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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Éder Oliveira, a Amazônia não é para os fracos]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article concentrates on the production of the artist Éder Oliveira (1983), born in the northeast of Pará(Amazônia), in avillage near the small town of Nova Timboteua, son of a teacher and ahousewife, the artist was created in the Bragantine zone, between nature, school and drawings. His works reach the look of curators and public, being part of public and private collections, such as the Amazonian Collection of Art of the Federal University of Pará; Dos de Mayo Art Center - Madrid, among others, as well as exhibitions in the country and abroad, like for example: Pororoca - The Amazon in the MAR, Museum of Art of Rio de Janeiro, 2014; 31st SP Biennial of Arts, 2014 and Serralves Foundation, Porto, 2015; Malerei - oder die Fotogafie als Gewaltakt, Kunsthalle Lingen, Germany, 2016.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Arte e Política]]></kwd>
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<kwd lng="en"><![CDATA[Art and Politics]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>&Eacute;der Oliveira, a Amaz&ocirc;nia n&atilde;o &eacute; para os fracos</b></p>     <p><b>&Eacute;der Oliveira, the Amazon is not for the wimps</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Orlando Franco Maneschy*</b></p>     <p>*Brasil, artista visual, curador independente e professor pesquisador.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade Federal do Par&aacute;, Faculdade de Artes Visuais do Instituto de Ci&ecirc;ncias da Arte. Rua Augusto Corr&ecirc;a, 1 &#8212; Guam&aacute;, Bel&eacute;m &#8212; PA, 66075-110, Brasil.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Este artigo concentra-se na produ&ccedil;&atilde;o do artista paraense &Eacute;der Oliveira (1983), nascido na antiga Timboteua, pequeno vilarejo junto da atual Nova Timboteua, munic&iacute;pio da zona bragantina no nordeste do Par&aacute; (Amaz&ocirc;nia); filho de um professor e de uma dona de casa, o artista se criou entre a natureza, a escola e seus desenhos. Suas obras atingem o olhar de curadores e p&uacute;blico, fazendo parte de acervos p&uacute;blicos e privados, como Cole&ccedil;&atilde;o Amazoniana de Arte da Universidade Federal do Par&aacute;, Centro de Arte Dos de Mayo &#8211; Madrid, dentre outros, bem como de exposi&ccedil;&otilde;es no pa&iacute;s e exterior, como por exemplo: <i>Pororoca &#8212; A Amaz&ocirc;nia no MAR</I>, Museu de Arte do Rio de Janeiro, 2014; 31&ordf; <i>Bienal de Artes SP,</i> 2014 e Funda&ccedil;&atilde;o Serralves, Porto, 2015; <i>Malerei &#8212; oder die Fotogafie als Gewaltakt,</i> Kunsthalle Lingen, Alemanha, 2016.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Pintura / Amaz&ocirc;nia / Arte e Pol&iacute;tica.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>This article concentrates on the production of the artist &Eacute;der Oliveira (1983), born in the northeast of Par&aacute;(Amaz&ocirc;nia), in avillage near the small town of Nova Timboteua, son of a teacher and ahousewife, the artist was created in the Bragantine zone, between nature, school and drawings. His works reach the look of curators and public, being part of public and private collections, such as the Amazonian Collection of Art of the Federal University of Par&aacute;; Dos de Mayo Art Center &#8212; Madrid, among others, as well as exhibitions in the country and abroad, like for example: Pororoca &#8212; The Amazon in the MAR, Museum of Art of Rio de Janeiro, 2014; 31st SP Biennial of Arts, 2014 and Serralves Foundation, Porto, 2015; Malerei &#8212; oder die Fotogafie als Gewaltakt, Kunsthalle Lingen, Germany, 2016.</p>      <p><b>Keywords:</b> Painting / Amazon / Art and Politics.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Acompanho o trabalho do artista &Eacute;der Oliveira desde seu tempo de estudante, na Faculdade de Artes Visuais, e pude observar como quest&otilde;es acerca da ideia de identidade o norteiam desde os primeiros trabalhos, em que o rosto do artista, a partir de uma fotografia 3 x 4, retirada de seu documento de identidade, foi empregada como elemento para a constru&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica e conceitual. Impressa em papel artesanal feita pelo pr&oacute;prio, a obra &eacute; composta por tr&ecirc;s imagens aparentemente iguais (<a href="#f1">Figura 1</a>), mas trazendo diferen&ccedil;as sutis, j&aacute; apontando para um debate que avan&ccedil;a por sua produ&ccedil;&atilde;o: o retrato como &iacute;ndice de poder ou segrega&ccedil;&atilde;o; "desde ali j&aacute; havia uma busca de um autorretrato da exclus&atilde;o", como aponta o artista em uma conversa informal.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a16f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>De l&aacute; para c&aacute;, a obra do Oliveira ganhou espa&ccedil;o na cena art&iacute;stica. Recebendo, j&aacute; em 2007, um Segundo Grande Pr&ecirc;mio no <i>Sal&atilde;o Arte Par&aacute;</i>, com <i>Sem T&iacute;tulo</i> (2007) , a&ccedil;&atilde;o em espa&ccedil;o p&uacute;blico com afixa&ccedil;&atilde;o de cartazes "lambe-lambe" (<a href="#f2">Figura 2</a>) &#8212; interven&ccedil;&atilde;o urbana com origem na propaganda popular, nos antigos an&uacute;ncios exibidos em muros &#8212; tipo de experi&ecirc;ncia que o artista trouxe, ainda, de sua vida em Timboteua. No <i>Arte Par&aacute;</i>, rostos estampados em alto contraste sobre papel jornal e p&aacute;ginas impressas, faces imprecisas, na instabilidade de pertencimento, acossados pelas estruturas de poder, na luta da ativa&ccedil;&atilde;o de um corpo vivo no mundo, colocando em xeque estigmas e marginaliza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a16f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Esse sujeito amaz&ocirc;nico, sob continuada discrimina&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica povoa as imagens de Oliveira. O homem mesti&ccedil;o, o negro, o caboclo s&atilde;o os sujeitos para os quais o artista direciona o olhar.</p>     <blockquote>    <p><i>Ali encontrei o homem marginalizado, temido, mas muitas vezes tido como inocente por sua condi&ccedil;&atilde;o, tentando se afirmar perante os desafios cotidianos que a vida o impele, em que normalmente a sorte j&aacute; o predisp&otilde;e ao fracasso na vida exigida pelo sistema vigente. Imagens predat&oacute;rias, fotografias retiradas pr&oacute;ximas ao modelo com flash disparado frontalmente gerando retratos vazios de pessoas acuadas, muitos semelhantes aos 3 x 4 colados no RG, que n&atilde;onecessariamente mostram aidentidade do portador.</i> (Oliveira, 2014: 346).</p></blockquote>     <p>O artista, neste seu texto intitulado <i>Autorretrato</i>, nos apresenta pistas do universo que optou por abarcar. A identidade do corpo representado pela imagem, em grande parte coletada nas p&aacute;ginas policiais, traz &agrave; tona uma espessura da fotografia, que ao subverter o preceito modernista de autoria, em uma perspectiva p&oacute;s-moderna, conduz a imagem para a possibilidade de ressignifica&ccedil;&atilde;o, de reprodu&ccedil;&atilde;o, de apropria&ccedil;&atilde;o, atingindo papel de refer&ecirc;ncia, torcendo sua fun&ccedil;&atilde;o inicial do objeto fotogr&aacute;fico, mas sem distanciar-se completamente dele. H&aacute; uma interrup&ccedil;&atilde;o presente no olhar dos sujeitos, uma suspens&atilde;o de tempo nitidamente caracter&iacute;stica do fotogr&aacute;fico. Essa captura fruto do desejo de perman&ecirc;ncia, cria o inc&ocirc;modo da fotografia sequestrada, pelos fot&oacute;grafos das p&aacute;ginas policiais. Oliveira revela essa indisposi&ccedil;&atilde;o no rosto dos sujeitos, que reativa pela pintura, em murais e telas a &oacute;leo, resignificando-os. Sobre esse tipo de inst&acirc;ncia, de imbricamento, Rosalind Krauss ir&aacute; dizer:</p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Esta ideia de captura da experi&ecirc;ncia fugitiva para conseguir ret&ecirc;-la, de registro do presente e sua conserva&ccedil;&atilde;o apesar da passagem do tempo, Freud a utiliza para caracterizar a fotografia. Contudo, mesmo antes do surgimento da fotografia, j&aacute; era costume descrever a escrita dessa mesma maneira. Ela tamb&eacute;m tinha como fun&ccedil;&atilde;o consignar a palavra do momento por escrito para restitu&iacute;-la num outro campo espacial e temporal. A escrita era o instrumento da mem&oacute;ria. Como outros instrumentos, era acionada pela m&atilde;o. A palavra se transferia de um &oacute;rg&atilde;o, a boca, a outro &oacute;rg&atilde;o menos nobre e requintado, a m&atilde;o.</i> (Krauss, 2002: 211)</p></blockquote>     <p>O <i>Autorretrato</i> de Oliveira &eacute; texto, palavra que constitui um territ&oacute;rio no qual o artista se compreende, enquanto sujeito que percebe o mundo e &eacute; <i>afectado</i> (na perspectiva de Gilles Deleuze e F&eacute;lix Guattari) por este, mas &eacute; tamb&eacute;m pela m&atilde;o, pela pintura que o artista transfere seu pensamento para o plano f&iacute;sico, reificando aquilo que sua percep&ccedil;&atilde;o lhe apresenta, tal qual nos prop&otilde;e Suely Rolnik:</p>     <blockquote>    <p><i>Um outro tipo de experi&ecirc;ncia que a subjetividade faz de seu entorno &eacute; a que designo como 'fora-do-sujeito' ou 'extra-pessoal': &eacute; a experi&ecirc;ncia das for&ccedil;as que agitam o mundo enquanto corpo vivo e que produzem efeitos em nosso corpo em sua condi&ccedil;&atilde;o de vivente. Tais efeitos consistem em outra maneira de ver e de sentir aquilo que acontece em cada momento.</i> (Rolnik, 2016: 10).</p></blockquote>     <p>&Eacute;der Oliveira n&atilde;o passa inc&oacute;lume ao mundo que o rodeia, atento, compreende claramente as opera&ccedil;&otilde;es que se manifestam no cotidiano, sejam os preconceitos que rondam de forma aparentemente sutil, sejam as viol&ecirc;ncias aos direitos que ocorrem de maneira mais aguda. De sua vila natal at&eacute; a mudan&ccedil;a para a capital foram in&uacute;meras experimenta&ccedil;&otilde;es de estar no mundo, com seus m&uacute;ltiplos atravessamentos entre uma pequena comunidade e a ferocidade de uma das cidades mais violentas do Brasil.</p>     <p>Pelo que o artista nos apresenta em seu texto <i>Autorretrato</i>, h&aacute; em seu processo uma instaura&ccedil;&atilde;o, um sentido em que as coisas j&aacute; existem no mundo, mas o artista d&aacute; a elas a forma, como sinaliza Lapoujade ao dizer que instaurar &eacute; um fixar da exist&ecirc;ncia de um ser (Lapoujade, 2017: 81). Oliveira, ao retirar de p&aacute;ginas policiais retratos de sujeitos expostos pela m&iacute;dia e categorizados por valores manique&iacute;stas, lan&ccedil;a luz a uma condi&ccedil;&atilde;o de exce&ccedil;&atilde;o imposta ao cidad&atilde;os das classes menos favorecidas e reitera suas exist&ecirc;ncias.</p>     <blockquote>    <p><i>Retirar a imagem desse contexto comum a ela e transpor em pintura com enquadramento pr&oacute;ximo aorosto, sem algemas, sem circunst&acirc;ncias, falando de quest&otilde;es humanas e do que isso pode mostrar alheio a uma manchete sensacionalista &eacute; o que busco quando reproduzo o retrato do homem amaz&ocirc;nico nas paredes da cidade de Bel&eacute;m, impondo ao transeunte o confronto com rostos que ele tende a ignorar, uma imagem que migrou da representa&ccedil;&atilde;o ic&ocirc;nica do trabalho para o reflexo daquilo que se deve temer e evitar.</i> (Oliveira, 2014: 346).</p></blockquote>     <p>Percebe-se com o discurso do artista uma consci&ecirc;ncia de seu papel enquanto sujeito que ultrapassa o limite do eu para estar no mundo de forma ativa e viva, respondendo aos est&iacute;mulos que lhe s&atilde;o lan&ccedil;ados. Assim foi no projeto <i>Amaz&ocirc;nia, a Arte</i>, (2010), mostra exibida no Museu Vale, Vit&oacute;ria/ES e na Funda&ccedil;&atilde;o Cl&oacute;vis Salgado, Pal&aacute;cio das Artes, Belo Horizonte/MG, 2010, em que o artista realizou pinturas murais trazendo os rostos de desconhecidos pesquisados em jornais, mesclando-os com de amigos para o exterior e para o interior do pr&eacute;dio, respectivamente. Na mistura, estes rostos n&atilde;o s&atilde;o identificados, e a inoc&ecirc;ncia ou suposta culpabilidade dos suspeitos fica &agrave; crit&eacute;rio de quem olha, conclamando o observador e perceber os meandros produzidos pela m&iacute;dia e pela reatividade deflagrada decorrente do que Rolnik chama de "inconsciente colonial-capital&iacute;stico" (Rolnik, 2016: 16). Para o projeto <i>Amaz&ocirc;nia, Lugar da Experi&ecirc;ncia</i> (2012), quando convidado a integrar o n&uacute;cleo da Cole&ccedil;&atilde;o Amazoniana de Arte da Universidade Federal do Par&aacute;, prop&otilde;e uma pintura mural para a Rua da Marinha, 250 e duas telas (<a href="#f3">Figura 3</a>, <a href="#f4">Figura 4</a>, <a href="#f5">Figura 5</a>). Em conversa com o curador, discutiu-se acerca da imagem emblem&aacute;tica do pistoleiro Quintino, que figurou no projeto do artista duplamente, destacando a dubiedade que esta figura propiciava, como podemos ver:</p>     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>Quintino aparece duas vezes, na rua e dentro da galeria, em tela. O temido "gatilheiro" que nos anos 1980 mudou de lado: deixa de trabalhar &#8212; para patr&otilde;es que encomendavam crimes relacionados &agrave; terra para lutar junto &agrave;s minorias que reivindicam condi&ccedil;&otilde;es justas de sobreviv&ecirc;ncia no campo. Perseguido e assassinado, Quintino volta como representa&ccedil;&atilde;o de uma das passagens recentes da hist&oacute;ria de viol&ecirc;ncia na regi&atilde;o, muitas vezes figurando em vers&otilde;es controversas, dependendo do posicionamento de quem a conta, ora vil&atilde;o, ora her&oacute;i. &Eacute;der Oliveira ira, ao se deter na viol&ecirc;ncia cotidiana, retirada das paginas policiais, colocar lado a lado personagens, que por vezes, figuram em lados antag&ocirc;nicos, v&iacute;timas e suspeitos, levando-nos, no desconhecimento, a olhar para o retrato daqueles que, muitas vezes, n&atilde;o queremos saber da hist&oacute;ria, sequer olhar.</i> (Maneschy, 2013: 30)</p></blockquote>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a16f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a16f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a16f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Essa ambiguidade &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o presente no projeto do artista, uma confus&atilde;o iminente provocada por duas caracter&iacute;sticas presentes em seu trabalho: cor forte e os tra&ccedil;os fision&ocirc;micos (<a href="#f6">Figura 6</a>). A cor intensa det&eacute;m suas particularidades, uma delas &eacute; propiciada pelo daltonismo do artista, que o levou a optar pelo embate de trabalhar as cores no limite de sua percep&ccedil;&atilde;o; a outra se apresenta pela magnitude das cores e da luz dos elementos, sejam estes naturais ou empregados pelo homem em cores vivas. Estas colora&ccedil;&otilde;es est&atilde;o nas roupas, na tez "morena" do amaz&ocirc;nida que det&eacute;m uma grande gama de tons. Os indiv&iacute;duos de cor branca no norte do Brasil s&atilde;o minoria diante dos caboclos, negros, mesti&ccedil;os e &iacute;ndios; a despeito disto, o arqu&eacute;tipo de beleza branca, loura, de olhos claros, ainda &eacute; idealizado como a suprema beleza por grande parte da popula&ccedil;&atilde;o. Padr&atilde;o dif&iacute;cil de se atingir, obviamente. Mas, este sujeito mesti&ccedil;o, de estatura baixa, pele escura &eacute; alvo de preconceito e viol&ecirc;ncia. Este indiv&iacute;duo com seu rosto marcado por linhas acentuadas, olhar grave, distante do estere&oacute;tipo de beleza anglo-sax&ocirc;nica encontra-se muitas vezes em posi&ccedil;&atilde;o de suspei&ccedil;&atilde;o, ora por estar em circunst&acirc;ncia de instabilidade em uma cidade violenta, ora por ocupar papel em situa&ccedil;&atilde;o de tens&atilde;o social. Sua cor de pele e seus tra&ccedil;os j&aacute; os condenam por princ&iacute;pio.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a16f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mesmo quando o artista lan&ccedil;a seu olhar para os policiais militares em <i>Alistamento</i>, projeto em que dissemina uma convocat&oacute;ria nos quarteis militares de Bel&eacute;m para convidar os alistados a tomar parte de seu trabalho &#8212; respondendo a um question&aacute;rio e participando de uma sess&atilde;o fotogr&aacute;fica, gerando as imagens que foram transpostas para as telas e paredes da exposi&ccedil;&atilde;o (<a href="#f7">Figura 7</a>) &#8212;, o artista desvela uma esp&eacute;cie de tens&atilde;o psicossocial, como aponta a curadora Marta Mestre:</p>     <blockquote>    <p><i>&Eacute;der Oliveira nos exp&otilde;em diante daquilo que deveria ter ficado guardado ou invis&iacute;vel. Uma esp&eacute;cie de "retorno do recalcado nacional" (E. Viveiros de Castro) que "desarranja" corpos, rostos e percep&ccedil;&otilde;es. E que ao reconfigurar as formas perceptivas existentes torna-se pol&iacute;tico sem que necessite ser engajado.</i></p>     <p><i>ALISTAMENTO assume um magn&iacute;fico efeito de espelho antropol&oacute;gico que, sob ov&eacute;u de falar dos outros (soldados), deixa passar observa&ccedil;&otilde;es sobre n&oacute;s, sobre a nossa cultura, os nossos valores e atitudes. E de um modo simples coloca em evid&ecirc;ncia o quanto toda a imagem &eacute; sempre a imagem de um "outro", sendo a experi&ecirc;ncia de alteridade capaz de uma reformula&ccedil;&atilde;o constante dos termos em que nos definimos.</i> (Mestre, 2015).</p></blockquote>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a16f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Este recalque ao qual Viveiros de Castro se refere e que Marta Mestre se apoia &eacute; uma recorr&ecirc;ncia persistente, uma vez que tantas aspira&ccedil;&otilde;es foram reprimidas, que constantemente ressurgem, alteradas, de forma distorcida, ou deformada. Neste contexto, Viveiro de Castro revela: "Converter, reverter, perverter ou subverter (como sequeira) o dispositivo de sujei&ccedil;&atilde;o armado desde a Conquista de modo a torn&aacute;-lo dispositivo de subjetiva&ccedil;&atilde;o" (Castro, 2008:141). Assim, o sujeito "n&atilde;o branco", "moreno", "r&uacute;stico", "marajoara", "pardo", "t&iacute;pico", "nortista", aparece como designa&ccedil;&atilde;o presente nas respostas das perguntas feitas por &Eacute;der Oliveira, tal qual as constitu&iacute;das pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica (IBGE), no censo realizado a cada 10 anos em que a cor da pele &eacute; uma das perguntas apresentadas, utilizadas na auto-identifica&ccedil;&atilde;o dos entrevistados. O artista ir&aacute; perguntar: "1) Como voc&ecirc; se v&ecirc;? 2) Como voc&ecirc; v&ecirc; o homem amaz&ocirc;nico?". Os termos empregados nas respostas formaram um conjunto de palavras, agrupadas em dois conjuntos, de acordo com as perguntas, seguindo o padr&atilde;o das etiquetas de identifica&ccedil;&atilde;o apresentadas nos uniformes dos membros da corpora&ccedil;&atilde;o: um de como o sujeito se v&ecirc; e o outro de como este v&ecirc; o outro; outras obras s&atilde;o retratos dos indiv&iacute;duos em roupa de camuflagem, parte pintados a &oacute;leo, parte em grandes dimens&otilde;es em madeira (<a href="#f8">Figura 8</a>, <a href="#f9">Figura 9</a>), levados para as ruas da cidade.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a16f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f9"><img src="/img/revistas/est/v9n23/9n23a16f9.jpg"></a>     
]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>E essa pessoa recalcada, com</p>     <blockquote>    <p><i>a subjetividade reduzida ao sujeito e que com ele se confunde interpreta o desmoronamento de 'um' mundo como sinal do fim 'do' mundo e dela mesma. Em outras palavras, esse tipo de subjetividade vive a tens&atilde;o entre aquelas duas experi&ecirc;ncias como uma amea&ccedil;a de desagrega&ccedil;&atilde;o.</i> (Rolnik, 2016:17).</p></blockquote>     <p>Com sua produ&ccedil;&atilde;o, &Eacute;der Oliveira nos exp&otilde;e uma condi&ccedil;&atilde;o fat&iacute;dica que os menos favorecidos enfrentam em um pa&iacute;s em que a uma vergonha hist&oacute;rica persiste, erigida na discrimina&ccedil;&atilde;o imposta aos desvalidos, num estado de exce&ccedil;&atilde;o calcado na opress&atilde;o do herdeiro do sujeito nativo, mesmo sendo este um pa&iacute;s mesti&ccedil;o, a fantasia est&eacute;tica anglo-sax&ocirc;nica se imp&otilde;e.</p>     <p>Oliveira nos convida a perceber um dano hist&oacute;rico, uma continuada explora&ccedil;&atilde;o do sujeito que, diferente do dominador, vive em condi&ccedil;&otilde;es de interdi&ccedil;&atilde;o, sem poder exercitar seus direitos sociais em plenitude, especialmente em um pa&iacute;s que &eacute; mesti&ccedil;o. Com sua obra profundamente pol&iacute;tica, o artista nos conclama:: Veja! Acorde! Tome posi&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Refer&ecirc;ncias</b></p>     <!-- ref --><p>Castro, Eduardo Viveiros de (2008) Eduardo Viveiros de Castro &#8212; Col. Encontros. Rio de Janeiro: Editora Azougue ISBN: 9788588338937.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462040&pid=S1647-6158201800030001600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Herkenhoff, Paulo (org.)(2014). <i>Porororca &#8212; A Amaz&ocirc;nia, no MAR</I>, Rio de Janeiro: MAR/Contraponto Editora. ISBN: 978-85-64022-60-7&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462042&pid=S1647-6158201800030001600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p>Krauss, Rosalind (2002). <i>O Fotogr&aacute;fico</i>. Barcelona: Gustavo Gili SA. ISBN:84-252-1858-6.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462043&pid=S1647-6158201800030001600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Maneschy, Orlando (2013). <i>Amaz&ocirc;nia, Lugar da Experi&ecirc;ncia</i>. Bel&eacute;m: Edufpa. ISBN: 978-85-63728-13-13.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462045&pid=S1647-6158201800030001600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Mestre, Marta (2015) "Alistamento". &#91;Texto curatorial da exposi&ccedil;&atilde;o hom&ocirc;nima,&#93; Sesc Boulevard. Bel&eacute;m &#8212; Par&aacute;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462047&pid=S1647-6158201800030001600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> .</p>     <!-- ref --><p>Oliveira, &Eacute;der. (2014) "Autorretrato". <i>Porororca &#8212; A Amaz&ocirc;nia, no MAR</I>, Rio de Janeiro: MAR/ Contraponto Editora. ISBN: 978-85-64022-60-7.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462049&pid=S1647-6158201800030001600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Enviado a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:orlandomaneschy@gmail.com">orlandomaneschy@gmail.com</a> (Orlando Franco Maneschy)</p>      ]]></body><back>
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