil;&otilde;es iniciais</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este texto analisa um livro de artista de Fernando Augusto, artista brasileiro. Trata-se de uma interven&ccedil;&atilde;o gr&aacute;fico-pict&oacute;rica realizada em 2008 sobre um livro de obras de Amilcar de Castro (1920-2002) (<a href="#f1">Figura 1</a>, <a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>, <a href="#f4">Figura 4</a>). No caso de livros sobre artistas visuais (este publicado em 2000), o sistema art&iacute;stico e o sistema editorial se tangenciam, oportunizando, na circula&ccedil;&atilde;o do objeto livro, a divulga&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es como o pensamento visual do artista e o pensamento cr&iacute;tico sobre sua obra. A interven&ccedil;&atilde;o no livro &eacute; radical pela retirada de elementos t&eacute;cnicos do objeto. Valendo-se de planos pretos geom&eacute;tricos que cobrem quase a totalidade de cada p&aacute;gina, Fernando Augusto realiza um singular di&aacute;logo com o repert&oacute;rio formal de Amilcar de Castro. </p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a16f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a16f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a16f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v8n19/8n19a16f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>Amilcar de Castro</b> </p>     <p>Escultor, desenhista e diagramador, Castro tem presen&ccedil;a forte na arte brasileira a partir do movimento neoconcretista; tamb&eacute;m foi o respons&aacute;vel pela reestrutura&ccedil;&atilde;o do projeto gr&aacute;fico do Jornal do Brasil ao fim dos anos 1950. </p>     <p>Em suas esculturas, o a&ccedil;o <i>corten</i> foi a mat&eacute;ria por excel&ecirc;ncia na produ&ccedil;&atilde;o de suas formas, obtidas por cortes e dobras de planos, de in&iacute;cio. Posteriormente, o destaque completo de fragmentos met&aacute;licos permitiu o deslocamento de partes do bloco matricial, gerando diversas combinat&oacute;rias compositivas. Seu trabalho pauta-se pelo rigor construtivo e economia formal, cuja geometria &eacute; l&iacute;rica, leve: se nas pe&ccedil;as de corte e dobra, temos um movimento "virtual" da placa, nas pe&ccedil;as de corte e deslocamento de blocos, o corte permite o movimento real, mesmo que dif&iacute;cil; as aberturas engendram uma nova espacialidade. Sugerimos que o leitor consulte os links: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZazxIBAjXg4" target="_blank">https://www.youtube.com/watch?v=ZazxIBAjXg4</a> e <a href="http://arte1.band.uol.com.br/corte-e-dobra-2/" target="_blank">http://arte1.band.uol.com.br/corte-e-dobra-2/</a> para ver imagens de obras de Amilcar de Castro.</p>     <p>Como desenhista, Castro valia-se de tra&ccedil;os e planos decididos, feitos &agrave; trincha ou vassoura, demarcadores de espa&ccedil;os. Em muitos deles, um &uacute;nico movimento definia toda a ocupa&ccedil;&atilde;o. Em sua maior parte, as composi&ccedil;&otilde;es se resolviam na rela&ccedil;&atilde;o preto e branco, sempre econ&otilde;micas e precisas. &Eacute; esta a marca que Amilcar de Castro carregou tamb&eacute;m em sua atua&ccedil;&atilde;o como projetista gr&aacute;fico, desde o fim dos anos 1950. Notabilizou-se pela retirada das linhas que separavam an&uacute;ncios e not&iacute;cias; os textos eram organizados em colunas, funcionando como "manchas" que, acrescidas eventualmente de imagens, deram mais eleg&acirc;ncia e concis&atilde;o &agrave; composi&ccedil;&atilde;o da p&aacute;gina como um todo. Cabe ainda ressaltar a atua&ccedil;&atilde;o do artista como docente universit&aacute;rio desde o seu retorno ao Brasil, ao fim dos anos 1970, quando passa a residir em Belo Horizonte, vinculado &agrave; Escola Guignard e depois &agrave; Escola de Belas Artes da UFMG.</p>     <p>Considerando o alcance das atividades acima mencionadas em um recorte temporal do fim dos anos 1950 at&eacute; o fim dos anos 1980  &ndash;  &eacute; que percebemos, de um lado, a precis&atilde;o do gesto manual nos desenhos e essa mesma precis&atilde;o traduzida pela m&aacute;quina de oxicorte no bloco met&aacute;lico, influenciando gera&ccedil;&otilde;es de alunos no que diz respeito ao desenho como ato decisivo e sem retorno, al&eacute;m da densidade de formas compactas; por outro lado, esse mesmo gesto, ao se dar em escala ampliada, requisita a presen&ccedil;a da totalidade corporal do artista  &ndash;  n&atilde;o somente as m&atilde;os; este aspecto &eacute; paralelo &agrave; liberdade expressiva e o retorno da pintura, que foram algumas das marcas da produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica dos anos 1980 no Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O livro sobre a obra de Amilcar de Castro e as figuras de autoria postas no livro</b></p>     <p>Um livro, se o considerarmos como agrega&ccedil;&atilde;o de descri&ccedil;&otilde;es e reflex&otilde;es acerca de um fen&ocirc;meno, depositadas em folhas de papel e obedecendo a uma determinada sequ&ecirc;ncia  &ndash;  &eacute; um objeto complexo. Pensado como adensamento de camadas de sentido, ele possui a "capacidade de conjugar a simultaneidade da imagem e a temporalidade do discurso" e essa capacidade n&atilde;o o faz inerte na mente do leitor; ao contr&aacute;rio, "&eacute; pensado como um dispositivo, com um papel ativo na mem&oacute;ria e na imagina&ccedil;&atilde;o". (Cad&ocirc;r, 2016: 293). </p>     <p>Temos na base um livro organizado sobre a obra escult&oacute;rica e gr&aacute;fica de um artista, o que acentua tal complexidade, pois &eacute; s&iacute;ntese de uma s&eacute;rie de procedimentos organizados ao redor de obras de arte: transformaram-se em imagens fotogr&aacute;ficas, algu&eacute;m pensou sobre elas e produziu um texto cr&iacute;tico; outro organizou a biografia do artista e houve quem idealizou o projeto gr&aacute;fico do livro. No caso de um livro sobre obras de Amilcar de Castro, ocorre ainda o legado de sua atua&ccedil;&atilde;o como programador visual: seus textos livres em colunas justificadas afirmaram-se em nosso imagin&aacute;rio, constituindo muitos projetos gr&aacute;ficos de livros e cat&aacute;logos de obras de arte, em geral. Esse aspecto metalingu&iacute;stico do projeto gr&aacute;fico do livro sobre suas obras &eacute; presen&ccedil;a sutil, mas n&atilde;o menos importante. </p>     <p>Todas essas opera&ccedil;&otilde;es, informa&ccedil;&otilde;es e sujeitos foram regidos pelo editor, que, al&eacute;m de condensar diversas figuras de autoria (cada qual com seu mister), consolidou a realiza&ccedil;&atilde;o de um objeto novo, referente &agrave;s obras art&iacute;sticas, as quais seguem sua exist&ecirc;ncia paralela e irredut&iacute;vel ao objeto-livro. Uma edi&ccedil;&atilde;o ilustrada sobre obras de arte &eacute; um <i>produto cultural</i> em segundo grau, cuja caracter&iacute;stica principal talvez seja a sua portabilidade. Existe a circula&ccedil;&atilde;o de um pensamento visual e sua inser&ccedil;&atilde;o em sistemas afins (o sistema da arte e o sistema editorial). Nessa complexidade sist&ecirc;mica que &eacute; o objeto-livro, residem, pois, duas figuras  de autoria: o artista (e sua obra), de quem se fala; e o editor ou organizador, respons&aacute;vel pela reg&ecirc;ncia de diversos saberes ao redor do artista e sua obra. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Michel Foucault (1992) pensa em figuras de autoria ao escrever sobre pr&aacute;ticas discursivas em que &eacute; poss&iacute;vel se detectar o autor, concebendo diferen&ccedil;as entre o discurso cient&iacute;fico e o discurso liter&aacute;rio. Se no primeiro a autoria se vincula a um sistema legitimador do que se prop&otilde;e como altera&ccedil;&atilde;o de um paradigma, o discurso liter&aacute;rio vincula-se &agrave; subjetividade de quem o fez. </p>     <p>O livro sobre obras de arte estaria mais pr&oacute;ximo ao universo liter&aacute;rio do que ao cient&iacute;fico. No universo liter&aacute;rio, encontra-se o autor de uma obra na verifica&ccedil;&atilde;o da unidade estil&iacute;stica, coer&ecirc;ncia conceitual e em valores que possam explicitar as transforma&ccedil;&otilde;es de seu projeto po&eacute;tico no tempo. Foucault tamb&eacute;m prop&otilde;e o autor como quem instaura uma discursividade. Pensamos em Castro como fundante de um campo de saberes nas Artes Pl&aacute;sticas e tamb&eacute;m nas Artes Gr&aacute;ficas, pois suas produ&ccedil;&otilde;es promoveram a investiga&ccedil;&atilde;o, o debate e a produ&ccedil;&atilde;o de outros autores (artistas, te&oacute;ricos e t&eacute;cnicos), que o tomaram como refer&ecirc;ncia.</p>     <p>Com rela&ccedil;&atilde;o ao editor/organizador considerado como figura de autoria, temos o que Foucault nomeia de "fun&ccedil;&atilde;o autor"  &ndash;  vincula-se a um sistema institucional que agencia a diversidade e a heterogeneidade de discursos. A fun&ccedil;&atilde;o autor tamb&eacute;m se responsabiliza por uma s&eacute;rie de opera&ccedil;&otilde;es complexas, n&atilde;o ocorrendo por uma atribui&ccedil;&atilde;o espont&acirc;nea; ela "<i>n&atilde;o reenvia pura e simplesmente para um indiv&iacute;duo real, podendo dar lugar a v&aacute;rios "eus" em simult&acirc;neo, a v&aacute;rias posi&ccedil;&otilde;es-sujeitos que classes diferentes de indiv&iacute;duos podem ocupar."</i> (Foucault,1992: 56-7). Da&iacute; concluirmos que o editor &eacute; uma figura funcional, pela qual s&atilde;o atravessadas v&aacute;rias refer&ecirc;ncias e/ou saberes e que responde, com o livro, ao contexto de sua &eacute;poca; o autor Amilcar de Castro comporta-se distintamente, pois ele alicer&ccedil;a um discurso multiplicador de outros. O livro <i>sobre</i> um artista &eacute; um exemplo interessante para compreendermos um duplo movimento na reflex&atilde;o sobre autoria nos discursos liter&aacute;rios que Foucault realiza: a detec&ccedil;&atilde;o da import&acirc;ncia de que exista um autor pelo risco do anonimato; em contrapartida, h&aacute; situa&ccedil;&otilde;es do autor como fun&ccedil;&atilde;o e essa flexibilidade retira o sujeito de sua condi&ccedil;&atilde;o de origem para localiz&aacute;-lo como "fun&ccedil;&atilde;o". </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O livro de artista, de Fernando Augusto</b></p>     <p>Esse sistema ordenado em suas diversas camadas significativas: um livro <i>sobre</i> um artista, Fernando Augusto o desestabiliza, construindo, com ele, um &uacute;nico exemplar de livro <i>de</i> artista. </p>     <p>Chamamos a aten&ccedil;&atilde;o para a opera&ccedil;&atilde;o de apropria&ccedil;&atilde;o que consubstancia seu trabalho. Tal opera&ccedil;&atilde;o relaciona-se ao que Jacques Leenhardt (1994) considera como "imagem readymade": o desenho de um bigode que Duchamp (L.H.O.O.Q., 1919) faz sobre uma reprodu&ccedil;&atilde;o da Monalisa de Leonardo da Vinci aponta, sobretudo, que a disponibiliza&ccedil;&atilde;o de bens culturais pela ind&uacute;stria (o cartaz em off-set da pintura, acess&iacute;vel a n&oacute;s via imagem) promove o deslocamento de seu locus origin&aacute;rio e possibilita sua migra&ccedil;&atilde;o para quaisquer lugares e sistemas. Nicolas Bourriaud concebe como "p&oacute;s-produ&ccedil;&atilde;o" a complexa opera&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica que se vale de mat&eacute;rias circulantes no mercado cultural para reinseri-las no fluxo da "cultura de uso": o que se pergunta agora &eacute; "o que se pode fazer com" (Bourriaud,1994:14). Desse modo, usar um objeto cultural pressup&otilde;e sua interpreta&ccedil;&atilde;o e mesmo sua inutiliza&ccedil;&atilde;o. </p>     <p>As interven&ccedil;&otilde;es de Fernando Augusto ocorrem em camadas, tal como o pr&oacute;prio livro-base, e a primeira delas &eacute; consumi-lo pela leitura. Hoje compreendida como atividade rotineira, a leitura silenciosa tem sua hist&oacute;ria pr&oacute;pria, relacionada &agrave; reprodutibilidade do livro e &agrave; conquista da privacidade, entre outros fatores. Ler solitariamente envolve a imagina&ccedil;&atilde;o e a constru&ccedil;&atilde;o de uma situa&ccedil;&atilde;o espa&ccedil;o/tempo singular, j&aacute; que o leitor pode interromper, saltar ou recuperar outro trecho j&aacute; lido (Knuppel, s/d), al&eacute;m de poder transportar o objeto para qualquer lugar. Roger Chartier (1998) v&ecirc; na leitura a efemeridade, a pluralidade e a inven&ccedil;&atilde;o; diferentemente, a escrita espacializa o tempo por meio de registros visuais (entre eles, o signo verbal tornado imagem compartilh&aacute;vel).</p>     <p>Lendo livros usados, deparamo-nos com marcas da presen&ccedil;a de nossos antecessores: bilhetes e marcadores esquecidos, p&aacute;ginas dobradas, textos sublinhados, sinais gr&aacute;ficos ou mesmo escritos, em paralelo ao texto, nas entrelinhas. Uma experi&ecirc;ncia anterior em leitura se espacializou sobre um texto escrito: leitura "escrita" sobre outra escrita, uma camada nova de significa&ccedil;&atilde;o interfere na informa&ccedil;&atilde;o original e, consequentemente, em nossa experi&ecirc;ncia atualizada de leitura. Podemos perceber alguns desses vest&iacute;gios da leitura do artista quando manipulamos o livro: diversos trechos sublinhados &agrave; tinta indicam que o sujeito-leitor construiu tra&ccedil;os e inscri&ccedil;&otilde;es sobre o texto impresso. O sujeito-leitor antecedeu, ativamente, o sujeito-apropriador/p&oacute;s-produtor e o sujeito-pintor. </p>     <p>Ap&oacute;s as interven&ccedil;&otilde;es da leitura e da inscri&ccedil;&atilde;o sobre o texto (desenho?), se d&aacute; a interfer&ecirc;ncia pict&oacute;rica propriamente dita. Augusto o percebe como suporte e retira todas as informa&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas do livro; cada p&aacute;gina d&uacute;plice convoca o di&aacute;logo entre o que est&aacute; apresentado ali e a nova interfer&ecirc;ncia preta. Planos pretos alteram a espessura de cada p&aacute;gina; emprestam-lhe uma aspereza insuspeitada para o papel couch&eacute;, utilizado na impress&atilde;o. </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A sobreposi&ccedil;&atilde;o &eacute; opera&ccedil;&atilde;o recorrente na po&eacute;tica do artista, em que h&aacute; um interesse por suportes n&atilde;o virgens como envelopes, di&aacute;rios de classe, revistas, trabalhos aparentemente abandonados, os quais recebem diversas camadas de tintas e colagens. Aqui o preto traz em sua opacidade o radicalismo da sobreposi&ccedil;&atilde;o: irrevers&iacute;vel &agrave; condi&ccedil;&atilde;o original, a densidade do pigmento se une ao conceito de absoluto, como se a interven&ccedil;&atilde;o fosse a cria&ccedil;&atilde;o de uma "escurid&atilde;o" ou "noite", por onde pudessem emergir pequenos pontos de luz numa palavra ou outra n&atilde;o recoberta. O pr&oacute;prio artista aponta: "o negro vai cobrindo tudo o que havia antes, todas as tentativas, todas as formas, criando espa&ccedil;os densos e opacos, onde o encobrir e o revelar andam de m&atilde;os dadas". (Santos Neto, 2013:58)</p>     <p>Tudo ocorre como se um grande volume de &aacute;guas levasse mat&eacute;rias inorg&acirc;nicas, seres vivos e mortos, edifica&ccedil;&otilde;es, constituindo um leito de indiscern&iacute;veis e de desaparecimentos (o trabalho do autor-editor). O escurecimento s&oacute; faz permanecer o peso irredut&iacute;vel da cor, das formas geom&eacute;tricas e da escultura. Por um lado, esse gesto pict&oacute;rico "agressivo" de anula&ccedil;&atilde;o poderia ser pensado como nega&ccedil;&atilde;o (interdi&ccedil;&atilde;o) do pr&oacute;prio conte&uacute;do do livro; por outro lado, h&aacute; uma identifica&ccedil;&atilde;o entre as formas constru&iacute;das com o pr&oacute;prio repert&oacute;rio formal de Amilcar de Castro. Isto devolve ao objeto final, a evoca&ccedil;&atilde;o da origem do livro monogr&aacute;fico: a densidade dos planos em corte e dobra consubstanciando a tridimensionalidade. O pr&oacute;prio livro se oferece como plano duro para que se porte de p&eacute;, apresentando em suas dobras, novas composi&ccedil;&otilde;es alusivas ao pensamento visual do escultor. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Considera&ccedil;&otilde;es finais</b></p>     <p>Trata-se, assim, da constru&ccedil;&atilde;o de camadas de sentido, postas desde a produ&ccedil;&atilde;o, a aquisi&ccedil;&atilde;o do objeto-livro, suas marcas de leitura e seus apagamentos. Somente o livro sobre o artista j&aacute; &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o complexa: consolidado de diversos saberes e figuras de autoria, sob a organiza&ccedil;&atilde;o de um editor, que assume para si uma autoria comp&oacute;sita.</p>     <p>Por meio da apropria&ccedil;&atilde;o do livro como produto cultural derivado do projeto po&eacute;tico de Amilcar de Castro, Fernando Augusto promove um singular di&aacute;logo. Lembrando que ambos j&aacute; se conheciam na rela&ccedil;&atilde;o professor/aluno ou mesmo em entrevistas, o di&aacute;logo agora &eacute; de outra ordem. Suas interfer&ecirc;ncias pretas conversam com as formas pretas das pinturas de Amilcar de Castro; a capa dura do livro e a dobra central habilitam-no a um comportamento escult&oacute;rico, como se fosse um estudo para uma pe&ccedil;a de corte e dobra do artista mineiro.</p>     <p>Em sua interven&ccedil;&atilde;o ocorre a nega&ccedil;&atilde;o do discurso que demarca o editor como autor funcional do objeto; o livro de artista de Fernando Augusto transforma-se em uma fic&ccedil;&atilde;o acerca de outro discurso, o di&aacute;logo existente entre dois artistas. </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Bourriaud, Nicolas (2004) <I>Post-producci&oacute;n: la cultura como escenario</i>. Buenos Aires: Adriana Hidalgo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455655&pid=S1647-6158201700030001600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Cad&ocirc;r, Amir Brito (2016) <I>O livro de artista e a enciclop&eacute;dia visual.</i> Belo Horizonte: Editora UFMG.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455657&pid=S1647-6158201700030001600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Chartier, R.; Cavallo, G (1998) <I>Hist&oacute;ria da leitura no Mundo Ocidental</i>. Vol. 1. S&atilde;o Paulo: &Aacute;tica.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455659&pid=S1647-6158201700030001600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Knuppel, Maria Aparecida C. (s/d) "Hist&oacute;ria da leitura: do pr&oacute;logo &agrave; inspira&ccedil;&atilde;o". &#91;Consult. em 2016-12-28&#93; Dispon&iacute;vel em URL: <a href="http://www.histedbr.fe.unicamp.br/acer_histedbr/seminario/seminario7/TRABALHOS/M/Maria%20aparecida%20crissi%20knuppel.pdf" target="_blank">http://www.histedbr.fe.unicamp.br/acer_histedbr/seminario/seminario7/TRABALHOS/M/Maria%20aparecida%20crissi%20knuppel.pdf</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455661&pid=S1647-6158201700030001600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Leenhardt, Jacques (1994) "Duchamp, cr&iacute;tica da raz&atilde;o visual": In: Novaes, Auto (org). <I>Artepensamento</i>. S&atilde;o Paulo, Companhia das Letras. p.339-350.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455662&pid=S1647-6158201700030001600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Santos Neto, Fernando Augusto (2013) <I>Pintura sobre pintura.</i> Vit&oacute;ria: GSA Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455664&pid=S1647-6158201700030001600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Artigo completo submetido a 26 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro 2017</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:claudiamfsg@yahoo.com.br">claudiamfsg@yahoo.com.br</a> (Cl&aacute;udia Maria Fran&ccedil;a da Silva)</p>      ]]></body><back>
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