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<publisher-name><![CDATA[Universidade de LisboaFaculdade de Belas-Artes]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Montagem e efeito filme na narrativa fotográfica 'A Ira de Deus' de Alfredo Nicolaiewsky]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Rio Grande do Sul Instituto de Artes, Departamento de Artes Visuais Departamento de Artes Visuais]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper presents one appreciation of The God's Ire, by Alfredo Nicolaiewsky. Running from the artist's interviews and dealing with the concepts "film effect", by Philippe Dubois; "miscegenation", by Icleia Cattani; and "dialectical montage and symbolic montage" by Jacques Rancière, we analyze how the montage using photographic juxtaposition, made with the appropriation of movie still's available on the Internet, results in a narrative that compound times and stories, and that offers to the viewer the possibility of mentally reassembly the scenes.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Montagem e efeito filme na narrativa fotogr&aacute;fica 'A Ira de Deus' de Alfredo Nicolaiewsky</b></p>     <p><b>Montage and film effect in the photographic narrative 'The God's Ire', by Alfredo Nicolaiewsky</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Elaine Tedesco*</b></p>     <p>*Brasil, artista pl&aacute;stica com produ&ccedil;&atilde;o em fotografia, instala&ccedil;&atilde;o e videoperformance.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Instituto de Artes, Departamento de Artes Visuais e Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Artes Visuais. Rua Senhor dos Passos, 246, CEP 90000-000, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>O presente texto apresenta uma leitura da obra A Ira de Deus, de Alfredo Nicolaiewsky. A partir de depoimentos do artista em entrevistas e dos conceitos "efeito filme", de Philippe Dubois; "mesti&ccedil;agem", de Icleia Cattani; e "montagem dial&eacute;tica e montagem simb&oacute;lica", de Jacques Ranci&egrave;re, procurou-se analisar como a montagem com justaposi&ccedil;&atilde;o de fotografias, realizada a partir da apropria&ccedil;&atilde;o de cenas de filmes dispon&iacute;veis na internet, resulta em uma narrativa que mistura tempos e diferentes hist&oacute;rias, e oferece ao observador a possibilidade de mentalmente remontar as cenas.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Alfredo Nicolaiewsky / filme / fotografia / montagem / narrativa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>This paper presents one appreciation of The God's Ire, by Alfredo Nicolaiewsky. Running from the artist's interviews and dealing with the concepts "film effect", by Philippe Dubois; "miscegenation", by Icleia Cattani; and "dialectical montage and symbolic montage" by Jacques Ranci&egrave;re, we analyze how the montage using photographic juxtaposition, made with the appropriation of movie still's available on the Internet, results in a narrative that compound times and stories, and that offers to the viewer the possibility of mentally reassembly the scenes.</p>      <p><b>Keywords:</b> Alfredo Nicolaiewsky / movie / montage / narrative / photography.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Alfredo Nicolaiewsky nasceu em 1952, graduou-se em arquitetura e cursou mestrado e doutorado em Artes Visuais, na &aacute;rea de Po&eacute;ticas Visuais, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde, tamb&eacute;m, foi diretor do Instituto de Artes por oito anos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No in&iacute;cio de sua carreira, sua obra constituiu-se tendo como base o desenho. Em seu processo de trabalho com essa linguagem, a fotografia foi empregada, desde os anos de 1980, como um meio para chegar &agrave; forma desejada.</p>     <p>Na s&eacute;rie desenvolvida entre 1982 e 1983, os desenhos eram feitos sobre papel retangular e continham uma subdivis&atilde;o (<a href="#f1">Figura 1</a>). Na menor &aacute;rea do ret&acirc;ngulo, numa faixa lateral, havia a presen&ccedil;a de detalhes de corpos masculinos sensuais e nus. J&aacute; no centro da &aacute;rea maior, composta por um fundo estampado com flores, o que se aproximava do aspecto de um tecido ou de um papel de parede, havia um objeto da cultura popular remetendo ao universo dom&eacute;stico.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v9n22/9n22a03f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A apar&ecirc;ncia dos desenhos remete aos princ&iacute;pios de colagem e fotomontagem, nos quais convivem elementos d&iacute;spares, heterog&ecirc;neos, sem nexo direto entre si, que associados estabelecem uma familiaridade, uma analogia ocasional, como sugere a defini&ccedil;&atilde;o de montagem simb&oacute;lica proposta por Jacques Ranci&egrave;re. Segundo o autor, "a maneira simbolista junta os elementos na forma do mist&eacute;rio &#91;&#8230;&#93; mist&eacute;rio &eacute; uma categoria est&eacute;tica elaborada por Mallarm&eacute; &#91;&#8230;&#93; &eacute; uma pequena m&aacute;quina de teatro que fabrica analogia". (Ranci&egrave;re, 2011:79).</p>     <p>Tal familiaridade em analogia ocasional &eacute; evidenciada no trabalho de Nicolaiewsky pela copresen&ccedil;a entre a imagem da pele nua e os objetos de gosto popular, associando o corpo masculino sensual aos objetos <i>kitsch</i>, parecendo que o quadro estampado &eacute; um plano que encobre o resto, deixando uma fresta pela qual podemos espiar os homens, dessa forma, colocando-nos na posi&ccedil;&atilde;o de <i>voyeur</i>. Trata-se de um ar dom&eacute;stico, sugerindo espa&ccedil;os privados de um cotidiano nacional homoer&oacute;tico.</p>     <p>Nesses desenhos, em que o tema, tamb&eacute;m, &eacute; a mem&oacute;ria do artista, a parte que exp&otilde;e o corpo masculino &eacute; minuciosamente tratada e aproxima-se da est&eacute;tica hiperrealista, ao passo que a parte que cont&eacute;m os motivos de flores em repeti&ccedil;&atilde;o apresenta inscri&ccedil;&otilde;es de palavras soltas, frases e desenhos como borboletas, cobras, nuvens, cavalos, Sol, al&eacute;m de seu nome, juntamente com o objeto centralizado (um quadrinho com fotografias do artista quando beb&ecirc;, o vaso de flores, o la&ccedil;ador, ou o S&atilde;o Jorge), segue uma est&eacute;tica de elabora&ccedil;&atilde;o mais livre do tra&ccedil;o, assim como o uso da mancha.</p>     <p>Ao escrever sobre a obra de Nicolaiewsky, apontando a jun&ccedil;&atilde;o de heterog&ecirc;neos sob o princ&iacute;pio da mesti&ccedil;agem, Icleia Cattani nomeia essa opera&ccedil;&atilde;o de agrega&ccedil;&otilde;es &#8212;</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&#91;&#8230;&#93; <i>uma obra que se instala sobre o signo das agrega&ccedil;&otilde;es sucessivas de elementos, aglutinados por associa&ccedil;&otilde;es mentais do artista (que mobilizam lugares do afeto, da mem&oacute;ria subjetiva individual, mas tamb&eacute;m, associa&ccedil;&otilde;es ir&ocirc;nicas que comentam as circunst&acirc;ncias do pa&iacute;s e das condi&ccedil;&otilde;es da cria&ccedil;&atilde;o que nele ocorre).</i> (Cattani, apud Farias, 2004:70).</p></blockquote>     <p>Tais agrega&ccedil;&otilde;es com elementos, que t&ecirc;m como refer&ecirc;ncia origens culturais distintas &#8212; popular, erudito e de cultura de massa &#8211;; a repeti&ccedil;&atilde;o como padr&atilde;o; a jun&ccedil;&atilde;o de partes aparentemente n&atilde;o compat&iacute;veis; a mem&oacute;ria e a repeti&ccedil;&atilde;o, v&ecirc;m sendo desdobradas pelo artista desde o final dos anos de 1990 com, tamb&eacute;m, o uso da fotografia.</p>     <p>Entre 1995 e 1997, ele desenvolveu a s&eacute;rie <i>Mistura fina</i> (<a href="#f2">Figura 2</a>), parte de seu trabalho de mestrado, ampliando a complexidade das misturas entre coisas de origens diversas, implicando elementos da mem&oacute;ria pessoal e objetos da cultura. S&atilde;o trabalhos que justap&otilde;em pinturas, desenhos, objetos e fotografias, uma obra mesti&ccedil;a, como define Icleia Cattani (Cattani, 2007). Mais tarde, esses mesmos elementos foram trabalhados por meio da apropria&ccedil;&atilde;o, justaposi&ccedil;&atilde;o, manipula&ccedil;&atilde;o e passagem de um meio a outro em obras nas quais a captura de cenas de filmes &eacute; o ponto de partida e a impress&atilde;o fotogr&aacute;fica, o ponto final. Nestas obras, Alfredo Nicolaiewsky se apropria de imagens de filmes de diferentes diretores, as converte em imagens fixas &#8212; retirando-as da continuidade do filme e tornando-as <i>stills</i> fotogr&aacute;ficos &#8212; seleciona grupos de imagens e justap&otilde;e-nas. A procedimentos como esse, nos quais por um gesto, movido por uma tecnologia, extrai-se do corpo do filme um fotograma, um <i>frame</i>, tornando est&aacute;tico um fragmento do movimento, Dubois nomeia <i>congelamento da imagem</i>, "uma opera&ccedil;&atilde;o estranha, no sentido quase cir&uacute;rgico"(Dubois, 2004:232). O autor est&aacute; referindo-se ao filme com pel&iacute;cula, e assim dirige sua reflex&atilde;o sobre o congelamento associado ao fotograma, ent&atilde;o definindo como <i>punctun</i> o ponto exato de passagem entre a foto e o cinema, o objeto sonhado de aboli&ccedil;&atilde;o dos limites entre cinema e fotografia.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v9n22/9n22a03f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O conjunto de obras que Alfredo Nicolaiewsky vem desenvolvendo com o uso da fotografia, desde ent&atilde;o, embora n&atilde;o tenha como mat&eacute;ria-prima a pel&iacute;cula cinematogr&aacute;fica propriamente dita, inscreve-se por meio da imagem eletr&ocirc;nica no espectro de obras art&iacute;sticas que fazem refer&ecirc;ncia ao fotograma e tem a narrativa cinematogr&aacute;fica como raiz.</p>     <p>No artigo "Efeito filme: figuras, mat&eacute;rias e formas do cinema na fotografia", ao escrever sobre uma curadoria que realizou, Philippe Dubois comenta que visitar essa exposi&ccedil;&atilde;o equivaleria a ver um filme imagin&aacute;rio nas diversas salas. "Efeito filme" &eacute;, para o autor, uma quest&atilde;o de imagem, de dispositivo, tanto quanto de intelec&ccedil;&atilde;o, de sensa&ccedil;&atilde;o e de emo&ccedil;&atilde;o. Em tal exposi&ccedil;&atilde;o, o autor propunha a articula&ccedil;&atilde;o entre cinema e fotografia num &uacute;nico corpo figural "como o desdobramento h&iacute;brido de um mesmo conjunto figural de formas e de mat&eacute;rias"(Dubois, 2004: 230). Este &eacute; o caso da obra <i>Tr&ecirc;s Hist&oacute;rias &#8212; Via sacra,</i> de Alfredo Nicolaiewsky, apresentada pela primeira vez no Centro Cultural Mariant&ocirc;nia/USP, em 2007, na exposi&ccedil;&atilde;o individual intitulada "O Artista como Editor"<i>,</i> que teve curadoria de Tadeu Chiarelli. &Eacute; um conjunto de fotografias composto por 12 tiras verticais, cada uma delas com tr&ecirc;s imagens fotogr&aacute;ficas. S&atilde;o tr&ecirc;s sequ&ecirc;ncias horizontais distintas, justapostas e intervaladas, medindo no total 150 cm de altura por 900 cm de largura (<a href="#f3">Figura 3</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v9n22/9n22a03f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O trabalho traz tr&ecirc;s narrativas simult&acirc;neas que se implicam e contaminam-se. A parte superior &eacute; uma sequ&ecirc;ncia da vida de Jesus Cristo, da anuncia&ccedil;&atilde;o &agrave; ressurrei&ccedil;&atilde;o, as imagens s&atilde;o de um filme de 1905, de diretor desconhecido. Cada fotografia apresenta uma cena ic&ocirc;nica da vida de Cristo, o filme em preto e branco foi colorizado em algumas partes; e os fotogramas mais parecem fotografias tomadas em est&uacute;dio. A sequ&ecirc;ncia de fotografias da base comp&otilde;e-se por enquadramento em plano fechado, centralizado, no qual vemos o rosto de uma mulher branca, de cabelos ruivos, vestindo blusa azul, diante de um fundo azul com algumas flores artificiais. O sorriso da personagem, seu olhar perdido no horizonte e os suaves movimentos de sua boca sugerem que ela est&aacute; a cantarolar. S&atilde;o imagens do mesmo <i>take.</i> As 12 fotografias sinalizam a distens&atilde;o da tomada, realizada pela decomposi&ccedil;&atilde;o do movimento, separando cada gesto da personagem numa imagem fixa, como um <i>stopmotion</i> desmontado. No conjunto da parte central, a sequ&ecirc;ncia &eacute; composta por uma edi&ccedil;&atilde;o complexa, que articula filmes realizados em per&iacute;odos diferentes, contendo m&uacute;ltiplos pontos de vista. Segundo Nicolaiewsky, "a linha horizontal m&eacute;dia sugere uma narrativa independente, que pode, por&eacute;m, ser relacionada com as imagens anteriormente citadas, e que s&atilde;o apresentadas acima e abaixo delas"(Nicolaiewsky, 2017). S&atilde;o imagens com planos em <i>close</i> ao lado de planos abertos, cenas em interiores ao lado de externas, como se estivessem seguindo li&ccedil;&otilde;es de montagem <i>eisensteinianas,</i> usando como base a ideia de colis&atilde;o entre duas partes. Trata-se de uma indica&ccedil;&atilde;o de movimentos, associando fatos &agrave; descri&ccedil;&atilde;o de poss&iacute;veis lugares nos quais a emo&ccedil;&atilde;o das personagens, seus olhares em <i>close-up</i> ou espiando algo acenam para a exist&ecirc;ncia de um enigma, criando uma narrativa de suspense.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b><i>A Ira de Deus</i></b></p>     <p>Em 2015, Alfredo Nicolaiewsky foi para Portugal realizar o est&aacute;gio P&oacute;s-Doutoral na Universidade de Lisboa, com supervis&atilde;o do Pro. Dr. Jo&atilde;o Paulo Queiroz. Para seu projeto, planejou dar continuidade ao mesmo princ&iacute;pio estrutural empregado em <i>Tr&ecirc;s hist&oacute;rias: Via sacra</i>, uma justaposi&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s sequ&ecirc;ncias temporais oriundas de filmes distintos, com o objetivo de criar narrativas visuais a partir de imagens apropriadas do cinema, por&eacute;m em uma forma espacial mais ampla, projetada para a Sacristia da Igreja de S&atilde;o Roque &#8212; Lisboa, e tendo como tem&aacute;tica o terremoto de Lisboa de 1755 (Nicolaiewsky, 2017).</p>     <p>O tema escolhido apresentou algumas dificuldades quanto &agrave; escolha de imagens. As reconstitui&ccedil;&otilde;es f&iacute;lmicas do Terremoto de 1755, n&atilde;o transmitiam, quando transformadas em imagens fixas, a grandeza da cat&aacute;strofe. Por&eacute;m, como estava trabalhando a partir de imagens captadas no <i>Youtube</i>, come&ccedil;aram a aparecer v&iacute;deos jornal&iacute;sticos e ficcionais de trag&eacute;dias contempor&acirc;neas semelhantes: terremotos e o <i>tsunami</i> em 2011 no Jap&atilde;o ou o inc&ecirc;ndio no Chiado em 1988 (Nicolaiewski, 2016).</p>     <p>O tr&iacute;ptico, propriamente dito, &eacute; constitu&iacute;do por imagens do terremoto (<a href="#f4">Figura 4</a>), do maremoto (<a href="#f5">Figura 5</a>) e do inc&ecirc;ndio (<a href="#f6">Figura 6</a>). S&atilde;o nove sequ&ecirc;ncias fotogr&aacute;ficas formadas por 63 cenas, ordenadas em tr&ecirc;s blocos de sete tr&iacute;pticos verticais, cada um. H&aacute; relativa matem&aacute;tica aqui, um jogo de m&uacute;ltiplos de tr&ecirc;s, resultando num tr&iacute;ptico horizontal composto por 21 tr&iacute;pticos verticais, impresso com pigmento mineral em papel <i>somerset velvet</i> 225 gr. em 100 cm de altura e com a largura final em 1400 cm.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v9n22/9n22a03f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v9n22/9n22a03f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v9n22/9n22a03f6.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>A linha de cima refere-se diretamente ao conte&uacute;do (terremoto, maremoto, inc&ecirc;ndio), a linha do meio, que perpassa os tr&ecirc;s epis&oacute;dios, &eacute; formada principalmente por imagens de filmes portugueses (dos diretores: Jos&eacute; Leit&atilde;o de Barros, Manoel de Oliveira, Carlos Carrera, Jo&atilde;o Botellho e Miguel Gomes). Cada uma das pe&ccedil;as do tr&iacute;ptico traz uma narrativa espec&iacute;fica nesta linha, constitu&iacute;da por cenas de tr&ecirc;s filmes, em m&eacute;dia. A linha inferior apresenta em cada parte do tr&iacute;ptico, uma &uacute;nica cena, seguindo a mesma opera&ccedil;&atilde;o de distens&atilde;o do movimento j&aacute; usada em <i>Tr&ecirc;s hist&oacute;rias, Via sacra,</i> de 2007.</p>     <p>O que &eacute; narrado? Quando aconteceu? N&atilde;o h&aacute; um sentido &uacute;nico, h&aacute; um multidirecionamento do tempo, pois, na internet (de onde foram capturados os <i>stills</i>), o acesso permitido pelas plataformas faz convergir imagens de outras &eacute;pocas que, por sua vez, contam hist&oacute;rias de outras tantas. O tr&iacute;ptico produzido trata de uma fic&ccedil;&atilde;o dist&oacute;pica, uma trag&eacute;dia na qual as for&ccedil;as da natureza movimentam destrui&ccedil;&atilde;o, rupturas e afastamentos sob o signo da montagem transmidi&aacute;tica ou montagem por reconvers&otilde;es f&iacute;lmicas, que &eacute; como poderiam ser nomeados estes transportes de um meio a outro, do filme passando pela imagem eletr&ocirc;nica, sua flutua&ccedil;&atilde;o e reconvers&atilde;o em imagem est&aacute;tica, resultando numa sequencia de colagens de cenas, uma montagem fotogr&aacute;fica.</p>     <p>Em <i>a Ira de Deus</i>, Nicolaiewsky mostra o resultado de um processo h&iacute;brido encadeando imagens moventes e imagens est&aacute;ticas, perpassado pelo sistema eletr&ocirc;nico em diferentes etapas, desestabilizando circunscri&ccedil;&otilde;es classificat&oacute;rias em meios espec&iacute;ficos. Nessas sequ&ecirc;ncias, empregando a l&oacute;gica associativa da justaposi&ccedil;&atilde;o, heterog&ecirc;neos s&atilde;o aproximados, acionando, simultaneamente, montagem simb&oacute;lica e montagem dial&eacute;tica.</p>     <p>Alfredo Nicolaiewsky est&aacute; construindo narrativas fotogr&aacute;ficas que se superp&otilde;em, nessas obras, uma simultaneidade &eacute; exposta, transmitindo um cruzamento de hist&oacute;rias em que se observa uma condensa&ccedil;&atilde;o de sentidos e muitas contra&ccedil;&otilde;es e intervalos temporais. Esses intervalos, articulados sob a &eacute;gide das elipses existentes entre as imagens nas sequ&ecirc;ncias horizontais, os saltos tem&aacute;ticos presentes nas sequ&ecirc;ncias verticais e suas justaposi&ccedil;&otilde;es, constituem uma narrativa ramificada e multitemporal. &Eacute; uma gram&aacute;tica visual &uacute;nica, ancorada na transmigra&ccedil;&atilde;o eletr&ocirc;nica das imagens, que convida o observador a animar a obra e a experienciar certo <i>efeito filme</i> remontando a Ira de Deus.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Cattani, Icleia Borsa (2004) <i>Icleia Cattani</i> (Cole&ccedil;&atilde;o pensamento cr&iacute;tico). Rio de Janeiro: FUNARTE.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1459189&pid=S1647-6158201800020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Cattani, Icleia Borsa (Org.). (2007) <i>Mesti&ccedil;agens na arte contempor&acirc;nea</i>. Porto Alegre: Editora da UFRGS.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1459191&pid=S1647-6158201800020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Dubois, Philippe (2004) "Efeito filme: figuras, mat&eacute;rias e formas do cinema na fotografia", In: Santos, Alexandre &amp; Dos Santos, Maria Ivone (Org.). <i>A Fotografia nos processos art&iacute;sticos contempor&acirc;neos.</i> Porto Alegre: UFRGS Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1459193&pid=S1647-6158201800020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Nicolaiewsky, Alfredo (2016) <i>Relat&oacute;rio final P&oacute;s Doutoramento</i>. Dispon&iacute;vel na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1459195&pid=S1647-6158201800020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Nicolaiewsky, Alfredo (2017) <i>Alfredo Nicolaiewsky e a Ira de Deus: suas prequelas e sequelas</i>. Porto Alegre: UFRGS Editora.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1459197&pid=S1647-6158201800020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Ranci&egrave;re, Jaques (2011) O destino das imagens. Lisboa: Orfeu Negro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1459199&pid=S1647-6158201800020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Enviado a 28 de dezembro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:elaine.tedesco@yahoo.com.br"> elaine.tedesco@yahoo.com.br</a> (Elaine Tedesco)</p>      ]]></body><back>
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