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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os nichos de Josefina Guilisasti: um topos para a pintura ou um espaço de pensamento]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article aims to analyze how the Chilean artist Josefina Guilisasti re-signifies and updates in her painting the genre of still life. From authors such as Victor I. Soichita and Louis Marin, we intend to demonstrate the important role of niches in her work.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Os nichos de Josefina Guilisasti: um topos para a pintura ou um espa&ccedil;o de pensamento</b></p>     <p><b>The niches of Josefina Guilisasti: a topos for painting or a thinking space</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Marilice Corona*</b></p>     <p>*Brasil, artista visual. Membro do conselho editorial. Bacharelado em Artes Pl&aacute;sticas, Pintura, e Desenho pelo Instituto de Artes da Universidade Federal de Rio Grande do Sul, (UFRGS, IA). Mestrado em Po&eacute;ticas Visuais, UFRGS, IA. Doutorado em Po&eacute;ticas Visuais, UFRGS, IA com est&aacute;gio Universit&eacute; Paris I, Panth&eacute;on Sorbonne-Paris.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Artes, Departamento de Artes Visuais, Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais. Rua Senhor dos Passos 248, Bairro Centro, Porto Alegre, RS, Cep CEP 90020-180, Brasil.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Este artigo tem como objetivo analisar como a artista chilena Josefina Guilisasti ressignifica e atualiza em sua pintura o g&ecirc;nero da natureza morta. A partir de autores como Victor I. Soichita e Louis Marin, pretende-se demonstrar o importante papel dos nichos em seu trabalho.</p>      <p><b>Palavras-chave:</b> pintura / representa&ccedil;&atilde;o / natureza-morta / espa&ccedil;o pict&oacute;rico / nichos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>This article aims to analyze how the Chilean artist Josefina Guilisasti re-signifies and updates in her painting the genre of still life. From authors such as Victor I. Soichita and Louis Marin, we intend to demonstrate the important role of niches in her work.</p>     <p><b>Keywords:</b> painting / representation / still life / pictorial space / niches.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Este artigo tem como objetivo analisar alguns aspectos da pintura da artista chilena Josefina Guilisasti na tentativa de demonstrar como o g&ecirc;nero da natureza morta &eacute; ressignificado em sua obra.</p>     <p>Guilisasti nasceu em Santiago do Chile, em 1963. De 1981 a 1985 realizou o curso de Licenciatura em Artes, com &ecirc;nfase em Pintura, na Facultad de Arte de la Universidad de Chile. Em 1990 realizou estudos de restaura&ccedil;&atilde;o em pintura em Mil&atilde;o e, em 1991, um curso de pintura cenogr&aacute;fica no teatro Scalla de Mil&atilde;o. De 2005 a 2009 desenvolveu o projeto Incubo juntamente com a curadora Cecilia Brunson. Tal projeto procurava trazer curadores e pensadores de arte para debater de forma direta com os artistas e o meio. Josefina Guilisasti participou de in&uacute;meras exposi&ccedil;&otilde;es nacionais e internacionais. J&aacute; recebeu diversos pr&ecirc;mios e seus trabalhos j&aacute; integram as cole&ccedil;&otilde;es de museus importantes como o Museo de Arte Contempor&aacute;neo, Santiago, Chile e Blanton Museum, Austin &#8211; Texas, USA. Dentre as exposi&ccedil;&otilde;es coletivas internacionais, &eacute; preciso salientar sua participa&ccedil;&atilde;o nas Bienais do Mercosul, em Porto Alegre/RS, Brasil, em 2001 e em 2007. Foi nessa ocasi&atilde;o que conheci seu trabalho e desde l&aacute; tenho acompanhado, &agrave; dist&acirc;ncia, a sua produ&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. La vig&iacute;lia : o nicho, a grade e o dispositivo</b></p>     <p>H&aacute; mais de 10 anos, Josefina Guilisasti tem pesquisado e reformulado um g&ecirc;nero tradicional da hist&oacute;ria da pintura: a natureza morta. Quest&otilde;es referentes &agrave; objetualidade <i>na</i> representa&ccedil;&atilde;o e <i>da</i> representa&ccedil;&atilde;o parecem compor o horizonte investigativo da artista. Guilisasti parece se utilizar tanto da teoria quanto da hist&oacute;ria da arte como forma de criar quest&otilde;es para sua pintura. Em entrevista recente, diz que ao longo de sua carreira tem procurado "criar um relato coerente que consiga articular as problem&aacute;ticas hist&oacute;ricas, est&eacute;ticas e materiais" em sua obra. Para tanto comenta que "a prepara&ccedil;&atilde;o de seus trabalhos inclui uma investiga&ccedil;&atilde;o bibliogr&aacute;fica e documental pr&eacute;via." (Guilisasti, 2016: 2)</p>     <p>Meu primeiro contato com seu trabalho se deu em 2001, na 3&ordf; Bienal do Mercosul, em que apresentou a instala&ccedil;&atilde;o <i>La Vig&iacute;lia</i> (<a href="#f1">Figura 1</a>). J&aacute; naquele momento o trabalho me surpreendeu pela qualidade da fatura, a instigante forma de montagem e as m&uacute;ltiplas quest&otilde;es que essa levantava. <i>La Vig&iacute;lia</i> trata-se de uma instala&ccedil;&atilde;o formada por 72 pinturas em &oacute;leo sobre tela, assentadas sobre igual n&uacute;mero de prateleiras que comp&otilde;e 12 estantes brancas de 3m de altura, modulares e id&ecirc;nticas. As telas representam a sele&ccedil;&atilde;o de 12 objetos de alum&iacute;nio, utens&iacute;lios de uso cotidiano, muito comuns &agrave;s cozinhas do s&eacute;culo XX. Os objetos, pintados de forma perfeitamente naturalista e em escala real (<a href="#f2">Figura 2</a>, <a href="#f3">Figura 3</a>), s&atilde;o representados a partir de 6 pontos de vista distintos que variam conforme a altura da prateleira em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; posi&ccedil;&atilde;o do espectador. Mas n&atilde;o &eacute; apenas a perspectiva do objeto que muda conforme a altura, mas a perspectiva da base e das sombras dos utens&iacute;lios projetadas ao "fundo". Essa estrat&eacute;gia, somada ao tratamento da luz e da cor, intensifica o ilusionismo entre o objeto representado e o nicho que o acolhe, entre a bidimensionalidade da pintura e o espa&ccedil;o-mobili&aacute;rio que ela habita. E, como pretendo demonstrar, &eacute; a partir dessa rela&ccedil;&atilde;o entre o espa&ccedil;o de representa&ccedil;&atilde;o e o espa&ccedil;o de visibilidade que Guilisasti atualizar&aacute; o g&ecirc;nero e colocar&aacute;, de forma metapictural, o quadro em quest&atilde;o. Interessa-me aqui analisar a fun&ccedil;&atilde;o do nicho em sua obra, esse <i>topos</i> do g&ecirc;nero, como j&aacute; teria apontado Stoichita (1999: 37)</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a17f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a17f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a17f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Como sabemos, a pintura de natureza morta foi considerada, durante muitos s&eacute;culos, uma pintura menor e na hierarquia dos g&ecirc;neros encontrava-se abaixo da pintura hist&oacute;rica, do retrato e da paisagem . Apesar de praticada desde a Antiguidade, o g&ecirc;nero s&oacute; alcan&ccedil;ar&aacute; autonomia no s&eacute;culo XVII, e ser&aacute; amplamente desenvolvido, principalmente, nos pa&iacute;ses protestantes. A palavra holandesa <i>stilleven</i> (natureza im&oacute;vel) apareceu pela primeira vez em registros do in&iacute;cio do s&eacute;culo XVII. O termo dar&aacute; origem ao termo ingl&ecirc;s <i>Still lif</i>e , na <i>Alemanha Stilleben</i> e, em seguida, surgir&aacute; a express&atilde;o francesa <i>nature-morte</i>. Na Espanha ser&atilde;o denominadas Bodegones e na It&aacute;lia ser&aacute; denominada <i>pittura de cose piccole</i> (Stoichita, 1999: 35). O universo dos objetos representados tamb&eacute;m se amplifica. Flores, frutos, alimentos, animais vivos e mortos e toda sorte de objetos que habitam os gabinetes de curiosidades come&ccedil;am a entrar em cena. &Eacute; importante ressaltar que nesse per&iacute;odo h&aacute; uma estreita rela&ccedil;&atilde;o entre a pintura de natureza morta e a apari&ccedil;&atilde;o de uma curiosidade enciclop&eacute;dica, a pr&aacute;tica da ilustra&ccedil;&atilde;o (cient&iacute;fica), a pr&aacute;tica da cole&ccedil;&atilde;o, etc (Verschaffel, 2007: 15). Surgem nomes e subdivis&otilde;es derivados do pr&oacute;prio assunto representado e os termos variam conforme as regi&otilde;es ou pa&iacute;ses. Uma quest&atilde;o fundamental &agrave; natureza morta &eacute; o aspecto ilusionista da pintura alcan&ccedil;ado por meio de um estudo obsessivo dos objetos e suas qualidades materiais. Efeitos de luz, reflexos, transpar&ecirc;ncias e texturas s&atilde;o reproduzidos meticulosamente. Mas esse ilusionismo assume ainda mais for&ccedil;a quando os objetos s&atilde;o representados dispostos dentro de um nicho. Normalmente, diante de uma natureza morta somos seduzidos pela beleza e virtuosismo t&eacute;cnico empregado na representa&ccedil;&atilde;o de objetos de distintas mat&eacute;rias e pouca aten&ccedil;&atilde;o colocamos no tipo de espa&ccedil;o que esta configura. Se observarmos com aten&ccedil;&atilde;o, existe um certo padr&atilde;o de configura&ccedil;&atilde;o espacial que se repete mesmo naquelas composi&ccedil;&otilde;es oriundas de pa&iacute;ses ou regi&otilde;es distintos. Na obscuridade de um fundo, objetos s&atilde;o representados sobre uma mesa, um nicho, uma prateleira ou mesmo uma "abertura ou moldura," como em Cot&aacute;n. E, nessas circunst&acirc;ncias, apresentam um ponto em comum: a profundidade espacial diminuta. A "parede" de fundo &eacute; muito pr&oacute;xima do espectador e os objetos representados parecem estar ao alcance de sua m&atilde;o. A disposi&ccedil;&atilde;o da natureza morta em nichos reaparecer&aacute; fortemente na &eacute;poca da Renascen&ccedil;a e Pr&eacute;-Renascen&ccedil;a e ter&aacute; seu &aacute;pice no per&iacute;odo barroco. Isso se explica, conforme Stoichita, pelo fato de que "o nicho oferece um espa&ccedil;o tridimensional limitado onde se pode colocar os objetos, estabelecendo sempre uma rela&ccedil;&atilde;o com a superf&iacute;cie da representa&ccedil;&atilde;o" (1999: 37). A representa&ccedil;&atilde;o de um nicho parece abrir um buraco na parede. Essa reapari&ccedil;&atilde;o se d&aacute; aos poucos. Stoichita nos traz, como um exemplo de passagem , uma p&aacute;gina do Livro de Horas de Engelbert de Nassau, <i>A adora&ccedil;&atilde;o dos magos</i> do Mestre de Maria de Borgonha (<a href="#f4">Figura 4</a>). Imagem de car&aacute;ter h&iacute;brido, como muitas pinturas do s&eacute;culo XV nos quais o g&ecirc;nero come&ccedil;a a ressurgir, apresenta a cena b&iacute;blica emoldurada por nichos que acolhem objetos comuns. T&ecirc;m-se aqui duas esp&eacute;cies de espa&ccedil;o: o espa&ccedil;o infinito da paisagem que se prolonga atr&aacute;s da cena religiosa e que visualizamos atrav&eacute;s de uma esp&eacute;cie de <i>veduta</i> e as pequenas prateleiras que nos oferecem, em proximidade, a representa&ccedil;&atilde;o ilusionista dos objetos cotidianos em escala distinta. Para Stoichita</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a17f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <blockquote>    <p><i>A novidade do Mestre Maria de Borgonha reside na transforma&ccedil;&atilde;o da marginalia em imagem pictural e no enquadramento de dois n&iacute;veis espaciais no interior de uma &uacute;nica representa&ccedil;&atilde;o. A natureza morta se op&otilde;e assim &agrave; cena b&iacute;blica como a moldura &agrave; pintura: a moldura participa de nosso mundo, a imagem &eacute;, quanto a ela, uma abertura em dire&ccedil;&atilde;o a outra realidade</i> (Stoichita, 1999: 38)</p></blockquote>     <p>Outra ocorr&ecirc;ncia importante na hist&oacute;ria da natureza morta, antes do g&ecirc;nero alcan&ccedil;ar sua autonomia, foi o lugar secund&aacute;rio que ocupou no verso dos d&iacute;pticos que traziam uma cena religiosa ou um retrato. <i>O Vaso de flores</i> (cerca de 1480-1490) de Hans Memling (<a href="#f5">Figura 5</a>), conservado hoje em dia na cole&ccedil;&atilde;o Thyssen de Madrid, pode ser um bom exemplo desse fato e pela presen&ccedil;a da imagem do nicho, muito comum nesse formato. (Stoichita, 1999: 38).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a17f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A representa&ccedil;&atilde;o do nicho, ao contr&aacute;rio do quadro como janela, estabelece um dialogo com a parede na qual a imagem est&aacute; fixada. Estabelece uma conex&atilde;o entre o espa&ccedil;o de apresenta&ccedil;&atilde;o e o espa&ccedil;o de representa&ccedil;&atilde;o, entre o espa&ccedil;o real e o ilus&oacute;rio. Para Stoichita "desde sua pr&eacute;-hist&oacute;ria, a natureza morta encontra no nicho seu paradigma espacial" (1999: 54).</p>     <p>Seria poss&iacute;vel dizer que quando Josefina Guilisasti constr&oacute;i a instala&ccedil;&atilde;o La Vig&iacute;lia, recupera a estrutura dos nichos agora de maneira concreta. A artista traz para fora da parede os nichos outrora representados. No entanto, a estante ainda est&aacute; em interlocu&ccedil;&atilde;o com a parede, &agrave; arquitetura do local. Por sua distribui&ccedil;&atilde;o sim&eacute;trica no espa&ccedil;o expositivo, em conformidade com a altura e a largura da superf&iacute;cie em que se encaixa e por seu aspecto modular e branco parece ainda obedecer &agrave; estrutura arquitet&ocirc;nica. No entanto, as "c&eacute;lulas" da grade avan&ccedil;am e agora habitam o espa&ccedil;o do espectador. Pelo aspecto modular parece que a grade modernista toma corpo e paradoxalmente abarca a ilus&atilde;o a qual se opunha. A estante-grade evoca o espa&ccedil;o moderno e a sutileza e economia de cores e tonalidades da pintura nos leva ao sil&ecirc;ncio de Morandi. Guilisasti nos faz deslizar pelo tempo, pela hist&oacute;ria da pintura. Vista de longe, o <i>trompe l'oeil</i> da instala&ccedil;&atilde;o se realiza com sucesso e confundimos espa&ccedil;o real e representado, mas ao nos acercarmos nos deparamos com a opacidade da imagem. A mimese &eacute; quebrada e a grade-estante se apresenta. O grande n&uacute;mero, a repeti&ccedil;&atilde;o e similaridade dos objetos representados, remete-nos tanto ao colecionismo como &agrave; seria&ccedil;&atilde;o, ao processo industrial no qual estamos inseridos e do qual os pr&oacute;prios utens&iacute;lios representados s&atilde;o fruto. Soma-se a isso, o fato do aspecto modular, branco e <i>clean</i> da estante-nicho tamb&eacute;m nos remeter aos expositores dos grandes magazines. Diferen&ccedil;a e repeti&ccedil;&atilde;o est&atilde;o aqui implicadas. Dentro de cada nicho a pr&oacute;pria pintura vira objeto. A <i>mis en abyme</i> do objeto dentro do objeto coloca o quadro em quest&atilde;o, denunciando o quadro-limite ou quadro-objeto como dispositivo. Importante lembrarmos que o formato quadrangular da pintura n&atilde;o se apresenta como suporte passivo onde ser&atilde;o dispostas as tintas que configurar&atilde;o a pintura mas &eacute;, em si, um enunciado, ou melhor, &eacute; o lugar onde o enunciado toma corpo. Conforme Maurice Mouillaud e Jean-Fran&ccedil;ois T&ecirc;tu,</p>     <blockquote>    <p><i>os dispositivos n&atilde;o s&atilde;o somente aparelhos tecnol&oacute;gicos, de natureza material. O dispositivo n&atilde;o &eacute; o suporte inerte de enunciado, mas um lugar (site) onde o enunciado toma forma.</i> (&#8230;) <i>O lugar (site) assume o papel de um "formante", ou de uma matriz, de tal maneira que certo tipo de enunciado somente pode aparecer "in situ". Do mesmo modo como ressalta St&eacute;phanie Katz, "n&atilde;o &eacute; o suporte que induz o sentido, mas o dispositivo constru&iacute;do a partir deste suporte</i> (2007:22).</p></blockquote>     <p>Ou seja, quando se escolhe um suporte tradicional, o formato quadrangular da tela, j&aacute; est&atilde;o inscritos nele uma s&eacute;rie de pressupostos. O quadro-limite condicionaria, nesse sentido, a enuncia&ccedil;&atilde;o visual constru&iacute;da por este dispositivo, onde est&atilde;o implicados, conforme as divis&otilde;es de Marin (1994: 342-7): o espa&ccedil;o representado (a composi&ccedil;&atilde;o da pintura), o espa&ccedil;o de visibilidade (o espa&ccedil;o do espectador) e o espa&ccedil;o de representa&ccedil;&atilde;o ou plano de representa&ccedil;&atilde;o (delimitado pela transpar&ecirc;ncia da quarta parede do cubo c&ecirc;nico). Este recorte (<i>a coupure</i>) semi&oacute;tico ajuda-nos a compreender como o modo de apresenta&ccedil;&atilde;o de Guilisasti coloca em cheque os pr&oacute;prios mecanismos da representa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. Bodegones: o nicho quase parergon</b></p>     <p>De meu ponto de vista, nesse processo metapictural, Guilisasti alcan&ccedil;a ainda mais efic&aacute;cia em sua obra <i>Bodegones</i> (<a href="#f6">Figura 6</a> ), apresentada em 2006 na Sala Gasco, em Santiago do Chile e posteriormente, em 2007, na VI Bienal do Mercosul em Porto Alegre/RS. A obra &eacute; formada por 16 m&oacute;dulos de madeira marrom escura, de iguais dimens&otilde;es e com divis&otilde;es assim&eacute;tricas nas quais ser&atilde;o dispostas o mesmo n&uacute;mero de telas. Este trabalho parte da representa&ccedil;&atilde;o de 33 p&aacute;ssaros de porcelana pintados sobre um fundo tamb&eacute;m marrom, com grande esmero t&eacute;cnico, em &oacute;leo sobre tela, resultando em 125 pinturas de diferentes formatos (<a href="#f7">Figura 7</a>, <a href="#f8">Figura 8</a>). Conforme a artista, "as 33 primeiras pe&ccedil;as foram eleitas segundo sua condi&ccedil;&atilde;o de objetos que decoram interiores dom&eacute;sticos e s&atilde;o apreciados por seu brilho, sua pr&oacute;pria materialidade e seu artif&iacute;cio." Cabe apontar aqui as especificidades do modelo escolhido. Agora n&atilde;o se trata apenas de um objeto produzido e reproduzido pela ind&uacute;stria, mas de um objeto, um bibel&ocirc; que se caracteriza por ser uma representa&ccedil;&atilde;o e que carrega consigo a natureza do m&uacute;ltiplo. C&oacute;pia de uma c&oacute;pia tamb&eacute;m faz parte do universo de objetos colecion&aacute;veis.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a17f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a17f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v8n20/8n20a17f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; forma de apresenta&ccedil;&atilde;o, &eacute; importante salientar que h&aacute; diferen&ccedil;as nas montagens da Sala Gasco e da VI Bienal do Mercosul, principalmente com rela&ccedil;&atilde;o ao modo de distribui&ccedil;&atilde;o e conforma&ccedil;&atilde;o dos nichos ao longo da parede. Na montagem da Sala Gasco, os nichos, diferentemente de <i>La Vig&iacute;lia</i> desprendem-se da estante, ganham autonomia como objetos, mantendo uma estrutura semelhante &agrave;s antigas <i>marginalias</i> (<a href="#f4">Figura 4</a>). S&atilde;o organizados em formas quadrangulares com divis&otilde;es internas de formatos diversos. Cada subdivis&atilde;o acolhe uma tela que traz a representa&ccedil;&atilde;o de um bibel&ocirc;. Esse nichos s&atilde;o distribu&iacute;dos sobre uma parede agora pintada, em toda sua extens&atilde;o, por um padr&atilde;o de listras coloridas que nos remetem &agrave; planaridade das pinturas abstratas dos anos de 1950. O nicho desprende-se completamente da parede. Apenas fixa-se sobre ela. Flutua sobre sua superf&iacute;cie. Est&aacute; sobre e n&atilde;o mais "dentro" da parede. Transforma-se em quase moldura, <i>quase-parergon</i>. Moldura e nicho, &agrave; princ&iacute;pio, possuem fun&ccedil;&otilde;es distintas. A moldura tem como fun&ccedil;&atilde;o separar o mundo "real", o espa&ccedil;o do espectador, da "ilus&atilde;o", do espa&ccedil;o da representa&ccedil;&atilde;o, do espa&ccedil;o da fic&ccedil;&atilde;o. Nem dentro, nem fora, a moldura habita um entre. Trata-se de um suplemento, segundo Derrida (2001: 82). O nicho quando pintado apresentava fun&ccedil;&atilde;o inversa. Deveria embaralhar o limite entre o mundo real e o mundo da fic&ccedil;&atilde;o. Em Guilisasti, a concretude do nicho o torna ambivalente. De <i>topos</i> da <i>natureza im&oacute;vel</i> torna-se <i>topos</i> da tela pintada, da representa&ccedil;&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o, do quadro como objeto, do quadro dentro do quadro. O nicho de Guilisasti emoldura o dispositivo, e se enuncia como espa&ccedil;o de pensamento. Em di&aacute;logo com a hist&oacute;ria e atrav&eacute;s de uma fatura de grande qualidade, a artista ressignifica o g&ecirc;nero e convida-nos a refletir sobre os mist&eacute;rios e o car&aacute;ter normativo do ret&acirc;ngulo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Referencias</b></p>     <!-- ref --><p>Derrida, Jacques. (2001) <i>La verdade em pin-tura</i>. Buenos Aires: Paid&oacute;s. ISBN 950-12-6513-7.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1457329&pid=S1647-6158201700040001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Guilisasti, Josefina . (2016a) Josefina Guilisasti. Site da artista, dispon&iacute;vel em <a href="http://www.josefinaguilisasti.cl/" target="_blank">http://www.josefinaguilisasti.cl/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1457331&pid=S1647-6158201700040001700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Guilisasti, Josefina . (2016b) Josefina Guilisasti: La resignificaci&oacute;n de la pintura, Entrevista dispon&iacute;vel em <a href="http://artishockrevista.com/2016/06/03/josefina-guilisasti-la-resignificacion-de-la-pintura/" target="_blank">http://artishockrevista.com/2016/06/03/josefina-guilisasti-la-resignificacion-de-la-pintura/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1457332&pid=S1647-6158201700040001700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Marin, Louis. (1994). <i>De la repr&eacute;sentation</i>. Paris: Gallimard. ISBN 2-02-022187-X.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1457333&pid=S1647-6158201700040001700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Stoichita, Victor I. (1999). <i>L'instauration du tableau</i>. Gen&egrave;ve: DROZ. ISBN 2-600-00516-1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1457335&pid=S1647-6158201700040001700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Enviado a 21 de janeiro de 2017 e aprovado a 15 de fevereiro de 2017</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:mvcorona@terra.com.br"> mvcorona@terra.com.br</a> (Marilice Corona)</p>      ]]></body><back>
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