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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Aurélia de Souza: O Feminismo ao Espelho]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article deals with the work "Self-portrait (with tie)" (c. 1897) and three other works by the pioneer female portuguese artist Aurélia de Souza. Iconographic analysis reveals an artist who is actively critical and fully aware of the nineteenth century gender discrimination of which she was also avictim. It is concluded that her work and importance as amajor figure of art history has been unjustly distorted by a stubborn gender discrimination.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b>ARTIGOS ORIGINAIS</b></p>     <p align="right"><b>ORIGINAL ARTICLES</b></p>     <p><b>Aur&eacute;lia de Souza: O Feminismo ao Espelho</b></p>     <p><b>Aur&eacute;lia de Souza: Feminism at the Mirror</b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Raquel Pelayo*</b></p>     <p>*Portugal, artista visual, professora.</p>     <p>AFILIA&Ccedil;&Atilde;O: Universidade do Porto, Faculdade de Arquitetura (FAUP) e I2ADS &#8212; Instituto de Investiga&ccedil;&atilde;o em Arte, Design e Sociedade. Universidade do Porto, Faculdade de Belas Artes (FBAUP). Av. Rodrigues de Freitas 265, 4000-222, Porto, Portugal.</p>      <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#c0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="topc0"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>RESUMO:</b></p>     <p>Neste artigo aborda-se a obra "Autorretrato (com la&ccedil;o)" (c. 1897) e outras tr&ecirc;s obras da pioneira mulher artista portuguesa Aur&eacute;lia de Souza. A an&aacute;lise iconogr&aacute;fica revela uma artista ativamente cr&iacute;tica e plenamente consciente da discrimina&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero da sociedade oitocentista da qual tamb&eacute;m foi v&iacute;tima. Conclui-se que a sua obra e import&acirc;ncia como figura da hist&oacute;ria da arte vem sendo injustamente menorizada por teimosa discrimina&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero.</p>     <p><b>Palavras chave:</b> Aur&eacute;lia de Souza / mulher artista / feminismo / romantismo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>ABSTRACT:</b></p>     <p>This article deals with the work "Self-portrait (with tie)" (c. 1897) and three other works by the pioneer female portuguese artist Aur&eacute;lia de Souza. Iconographic analysis reveals an artist who is actively critical and fully aware of the nineteenth century gender discrimination of which she was also avictim. It is concluded that her work and importance as amajor figure of art history has been unjustly distorted by a stubborn gender discrimination.</p>     <p><b>Keywords:</b> Aurelia de Souza / woman artist / feminism / romanticism.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>No in&iacute;cio dos anos setenta arrancou todo um processo de questionamento do fazer da hist&oacute;ria, desde os processos de museifica&ccedil;&atilde;o e exibi&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica at&eacute; aos processos de narra&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica que ainda hoje est&aacute; longe de se ter esgotado. A partir do seminal artigo de Nochlin (1971) s&atilde;o denunciadas e questionadas as m&uacute;ltiplas exclus&otilde;es socioculturais de que as mulheres artistas s&atilde;o v&iacute;timas e principalmente as "posteriores exclus&otilde;es da pr&oacute;pria constru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, sobretudo durante os s&eacute;culos XIX e XX" (Vicente, 2017:35). Verifica-se que "a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento da hist&oacute;ria e da hist&oacute;ria da arte realizada no s&eacute;culo XX &eacute; que, ao olhar para o passado com as lentes da discrimina&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero e racial do seu presente, n&atilde;o foi capaz de ver a exist&ecirc;ncia de mulheres enquanto agentes da hist&oacute;ria, tamb&eacute;m elas criadoras de saberes como de arte<i>s</i>" (Vicente, 2017:35). Hoje existe a perce&ccedil;&atilde;o de que o mundo art&iacute;stico &eacute; mais progressista e aberto do que outras esferas e, segundo Vicente (2017), &eacute; esta apar&ecirc;ncia que acaba por camuflar as persistentes desigualdades de g&eacute;nero no mundo art&iacute;stico e que dificulta o pr&oacute;prio reconhecimento da discrimina&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Aur&eacute;lia de Souza (1866-1922) (<a href="#f1">Figura 1</a>) &eacute; uma artista portuguesa que foi, e ainda &eacute;, v&iacute;tima de discrimina&ccedil;&atilde;o de g&eacute;nero (Vicente &amp; Vicente 2015). O seu lugar na hist&oacute;ria da arte portuguesa &eacute; pouco mais do que uma exce&ccedil;&atilde;o digna de nota. A maior barreira ao pleno reconhecimento do seu g&eacute;nio art&iacute;stico depende de existir na sua obra aquilo a que Adorno se refere como "conte&uacute;do de verdade" e que &eacute; aquilo que, intr&iacute;nseco &agrave; obra, a liga &agrave; verdade pessoal e hist&oacute;rica de toda uma sociedade (Freitas, 2005).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f1"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a02f1.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A sociedade portuguesa de finais do s&eacute;culo XIX &eacute; profundamente marcada pela desigualdade de g&eacute;nero e &eacute; sabido que Aur&eacute;lia passou por in&uacute;meras barreiras para poder exercer a profiss&atilde;o de pintora. Estas dificuldades se, por um lado foram sendo ultrapassadas, tamb&eacute;m delimitaram a abrang&ecirc;ncia da sua atividade e o seu pleno reconhecimento em vida e posteriormente. Ainda hoje paira sobre a sua obra uma d&uacute;vida fundamental que se refere a at&eacute; que ponto as limita&ccedil;&otilde;es a que a pintora se viu sujeita n&atilde;o ter&atilde;o impedido o seu pleno desenvolvimento como artista a ponto de, eventualmente, atingir a genialidade criativa? O mesmo ser&aacute; questionar se a sua obra est&aacute; ou n&atilde;o imbu&iacute;da de "conte&uacute;do de verdade" na ace&ccedil;&atilde;o adorniana. A sua obra fornece-nos, ou n&atilde;o, toda uma vis&atilde;o cr&iacute;tica da sociedade e cultura ocidental oitocentista que resulte de todo um profundo posicionamento filos&oacute;fico que cabe aos artistas ter? Tal &eacute; a quest&atilde;o que nos propomos aqui colocar.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>1. D&uacute;vidas e desconfian&ccedil;as</b></p>     <p>Uma das d&uacute;vidas que a historiografia moderna lan&ccedil;a sobre a obra de Aur&eacute;lia de Souza refere-se ao facto de, tendo a artista estudado em Paris durante tr&ecirc;s anos e contactado com as correntes mais vanguardistas, n&atilde;o ter optado por desenvolver essa linha de trabalho mais no sentido da impress&atilde;o e da abstra&ccedil;&atilde;o e, ao inv&eacute;s, ter-se mantido fiel &agrave; t&eacute;cnica tradicional que em muitas obras &eacute; preciosista e noutras eivada de pinceladas meramente sugestivas e/ou mat&eacute;ricas. Nesta perspetiva a obra de Aur&eacute;lia de Souza surgiria indesculpavelmente desfasada da realidade art&iacute;stica da vanguarda internacional sua contempor&acirc;nea. No entanto esta perspetiva &eacute; falaciosa por duas raz&otilde;es. A primeira porque se trata de uma perspetiva que enferma de formalismo reduzindo a arte a meras quest&otilde;es formais esvaziadas de sentido. A segunda raz&atilde;o diz respeito a deixar de fora todas as circunst&acirc;ncias socioculturais da &eacute;poca e vida da artista. De facto Aur&eacute;lia de Souza, como j&aacute; referimos noutra ocasi&atilde;o (Pelayo, 2017) interrompe estudos em Paris abruptamente, por motivos de sa&uacute;de que, de resto, se prendem com a omnipresente pandemia da &eacute;poca, a tuberculose, que acompanhou e foi o lado negro do processo de industrializa&ccedil;&atilde;o ocidental. Sendo obrigada a viver no Porto, e tal como qualquer outro artista, teve de se adaptar e encontrar o seu lugar no meio art&iacute;stico portugu&ecirc;s n&atilde;o estando em posi&ccedil;&atilde;o, particularmente por ser mulher num mundo profusamente masculinizado, de abrir m&atilde;o da t&eacute;cnica que funcionava como o mais importante fator credibilizador da sua atividade como pintora. N&atilde;o era ainda, e n&atilde;o foi, tempo portugu&ecirc;s disso. A limita&ccedil;&atilde;o, se h&aacute; alguma, seria a de toda a cultura portuguesa de ent&atilde;o como um todo.</p>     <p>Outra desconfian&ccedil;a, esta claramente preconceituosa, que se estabelece frequentemente na avalia&ccedil;&atilde;o da obra de uma pioneira mulher artista &eacute; a de que, ultrapassada a barreira da forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica com brilhantismo a obra n&atilde;o possua a liberdade de esp&iacute;rito, o sentido cr&iacute;tico, uma necess&aacute;ria tomada de posi&ccedil;&atilde;o perante o mundo, como resultado das limita&ccedil;&otilde;es que a condi&ccedil;&atilde;o feminina, neste caso oitocentista, impunha &agrave;s mulheres que estavam exclu&iacute;das de muitas tert&uacute;lias e de muita da vida mundana, cultural e pol&iacute;tica apenas frequentada por homens. Mais uma vez esta quest&atilde;o &eacute; falaciosa porque qualquer ser humano, independente do g&eacute;nero, faz parte de uma complexa realidade hist&oacute;rica e carrega consigo o peso da sua perspetiva de vida que &eacute; sempre subjetiva e limitada pela sua circunstancialidade, mas que faz parte e constr&oacute;i essa mesma realidade social mais ampla. Inversamente poder&iacute;amos questionar a profundidade do conhecimento que os intelectuais da &eacute;poca poderiam ter sobre a verdadeira realidade do espa&ccedil;o dom&eacute;stico, as frustra&ccedil;&otilde;es e anseios das mulheres da sua &eacute;poca, j&aacute; que essa &eacute; uma realidade que faz parte das viv&ecirc;ncias culturais e pol&iacute;ticas daquela sociedade tanto quanto ter&atilde;o sido os debates da esfera p&uacute;blica. Assim, a quest&atilde;o que &eacute; pertinente dirigir &agrave; obra desta artista &eacute; se ela se imbui de sentidos e posicionamentos relativamente &agrave;quela que era ent&atilde;o a realidade das mulheres no quadro das viv&ecirc;ncias do seu tempo.</p>     <p>N&atilde;o pode ser Aur&eacute;lia de Souza uma artista maior caso a sua obra n&atilde;o nos fale dessa realidade brutal, silenciada na produ&ccedil;&atilde;o cultural masculina, que &eacute; de enorme relev&acirc;ncia pois diz respeito a metade da humanidade. Simplificando, poderia dizer-se que o valor da sua obra depende, em grande medida, da mesma obra possuir intrinsecamente um posicionamento feminista que revele uma artista cr&iacute;tica, criativa e vision&aacute;ria como &eacute; apan&aacute;gio dos grandes artistas, din&acirc;micos agentes da hist&oacute;ria.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&Eacute; neste quadro que nos propomos proceder a uma an&aacute;lise visual sobre uma pequena amostra de obras de Aur&eacute;lia de Souza que nos permita identificar, caso existam, sentidos e resson&acirc;ncias que revelem o seu posicionamento cr&iacute;tico relativamente &agrave; sociedade e cultura de ent&atilde;o. Dos v&aacute;rios autorretratos selecionamos os tr&ecirc;s de maior envergadura que s&atilde;o o <i>Autorretrato</i> (do la&ccedil;o) (c. 1897), &oacute;leo sobre tela, cole&ccedil;&atilde;o Jos&eacute; Caiado de Souza; <i>o Autorretrato</i> (do casaco vermelho) (c. 1900), &oacute;leo sobre tela, cole&ccedil;&atilde;o Casa-Museu Marta Ortig&atilde;o Sampaio; <i>Santo Ant&oacute;nio</i> (c.1902), &oacute;leo sobre tela, cole&ccedil;&atilde;o Museu Nacional Soares dos Reis e ainda <i>Jezabel devorada pelos c&atilde;es por ordem de Jehu</i> (sem data), &oacute;leo sobre tela, cole&ccedil;&atilde;o Museu Nacional Soares dos Reis. Contemplemos a artista olhando-se ao espelho.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>2. An&aacute;lise iconogr&aacute;fica</b></p>     <p>O <i>Autorretrato</i> do la&ccedil;o (<a href="#f2">Figura 2</a>) &eacute; uma das obras mais intrigantes de Aur&eacute;lia. O car&aacute;cter pat&eacute;tico desta figura levou Silva (1995), numa primeira tentativa de interpreta&ccedil;&atilde;o, a v&ecirc;-lo como "surpreendido palha&ccedil;o" resultado de um processo de "auto-indaga&ccedil;&atilde;o e autotravestimento". Para al&eacute;m de rebuscada e vaga esta interpreta&ccedil;&atilde;o apresenta-se inveros&iacute;mil face ao contexto da condi&ccedil;&atilde;o feminina da &eacute;poca. De facto aquilo que as mulheres do s&eacute;culo dezanove mais temiam era serem ridicularizadas ou serem alvo de chacota, coisa que acontecia face a qualquer intento emancipat&oacute;rio uma vez que eram consideradas seres intelectualmente inferiores.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f2"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a02f2.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>A obra mostra-nos uma mulher de express&atilde;o pat&eacute;tica que nos fita de sobrolho franzido, com a boca entreaberta onde assoma a l&iacute;ngua prestes a sair, sufocada por um gigantesco la&ccedil;o negro que lhe estrangula o pesco&ccedil;o. De cabelo cortado e p&aacute;lida como a morte esta mulher &eacute; uma v&iacute;tima do seu adere&ccedil;o rid&iacute;culo e est&aacute; prestes a desfalecer. Seu corpo em alvas e vagas pinceladas dilu&iacute;do no fundo tamb&eacute;m ele branco numa impossibilidade existencial. Nesta cena de quase morte, o desaparecimento da figura que real&ccedil;a o omnipotente la&ccedil;o mant&eacute;m, no entanto, uma aparente normalidade retratista na composi&ccedil;&atilde;o tradicional da figura na tela passando facilmente como um "retrato normal" menos bem conseguido. Foi pintada ainda no Porto, antes da ida para Paris quando ainda frequentava a Academia de Belas Artes do Porto.</p>     <p>Refira-se ainda que Aur&eacute;lia de Souza atribui a esta sua obra uma enorme import&acirc;ncia. Ela &eacute; a obra que se exibe num cavalete por detr&aacute;s da pintora no "retrato oficial" que lhe ter&aacute; feito Aur&eacute;lio da Paz dos Reis (<a href="#f3">Figura 3</a>) onde a artista se mostra como tal, de cam&eacute;lia branca ao peito como refer&ecirc;ncia &agrave;s pinturas que lhe trouxeram algum sucesso comercial. Aur&eacute;lia surge na fotografia espartilhada em vestido negro &agrave; boa maneira vitoriana da &eacute;poca e a seus ombros, muito apertada em volta do seu pesco&ccedil;o, veste uma longa &eacute;charpe de cetim negro que facilmente se reconhece como a mesma que faz o enorme la&ccedil;arote na pintura. Aur&eacute;lia posa para a fotografia esticando com firmeza a &eacute;charpe com sua m&atilde;o esquerda num renovado estrangulamento enquanto nos fita com autoridade, refor&ccedil;ando a atitude do autorretrato.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f3"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a02f3.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como j&aacute; notamos (Pelayo, 2017) esta pintura tamb&eacute;m figura como obra que a representa como artista, numa pintura posterior sua o <i>No Atelier</i> de 1916.</p>     <p>Aquando da exposi&ccedil;&atilde;o p&oacute;stuma no Pal&aacute;cio de Cristal no Porto em 1936 um enorme relevo foi dado a esta pe&ccedil;a. Ela foi colocada no centro da parede principal, face &agrave; entrada do sal&atilde;o. Foi colocada num cavalete e n&atilde;o na parede como as outras e &agrave; sua frente exibiram-se os instrumentos de trabalho da pintora e um arranjo floral a seus p&eacute;s (<a href="#f4">Figura 4</a>). Esta foi a pintura escolhida para o folheto (<a href="#f5">Figura 5</a>). Nenhum deste relevo faria sentido se o mesmo celebrasse e/ou homenageasse experi&ecirc;ncias algo pueris de travestismo da artista. Seu sentido &eacute; muito mais s&eacute;rio e grave. N&atilde;o se trata de uma arlequinesca auto representa&ccedil;&atilde;o estranha e amb&iacute;gua (Dias, 2012), mas sim um aut&ecirc;ntico manifesto feminista. Uma den&uacute;ncia e cr&iacute;tica s&eacute;ria &agrave; misoginia da sociedade oitocentista. Um grito no sil&ecirc;ncio. O la&ccedil;o opressor &eacute; uma clara refer&ecirc;ncia &agrave;s vestes femininas de ent&atilde;o, com seus doentios espartilhos e incomodativas caudas de crinolina. Toda uma moda que sacrificava a sa&uacute;de, a liberdade de movimentos e o conforto em prol do decorativo. O la&ccedil;o surge nesta obra como s&iacute;mbolo das proibi&ccedil;&otilde;es familiares, sociais e pol&iacute;ticas que aprisionavam as mulheres no espa&ccedil;o dom&eacute;stico e as condenavam a um insano aborrecimento obrigando-as a insignificantes, invis&iacute;veis, repetitivas, solit&aacute;rias e infind&aacute;veis tarefas dom&eacute;sticas. A aparente "normalidade" do retrato ter&aacute; permitido que o seu conte&uacute;do escapasse &agrave; leitura dos homens de ent&atilde;o que naturalmente n&atilde;o esperariam mais do que "tontices" das mulheres, mas com certeza n&atilde;o ter&aacute; escapado &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o feminina. &Eacute; muito importante que n&atilde;o nos escape hoje e possamos ver para l&aacute; da ent&atilde;o necess&aacute;ria ambiguidade da obra porque esta &eacute; uma obra &iacute;mpar na cultura ocidental.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f4"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a02f4.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f5"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a02f5.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>O autorretrato do la&ccedil;o &eacute; indubitavelmente o retrato do feminismo oitocentista ao espelho. Uma den&uacute;ncia do sofrimento das mulheres oprimidas por uma organiza&ccedil;&atilde;o social patriarcal e mis&oacute;gina, uma den&uacute;ncia da falta de liberdade, uma den&uacute;ncia da opress&atilde;o de uma cultura asfixiante para as mulheres, sem direitos e sem voz. Que uma pioneira artista oitocentista tenha esta clarivid&ecirc;ncia e produza uma obra t&atilde;o claramente feminista &eacute; a todos os t&iacute;tulos admir&aacute;vel. S&oacute; um artista maior &eacute; capaz de tal aud&aacute;cia e originalidade cr&iacute;tica e criativa.</p>     <p>Outras obras de Aur&eacute;lia corroboram esta tomada de posi&ccedil;&atilde;o da artista. No <i>Autorretrato</i> do casaco vermelho (<a href="#f6">Figura 6</a>) realizado em Paris, mais uma vez, a artista nos surge espectral na frieza da composi&ccedil;&atilde;o geom&eacute;trica de uma simetria perfeita. Ela surge de olhos no vazio, face l&iacute;vida e macilenta como se sua possibilidade de exist&ecirc;ncia fosse amea&ccedil;ada. Este espectro veste agora um vibrante casaco vermelho, t&atilde;o inabitual na paleta da artista, que relega para as dolorosas hemoptises t&iacute;picas da tuberculose que pensamos ter acometido a artista em Paris (Pelayo, 2017).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f6"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a02f6.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Mais uma vez surge a gola asfixiante sendo plasticamente refor&ccedil;ada a sua estrutura por orlas que lhe d&atilde;o uma rigidez estrema, coroada por novo adorno: um camafeu dourado que faz do seu pesco&ccedil;o o ponto focal desta pintura.</p>     <p>No autorretrato como <i>Santo Ant&oacute;nio</i> (<a href="#f7">Figura 7</a>) Aur&eacute;lia n&atilde;o se inibe de usar os mesmos recursos do of&iacute;cio que os seus artistas contempor&acirc;neos que mudam o sexo do modelo usado para a pintura ou se usam a si pr&oacute;prios como Columbano e Carneiro (Pelayo, 2017).</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f7"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a02f7.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Na obra <i>Jezabel Devorada Pelos C&atilde;es Por Ordem De Jehu</i> (<a href="#f8">Figura 8</a>) a artista vai mais longe escolhendo representar a passagem mais mis&oacute;gina do Antigo Testamento. Na sua vers&atilde;o a cena &eacute; trazida para a contemporaneidade e Jezabelj&aacute; a perversa, rica e toda poderosa personagem b&iacute;blica mas sim uma inocente e indefesa mulher do povo que depois de assassinada ao ser atirada de uma janela &eacute; comida pelos c&atilde;es para que dela n&atilde;o haja mem&oacute;ria.</p>     <p>&nbsp;</p> <a name="f8"><img src="/img/revistas/est/v9n24/9n24a02f8.jpg"></a>     
<p>&nbsp;</p>     <p>Encenadora de apar&ecirc;ncias, Aur&eacute;lia coloca em pequenos detalhes todo um mundo de resson&acirc;ncias e profundas significa&ccedil;&otilde;es sob uma aparente normalidade. Aur&eacute;lia de Souza, at&eacute; hoje olhada como uma artista regional menor que embora competente, estava afastada das grandes quest&otilde;es do seu tempo pela condi&ccedil;&atilde;o feminina que limitaria o seu entendimento, revela-se afinal genial, repleta de modernidade, rebeldia, sofrimento e profundidade. A sua obra n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o est&aacute; desligada da sociedade oitocentista como nos d&aacute; uma espl&ecirc;ndida, para e cr&iacute;tica vis&atilde;o feminina sobre o s&eacute;culo dezanove. Estamos portanto perante uma obra cuja originalidade n&atilde;o se configura no quadro da decomposi&ccedil;&atilde;o formal abstratizante mas que frequentemente se afasta das normas e tend&ecirc;ncias trabalhando significa&ccedil;&otilde;es outras cujo sentidos em aberto est&atilde;o imbu&iacute;dos de uma avassaladora humanidade.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Referencias</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Dias, Fernando Rosa (2012) " A constru&ccedil;&atilde;o da arte moderna portuguesa em voz feminina." <i>Arte e G&eacute;nero &#8212; Mulheres e Cria&ccedil;&atilde;o Art&iacute;stica.</i> Faculdade de Belas Artes CIEBA: 68-90.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462395&pid=S1647-6158201800040000200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Freitas, Verlaine (2005). "Alteridade e transcend&ecirc;ncia: a dial&eacute;tica da arte moderna em Theodor Adorno". In: Duarte, R., Figueiredo, V., &amp; Kangussu, I. <i>Theoria aesthetica: Em comemora&ccedil;&atilde;o ao centen&aacute;rio de Theodor W. Adorno</i>. Porto Alegre: Escritos. p. 45-56.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462397&pid=S1647-6158201800040000200002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Nochlin, Linda (1971) "Why Have There Been No Great Women Artists?" <i>ARTnews</i>. January: 22-39, 67-71.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462399&pid=S1647-6158201800040000200003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Pelayo, Raquel (2017) "Aur&eacute;lia de Sousa: Pelo Brilho da Penumbra." <i>Revista Gama, Estudos Art&iacute;sticos.</i> ISSN 2182-8539 e-ISSN 2182-8725. Vol.5 (9):71-81.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462401&pid=S1647-6158201800040000200004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Silva, Raquel Henriques (1995) "Romantismo e pr&eacute;-naturalismo.<i>" Hist&oacute;ria da Arte Portuguesa &#8212; Do Barroco &agrave; Contemporaneidade</i>. ISBN 972-759-010-1.Vol. 3: 328-367.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462403&pid=S1647-6158201800040000200005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>Vicente, Ana &amp; Vicente, Filipa Lowndes. (2015) "Fora dos c&acirc;nones: mulheres artistas e escritoras no Portugal de princ&iacute;pios do s&eacute;culo XX". <i>Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher</i>. ISSN 0874-6885. N&ordm;33: 38-51.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462405&pid=S1647-6158201800040000200006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <!-- ref --><p>Vicente, Filipa Lowndes (2017) "Artes, a Ilus&atilde;o da Vanguarda" <i>XXI &#8212; Ter Opini&atilde;o,</i> Funda&ccedil;&atilde;o Francisco Manuel dos Santos. N&ordm; 8:.32-45.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1462407&pid=S1647-6158201800040000200007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Enviado a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a href="#topc0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="c0"></a>Correio eletr&oacute;nico: <a href="mailto:mpelayo@arq.up.pt">mpelayo@arq.up.pt</a> (Raquel Pelayo)</p>      ]]></body><back>
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