<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1647-6158</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista :Estúdio]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Estúdio]]></abbrev-journal-title>
<issn>1647-6158</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1647-61582017000400003</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O que somos?: Leitura Heideggeriana do trabalho de Ricardo Guerreiro Campos]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[What are we?: Heideggerian lecture of Ricardo Guerreiro Campos's Work]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Silva]]></surname>
<given-names><![CDATA[Pedro Miguel Santos]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade de Vigo Facultad de Belas Artes de Pontevedra Departamento de Escultura]]></institution>
<addr-line><![CDATA[Pontevedra ]]></addr-line>
<country>Espanha</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<volume>8</volume>
<numero>20</numero>
<fpage>32</fpage>
<lpage>40</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1647-61582017000400003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1647-61582017000400003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1647-61582017000400003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Diante da questão primordial - o que somos? - o propósito deste trabalho é expor algumas das estruturas que fundamentam o ser humano a partir da obra "Ser e Tempo" (1927) de Heidegger - nomeadamente a existência autêntica, inautêntica e a morte -, e cruzá-las com a temática da Identidade que norteia o trabalho artístico de Ricardo Guerreiro Campos a fim de potenciar novas perspectivas de leitura da sua produção artística.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Facing our primordial question - what are we? - the aim of this work is to expose some of the structures that support the human being starting from the lecture "Being and Time" (1927) written by Heidegger - namely the authentic and inauthentic existence and death - and comparing it with the theme of Identity that guides Ricardo Guerreiro Campos's artistic work in order to emphasize new reading perspectives of his artistic production.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Heidegger]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Ricardo Guerreiro Campos]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[vida autêntica e inautêntica]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[identidade]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[morte]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Heidegger]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Ricardo Guerreiro Campos]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[authentic and inauthentic life]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[identity / death]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>O que somos?</b> <b>Leitura Heideggeriana do trabalho de Ricardo Guerreiro Campos</b></p>     <p><b>What are we? Heideggerian lecture of Ricardo Guerreiro Campos's Work</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Pedro Miguel Santos Silva*</b></p>     <p>*Portugal, artista pl&aacute;stico. Licenciatura em Investiga&ccedil;&atilde;o Social Aplicada, Universidade Moderna Lisboa (UM), Licenciatura em Artes Pl&aacute;sticas, Faculdade de Belas Artes Porto (FBAUP).</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Vigo (UV), Facultad de Belas Artes de Pontevedra; Departamento de Escultura. Grupo de Investigaci&oacute;n H07 &#8212; La dimensi&oacute;n escult&oacute;rica de las pr&aacute;cticas art&iacute;sticas. R&uacute;a da Maestranza, 2, 36002 Pontevedra, Espanha.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Diante da quest&atilde;o primordial &#8212; o que somos? &#8212; o prop&oacute;sito deste trabalho &eacute; expor algumas das estruturas que fundamentam o ser humano a partir da obra "Ser e Tempo" (1927) de Heidegger &#8212; nomeadamente a exist&ecirc;ncia aut&ecirc;ntica, inaut&ecirc;ntica e a morte &#8212;, e cruz&aacute;-las com a tem&aacute;tica da Identidade que norteia o trabalho art&iacute;stico de Ricardo Guerreiro Campos a fim de potenciar novas perspectivas de leitura da sua produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Heidegger / Ricardo Guerreiro Campos / vida aut&ecirc;ntica e inaut&ecirc;ntica / identidade / morte.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>Facing our primordial question &#8212; what are we? &#8212; the aim of this work is to expose some of the structures that support the human being starting from the lecture "Being and Time" (1927) written by Heidegger &#8212; namely the authentic and inauthentic existence and death &#8212; and comparing it with the theme of Identity that guides Ricardo Guerreiro Campos's artistic work in order to emphasize new reading perspectives of his artistic production.</p>     <p><b>Keywords:</b> Heidegger / Ricardo Guerreiro Campos / authentic and inauthentic life / identity / death.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Contextualiza&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Qual &eacute; o maior perigo que amea&ccedil;a o Homem contempor&acirc;neo? A resposta filos&oacute;fica que Martin Heidegger (1889-1976) d&aacute; a esta quest&atilde;o, em "Ser e Tempo" (original de 1927), continua actual: esse perigo adv&eacute;m de um desinteresse por parte dos seres humanos em se interrogarem acerca do sentido da sua pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia, pelo que a pergunta primordial &#8212; o que &eacute; ser? &#8212; perde relev&acirc;ncia e cai no esquecimento.</p>     <p>Para Heidegger, o Homem apresenta-se como o &uacute;nico ente capaz de questionar o fundamento da sua exist&ecirc;ncia e, desta forma, cabe-lhe a tarefa de se interrogar sobre o que &eacute; ser.</p>     <p>O homem apresenta-se, pois, como possibilidade de se ir construindo na sua correspond&ecirc;ncia com o mundo e com os outros. A liberdade, que distingue o ser humano dos restantes entes, &eacute; uma abertura constante ao mundo que o rodeia. O Homem &eacute;, pois um "ser-no-mundo" (Heidegger, 2008). E a sua liberdade, sendo decisiva, prev&ecirc; uma responsabilidade, igualmente, decisiva e para as quais o Homem n&atilde;o se encontra, na sua generalidade, preparado.</p>     <p>O indiv&iacute;duo contempor&acirc;neo tende a alhear-se do real, evitando o confronto consigo mesmo, com os outros e com o mundo, esquivando-se a aceder &agrave; autenticidade da sua exist&ecirc;ncia, pois uma exist&ecirc;ncia aut&ecirc;ntica implica reconhecer que o Homem &eacute; um ser que tem no seu horizonte a morte. Por este facto, os entes humanos tendem a adoptar uma atitude evasiva, entregando-se a refer&ecirc;ncias parciais que calam o apelo do ser em se manifestar. Salvo raras excep&ccedil;&otilde;es, o Homem contempor&acirc;neo tem uma exist&ecirc;ncia banal, por n&atilde;o procurar confrontar-se com a quest&atilde;o do sentido da sua vida. Vive, assim, aquilo a que Heidegger chama de exist&ecirc;ncia inaut&ecirc;ntica.</p>     <p>O que &eacute; que pode salvar o Homem de uma vida inaut&ecirc;ntica? A resposta de Heidegger &eacute; que o Homem deve regressar ao seu fundamento, deve, pois, abrir-se &agrave; escuta do Ser, que o apela a ser si mesmo, i.e., a aceitar expressar e realizar todas as suas possibilidades de ser, que em &uacute;ltima inst&acirc;ncia se completam na morte.</p>     <p>Ora, salientando um conjunto de estruturas existenciais que fundamentam o ser humano &#8212; a vida aut&ecirc;ntica, vida inaut&ecirc;ntica e morte &#8212; estamos em condi&ccedil;&otilde;es de fazer uma leitura de uma selec&ccedil;&atilde;o de trabalhos art&iacute;sticos de Ricardo Guerreiro Campos a partir destes referenciais.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. Leitura Heideggeriana do trabalho de Ricardo Guerreiro Campos</b></p>     <p>O artista portugu&ecirc;s Ricardo Guerreiro Campos &eacute;, segundo o colectivo de criatividade <i>Mat&eacute;ria Negra</i> (<a href="https://materianegra.net/2016/11/24/10-artistas-nacionais-a-ter-em-conta/" target="_blank">https://materianegra.net/2016/11/24/10-artistas-nacionais-a-ter-em-conta/</a> consult. a 24 Out. 2016), um dos 10 artistas portugueses a ter em considera&ccedil;&atilde;o. A sua produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica &eacute; diversificada, deambulando pela pintura, desenho, fotografia, performance, v&iacute;deo, cenografia e a representa&ccedil;&atilde;o teatral. O seu enfoque tem&aacute;tico centra-se na reflex&atilde;o sobre a Identidade, mais concretamente no arrastar do ser humano por uma exist&ecirc;ncia an&oacute;nima, sem referenciais, mas que, no seu desassossego se inquieta e procura, de algum modo, (re)encontrar-se atrav&eacute;s do sil&ecirc;ncio e da solid&atilde;o.</p>     <p>Este universo conceptual de Ricardo G. Campos aproxima-se daquilo a que Heidegger denomina de <i>exist&ecirc;ncia inaut&ecirc;ntica</i>, situa&ccedil;&atilde;o original do ser humano. O Homem parte de uma identidade difusa e indiferenciada, imbu&iacute;da no impessoal e cabe-lhe a tarefa de se abrir &agrave; interpela&ccedil;&atilde;o do seu ser a fim de ganhar consci&ecirc;ncia de si pr&oacute;prio e, assim, assumir a responsabilidade de existir autenticamente. Esta abertura &agrave; interpela&ccedil;&atilde;o acontece quando o ser humano ouve o apelo da sua consci&ecirc;ncia. Da&iacute; que o recolhimento na solid&atilde;o para habitar o sil&ecirc;ncio (conceitos do universo do artista) seja fundamental para que o ser humano se possa realizar.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Por&eacute;m, a necessidade de recolhimento n&atilde;o surge quando o Homem est&aacute; imbu&iacute;do na banalidade do quotidiano, mas somente quando toma consci&ecirc;ncia (&eacute; tamb&eacute;m um dos predicados existenciais com que Heidegger caracteriza o ser humano) de que viver &eacute; ir morrendo, o que merecer&aacute; uma an&aacute;lise mais detalhada &agrave; frente.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1.1 A anula&ccedil;&atilde;o de identidades</b></p>     <p>Numa primeira fase (2012-2015) a obra foca-se na <i>anula&ccedil;&atilde;o de identidades</i>. Em termos processuais, os trabalhos eram, normalmente, ancorados em ac&ccedil;&otilde;es performativas encenadas e fotografadas, passando, posteriormente, uma selec&ccedil;&atilde;o para o registo gr&aacute;fico do desenho e da pintura a &oacute;leo (<a href="#f1">Figura 1</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a03f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Estas encena&ccedil;&otilde;es recebiam uma forte exposi&ccedil;&atilde;o &agrave; luminosidade, a fim de ser criado um efeito de supress&atilde;o de referenciais, fundindo as figuras representadas com o espa&ccedil;o envolvente, como se esta fus&atilde;o anulasse as suas identidades, fazendo-as residir num mundo amorfo e indeterminado.</p>     <p>O branco assumia, ent&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; uma funcionalidade c&eacute;nica de dissolu&ccedil;&atilde;o da imagem, mas tamb&eacute;m conceptual do trabalho de Ricardo G. Campos, conforme o pr&oacute;prio anotou: "&#91;o branco&#93; est&aacute; assim no cerne de um projecto que pretende humanizar e universalizar a Exist&ecirc;ncia atrav&eacute;s da anula&ccedil;&atilde;o das identidades das figuras" (Campos, 2013).</p>     <p>Tamb&eacute;m a este prop&oacute;sito, Jorge Silva Melo aponta o trabalho do artista como que situado</p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>nos limites da luz, raiando o branco, dissolvendo-se</i> (&#8230;). <i>S&atilde;o corpos que voltejam, transit&oacute;rios, bailarinos.</i> (&#8230;) <i>Caindo, debatendo-se no espa&ccedil;o branco, liso, tombando, perdendo o ch&atilde;o t&atilde;o lenta, demoradamente</i> (Melo, 2014).</p></blockquote>     <p>A pintura apresentada na <a href="#f2">Figura 2</a>, enquadrada ainda na tem&aacute;tica da anula&ccedil;&atilde;o da identidade pela dissolu&ccedil;&atilde;o no branco, abre-nos, contudo, um novo campo interpretativo que se relaciona com a fotografia principal que o Ricardo apresentou na exposi&ccedil;&atilde;o individual no Arquivo Fotogr&aacute;fico Municipal, em Lisboa (2014).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a03f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Em ambos os casos (<a href="#f2">Figura 2</a> e <a href="#f3">Figura 3</a>) h&aacute; uma imag&eacute;tica, ainda que n&atilde;o tenha sido a inten&ccedil;&atilde;o primeira do artista, que remete para o corpo inactivo, para o findar, enfim, para a estatu&aacute;ria da morte, conforme notou Jorge Silva Melo (2014). Situamo-nos, pois, no &acirc;mbito da an&aacute;lise das estruturas existenciais que caracterizam o Homem, segundo Heidegger, nomeadamente no <i>ser-para-a-morte</i>. A exist&ecirc;ncia humana realiza-se efectivando-se nas suas possibilidades de ser, o que levado &agrave; sua pot&ecirc;ncia m&aacute;xima, s&oacute; se completa na morte (Heidegger, 2008, &sect; 48: 123). A morte &eacute;, pois, um dos caracteres constitutivos do Homem, porque define o seu modo de ser e, neste sentido, elucida a sua pr&oacute;pria identidade.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a03f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Os trabalhos apresentados nas <a href="#f2">Figura 2</a> e <a href="#f3">Figura 3</a> trazem, pois, o tema da morte para um primeiro plano de reflex&atilde;o, relacionando-o com a constru&ccedil;&atilde;o da identidade pessoal, como que expondo o espectador diante da sua pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o de efemeridade, relembrando-o de que existir &eacute; desdobrar-se nas suas possibilidades pr&oacute;prias de ser, at&eacute; ao perecimento. E neste desdobrar-se, o Homem, vai reformulando e redefinindo a sua identidade at&eacute; que a morte lhe rouba essa possibilidade (Hoffman, 1998: 214).</p>     <p>Assim, &eacute; encarando a morte sem escapat&oacute;ria, adoptando-a como uma das caracter&iacute;sticas principais da identidade humana (Hoffman, 1998: 218), que o ser humano &eacute; remetido para si mesmo, e repensa a sua ipseidade.</p>     <p>No entanto, diante deste fim sempre em processo de concretiza&ccedil;&atilde;o, o Homem comum tende a optar pela fuga de si mesmo e cai na inautenticidade, abdicando de reflectir acerca da sua identidade.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>1.2 Anula&ccedil;&atilde;o e reformula&ccedil;&atilde;o de identidades</b></p>     <p>Numa fase mais recente, sobretudo a partir da exposi&ccedil;&atilde;o individual SIL&Ecirc;NCIO (2016), na Galeria Branca, AMAC, no Barreiro, o trabalho de Ricardo G. Campos alarga e complexifica a problem&aacute;tica das identidades. Assim, acresce ao t&oacute;pico inicial da <i>anula&ccedil;&atilde;o</i> (2012-2015), o da <i>reformula&ccedil;&atilde;o de identidades</i>, atrav&eacute;s de um jogo de <i>falsas genealogias</i>. Estas genealogias foram constru&iacute;das a partir de um arquivo de imagens antigas da fam&iacute;lia do artista de diferentes &eacute;pocas. Este foi seleccionando um conjunto de fragmentos que lhe foram chamando &agrave; aten&ccedil;&atilde;o, especialmente as bocas, de v&aacute;rios desses elementos familiares, independentemente da afinidade parental que tinha com eles. Ao associ&aacute;-los num mesmo trabalho art&iacute;stico concedeu uma nova configura&ccedil;&atilde;o a essas rela&ccedil;&otilde;es, agrupando-as em fun&ccedil;&atilde;o do seu interesse est&eacute;tico.</p>     <p>Centremo-nos na instala&ccedil;&atilde;o Espa&ccedil;o Vazio (<a href="#f4">Figura 4</a>), porque &eacute; ela que mais concorre para um cruzamento produtivo com a an&aacute;lise das estruturas fundamentais da exist&ecirc;ncia humana que temos vindo a tratar. Se na <i>anula&ccedil;&atilde;o de identidades</i> a performance providenciava um figurino de seres humanos vagueando na inautenticidade, sem referencial, fragmentados por uma sobreexposi&ccedil;&atilde;o do branco e transpostos, directamente, para a representa&ccedil;&atilde;o pict&oacute;rica, agora a fragmenta&ccedil;&atilde;o ocorre no espa&ccedil;o expositivo onde as obras (estruturas de madeira com apontamentos de figuras a carv&atilde;o) s&atilde;o exibidas e prov&eacute;m de uma conveni&ecirc;ncia l&uacute;dica e c&eacute;nica que procura instigar o espectador.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a03f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Esta nova fragmenta&ccedil;&atilde;o das identidades resulta de uma necessidade menos demonstrativa da exposi&ccedil;&atilde;o do trabalho do artista (2012-2015), e assume-se mais intrincada e provocadora. Cabe ao espectador procurar os referenciais j&aacute; n&atilde;o isoladamente no interior de cada imagem, mas no contexto expositivo onde estas se instalam.</p>     <p>Agora, o pr&oacute;prio espectador passa a ser figurino, junto com os outros retratados no interior da obra, em busca de referenciais que lhe confiram um lugar onde possa ser ele mesmo, <i>aut&ecirc;ntico</i>, na sua identidade. No meio de uma genealogia de falsas identidades tamb&eacute;m lhe cabe questionar sobre o que &eacute; ser, se ser&aacute; uno ou existir&atilde;o v&aacute;rias identidades dentro de si?. Enfim, anda pois, &agrave; procura daquilo que o constitui como ser &uacute;nico enquanto observa outros fragmentos identit&aacute;rios, mormente bocas (<a href="#f5">Figura 5</a>), esse lugar de cortejo e de express&atilde;o &iacute;ntima da identidade de cada um e que o artista quis p&ocirc;r em evid&ecirc;ncia.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a03f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Tamb&eacute;m aqui se exp&otilde;e outra estrutura fundamental constitutiva do ser do Homem apresentada por Heidegger. O Homem ao afigurar-se como ser-no-mundo assume-se igualmente como <i>ser-com-os-outros</i>, compartilhando o mesmo contexto. O ser humano existe, pois, projectando-se nas rela&ccedil;&otilde;es. Assim, o espectador &eacute; convocado para relacionar fragmentos e encontrar afinidades e nisto cria, tamb&eacute;m ele, novas genealogias identit&aacute;rias. Todavia, f&aacute;-lo num desafio silencioso, porque as bocas retratadas suspendem qualquer discurso, n&atilde;o lhe comunicam de onde v&ecirc;m, nem que afinidades parentais as une. Este sil&ecirc;ncio ressalta o desencontro e fazem o espectador viver a sua solid&atilde;o (C&eacute;sar, 2016). O espectador est&aacute;, pois, envolto de outros, mas vivendo desamparado. E o maior desamparo chegar-lhe-&aacute; com a morte, assim dir&aacute; Heidegger (2008). No &acirc;mago da exist&ecirc;ncia, no corol&aacute;rio da completude humana est&aacute;, pois, a morte e esta vive-se sem participa&ccedil;&atilde;o, sem quinh&atilde;o, no desamparo. Como refere Hoffman (1998: 217), analisando a filosofia heideggeriana, <i>a morte individualiza-me</i> porque &eacute; inevitavelmente minha, vivida exclusivamente na primeira pessoa (Hoffman, 1998: 215).</p>     <p>N&atilde;o obstante, este sil&ecirc;ncio exterior potencia a escuta de um grito interior do ser do Homem que se quer manifestar com o intuito de faz&ecirc;-lo viver na sua verdade, i.e., autenticamente (cf. Heidegger, 2008, &sect; 55: 349s).</p>     <p>Quando question&aacute;mos o artista acerca desta instala&ccedil;&atilde;o, ficou evidente que a apresenta&ccedil;&atilde;o das estruturas de madeira no espa&ccedil;o adquire um pendor tumular, aludindo &agrave;s tabuletas artesanais dos cemit&eacute;rios. "H&aacute; ali corpos imobilizados semelhantes &agrave; estatu&aacute;ria f&uacute;nebre" (entrevista a Ricardo G. Campos, 16 de Janeiro de 2017, n&atilde;o publicada).</p>     <p>H&aacute; pois, um fio condutor da estatu&aacute;ria f&uacute;nebre que vem desde os seus primeiros trabalhos (<a href="#f2">Figura 2</a>) at&eacute; &agrave; actualidade, que n&atilde;o sendo central, nem o artista o declara como propositado, &eacute; transversal &agrave; sua produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica.</p>     <p>Por conseguinte, defendemos que o modo como o Ricardo G. Campos tem abordado a quest&atilde;o da identidade, enquanto fragmenta&ccedil;&atilde;o e dissolu&ccedil;&atilde;o no indiferenciado, tem fortes rela&ccedil;&otilde;es com o pensamento heideggeriano a respeito fuga do Homem para a banalidade do quotidiano, para a vida inaut&ecirc;ntica, por oposi&ccedil;&atilde;o a uma exist&ecirc;ncia consciente de si mesma, identit&aacute;ria, que s&oacute; pode, verdadeiramente, s&ecirc;-la, quando reconhece que a morte &eacute; a concretiza&ccedil;&atilde;o &uacute;ltima do seu viver. "A morte totaliza-me, pois atrav&eacute;s da morte a minha identidade completar-se-&aacute;" (Hoffman, 1998: 217).</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Conclus&atilde;o</b></p>     <p>&Eacute; num contexto de anonimato, onde o Homem se arrasta na exist&ecirc;ncia, mas procurando-se (re)encontrar-se, atrav&eacute;s da solid&atilde;o e do sil&ecirc;ncio, que procur&aacute;mos situar o trabalho art&iacute;stico de Ricardo Guerreiro Campos e fazer pontos de contacto com a an&aacute;lise da exist&ecirc;ncia humana do fil&oacute;sofo Heidegger. Sabemos que enquanto o ser humano estiver vivo a sua identidade n&atilde;o &eacute; assunto encerrado (Hoffman, 1998: 214), pois s&oacute; se completa atrav&eacute;s da morte (Hoffman, 1998: 217). No entanto, viver n&atilde;o &eacute; o mesmo que existir autenticamente, i.e., cumprindo a sua realiza&ccedil;&atilde;o de ser si mesmo. Habitar o impessoal &eacute; esquecer a sua identidade, uma vez que ningu&eacute;m pode ser si mesmo quando se desconhece. &Eacute;, pois, na morte, que o Homem pode despertar e aceder &agrave; vida aut&ecirc;ntica e a&iacute; viver a sua identidade. &Eacute; este o fio condutor impl&iacute;cito que marca o trabalho de Ricardo G. Campos e que intercepta a an&aacute;lise do ser humano conforme pensado por Heidegger &#8212; um questionamento de si mesmo a partir da morte enquanto construtor da aut&ecirc;ntica Identidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Campos, G. Ricardo (2013), <i>A Apologia do Branco</i>, &#91;trabalho final de Composi&ccedil;&atilde;o II, orienta&ccedil;&atilde;o de Manuel Botelho, FBAUL, 2013&#93; &#8212; &#91;documento facultado pelo artista Ricardo G. Campos&#93;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455953&pid=S1647-6158201700040000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>C&eacute;sar, Andreia (curadoria), (2016), <i>Sil&ecirc;ncio</i>, &#91;folha de sala da exposi&ccedil;&atilde;o&#93;, Galeria Branca, AMAC, Barreiro, 2016&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455955&pid=S1647-6158201700040000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Heidegger, Martin (2008), <i>Ser e Tempo</i>. (3&ordf; ed.), Petr&oacute;polis: Editora Vozes&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455956&pid=S1647-6158201700040000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Hoffman, Piotr (1998), "A Morte, o Tempo e a Hist&oacute;ria: II Parte de O Ser e o Tempo", pp. 213-231, in Guignon, Charles (dir.), (1998), <i>Poliedro Heidegger</i>, Lisboa: Instituto Piaget&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455957&pid=S1647-6158201700040000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Mat&eacute;ria Negra (colectivo), (2016), 10 artistas nacionais a ter em conta, in <a href="https://materianegra.net/2016/11/24/10-artistas-nacionais-a-ter-em-conta/" target="_blank">https://materianegra.net/2016/11/24/10-artistas-nacionais-a-ter-em-conta/</a> &#91;consult. 24 Out. 2016&#93;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455958&pid=S1647-6158201700040000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Melo, Jorge Silva (2014), <i>O tempo que em sil&ecirc;ncio se desfez,</i> &#91;folha de Sala da exposi&ccedil;&atilde;o&#93;, Arquivo Fotogr&aacute;fico Municipal de Lisboa, 2014 &#8212; &#91;documento facultado pelo artista Ricardo G. Campos&#93;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1455960&pid=S1647-6158201700040000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Enviado a 26 de janeiro de 2017 e aprovado a 15 de fevereiro de 2017</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:pmiguelsantossilva@gmail.com">pmiguelsantossilva@gmail.com</a> (Pedro Miguel Santos Silva)</p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Campos]]></surname>
<given-names><![CDATA[G. Ricardo]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A Apologia do Branco: trabalho final de Composição II]]></source>
<year>2013</year>
<publisher-name><![CDATA[FBAUL]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[César]]></surname>
<given-names><![CDATA[Andreia]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Silêncio]]></source>
<year>2016</year>
<publisher-name><![CDATA[Galeria Branca, AMAC, Barreiro]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Heidegger]]></surname>
<given-names><![CDATA[Martin]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Ser e Tempo]]></source>
<year>2008</year>
<edition>3</edition>
<publisher-loc><![CDATA[Petrópolis ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora Vozes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Hoffman]]></surname>
<given-names><![CDATA[Piotr]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A Morte, o Tempo e a História: II Parte de O Ser e o Tempo]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Guignon]]></surname>
<given-names><![CDATA[Charles]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Poliedro Heidegger]]></source>
<year>1998</year>
<month>19</month>
<day>98</day>
<page-range>213-231</page-range><publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Instituto Piaget]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="">
<collab>Matéria Negra</collab>
<source><![CDATA[10 artistas nacionais a ter em conta]]></source>
<year>2016</year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Melo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Jorge Silva]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O tempo que em silêncio se desfez]]></source>
<year>2014</year>
<publisher-name><![CDATA[Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
