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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Nothing is born of emptiness. From more rational or more intuitive processes, the sculptures we produce refer to an objective reality that we learn as we become aware of what is around us, whether real models whether theoretical models born from the confrontation with a given reality. The sculpture of Maria Lino is a work that is developed from the inside to the outside and from the outside to the inside. Of an intrinsic relation with its forms, its personal poetics, and with the form and resistance that the matter grants to it. The relation between form and content, mental structure and physical structure. The agreement between Theme, Idea or Concept, and plastic language. The development of a three-dimensional language based on a mental assumption.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Escultura]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Maria Lino: a escultura como modo de vida</b></p>     <p><b>Maria Lino: the sculpture as a way of life</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Jo&atilde;o Castro Silva*</b></p>     <p>*Portugal, escultor e professor.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investiga&ccedil;&atilde;o e Estudos em Belas Artes. Largo da Academia Nacional de Belas Artes 14, 1200-005 Lisboa, Portugal.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Nada nasce de um vazio. A partir de processos mais racionais ou mais intuitivos, as esculturas que produzimos referenciam uma realidade objectiva que apreendemos &agrave; medida que tomamos consci&ecirc;ncia daquilo que nos rodeia, sejam modelos reais sejam modelos te&oacute;ricos nascidos da confronta&ccedil;&atilde;o com uma determinada realidade. A Escultura de Maria Lino &eacute; um trabalho que se desenvolve de dentro para fora e de fora para dentro. De uma rela&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca com as suas formas, a sua po&eacute;tica pessoal, e com a forma e resist&ecirc;ncia que a mat&eacute;ria lhe concede. A rela&ccedil;&atilde;o entre forma e conte&uacute;do, estrutura mental e estrutura f&iacute;sica. O acordo entre Tema, Ideia ou Conceito, e linguagem pl&aacute;stica. O desenvolvimento de uma linguagem tridimensional com base num pressuposto mental.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Escultura / Maria Lino / madeira.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>Nothing is born of emptiness. From more rational or more intuitive processes, the sculptures we produce refer to an objective reality that we learn as we become aware of what is around us, whether real models whether theoretical models born from the confrontation with a given reality. The sculpture of Maria Lino is a work that is developed from the inside to the outside and from the outside to the inside. Of an intrinsic relation with its forms, its personal poetics, and with the form and resistance that the matter grants to it. The relation between form and content, mental structure and physical structure. The agreement between Theme, Idea or Concept, and plastic language. The development of a three-dimensional language based on a mental assumption.</p>     <p><b>Keywords:</b> sculpture / Maria Lino / wood.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><i>Otros comenzaron ahacer esto s&oacute;lo quitando, como los que apartando lo superfluo sacan a la luz la figura del hombre que quieren, que antes estaba escondida en el bloque de m&aacute;rmol. A estos llamamos escultores".</i> (Alberti, 1999:130)</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Maria Lino &eacute; Escultora (<a href="#f1">Figura 1</a>).</p>     <p>Nasceu na aldeia do Feital, Trancoso, em 1944. Entre 1962 e 1969 frequentou o Curso de Escultura da Escola Superior de Belas-Artes do Porto e de Lisboa e de 1970 a 1977 frequentou a Escola Superior de Belas-Artes de Hamburgo. Desde 1968 realiza dezenas de exposi&ccedil;&otilde;es individuais e colectivas em in&uacute;meras cidades da Europa. Em 1997 volta para o Feital e a&iacute; se mant&eacute;m trabalhando em Escultura, num espa&ccedil;o em que a vida se funde com a Arte. Uma exist&ecirc;ncia dedicada &agrave; poi&eacute;tica. Onde as tarefas di&aacute;rias ganham o mesmo sentido das obras que vai fazendo e o tempo tem outro significado j&aacute; que a cad&ecirc;ncia &eacute; a mesma que se imprime sobre um tronco de castanho, de ferramentas nas m&atilde;os.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Maria Lino</b></p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>The sculptor carves because he must. He needs the concrete form of stone and wood for the expression of his idea and experience, and when the idea forms the material is found at once.</i> (Hepworth, 1932:332)</p></blockquote>     <p>O esculpir como pr&aacute;tica tem uma hist&oacute;ria profunda, antiga, muito antiga, e essa rela&ccedil;&atilde;o entre a escultura contempor&acirc;nea e os m&eacute;todos de trabalho arcaicos repetem-se nos gestos da Maria Lino. N&atilde;o se trata apenas de materializar mas de captar sensa&ccedil;&otilde;es ligadas directamente ao fazer escultura, com ferramentas em mat&eacute;rias s&oacute;lidas e resilientes (<a href="#f2">Figura 2</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Para a Maria o talhe n&atilde;o &eacute; simplesmente um m&eacute;todo de fazer, &eacute; mais um modo de pensar, um entendimento e um modo de estar. Podemos dizer que o talhe est&aacute; intimamente ligado a um sentido est&eacute;tico e vivencial para aquilo que ela v&ecirc; como um modo de vida mais &eacute;tica e aut&ecirc;ntica.</p>     <p>O talhe &eacute; fundamental para a Maria como pessoa ao longo da sua carreira como escultora. A vida como uma harmonia particular com a obra que vai realizando numa variedade quase infinita de mat&eacute;rias e materiais. E que fundamento &eacute; esse que se mant&eacute;m, ent&atilde;o? Talvez uma procura do que somos, entender os mecanismos do nosso ser, da nossa exist&ecirc;ncia. Aprofundar o conhecimento de onde partimos, tentar saber o que &eacute; isto, o mundo, as pessoas. Tentar alcan&ccedil;ar o inexplic&aacute;vel, o intang&iacute;vel. Criar uma idealidade cr&iacute;vel, alterar a realidade de uma forma veros&iacute;mil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Talhe Directo</b></p>     <blockquote>    <p><i>Carving as an activity has remained unchanged since man first started hewing away at a stone to fashion his image. The process is to take away from the stone until an image or form is judged satisfactory by its creator. This is as true today as it was in 5000 B.C.</i> (Padovano, 1981:91)</p></blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O que &eacute; o Talhe Directo? &Eacute; diferente, simplesmente, de esculpir <i>per se</i>? Todos os m&eacute;todos de escultura esculpida exigem uma ac&ccedil;&atilde;o directa de remo&ccedil;&atilde;o de material, com ferramentas espec&iacute;ficas, mas o termo Talhe Directo representa algo distintivo e especial. O talhe directo &eacute; n&atilde;o apenas t&eacute;cnica e m&eacute;todo, mas uma quase doutrina que enfatiza o encontro directo com a mat&eacute;ria sem a necessidade de media&ccedil;&atilde;o de modelos preparat&oacute;rios (<a href="#f3">Figura 3</a>). O talhe directo &eacute; uma abordagem para fazer escultura, onde o processo vai sugerindo a forma final em vez de um modelo pr&eacute;vio elaborado em barro ou cera. O talhe directo &eacute; uma doutrina de verdade, o respeito consciente da natureza da mat&eacute;ria, revelando as suas propriedades e caracter&iacute;sticas particulares, em formas simples e depuradas (<a href="#f4">Figura 4</a>).</p>     <blockquote>    <p><i>a madeira escolhida &eacute; esculpida no sentido de revelar o mais poss&iacute;vel do seu interior.</i></p>     <p><i>M. Lino vai &agrave; procura da ess&ecirc;ncia do tronco que trabalha, tentando perceber o que existe dentro dele e o que ser&aacute; poss&iacute;vel revelar. As mil e uma formas que se escondem dentro do material &eacute; o que torna o processo de esculpir uma descoberta, sempre diferente.</i> (Galsterer, 2013:27)</p></blockquote>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O talhe directo &eacute;, para a Maria, uma disciplina f&iacute;sica e mental. As suas ideias, que s&atilde;o as formas que vai fazendo, s&atilde;o definidas a par e passo. &Eacute; o tempo e a resist&ecirc;ncia da mat&eacute;ria face &agrave;quilo que a Maria a ela adequa, em sintonia mas assertivamente, que fixa nas formas pr&eacute;vias aquelas que a escultora encontra. N&atilde;o &eacute; tanto o impor de uma forma a uma mat&eacute;ria, mas antes libertar a vitalidade contida no interior do bloco, o compromisso entre as formas e os conceitos da imagina&ccedil;&atilde;o, uma negocia&ccedil;&atilde;o entre a ideia, a mat&eacute;ria e a forma (<a href="#f5">Figura 5</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f5.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Com ponteiros, escopros, garfos de dentes, macetas e escodas numa toada r&iacute;tmica que ecoa ao longe, talhar &eacute; uma das actividades que mais preenche um escultor. Partir de um bloco natural e pouco a pouco retirar o excesso de mat&eacute;ria at&eacute; &agrave; obten&ccedil;&atilde;o da forma pretendida. Blocos e estilha&ccedil;os cortados com ritmo e &agrave;s camadas, num processo exaustivo, misto de f&iacute;sico e mental em que a m&atilde;o obedece &agrave; forma que a mente imaginou, ou vai imaginando, o ponteiro deixando impressas na superf&iacute;cie da pedra as marcas que a for&ccedil;a do corpo obriga. O talhe em pedra faz-se com ritmo e cad&ecirc;ncia continuada. Plano a plano as formas desvendam-se balizadas pelo desenho que continuamente se faz na superf&iacute;cie que vai desaparecendo a toque de ponteiro. Mas o talhe directo tamb&eacute;m se faz em madeira, e se a pedra ao ser desbastada se fragmenta em p&oacute;, a madeira lasca-se emanando no ar o perfume da sua seiva. O talhe em madeira &eacute; diverso do talhe em pedra, &eacute; mais dif&iacute;cil retirar grandes volumes. Como se de an&eacute;is de crescimento se tratasse a madeira retira-se lasca por lasca, com enx&oacute;, machado, goiva ou form&atilde;o, num trabalho continuado, igualmente de exaust&atilde;o (<a href="#f6">Figura 6</a>). Se na pedra &eacute; o choque do metal contra a mat&eacute;ria, na madeira &eacute; o fasc&iacute;nio da l&acirc;mina, o gume acerado do a&ccedil;o que corta, o som sibilante do talhe. A for&ccedil;a impressa nas ferramentas, vis&iacute;vel nas marcas que ficam gravadas no cerne. Retirando as especificidades de um e outro material, tudo o resto se baseia num mesmo princ&iacute;pio: descobrir a forma que se encontra em n&oacute;s e se revela num volume de mat&eacute;ria. A pedra parte-se, a madeira corta-se, o processo &eacute; an&aacute;logo: desenhar, desbastar.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Com t&eacute;cnicas mec&acirc;nicas, trabalha-se com rebarbadoras, discos adiamantados e ponteiros pneum&aacute;ticos, motosserras e discos de corte. A execu&ccedil;&atilde;o &eacute; mais r&aacute;pida, fazem-se cortes mais profundos e retiram-se grandes fragmentos. P&oacute; e ru&iacute;do. A rela&ccedil;&atilde;o humanamente pr&oacute;xima ao fazer est&aacute; mais ausente, interp&otilde;em-se entre o corpo e a mat&eacute;ria outros ritmos outros sons, cad&ecirc;ncias n&atilde;o naturais. As pausas para avalia&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento do trabalho s&atilde;o momentos de paz fulcrais, devolvem a naturalidade ancestral ao trabalho do escultor. P&aacute;ra-se e o mundo cessa, o ar fica mudo. De novo o escultor e a mat&eacute;ria em di&aacute;logo, a rela&ccedil;&atilde;o essencial. Novos riscos esbo&ccedil;ados no bloco e o ritmo recome&ccedil;a, intenso e agressivo. Como se o hermetismo da mat&eacute;ria, a sua resistente teimosia &agrave; conforma&ccedil;&atilde;o, obrigasse &agrave; viol&ecirc;ncia para lhe ser retirada do interior as formas que cont&eacute;m.</p>     <p>Ao contr&aacute;rio da modela&ccedil;&atilde;o, em que se trabalha a partir de um vazio, no talhe a forma circunscreve-se a um volume que j&aacute; existe previamente. Em boa verdade a forma est&aacute; l&aacute;, surgindo da remo&ccedil;&atilde;o do excesso que a natureza criou &agrave; sua volta (<a href="#f7">Figura 7</a>). Desbasta-se em fun&ccedil;&atilde;o do desenho que se vai fazendo directamente sobre o bloco. Quando se talha h&aacute; sempre uma refer&ecirc;ncia concreta, uma massa corp&oacute;rea a que se amparar, um volume que se torna em forma. A forma &eacute; talhada por igual, observando-se cuidadosamente todos os pontos de vista porque a mat&eacute;ria talh&aacute;vel n&atilde;o permite erros. As partes retiradas n&atilde;o podem ser repostas, quanto muito adapta-se, descobrindo uma forma ajustada a um outro pensamento que entretanto surgiu a partir da outra forma que entretanto desapareceu.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Escultura</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>    <p> (&#8230;) <i>all skills, even the most abstract, begin as bodily practices (&#8230;) technical understanding develops through the powers of imagination</i>. (&#8230;) <i>knowledge gained in the hand through touch and movement.</i> (Sennet, 2008:10).</p></blockquote>     <p>A escultura n&atilde;o tem tempo no sentido de ser, em ess&ecirc;ncia, a mesma express&atilde;o art&iacute;stica que era quando foi inventada: uma forma de express&atilde;o tridimensional que se baseia na escala, na propor&ccedil;&atilde;o e na harmonia e se desenvolve no espa&ccedil;o que habitamos.</p>     <p>Uma escultura &eacute; sempre fruto de uma ideia. Ideia que se refere a um autor mas que &eacute; o reflexo de uma &eacute;poca, de um tempo sociocultural espec&iacute;fico que pode fazer sentido num tempo hist&oacute;rico pr&oacute;prio e perder a coer&ecirc;ncia tempos depois. Para l&aacute; dos valores conceptuais, restam como universais os valores compositivos. Uma escultura poder&aacute; perder o crit&eacute;rio da sua realiza&ccedil;&atilde;o, a raz&atilde;o da sua exist&ecirc;ncia, mas nunca perde a sua especificidade de ser escultura, objecto material e concreto. Como escultura, permanece incorrupta e factor de eternas reinterpreta&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Escultura &eacute; a capacidade de passar para a mat&eacute;ria aquilo que todos podem pensar, imaginar ou sonhar, mas s&oacute; alguns materializar (<a href="#f8">Figura 8</a>). Em escultura a ideia determina-se a partir do momento em que se resolve, ou encarna na mat&eacute;ria com toda a carga de limita&ccedil;&otilde;es que esta comporta. Escultura &eacute; um processo de realiza&ccedil;&atilde;o formal tridimensional que se baseia em representa&ccedil;&otilde;es conceptuais ligadas directamente a uma express&atilde;o interiorizada de sentimentos, reflex&otilde;es ou encadeamentos de ideias. A pr&aacute;tica &#8212; que em escultura deve sempre ser vista como te&oacute;rico-pr&aacute;tica &#8212; potencia novos pensares e novos ide&aacute;rios pelo simples facto da aprendizagem espec&iacute;fica e do contacto directo com as diversas Mat&eacute;rias. Por outro lado promove um saber intrinsecamente te&oacute;rico que se adquire pela rela&ccedil;&atilde;o directa com o fazer. Um escultor &eacute;-o, n&atilde;o pela utiliza&ccedil;&atilde;o de ferramentas e energia f&iacute;sica na execu&ccedil;&atilde;o de uma Obra, a t&eacute;cnica de um escultor &eacute; acima de tudo a mente por tr&aacute;s disso.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Escultura &eacute; tamb&eacute;m, como desde sempre, um sistema de rela&ccedil;&otilde;es. A rela&ccedil;&atilde;o da forma com a ideia que mais n&atilde;o &eacute; do que a adequa&ccedil;&atilde;o do conte&uacute;do ao seu contentor num processo de renova&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua em que nenhum deles se torna mais importante do que o outro. Forma e Ideia, Ideia e Forma. A forma cont&eacute;m uma ideia e nasce dela ou a ideia cont&eacute;m uma forma pr&eacute;-definida? Miguel &Acirc;ngelo dizia que a forma estava no bloco de pedra e que s&oacute; era preciso retirar o excesso, aideiapoderiaserent&atilde;opr&eacute;-existente, j&aacute;queuma Forma&eacute;, emsi, Ideia. E &eacute; na comunh&atilde;o entre o objectivo da Mat&eacute;ria e o subjectivo da Ideia que a Forma se encontra (<a href="#f9">Figura 9</a>). A ideia toma corpo na mat&eacute;ria e &eacute; a&iacute; que subsiste, num mundo que &eacute; concreto e ao mesmo tempo subjectivo. A mat&eacute;ria concede um sentido pr&eacute;vio &agrave; escultura que a alberga. A forma &eacute; ilus&oacute;ria antes de se afirmar na mat&eacute;ria como ac&ccedil;&atilde;o. A mat&eacute;ria &eacute; um componente construtivo da forma e ambas condicionam e imp&otilde;em os seus princ&iacute;pios reguladores uma &agrave; outra. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel separar aquilo que na verdade se constitui como um todo, mat&eacute;ria e esp&iacute;rito, forma e conte&uacute;do, ideia e contentor.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f9"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f9.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>H&aacute; a rela&ccedil;&atilde;o do escultor com a mat&eacute;ria e a maneira como determinada mat&eacute;ria possibilita, ou impede a express&atilde;o de determinadas formas. A mat&eacute;ria &eacute; o lugar da possibilidade f&iacute;sica de concretiza&ccedil;&atilde;o mas tamb&eacute;m o lugar da impossibilidade de transmuta&ccedil;&atilde;o das ideias em objecto. Na rela&ccedil;&atilde;o que o escultor estabelece com a mat&eacute;ria e que &eacute; contingente da forma, podemos falar da t&eacute;cnica que, se hoje em dia &eacute; por vezes t&atilde;o desvalorizada, &eacute; ela que permite ao escultor uma maior afinidade entre a ideia base para a obra e a forma final que vai obter. O escultor &eacute;, como sempre foi, aquele que tem a potencialidade de transformar ideias em formas tridimensionais, aquele que explora as especificidades de determinada mat&eacute;ria no sentido de as adequar a um discurso pessoal e no entanto universal. Perceber as caracter&iacute;sticas das mat&eacute;rias e tirar partido da sua estrutura f&iacute;sica e expressiva &eacute; o primeiro passo para o desenvolvimento de uma linguagem pessoal, &uacute;nica. Para l&aacute; da vontade do escultor h&aacute; a personalidade e resist&ecirc;ncia da mat&eacute;ria. &Eacute; sempre de uma rela&ccedil;&atilde;o de entendimento do escultor com a mat&eacute;ria que as formas tridimensionais se objectivam (<a href="#f10">Figura 10</a>).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f10"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a13f10.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <blockquote>    <p>(&#8230;) <i>material reality talks back, it constantly corrects projection, cautions about material truth</i>. (Sennet, 2008:272).</p></blockquote>     <p>Trabalhar em talhe directo sobre um bloco, remete para um tempo sem tempo, e este "tempo sem tempo" remete-me para o atelier da Maria Lino &#8212; a que chamou <i>Temos Tempo</i> &#8212; para uma rela&ccedil;&atilde;o que equaciona harmonicamente o ser e o fazer dando sentido e significado &agrave; <i>phisys</i> grega num envolvimento f&iacute;sico que sintetiza o significado da Escultura. F&iacute;sico no sentido de uma integridade do Corpo, da plenitude do todo, absorvido numa actividade, como se o '&agrave; volta' n&atilde;o existisse. Um estado de aus&ecirc;ncia da realidade que nos envolve, um confronto com a realidade ela mesma, do Corpo com a Mat&eacute;ria. Mas est&aacute; para al&eacute;m de um confronto, de uma rela&ccedil;&atilde;o, &eacute; como se a mat&eacute;ria que se conforma passasse a pertencer ela mesma &agrave; nossa totalidade. Como se pelo facto de a talharmos nos talh&aacute;ssemos a n&oacute;s pr&oacute;prios numa unidade din&acirc;mica entre corpo, esp&iacute;rito e mat&eacute;ria. &Eacute; a forma de conhecimento de uma verdade que n&atilde;o se entende de outra maneira. Um processo que tem de ser experienciado para ser percebido. Um inebriante esfor&ccedil;o f&iacute;sico e mental que ao final do dia ainda faz a Maria dizer: "Hoje foi bom&#8230;"</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Alberti, Leon Battista (1999) <i>De la pintura y otros escritos sobre arte</i>, Madrid: ed. Tecnos, ISBN 84-309-3336-0&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1461774&pid=S1647-6158201800030001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Galsterer, Alda (2013) <i>Maria Lino, A Ess&ecirc;ncia das Coisas</i>, Foz Coa: ed. Funda&ccedil;&atilde;o Coa Parque &#8211;Funda&ccedil;&atilde;o para a Salvaguarda: ISBN 978-989-98329-0-9&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1461775&pid=S1647-6158201800030001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Hepworth, Barbara (1932), <i>The Sculptor carves because he must</i>, The Studio an Illustrated Magazine of Fine and Applied Art. Volume 104, July to December: ISSN 2365-6751, consultado em: <a href="https://barbarahepworth.org.uk/texts/" target="_blank">https://barbarahepworth.org.uk/texts/</a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1461776&pid=S1647-6158201800030001300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Padovano, Anthony (1981) <i>The Process of Sculpture</i>, New York:Da Capo Press, Inc, ISBN 0-306-80273-2&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1461777&pid=S1647-6158201800030001300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Sennet, Richard, (2008), <i>The</i> Craftsman. New Haven:Yale University Press, ISBN 978-0300-15119-0&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1461778&pid=S1647-6158201800030001300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Enviado a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:j.castrosilva@belasartes.ulisboa.pt"> j.castrosilva@belasartes.ulisboa.pt</a> (Jo&atilde;o Castro Silva)</p>     ]]></body>
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