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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article reflects on the standard of white and western normative feminine beauty imposed on all women from the works of Juliana dos Santos and Priscila Rezende. The dialogue about the current model of beauty focuses on the questioning of representations of femininity and aesthetic harmony forged from the enormous value of straight hair. We also consider the decisive impact of advertising and cultural industry on black women's denial of self and their frizzy hair. Thus, the exclusionary hegemonic model unfolds as an activator of aprocess of continuous violence against these women with consequences in their social, professional, affective and sexual lives. The two artists treat hair in their performances and reverse the pain they present through artifice of altered texture and negation for a cosmetic / aesthetic treatment of acceptance and healing.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>DOSSIER EDITORIAL</b></p>     <p align="right"><b>EDITORIAL SECTION</b></p>     <p><b>Rapunzel: a arte contempor&acirc;nea como tratamento cosm&eacute;tico/est&eacute;tico a partir das performances de Juliana dos Santos e de Priscila Rezende</b></p>     <p><b>Rapunzel: contemporary art as a cosmetic / aesthetic treatment from the performances of Juliana dos Santos and Priscila Rezende</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Renata Aparecida Felinto dos Santos*</b></p>     <p>*Brasil, artista visual, pesquisadora e professora universit&aacute;ria. Bacharelado em Artes Pl&aacute;sticas &#8212; Instituto de Artes Universidade Estadual Paulista (UNESP). Mestrado em Artes Visuais pela mesma Institui&ccedil;&atilde;o. Licenciatura em Artes Pl&aacute;sticas pelo UNICENTRO Belas Artes de S&atilde;o Paulo. Especialista em Curadoria e Educa&ccedil;&atilde;o em Museus de Artes &#8212; Museu de Arte Contempor&acirc;nea da Universidade de S&atilde;o Paulo (MAC/USP). Doutora em Artes Visuais, UNESP.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Regional do Cariri, Centro de Artes &#8212; Cear&aacute;. Av. Castelo Branco, 1056 &#8212; Piraj&aacute;, Juazeiro do Norte &#8212; CE, 63030-200 Brasil.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>O presente artigo reflete sobre o padr&atilde;o de beleza feminino normativo branco e ocidental imposto a todas as mulheres a partir das obras de Juliana dos Santos e de Priscila Rezende. O di&aacute;logo acerca do modelo de beleza vigente centra-se no questionamento das representa&ccedil;&otilde;es de feminilidade e harmonia est&eacute;ticas forjadas a partir da enorme valoriza&ccedil;&atilde;o dos cabelos lisos. Tamb&eacute;m consideramos o impacto decisivo da publicidade e da ind&uacute;stria cultural no processo de nega&ccedil;&atilde;o de si e de seus cabelos crespos por parte das mulheres negras. Assim, o modelo hegem&ocirc;nico excludente se desdobra como ativador de um processo de cont&iacute;nua viol&ecirc;ncia contra essas mulheres com conseq&uuml;&ecirc;ncias em suas vidas social, profissional, afetiva e sexual. As duas artistas tratam de cabelos em suas performances e, revertemos a dor que elas apresentam por meio de artif&iacute;cios de altera&ccedil;&atilde;o de textura e de nega&ccedil;&atilde;o, para um tratamento cosm&eacute;tico/est&eacute;tico de aceita&ccedil;&atilde;o e de cura.</p>     <p><b>Palavras-chave:</b> performance/ mulher negra / cabelos / arte contempor&acirc;nea / est&eacute;tica.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>This article reflects on the standard of white and western normative feminine beauty imposed on all women from the works of Juliana dos Santos and Priscila Rezende. The dialogue about the current model of beauty focuses on the questioning of representations of femininity and aesthetic harmony forged from the enormous value of straight hair. We also consider the decisive impact of advertising and cultural industry on black women's denial of self and their frizzy hair. Thus, the exclusionary hegemonic model unfolds as an activator of aprocess of continuous violence against these women with consequences in their social, professional, affective and sexual lives. The two artists treat hair in their performances and reverse the pain they present through artifice of altered texture and negation for a cosmetic / aesthetic treatment of acceptance and healing.</p>      <p><b>Keywords:</b> performance / black woman / hair / contemporary art / aesthetics.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Juliana dos Santos e Priscila Rezende s&atilde;o duas artistas visuais afro-brasileiras que criticam, por meio de suas obras, o padr&atilde;o de beleza hegem&ocirc;nico branco imposto "universalmente" &agrave;s mulheres.</p>     <p>O estabelecimento do modelo &uacute;nico de beleza se fortalece a partir do fundamento capitalista das sociedades contempor&acirc;neas que usam meios de profus&atilde;o do mesmo, como a publicidade e a ind&uacute;stria cultural. Mulheres que comp&otilde;em diversos grupos humanos nas sociedades ocidentais ou ocidentalizadas atuais, buscam alcan&ccedil;&aacute;-lo de forma inconseq&uuml;ente.</p>     <p>Um dos elementos que impactam neste contexto s&atilde;o os cabelos lisos como marcadores de beleza. Processos de dor, sofrimento e nega&ccedil;&atilde;o s&atilde;o inerentes recursos usados para que cabelos crespos aproximem-se dos fios lisos, e as seq&uuml;elas nessas mulheres extrapolam os limites do corpo f&iacute;sico.</p>     <p>Enquadrar-se &eacute; um objetivo, pois, afastar-se dele tamb&eacute;m pode significar excluir-se dos mercados, como o de trabalho e de relacionamentos, provando que as implica&ccedil;&otilde;es &agrave;s que n&atilde;o se ad&eacute;quam s&atilde;o muitas.</p>     <p>As duas artistas realizaram obras de arte na linguagem da performance e suas experi&ecirc;ncias pessoais s&atilde;o balizadoras do processo de cria&ccedil;&atilde;o. Ao introduzi-las tentamos alargar mentalidades no que &agrave; diversidade do Belo.</p>     <p>Compreendemos que suas obras traduzem o sentimento de impot&ecirc;ncia e de subordina&ccedil;&atilde;o incutidos em mulheres negras para que se justaponham ao que naturalmente &eacute; distante de suas apar&ecirc;ncias. Propomos a frui&ccedil;&atilde;o sobre esses trabalhos como tratamentos cosm&eacute;tico/est&eacute;tico de cura de sentimentos de n&atilde;o aceita&ccedil;&atilde;o e de inadequa&ccedil;&atilde;o cultivados por negras fundamentados no desconhecimento de processos hist&oacute;ricos de opress&atilde;o e de domina&ccedil;&atilde;o dos quais s&atilde;o v&iacute;timas.</p>     <p>A maior parte dos corpos femininos negros e seus predicados como formato do corpo, volume das n&aacute;degas ou textura dos cabelos, n&atilde;o atendem ao conceito de Belo universal da Gr&eacute;cia Antiga que incorporamos, com pequenas transforma&ccedil;&otilde;es, na atualidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Beleza como mercadoria de negocia&ccedil;&atilde;o: da Rapunzel &agrave; B&uuml;ndchen</b></p>     <p>A civiliza&ccedil;&atilde;o grega foi sedimentada como o arcabou&ccedil;o mais significativo das sociedades ocidentais contempor&acirc;neas. Exemplificando, tratemos da democracia e da cidadania como pr&aacute;ticas sociais e pol&iacute;ticas que, teoricamente, garantiriam mudan&ccedil;as objetivando a igualdade entre todos/as os/as indiv&iacute;duos/as. Na contemporaneidade, elas s&atilde;o exercidas como na Gr&eacute;cia antiga, e numa atualiza&ccedil;&atilde;o, delas est&atilde;o exclu&iacute;dos os escravos, que identificamos como o proletariado, que sustenta oligarquias e o corporativismo mundial; os estrangeiros que s&atilde;o os povos n&atilde;o brancos, de origem n&atilde;o europ&eacute;ia e n&atilde;o ocidentais; e, por fim, as mulheres.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Somando o capitalismo enquanto sistema econ&ocirc;mico ao paradigma grego de sociedade, privilegiam-se pe&ccedil;as fundamentais ao funcionamento do <i>modus operandi</i>: oferta, demanda, pre&ccedil;o, investimento e lucro. Dessa situa&ccedil;&atilde;o, elas s&atilde;o transferidas &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es sociais no capitalismo que est&atilde;o engendradas no que oferecemos, em como pagamos e como lucramos. Portanto, nossas imagens apresentadas ao mundo passam ao status de mercadoria negoci&aacute;vel, especialmente se inseridas no padr&atilde;o de beleza dominante.</p>     <p>Logo, o modelo grego de Belo fundamenta esse padr&atilde;o ainda hoje. Policleto (c. 460 e c. 410 a.C.), estabeleceu que as propor&ccedil;&otilde;es perfeitas s&atilde;o a de um corpo que possui sete cabe&ccedil;as. De corpos levemente roli&ccedil;os, antiguidade cl&aacute;ssica, para os esbeltos, atualidade, o padr&atilde;o de beleza incorporou ser branco/a e ter cabelos lisos.</p>     <p>Refor&ccedil;ando o ideal de Belo arrolado na branquitude, h&aacute; ainda ampla literatura enaltecendo peles alvas e longos cabelos dourados. Desde cedo, meninas negras educadas nos pa&iacute;ses ocidentais/ocidentalizados ouvem contos infantis de origem europ&eacute;ia que focam nestes atributos como indispens&aacute;veis &agrave; beleza.</p>     <p>Por serem narrativas europ&eacute;ias n&atilde;o existe problema no fato das personagens terem essas caracter&iacute;sticas. A quest&atilde;o &eacute; que elas perpassam gera&ccedil;&otilde;es como se fossem as &uacute;nicas alternativas de literatura infantil e, portanto, de Belo. Inegavelmente, os contos possuem valores positivos para vida em coletividade a serem transmitidos, contanto, n&atilde;o tem havido predisposi&ccedil;&atilde;o para os contos tecidas por culturas n&atilde;o brancas e n&atilde;o ocidentais e/ou europ&eacute;ias.</p>     <p>Assim, excetuando as virtudes humanas presentes nos mesmos, a recorr&ecirc;ncia dessas narrativas tamb&eacute;m afirma e firma que nem todas s&atilde;o belas, uma vez que n&atilde;o assemelham-se fisicamente &agrave;s princesas brancas, magras e loiras. Fora dos contos, do cinema &agrave; moda, &agrave;s mulheres foram estendidos esses valores est&eacute;ticos. De uma Rapunzel a uma B&uuml;ndchen (1980-), n&atilde;o temos conseguido incorporar a diversidade humana e alterar esse imagin&aacute;rio.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Da beleza que agride &agrave;s belas que transgridem</b></p>     <p>O impacto dessa situa&ccedil;&atilde;o nas vidas das mulheres do mundo &eacute; extremamente agressivo, visto que submetem-se a diversos tipos de tratamentos caseiros, qu&iacute;micos e cir&uacute;rgicos para aproximarem-se do padr&atilde;o vigente. Logo, impulsiona-se tamb&eacute;m a ind&uacute;stria dos cosm&eacute;ticos, que etimologicamente, organiza, ordena e limpa as apar&ecirc;ncias que n&atilde;o correspondem ao Belo.</p>     <p>Na "limpeza" dos corpos &agrave;s mulheres negras pesam de forma determinante a cor da pele e a textura dos cabelos. Em ambos os casos h&aacute; "solu&ccedil;&otilde;es, como os embranquecedores de peles, e ainda, as extens&otilde;es de madeixas lisas naturais e uma amplid&atilde;o de relaxantes e alisantes de fios. Segundo Luciane Ramos da Silva:</p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Nig&eacute;ria, Qu&ecirc;nia, Senegal, Congo e Camar&otilde;es s&atilde;o alguns exemplos de pa&iacute;ses onde o com&eacute;rcio poderoso desses produtos existe h&aacute; d&eacute;cadas e se fortalece anualmente</i> (&#8230;)<i> No discurso dos usu&aacute;rios destes produtos, em sua maioria mulheres, a pele escura &eacute; um obst&aacute;culo para oportunidades sociais, trabalho e principalmente para o "mercado amoroso", pois seus maridos e pretendentes preferem mulheres de pele clara</i>. (Silva, 2014).</p></blockquote>     <p>Nesse todo, beleza &eacute; artigo de valor vari&aacute;vel conforme suas caracter&iacute;sticas compositivas, e ainda, tendo os cabelos como fator determinante. As artistas visuais h&aacute; tempos v&ecirc;m questionando esse padr&atilde;o alinhadas ao discurso feminista que visa desconstruir a objetifica&ccedil;&atilde;o de nossos corpos.</p>     <p>No Brasil, destacamos duas delas que focam nos cabelos crespos e que tratam do ser negra num pais racista. Ao contr&aacute;rio de uma Rapunzel, cujos extensos cabelos lisos crescem em dire&ccedil;&atilde;o ao ch&atilde;o e s&atilde;o o acesso &agrave; figura do pr&iacute;ncipe, os cabelos crespos t&ecirc;m afastado pretendentes apesar de crescerem para os c&eacute;us. Juliana dos Santos (1987-) e Priscila Rezende (1985-) arg&uacute;em esse padr&atilde;o, a partir do preterimento e viol&ecirc;ncia a qual submetem-nos ao convivermos com uma constante exposi&ccedil;&atilde;o &agrave; beleza normativa branca e seus cabelos esvoa&ccedil;antes exibidos exaustivamente em propagandas de cosm&eacute;ticos capilares.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>3. Cabelo oprimido: uma venda para o espelho</b></p>     <p>Juliana dos Santos, paulistana nascida no tradicional bairro negro onde surgiu a escola de samba Peruche, desde crian&ccedil;a tem em seus cabelos um s&iacute;mbolo de resist&ecirc;ncia e de disputa familiar. Por parte da m&atilde;e foi incentivado que mantivesse os fios naturais. Por parte da v&oacute; materna, ouviu insistentemente que deveria alis&aacute;-los. A partir dessa viv&ecirc;ncia a artista graduada e mestranda pelo Instituto de Artes/UNESP, desenvolveu a performance <i>Qual &eacute; opente?</i> (2014) que exibe um dos processos violentos vividos por mulheres negras ao alisarem os fios com o pente de ferro aquecido no fog&atilde;o a g&aacute;s.</p>     <p>Na performance &eacute; Dona Benedita, sua v&oacute;, quem realiza o procedimento em seu potente cabelo em corte <i>black power</i> (<a href="#f1">Figura 1</a>, <a href="#f2">Figura 2</a>). Lentamente, separa madeixas para serem queimadas em pequenas por&ccedil;&otilde;es. Na vida adulta, a artista compreendeu que a v&oacute; n&atilde;o negava os seus cabelos a partir do alisamento, mas sim que tentava evitar que a neta vivesse algumas situa&ccedil;&otilde;es de racismo que seriam determinadas pelo aspecto eles teriam ao apresentar-se socialmente:</p>     <blockquote>    <p><i>Demorou um tempo para eu perceber que a preocupa&ccedil;&atilde;o de minha av&oacute; estava para al&eacute;m do cabelo, com ele vinha a aceita&ccedil;&atilde;o na escola, a inser&ccedil;&atilde;o no mercado de trabalho, o racismo, o racismo &agrave; brasileira.</i> (Juliana dos Santos, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal, 2017).</p></blockquote>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a02f1.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a02f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Em sua fam&iacute;lia &eacute; tradi&ccedil;&atilde;o o ch&aacute; de carqueja nos cuidados com os cabelos, um tratamento natural feito com o l&iacute;quido de sabor acre, que nos revela tamb&eacute;m um amargor que pode ser relacionado a um processo de cura:</p>     <blockquote>    <p>(&#8230;) <i>o banho de ch&aacute; de Carqueja como met&aacute;fora do retorno. Do retorno &agrave;s ra&iacute;zes para desfazer o processo de altera&ccedil;&atilde;o do cabelo. Esse amargor do ch&aacute;</i> (&#8230;)<i> como quebra no ciclo de pr&aacute;ticas violentas com o cabelo/corpo de mulheres negras em busca de retomar nossos afetos. Nesta a&ccedil;&atilde;o Benedita fala de sua hist&oacute;ria com o cabelo, revela as insatisfa&ccedil;&otilde;es, retoma nossa hist&oacute;ria e por fim se nega alisar o meu cabelo "de verdade".</i> (Juliana dos Santos, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal, 2017).</p></blockquote>     <p>Assim, Juliana apropria-se desse fazer est&eacute;tico marcado por profunda nega&ccedil;&atilde;o de um dos atributos caracter&iacute;sticos das mulheres negras. O apagamento dessas qualidades pr&oacute;prias s&atilde;o pequenas viol&ecirc;ncias infligidas a essas mulheres. Tal supress&atilde;o implica em alisamentos qu&iacute;micos ou a ferro quente, curtos cortes como alternativa ao lento crescimento dos fios e, at&eacute; extens&otilde;es com cabelos lisos de outras mulheres. Um arsenal contra os capilares crespos naturais. A performance finda com recusa da v&oacute; em finalizar o procedimento-tortura, como numa reden&ccedil;&atilde;o.</p>      <p>J&aacute; Priscila Rezende, graduada em Artes Pl&aacute;sticas pela Escola Guignard/ UEMG, traz como detonadores do processo criativo da performance <i>Bombril,</i> (2010), a experi&ecirc;ncia traum&aacute;tica vivida por meninas negras durante o per&iacute;odo de forma&ccedil;&atilde;o escolar.</p>     <p>Corpos e cabelos s&atilde;o alvos de express&otilde;es de racismo j&aacute; acionadas por crian&ccedil;as brancas, e, &agrave;s vezes negras, num ambiente que deveria ser de ensino e aprendizagem. De fato, depois do seio familiar, seja ele qual for, a escola &eacute; a nossa segunda experi&ecirc;ncia profunda com a sociedade na qual nos inserimos. Nela, os cabelos crespos recebem muitos nomes depreciativos, sendo um deles "Bombril", que refere-se a uma famosa marca de espoja de a&ccedil;o para polir panelas de alum&iacute;nio:</p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>"Pixaim", cabelo "duro", cabelo "ruim", "vassoura", "sarar&aacute;". "Bombril", al&eacute;m de uma conhecida marca de produtos para limpeza e de uso dom&eacute;stico, faz parte de uma extensa lista de apelidos pejorativos, utilizados em nossa sociedade para se referir &agrave; uma caracter&iacute;stica do indiv&iacute;duo negro, o cabelo.</i> (Priscila Rezende, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal, 2017).</p></blockquote>     <p>Os cabelos crespos, assim, s&atilde;o conexos &agrave; aspereza e subalternidade que a sociedade brasileira reservou &agrave;s negras como numa continuidade perversa dos afazeres do lar durante o extenso per&iacute;odo de escravid&atilde;o. Tamb&eacute;m se metaforiza a escravid&atilde;o, que na performance passa a ser est&eacute;tica, mas que ainda trata de corpos presos. O figurino trajado pela artista durante a apresenta&ccedil;&atilde;o cita os panos com os quais vestiam as escravizadas no passado.</p>     <p>Durante a performance com dura&ccedil;&atilde;o de 01 hora (<a href="#f3">Figura 3</a>), Priscila esfrega sofregamente suas madeixas contra panelas e outros utens&iacute;lios. A tens&atilde;o que se apresenta nesta a&ccedil;&atilde;o repetitiva equivale &agrave; vivida por negras durante a inf&acirc;ncia na qual a beleza de seus cabelos, e por extens&atilde;o de seus corpos, &eacute; colocada em d&uacute;vida constantemente:</p>     <blockquote>    <p><i>Em "Bombril" o corpo se apropria da posi&ccedil;&atilde;o pejorativa a ele atribu&iacute;da, transformando-se em uma imagem de confronto. A imagem presenciada durante a a&ccedil;&atilde;o "Bombril" &eacute; propositadamente desconfort&aacute;vel, n&atilde;o existe comodismo em sua vis&atilde;o. Nesse contexto o espectador se defronta com sua pr&oacute;pria fala discriminat&oacute;ria e &eacute; obrigado a encar&aacute;-la, sem que haja op&ccedil;&otilde;es para evasivas, subterf&uacute;gios ou digress&otilde;es. (</i>Priscila Rezende, comunica&ccedil;&atilde;o pessoal, 2017).</p></blockquote>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a02f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O inc&ocirc;modo causado nos/as espectadores/as de <i>Bombril</i> converte-se num disparador reflexivo acerca de como corpos negros tem sido pouco afagados, elogiados e amados. Respectivamente, dela emerge uma sensa&ccedil;&atilde;o de inadequa&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o-lugar com a qual convivem negras/as num mundo pensando por e para brancos/as. Uma viol&ecirc;ncia que pode ser desfrutada durante uma hora por n&atilde;o negros/as. Lembrando que no caso de negros/as essa agress&atilde;o &eacute; condi&ccedil;&atilde;o existencial.</p>     <p>A forma como cabelos crespos s&atilde;o tratados no nosso mundo &eacute; inegavelmente agressiva, seja por via da exotiza&ccedil;&atilde;o, seja pela da sua nega&ccedil;&atilde;o e rejei&ccedil;&atilde;o quando m mulheres negras. O cabelo como meton&iacute;mia do corpo, logo, de um/a ser humano, neste caso, oprimido/a.</p>     <p>A afro-estadunidense Alice Walker (1944), ap&oacute;s d&eacute;cadas ocultando seus crespos, sem nenhuma intimidade com os mesmos, compartilhou a experi&ecirc;ncia de reconhecimento de si a partir do contato do feitio de seus verdadeiros fios:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p><i>Finalmente descobri exatamente o que o cabelo queria: queria crescer, ser ele mesmo, atrair poeira, se esse era seu destino, mas queria ser deixado em paz por todos, incluindo eu mesma, os que n&atilde;o o amavam como ele era. O que acham que aconteceu? (&#8230;). Otetonoaltodomeuc&eacute;rebroabriu-se; maisumavezminhamente(emeuesp&iacute;rito) podia sair de dentro de mim. Eu n&atilde;o estaria mais presa &agrave; imobilidade inquieta, eu continuaria a crescer. A planta estava acima do solo.</i> (Walker, 2011).</p></blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>4. Sobre as Refer&ecirc;ncias</b></p>     <p>No primeiro cap&iacute;tulo <i>Beleza como mercadoria de negocia&ccedil;&atilde;o: da Rapunzel &agrave; B&uuml;ndchen</i><b>,</b> a reflex&atilde;o &eacute; produzida tendo como refer&ecirc;ncia indireta <i>Usos da mem&oacute;ria</i> (2014), texto de Elvira Dyangani Ose. Inclu&iacute;mos tamb&eacute;m conclus&otilde;es de conversas com mulheres negras travadas ao longo dos anos.</p>     <p>No segundo, <i>Da beleza que agride &agrave;s belas que transgridem</i><b>,</b> o texto <i>Yellow Ferver: notas sobre a despigmenta&ccedil;&atilde;o artificial de pele entre mulheres negras</i> (2014), de Luciane Ramos da Silva, traz a rela&ccedil;&atilde;o com o colonialismo que atinge a percep&ccedil;&atilde;o dos corpos.</p>     <p>No terceiro, <i>Cabelo oprimido: uma venda para o espelho</i><b>,</b> as entrevistas que realizamos com Juliana dos Santos e Priscila Rezende, por terem pouco bibliografia sobre suas obras. Pautamo-nos e parafraseamos o t&iacute;tulo texto de Alice Walker, <i>Cabelo oprimido: um teto para o c&eacute;rebro</i> (2011), pois ele trata da experi&ecirc;ncia com seus cabelos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>Na arte contempor&acirc;nea a linguagem da performance autoriza as duas artistas a repensarem o olhar social que recai sobre seus corpos negros e a carga negativa que os acompanha. A partir dessas representa&ccedil;&otilde;es-reflex&otilde;es s&atilde;o articulados pensares que explicam e explicitam as implica&ccedil;&otilde;es do ser mulher negra em sociedades ocidentais, colonizadoras e colonizadas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>As performances, portanto, seriam o tratamento cosm&eacute;tico/est&eacute;tico por meio do qual se regenera o olhar sobre os cabelos crespos e, por conseguinte, sobre os corpos negros. Do mesmo modo, se gera um olhar generoso &agrave; diversidade e ao questionamento das narrativas &uacute;nicas, inclusive no que se refere ao conceito de Belo.</p>     <p>Os trabalhos, por fim, urdidos a partir da experi&ecirc;ncia da dor, permitem que se retome os cuidados dos capilares crespos a partir da suavidade de sua textura. Suavidade com a qual se pretende tratar tamb&eacute;m esses corpos femininos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Referencias</b></p>     <!-- ref --><p>Ose, Elvira Dyangani. (2014), <i>Usos da mem&oacute;ria</i>. Caderno SESC_Videobrasil: usos da mem&oacute;ria. S&atilde;o Paulo: Edi&ccedil;&otilde;es SESC S&atilde;o Paulo, pp. 3-10.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455863&pid=S1647-6158201700040000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Silva, Luciane Ramos da (2014) <i>Yellow Fever: Yellow Ferver: notas sobre a despigmenta&ccedil;&atilde;o artificial de pele entre mulheres negras</i>. Em: Revista O Menelick 2&ordm;Ato. Outubro de 2014. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://omenelick2ato.com/especial/YELLOW-FEVER/" target="_blank">http://omenelick2ato.com/especial/YELLOW-FEVER/</a>, acesso em 25 de janeiro de 2017.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455865&pid=S1647-6158201700040000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Walker, Alice. (2011) <i>Cabelo oprimido</i>: um teto para as id&eacute;ias. Geled&eacute;s. 12/11/2011. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.geledes.org.br/cabelo-oprimido-e-um-teto-para-o-cerebro/" target="_blank">http://www.geledes.org.br/cabelo-oprimido-e-um-teto-para-o-cerebro/</a>, acesso 25 de janeiro de 2017.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455867&pid=S1647-6158201700040000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Enviado a 26 de janeiro de 2017 e aprovado a 15 de fevereiro de 2017</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:renata.santos@urca.br">renata.santos@urca.br</a> (Renata Aparecida Felinto dos Santos)</p>       ]]></body><back>
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